Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 17 de maio de 2010

O Porto há cem anos 1

De Leixões ao Centro (continuação)

2. O percurso de carro eléctrico

A partir de Leixões, se não se quiser ir na “máquina”, pode –se fazer o percurso até ao Centro no carro eléctrico. Embora ambos passem pela Foz do Douro, o percurso no eléctrico torna-se mais interessante já que percorre toda a marginal fluvial.

O carro de tracção eléctrica veio nos primeiros anos do século substituir o “americano”, transporte sobre carris de tracção animal, que tinha vários inconvenientes: as mulas ou cavalos tinham de ser alimentados e tratados, defecavam nas ruas, em algumas ruas de forte inclinação era necessário adicionar uma parelha suplementar, etc.

“Uma nuvem de poeira avisa que o americano está a chegar. A jornada desde Mathozinhos até à parte superior da cidade termina á entrada d'este jardim. Espera-o muita gente. Vem completamente cheio, mas tam depressa descarrega a sua carregação de banhistas da Foz, que se enche immediatamente e parte.”

Lady Jackson, (Catherine Hannah Charlotte Elliott) - Fair Lusitania – Formosa Lusitânia, traduzida e anotada por Camilo Castello Branco 1878

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O americano esteve em actividade até 1904, altura em que foi definitivamente substituído pelos veículos de tracção eléctrica e a vapor. No entanto a designação de americano durante alguns anos ainda designou qualquer dos transportes urbanos sobre carris.

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O carro eléctrico entre Matosinhos e a Foz em 1905 – detalhe de foto de Aurélio Paz dos Reis CPF/DGARQ/APR3900 in Mesquita, Mário João, A Cidade dos Transportes, Faup 2008

O carro eléctrico depois de atravessar Matosinhos, segue pela marginal até ao Castelo do Queijo, e pela Avenida de Carreiros até S. João da Foz.

“Hoje a povoação estendeu-se para o lado de Matosinhos, sobre Carreiros. Construiram-se bairros novos, onde os chalets põem uma nota garrida e animada.” Alberto Pimentel 1893

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Foz do Douro detalhe da Guia do Porto Illustrado 1910

“Aos omnibus seguiram-se os chars-a-bancs; e desde que estes entraram na carreira da Foz, partindo do Carmo e da Porta Nobre, o movimento de banhistas aumentou extraordinariamente e a vida n’esta praia entrou na sua phase moderna”. Como eram insufficientes as casas da antiga povoação, circumscripta aos pequenos bairros do Monte, da Praia e da Cantareira, as novas edificações começaram a estender-se por Carreiros, aonde se abriu a formosa estrada de Lessa, batida pelo Oceano, varrida pela brisa marítima, impregnada das penetrantes exhalações salgadas. Alguns dos novos prédios construídos n’este sítio, um dos mais bellos do nosso litoral, seguiram os modelos das construcções francezas do mesmo género e offerecem o elegante aspecto modesto e confortável, tão raro nas casas portuguezas.”

Ramalho Ortigão – As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Porto 1876

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O eléctrico ma marginal marítima da Foz - Aurélio Paz dos Reis 1905 CPF/DGARQ/APR 3897 e 3086 in Mesquita, Mário João, A Cidade dos Transportes, Faup 2008

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Avenida de Carreiros

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Casa do Relógio de Sol 1904-1910, arquitecto Teixeira Lopes (?)

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Defronte à Avenida de Carreiros que vai até à Barra do Douro, localizam-se algumas praias.

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Pharolim da Barra in ALVES, Jorge Fernandes - Douro e Leixões: a vida portuária sob o signo dos bilhetes postais. Porto: Asa, 2002.

“O revestimento das ruas é ainda muito rudimentar: macadamisado em toda a estrada marginal e em outras de Gondarem, é ainda desconhecido em algumas das novas, devendo nós dizer que a sua falta pouco se faz sentir, devido ao desleixo que o município lhes dispensa depois do seu estabelecimento; isto muito mais n'um ponto tão batido dos ventos que levantam nuvens constantes de poeira fina, irritante e por todos os motivos incommoda; a irrigação, indispensável n'este systema, não é praticada e a reparação, nos pontos gastos, só tarde se faz. No inverno, pelo contrario, as lamas accumulam-se tornando-as impraticáveis.”

