Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 31 de maio de 2010

os transportes sobre carris 2

O Caminho de Ferro em Portugal - breves apontamentos

A história do Caminho de Ferro em Portugal está devidamente escrita e documentada. Por isso este texto consiste apenas em apontar alguns aspectos sem preocupações de sistematizar o tema.

Embora tenha havido anteriores tentativas, em Portugal, só em 28 de Outubro de 1856 a Companhia Central e Peninsular dos Caminhos de Ferro inaugura a primeira linha de Caminho de Ferro de Lisboa ao Carregado, começada a construir 3 anos antes.

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Cerimónia da inauguração do caminho-de-ferro em Portugal
Bernardo Marques (1898-1962) Biblioteca Nacional de Portugal

"Grande acontecimento, o caminho de ferro! A vantagem da sua construção em Portugal fora discutidíssima [...]. era curioso ouvir nos serões lá de casa as diversas opiniões [...] a Nação ia gastar montes de libras e um país que possuía o Tejo e o Douro não precisava de mais nada. Os rios muito mais seguros e muito mais barato. Outro dizia que só começassem os comboios onde acabassem os rios [...]. Em todo o caso a maioria era pelo caminho de ferro [...].

Chegou enfim, o solene dia da inauguração [...]. Murmurava-se insistentemente que a ponte de Sacavém não podia resistir ao peso.

Finalmente avistámos longe um fumozinho branco [...]. Quando o comboio se aproximou vimos que trazia menos carruagens do que supunhamos. Vinha festivamente engalanado o vagão em que viajava El-Rei D. Pedro V. O comboio parou um momento na estação de onde se ergueram girândolas de foguetes: Vimos El-Rei debruçar-se um instante e fazer-nos uma cortesia [...]
Só no dia seguinte ouvimos contar certas peripécias dessa jornada da inauguração. A máquina, das mais primitivas, não tinha força para puxar todas as carruagens que lhe atrelaram, e fora-as largando ao longo da linha.

[...] Passaram muita fome os que ficaram pelo caminho. Esses desprotegidos da sorte, semeados pela linha, só chegaram alta noite a Lisboa depois de variadíssimas aventuras [...] Até andou gente com archotes pela linha, à procura dos náufragos do progresso."

Testemunho da Marquesa do Cadaval, (Adaptado).

Rosa Gomes O Caminho de Ferro visto através dos conteúdos da Secção Museológica de Santarém

In Transportes XXI http://www.transportes-xxi.net/

O que dizia a imprensa da época – 1856

“Á festa da inauguração assistiu El-Rei, seu augusto pai, toda a família real, o corpo diplomático, os ministros d’estado, os comandantes superiores dos corpo militares da capital, e grande numero de pessoas distinctas.

Depois que o cardeal patriarcha fez a ceremonia da benção das locomotivas, metteu-se a familia real e a regia comitiva, o corpo diplomatico, ministros, militares e varias outras pessoas de distinção nas carruagens do trem que lhes estavam destinadas e partiram, no meio das acclamações do povo que assistia áquele acto.”

Rosa Gomes O Caminho de Ferro visto através dos conteúdos da Secção Museológica de Santarém

In Transportes XXI http://www.transportes-xxi.net/

Ao Caminho de Ferro em Portugal, estão associados o rei D. Pedro V (1837-1861), que apesar do seu breve reinado impulsionou definitivamente a industrialização do País..

"Passou o reinado dos ideólogos, dos poetas, e dos homens das abstracções, e começou o dos homens prosaicos e positivos" D. Pedro V em 1855

…numa política continuada pelo irmão D. Luís I, e o ministro António Maria Fontes Pereira de Melo (1819-1887), que a partir de 1851 no primeiro governo da Regeneração cria o ministério das Obras Públicas. Para além do Caminho de Ferro, Fontes aumentou e melhorou as estradas, desenvolveu o telégrafo introduzindo a telegrafia eléctrica, aliás associada ao caminho de ferro, reorganizou os serviços postais e criou as redes telefónicas.

