Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 24 de maio de 2010

Os Painéis das Estações Marítimas de Lisboa de Almada Negreiros 2

A Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos

Inaugurada em 1945

arquitecto: Porfírio Pardal Monteiro

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A Gare do lado do Tejo. Foto da época de Mário Novais FCG

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A Gare do lado de terra – foto da época

Com o incremento que a II Guerra provocou nos transportes marítimos, dada a posição estratégica e neutral que o porto de Lisboa ocupava, a seguir à Gare de Alcântara Pardal Monteiro irá projectar a Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos.

A Gare surge assim como um prolongamento da de Alcântara, mas a sua arquitectura é por isso ainda mais “limpa” e funcional.

Como em Alcântara, Almada Negreiros irá de novo colaborar com Pardal Monteiro, criando dois trípticos na Sala de Embarque da Estação Marítima.

Almada, pese embora as críticas que os sectores mais retrógrados do regime formulam aos painéis de Alcântara, vai avançar ainda mais na gare do Conde de Óbidos, provocando ainda mais fortes reacções, sendo considerada a hipótese de os painéis serem destruídos como em 1946 aconteceu com o painel de Júlio Pomar no Cinema Batalha no Porto.

E se isso não aconteceu terá sido devido à intervenção de algumas personalidades do Regime (J.A.França aponta João Couto que aliás estaria na base da encomenda), mas deveu-se sobretudo ao facto da Gare ser inaugurada no final da Guerra, e os painéis realizados entre 1946 e 49, num momento em que o Regime pretendia, porque a isso estava obrigado, a dar internacionalmente e internamente, uma aparência de abertura política. Salazar vai definir o Estado Novo como uma "democracia orgânica" e prometer eleições que seriam "…tão livres como na livre Inglaterra".

No plano interno, numerosos são os que pensam que a ditadura e o ditador, não poderão sobreviver ao final do conflito, já que as vitórias dos aliados e a resistência aos regimes nazi e fascista, foram criando ao longo do período da guerra uma oposição interna cada vez mais organizada e actuante.

A história será bem diversa, mas o momento irá influenciar (e salvar…) os painéis da Gare da Rocha do Conde de Óbidos.

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A Gare vista de um navio foto actual

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A Sala de Embarque com os painéis de Almada – foto actual

Os Painéis

Na gare da Rocha do Conde de Óbidos Almada cria dois trípticos um defronte do outro, bem diferentes dos de Alcântara.

Desde logo do ponto de vista temático. Se bem que nos dois casos a temática é, como o sítio e a funcionalidade dos edifícios (duas gares marítimas) implica seja o Tejo, o mar e a zona ribeirinha de Lisboa, Almada que em Alcântara havia tratado do imaginário consagrado em lendas (D. Fuas e a Nau Catrineta) e de aspectos da paisagem lisboeta (a referência a monumentos de Lisboa ou a uma zona ribeirinha tradicional (as fragatas, as varinas), na gare da Rocha do Conde de Óbitos vai abordar um tema diferente: a emigração. E esta temática é apresentada numa visão desmitificada, crua, daqueles que partem ou são obrigados a partir, e dos que ficam agarrados ao cais em simples divertimentos populares, numa dualidade que lembra Pessoa:

(…) Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui… (…)
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo.

Álvaro de Campos, "Lisbon Revisited (1926)"

(Estes versos serão uns anos mais tarde retomados pelos arquitectos e fotógrafos Victor Palla (1922 – 2006) e Costa Martins(1922-1996), para em 1956 elaborarem um Álbum fotográficoLisboa, cidade triste e alegre…”, cujas imagens são expostas em 1958 na Galeria Diário de Notícias, em Lisboa e na Galeria Divulgação no Porto (actual Livraria Leitura).

Também do ponto de vista “estilístico”, quer a composição, a utilização de cores quase puras quer o tratamento das figuras dos painéis, remetem para experiências da arte moderna, podendo ler-se referências a Léger e sobretudo a Picasso. Almada “…vai responder agora uma atitude diferente, de maior invenção plástica, arredada de toda e qual­quer sugestão naturalista e levando a estilização a uma situação de inteira independência formal.” (José Augusto França - Almada, O Português sem Mestre).

A composição dos trípticos não assenta em geometrias tão evidentes como nos painéis de Alcântara mas evidencia-se no tratamento de algumas personagens.

Os fundos são ainda decompostos em planos geométricos à “maneira cubista”.

Num dos trípticos a partida de um navio, levando emigrantes e passageiros.

“Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha…”
Álvaro de Campos – Ode Marítima c. 1915

O tríptico apresenta no seu conjunto um navio fundeado no momento da partida, sendo que no primeiro painel os que em terra se despedem, no segundo dominado pela escada de portaló a ser recolhida, e os que no navio se debruçam na amurada e no terceiro junto à proa do navio um andaime, em que um operário transporta cimento.