Carlos Barreiros Montez de Champalimaud - FOZ DO DOURO FEBRE TYPHOÏDE - DISSERTAÇÃO INAUGURAL APRESENTADA Á ESCOLA MEDICO-CIRURGICA DO PORTO JULHO DE 1901 PORTO OFFICINAS DO «COMMERCIO DO PORTO» 1901

A Foz do Douro, é no princípio do século uma já consolidada praia de banhos, dispondo de um teatro (Vasco da Gama) na rua do mesmo nome, e desde 1907, na Esplanada do Castelo, de uma sala de projecção de cinema “Au Rendez-vous d’ Élite”, projectada pelo engenheiro Xavier Esteves.

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Anónimo – fotografia pertencente à colecção Manuel Magalhães http://mmagalhaesfotografia.blogspot.com/

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Senhora da Luz (Lado Sul)Ed. JO.Série: Foz do Douro.

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Foz do Douro - Vista Geral No postal vê-se ao fundo o Farol de N. Sr.ª da Luz e à direita o percurso da “máquina.”

O carro eléctrico depois, segue pela rua de Nossa Senhora da Luz até ao Castelo da Foz.

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Artur Loureiro (1853/1932) Castelo da Foz c.1909 - Óleo sobre tela 59,7 x 86 cm - Museu Nacional Soares dos Reis

Na Esplanada do Castelo situa-se o Hotel Boa-Vista.

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Hotel Boa-Vista : Editor: Ed. JO., Série: Foz do Douro, Postal: n.º 17a. Feup

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O percurso continua ao longo da margem do Douro, passando pela praia do Ourigo

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Praias do Ourigo e de Carreiros in ALVES, Jorge Fernandes - Douro e Leixões: a vida portuária sob o signo dos bilhetes postais. Porto: Asa, 2002.

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Aurélio Paz dos Reis – Foz, Banhos 1908 Fotografia estereoscopia – APR6709, AFP/CPF/MC

in o Porto e os seus Fotógrafos, coord. Siza Teresa, Porto 2001, Porto Editora 2001

…até ao jardim do Passeio Alegre, construído no final do século XIX, sobre o aterro da Meia Laranja.

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João Marques da Silva Oliveira (1853/1927) - São João da Foz – 1881 - óleo sobre Madeira - 13 x 20 cm MNSR

“Se, de Sobreiras á Cantareira, a linha das casas está separada do rio apenas por uma estrada estreita e marginada de arvores, d'aqui ao Castello interpõe-se um largo triangulo, conquistado ao mar, ajardinado e arruado, o único jardim publico da Foz e, dos públicos, o mais aprazível em todo o Porto; é a toda a hora frequentado amorosamente pela mais distincta sociedade local e, por vezes, principalmente aos domingos, em vantajosa concorrência com o Palácio de Crystal, ou em noites abafadas do quente estio, consegue fascinar e attrahir numerosos visitantes do Porto, o que lhe dá uma animação desusada.”

Carlos Barreiros Montez de Champalimaud – Foz do Douro Febre Typhoide…

« O Passeio Alegre é um vasto recinto, formoso e cuidadosamente ajardinado, muito bem arruado, tendo três avenidas principaes: uma sobre o muro que antecede o molhe da barra, com um panorama admirável sobre a foz do rio, Cabedello e sobre a vastidão do oceano; a central admiravelmente ajardinada, com interessantes repuxos e um bom coreto para musica que normalmente ali toca aos domingos, durante o período balnear; e por ultimo a que corre junto à estrada, muito bem illuminada a gaz, como todo o recinto, e possantes focos eléctricos.

É esta a preferida, nas calmosas tardes de verão, pela elite da Foz e do Porto, para seu passeio predilecto.»

Carlos de Magalhães - Guia do Porto Illustrado, 1910

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Passeio Alegre em construção.

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O Passeio Alegre no Guia do Porto Illustrado

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A Avenida Central do Passeio Alegre.

