Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















domingo, 9 de maio de 2010

apontamentos sobre Il Gattopardo de Luchino Visconti (1906-1976)

"Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi!“

“Se queremos que tudo permaneça na mesma, é necessário que tudo mude.

o romance e o filme

" …pretendi contar a história de um homem e a consciência que ele tinha do fim de uma sociedade num ambiente histórico bem determinado “  Visconti

 

O filme de Visconti é a adaptação do romance (obra única) de GIUSEPPE TOMASI, conde de Orlando e príncipe DI LAMPEDUSA (1896/1957), escrito entre 1955 e 1956 e publicado em 1958, pela editora Feltrinelli de Milão, no ano seguinte à morte do seu autor.

Lampedusa, ele mesmo pertencente à aristocracia siciliana, sempre manifestou o desejo de escrever um romance histórico, situado na Sicília, na época do Rissorgimento, e mais precisamente quando Garibaldi desembarcou em Marsala, na Sicília

Segundo o testemunho da sua viúva, a personagem central do romance o Principe Fabrizio, terá sido inspirada pelo avô paterno Giulio Lampedusa, fidalgo que se dedicava (como era corrente na época) à astronomia.

Il Gatopardo, não é um animal existente, nem mesmo na heráldica.

As armas da família Lampedusa são um leopardo rampante (ou seja levantado), ou mais exactamente um leopardo representado na atitude do leão rampante.

leopardo1

O romance estrutura-se em oito capítulos que se iniciam com uma espécie de índice das cenas de cada capítulo, à moda dos romances da primeira metade do século XIX.

Maio de 1860;

Agosto de 1860;

Outubro de 1860;

Novembro de 1860;

Fevereiro de 1861;

Novembro de 1862;

Julho de 1883;

Maio de 1910

No filme Visconti coerentemente com a questão do tempo da estética neo-realista, retira os dois últimos capítulos que correspondem à decadência dos Salina, o capítulo da morte pelo Príncipe e capítulo final onde se mostra o destino de Angélica, de Concetta e Fabrizzietto.

O filme termina em 1862 conferindo à narrativa e em particular à personagem do Príncipe, uma intensidade dramática e lúcida de quem prevê, e até deseja, a sua própria morte.

ficha técnica do filme

Il Gattopardo 1963

• realização Luchino Visconti

• Argumento Suso Cecchi D'Amico, Pasquale Festa Campanile, Enrico Medioli Massimo FranciosaL. Visconti, baseado no romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa.

• Música Nino Rota (Giuseppe Verdi 1813-1901)

• Montagem: Mario Serandrei

• Duração : 205 minutos

Elenco:

• Burt Lancaster: Fabrizzio principe de Salina

• Alain Delon: Tancredi

• Claudia Cardinale: Angelica

• Paolo Stoppa: Don Calogero Sedara

• Serge Reggiani: Don Ciccio Tumeo

• Rina Morelli: a princesa Salina

• Romolo Valli: o padre Pirrone

• Mario Girotti (Terence Hill) : conde Cavriaghi

• Pierre Clémenti: Francesco Paolo

• Ottavia Piccolo: Caterina

• Giuliano Gemma: o general de Garibaldi

• Lucilla Morlacchi: Concetta

O contexto histórico

Para além das analogias de origem social, é possível detectar eventuais motivações ideológicas para que Visconti tenha rodado Il Gattopardo, alguns anos apenas, após a publicação do livro.

Com efeito um século após a reunificação da Itália, muitos dos aspectos que conduziram a esses acontecimentos, repetiam-se nos inícios da época de 60.

Cem anos antes a aristocracia estava em decadência e emergia uma nova classe: a burguesia liberal.

Anunciavam-se tempos de mudança e de progresso.

No entanto o resultado foi uma readaptação do poder, uma recolocação das peças do xadrez.

O jogo, esse continuou a desenvolver-se no mesmo tabuleiro (não só a Itália mas a própria Sicília), e sob as mesmas regras.

