Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 30 de abril de 2010

Os transportes terrestres

No início do século XIX, quando os franceses invadem o norte do País, a Corte parte para o Brasil, Nicolas Delerive (1755-1818), pintor de ascendência espanhola mas nascido em França, pinta um célebre quadro “Embarque para o Brasil do príncipe regente D. João VI em 27 de Novembro 1807”.

Nicolas Delerive 1755-1818 - Embarque para o Brasil do príncipe regente D. João VI em 27 de Novembro 1807
Óleo s/ tela 62,5 x 87,8cm - Museu Nacional dos Coches
A pintura, tendo por fundo Lisboa e a torre de Belém mostra diversos tipos de transporte fluvial: um bote, um bergantim, uma fragata do Tejo e outras embarcações, e de transporte marítimo, ao fundo a esquadra formada por 8 naus, 3 fragatas, 3 brigues e 2 escunas, acompanhadas por uma escolta de 4 naus inglesas.
Mostra ainda um conjunto de meios de transporte terrestre: o coche, a liteira, o carro de bois, e o cavalo.




Os transportes rodoviários 1

A liteira

Tipo de transporte de dois lugares, sem rodas, puxado por duas mulas, foi dos finais século XVII até aos meados do século XIX, o principal meio de transporte terrestre e particular para viajar no território nacional.

Liteira do sec. XVIII Dim. cx. 379 x 160 x 165 cm Museu dos Coches



Representação de liteira de caixa fechada, atrelada a dois machos arreados à moda mediterrânica e conduzida por liteireiros, um dos quais a cavalo e o segundo a pé, munido de longa vara. A liteira, pintada de vermelho, tem tejadilho de couro com terminais decorativos. Dimensões 9,5 x 21,6 Museu Nacional dos Coches


Henry L'Êveque, Costume of Portugal, 1814
In Revista Municipal de Lisboa n.º 1, 1979

Senhora viajando de liteira - Aguarela do “Sketches of Portuguese Manners and Customs” 1836
In Revista Municipal de Lisboa n.º 1, 1979


imagens do Portugal Illustrated Letters London, 1829 do rev. William Morgan Kinsey (1788-1851)

Domingos Sequeira (1768 - 1837) - Liteira e muleteiro
Desenho 25x21 cm Museu Nacional dos Coches


Vários autores já no século XIX se referem às viagens de liteira:

Em 1864, Camilo Castelo Branco(1825-1890), publica em fascículos no “O Comércio do Porto”, a novela “Vinte Horas de Liteira”.
O escritor encontra numa estalagem no Marão o amigo António Joaquim que lhe oferece boleia para o Porto na sua liteira. Entre eles, e dada a duração da viagem, vão contando histórias até chegarem ao Porto passadas vinte horas!

