Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 12 de maio de 2010

Os transportes sobre carris 1

O CAMINHO DE FERRO I Parte

O novo transporte à escala internacional e nacional

Encurtando distâncias, facilitando as deslocações, unindo os países e as diversas regiões de um país, possibilitando o fácil transporte de mercadorias e de passageiros o caminho de ferro torna-se por isso o símbolo por excelência da Revolução Industrial, e parte da paisagem da segunda metade do século XIX.

Nascendo para o transporte dos materiais das minas de carvão, a primeira linha de caminho de ferro com 61 km foi construída por George Stephenson 1781 - 1848, entre Stockton e a região mineira de Darling e inaugurada em 27 de Setembro de 1825.

Em 1829 constrói-se a linha entre duas cidades - Liverpool e Manchester – e o comboio rapidamente se tornou essencial para o transporte de mercadorias e de passageiros nacional e internacional.

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The Rocket de Robert Stephenson and Company, 1829 (Mechanics Magazine, 1829)

O caminho de ferro para além do desenvolvimento comercial e industrial, e do efeito na paisagem rompendo através dos campos com novas vias, criando viadutos e pontes, irá ter enormes consequências urbanas. Permitindo o êxodo rural para as fábricas situadas na periferia das cidades provocando o seu crescimento das cidades e a criação dos subúrbios, e mesmo criando novas povoações.


Dentro das povoações criar-se-ão as estações (gares), que serão uma nova tipologia de equipamentos e factor de desenvolvimento urbano já que na sua envolvente se irão criar praças e avenidas, e todo um conjunto de estabelecimentos associados às chegadas e partidas como hotéis, restaurantes e cafés, etc.

O Comboio torna-se rapidamente tema cultural, na literatura, nas artes plásticas e no cinema.

“À frente, uma espécie de forja rolante, de onde se escapa uma chuva de faíscas e que lembra, com a sua alta chaminé levantada, um elefante que caminhasse de tromba no ar. O ruído constante desta máquina que, ao funcionar, expele vapor negro, com um ruído que parece o que faria um monstro marinho encatarrado, soprando na água salgada, é certamente a coisa no mundo mais insuportável e mais penosa, a que há a juntar o odor fétido do carvão, como vantagens desta maneira de viajar".

Theophile Gautier

William Turner, como faz em relação ao barco a vapor, é um dos primeiros, senão o primeiro dos artistas plásticos a tirar partido do efeito do caminho de ferro e da locomotiva a vapor na pintura.

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Joseph Mallord William Turner (1775-1851) - Rain, Steam, and Speed - The Great Western Railway 1844

óleo s/ tela 91 x 121.8 cm National Gallery, London.

O quadro está dividido horizontalmente em duas partes: a superior em tons claros e dourados, e a inferior mais escura e onde a diagonal provoca o sentimento da velocidade do comboio que se aproxima. Toda a composição conduz o olhar do espectador para o centro do quadro de onde surge o comboio.

A divisão por classes

Ao contrário dos primeiros transportes urbanos o comboio, provavelmente pela maior duração das viagens e das distâncias percorridas, rapidamente se estratificou por três classes sociais.

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Passageiros de primeira, segunda e terceira classe partindo para as corridas de Epsom, Illustrated London,1847.


Honoré Daumier, num célebre quadro “Carruagem de 3ª classe” enfatiza a discriminação e os aspectos sociais do caminho de ferro.

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Daumier, Honoré (1808-79). «Carruagem de 3ª classe» 1863-65 Óleo s/ tela , 65.4 x 90.2 cm - Metropolitan Museum of Art, New York.

A segunda classe, correspondente à pequena burguesia é retratada por Abraham Solomon (1824-1862).