Em 1960, após o sonho da solidariedade e igualdade soprado de leste pela revolução soviética, após a semente do marxismo ter alastrado ao Ocidente, nomeadamente a Itália, Visconti observa, lúcida e desencantadamente que "as coisas têm de mudar para que permaneçam na mesma".

A linguagem cinematográfica

O filme estrutura-se em cerca de vinte cenas (ou "quadros"), um pouco como no teatro ou na ópera.

Seguindo a estética neo-realista essas cenas procuram uma duração aproximada do tempo real (a cena do baile dura 46 minutos !), recorrendo apenas, por uma vez, ao feed back e a cenas paralelas (no tempo) em locais e com personagens diferentes.

A câmara movimenta-se discretamente, seguindo as personagens e em particular a figura central do Príncipe, utilizando Visconti apenas os grandes planos, quando quer sublinhar uma frase de uma personagem ou a expressão da sua interioridade.

A câmara assume, assim, o papel de instrumento de testemunho histórico, e distanciada e discreta, procura ser o mais neutra possível: regista sem interferir.

Do mesmo modo o trabalho de montagem é linear, simples, utilizando apenas os "cuts".

A grande distância temporal das telenovelas, o neo-realismo elabora toda uma linguagem cinematográfica, sobretudo na utilização do tempo real, que aquelas irão pelo menos no ínicio, utilizar.

Visconti filma uma Sicilia de exteriores agressivos vento, pó calor, com cores desbotadas (veja-se o vermelho das camisas garibaldinas) contrastando com as cores vivas dos interiores, muito mais tranquilos.

A banda sonora de Nino Rotta (1911-1979), recria a música da época, quer no tema principal quer num jogo de recordações de Gounod, de Wagner e sobretudo de Verdi com a valsa inédita.

Cinema e pintura

Com uma reconstituição histórica rigorosa, é de salientar a excelente qualidade da fotografia de Giuseppe Rottuno, que sublinha o prazer de filmar de Visconti, criando ambientes que recordam a pintura da época.

leopardo2 Giovanni Boldini 1845-1931 Retrato de Verdi 1886 óleo s/ tela 65 x 54 cm Galleria Nazionale d'Arte Moderna di Roma e Burt Lencaster no Príncipe de Salinas

leopardo 3 Francesco Hayez 1791-1882 retrato de Camillo Benso Conte di Cavour, 1864 Milano, Pinacoteca di Brera, e Leslie French na personagem do político do novo regime Chevalley di Monterzuolo

Os combates em Palermo entre os homens de Garibaldi (Giubbe rosse) e o exército dos Bourbons são introduzidos por Visconti no filme, dando uma maior importância ao contexto histórico e sublinhando a violência da transformação política.

Tomasi di Lampedusa no romance apenas faz uma breve referência a estes acontecimentos.

lepardo6 Giovanni Fattori,1825- 1908 Garibaldi em Palermo 1860-1862 óleo sobre tela 88x132cm. Colecção particular e a cena do filme na Porta Termini

lepardo7 Eugène Delacroix 1798 – 1863 La Liberté guidant le peuple 1830 Óleo sobre tela 260 x 325 cm Museu do Louvre Paris e cena da batalha da Porta Termini

leopardo 8 Telemaco Signorini 1835-1901 Chiacchiere a Riomaggiore 1893  Óleo sobre tela 65 x 110 cm Colecção particular e imagem de Donnafugata no filme.

 

O filme

A história do filme passa-se em 1860, na região da Sicília, quando Garibaldi aí desembarca.

O poder vai passar das mãos da aristocracia para a burguesia.

O filme inicia-se com um longo travelling a câmara que se aproxima de um palácio mostrando os detalhes da arquitectura e entrando por uma janela, enquanto se ouve rezar o terço.

É a notícia do desembarque de Garibaldi que motiva o início da narrativa cinematográfica, interrompendo a estabilidade da vida da família do Príncipe.

A família do Príncipe irá deixar a sua casa de Palermo para se dirigir para uma das suas propriedades no campo (Donnafugata), e estabilizada a situação política regressar a Palermo.

