Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 27 de abril de 2010

Os transportes marítimos e fluviais no Porto 1

Estas notas sobre os transportes no rio Douro baseiam-se num conjunto de imagens procurando sobretudo referenciar os transportes e a navegação no rio Douro, nos finais do século XVIII até aos finais do século XIX, deixando (por agora) de lado muitos outros aspectos da cidade contidos nestas estampas.

Em 1963 quando se inaugurou a ponte da Arrábida, a Câmara Municipal do Porto publicou um álbum com 50 estampas, pertencentes ao património municipal, ao Museu Nacional de Soares dos Reis e a coleccionadores como António Russell de Sousa, Engenheiro António Veiga de Faria, Tenente Pinto Soares, Dr. José Joaquim Pereira de Lima, Engenheiro Avelino Joaquim Monteiro de Andrade e Dr. António Cruz. A publicação abria com um prólogo do Professor Doutor Damião Peres, a selecção e os comentários das estampas devia-se a Monteiro de Andrade e António Cruz, sendo o pintor Carlos Carneiro responsável pela ordenação gráfica da capa e do texto. Este álbum produzido na Litografia Nacional do Porto foi reeditado em 1983.
Na mesma ocasião realizou-se na Casa do Infante, onde então estava instalado o Gabinete de História da Cidade, uma Exposição Documental com o título “O RIO E O MAR NA VIDA DA CIDADE”, acompanhada por diversas conferências e de que resultou uma outra publicação da CMP, com o mesmo título e inserida na colecção Documentos e Memórias para a História da Cidade do Porto – XXXVII.
Sobre algumas destas estampas, em 1981, debruçou-se Xavier Coutinho, num artigo intitulado “Subsídios para o Estudo da Iconografia e Urbanismo da Cidade do Porto” publicado na Revista de História, n.º 4, 1981, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
E ainda sobre algumas destas estampas o professor arquitecto Octávio Lixa Filgueiras, que se foi especializando na história e concepção das embarcações em Portugal, realizou em 1983 nas Jornadas de História Local e Regional de Vila Nova de Gaia uma intervenção com o título “Algumas Cenas e Cenários Ribeirinhos de Vila Nova de Gaia em Gravuras dos Séculos XVII a XIX”, publicada em 1984 pelo Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia. A preocupação de O.L. Filgueiras era a cidade de Gaia, mas a sua especialização traz preciosas referências às embarcações e às actividades no rio Douro.

A navegação no rio Douro, quer na sua vertente de navegação de transporte fluvial, de atravessamento do rio e de pesca, quer na sua vertente de porto marítimo, tem origens remotas. De facto, a cidade do Porto tem origem no cruzamento entre a estrada romana de Lisboa a Braga com a estrada fluvial que constitui o rio Douro.
No entanto só na baixa Idade Média, com o desenvolvimento da navegação e das embarcações que permitiam viagens de longo curso, a utilização do Douro como porto comercial das principais rotas marítimas e como local de construção e reparação de navios irão dar à cidade, sobretudo a partir do século XV, um impulso decisivo na sua conformação e desenvolvimento, tornando-a a segunda cidade do reino.

Por isso, as primeiras representações gráficas do Porto referem-se à costa marítima de Portugal, à barra do Douro e à sua (difícil) entrada e navegabilidade.


1. O século XVI e XVII – as primeiras representações gráficas do Porto

A Carta de Lucas Waghenaer - 1583

Lucas Janszoon Waghenaer (1533/34- 1606) publica em Leyden em 1584, a sua obra “Spieghel Der Zeevaerdt” (Espelho de marinheiro), um atlas de cartas náuticas acompanhado de um manual de instruções de navegação.
As cartas são suficientemente grandes para mostrar pormenores perigosos para a navegação, rochedos, baixios e outros obstáculos, bem como ajudas à navegação, como rosas-dos–ventos, bóias, balizas e fundeadouros.
Waghe­naer desenha em primeiro lugar uma carta do Noroeste da Europa, de onde decorrem cartas da Holanda (2), da França (7) e de Espanha e Portugal (9) com maior detalhe. Não se pode esquecer que estas cartas foram realizadas durante o domínio espanhol, sendo que a fragilidade das possessões portuguesas despertava a cobiça de outras nações e em particular dos Holandeses (veja-se a cartografia holandesa do Brasil neste período).
Mais tarde, Waghenaer acrescentou a este conjunto mais 22 cartas, esten­dendo o atlas para norte da Holanda e incluindo o mar do Norte, o mar da Noruega e o mar Báltico.
No verso de cada carta eram apresentados comentários e instruções náuticas.
Em 1592, Waghenaer publicou um segundo livro para pilotos in­titulado Thresoor der Zeevaerdt (Tratado sobre a Arte de Navegar).
Spieghel der zeevaerdt (espelho de marinheiro) 1584 e a versão inglesa The Mariner's Mirrour 1588

