Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 28 de abril de 2010

Os transportes marítimos e fluviais 2

O Douro nas imagens do século XVIII

Nos meados do século XVIII os Galeões são substituídos por novos navios melhor adaptados à navegação transoceânica, ao transporte de mercadorias e aos combates navais. As velas triangulares substituem as velas redondas permitindo uma melhor navegação à bolina.
Aparecem também navios mais ligeiros e por isso mais manobráveis e mais rápidos como as fragatas, as corvetas, e as fluyts.
O comércio do Vinho do Porto

Data de 1678 a primeira exportação de vinhos para Inglaterra, registada na Alfândega do Porto.
Com o Tratado de Methwen de 1703, a exportação do Vinho do Porto regulariza-se e, sobretudo, a partir de 1718 é sensível o aumento dessa exportação.
Em 1756, o Marquês de Pombal cria, por Alvará Régio, a Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro, com a qual pretendia não só desenvolver a produção do Vinho do Porto, (a duração da Companhia era fixada em 20 anos. O seu capital de um milhão e duzentos mil cruzados) como defender a sua qualidade, e aumentar (aliás com sucesso) a sua exportação:

"...huma Companhia que, sustentando a cultura das vinhas, conserve a produção dellas na sua pureza natural, em benefício da lavoura, do commercio, e da saude pública...".
…”Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro, que é sem exageração, a base principal do comércio desta cidade, um dos maiores e mais fecundos ramos que o promove, e a grande alma que o anima, assim como na indústria como nos interesses gerais.”
in “Descripção topográfica, e histórica da Cidade do Porto” do P. Agostinho Rebelo da Costa

Para a execução destas políticas foi então demarcada a região da cultura do vinho do Porto, e entre as regalias da Companhia figurava o monopólio da exportação dos vinhos, aguardentes e vinagres, e o da venda de vinho na cidade do Porto e arredores.
Para além do desenvolvimento do comércio externo da cidade a navegação fluvial vai ter um forte incremento já que o vinho do Porto e outros produtos irão chegar ao Porto através do rio Douro.

1 - A gravura e a pintura de Duncalf 1736

Esta estampa terá resultado de uma pintura a óleo (1,55 m X 0,90) provavelmente também da autoria de H. Duncalf, que segundo Xavier Coutinho esteve no Museu N. Soares dos Reis e hoje está no Gabinete de História da Cidade.
Na Biblioteca Nacional Digital estão algumas reproduções de detalhes da pintura onde se pode notar que existem algumas diferenças em relação à gravura.

(DUNCALF, H., fl. 1736 - [Vista da cidade do Porto] [Visual gráfico : [detalhes]. - [S.l. : s.n., D.L. 2000]. - 6 rep. de obra de arte : color. ; 24x34 cm. - Autor artribuído (cf. Xavier Coutinho - Subsídios para o estudo da iconografia e urbanismo da cidade do Porto. Porto, 1982, p. 9, alínea b). - Reprodução de detalhes de pintura do século XVIII (1736?). - 1-O morro da Sé e o convento de São Francisco. - 2-O porto fluvial. - 3-O morro da Vitória. - 4-Uma tartana frente a Miragaia. - 5- A pesca ribeirinha. - 6- A faina comercial, em Vila Nova de Gaia - CDU 908(469.121)Porto"17"(084.1) BND).

Legenda
1 Os frades de S. Bento
2 A Igreja da Vittória
3 Os Agostinhos
4 Os Congregados
5 S. Domingos
6 S. Francisco
7 A Igreja da Sé
8 O Paço do Bispo
9 Os padres da Companhia
10 A Igreja de S. Nicolau


No rio ao fundo, vê-se o castelo de popa de fragatas de comércio com bandeira inglesa e próprias para a navegação de longo curso.


Detalhe da gravura

detalhe da pintura, nesta é reduzido o número de embarcações e uma delas está fundeada noutra direcção

A fragata
As fragatas, no século XVIII eram navios com três mastros de velas redondas, que quando armados possuíam uma única bateria coberta de canhões.

John Cleveley, the Younger 1747-1786 Launch of the HMS Alexander at Deptford in 1778 Óleo s/ tela 418 x 673 mm. National Maritime Museum, Greenwich, London.


Willem van de Velde the Younger (1633-1707) An English Sixth-Rate Ship Firing a Salute As a Barge Leaves; A Royal Yacht Nearby 1707 Óleo s/ tela 41,9 x 36,8 cm National Maritime Museum, Greenwich, London

Nestes quadros estão representadas fragatas vistas pela popa e semelhantes às representadas na gravura de Duncalf.

