Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 1 de maio de 2010

os transportes terrestres 2

O omnibus

O omnibus era constituído por uma enorme carruagem, assente em quatro pequenas rodas, com cinco janelas laterais. Subia-se para ele pela porta da retaguarda, por um estribo. Era puxado por dois ou três cavalos e o cocheiro conduzia o carro a partir de um assento na parte dianteira no tejadilho.

“O serviço dos carroções e dos burros, sobre os quais as senhoras regressavam do banho com os narizes frios e os seus chapéus postos em cima de seis lenços atados na cabeça, foi ampliado por fim com o serviço dos omnibus, cuja empresa faliu creio eu “.
Ramalho Ortigão (1836-1915) - "As Praias de Portugal", 1876.


«Sabem o que é o omnibus?...
De todas as locomotivas decerto a mais insuportável é o omnibus do Porto. Começa por ter a vida dos cometas; aparece e desaparece dentro de um certo período, para depois daí a um tempo dado tornar a aparecer e desaparecer, continuando neste mótu-contínuo, até que, como aqueles brilhantes corpos, se somem, dando de encontro em qualquer planeta, assim eles vão esbarrar nalguma das árvores de Massarelos ou piões do Bicalho, o que o reduz a achas para o forno, fazendo 'desta forma um serviço aos viandantes, que corriam o risco de ele os largar entre as rodas, sobre pó de dois palmos, quando o pavimento julgasse conveniente abater.
Em todas as terras civilizadas — não sei mesmo se em Constanti­nopla — o pmnibus vive sempre de Inverno e de Verão, prestando assim um abrigo contra a chuva e contra o calor e excelente cómodo para se atravessar grandes distâncias. Entre nós — falo no Porto — vive só no tempo dos banhos... e como vive, meu Deus? Quereis que vo-lo diga? Ora olhai.
Vedes essa caixa com feições de arca de Noé — seis vidraças e sobre o tecto um assento a que chamam varanda; puxada por quatro machos azamelados, guiados por um boleeiro de jaqueta de chita e cha­péu de ferro, tendo na porta de entrada postado um salafrário da mesma edição? É o ónibus do Porto”.
Augusto Gama - Dois Escritores Coevo, Camilo e Arnaldo Gama, Coimbra Editora, Limitada - 1933



Cesário Augusto Pinto. «As margens do Douro, collecção de doze vistas» Porto 1849.
Litografia 160 x 250 mm. lith de J. C. V. V.a Nova —Rua do Campo Pequeno, Porto, 1849

Na imagem vê-se um omnibus junto da capela de Nossa senhora da Lapa (dos Pilotos) em direcção ao Porto.


“Uma estreita caixa de madeira de um omnibus era o único transporte, e nós os trez e mais dous com innumeras malas, caixotes c saccos, com difficuldade cabiamos. Subimos e depois descemos vagarosamente uma íngreme encosta e passamos a ponte-pensil, alumiada pelos lampejos dos raros lampeões.
Começava a tremular no rio o radiar da lua, dando feitios fantásticos ás sombras dos objectos, quando iamos em solavancos a entrar na cidade, que se eleva na montanha fronteira a nós. Passava de onze horas quando entramos no Porto.”
Lady Jackson, (Catherine Hannah Charlotte Elliott) - Fair Lusitania – Formosa Lusitânia, traduzida e anotada por Camilo Castello Branco 1878


O omnibus foi o primeiro transporte colectivo urbano, antecedendo o "americano" que passou a circular sobre carris. Espalhou-se a partir de Paris, por todas as cidades mundiais.


Frederick Childe Hassam (1859-1935)
Chuva de Abril, Champs Elysées, Paris, 1888.
Óleo s/ tela 31.8 x 42.5 cm Joslyn Art Museum, Omaha, Nebraska



Eugene Atget (1857-1927) - Omnibus : 1910.
Photographie positive sur papier albuminé d'après négatif sur verre au gélatinobromure ;
17,4 x 21,8 cm (épr.). BNF

Mas sem dúvida é Camille Pissarro (1830 – 1903), pintor impressionista que introduz na paisagem urbana a modernidade dos transportes e da agitação dos grandes boulevards de Paris.

