Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 14 de maio de 2010

O Porto há cem anos 1

Introdução

No ano da comemoração do Centenário da República não faltam reflexões de todo o género sobre Portugal e o Porto de 1910. Mas este conjunto trata sobretudo dos acontecimentos a partir de 1910 e da acção e obras da República.

O objectivo deste trabalho não é portanto analisar o papel da I República na Cidade do Porto, mas lançar um olhar sobre a cidade de há cem anos e como ela se apresentava no(s) ano(s) que antecedem o 5 Outubro.

Ou seja, imaginemos que alguém se deslocava ao Porto em 1910.

Que cidade encontrava?

Assim, estabelece-se os diversos percursos na cidade, aproveitando alguns momentos desses percursos para mostrar a vida e a cultura da cidade, na 1ª década do século XX.

Os percursos são:

1. Chegada a Leixões e percurso até ao Centro

a) na máquina até à Boavista.

b) no eléctrico pela Foz, Marginal, praça do Infante, Mouzinho até S. Bento.

2. Chegada pelo caminho de ferro, de Campanhã até à Praça, via S. Lázaro e Batalha

3. por via rodoviária de Gaia pelos dois tabuleiros da ponte Luiz I, no inferior até à Ribeira, no superior pela Sé, rua do Loureiro, até à Praça.

4. Percursos na área central: Santa Catarina até ao Marquês, do Marquês até à Boavista, da praça até à Cordoaria e Palácio de Cristal, da Praça até à Trindade e praça da Regeneração, etc.

Para além de diversas publicações que irão sendo referenciadas ao longo do trabalho, destacam-se dois Guias do Porto desta época:

· O Spain and Portugal Handbook for Travellers by Karl Baedeker – 1908, o conhecido Guia Baedeker acompanhado por duas plantas datadas de 1901: Porto e Circumvizinhanças do Porto;

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· E sobretudo o “Guia do Porto Illustrado”.

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Publicado no Porto em 1910, precisamente antes da República pela “Empreza dos Guias "Touriste", o “Guia do Porto Illustrado”, com desenhos e direcção litteraria de Carlos Magalhães, destinado precisamente ao “touriste” que visitasse o Porto.

Com um grafismo Arte Nova, o guia estrutura-se em 4 partes com páginas coloridas de diferentes cores:

· Páginas de cor branca, divididas em Passeios, com a descrição das zonas e os principais monumentos e edifícios da cidade a visitar;

· Páginas de cor rosa, Arredores do Porto com Excursões de Gaya a Aveiro, de Campanhã a Espinho, de Espinho a Aveiro, do Porto a Leça, do Porto à Povoa do Varzim, do Porto a Braga;

· Páginas de cor amarela, com as Informações Úteis e com 4 Roteiros (acompanhados de plantas com itinerários);

· Páginas de cor verde com uma Addenda de Endereços Commerciais.

O Guia apresenta ainda uma Planta da Cidade datada de 1907, à escala 1:20.000, e com uma legenda de 53 itens referindo os principais espaços públicos e edifícios da cidade.

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O Guia é ilustrado com inúmeras fotos de várias Casas Fotográficas como Emílio Biel & C.ª, Photographia Alvão, Photographia Universal Photographia Carvalho de Espinho, de Casas editoras de Postais Ilustrados como a Tabacaria “Alberto Ferreira” e a Tabacaria Cubana para onde trabalham ou são mesmo proprietários os mais conhecidos fotógrafos do Porto.

Estas fotografias mostram panorâmicas e edifícios notáveis da cidade, retratos de personalidades do mundo da cultura, da ciência e da vida política e profissões populares da cidade e arredores.

É acompanhado por diversos anúncios de Casas Comerciais, Bancos e Seguradoras, Farmácias, etc.