“O progresso é uma voragem !
A liteira já se debate nas fauces do monstro. Vai cahir a fatal hora! D'aqui á pouco, a liteira desappareeerá da face da Europa.
O derradeiro refugio da anciã era Portugal. Nem aqui a deixaram n'este museu de antigualhas! Nem aqui! À pobresinha, a decrépita coberta do pó e suor de sete séculos, tirita estarrecida de pa­vor, escutando o hórrido fremir do wagon, que bate as crepitantes azas de infernal hippogrypho.
Ao passo que o vapor talava os plainos, gal­gava ella, espavorida, os desfiladeiros para escon­der-se. Mas o camartello e o rodo escalaram o agro e penhascoso das serras, e a liteira, acossada pelo Char-à-bancs, sumiu-se ainda nas veredas pedregosas, e acoutou-se á sombra do solar alcantilado e inaccessivel ao rodar da sege.
É ahi que a coeva do Portugal das chronicas se estorce e vasqueja no ultimo alento.
A terra de D. João I e Nuno Álvares agonisa com a liteira de João das Regras e Pedro Ossem!
Volvidos doze annos, a liteira de alquilaria será uma tradição, nem sequer perpetuada na gra­vura. No recanto de alguma cavallariça de palacete provincial, apodrecerão ainda as relíquias da liteira fidalga; mas esta não é a liteira posta em holocausto ao macadam, á diligencia, á mala-posta, e ao carril. A liteira sacrificada, a liteira dos dous machos pu­jantes e das ciocoenta campainhas estridulas, essa é a que se vai de uma assentada, desfeita á serra e enxó para remendos de ignóbeis carrinhos e carroçoes. Esta é que é a liteira das minhas saudades, porque se embalaram n'ella as minhas primeiras pe­regrinações ; porque, dos postigos de uma, vi eu, fora das cidades, os primeiros prados e bosques e serras empinadas; porque o tilintar das suas cam­painhas me alegrava o animo, quando a toada fes­tiva me interrompia as cogitações da tarde por es­sas estradas do Minho e Traz-os-montes; porque, finalmente, foi n'uma liteira, que eu encontrei o livro, que o leitor, com a sua paciente benevolência, vai folhear.
Ha poucos annos que eu jornadeava de VillaReal para o Porto, e cheguei, quebrado de corpo e alma, a uma póvoa escondida nos fraguedos do Marão, chamada Ovelhinha. O rocim, que me alli trouxera, ganhara pulmoeira na subida da serra, de maneira que, na assomada onde chamam “as ro­das», os bofes arquejavam-lhe com tal ímpeto, e encavernada tosse, que não ha ahi cousa triste que mais diga!
Quando desçavalguei, na Ovelhinha, devolvi o garrano ao proprietário, e procurei quem me alu­gasse cavalgadura, menos poitrinaria, até Amarante. Voltando á estalagem, achei uma liteira pa­rada, que chegara n'aquelle ponto. Perguntei ao liteireiro se ia de retorno. Respondeu-me que levava patrão. Contemplei a liteira com mágoa e inveja, principalmente, quando a eguasinha gallega, que eu ajustara, começou a espirrar uma tosse mais que muito significativa de pulmoeira e mormo real.
N'esta cogitação me surprehendeu o inquilino da invejada- locomotiva. O' raio de luz!.. ó bafa­gem de esperança que me vens perfumada do p-raizo terreal!.. Era o meu amigo António Joaquim I
— Tu aqui! ? — exclamou elle da janella da estalagem.
— Eu aqui... e tu?!
— Eu também aqui n'este orco, n'este vestibulo do inferno! Para onde vaes ?
— Para o Porto, se me levarem.
……………………………………………………………………………………………………………………………
XXIV
Parou a liteira na rua da Boa-Vista á porta de Francisco Eliziario, em cuja casa António Joaquim costumava hospedar-se. Despedi-me do meu amigo. Eu chorava com dores nos ossos; mas aproveitei es­tas lagrimas, attribuindo-as a um exaltado senti­mento de gratidão. Compromettemo-nos em nos ajuntarmos no dia seguinte para, em suave quie­tação, nos deliciarmos conversando sobro cousas e pessoas do nosso passado. Recolhi-me desancado à minha hospedaria, no intuito de me fazer apalpar por um algebrista. Graças ás poções alcalinas, e fumigatórios, ao outro dia haviam desapparecido os vestígios das vinte horas de liteira."
Camillo Castelo Branco (1825-1890) – Vinte Horas de Liteira – Porto 1864

Ainda Camilo no Amor de Perdição:

“ A distância duma légua de Vila-Real estava a nobreza da vila esperando o seu conterrâneo. Cada família tinha a sua liteira com o brasão da casa. A dos Correias de Mesquita era a mais antiquada no feitio, e as librés dos criados as mais surradas e traçadas que figuravam na comitiva.”
Camillo Castelo Branco (1825-1890) – Amor de Perdição, 1861

Eça de Queiroz:

"Dali descobre-se a estrada, no traçado do antigo caminho, onde o Conde (segundo ele próprio me contou) via com inveja passar as liteiras que levavam a Braga ..."
Eça de Queiroz (1845-1900) – O Conde d’ Abranhos, 1879

Júlio Diniz :

"V. Ex.a s fazem-me recordar o tempo das liteiras e das jornadas com almocreves, os meus bons tempos de Coimbra."
Júlio Dinis (1839-1871) - Inéditos e Esparsos, publicado em 1910

A diligência e a mala-posta

"E a mala-posta ia indo, ia indo,
O luar, cada vez mais lindo,
Caía em lágrimas, e, enfim,
Tão pontual, às onze e meia,
Entrava, soberba, na aldeia
Cheia de guisos, tlim, tlim, tlim!"