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O primeiro painel divide-se em duas partes:

Na parte superior a torre de comando do navio;

Na parte inferior os que ficam no cais da Gare e se despedem.

“…Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopléctica,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?…”
Álvaro de Campos – Ode Marítima c. 1915

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Na parte superior vemos apenas uma parte do navio que irá partir e a ponta da escada de portaló, que se prolonga para o outro painel.

A máquina, como paradigma da modernidade, é expressa no tratamento do barco e sublinhada pelo desenho dos seus elementos: lanterna, canos, ponte de comando, amuradas, baleeiras, roldanas e sobretudo pela profusão e precisão dos rebites.

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No primeiro plano um grupo na plataforma da gare marítima despedindo-se dos que partem.

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Sob os guarda-chuva distingue-se um casal burguês com uma menina de chapelinho, “…ela de traseiro baixo, à portuguesa, e, ao lado, entre a mulher e o marido, uma petiza de pés certinhos no chão, o chapelinho pousado na cabeça, com as duas fitas penduradas atrás, e a cinturinha apertada num vestido azul de roda para ser mostrado na Baixa…”. (J. A. França – op.cit))

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Ao lado uma mãe, de xaile, que abraça uma filha que o noivo ou o marido deixaram para seguir viagem.

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O segundo painel é ocupado no seu centro pela escada de portaló já recolhida e suspensa do guindaste marcando o momento da partida do navio.

Vê-se comparando o guache preparatório com o painel definitivo, como Almada mantendo a concepção geral, vai aperfeiçoando os detalhes.

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Guache sobre papel, 0,82x0,40 cm.,não assinado e sem data, Colecção arq. José Almada Negreiros

in Catálogo da “Exposição Os Anos 40 na Arte Portuguesa”, 1982 FCG.

No navio os que partem pensativos e ansiosos debruçam-se e acotovelam-se sobre a amurada. De uma figura apenas se vê um olho.

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Do grupo distingue-se uma mulher de xaile, o rosto como uma máscara, uma mão que avança na amurada.

Compare-se o tratamento dos rostos, como máscaras ou com a sobreposição do perfil sobre o rosto visto de frente, com a pintura de Picasso.

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Pablo Picasso – rapariga ao espelho,1932
Óleo sobre tela . 162,3 x 130,2 cm. Museu de Belas Artes, Houston USA.

Almada nestes anos vai ensaiando uma expressão plástica, seja no tratamento da figura feminina seja na sua relação com os fundos, que irá aplicar nos painéis da gare da Rocha.

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Almada - Interior 1948 Guache e óleo sobre papel43 x 57 Museu do Chiado

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Almada - Acrobatas 1947 Guache e grafite s/ papel 51x63,5 cm Museu do Chiado - MNAC

Na ponta do cais um grupo que vê o navio partir de que faz parte uma mulher que se agarra à balaustrada, um casal que se despede, uma figura com um extraordinário chapéu enfeitado com um cisne e alguém que de costas, acena um lenço branco.

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No terceiro painel uma construção com os seus andaimes de madeira.

Neles apenas a figura dum servente de pedreiro transportando uma tábua de cimento na cabeça, e olhando para os que partem.

Comparando, também com um guache preparatório, vê-se que o andaime vai ganhando presença na composição, do mesmo modo que a proa do navio se perde por entre as tábuas do andaime.

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Guache sobre papel, 0,82x0,40 cm.,não assinado e sem data, Colecção arq. José Almada Negreiros

in Catálogo da “Exposição Os Anos 40 na Arte Portuguesa”, 1982 FCG

A construção que se realiza no cais com o seu operário da construção civil, poderá significar uma Lisboa que se moderniza, mas também poderá significar o tipo de emigrante que parte.

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O Tríptico da Lisboa ribeirinha

Em cada um dos painéis e no primeiro plano um barco.

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O primeiro painel, à esquerda, organiza-se com o barco no primeiro plano, um edifício de que se vê uma janela aberta e uma varanda e uma traineira. Na comparação com o cartão preparatório pode-se ver como a composição ganha dinâmica com o barco do primeiro plano e com a eliminação de alguns elementos como a gaivota sobre um rochedo.

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Guache sobre papel, 0,82x0,40 cm.,não assinado e sem data,

in Catálogo da “Exposição Os Anos 40 na Arte Portuguesa”, 1982 FCG.

No barco do primeiro plano uma família inteira faz um pequeno passeio de tarde de domingo.

São nove figuras: um homem de cachimbo que dirige o bote; três mulheres, de xaile e lenço, uma protegida do Sol declinante por uma sombrinha de interior azul; três rapazes e duas raparigas.

À popa, um rapaz abraça uma das raparigas enquanto sentado na borda um rapaz de camisola riscada segura uma rede de pesca.

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À proa duas das mulheres e um miúdo procuram apanhar o chapéu que este deixou cair à água.

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No segundo plano à esquerda uma janela aberta com uma mesa de pé de galo, coberta com uma toalha e onde estão pousados uma jarra de flores e um livro. Se retirarmos do painel este pormenor, ele por si só constitui um quadro.