“A organização da fazenda pública são as estradas, são os caminhos de ferro, é o desenvolvimento do comércio e das indústrias, é o melhoramento das colónias“.

"Acima do cavalo da diligência está o trâmuei, acima deste a locomotiva, e acima de tudo o progresso."

O caminho de ferro cria e desenvolve. Os caminhos de ferro são hoje ciência: tem-se ocupado dela os primeiros espíritos da Europa e está em aplicação nos primeiros países do mundo.”

O Caminho de Ferro surge no entanto com algumas reticências de meios mais conservadores, já que o transporte no espaço nacional e internacional era tradicionalmente feito por barco incluindo o navio a vapor e por via terrestre através da diligência. Eça nos Maias põe essas reticências na boca do abade:

“Naturalmente, nesse dia, falou-se da jornada de Lisboa, do bom serviço da mala-posta, do caminho-de-ferro que se ia abrir... O Vilaça já viera no comboio até ao Carregado.

De causar horror, hem? — perguntou o abade, suspendendo a colher que ia levar à boca.

O excelente homem nunca saíra de Resende; e todo o largo mundo que ficava para além da penumbra da sua sacristia e das árvores do seu passal lhe dava o terror de uma Babel.

Sobretudo essa estrada de ferro, de que tanto se falava...

— Faz arrepiar um bocado — afirmou com experiência Vilaça.

— Digam o que disserem, faz arrepiar!

Mas o abade assustava-se sobretudo com as inevitáveis desgraças dessas máquinas!

O Vilaça então lembrou os desastres da mala-posta”.

«Parece certo abrir-se em breve o caminho-de-ferro até ao Porto: em tal caso, com permissão de Vossa Excelência, aí irei e o meu rapaz a pedirmos-lhe alguns dias de hospitalidade.»

Eça de Queiroz - Os Maias”

Mas os mais progressistas exaltam o caminho de ferro:

“Ó machinas febris! eu sinto a cada passo,
Nos silvos que soltaes, aquelle canto immenso,
Que a nova geração nos labios traz suspenso
Como a estancia viril d'uma epopea d'aço!
Emquanto o velho mundo arfando de cansaço
Prostrado cae na luta; em fumo negro e denso
Levanta-se a espiral d'esse moderno incenso
Que offusca os deuses vãos, anuviando o espaço!
Vós sois as creações fulgentes, fabulosas,
Que, vibrantes, crueis, de lavas sequiosas,
Mordeis o pedestal da velha Magestade!
E as grandes combustões que sempre vos consomem
Começam, n'um cadinho, a refundir o homem
Fazendo resurgir mais larga a Humanidade!

Guilherme de Azevedo - A Alma Nova, 1874

Eça de Queiroz, sob o pseudónimo de João Gomes escreve no Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro uma crónica sobre a sua experiência no caminho de ferro de Jerusálem, criticando não o comboio mas o lugar em que é realizado:

…“Ninguém mais do que eu, decerto, aprecia e venera o caminho-de-ferro: - e ser-me-ia penoso o ter de jornadear de Lisboa para o Porto; ou de Madrid para Paris, como Jesus subia o vale de Jericó para Jerusalém, escarranchado num burro. As coisas mais úteis, porém, são importunas, e mesmo escandalosas quando invadem brutalmente lugares que lhes não são congéneres. Nada há mais necessário na vida do que um restaurante; e todavia ninguém, por mais descrente e irreverente, desejaria que se instalasse um restaurante com a sua vulgaridade, as suas mesas, o seu tinir de pratos, o seu cheiro a guisados, - nas naves de Notre-Dame, ou na velha Sé de Coimbra. Um caminho-de-ferro é obra excelente, entre Paris e Bordéus – Entre Jericó e Jerusalém, basta a égua ligeira, que se aluga por dois dracmas, e a tenda de lona que se planta à tarde, entre os palmares, à beira de uma água clara, e onde se dorme tão deliciosamente sob a paz radiante das estrelas da Síria.” João Gomes (Eça de Queirós) publicado na edição de 17.10.1892 da Gazeta de Notícias (Rio de Janeiro)

Mas o desenvolvimento da linha férrea é imparável e em 40 anos está quase completa a rede ferroviária de Portugal.