António Nobre (1867 – 1900) - Só, 1892

"Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a ação humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias."
Alberto Caeiro, Fernando Pessoa (1888 -1935)


O Serviço da Mala-Posta, Lisboa-Coimbra-Porto, 1798/1864
Pintura a óleo de José Pedro Roque, 1973 - Fundação Portuguesa Comunicações Flickr
Quando D. Maria I subiu ao trono em 1777, o país não possuía estradas. O Marquês de Pombal apenas mandara fazer uma estrada até à sua propriedade em Oeiras, e a Companhia dos Vinhos do Alto Douro mandou abrir algumas estradas no Douro.
Assim D. Maria l mandou construir em 1788 uma estrada de Lisboa ao Porto, mas que apenas se construiu até Coimbra.
De qualquer modo, com a construção desta estrada surgiu um serviço regular de trans­portes para passageiros utilizando os carros de transporte do correio, a mala-posta, á semelhança do que já existia noutros países europeus.
A mala-posta partia da porta do Correio Geral na Calçada do Combro em Lisboa, ao mesmo tempo que partia de Coimbra uma outra no sentido inverso.
As viagens realizavam-se às segundas, quartas e sextas e a mala – posta cruzava-se e pernoitava na estalagem de Porto de Mós.

partida da mala-posta, da carreira Lisboa-Coimbra - José Pedro Roque 1963
findação Portuguesa das Comunicações Flickr
Como os poucos passageiros que nela viajavam, tinham como destino ou partida sobretudo a Universidade de Coimbra, a carreira terminou em 1804.
Aguardava-se a abertura da estrada até ao Porto mas as Invasões Francesas vieram adiar tal desígnio.
Em 1829 é criada a Real Diligência de Posta, que a partir do ano seguinte inicia as viagens de Lisboa a Badajoz, continuando até Madrid, mas este serviço apenas durou um ano até 1831.
Após a guerra civil (1832/33) só em 1837 se retoma a ideia da estrada Lisboa – Porto no sistema Mac Adam, mas também esta tentativa fracassou.

Mac Adam (1756-1836) foi um engenheiro escocês que inventou as estradas de pedra britada comprimida até conseguir uma superfície unida e lisa. “Saudada como “mais um melhoramento que temos na cidade”, a macadamização da Rua de Cedofeita serviria ao jornalista do Periódico dos Pobres (1851.08.06) para defender a utilização de um método amplamente utilizado nas diversas capitais da Europa, “aoende a civilização se acha no maior auge”(…)”porque lá presidem aos trabalhos municipais a economia, solidez, duração e comodidade”. (NONELL, Annie Gunther – Do Início foi o cascalho, o pó e a lama” – in Mesquita, Mário João - A CIDADE DOS TRANSPORTES, catálogo da Exposição, Porto 2008)

Finalmente, em 1851 já no governo da Regeneração é aberto concurso para as estradas do Porto a Braga e do Porto a Guimarães, criando-se uma nova carreira de mala-posta, a Companhia de Viação Portuense que inicia a sua actividade em 1852 só terminando em 1871.
A Regeneração com António Fontes Pereira de Melo à frente do Ministério das Obras Públicas, a partir de 1852, opera grandes remodelações nos serviços de comunicações. É utilizado o método «Mac-Adam» na estrada Lisboa-Porto, são adquiridas novas carruagens francesas e novos cavalos.
As estações de muda também sofrem alterações, passando a ter um projecto tipo e a servir também para os viajantes cearem e pernoitarem.
Mas apenas em 1859 a mala-posta uniu Lisboa com a cidade do Porto. Os passageiros iam de barco até ao Carregado onde apanhavam a mala-posta que passava por 23 estações de muda e chegava ao Porto dois dias depois.
Os transportes rodoviários inter - urbanos, então pela mala-posta dão origem à criação de companhias e carreira regulares:
- Mala-Posta e Diligências entre Porto, Braga e Guimarães: 1852 a 1871

- Mala-Posta de Aldeia Galega a Badajoz: 1854 a1863

- Mala-Posta de Lisboa ao Porto: 1855 a1864.

Apesar do bom serviço que as diligências prestavam nessa altura, a sua extinção foi irreversível com o aparecimento do comboio, muito embora se mantivessem em actividade durante mais algum tempo, como atestam os «Manuais do Viajante» da época.