Logo de início define que tipo de Guia se apresenta:

"Sem nenhuma preocupação pelos relatos historicos que demandam investigações impertinentes e manuseamento de carunchosos codices, em vista houve, apenas, sem reparos de maior, dár, especialmente pelo desenho e pela photographia, a reprodução fiel e viva de tudo o que constitue e compõe a actividade e a riqueza, o conforto e o encanto das nossas principaes terras luzitanas, interessando assim, n’uma graphia pittoresca e artistica, insinuante e expressiva, o viajante illustre, o argentário commodista, o industrial ou o commerciante".

O autor depois de uma breve caracterização da cidade apresenta o Porto:

"… como cidade moderna de amplas avenidas, espaçosos squares, pittorescas alamedas, sumptuosas distracções, formidáveis theatros, etc. não pode offerecer grandes atractivos ao touriste argentário, que percorre o Mundo em busca de grandes sensações. Não encontrará aqui a movimentada e barulhenta Porta del Sol; o commercial Ouvidor ou os formidáveis Campos Elísios; mas observará o constante vae-vem de uma população irrequieta e activa, em constante lavor, sempre tomada de uma febre intense de trabalho, que a extrema, bem accentuadamente, da população de todas as outras cidades portuguezas."

Este guia é precioso para se procurar traçar este panorama do Porto.

A cartografia

Se é certo que existe um levantamento da cidade de 1903, é ainda a Carta de Telles Ferreira de 1892, que melhor nos pode dar uma imagem do Porto no início do século XX. Quer pela forma rigorosa como é realizada (nas escalas de 1: 5 000 e de 1: 500), quer por ser uma espécie de “plano”, já que antecipa algumas das intervenções então apenas projectadas ou em realização. A planta de 1892 irá servir para o planeamento e a gestão urbanística até meados do século XX.

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"CARTA TOPOGRAPHICA DA CIDADE DO PORTO QUE FOI MANDADA LEVANTAR NA ESCALA 1: 5 00 POR ORDEM DA CAMARA MUNICIPAL DA MESMA CIDADE REFERIDA AO ANNO DE 1892. Dirigida e levantada POR AUGUSTO GERARDO TELLES FERREIRA General de Brigada Reformado Coadjuvado pelo capitão de cavallaria FERNANDO DA COSTA MAYA e mais empregados.”

A Planta de 1903

A cidade do início do século XX está definida na sua dimensão administrativa que permanece até aos nossos dias. Nos finais do século XIX, (1895) com a integração das freguesias de Nevogilde, Ramalde e Aldoar e a conclusão da Estrada da Circunvalação a cidade consolida os seus limites administrativos e define um território que a planta de 1903, consolida e cartografa, definindo as 15 freguesias do Porto, que aliás até hoje se mantêm inalteradas.

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CORTES, João José Mendonça, (1838-1912) - Planta da cidade do Porto - Escala 1:25000. 1903. Dimensões: 26,10x50,70 cm em folha de 34,70x57,20 cm http://purl.pt/1685 BND

As alterações mais significativas apresentadas nesta planta são:

1. A conclusão da Avenida da Boavista, a abertura da Rua de Álvares Cabral, e o prolongamento da Avenida Fernão de Magalhães e da Rua de Júlio Dinis. Traçado de Guerra Junqueiro

2. A consolidação dos limites das 15 freguesias do Porto.

3. A estação central de S. Bento, em construção.

4. A consolidação da malha urbana junto da rua da Constituição, aberta entre as Ruas de Serpa Pinto e da Alegria em 1903, particularmente na área delimitada pelas Ruas de Serpa Pinto (no cruzamento da qual se instala o Quartel Militar) S. Dinis e Antero de Quental.

5. Abertura de Alvares Cabral – urbanização da quinta dos Pamplonas.

Nota - Procurou-se ainda textos, ilustrações, anúncios e pinturas, que não ultrapassassem a data de 1910, sendo que, por exemplo, muitos dos postais ilustrados de data anterior à República, não foram utilizados quando apresentavam selos republicanos.

Alguns aspectos do Porto no início do século XX.