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Mappa dos caminhos de ferro portuguezes em 1 de Janeiro de 1895 no Continente e no Ultramar

des. Goullard e Nogueira. - Escala 1:1000000. - [Lisboa] : Gazeta dos Caminhos de Ferro de Portugal, [post. Janeiro de1895].

- 1 mapa : litografia, color. ; 64,40x38,60 cm, em folha de 70,70x46,70 cm http://purl.pt/3367 BND

Em 1860, funda-se a Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses que muda a bitola (1,44 metros) da linha já construída entre Lisboa e Asseca (68 Km.), passando-a para a bitola ibérica, com 1,67 metros.

Em 1863 o caminho de ferro chega a Elvas e a Badajoz permitindo a ligação de Portugal com Espanha.

A Linha do Norte ligando Lisboa com Vila Nova de Gaia está concluída em 7 de Julho de 1864, mas apenas em 1875 se abre a linha do Porto até Braga.

A linha do Norte alcança o Porto em 1877 com a inauguração da ponte D. Maria.

Do Porto até à Régua em 1879 e até Barca d’Alva em 1887, ligando à rede espanhola.

Em 1881 por meio do “Sud-Express” estabeleciam-se as ligações com Paris e as relações com a Europa.

“Pelos caminhos-de-ferro, que tinham aberto a Península, rompiam cada dia, descendo da França e da Alemanha, (...) torrentes de coisas novas, ideias, sistemas, estéticas, formas, sentimentos, interesses humanitários...” Eça de Queiroz - Antero de Quental (1891).

”…Batem os carros d’aluguer, ao fundo

Levando à via férrea os que se vão. Felizes !

Ocorrem-me em revista exposições, países

Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo !...

Cesário Verde – O Sentimento de Um Ocidental

Ao contrário do que se passa na Europa, curiosamente em Portugal não se desenvolve uma arte ferroviária já que os pintores da segunda metade do século XIX e início do século XX passam de um Romantismo para um Naturalismo, procurando paisagens bucólicas, na sua maioria campestres mas também urbanas, paisagens marítimas e fluviais sobretudo balneares mas onde não entram os símbolos do progresso.

Uma das raras excepções no campo da pintura em que aparece representado o comboio é um quadro de 1872, de Leonel Marques Pereira intitulado “Os Reis D. Luiz e D. Maria Pia”, existente no Palácio da Ajuda, palácio que o rei e sobretudo a rainha decoraram e utilizaram.

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Leonel Marques Pereira (1828 – 1892) - Os Reis D. Luiz e D. Maria Pia – 1872 Palácio Nacional da Ajuda

O quadro mostra o rei e a rainha seguidos por dois membros da corte, atravessando um conjunto de populares miseráveis e suplicantes, e a quem os monarcas vão distribuindo esmolas.

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Ao fundo numa paisagem de beira mar, avança à esquerda a sombra de um comboio, por entre vultos que aclamam os monarcas.

O artista quis porventura definir o contraste da personalidade dos monarcas e da situação do próprio país, entre a necessidade de desenvolvimento e de progresso e a realidade de um país rural, atrasado e pobre. Ou como assinala Eça de Queiroz em 1889, sobre o rei no ano da sua morte:

“Com El-Rei D. Luís finda um período interessante da nossa História [...], emergindo da anarquia doutrinária que o desmantelava desde 1820 [...] - e entra resolutamente, para ventura sua ou para maiores e inéditos males, no caminho do Utilitarismo, do Fomento e o Progresso Material.”

O caminho de ferro irá provocar em Portugal grandes transformações no território, já que para rasgar as linhas é necessário expropriar propriedades, construir pontes, viadutos, e estações.

As Estações

As estações do caminho de ferro irão ter nas povoações uma determinante importância no desenvolvimento urbano.