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Abraham Solomon (1824-1862) - Second Class - the parting: 'Thus part we rich in sorrow parting poor' 1854 Óleo s/ tela 76 x 54,5 cm colecção particular

O mesmo A. Solomon pinta duas versões da carruagem ou o compartimento da 1ª classe :

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Abraham Solomon (1824-1862) - First Class: The Meeting ... and at First Meeting Loved 1854
Óleo s/ tela 69 x 97 cm National Gallery of Canada

O encontro entre os dois jovens, enquanto o homem mais velho (o pai da jovem?) dorme, foi na época considerado escandaloso e Abraham sentiu-se obrigado a pintar uma segunda versão em que o homem mais velho acordado, está sentado entre o casal, falando com o jovem, enquanto a jovem observa com um olhar recatado.

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Abraham Solomon(1824-1862) First Class, 1854
Óleo s/ tela 67.3 x 95.2 cm Cambridge Fine Art - Great Britain.


A Estação Ferroviária

Associadas ao caminho de ferro, surgem as estações ou gares, que rapidamente se tornam pólos de atracção nas cidades e geradores de alterações urbanas.

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William Powell Frith (1819-1909) The Railway Station óleo s/ cartão 38 x 80 cm colecção particular


Frith representou no centro do quadro a sua própria família.

Londres

Em Londres as estações de King Cross, Victoria e sobretudo Saint Pancras, com uma concepção exterior eclética mas onde predominam elementos neo-góticos, e com um interior usando profusamente o ferro e o vidro.

King's Cross foi desenhada e construída originalmente como o te rminal de Londres da Great Northern Railway, no local onde existira um hospital. A estação foi construída em 1851/52. Foi desenhada por Lewis Cubitt (1799 – 1883).

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Estação de King Cross 1851/52 Illustrated London News

Victoria foi aberta no West End em 1860 no seguimento da Grande Exposição Universal de Londres em 1851.

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James Jacques Joseph Tissot (1836-1902) The Departure Platform, Victoria Station lápis , aguarela e guache 48.8 x 26 cm Col. particular

A Estação de St. Pancras onde está integrado o Midland Grand Hotel. foi construída na década de 1860 e inaugurada em 1868, projectada por William Barlow (1812- 1902), e George Gilbert Scott.

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Estação de Saint Pancras 1868/69 projecto de William Henry Barlow (1812- 1902)

A construção da cobertura da plataforma de St. Pancras numa ilustração da época e numa pintura de Frederick Barnard (1846-1896).
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St Pancras: construction of the Barlow Train shed, 1864 Science Museum Pictorial/Science & Society Picture Library 1865

à direita: Frederick Barnard (1846-1896) The Construction of the Train Shed, St Pancras Station ( England 1868 )
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As Gares de Paris

Serão contudo as Gares de Paris que se tornarão o modelo a seguir por muitos arquitectos de diversas nacionalidades e em diversos países incluindo Portugal.

As gares de Paris serão colocadas nas diferentes direcções, tomando algumas delas o nome da direcção a que se refere: gare du Nord e Gare de l’Est


A Gare de Saint Lazare 1885-1889

Em 1837 com a abertura do caminho de ferro entre Paris e Saint-German foi construído um apeadeiro provisório. Entre 1841 e 1853 em frente da Place de l’Europe. O arquitecto Alfred Armand (1805-1888) e o engenheiro Eugène Flachat (1802-1873) constroem a gare de Saint Lazare, que se torna a maior gare de Paris e em 1867 são inauguradas por Napoleão III as suas extensões.

Entre 1885 e 1889, a gare adquire o seu aspecto actual segundo um projecto de Juste Lisch (1828-1910).



Jean Juste Gustave LISCH (1828-1910) Gare Saint-Lazare : projet d'agrandissement Paris, musée d'Orsay

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A gare de Saint Lazare e a pintura
"Là est aujourd'hui la peinture, dans ces cadres modernes d'une si belle largeur. Nos artistes doivent trouver la poésie des gares, comme leurs pères ont trouvé celle des forêts et des fleuves".

La Bête humaine - Emile Zola

Claude Monet (1840-1926) e a gare de Saint Lazare
Monet ao deixar Argenteuil vem instalar-se em Paris. Aqui vai começar a procurar temáticas da vida moderna e da paisagem urbana.
Em 1877, vivendo no quarteirão da Nouvelle Athènes, pede autorização para pintar na gare Saint-Lazare, local que considera ideal para experimentar efeitos de luz, de mobilidade, de esfumados com o vapor das locomotivas, para além de querer experimentar uma temática radicalmente moderna.
Monet, como fez com a catedral de Rouen, irá pintar uma série de onze quadros a partir de diversos pontos de vista da estação.