Diligência da mala posta Lisboa/Porto 1855 a 1864
Fundação Portuguesadas Comunicações

modelo reduzido da estação de muda de Casal dos Carreiros - 1856
imagem da Fundação Portuguesa Comunicações Flickr




Partida da diligência da Mala-Posta Lisboa-Porto 1855-1864.
Reconstituição feita junto do Palácio do Correio Mor, em Loures, por ocasião do cortejo histórico de viaturas de Lisboa (1934).
O Carro que se vê na gravura foi usado na mala-posta. Fundação Portuguesa das Comunicações Flickr

Também vários autores se referem à diligência e à mala-posta:

“De facto, passados alguns momentos mais, assomava no extremo da estrada, onde convergiam todos aqueles raios visuais, um carro de grandes dimensões e de formas ainda não conhecidas ali, que, puxado por mais de uma parelha e envolvido em um turbilhão de poeira, se aproximava a toda a brida do lugar de onde o observavam estes ansiosos espectadores.
— Aí estão — disse um dos camaristas, conjecturando que não podia deixar de ser real um tão estranho meio de locomoção.
E, a um sinal dado, o morrão aproximou-se dos foguetes aprestados, e uma salva de girândolas subiu aos ares, quando o referido carro parava junto do arco triunfai.
Estava dado o alarme na povoação.
A câmara aproximou-se da portinhola.
Oh desapontamento! Em vez do que esperavam encontrar, apenas depararam com meia dúzia de fisionomias que os olhavam sorrindo, como se compreendessem e saboreassem o equívoco.
Caíram então em si.
Era uma das diligências da Companhia Viação Portuense, que escolhera aquele dia solene para inauguração das suas viagens.”
Júlio Diniz (1839-1871) - Serões da Província, 1870


“La diligence desservant Carregado et Caldas da Rainha est attelée de cinq mauvaises mules. C´était à cele des cinq cabiolerait le plus, et nous procurerait le plus de cahots. De temps en temps, dans les montées, alors que le train se ralentissait et nous permettait de fermer les yeux, nous étions réveillés en sursaut, par le conducteur regardant, le face joviale, dans l’étroit vasistas,et nous demandant d’une grosse voix enrouée, «si nous étions bien, si nous avions assez de place»…"
Princesse Rattazzi (1813-1883), Le Portugal a vol d'Oiseau, Portugais e Portugaises, Paris, A. Degorce-Cadot, Éditeur - 9, Rue de Verneuil. 1879 (?)


“…Depois, partimos num grande coche, que tinha as armas do rei e rolava a direito por uma estrada lisa, ao trote forte e pesado de quatro cavalos gordos. O Senhor Matias, de chinelas nos pés e tomando a sua pitada, dizia-me, aqui e além, o nome de uma povoação aninhada em torno de uma velha igreja, na frescura de um vale. Ao entardecer, por vezes, numa encosta, as janelas de uma calma vivenda faiscavam com um fulgor de ouro novo. O coche passava; a casa ficava adormecendo entre as árvores; através dos vidros embaciados, eu via luzir a estrela de Vênus. Alta noite tocava uma corneta; e entrávamos, atroando as calçadas, numa vila adormecida, defronte do portão da estalagem, moviam-se silenciosamente lanternas mortiças. Em cima, numa sala aconchegada, com a mesa cheia de talheres, fumegavam as terrinas; os passageiros, arrepiados, bocejavam, tirando as luvas grossas de lã; e eu comia o meu caldo de galinha, estremunhado e sem vontade, ao lado do Senhor Matias, que conhecia sempre algum moço, perguntava pelo doutor delegado, ou queria saber como iam as obras da câmara...”
Eça de Queiroz (1845-1900)- A Relíquia, 1887

“Depois falaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em Lisboa… Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligência, às várzeas de Celorico, o adeus de eternidade.”
Eça de Queiroz (1845-1900) - Os Maias,
1888