Lisboa

Em Lisboa onde se inicia a linha férrea, constrói-se uma estação provisória, em Santa Apolónia, que irá ser substituída em 1865 pela actual gare.

Repare-se na planta de José Maria da Costa Neves, como na falta de referentes para assinalar a linha férrea, o autor apenas encontra uma forma ingénua e mesmo infantil de representar o caminho de ferro.

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NEVES, José Maria da Costa - Planta da cidade de Lisboa - Escala [?ca ?1:12000], 5000 palmos = [9,20 cm].

[S.l. : s.n., 18--]. - 1 carta : imp. em papel ; 35,30x57,90 cm http://purl.pt/3405 BND

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Sobre a estação provisória remete-se de novo para Rosa Gomes e o seu texto “O Caminho de Ferro visto através dos conteúdos da Secção Museológica de Santarém” in Transportes XXI http://www.transportes-xxi.net/:

“O que dizia a imprensa da época – 1856

Sala de espera

No edifício da estação provisória da estação de Lisboa “Há tres salas decentes, com bancos almofadados, onde esperam os passageiros das tres distinctas classes. Todas ellas tem janelas para a gare d’onde se vê chegar e partir os trens.”

Procedimentos de Embarque

Após a chamada dos passageiros para o comboio, “fecharam-se as portinholas dos wagons, tocou o apito do condutor, ouviu-se o assobio da valvula da locomotiva, soou uma sineta, e o comboio poz-se em marcha.”

O Requinte das Carruagens

“As carruagens de 1ª classe são realmente d’um luxo deslumbrante; não se póde exigir… as de 2ª (...) tendo bellos assentos almofadados com encostos da mesma forma e commodidades exigidas para tornar agradável, e o menos incommodo possível o transito passageiro que viaja tão confortavelmente, como sentado no seu soffá ou divan. A diferença destas para as outras é não terem assentos almofadados, e terem cortinas em vez de janella, portas envidraçadas como nas de 1ª e 2ª, e isto apenas pelo preço de 180 reis por 7 leguas portuguezas” ou “36 kilometros, segundo a moderna divisão metrica”

As de 1ª são “forradas de veludo carmezim e teem poltronas e espelhos dourados (...) as de 2ª classe são tambem muito commodas: os encostos e assentos estufados de marroquim, mas sem espelhos nem tapete como nas de 1ª classe”

Os wagons de 1ª classe tem quatro divisões ou compartimentos, cada uma das quaes accomoda 6 pessoas em confortáveis assentos de molas (...) Os de 2ª classe tem assentos de crina forrados de oleado, e accomoda cada divisão 10 pessoas ou 40 por wagon”

As Estações de Caminho de Ferro

Lisboa

Estação de Santa Apolónia 1865 – projectada por Anibas Ugart e João Evangelista Abreu - construída por Oppermann proprietário dos Annales de la Construction.

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Chusseau-Flaviens, Ch. Lisbonne gare de Santa Appolonia ca. 1900-1919

negative, gelatin on glass 09x12x15cm George Eastman House Still Photograph Archive

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Lisboa - levantamento de 1911

A estação Central do Rossio

arquitecto José Luís Monteiro (1848-1942)

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Inauguração do Túnel do Rocio em 8 do corrente

Desenho por L. Freire in Occidente n.º 372 1889

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Túnel do Rossio

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O alçado principal da estação do Rossio

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PROJECTO DE FACHADA PARA A ESTAÇÃO DO ROCIO – PELO ARCHITECTO SR. José Luiz Monteiro

OCCIDENTE n.º 343 1 de Julho de 1888

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Vista Interior da Estação Central (segundo photographias do photographo amador sr. Carlos Lamarão)

Occidente n.º 414 21 de Junho de 1890

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Lisboa - levantamento de 1911

Porto

Estação de Campanhã

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CAMINHOS DE FERRO PORTUGUEZES – A Estação de Campanhã

Cópia de uma photographia do Sr. E. Biel “O Occidente” de 5 de Setembro de 1895

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Estação de Campanhã foto Emílio Biel CP-GHM