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A frente urbana do Passeio Alegre.

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O carro eléctrico no Passeio Alegre.

O carro eléctrico toma então a direcção do Porto passando pela Cantareira, onde se avista o antigo farol de S. Miguel (ver os transportes marítimos e fluviais), e o posto dos pilotos.

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A Cantareira no Guia do Porto Illustrado

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Sobreiras

Ao longo deste percurso, são visíveis ainda destroços da grande cheia do Douro em Dezembro de 1909.

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“... A cidade do Porto, pela sua parte, sabe tão duramente ferida nesta refrega, que bem pode impor-se aos poderes públicos para que sejam atendidas antigas e justificadas reclamações por ela formuladas. Se os melhoramentos do Douro inferior houvessem sido realizados estaria regularizada a corrente do rio e haveria docas em que os navios pudessem procurar abrigo, sob a ameaça de cheia. Se o porto de Leixões tivesse sido completado, muitas operações de tráfego poderiam realizar-se ali e não estariam sujeitos a tantas contingências os interesses do comércio e a actividade da indústria portuguesa. No abandono a que o Porto tem sido votado está a causa de muitos dos males que duramente sofre agora. Aproveitará o Porto a dura lição de agora?”.

O Comércio do Porto de 24/Dez/1909

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O carro eléctrico percorre a marginal até ao Logar da Arrábida.

Aqui no vale da Ribeira da e Lordelo ou da Granja instalam-se diversas fábricas.

Junto ao cais do Ouro encontramos a Fábrica do Gás. Junto a esta a Central de Electricidade de 1908, e que veio substituir a central da rua Passos Manuel, pertencentes à Sociedade de Energia Eléctrica criada em 1907.

“O projecto do edifício foi entregue ao engenheiro electrotécnico parisiense Lucien Neu, proprietário da empresa Vieillard & Touzet, tendo-lhe sido também incumbida a direcção da obra. Atendendo à distância a que se encontrava a sede, localizada em Lisboa, para operacionalizar algumas obras foram subcontratadas com empresas da cidade do Porto: os trabalhos de alvenaria foram realizados por Manuel Ferreira da Silva Janeira, mestre de obras da Foz do Douro, a elaboração do plano de cobertura e a realização de toda a parte metálica da construção foi entregue à Companhia Aliança de Massarelos e executada sob a direcção de Henrique Carvalho da Assunção.” Ana Cardoso de Matos - A internacionalização de capitais e a transferência de tecnologia na criação de infraestruturas urbanas: a Companhia do Gás e a Sociedade Energia Eléctrica do Porto (1889- 1920) Universidade de Évora

"Em 1891, o Porto dispõe já de mais de 2 500 candeeiros, instalando-se nesse ano mais 107 em toda a cidade e mais 42 de luz intensiva entre a Batalha e os Clérigos, cabendo 40 destes candeeiros à Rua de Santo António, Praça de D. Pedro e Rua dos Clérigos. Dez anos depois, Há já mais de 3 800 candeeiros colocados, registando-se um aumento significativo do consumo particular."

“A partir de 1888 a Companhia Luz Eléctrica, que possuía uma central eléctrica na rua Passos Manuel, passou a fornecer energia eléctrica aos particulares num perímetro compreendido entre a estrada de Bonjardim, passando pela rua de Santo António, até a entrada da rua de Santa Catarina.

Apesar de se tratar de uma zona restrita da cidade não deixa de ser importante o vanguardismo desta iniciativa.

Em 1898, após ser afectada por um incêndio, a central eléctrica da Companhia Eléctrica transitou para a Companhia do Gás do Porto, que continuou a assegurar, ainda que em condições cada vez menos satisfatórias, o fornecimento de electricidade a esta rede.

Em 1907 foi fundada a Sociedade de Energia Eléctrica do Porto com o fim de assumir todos os direitos e obrigações vigentes entre a Câmara do Porto e a Companhia do Gás no que dizia respeito à concessão da luz eléctrica.

Para garantir a produção de electricidade necessária à iluminação pública e ao consumo doméstico, esta Sociedade construiu a Central do Ouro.