No rio pequenos barcos típicos do Douro.
Um transportando passageiros junto de uma pequena embarcação puxando a rede de pesca.
na gravura
 

na pintura
Segundo Octávio Lixa Filgueiras:
“Tudo parece indicar que a pequena embarcação de cabotagem situada logo à esquerda, trazendo a reboque o seu barco de ser­viço, ambos de feição caracteristicamente mediterrânica, possa classificar-se como uma tartana; vem subindo o rio, à voga, já com a vela de estai recolhida e o grande pano latino, armado no mastro inclinado par a proa, quase todo ferrado pelo marujo que marinhou verga acima, segundo a manobra usual; o arrais vai a dirigir, sem descuidar do personagem vestido de modo diferente dos tripulantes, o qual se mostra interessado nos fardos pousados sobre o convés enquanto o seu interlocutor pon­tua a fala com gestos largos;”…(FILGUEIRAS, O. L. – Algumas Cenas e Cenários Ribeirinhos de Vila Nova de Gaia em Gravuras dos Séculos XVII a XIX – Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia – 1984)


Tartana = Pequena embarcação mediterrânea, que possuía um só mastro, vela latina e gurupés.

na gravura
No meio do rio de velas enfunadas dois barcos à vela: o maior, que ainda segundo Filgueiras é um rabão branco “…apresenta armação completa, minuciosamente desenhada (incluindo o pano redondo, o estaio, os ougues, os braços, as escotas); por detrás “…um valboeiro com a sua vela de espicha, distingue-se o tripulante (único) a governar com o remo, em vez de espadela.”(FILGUEIRAS, O. L. – Algumas Cenas e Cenários Ribeirinhos…)Na pintura não aparece o valboeiro.


na pintura

Junto à Porta Nova estão dois valboeiros.
Segundo Filgueiras o barco “…que vem a descer cerca do bastião da Porta Nova, com um único tripulante, lembra os actuais rabões brancos (observe-se o bico da proa e a posição do mastro), apesar da existência do pequeno estrado para a manobra da espadela.”(FILGUEIRAS, O. L. – Algumas Cenas e Cenários Ribeirinhos…)

os barcos do Douro


Imagens do Portugal Illustrated Letters London, 1829 do rev. William Morgan Kinsey (1788-1851)
O rabelo
O barco rabelo barco típico do transporte do vinho do Porto no rio Douro passou a ter a sua identidade bem definida, a partir de 1792, quando da publicação do alvará da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro.
Era um barco de fundo chato e um mastro onde se içava uma grande vela quadrangular e que o arrais, na apegada, espécie de plataforma com dois metros de altura que lhe proporcionava uma perfeita visão sobre a carga conduzia com um enorme e pesado remo, a espadela. Ao longo da navegação, feita com a corrente ou à vela, por vezes era necessário ser puxado à sirga. os tripulantes do barco com uma buzina ou um corno, chamavam os lavradores que com bois puxavam o barco. O barco rabelo foi adquirindo variantes para o transporte de variadas mercadorias e adquirindo o nome de rabão ou de pesca saveiro e de passagem valboeiro.
O rabão
O rabão “…designação esta que é similar à do rabelo e que tem a mesma origem.
O rabão é o rabelo, mas tem como nota característica principal a falta das apegadas. A espadela é mais curva, de molde a poder ser governada do ensaio.
Tem características secundárias, as quais, por sua vez, identificam quatro tipos de rabões, que se destinam a funções diversas.
Por vezes trocam a vela usada no rabelo, pela vela do saveiro, mas em duplicado. A estas chamam portas ou azas.
E, quando assim aparecem, têm o nome de barcos de rio abaixo.
No resto é igual ao rabelo.”
tipos de rabão :
“I — Exactamente igual ao rabelo, mas sem apegadas, falta esta que é a sua característica principal. É usado para o transporte de carga diversa.
II — Tem a proa igual à do saveiro e não tem coqueiro; é empregado no transporte de estrumes.
III — Igual ao tipo N.° I, mas sem coqueiro. Utili­zado no transporte da carqueja.
IV — Igual ao tipo N.° I, mas com o coqueiro mais baixo. Tem seu emprego no transporte do carvão.”
(MATOS, Armando – o Barco rabelo, ed. da Junta Provincial do Douro Litoral, Porto 1940)Este tipo IV aparece nos finais do século XIX e inícios do século XX com o nome de rabão negro, transportando carvão das minas de S. Pedro da Cova.
(FILGUEIRAS, O. L. – “Rabões da Esquadra Negra”- separata de O PEJÃO 1956)

foto Beleza
 
foto Beleza
 



O Valboeiro com ou sem toldo, servia de barca de pas­sagem e era governado através da pá. Funcionava como barco de pesca do sável tomando também o nome de saveiro, como barco de carga das padeiras de Avintes e como barco de passeio.
A sua utilização como barco de ligação entre as margens foi desaparecendo ao longo do século XIX com a construção das pontes, mas foi ganhando importância a sua função de passeio, as célebres fúrias do rio que já se praticavam desde o século XVIII.
A imagem mais conhecida de um valboeiro de passeio é o quadro “No Areínho” de Silva Porto de 1880.
Uma figura feminina faz-se transportar num destes barcos com toldo e sem vela conduzida por uma barqueira, na zona do rio Douro em frente da quinta da China. Ao fundo outros valboeiros atracados.