" Uma coisa digna de estudar é o aspecto das diligências que circulam sobre estas estradas. Dois pequenos garranos puxam por cima do macadame faiscante ao sol as mais fantásticas carradas de de gente e de objectos que a imaginação possa conhecer. Dentro do veículo senta-se a primeira camada de passageiros nas bancadas. Depois de todos se todos os lugares ocupados mete-se-lhe a segunda camada de passageiros, colocada exactamente em cima da primeira. Feita esta operação começa o interior do carro achar-se quase cheio, mas entre o tecto, os joelhos e os bustos dos passageiros da segunda camada nota-se ainda um espaço. Preenchido este espaço com um passageiro estendido ao comprido, passa-se a ocupar o tejadilho. Do lado lado de fora, os passageiros são ensanduichados com as bagagens e com as mercadorias: camada de mercadorias, primeira camada de passageiros, primeira camada de bagagens, segunda camada de passageiros, segunda camada de bagagens; e de tudo isto, o que penso para os garranos, os merendeiros e os varapaus dos passageiros e, no ar, o cocheiro levado a braços pelos viajantes.
Ramalho Ortigão - As Farpas

O transporte urbano

A cadeirinha

Tipo de transporte sem rodas, carregado por dois ou quatro homens que suportavam o peso com a ajuda de correias de couro suspensas aos ombros, utilizando dois varais.

As Cadeirinhas, continuaram a ser utilizadas para além dos meados do século XIX, quando se difundiu a utilização privada e pública dos carros puxados por cavalos, como se atesta pelos autores contemporâneos:

«Subsistam embora as cadeirinhas! É por ellas que um .paiz floresce, quando os animaes que as pu­xam — digo animaes no sentido de homens! — são de um temperamento rijo e sadio!... Â cadeirinha é o pa­lanque da idade-média, accommodado ás exigências do tempo l Nenhum pagem de chapéo de plumas; nenhum séquito de homens d'armas e vassallos! Unicamente, modestamente, simplesmente, dois valentes alarves de capote cor de pinhão! — que levam uma pessoa a pau e corda…- não, enganei-me; corda não há; levam uma pessoa…a pau, unicamente!
...E a cadeirinha vai andando, andando, n’um pass suave e harmónico, que offerece a quem vai dentro o somno mais mimoso, emquanto estes jumentos, homens é que eu queria dizer! – evitam com cautela encontrarem-se com os seus collegas das seges e carruagens, para não terem um conflicto, visto que – eis o que eu pude averiguar! – há, entre elles…e os cavallos, a maior animosidade
Julio Cesar Machado (1835-1890) - Scenas da minha terra, 1862

“Um dia, o povo portuense viu partir, caminho do norte, uma legião de cadeirinhas, que, a passo regrado, uniforme, imperturbável e filosófico até, ...”
Júlio Diniz (1839-1871) - Serões da Província, 1870

Sobre as cadeirinhas no Porto de meados do século XIX escreveu A. de Magalhães Basto(1894 - 1960):

“Junto do chafariz de que já falámos andavam sempre uns cavalheiros muito graves de chapéu alto, de oleado ou poli­mento, na cabeça, e cobertos, dos ombros até aos pés, de amplo capote azul, ou cor de pinhão, com vivos encarnados. Encarnada era também a fita da cartola. Estes senhores cha­mavam-se cadeirinhas e alugavam e … carregavam os veí­culos que lhes deram o nome.
Mas este modo de transporte era moroso, bom para ir dor­mindo e sonhando pelo caminho. Quem tivesse pressa de chegar aos confins da Aguardente ou Campanhã alugava um dos jericos — havia-os aparelhados para homem ou para se­nhora— que no mesmo local estacionavam: em coisa de uma hora (!) o viajante ia e voltava e fazia uma altíssima figura. (Este superlativo é pura retórica, esclareça-se...).
Mas continuemos o nosso passeio pelo Porto de 1850.”
Magalhães Basto(1894 - 1960) - O Porto do Romantismo, 1934




Os veículos urbanos de tracção animal

O carro de bois

O carro de bois foi até às primeiras décadas do século XX, o principal meio urbano de transporte de mercadorias.