«J'ai trouvé une chambre au Grand Hotel du Louvre avec une vue superbe sur l'avenue de l’Opera et le coin de Ia place du Palais-Royal. Cest trés beau à faire!
Ce n es t peut-être pas trés esthétique, mais je suis enchanté de pouvoir essayer de faire ces rues de Paris que l'on a l'habitude de dire laides et qui sont si argentées, si lumineuses et si vivantes.
C’est tout différent des boulevards.
C’est moderne en plein! J'expose en avril.»

Camille Pissarro - Carta ao irmão

Instalado no seu quarto e observando o bulício da cidade, Pissarro pintou diversos quadros dos boulevards de Paris, em diferentes horas do dia e em diferentes estações do ano.
Eis apenas dois exemplos entre os muitos quadros de Pissarro:

Camille Pissarro - Avenue de l'Opera, Place du Theatre Francais 1898
óleo sobre tela 74 x 91.5 cm colecção particular New York

O quadro é uma vista do quarto de Pissarro que ele refere na carta ao irmão.
Entre diversas carruagens o pintor representa os omnibus de Paris.

Camille Pissarro - Boulevard des Italiens de manhã – 1897
óleo sobre tela 92 cm x 73 cm National Gallery of Art

Esta pintura que Pissarro indica ser pintada de manhã, faz parte de uma série de pinturas em que o artista procura estudar as variações da luz, pintando paisagens urbanas de Paris em diversas horas do dia.
No primeiro plano distinguem-se dois omnibus, um recolhendo passageiros.
No quadro de Maurice Delondre representando o interior de um “ónibus” vemos como este era utilizado por todas as classes: duas mulheres do povo uma transportando um bebé ao colo e outra (talvez uma empregada doméstica de regresso do mercado) com uma cesta de legumes enquadram dois casais burgueses.
Os lugares dispostos no sentido longitudinal são separados por apoios de braços.

Maurice Delondre - En omnibus 1890
Museu du Carnavalet Paris


Na Londres Vitoriana é sobretudo este aspecto social e democrático do omnibus que é realçado pelos artistas.
Na pintura de Alfred Morgan, com o sugestivo título "Alguém do Povo" mostra Gladstone (William Ewart Gladstone 1809 – 1898) o vitoriano primeiro-ministro britânico também num omnibus acompanhado por um casal com duas crianças e uma mãe transportando uma criança nos braços.
Pela janela vemos passar um cab (trem de aluguer) estabelecendo a relação entre o transporte colectivo e o transporte individual.

Alfred Morgan (1862-1904) One of the People (Gladstone in an Omnibus) 1885
óleo s/ tela colecção privada

O Omnibus Bayswater de William Joy, foi pintado em 1895. Exibido na Royal Academy no mesmo ano, no Salão de Paris em 1896, e ainda em Berlim, S. Petersburgo, Moscovo e Bruxelas.

George William Joy (1844 – 1925) - O Omnibus Bayswater, 1895
Óleo s/ tela - 48 x 69 polegadas - Museu de Londres, Reino Unido

Num omnibus entre Hyde Park e Kensington Gardens vemos uma pobre mãe abraçando as suas crianças, o pé apoiado num pacote; sentada ao lado dela, uma mulher jovem e elegante olhando para as crianças com um olhar cheio de bondade; ao seu lado um homem provavelmente trabalhando na city, absorvido na leitura do jornal, enquanto uma modista, chapeleira na mão, debruça-se sobre uma enfermeira caminhando para a porta.
Repare-se na publicidade no tecto do omnibus.
Pela janela também se entrevê um cabriolé.
O quadro representa ainda a dimensão democrática dos transportes públicos onde todas as classes se fazem transportar.