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A estação de Campanhã na planta de Telles ferreira 1892

Ramalho Ortigão em As Farpas I descreve a chegada a Campanhã:

“Apeámo-nos finalmente na estação de Campanhã. Uma fila de carruagens sobre a linha dos trâmueis. Um rumor diligente e alegre de ta­mancos novos sobre os largos passeios lajeados. Mulheres bem feitas, caminhando direitas, de cabeça alta, cintura fina solidamente torneada sobre os rins, e alegres lenços amarelos, de ramagens vermelhas, encruzados sobre a curva robusta do peito. Canastras bem tecidas, grandes como berços, cobertas de pano de algodão em listras azuis e encarnadas.

As carruagens americanas recebem tudo, gente, cestos de fruta, canastras, trouxas de roupa branca, caixotes, seirões com ferramentas. Dos vinte passageiros de Campanhã que tomam lugar connosco no carro americano dois têm escrófulas, e um tem uma grossa corrente de ouro no relógio e um grande brilhante pregado no peito da camisa. Um pequeno, ruivo, sardento, de olhos azuis, apregoa o Jornal da Minhaum. As mulinhas trotam bem. E todas as casas, de um e de outro lado da rua, têm à porta a cancelinha baixa, de pau, pintada de verde. Estamos no Porto.”

Estação da Boavista

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Estação da Boavista 1875 foto Rochinni CP - GHM

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Officinas no Porto do Caminho de Ferro do Porto á Póvoa do Varzim

Cazellas «O Occidente». 1, 1878 «Segundo uma photographia de F. Rocchini»

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Estação da Boavista na planta de Telles Ferreira 1892

Estação de S. Bento

arquitecto José Marques da Silva (1869-1947)

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Gazeta dos Caminhos de Ferro 16 de Março de 1905

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O projecto da Estação Central de S. Bento

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Coimbra

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Estação de Caminho de Ferro (vulgo Estação Velha) de Arséne Hayes, cerca de 1870,

albumina,23,5x18 colecção Margarida Costa Alemão, p. 22.

Revelar Coimbra : os inícios da imagem fotográfica em Coimbra : 1842-1900,

catálogo da exposição realizada no Museu Nacional Machado de Castro, 27 de Junho a 16 de Setembro, Coimbra,

Museu Nacional de Machado de Castro, 2001.

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Coimbra Estação do Caminho de Ferro - Foto AKA - http://www.skyscrapercity.com/

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planta do Guia Baedeker 1901

Outras localidades

Mas é sobretudo nas localidades do interior, com difíceis acessos ao Litoral e às grandes cidades, que o comboio é recebido como um instrumento indispensável à modernização e desenvolvimento.

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Chegada do primeiro comboio à estação de Vila Real (1º d'Abril de 1906).In Caminhos de ferro em postais ilustrados

http://www.prof2000.pt/users/avcultur/Postais/ComboiosBR03.htm

O caminho de ferro vai ainda permitir o desenvolvimento do Termalismo permitindo o acesso às diversas Termas nacionais.

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Chegada do comboio a Vidago

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Outra estações de caminho de ferro.

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in http://restosdecoleccao.blogspot.com/

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COLECÇÃO - MELLO, Phot., Porto - Caminho de Ferro do Douro http://albuminasetc.blogspot.com/

As pontes ferroviárias

Ponte D. Maria Pia

Com a chegada do Caminho de Ferro às Devezas (Vila Nova de Gaia) em 1864, e com a construção da linha do Norte, impunha-se o atravessamento do Douro com a construção de uma ponte ferroviária.

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Estação do Caminho de Ferro de Vila Nova de Gaia in http://restosdecoleccao.blogspot.com/

Depois de um longo processo de fixação do local do atravessamento, em 1875 é aprovado pelo Governo o caderno de encargos da construção da ponte, que permitiu lançar um concurso internacional. Ao concurso apresentaram-se 4 empresas, tendo sido escolhida a empresa G. Eiffel et Compagnie cujo projecto é aprovado pelo Governo em 1876.