“As fazendas, que se conduzem por terra, são transportadas para os diferentes bairros da cidade em carros puxados por bois. Este género de transporte é tão frequente que, em todos os dias livres, principalmente nas terças-feiras e sábados, se admiram as ruas, ainda as mais largas e principais, atulhadas com tal excesso, que muitas vezes se fazem impra­ticáveis à passagem das seges, liteiras e cavalgaduras, retrocedendo umas e parando outras, até acharem uma aberta que as encaminhe aos seus destinos”.
Padre Agostinho Rebelo da Costa, Descripção Topographica e Histórica da Cidade do Porto,1789


Portugal Illustrated Letters London, 1829 do rev. William Morgan Kinsey (1788-1851)

São inúmeras as fotografias e os postais do século XIX e do início do século XX, que mostram carros de bois, sobretudo os que carregavam diversas mercadorias nos cais do Douro e faziam a sua distribuição por toda a cidade.


Carros esperando carga ao fundo da rua de S. João -Postal editado pela casa Alberto Ferreira


Porto Barreiras - postal editado pela casa Arnaldo Soares
carros de bois estacionados à porta da Alfândega Nova.


Carro de bois em frente da Igreja dos Congregados
Chusseau-Flaviens, Ch. (active 1890s-1910s) ca. 1900-1919
negative, gelatin on glass 10 x 15 cm George Eastman House

O carroção

“Os jumentos eram um meio de locomoção muito usado ainda no Porto para a jornada da Foz. Pessoas conhecidas umas das outras orga­nizavam burricadas, que partiam de madrugada e iam choutando à beira do rio por entre nuvens de pó. De vez em quando, as senhoras caíam dos burros, e toda a caravana parava à espera que se removesse aquele vul­gar incidente. Depois continuavam a jornada até à praia de banhos, onde os burros ficavam descansando enquanto as pessoas que eles haviam transportado iam tomar banho.
Estas caravanas que chegavam ou que partiam, contribuíram para animar o espectáculo da praia dos banhos.”
Alberto Pimentel (1849-1925) O Porto Há Trinta Anos

Para servir de alternativa aos jumentos utilizados para estes percursos, surgiu o Carroção.
O Carroção, pesada e vagarosa viatura puxada por bois, tornou-se conhecido pelo transporte de passageiros da cidade para a Foz do Douro, então tornada estância balnear.


O carroção numa pintura de Roque Gameiro

O carroção é descrito (e ironizado) em diversos escritos de Camilo Castelo Branco (1825-1890):

“ Eis aqui um livro necessário.
É incrível que não esteja escrito, há muito!
Fazem-se bibliotecas do caminho de ferro! Destinar livros para serem lidos onde ninguém lê, nem pode ler, nem deve ler! Que paradoxo!
Já as ciências médicas protestaram contra as leituras na via férrea, como funestas aos olhos, e origem de graves oftálmias. De mais disso, quem furtará a vista do belo e rápido relance duma paisagem para a fatigar numa página de romance ?
Livros, bibliotecas, livrarias inteiras, livros enormes precisam-se, querem-se mas é para o carroção, onde o tempo é infinito, a vida longa como os anos dos encarcerados, e o movimento imperceptível como o da rotação do globo.
Há trezentos anos, quando o carroção portuense estava na flor da juventude, a honrada gente desta sólida terra, ao deslocar-se da freguesia da Sé para os longínquos campos de Cedofeita ou praias de Miragaia, levava consigo um Flos-sanctorum, ou outro livro de igual tamanho para aligeirar as horas, os dias, e as semanas da pavorosa caminhada. Os carroções por aqueles tempos, eram gabinetes de leitura. Dali e das livrarias conventuais saíam os sábios, os famigerados Barros, Sás, Toscanos, Rangeis e Mendonças. Estes, e muitos mais, nobilitaram o carroção, ilustrando-o com palestras literárias tais e tão compridas que muitos entraram analfabetos no carroção, ao abalarem-se para os arrabaldes, e voltaram saturados de ciência, como os doutras idades das covas de Salamanca.
Espantava-se o leitor, se eu lhe desse a lista de todos os varões agudíssimos em letras que saíram daqueles antros de couro! Quer-me parecer que naqueles dourados tempos até os bois deviam saber o seu pedaço de latim!
E agora? O que é o carroção agora? É a cova de Trophonius. Toda a gente que lá entra, cai em letargo, e sai triste, areada dos miolos e com as cruzes tão doridas que bem pode dizer-se que é aquilo um crucificar-se a gente nas próprias cruzes!
A causa disto é óbvia. O corpo sofre em duplo, porque o espírito vai mazorro, achumbado e sem migalha de distracção que o deslumbre do seu suplício.
É uma virtude das que Monthion não podia prever nem premiar esta de escrever um livro para os frequentadores do carroção. Hei-lo aí vai. Vou, deste mundo, contente: sei que deixo um padrão imorredouro da minha filantropia.
Se o livro carregar de mais essências narcóticas o sono do leitor, tanto maior serviço lhe fiz. O carroção é um dilema: DORMIR OU MORRER."