Na folha de rosto do Spieghel diversos instrumentos de navegação: o quadrante, o astrolábio náutico e a balestilha, bem como compassos, sondas e ampulhetas, enquadrando uma embarcação holandesa.



No conjunto das cartas de Espanha e Portugal apresenta uma carta, datada de 1583 que abrange parte da costa norte de Portugal, com os principais rios, Lima, Ave, Douro e Vouga, incluindo as suas embocaduras.
O rio Douro é representado desde a Foz até à cidade do Porto.
Carta, datada de 1583, que abrange parte da costa de Portugal, inserida por Lucas Waghenaer (1533/34- 1606) na sua obra Spieghel der zeevaerdt (espelho de marinheiro) 1584

Nas representações cartográficas de Lucas Waghenaer, todas desenhadas na mesma escala e com a mesma simbologia, é notória a importância atribuída às povoações de vocação marítima, quer pelo modo como são representadas as embocaduras dos rios, quer pelo pormenor com que são desenhados os edifícios e os povoados com importância para a navegação marítima e fluvial.
Na carta que se refere ao norte de Portugal estão assim representadas Viana, Vila do Conde, Porto e Aveiro.
Também são apresentados, em separado, perfis das costas como se fossem vistas do mar e ao longo da costa.
Ao longo do leito dos rios são apontadas as profundidades com valores em braças, bem como são claramente indicados obstáculos como bancos de areia ou rochedos.
Para além da sua utilidade náutica, os mapas alcançaram grande notoriedade pela sua beleza acentuada pela introdução de brasões de armas, rosas-dos-ventos compassos, navios e animais marinhos.
Estas cartas marítimas eram elaboradas sobretudo com objectivos militares e com a finalidade de indicar a navegação da entrada da barra e desta até ao porto da cidade.
Na carta estão representadas duas naus com todo o pano içado, uma que se aproxima da costa portuguesa fazendo fogo, e outra no sentido contrário. No centro uma rosa-dos-ventos de 16 pontas embora em algumas cartas a rosa-dos-ventos seja apresentada com os 32 pontos do horizonte.


No Douro, a difícil entrada da barra e a navegação ao longo do rio, fazia-se traçando linhas de rumo que tinham como referência algumas construções nas duas margens do Douro (landmarks) como o farol do Anjo, a capela de Santa Catarina, a torre da Marca, na margem norte e o convento de Santo António de Vale de Piedade e o convento da Serra do Pilar na margem sul.



Na representação da cidade do Porto e da foz do Douro são assinaladas na margem norte
· Port de Port (Porto)
· Port de Marzegaiy (porto e praia de Miragaia)
· Muisstrol. (Massarelos)
· Aleixo (Aleixo) (curiosa referência ao Aleixo!)· S. Juan de Foz (S. João da Foz)
· Metellin (Matosinhos)
Na margem sul
· Closster (convento de S. Salvador da Serra na Serra do Pilar)
· Ville noua (Vila Nova)
· Grege (convento de Santo António de Vale da Piedade)
· S: Catelina (?)
Mostrando a funcionalidade da Carta estão nela assinalados os pontos de referência para a entrada e navegação na difícil barra do Douro.

Nesta como nas cartas seguintes repare-se na representação cuidada dos rochedos Leixões e da enseada na foz do Leça.

2 comentários:

  1. Caro Professor:

    Num texto sobre os acontecimentos no Porto na época das invasões francesas aparece uma menção à "ponte da alfândega". Sabe-me dizer se esta ponte é a mesma que ficou mais conhecida como "ponte das barcas"?
    Desde já lhe agradeço pela resposta e pelas informações que disponibiliza no seu blog.

    Cumprimentos

    ResponderEliminar
  2. Devo rectificar que são dois os textos que fazem tal menção.

    ResponderEliminar