A ponte (com um tabuleiro de 354,375 m um arco 160 m de corda e uma flecha do arco 37, 500 m) foi inaugurada em de Novembro de 1877, com a presença de D. Luiz I e D. Maria Pia, que dá o nome à ponte.

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Porto: le pont Maria-Pia en construction

Biel Emilio et Cie ( Porto) photographe 0.273 m.x0.386 m.

Paris, musée d'Orsay, Fonds Eiffel

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Ponte D. Maria Pia - Diário Ilustrado, 1877, 3 Nov. BN J. 3001 M.

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Eiffel irá realizar posteriormente e baseado na experiência da ponte D. Maria, e o viaduto do Garabit.

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O viaduto do Garabit

A Inauguração da Ponte

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Locomotiva D. Luiz 1875 (Beyer Peackoc 2-4-0)

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Carruagem real utilizada na inauguração da ponte D. Maria – foto Mário Novais FCG

De notar o desenho da carruagem real, baseado na berlina.

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Em 1878 no primeiro número de “ As Farpas” de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, a propósito da ausência da Câmara do Porto na inauguração da ponte D. Maria, os autores descrevem o panorama da cidade visto do rio. (Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão - “À ex.ª Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer” in As Farpas - III série - Tomo I - Janeiro 1878 – Typographia Universal – Lisboa 1878)

“…A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto, levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol.

…Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em pignon como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos, reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados, fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros, ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa, com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle, os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha venezianamente na agua.”

E aquilo que a ponte representa como progresso e o impacto democrático e moderno que tem na população do Porto:

…A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas victorias, um d'esses triumphos:—a conquista de perto de meio seculo de paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas instituições.

Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo debatida entre dois principes.

A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente affirmação d'esse progresso.

A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo…”

Eduardo Viana em 1925 irá utilizar a ponte D. Maria como tema de uma pintura em que procura sintetizar as suas anteriores experiências inspiradas de Cezanne e do Orphismo dos Delaunay . Pese embora a sua data, quando o automóvel se difunde associado à modernidade, é ainda uma das raras pinturas portuguesas em que o comboio e a ponte metálica de D. Maria, são ainda símbolos do progresso.

José Augusto França reforça o anacronismo desta modernidade:

“É uma composição extremamente densa na sua simplicidade e mais uma vez os valores cenográficos assomam, numa riqueza luxuriante de verdes e de azuis em que a ponte é mero pretexto figurativo que um comboiozinho distante anima anedoticamente…” José Augusto França “A Arte em Portugal no século XX” Bertrand Lisboa 1974

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Eduardo Viana (1881-1967) - Ponte D. Maria (Porto) 1925 óleo sobre tela 120 x 132 cm Museu do Chiado Lisboa

As pontes na linha do Minho aberta em 1875…

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A Ponte do Neiva – foto colecção Manuel Magalhães

http://albuminasetc.blogspot.com/2009/04/coleccao-emilio-biel-caminho-de-ferro.html

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Ponte do Cávado, junto a Barcellos (segundo uma photographia)– O Occidente n.º 34 Maio de 1879

… e na linha do Douro, aberta do Porto até à Régua em 1879 e até Barca d’Alva em 1887, ligando à rede espanhola.

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Ponte do Tâmega. Caminho de Ferro do Douro. Inaugurada em 15.9.1878 http://dasmargensdorio.blogspot.com/

Lisboa

Desde os finais do século XIX pondera-se a possibilidade do atravessamento do Tejo com uma ponte ferroviária, com projectos mais utópicos…plx7

A grande ponte para caminho de ferro e peões entre as duas Lisboas in Illustração Portugueza II série n.º 39

…ou mais realizáveis.

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Ponte sobre o Tejo entre Lisboa e Almada conforme o projecto dos srs. E. Bartissol e T. SEYRIG (colaborador de Eiffel na ponte D. Maria e autor da ponte Luiz I no Porto)

Desenho de L. Freire in « OCCIDENTE » n. 380 Julho de 1889

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