Camillo Castelo Branco(1825-1890) "Coisas Leves e Pesadas", 1867

“…Guiado prosperamente pelo amor, foi topar um carroção que despejava as ultimas dez pessoas da ter­ceira família em uma casa da rua de Santo António. Ofereceu ao carreteiro porção fabulosa de pintos, e conduziu à porta transversal o carroção que, debaixo das cataractas do céo, parecia a Arca Santa no trigési­mo nono dia do diluvio universal. Avisinhou-se cortezmente o bacharel da família que se aconchegava como rebanho que farisca lobo, e disse voltado a um dos três homens gordos:
—Tomo a liberdade de offerecer a vossas senhorias um carroção que os conduza a sua casa».
Camillo Castelo Branco(1825-1890) "O sangue" 1868

«Carrocões de Manoel Jossé d'0liveira, repletos de gente, arrastavam-se para a Foz. Os carroceiros picando as vaccas derreadas para puxarem aquellas famílias, mu­giam uns êhs prolongados, plangentes, d'uma grande caracterisacão selvagem, prehistorica, anterior à forma­ção das línguas».
Camillo Castello Branco (1825-1890) A Corja, 1880

“O carroção tinha, por aquelle tempo, dois séculos de moda. Fora inventado na rua das Cangostas para uso de uma família obesa, formada de quinze pessoas adi­posas. Esta família derreteu-se no estio de 1650; mas o carroção ficou.
No lapso de duzentos annos, o carrocão, parado no largo da Batalha, com a lança vermelha atravessada nas sogas dos ramalhudos bois, viu passar e desapparecer todos os vehiculos adelgaçados pelo cepilho do progresso. O carrocão escancarou as goelas, e riu do ame­ricano, da victoria, do phaetont, do landeau, da cale­che, do dog-cart, da tipóia, do coupé, do tilburi, do daumont, do brougham, do mail-coach, do poncy-cbaise, da groom, do break. Ricardo Guimarães, fundibulario da hoste moderna, carregou a funda de estylo, remessou-a ao Golias de couro; e o gigante, arrastado pelos bois-que mugiam saudades da palha-milha que comiam à porta do theatro lyríco, dispersou os membros por Barcellos, Famalicão e regiões visinhas ».
Camillo Castelo Branco(1825-1890) - "Noite de insomnia
" 1874

E ainda por Gomes d’ Amorim:

« O carroção é um caixão de proporções deformes, biconvexo, barrado de vermelhão por baixo, e dos la­dos, e coberto com uma tampa de couro negro. Este apparelho de morte anda montado sobre quatro rodas de carro, e arrasta-se dolorosamente por uma junta de bois transparentes. O peso do carroção sobe de quaren­ta até oitenta quintaes, quando não tem passageiros! Ë esta a locomotiva mais apparatosa que possue a cida­de do Porto, ainda que também a que offerece mais duvidas e incertezas à theoría do movimento».
Francisco Gomes d’Amorim (1827-1891) - Viagem ao Minho 1853

Por José Gomes Monteiro
«Á verdade é que este capacíssimo vehiculo, a que o nosso engenho inventivo se lembrou de applicar a força motriz do boi, ao mesmo tempo que os inglezes applicavam o vapor ás carruagens; estas commodas ar­cas de Noé que transportam para o theatro e para a Foz os amos, as creanças, as criadas, os cães e os ga­tos, o papagaio e o cochixo—este vehiculo, digo, era in­venção mui superior ao desenvolvimento intellectual de nossos antepassados de ha cem annos».
José Gomes Monteiro - Folhetim do Nacional, 1851 - citado por Alberto Pimentel (1849-1925) no “Porto na Berlinda” de 1894

E por Ramalho Ortigão (1836-1915):