No quadro seguinte, de William Maw Egley, o autor procura transmitir a presença de várias categorias sociais no espaço reduzido e claustrofóbico de um omnibus.
para acentuar o acotovelar dos passageiros dentro do omnibus o pintor colocou o quadro dentro de uma moldura como se fosse um corte pela carruagem.
George William Joy (1844 – 1925) - O Omnibus Bayswater, 1895
Óleo s/ tela - 48 x 69 polegadas - Museu de Londres, Reino Unido
Do mesmo modo coloca um conjunto de figuras da Londres vitoriana: uma idosa com várias bagagens, uma mulher com as suas crianças, um funcionário da City, uma enfermeira e na porta o cocheiro procura saber se os lugares estão todos ocupados enquanto outras pessoas esperam para embarcar, mostrando a popularidade deste meio de transporte.

Ainda duas outras imagens do interior de um omnibus.
No quadro de Marie Brooks é um conjunto de vendedeiras com as suas cestas que regressam do mercado.
Maria Brooks (1837-1913)
Down piccadilly returning from covent garden market one june morning 1882
Óleo sobre tela 95,5x127 cm colecção privada


No desenho de Daumier um dos artistas empenhado politicamente, as personagens caricaturais, identificam diversas condições sociais.


Honore Daumier. (1808-1879) In the Omnibus. 1864.
Lápis e aguarela sobre papel.
The Walters Art Gallery, Baltimore, MD, USA.

O omnibus em Lisboa

Omnibus passando na Praça do Município em Lisboa
Litografia Sendim
Re. Das Acções da Companhia de Carruagens Omnibus 1836
Revista Municipal de Lisboa n.º 1 - 1979


O char-à-bancs ou charabã

O char-à-bancs (em Portugal designado por charabã) é já uma carruagem mais evoluída, com diversas filas de assentos e puxada a cavalos. Possui tejadilho e é aberta aos lados.


o char-à-bancs
“Aos omnibus seguiram-se os chars-a-bancs; e desde que estes entraram na carreira da Foz, partindo do Carmo e da Porta Nobre, o movimento de banhistas aumentou extraordinariamente e a vida n’esta praia entrou na sua phase moderna. Como eram insufficientes as casas da antiga povoação, circumscripta aos pequenos bairros do Monte, da Praia e da Cantareira, as novas edificações começaram a estender-se por Carreiros, aonde se abriu a formosa estrada de Lessa, batida pelo Oceano, varrida pela brisa marítima, impregnada das penetrantes exhalações salgadas. Alguns dos novos prédios construídos n’este sítio, um dos mais bellos do nosso litoral, seguiram os modelos das construcções francezas do mesmo género e offerecem o elegante aspecto modesto e confortável, tão raro nas casas portuguezas.”
Ramalho Ortigão – As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Porto 1876

"Diante do portão, o char-à-bancs do Visconde esperava, atrelado de duas mulas lustrosas e nédias. Gonçalo admirou as mulas. E, abrindo a portinhola, ..."
Eça de Queiroz (1845-1900) – A Ilustre Casa de Ramires 1900

“O Ricardo veio fora procurar um char-à-bancs que os levasse á Guardeira, emquanto Soares, todo atarefado, abria as suas malas, na sala das bagagens.
D'ahi a instantes o carro partia a todo o trote, aos solavancos sobre as suas molas duras, cruzando rapidamente a cidade. Soares olhava as ruas e as casas, pasmado da differença que o Porto fazia.
Não reconhecia a cidade, e os prédios novos, de cantaria lavrada, azulejos frescos e claros, platibandas e grandes vidros nas janellas, encantavam-no, davam-lhe a nota dos seus gostos : cousas solidas, bem feitas e bem pagas."
Luiz Cypriano Coelho de Magalhães (1819-1935) - O Brazileiro Soares, romance original, com uma carta prefacio de Eça de Queiroz, Lugan & Genelioux, 1886