A cidade do Porto tem em 1900 cerca de 168.000 habitantes e em 1910 cerca de 190.000, e o Presidente da Câmara é de 1907 a 1910, Jacinto da Silva Pereira Magalhães, que tina presidido à Associação Industrial do Porto em 1891 a 1893 e de novo entre 1896 e 1897.

O Porto descrito no Guia do Porto Illustrado como “…a segunda capital do reino, pela sua grandeza e incontestável importância commercial, industrial e especialmente fabril, é justamente considerada a Manchester Portugueza, e a mais laboriosa terra do paiz…”, está ainda sob a influência de alguns acontecimentos, nacionais e locais, de maior ou menor impacto na consciência e na vida dos portuenses, e na estrutura física da cidade:

. Em Dezembro de 1909, a grande cheia do Douro, cujos elevados prejuízos vieram acentuar a necessidade da criação do porto artificial de Leixões, e a sua articulação com a cidade;

.Anteriormente, em 1899 a peste bubónica que assolou a cidade criou uma clara consciência das condições de higiene da cidade, sobretudo na classe operária e nas suas condições de alojamento, as “ilhas”, provocando entre outras medidas o início da construção dos primeiros bairros sociais e o início da instalação das redes de água e saneamento;

. A visita ao Porto de D. Manuel II, no ano do Regicídio onde é recebido com um entusiasmo aparentemente contraditório com o movimento republicano que cresce desde a revolta do 31 de Janeiro de 1891 até aos acontecimentos de Outubro de 1910. Na primeira década do século já são muitos os que na cidade do Porto aderem aos ideais da República e os republicanos já representados no Parlamento e na Câmara Municipal, organizam greves (dos tecelões no Porto em 1903 e em 1907), comícios e outras actividades contra o regime monárquico.

.Em 1910 aguarda-se a com curiosidade e algum temor a passagem do cometa Halley.

De Leixões ao Centro

A chegada por via marítima

Quem, em 1910, chegasse ao Porto por via marítima num transatlântico, iria desembarcar no porto de Leixões, então apenas um porto de abrigo, embora com um razoável movimento. O transbordo fazia-se para terra através de pequenos barcos a remos ou a vapor.

Segundo o Baedecker os navios de média dimensão ainda entram a barra e seguem até à Alfândega. Mas os navios a vapor, deixam os passageiros em Leixões.

“The usual landing-place is at the Alfandega. Some large steamers land their passengers at Leixoes by means of motor-boats or rowing-boats.” (Guia Baedeker – Spain and Portugal Handbook for Travellers by Karl Baedeker - 1908)

No entanto, o porto fluvial continua a ser o principal porto comercial da cidade.

A necessidade do porto artificial de Leixões é precisamente uma das grandes questões em debate na cidade.

No final do século quer pelas dificuldades da barra do Douro quer pelo aparecimento dos navios a vapor, tinha sido iniciado – não sem polémica – a construção do porto artificial de Leixões.

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Porto de leixões- O Comércio do Porto, 1892. - 1 carta : imp. em papel ; 79,80x60,00 cm em folha de 83,80x61,50 cm http://purl.pt/1944

“A interminável questão dos melhoramentos da barra do Douro e da construção de um porto artificial em Leixões, parece agora agitar-se com mais calor, e creio que entrará em um período de gravidade, que não permitirá adiar por muito tempo, não a comple­ta solução, mas as bases em que ela deve ser firmada, isto é, as obras que se devem executar para servirem de guia e esclarecimento seguro sobre o melhor modo de pro­ceder para se obterem os melhoramentos precisos, para satisfazer convenientemente as crescentes necessidades de comércio, e em geral das indústrias, e evitar, quanto possível, os males e perigos que estão sofrendo e com que se acham ameaçadas”.

Afonso Nogueira Soares - Relatório sobre as obras executadas e em execução e que mais urgen­temente deverão ser empreendidas na barra do Douro e em Leixões. Lisboa: Imprensa Nacional, 1879. Citado em SOUSA, Fernando e ALVES, Jorge Fernandes – Leixões, uma história portuária – APDL, Porto 2002

A vista do porto de Leixões, para quem dele se aproxima por via marítima é dominada pelo Titã, o poderoso guindaste que serviu para a construção dos paredões do porto.