O filme, tendo como fundo as transformações políticas e sociais da Sicília, centra-se numa personagem, o príncipe de Salina (Burt Lencaster) e numa trama de relações que este estabelece com o conjunto das outras personagens.

 

Nas relações, que durante a narrativa se estabelecem entre as personagens é possível distinguir dois planos:

  1. a caracterização de cada uma das personagens na contraencenação com outras personagens ou factos;
  2. a caracterização interna das próprias personagens, sendo estas de natureza mais introspectiva e psicológica.

As primeiras são as políticas, as sociais, as económicas, as religiosas e morais, o comportamento e a cultura.

Nas segundas a honra e a honorabilidade, a juventude e o envelhecimento, a relação com a morte.

Entre estes dois planos estabelece-se um conjunto de relações de conflito e de relações de cumplicidade ou compromisso.

Assim Tancredi (Alain Delon), jovem aventureiro e arruinado, sobrinho do Príncipe de Salina, anuncia a este que se vai juntar aos revoltosos:

"Se não participar-mos agora impingir-nos-ão a república", e no romance é ele que afirma "as coisas tem de mudar para que permaneçam na mesma".

 

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É a base da lógica de sustentação do poder, já que perante a possibilidade de uma efectiva mudança, a aristocracia escolhe o mal menor (no caso concreto da Sicília, perante a queda dos Bourbons, a monarquia de Sabóia à república de Manzzini) fazendo sobreviver a sua hegemonia.

É significativa a passagem de Tracredi de guerrilheiro revolucionário para oficial do exército da nova ordem política. No romance irá seguir a carreira diplomática.

 

O Príncipe percebe lucidamente a inevitabilidade dessas transformações, e no diálogo que mantém com o padre Pirrone, (Romolo Valli) alude

"à inevitável alternância de classes" e que "vivemos num mundo em mudança e tentamos adaptar-nos a ele como as algas às ondas".

O padre Pirrone, jesuíta, representa a Igreja.

Quando se sabe da notícia do desembarque de Garibaldi a sua reacção é espontânea e instintiva: "É a Revolução".

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Se tivesse dito "É o Diabo", seria a mesma coisa.

Para o conservadorismo da Igreja tudo o que é novo, assusta.

E apenas há uma saída: a oração.

A ascensão da burguesia liberal é representada por Don Calogero (Paolo Stoppa), o burguês rico, e as relações de classe são explicitadas na "negociação", com o Príncipe do casamento entre Tancredi e Angélica, perante o olhar crítico do padre.

Como bom negociante, Don Calogero foi subindo a parada até o valor da união ser fixado em "oitocentos hectares de terra...quatrocentos de vinha e olivais...mais vinte sacos de moedas de ouro para o noivo", e o Principe de Salina faz valer o mais possível o sangue azul do sobrinho.

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Burguesia e Nobreza apertam as mãos perante o olhar desconfiado da Igreja.

Cada um dos lados ganhou, ou julgou ganhar, o poder que pretendia.

Mas a personagem de Don Calogero é ainda exemplificativa de uma classe, cujo valor fundamental é o dinheiro:

 leopardo 17    leopardo 11

Quanta terra se poderia comprar com o valor destes candelabros", exclama Don Calogero na cena do Baile, e na nítida falta de "bom gosto e boas maneiras", do ponto de vista da aristocracia, com Don Calogero beijando repetida e desajeitadamente a mão da anfitriã.

Don Ciccio Tomei, (Serge Reggiani) representa uma nobreza menor, mas por isso mais fundamentalista, e que o Príncipe despreza.

Veja-se a chegada a Donafugatta, em que o Principe é recebido pela população reunida pelo repicar dos sinos, como se nada se estivesse passando , e primeiro cumprimenta a cadela Teresina e só depois Don Ciccio.