“As primeiras famílias portuenses que jornadearam de char-à-bancs estranharam sobremodo o haverem partido e recolhido no mesmo dia” .
Alberto Pimentel (1849-1925) Do Portal à Clarabóia, Guimarães Ed., 1913

“Passeio ao Porto, regressando por Aveiro, Bussaco, Coimbra, Leiria, Batalha, Alcobaça, Caldas e Alemquer
O viajante toma logar no comboyo do correio, e parte para o Porto, aonde chega de manhã.
Logo que sáe da canoagem, dirige-se á grade de separação, e. chama uma mulher ou rapaz, dos muitos que alli estão para esse fim, e dirige-se com elle á casa das bagagens para receber a sua.
Logo que lh'a entregam, manda-a conduzir para umas barracas, que estão defronte da estação, onde lhe é fiscalisada pelos empregados da alfândega e do tabaco, e depois de marcada com o signal de que pode passar, manda-a conduzir para fora da grade aonde escolhe um dos muitos char-à-bancs que alli estão, o qual o conduz por 200 réis até á praça de D. Pedro, devendo primeiro dar alguma cousa a quem lhe andou com a bagagem.
Chegado ao Porto, e logo que sáe do char-à-bancs, apparecem-lhe immensos portadores, que lhe conduzem a bagagem e guiam para a hospedaria a que se quizer dirigir.
As distâncias das hospedarias são em pontos que se paga este trabalho com 80 a 120 réis.
Durante o dia tracta de desfructar o que podér, e á noite vae ao theatro, se ha espectáculo em algum dos três que tem a cidade.
Antes de ir pata o theatro dispõe as cousas de maneira que pela manhã tenha prompto quem lhe conduza a baga­gem a tempo de estar a horas na praça de D. Pedro."
João António Peres de Abreu
Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal em 1865
Coimbra 1865

“…Flanavam pelo Aterro os dândis e as cocottes,
Corriam char-à-bancs cheios de passageiros
E ouviam-se canções e estalos de chicotes,
Junto à maré, no Tejo, e as pragas dos cocheiros…”
Cesário Verde (1855-1886) – Desastre in 'O Livro de Cesário Verde' 1887

"Os Char-à- bancs "traziam gente do Porto, a 80 ou 120 réis por cabeça, não segundo o tamanho e o peso da cabeça, mas segundo partiam da estação do Carmo ou da Praça Nova.”
Alberto Pimentel - Através do Passado 1888

Charabã fabricado por Thrupp and Co.
420 x 250 x 280 cm Palácio Nacional da Ajuda

Charabã - 1850
Viatura de caça. Trabalho inglês encomendado à firma Thrupp and Co.Inv. 420x205x280 cm
Mandado fazer para a Rainha D. Maria II.Veículo longo de caixa aberta, com quatro bancos e acabamentos requintados.
Museu Nacional dos Coches - núcleo de Vila Viçosa

O Break, brake ou breque, assentava em quatro rodas e foi desenhado sobretudo para ser conduzido no campo.
No entanto também foi utilizado na cidade sendo muitas vezes os antigos charabãs com bancos corridos laterais. Tanto podia ser utilizado como transporte de passageiros como era utlizado como transporte particular.


“Na manhã seguinte, às oito horas pontualmente, Carlos parava o break na Rua das Flores, diante do conhecido portão da casa do Cruges. (…) A criada dissera que o sr. Cruges morava agora na Rua de S. Francisco, quatro portas adiante do Grémio. Durante um momento, Carlos, desesperado, pensou em partir só para Sintra.”
Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888



Break fabricado por F. Teixeira, rua Borges Carneiro, Lisboa.
Dim. 300x170x200 cm Museu dos Coches Nucleo de Vila Viçosa

Joshua Benoliel (1873-1932)
Breack de Passeio no bebedouro da Avenida 24 de Julho 1911
Negativo de gelatina e prata em vidro 9x12cm AML



















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