Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 29 de abril de 2010

Os transportes marítimos e fluviais 6

O século XIX

O século XIX inicia-se com a construção da Ponte das Barcas e com as invasões francesas.

Depois das imagens sobre o Desastre da Ponte das Barcas na segunda Invasão Francesa de 1809, que no que se refere à navegação no Douro apenas apontam a utilização dos barcos tradicionais como transporte de militares e de populações.

A segunda invasão francesa 1809
Em 1809, as tropas francesas comandadas por Soult entram por Chaves, e avançam para o Porto.
Em 29 de Março de 1809, entram no Porto, onde se instala um pânico generalizado.


Bataille d'Oporto remportée par le maréchal Soult sur l'armée portugaise retranchée en avant de la ville le 29 mars 1809 . L'attaque générale à 8 heures du matin. Les divisions Merle et Laborde enlèvent les redoutes de Cabelo et forcent le centre de la position ; l'armée française se rend maîtresse de la première ligne des retranchements ; le maréchal s'empare des redoutes de dona Maria et pènètre dans Oporto. Jung Théodore (1803-1865) Aquarelle 1.160 x 2.100 m. châteaux de Versailles et de Trianon.

Bataille d'Oporto remportée par le maréchal Soult sur l'armée portugaise retranchée en avant de la ville le 29 mars 1809 . La fin de la bataille à 3 heures du soir. Le combat à l'entrée de la ville et fuite de la cavalerie portugaise traversant le pont sur le Douro
Jung Théodore (1803-1865) - Aquarelle 1.160 x 2.100 m. - châteaux de Versailles et de Trianon Versailles.



detalhe da imagem anterior - a margem do Porto.


detalhe da imagem anterior - a margem de Gaia.
Convergindo na Ribeira, os portuenses tentam atravessar a ponte das Barcas e dá-se o conhecido desastre.
Segue-se um verdadeiro saque da cidade.


A população do Porto fugindo do exército de Soult em 1809. Pintura existente na igreja de S. José das Taipas.


Detalhe do quadro na igreja de S. José das Taipas.

“…Assim aconteceu. Os habitantes da cidade, dementados pelo pavor, correram á ponte, como estrada de salvação que a todos primeiro lembrava. Ao chegar junto d'ella, aquillo era uma massa compacta e apertadíssima, onde mal se podia res­pirar—e aquella massa compacta lançou-se por ella fora cada vez mais apertada, cada vez mais com­primida e cada vez mais allucinada, voando, não correndo, impellida pelo terror.
Ao chegar a meio da ponte estacou um mo­mento. Ouviu-se então aquelle grito pavoroso, medonho, que fizera parar Luiz Vasques e o sargen­to. E' que diante d’aquella massa tão compacta, tão comprimida e tão ferozmente empurrada para a frente estava um abysmo, estava aquelle terrí­vel boqueirão, que a estupidez deixara apoz de si ao fugir. Ás primeiras dezenas de pessoas sumi­ram-se de repente na voragem, sem terem tempo se­quer de fazer um esforço para estacar, sem terem tempo para mais que para soltar aquelle brado pa­voroso de medonha agonia, aquelle grito de alarme contra a morte que de súbito e como que á traição se lhe abria debaixo dos pés. Aquelle grito communicou com a rapidez da electricidade o instincto da repulsão áquella massa immensa de gente. E este instíncto que, nos mais dianteiros, se mani­festou apenas por um movimento de retrocesso quasi que imperceptível, augmentou de intensida­de medida que se foi estendendo para traz, ao lon­go d'aquella immensa mole humana. Todos pre­tenderam estacar, firmar-se, não ir mais avante; mas a força da impulsão, que lhes communicavam os que vinham detraz, era mais forte do que a da repulsão da agonia dos que viam aos pés o abysmo; e centenas e centenas de pessoas con­tinuaram a somir-se por aquelle medonho bo­queirão. Era um só brado de desespero o ala­rido, era como um grito de um gigante sobre um potro. Por fim as forças dos que resistiam, poderam quasi equilibrar-se com as dos que empurravam para a frente. O numero dos que se somiam pelo boqueirão abaixo, começou a ir a menos, a me­nos, a menos; mas a immensa mole, comprimida nas duas extremidades, começou a alargar no cen­tro, a alargar, a alargar sobre as guardas da pon­te. Ao cabo estas não poderam dilatar-se mais; estoiraram, e por aquelles dous enormes rombos lufaram immediatamente, umas apoz outras, cen­tenares e centenares de pessoas.
Era horrível aquelle espectáculo. O boqueirão, a que serviam de paredes duas das barcas, em que assentava a ponte, chegou a entulhar-se; e por um momento, por sobre aquelle pavimento de homens, a multidão arremessou dezenas de pessoas para o outro lado do abysmo. No rio, junto da pon­te, viam-se milhares de desgraçados, aferrados uns aos outros, rebulcando-se á tona d agua, ora uns ora outros, apparecendo e desapparecendo, e depois destacando-se lentamente d'ali e desusando em fieira, a debater-se sempre, pela corrente do rio abaixo. Mais além já eram cadáveres agarra­dos violentamente uns aos outros, e tão unidos que boiavam á tona d'agua; e só longe, mais ao lon­ge, é que aquella medonha pavezada se ia des­fazendo pouco a pouco, pedaço a pedaço, até que de todo se mergulhava e somia.
O alarido dos que d'aquella sorte se achavam subitamente em frente da morte, e o dos que de ter­ra presenciavam esta immensa desgraça,com a mor­te também a poucos passos de distancia, porque os francezes desciam pela rua de S. João abaixo, lançando de si um chuveiro de balas, era medo­nho, tremendo, indizível. Os cataclysmos, que sor­vem as naçoens, representam-se em campo mais vas­to, mas não são nem mais horrendos, nem mais pavorosos. N'aquella meia dúzia de palmos de ter­ra, n'aquella estreita fita de madeira que se esten­dia sobre o Douro, representou-se n'aquelle dia uma scena, que compendiou em breve resumo tudo quan­to a agonia e o pavor tem de mais perfeito de mais horroroso….”