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Don Ciccio quando Salina lhe revela o casamento de Trancredi e Angélica, reage "é a ruina da casa dos Falconeri", grita aos ouvidos do Príncipe, que com violência lhe responde friamente:

"Este casamento não é o fim de nada, é o princípio de tudo".

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Por outro lado a densidade e a complexidade da personagem central, é ainda explicada na sua conversa com Chevalley (Leslie French), representante do novo poder e que o vem convidar para Senador.

Aí Salina procura explicar a Sicília e os sicilianos.

"dormir o sono dos justos é o que os sicilianos querem...a vaidade é mais forte a vontade de progredir...nós somos deuses", e de uma forma lúcida analisa a transformação da sociedade "pertenço a uma geração desventurada entre dois mundos. E pouco à vontade entre ambos".

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E o príncipe de Salinas depois de atravessar a povoação com Chevalley que vai constatando a miséria da Sicília continuando a crer na sua transformação, ao despedir-se acaba:

"nós éramos os leopardos, os leões...os que tomam o nosso lugar serão chacais e ovelhas. E todos nós leopardos, leões, chacais e ovelhas continuamos a pensar que somos o sal da terra".

«Noi fummo i Gattopardi, i Leoni; quelli che ci sostituiranno saranno gli sciacalli, le iene; e tutti quanti Gattopardi, sciacalli e pecore continueremo a crederci il sale della terra.»

 

Nesta transformação de valores, também as relações entre homem e mulher se vão transformando.

Perante as notícias alarmantes da revolução, o Príncipe não se coíbe de uma visita nocturna a uma prostituta.

O padre sabe e exige-lhe a confissão e o arrependimento.

 

A resposta de Salina é significativa: cumpriu os seus deveres tendo sete filhos, mas

"Que espera que eu faça? Sou um homem vigoroso. E como posso contentar-me com uma mulher (Rina Morelli) que se benze antes de qualquer abraço, e que depois apenas sabe dizer “Jesus Maria.”

“Ma che volete da me? Sono un uomo vigoroso. E come posso accontentarmi di una donna che a letto si fa il segno della croce prima di ogni abbraccio, e che dopo non sa dire che "Gesumaria?"

 

Também a personagem de Angélica, quando comparada com a de Concetta, significa um novo comportamento e papel da mulher na sociedade.

Perante a história de Trancredi contada na mesa do jantar para o qual o Principe convida as mulheres, à rígida e convencional postura de Concetta, opõe-se a desenvoltura e frescura de Angélica na prolongada gargalhada com que a cena termina.

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Finalmente, a relação com a morte.

Homem de poder, o Príncipe de Salina, vê chegar a velhice e a morte, ao mesmo tempo que o mundo se transforma debaixo dos seus pés.

"Um homem de 45 anos considera-se jovem até que sabe que os seus filhos se apaixonam", confessa ao padre Pirrone.

O Baile

Na cena do baile, quando Angelica o convida para dançar uma mazurca, Salina que obviamente a deseja, responde que dançará uma valsa, com a mazurca "podia sentir-me novo demais"…

 

E na cena da biblioteca depois de contemplar longamente o quadro de Greuze diz ao sobrinho

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"temos de mandar arranjar o jazigo da família", numa clara alusão à sua morte, até à cena onde chora frente ao espelho, numa espécie de simbiose entre a decadência do brilho da nobreza e o seu próprio envelhecimento.

leopardo 9 Jean-Baptiste Greuze (1725– 1805) Le fils puni 1778 Óleo sobre tela 130 x 163 cm Paris, Musée du Louvre

 

Cena final

O filme termina com o regresso do baile e enquanto Don Calogero na carruagem declara que

“…agora podemos estar tranquilos .. e o Príncipe, cansado e envelhecido, que regressa a pé, perante o compasso ajoelha e pede à "estrela fiel" "...um encontro menos efémero...com a região da certeza perpétua".

"Stella, oh fedele stella, quando ti deciderai a darmi un appuntamento meno effimero, lontano da tutto nella tua  regione di perenne certezza?"

A morte é o encontro supremo. Só ela trará a paz ao Gattopardo

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