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Construção do porto de Leixões 1884-1892. Molhe do Norte visto dos rochedos de Leixões - Foto Emílio Biel in Porto de leixões – fotografias de Domingos Alvão. Emílio Biel APDL 1998

No início do século, são já frequentes, os embarques e desembarques de passageiro.

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Aqui desembarcando, avista-se o Posto Semaphorico e Telegraphico (1891) e a partir de 1900 na sequência da peste bubónica que grassou na cidade em 1899, os passageiros tem de se dirigir ao Posto de Desinfecção, particularmente os muitos emigrantes regressados do Brasil, dispensados assim da quarentena em Lisboa.

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O Jornal do Comércio refere assim o problema agudo da emigração para o Brasil:

"Despovoam-se de homens aldeias inteiras; em outras fica a minoria guardando as casas da maior parte, que fugiu. Não se viaja na nossa linha litoral de Lisboa ao Porto sem quase se poder escapar, nas vésperas de saída dos paquetes, ao aflitivo espectáculo das despedidas das famílias aos homens que vão para o Brasil. Adeus, soluços, lágrimas e gritos. É frequente ver no cais do Terreiro do Paço, em Lisboa, aglomerações densas de manta ao ombro, cajado empinado ao lado, chapéu braguês quei­mado pelo tempo, com o tom severo e triste do briche pardo dos trajos camponeses beirões. São levas de emigrantes. Os vapores recusam carga, transbordam sempre... Agora, para pouparem o transporte a Lisboa, as levas de emigrantes do Norte embarcam no porto de Leixões.”

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Alfândega de Leixões www.matosinhosantigo.blogspot.com

Junto do porto de Leixões, na margem norte do rio Leça, está situada Leça da Palmeira, praia frequentada por banhistas muitos dos quais ingleses.

“A praia de Leça, interessantíssima pelo pittoresco e encanto dos seus for­mosos passeios e pelo agradável recolhimento em que vive, afastada do grande bulício mundano, é a estancia preferida pelas pessoas mais cultas e pela maioria das colónias estrangeiras que muito apreciam os encantos naturaes de suas redondezas, especialmente as margens bellas do seu poético e formosíssi­mo rio. Não tem grandes avenidas nem formidáveis praças; mas possue arrua­do limpo e magnificas habitações particulares que lhe dão todo o aspecto de povoação rica, cheia de conforto. Tem um hotel soffrivel, um club recreativo a Assembleia de Leça, um jardim muito bem tratado e excellentemente localisado na margem direita do Leça denominado Sala de visitas.”

Guia do Porto Illustrado ed. Guias Touriste, Porto 1910

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António Ramalho (1858-1916) - Praia em Leça 1892 - Óleo s/ tela 30 x 50 cm Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves

“Uma ermidazinha, com o seu cruzeiro debaixo de um alpendre, ergue-se romanticamente situada n'um recosto, em uma chan musgosa, que se aplana sobre penedia. E dedicada a Nossa Senhora da Boa Nova, e grandemente venerada e visitada por pescadores e povoações marítimas d'aquelles sitios.”

Lady Jackson – Fair Lusitania, A Formosa Lusitania traduzida e annotada por Camillo Castello Branco 1878

“…O Boa Nova, ermida à beira-mar,
Única flor, nessa vivalma de areias!
Na cal, meu nome ainda lá deve estar,
À chuva, ao Vento, aos vagalhões, aos raios!
Ó altar da Senhora, coberto de luzes!
Ó poentes da Barra, que fazem desmaios...”