Algumas partes das suas pinturas, se isoladas, atingem quase a pintura abstracta.

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Claude Monet - exterior da gare de Saint Lazare 1877 col. privada

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Claude Monet - gare de Saint Lazare – chegada de um combóio 1877

Óleo sobre tela 82 x 101 cm. Harvard University Art Museum. Cambridge. Massachusetts.

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Claude Monet gare de Saint Lazare 1877 óleo s/ tela 75 x 104 cm. Museu d’ Orsay Paris

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Claude Monet - gare de Saint Lazare – chegada do combóio da Normandia 1877 Óleo sobre tela. 54,3 x 73,6 cm. The National Gallery. Londres. Inglaterra.

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Claude Monet - Gare St-Lazare, arrivée du train de Normandie 1877 óleo s/ tela (59.6 x 80.2 cm) Art Institute of Chicago

A Ponte de l’Europe
Em Paris a Ponte de l’Europe, junto da gare de Saint Lazare, torna-se um símbolo da modernidade e do progresso.

Por isso será um tema abordado por diferentes artistas, fotógrafos e também tema para postais ilustrados.

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Pont de l’Europe 1868. Georges Perrichon Gravura s/ madeira. Musée Carnavalet. Paris

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Pont de l’Europe 1868. Auguste Lamy Gravura s/ madeira Musée Carnavalet. Paris

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Gustave Caillebotte (1848- 1894) prefere assinalar, em dos seus mais conhecidos quadros, o tabuleiro na parte superior, a parte mais urbana e fin-de-siècle.
Numa das mais conhecida pinturas, vê-se um casal burguês, um operário de costas e um cão. Outra personagem debruça-se melancolicamente sobre as locomotivas e os comboios que circulam em baixo.

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Gustave Caillebotte - “Pont d’ Europe” 1876 Óleo s/ tela 125 × 181 cm Musée du Petit Palais, Paris

Em outra pintura sobre a Pont de l’Europe, e onde é mais evidente a influência na época da fotografia, (repare-se no enquadramento e na personagem que está a passar e não é totalmente “apanhada” no quadro!), também duas personagens olham o movimento das locomotivas e dos comboios.

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Gustave Caillebotte- On the Pont de l’Europe 1876–77 óleo s/ tela 105.7 x 130.8 cm. Kimbell Art Museum Fort Worth Texas

Jean Béraud (1849 – 1935) um dos pintores da vida urbana de Paris na transição dos séculos, prefere o tabuleiro onde coloca todo um conjunto de personagens, um casal trajando de negro, uma figura feminina no primeiro plano, com uma sombrinha enrolada, uma ama com uma criança, um paquete com um ramo de flores, duas carruagens (duas Victorias,uma aberta e a outra com a capota), um elegante de calça branca , um cão e diversas outras personagens ao fundo junto do gradeamento espreitando para o caminho de ferro ou apenas circulando.

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Jean Béraud - La place et le Pont de l'Europe 1876-1878. óleo s/ tela 18,3 x 73,7 cm. Col. privada.

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Pont de l’Europe vu de la Gare de St. Lazare 1868.

Claude Monet também pinta a ponte Europa, mas ao nível da via férrea, provavelmente na sequência das sua pinturas da Gare de St. Lazare.

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Claude Monet – A ponte Europe vista da gare de Saint Lazare 1877 óleo s/ tela 64 x 81 cm Musée Marmaton, Paris

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Claude Monet – La Gare Saint-Lazare sous le pont de l'Europe, 1877, óleo s/ tela 64x81 cm, Colecção privada.

Diversos outros artistas, menos conhecidos irão pintar a pont de l’Europe, tirando partido, do fumo das locomotivas e da conotação com a modernidade do caminho de ferro.