António Carvalho da Silva Porto (1850 – 1893) No Areínho 1880. óleo sobre madeira 37,4 × 56 cm Museu Nacional de Soares dos Reis

«... as barqueiras de Avintes, que fariam o en­canto e a admiração do Tamisa, regalando n'elle como no rio Douro, e remando em pé com os seus longos re­mos, semelhantes aos das gôndolas venezianas, tão pezados, tão difficeis de manobrar!»
Ramalho Ortigão - Jonh Bull 1887

Alberto Marçal Brandão (1848-1919), grupo junto ao rio Douro gelatino-brometo, s/d. AMB31, AFP/CPF/MC In o Porto e os seus Fotógrafos, coord. Siza Teresa, Porto 2001, Porto Editora 2001.

postal do Araínho com a pesca do sável.


saveiros ou valboeiros no cais de Gaia
Francis Frith (1822-1898) & Co. Photograph of Oporto accross the river with boats and jetty in the foreground. Mounted on brown board. 1860/70 - Albumina 15,9 x 21 cm. David Balsells etc al. Napper I Frith. Un viatge fotogràfic per la Ibéria del segle XIX with an essay by Martin Barnes. Barcelona, Museu Nacional d'Art de Catalunya, 2007.

"Um barco ligeiro e coberto de toldo conduziu-nos em pouco tempo por entre navios e numerosos botes por entre o cais mal construído, mas animado e cheio de mercadorias, até São João da Foz, onde costu­mam residir durante a estação calmosa os mais abastados habitantes do Porto. Alguns brigues mercantes ingleses, ligeiros e elegantes como navios de guerra, estavam ancorados muito peno da cidade; entre eles flutuava como um pato entre os cisnes uma ampla e pesada galeota holandesa; seguiam-se navios ameri­canos e, finalmente, a grande distância, no lugar em que o Douro, na sua maior largura, vai reunir-se ao oceano, alguns navios mercantes portugueses que navegam para o Brasil, comparáveis a naus pela sua corpulência."
Príncipe Felix Lichnowsky - Portugal, Recordações do ano de 1842
«... as barqueiras de Avintes, que fariam o en­canto e a admiração do Tamisa, regalando n'elle como no rio Douro, e remando em pé com os seus longos re­mos, semelhantes aos das gôndolas venezianas, tão pezados, tão difficeis de manobrar!»
Ramalho Ortigão - Jonh Bull 1887

“Desciam a rampa, que antecede o portão, alguns bandos de gente do povo, rindo, cantando, em plena festa; iam em direcção ao rio. As barqueiras de Avintes aproximavam os barcos da margem para os receber; outras, ainda a grande distancia, chamavam, com toda a força d'aquelles pulmões robustos, as pessoas que vinham por terra. Cruzavam-se os barcos, movidos pelos vigorosos braços d'estas engraçadas e joviaes remeiras, e carregados com os frequentadores das diversões campestres do Areinho e da pesca do savel. Tudo era riso e cantigas no rio.”
Júlio Diniz (1839-1871) – Uma Família Inglesa - 1868


Na margem sul e no primeiro plano diversas personagens dedicam-se às actividades do rio: do lado esquerdo da imagem pescadores lançando uma rede sob o olhar atento de uma personagem de casaca, dois frades e um serviçal com uma cesta.

na gravura


na pintura

Ao centro e à direita diversas personagens ligadas ao comércio do vinho como carregadores, tanoeiros e comerciantes.
Primeiro um “…escaler dum navio carrega pipas; a operação, dirigida por um encarregado, processa-se como ainda se pode observar nos costumes do rio (observe-se que não esqueceu o pormenor das duas pranchas de carga); “.(FILGUEIRAS, O. L. – Algumas Cenas e Cenários Ribeirinhos de Vila Nova de Gaia em Gravuras dos Séculos XVII a XIX – Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia – 1984)

“…depois vêm os tanoeiros, o que está a atacar os arcos (de madeira) com o maço do ofício, o mestre recostado a uma pipa ao alto, tendo aos pés um garrafão para a pinga dos seus homens, e o oficial que, ao lado, monta as aduelas, conformando um novo casco (as pipas encontram-se, também, desenhadas a preceito, sem faltar, sequer, o pormenor das travessas de reforço dos tampos)…” “.(FILGUEIRAS, O. L. – Algumas Cenas e Cenários Ribeirinhos…)
 


“…as gentes do escaler, que se dirige a terra, para meter carga, são interpeladas por um homem que na praia ergue os braços, à esquerda do qual, no pequeno grupo de pessoas junto de duas pipas, e do fardo (ou caixa?), avantaja-se aos carrega­dores o encarregado, que consulta uma lista;” (FILGUEIRAS, O. L. – Algumas Cenas e Cenários Ribeirinhos…)


Repare-se que na pintura este grupo é representado de uma forma diversa já que enquanto o tanoeiro está numa posição semelhante, há uma personagem que se explica ao fidalgo sentado; o encarregado está sentado por detrás escrevendo e outras duas personagens conversam, uma delas apoiada numa pipa.


“…à direita, três personagens de qualidade social conversam entre si, à frente de mais fardos, enquanto na extrema, um clérigo corresponde à reverência de outro «fidalgo»;” (FILGUEIRAS, O. L. – Algumas Cenas e Cenários Ribeirinhos…)

























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