António Nobre (1867-1900) - Lusitânia no Bairro Latino 1892

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Circumvisinhanças do Porto - Guia Baedeker 1901

De Leixões ao Centro do Porto

Chegado a Leixões o nosso viajante pode deslocar-se para o Centro do Porto, pelo transporte público que tem duas alternativas: a máquina e o eléctrico como é assinalado no Baedeker, que dá clara preferência ao tramway eléctrico:

Electric Tramway and Steam Tramway to Leca da Palmeira and Mattosinhos.

Between Oporto and Sao Joao da Foz the electric tramway should be used at least one way, as its course along the bank

of the Douro is much pleasanter than the viewless route of the steam tramway. Between São João and Mattosinhos both lines skirt the beach”.

Guia Baedeker - Spain and Portugal Handbook for Travellers by Karl Baedeker – 1908

1. Chegada a Leixões e percurso até ao Centro

a) na máquina até à Boavista.

O percurso pelo tramway a vapor.

Uma das alternativas é a máquina, autorizada em 1878, um pequeno comboio cuja caldeira é coberta, dando-lhe um aspecto mais “urbano”.

Liga Matosinhos com a Rotunda da Boavista (praça Mouzinho de Albuquerque). O trajecto desta linha faz-se pela rua Brito Capelo em Matosinhos até ao Castelo do Queijo; pela rua de Gondarém até Cadouços onde existe uma estação; de Cadouços pela rua do Túnel segue pela Estrada do Americano da Ervilha até à Fonte da Moura na Avenida da Boavista, e por esta até à Rotunda. Aí as carruagens eram atreladas a uma parelha de mulas e entravam na rede do americano. Em 1904 o americano foi substituído pelo eléctrico.

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Detalhe do Desenho n.º 1 do “Projecto dos Engenheiros A. Loureiro e Santos Viegas – variante n.º 2” 1907 Arquivo da APDL - Publicado em Porto de Leixões fotografias de Domingos Alvão . Emílio Biel - texto de Joel Cleto APDL 1998

Neste projecto de 1907 de A. Loureiro e Santos Viegas, percebe-se claramente a linha da “máquina” entre a Boavista e Leixões passando pela Foz do Douro.

Mas é também evidente a preocupação das ligações ferroviárias e rodoviárias entre o Porto e a Alfândega e o porto de Leixões.

Está projectada uma linha férrea que une a Alfândega com o porto de Leixões num percurso que acompanha a frente ribeirinha e a orla marítima.

Está ainda projectado o prolongamento da rua do Príncipe da Beira, em linha recta, unindo a Praça Mouzinho de Albuquerque (Rotunda da Boavista) com o porto artificial, projectado na sua totalidade, com as duas docas.

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Rua Brito Capelo Matosinhos

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A Máquina a Vapor n.º 5 da C.C.F.P.” - Colecção Particular /Museu do Carro Eléctrico. Publicado em MARTINS, Fernando Pinheiro, O Carro Eléctrico na Cidade do Porto –Dissertação de Mestrado - FEUP 2007

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Detalhe da Planta de Telles Ferreira de 1892

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Praça de Cadouços na planta de 1892 - A “máquina” na Estação do Largo de Cadouços, c. 1900

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A máquina n.º 4 na rua do Túnel na Foz do Douro

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Detalhe da planta do Guia do Porto Illustrado 1910, mostrando a “estrada do americano” entre a Fonte da Moura e a Foz

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Foto Alvão - A estação da Boavista- In A Cidade do Porto na obra do Fotógrafo Alvão, ed. Fotografia Alvão, Porto 1993

A avenida da Boavista, com uma extensão desde a praça da Regeneração até ao Castelo do Queijo de perto de 6 500 metros foi projectada pelo engenheiro Gustavo Adolfo Sousa, no início da segunda metade do século XIX.

No troço por onde circula a máquina está ladeada por alguns palacetes inseridos em propriedades ajardinadas e o troço junto à praça Mouzinho de Albuquerque, por construção à face da rua. A máquina circula pelo centro da Avenida.