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Louis Anquetin 1861-1932 A Ponte Europa Pastel. 1889.Colecção privada

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Norbert Goeneutte 1854-1894 Pont de l’Europe 1888. Óleo s/ tela 45.7 x 55,5 cm. Baltimore Museum of Art

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Norbert Goeneutte 1854-1894 The Pont de l'Europe and Gare Saint Lazare 1888. óleo s/ tela 38 x 46 cm. Formerly Whitford Gallery. London.

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Norbert Goeneutte 1854-1894 Le pont d’ Europe le soir 1887. Óleo s/ tela 46 x 37.5 cm. col. Particular.

A Gare du Nord foi inaugurada em 14 de Junho de 1846, no mesmo ano da inauguração da linha Paris-Lille-Amiens.

Foi remodelada em 1860/64 pelo arquitecto francês Jacques Ignace Hittorff (1792 – 1867).

A fachada foi desenhada em torno de um arco triunfal com 23 estátuas que representam as cidades que a linha serve. Na parte superior os destinos internacionais Paris, Londres, Berlim, Varsóvia, Amsterdão, Viena e Bruxelas.

O interior foi completamente reconstruído em 1889 e uma extensão foi construída no lado oriental para servir as linhas suburbanas.
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Jacques Ignace Hittorff fachada da Gare du Nord 1861/64

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Gravura de Charles RIVIÈRE Musée National de la Voiture et du Tourisme de Compiègne

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Une gare, élévation, coupe et plan Martin Roland (1876-1959) 0.533 X 0.631 m. Paris, musée d'Orsay

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http://paris1900.lartnouveau.com/

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A Gare de l’Est 1847-1850
Arq.François-Alexandre Duquesney (1790-1849) e eng. Pierre-Alexandre Cabanel de Sermet (1801-1875)
A Gare de l'Est, foi inaugurada em 1849, com o nome de "plataforma de Estrasburgo" pelo arquitecto François Duquesney. Em 1854 passa a chamar-se de "Gare de l'Est". Em 1885 e 1900 sofre remodelações.

No topo da fachada uma estátua do escultor Philippe-Joseph-Henri Lemaire, representando a cidade de Estrasburgo, enquanto do outro lado uma estátua da cidade de Verdun, por Varenne . Estas duas cidades são os destinos mais importantes servidos pela Gare de l'Est.
Em 1883, partiu pela primeira vez da Gare de l'Est o famoso Expresso do Oriente para Istambul.

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A gare de l’ Est em 1872

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A gare de l’Est no início do século XX – repare-se nos Tramways de dois pisos.

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Antoine Blanchard (1910 - 1988) Gare de l'Est

A Gare d’ Orsay de Victor-Alexandre-Frédéric Laloux (1850- 1937).
A Gare d’Orsay, foi construída para a linha que liga Paris a Orléans. Foi inaugurada em 1898, a tempo da Exposição Universal de 1900. O projecto é do arquitecto Victour Laloux, com o qual estudaram José Marques da Silva e Miguel Ventura Terra.

Desde 1996 alberga o museu d’Orsay, cujo projecto 1979 de adaptação é de Gae Aulenti.
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Projecto da Gare d'Orsay, 1898 Laloux Victor (1850-1937) Paris, musée d'Orsay

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A gare D’ Orsay em construção

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Outras gares
Le Havre
Algumas estações ferroviárias irão ter particular importância nas cidades portuárias, já que possibilitavam o acesso de pessoas e mercadorias ao navios sobretudo aqueles que realizavam viagens inter continentais.
Com a construção da linha do caminho de ferro de Paris até ao Havre em 1847 impôs-se a construção de uma gare. Dada as suas pequenas dimensões em 1882 o arquitecto Juste Lisch, projecta uma nova gare.
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Juste Lisch 1828-1910 - Gare de Le Havre ing. 1888

Berlim
Anhalter Bahnhof 1871/1880 Berlim
arquitecto Franz Schwechten 1841/1924

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Viena

Südbanhof –1841/1846

arquitecto Matthias Schönerer (1807- 1881)


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Fim da primeira parte.

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