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O tema da mesa (normalmente de pé de galo), face à janela aberta sobre a paisagem é um tema recorrente do Cubismo.

Picasso trata-o diversas vezes…

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Pablo Picasso –“table devant la fenêtre” 1919 - Aguarela sobre cartão 31 x 22.2 cm. Galerie Rosengart.

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Pablo Picasso – “table devant la fenêtre” - Sain-Raphaël 1932

Aguarela e lapis sobre papel 35.5 x 24.8 cm. -Colecção Heinz Berggruen. Genebra

…bem como outros artistas.

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Ismael González de la Serna (1897-1968) - 1927. Óleo sobre tela. 92 x 72 cm. Colecção particular

José Augusto França aponta ainda que “A janela figurada num dos frescos da Rocha, com a sua persiana meio corrida, pontua este jogo, que conheceu excelentes preparativos, como certa aguarela de 1946, em que a semelhante janela se senta um nu, entre portadas que determinam um rigoroso enquadramento geométrico”.

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Almada – Janela c. 1946, guache 0,48x0,34 col. Dr. Francisco Garcia

Por cima desta janela uma varanda onde apoiados a uma balaustrada que termina com um vaso, um casal observa o rio, à sombra dum toldo listado de amarelo e vermelho.

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Ao lado um navio que pode ser um rebocador ou uma traineira. As âncoras que pendem do casco do navio dão um ar sorridente ao próprio barco comparado com os “olhos” do barco do painel central.

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O painel central organiza-se também a partir de uma embarcação no primeiro plano, duas varinas uma de pé e outra sentada, e ao fundo um barco escorado e em construção. Neste caso são evidentes e importantes as transformações introduzidas no painel se o compararmos com o cartão. De uma composição mais realista, passa-se para uma interpretação mais vigorosa, mostrando mais a condição dos que trabalham na zona ribeirinha. Veja-se o tratamento das varinas e mesmo as alterações no barco do 1º plano.

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Guache sobre papel, 0,82x0,40 cm.,não assinado e sem data, col. arq. José de Almada Negreiros

in Catálogo da “Exposição Os Anos 40 na Arte Portuguesa”, 1982 FCG.

No barco do primeiro plano uma mulher vai remando enquanto o companheiro utiliza um camaroeiro. Note-se, comparando o cartão com a versão definitiva a construção (ou a desconstrução…) do fundo em planos sobrepostos.

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Guache sobre papel, 0,73x0,59 cm.,não assinado e sem data, col. arq. José de Almada Negreiros

in Catálogo da “Exposição Os Anos 40 na Arte Portuguesa”, 1982 FCG.

No centro do painel duas peixeiras, uma sentada, outra de pé com uma canastra à cabeça de corpos robustos, acentuados pela geometrização e decomposição em planos, do tratamento dos corpos e dos rostos como estátuas de deusas primitivas.

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No plano de fundo um barco humanizado com dois grandes olhos no casco, sublinhando o ambiente de tristeza que paira no painel.

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O terceiro painel organiza-se como os outros a partir de um barco no primeiro plano, este com uma estrela pintada no casco. Para o centro e o fundo do painel uma exibição de saltimbancos e trapezistas, perante a multidão que assiste.

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Guache sobre papel, 0,73x0,59 cm.,não assinado e sem data, col. arq. José de Almada Negreiros

in Catálogo da “Exposição Os Anos 40 na Arte Portuguesa”, 1982 FCG.

A embarcação com uma estrela pintada no casco transporta três palhaços. Dois parecem descansar do espectáculo que se desenrola ao fundo e um terceiro vai rufando no tambor.

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No centro do painel uma graciosa figura feminina, contrastando com as peixeiras, numa posição clássica de bailado.

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Junto a esta figura de bailarina uma contorcionista numa pose que Almada já havia estudado.

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Enquanto o malabarista musculado executa o seu número com facas e bolas.

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No plano de fundo a trapezista esvoaça por cima do olhar atento da assistência.

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“Com os frescos da Rocha, e sobretudo com a composição dos «Emi­grantes», Almada realizou a obra-prima da pintura portuguesa da primeira metade do século. Esteticamente, a pintura que criou cumpre essa situa­ção histórica, integrada num movimento de formas ainda dominado pêlos esquemas cubistas…

…Almada Negreiros atinge aqui o grau mais elevado de invenção e de virtuosismo linear, ao fazer com que este aja num espaço luminoso e assuma valores picturais inéditos.”

José Augusto França Almada , O Português sem Mestre.

fim

4 comentários:

  1. muito bom trabalho .adorei e fiquei a conhecer melhor este grande mestre .

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  2. gostava de saber ate que ponto estes frescos se relacionam com o número de ouro

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    1. Nunca aprofundei! Mas conhecendo a personalidade artística de Almada é muito natural. Esse estudo será um excelente desafio para quem quiser averiguar.

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