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Aurélio Paz dos Reis - Máquina a vapor n.º 2 passando na Villa Delphina - Negativo em vidro, gelatina e sais de prata, s/d DGARQ/CPF, fotoblog.com

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Villa Delphina postal Estrela Vermelha

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A casa do Pinheiro Manso

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Avenida da Boavista e Rua de Belos Ares

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Avenida da Boavista e rua de Agramonte

A Praça Mouzinho de Albuquerque (Rotunda da Boavista), ajardinada em 1897. Aqui situa-se no lado Norte entre a rua das Vallas e a rua do Príncipe das Beiras, a Estação Terminal da Linha da Póvoa, que faz a ligação entre o Porto e a Póvoa do Varzim.

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A Rotunda na Planta de Telles Ferreira 1892

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A Rotunda no Guia Baedeker 1901 e na planta do Guia Ilustrado 1907

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Estação da Boavista 1875 - foto Rochinni CP –GHM

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Officinas no Porto do Caminho de Ferro do Porto á Póvoa do Varzim - Cazellas «O Occidente». 1, 1878, «Segundo uma photographia de F. Rocchini»

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Postal e fotografia do início do século XX mostrando a circulação do eléctrico na Rotunda

A linha do eléctrico atravessa a Rotunda pelo centro, e só com a construção do Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular, do escultor Alves de Sousa e do arquitecto José Marques da Silva vencedores do concurso realizado em 1909, integrado nas comemorações do Centenário da Guerra Peninsular, se passará a circular contornando toda a praça.

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Projecto dos Sr.s Alves de Sousa e José Marques da Silva que obteve o 1º prémio - O Occidente 10 de Março de 1910

À direita - desenho de Marques da Silva 1909 tinta da china sobre grafite sobre papel opaco 101x 75 cm. IMS / AJMS /271 in Mesquita, Mário João, Catálogo da Exposição Marques da Silva ed. IMS/ FAUP 200

No quadrante sudoeste situa-se o Real Colyseu Portuense, (1889/1898) uma das praças de touros da cidade com uma lotação de 8 000 lugares.

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O Real Colyseu Portuense

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Aurélio Paz dos Reis – público numa corrida de touros (pormenor) AHMP

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«Construíram-se duas praças (no Porto) e as toura­das principiaram. Êxito enorme! Concorrência immensa! Geral frenesi de enthusiasmo! À sociedade tomou um certo ar toureiro. Às senhoras mostravam-se inte­ressadas na qualidade dos curros, queriam ver o gado, punham gravatas vermelhas e ofereciam-se para dar monas. Muitos cavallos appareciam arreados ao modo do Ribatejo, com xairel de pelle e estribos de pau. Os mancebos à moda vestiam-se de jaleca e cinta, com calcas de boca de sino, aos sabbados de tarde. As duas praças eram insufficientes para a multidão dos aficionados. Os lidadores eram cobertos de charutos, de rebuçados, de palmas e de gritos de triumpho. Finalmente, um delírio!

«Ao cabo de dois annos ninguém mais voltou aos touros. Os elegantes deram as jalecas e as calcas de boca de sino aos seus criados de cavallarica; as senho­ras nunca mais tornaram a fallar em gado; as guitar­ras que haviam sido importadas desappareceram da cir­culação; o fado que alguns dedos femininos dedilhavam nos teclados de Herard, deixou de accordar os eccos surprehendidos e vexados dos salões portuenses; as duas praças, não tendo outra coisa que fazer, começa­ram a apodrecer e esperam anciosas o primeiro mo­mento, pretexto decerto para se deixarem cahir.

«Mas Lisboa tinha recebido uma lição terrível! O Porto tinha-lhe mostrado que se quizesse gostar de tou­ros, ninguém gostaria mais, ninguém seria mais maniaco, mais doudo, mais frenético por touros, do que elle! É para que se saiba!»