Arnaldo Gama (1828-1869) – O Sargento-Mor de Villar, Episódios da Invasão dos Francezes – Porto 1863


“Alminhas da Ponte” 1897. Baixo relevo de Teixeira Lopes pai. Original e cópia colocada no cais da Ribeira.
Soult instala-se no palácio dos Carrancas (o Palácio dos Carrancas passa a palácio real em 1861, por aquisição de D. Pedro V) e tenta ainda conquistar a simpatia dos portuenses com medidas de restabelecimento da ordem e proibindo os excessos.
No entanto as tropas inglesas, comandadas por Wellesley em Maio, já ocupavam Gaia, e os franceses são obrigados a abandonar o Porto.


PASSAGE OF THE DOURO, by the division under the Command of L.t Gen.l the Hon.ble Edward Paget. To L.t Gen.l the Hon.ble Edward Paget this plate respectfully inscribed by his most obedient humble Servent H. L'Evêqne. London; Pub.d April 2.1812, for the Proprietors by Mess.s Colnaghi & Co. Cockspur Street.

A gravura documenta a passagem do rio Douro pelas tropas do exército anglo-luso sob o comando de Wellesley (Duque de Wellington) no dia 12 de Maio de 1809.
Vê-se o Seminário Velho e o Prado do Bispo.
 

PASSAGE OF THE DOURO, by the Division under the Command of L.t Gen.l Sir John Murray:To L.t General Sir John Murray., this Plate is respectfully inscribed., by his most obedient humble Servant, H. L'Evêque. London: Pub.d April 2.1812 for the Proprietors by Mes.s Colnaghi & Co. 23, Cockspur Street.

O quadro mostra o embarque e travessia do rio em direcção ao Freixo vendo-se o palácio.
Encarregado de restabelecer a organização da cidade fica no Porto o general Nicolau Trant - a quem é dedicada a Planta Redonda - enquanto Wellesley persegue os franceses até à fronteira.
Existem duas alegorias relativas aos acontecimentos de 29 de Março e 12 de Maio de 1809, José Teixeira Barreto gravada por Raimundo Joaquim da Costa.

Dedicado ao Ilmo. e Exmo. Senhor NICOLAO TRANT Governador da Cidade do Porto e Commandante da guarnição da mesma.
A Cidade do Porto, pobremente vestida e consternada entre cadêas, recusa aceitar a mortifera bandeira que a França lhe intenta fazer tomar, privando-a cruelmente das suas antigas Armas, e das do seu Reino.
O Douro esconde a face, horrorizado ao ver as suas margens juncadas de cadáveres.
Em distancia se vê parte da ponte coberta de povo que fugindo a tantos males vem a ser victima dos bárbaros Francezes.
O Signo que no Ceo apparece denota a época desta catástrofe (29 de Março 1809)



Dedicada ao Ilmo. e Exmo. Senhor NICOLAO TRANT Governador da Cidade do Porto e Commandante da guarnição da mesma.
A Cidade do Porto, d'entre as suas ruínas, he levantada pela Inglaterra e Lusitânia, dando-lhe aquella as suas antigas Armas, e mostrando-lhe esta o victorioso Exercito Britânico que, acompanhado da Victoria vem a resgatá-la.
O Douro, mudando o pranto em gosto, se admira e pasma.
Ao longe se vê o fogo com que os inglezes, batendo os Francezes rapidam.te passão o rio; ao mesmo tempo que os habitantes exultando sahem a recebe-los.
O signo celeste mostra a época deste feliz sucesso.(12 de Maio 1809)


Após as invasões francesas, a navegação no Douro e em particular a entrada da barra está estabilizada na marcação dos principais pontos de referência, como se pode observar na planta da Barra do Porto de Marino Miguel Franzini Major do Real Corpo de Engenheiros.