MATOS, Ana Cardoso de, Fátima Mendes, Fernando Faria - O Porto e a Electricidade, Museu da Electricidade, EDP Lisboa 2003

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in MATOS, Ana Cardoso de, Fátima Mendes, Fernando Faria - O Porto e a Electricidade, Museu da Electricidade, EDP Lisboa 2003

A Fábrica do Gás e a Central Eléctrica e outras são abastecidas de carvão, desembarcado no cais do Ouro.

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A seguir ao Ouro temos o Cais do Bicalho.

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Deixando o Bicalho chegamos à Alameda de Massarelos onde nesta altura, está em instalação a Central dos Carros Eléctricos.

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Vista do Porto da Foz até Massarelos.

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Autor desconhecido albumina, s/d. col. AB - In o Porto e os seus Fotógrafos, coord. Siza Teresa, Porto 2001, Porto Editora 2001

Em Massarelos está instalada a Fábrica de Louça de Massarelos, fundada por Manuel Duarte Silva.

Em 1886, as suas instalações foram alvo de grandes obras, datando dessa época a frente voltada para o rio.

Em 1901, foi arrendada pela firma "Maclaren Wall & Comandita", que construiu os dois novos fornos cónicos, passando também a produzir louça de faiança de tipo inglês.

Em 1904 muda a sua designação para "Empresa Cerâmica Portuense, Lda" a qual realiza novas obras de ampliação em 1910, acrescentando um novo andar ao corpo principal.

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Vista do Porto com os fornos em primeiro plano e a Igreja do Corpo Santo de Massarelos.

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Vista do Porto do lado de Gaia. Ao fundo sob a Torre dos Clérigos os fornos da Cerâmica de Massarelos.

Também aqui se encontra instalada a Fundição de Massarellos—propriedade da Companhia Alliança, sociedade anonyma, fundada em 1852.

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“MASSARELLOS está sobre a estrada marginal do Douro, occupando um corpo de armazens acanhados para o trafego da officina. A disposição dos diversos corpos do edifício não se adapta bem ao organismo interno d'uma fabrica e a distribuição do ar e da luz é deficiente. Sente-se a falta d'um plano primitivo amplo e desaforado, tendo-se sacrificado a installação à conveniência do local.” Inquérito Industrial 1881

Em Massarelos o percurso do eléctrico divide-se:

A) ou se toma a linha da Restauração, que como o nome indica sobe a rua da Restauração até à praça dos Voluntários da Rainha;

B) ou se continua o percurso pela marginal.

A) A rua da Restauração

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Na rua da Restauração, com frente para Miragaia encontra-se a Fábrica de Louça de Miragaia.

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Na rua da Restauração esteve até à pouco tempo instalado num edifício próprio de 1836 o Museu Allen (Novo Museu Portuense) depois Municipal do Porto criado em 1849/50, e a partir de 1905 em instalação na Biblioteca em S. Lázaro.

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O MUseu Municipal do Porto Na rua da Restauração fotografia tirada em 1902

in Pedro Vitorino - Os Museus de Arte do Pôrto, Coimbra imprensa da Universidade 1930

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Exemplo de uma das salas - 1ª Sala – Lados Nascente e Poente - in Pedro Vitorino - Os Museus de Arte do Pôrto, Coimbra imprensa da Universidade 1930

Em primeiro plano a “Infância de Caim” de António Teixeira Lopes.

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Infância de Caim - António Teixeira Lopes (1866-1842) Mármore de Carrara, A. 103; L. 73; P. 58,5 cm, Museu Nacional de Soares dos Reis

B) Seguindo de Massarelos pela marginal, e passando o Cais das Pedras chegamos a Miragaia onde se encontra a Alfândega, num poderoso edifício construído sobre a antiga praia de Miragaia, por Jean-François Colson nos anos setenta do século XIX.

(Nota- falta referenciar algumas imagens)

continua…

1 comentário:

  1. AQUI MOREI DURANTE 27 ANOS/ A MINHA LINDA E BELA TERRA FOZ DO DOURO

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