Ramalho Ortigão - As praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Porto 1876

“Às duas praças, a que Ramalho Ortigão allude, ha­viam sido construídas, uma na Boavista, outra na Aguardente. Acabaram por não ter ninguém; a tauromachia portuense deu em vasa barris. Mas, passados annos, o touro tornou a passar do prato para o circo. Construiram-se duas novas praças, uma na Boavista, outra na serra do Pilar, em substituição d'aquellas. Funccionam ambas. Mas o povo portuense não tem educação de toureiro, nem condições para o ser. Não ha no norte vastas lezírias, como no Ribatejo, onde possa crear-se o gado bravo. De modo que a tauromachia no. Porto é um divertimento emprestado, que mette touros e campinos do sul. Estou em dizer que, apesar das duas praças actuaes, o Porto acha mais sabor ao boi no prato do que ao touro na arena.

Alberto Pimentel - O Porto na Berlinda, 1894

O cemitério de Agramonte

Junto da praça Mouzinho de Albuquerque situa-se o cemitério ocidental do Porto, chamado de Agramonte e construído a partir de 1855. A capela da autoria do engenheiro Gustavo Adolfo Gonçalves e Sousa data de 1870 e em 1906 sofreu alterações pelo arquitecto José Marques da Silva.

No cemitério são de admirar diversos jazigos, entre os quais o dedicado às vítimas do incêndio do Teatro Baquet em 1888 e o mausoléu do Conde de Ferreira da autoria de Soares dos Reis. Também aqui se encontra o jazigo da família Santos Dumont, onde se encontra sepultada a mãe do famoso aeronauta, Francisca de Santos Dumont.

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Monumento às vítimas do incêndio do Teatro Baquet

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Soares dos Reis – o Conde de Ferreira - M. M. / Alberto «O Occidente - Seg. uma photographia de Sala & Irmão»

Junto ao cemitério localiza-se a Quinta do Bom Sucesso, com a capela voltada para o Largo do mesmo nome.

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Frederick William Flower (1815–1889) -The Chapel of BOM SUCCESSO c. 1849-59- original em calotipo 26,8x21,3 cm ANF/D-FWF/46.1, in Frederick Flower, um pioneiro da fotografia portuguesa, Electa, Milano 1994

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Postal Alberto Ferreira do início do século XX

A partir da praça Mouzinho de Albuquerque (Rotunda) a avenida tem um troço mais edificado até à Carvalhosa, onde o transporte urbano, o eléctrico circula por canais próprios nas margens da via.

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Entrada do troço nascente da Avenida da Boavista da Rotunda até à Carvalhosa - Postal Ed. JO., Série: Série Geral

Nesta parte da Avenida situa-se o Hospital Militar, decidido após o Cerco do Porto, mas construído no último quartel do século XIX.

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Postais do Hospital Militar visto de poente e de nascente c. 1900

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Projecto do Hospital Mil.ar de D. Pedro V - J. C. Chelmichi, C.l Eng.º Insp.r ; copiado por José Alves d'Almeida Arez, Alfr.s add.º ao Est.do M.or Eng.ª 1875 Arquivo Histórico do Exército

A casa de Ricardo Severo 1904

Junto à avenida da Boavista, na rua do Conde, situa-se a casa do engenheiro Ricardo Severo, considerada um exemplo de portugalidade:"... esta casa, com as suas magnificencias de interior e os confortos facilmente deprehensiveis, constitue um verdadeiro Museu de pormenores e de motivos que resume epochas, estylos e influencias atravez da capacidade e sentimentos nacionaes...". Rocha Peixoto (1866-1909)

Esta procura da Casa Portuguesa constituiu uma resposta nacional aos movimentos europeus em torno de uma arquitectura doméstica.

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continua…

2 comentários:

  1. Maravilhoso, estas raízes dum passado ainda não muito longínquo, mas já muito profundas,foram crescendo e desabrochando nesta nossa Cidade que muito amámos.Obrigado!

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  2. Maravilhoso, estas raízes dum passado ainda não muito longínquo, mas já muito profundas,foram crescendo e desabrochando nesta nossa Cidade que muito amámos.Obrigado!

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