Marino Miguel Franzini (1779-1861), foi conselheiro de D. João VI, brigadeiro da Marinha Real, director do Arquivo Militar , inspector da Cordoaria Nacional, deputado à Assembleia Constituinte de 1821, par do reino, ministro de Estado em 1847, vogal do Supremo Conselho de Justiça Militar, sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa. Na marinha levantou diversas cartas hidrográficas e em 1813 publicou uma carta marítima da costa de Portugal, acompanhada dum roteiro circunstanciado. Publicou ainda diversas obras, políticas e científicas.

FRANZINI, Marino Miguel, 1779-1861Carta geral que comprehende os planos das principaes barras da costa de Portugal a qual se refere a carta reduzida da mesma costa 1811. imp. em papel, color ; 74x55 cm http://purl.pt/4500 esta planta compreende as Plantas da Bahia de Lagos, da Barra de Vª Nª de Portimão, da Península de Peniche e Ilha Berlengas, da Barra da Figueira, da Barra de Setúbal , da Nova Barra de Aveiro, os Leichões e costa adjacente, da Concha de S. Martinho, da Barra do Porto, huma parte do Rio Tejo e a Barra de Lisboa.

O desenvolvimento do comércio e as lutas decorrentes das invasões iram provocam um renovado interesse pelo papel estratégico do rio Douro e da cidade do Porto.
A Guerra Peninsular no Porto, conduziu ao aparecimento em 1813 da primeira carta da cidade - a Planta Redonda – de Georges Balck e significativamente dedicada ao Brigadeiro Nicolau Trant.

Sir Nicolau Trant, General inglês em Portugal durante a Guerra Peninsular. Em 1808, comandou as forças portuguesas que acompanharam Wellesley na sua marcha para o Sul do reino. Tomou parte na batalha do Vimeiro contra as tropas de Junot. Em 1809 é Governador da cidade de Coimbra sendo ele que avançou ai encontro das tropas então comandadas por Soult impedindo a passagem do Vouga.
Acompanhou Wellesley e Beresford na entrada no Porto, sendo depois até 1814 encarregado do Governo.
da cidade, tendo morrido por volta de 1825 no Brasil.

 
A "Planta Redonda"
 

CIDADE DO PORTO/ Dedicado ao Illm°. Exmo. Senr. Brigadeiro Genl. Sir Nicolao Trant/ Comendador da Ordem da Torre e Espada Encarregado do Governo das Armas do Partido do Porto/ pelo George Balck/ Assistente do Quartel Mestre General/ do Exercito Britanico. "Neele st. 352 Strand. London" Impr., a preto, em papel. 528 x 484 mm. Esc. gráf. de 400 braças = 121 mm.
Em legenda, são designados os edifícios públicos, largos e praças por números romanos; conventos, colégios e igrejas por letras; e as ruas e travessas por algarismos árabes. Está representada a ponte das barcas.
Do início do século XIX temos um conjunto de imagens com a ponte das Barcas (já reconstruída), na maioria de autores ingleses e imbuídas de ambientes românticos, próprios da época. Quase todas são vistas do Douro e das suas actividades.

A gravura de Henry Smith 1813
 

OPORTO, WITH THE BRIDGE OF BOATS.
To the most Noble the Marquis Wellesley K. G. &c &c &c.
This view of Oporto, upon its evacuation by Marshal Soult, before Marquis Wellington, in the campaign of 1809.
Is, with permission, respectfully dedicated by his Lordship's most obedient humble servant, Robert Daubeny King, late Lieu.t Royal Fusilers. Henry Smith Esq. dei. M. Dubourg sculpt. London: Sold July 1. 1813, by Edwd. Orme. Bond St.t comer of Brook Str.t.

Existe no Museu Nacional de Soares dos Reis uma pintura de Henry Smith com pequenas variantes mas no essencial, semelhante à estampa.
 
A gravura (água-tinta) de Smith data do mesmo ano da Planta Redonda e assinala, na sua dedicatória ao futuro Duque de Wellington, a vitória das tropas anglo portuguesas sobre as tropas napoleónicas.
A gravura mostra as duas colinas nas margens do Douro, encimada a do lado de Gaia o convento da Serra do Pilar, e a do lado do Porto pela Muralha. Ao fundo e ao centro por cima da ponte das barcas o Seminário.

Na pintura e na gravura distingue-se sobre o muro da Ribeira a Capela de Nossa Senhora da Piedade, capela da Piedade do Terreiro, da Piedade do Cais ou simplesmente, da Senhora do Cais e cujo culto sempre atraiu as gentes ribeirinhas, em particular os mareantes e aqueles que demandavam a Alfândega. Com a demolição da muralha e da porta da Ribeira a imagem da Senhora do Ó, foi transferida para o largo do Terreiro onde se encontra o actual edifício construído no Séc. XVII.


Fundeado junto à Porta da Ribeira na muralha, uma barca coberta de vela latina .



Um valboeiro transporta passageiros entre as duas margens, tendo ao fundo diversas barcas ancoradas de velas arreadas.



Mais atrás, junto da Ponte das Barcas, duas fragatas fundeadas. No primeiro plano um valboeiro com a vela arreada.



No rio e entre barcos a remos uma barca com a vela enfunada e um brigue fundeado no lado de Gaia.


 





















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