“Muita gente vinha do Porto, de madrugada, tomava banho e regressava à cidade. Este serviço era em grande parte feito pelos carroções, um dos mais extraordinários inventos do espírito portuense, aplicado à locomoção.
O carroção era um pequeno prédio, com quatro rodas, puxado por uma junta de bois. Dentro havia duas bancadas paralelas, em que se sentavam os viajantes. Por fora, sobre uma faixa pintada de uma cor alegre, lia-se o nome do proprietário e do inventor da máquina: Manuel José Oliveira.
Quanta gente cabia num carroção? Nunca se pôde saber. Um carroção levava uma família. Que esta fosse pequena ou grande, o carroção não se importava com isso e levava-a. Levava-a devagar, mas ia-a levando sempre.
Havia famílias enormes que não cabiam em duas salas e que se acomodavam num carroção. No inverno, uma dessas ingentes moles chegava à porta do teatro de S. João. A portinhola abria-se; havia uma escada com corrimão para descer; o carroção começava a despejar senhoras. O pátio do teatro enchia-se e o carroção continuava sempre a deitar gente. Pasmava-se de que ele pudesse conter tantas pessoas, ia-se olhar e encontrava-se ainda, lá dentro, no escuro, a mexer-se e a preparar-se para sair, tanta gente como a que estava fora!
Nas viagens para a Foz, para Leça , para a Ponte da Pedra, para Matozinhos, além da gente, ia também nos carroções louça, fatos, roupas, víveres para os viajantes, e penso para os bois! Para este fim havia nas bancadas, por baixo das almofadas, esconderijos tenebrosos e profundos, onde, no caso de necessidade, poderia arrumar-se — outra família.
Manei Zé de Oliveira, ou simplesmente Manei Zé, como por elegante abreviatura se lhe chamava, alugava os seus carroções por um pinto, como os quartos da hospedaria do Damião.
Por tão módica quantia teve o Manei Zé por muitos anos o glorioso privilégio de fazer viajar a população portuense pêlos subúrbios tão pitorescos da sua cidade invicta.
Como os carroções andavam tão devagar como as noras, depois de entrar a gente para dentro deles e de se pôr a olhar para fora pêlos postigos, não tinha remédio senão observar por muito tempo os lugares; de sorte que as viagens feitas por este modo eram para sempre memoráveis.
Sobre um jogo de quatro rodas enormemente altas, tendo duas vezes o diâmetro das rodas das antigas seges de cortinas, alçavam-se quatro tremendos ganchos de ferro; da ponta destes ganchos desciam quatro valentíssimas correias; na extremidade destas correias suspendia-se a caixa do carroção particular, tendo na traseira uma tábua e duas alças para um criado de pé, e ao lado, por baixo das portinholas, dois estribos de que se desdobrava uma escadaria para subir ao monumento.
Consagrando estas modestas linhas à história da antiga viação portuense, não posso omitir a descrição do notável carroção da minha família.”
Ramalho Ortigão (1836-1915) - "As Praias de Portugal", 1876.


Finalmente, Alberto Pimentel no Porto na Berlinda de 1894 depois citar diversos autores comenta o carroção da seguinte forma:

“O que ahi fica transcripto é assaz eloquente como es­tudo arcbeologico do antigo carroção portuense. Pobre carroção! elle foi um martyr dos escriptores públicos, que, aliás, tantas vezes lhe pediram conduccão! Todos o aproveitaram como vehiculo, e todos o trataram como victima. Negríssima ingratidão! Havia carroções de aluguer, e carroções particula­res.
Famílias abastadas tinham carrocão como hoje pódem ter coupé. Na minha rua, a da Sovella, ao pé da minha casa, havia dois carroções particulares: o das snr.ª Menezes e o do Bento Ribeiro de Faria. Em toda a rua não havia menos de sete ou oito carroções de família.
Na minha infância também passeei de carrocão, para ir à romaria annual do Senhor de Mattosinhos, e para ir ao theatro de S. João, alguma vez, muito de longe a longe, quando a noite estava tempestuosa, e o bilhete de camarote havia sido comprado com vinte e quatro horas de antecipação, pelo menos.
Eu gostava immenso d'aquella patuscada locomotora. Ainda que chovesse a cântaros, e a noite fosse escura como um prego, ia sempre à janella. Quando se chega­va ao theatro, todas as pessoas da família dormiam pro­fundamente — menos eu.”




























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