Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















domingo, 2 de maio de 2010

os transportes terrestres 3

Os transportes urbanos privados ou de aluguer

Camilo Castelo Branco falando do carroção refere um conjunto de carruagens de cavalos utilizadas na segunda metade do século:

"No lapso de duzentos annos, o carrocão, parado no largo da Batalha, com a lança vermelha atravessada nas sogas dos ramalhudos bois, viu passar e desapparecer todos os vehiculos adelgaçados pelo cepilho do progresso. O carrocão escancarou as goelas, e riu do ame­ricano, da victoria, do phaetont, do landeau, da cale­che, do dog-cart, da tipóia, do coupé, do tilburi, do daumont, do brougham, do mail-coach, do pony-chaise, da groom, do break.
Camillo Castelo Branco(1825-1890) - "Noites de Insomnia offerecidas a quem não pode dormir" - publicação mensal Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Porto 1874


Não vamos abordar todos estas viaturas, já que algumas são nomes de modelos das que iremos abordar e outras como o Americano pertencem ao tipo de transportes sobre carris.

A sege

A sege era um veículo do século XVIII, de meia caixa com dois lugares e duas ou quatro rodas, puxado por uma parelha de cavalos, ligeira e fácil de manobrar tanto nas deslocações urbanas como em viagens.
Tornou-se no início do século XIX tão popular que o termo sege passou a designar qualquer viatura puxada por mulas.


A.P.D.G. - “Sketches of Portuguese Life, manners, costume and caracther”,
London printed for Geo. B. Whittaker, Ave Maria lane, 1826



rev. William Morgan Kinsey (1788-1851)b - Portugal Illustrated Letters, London, 1829




Seges de duas e quatro rodas do final do século XVIII Museu Nacional dos Coches Lisboa

“Eu vou mandar buscar a sege disse o visconde ; e retirou-se.
- Não vás, Elisa… disse o dominó, com uma voz imperiosa, semelhante a uma ameaça inexorável. Não vás… Porque, se vais, contarei a todo o mundo uma história que só tu hás-de-saber. Este outro dominó, que tu não conheces, é um cavalheiro : não temas a menor imprudência.
- Não me martirizes !„disse Elisa. Eu sou infeliz de mais, para ser flagelada com a tua vingança…Tu és Henriqueta, não és ?
- Que te importa a ti saber quem eu sou?!…
- Importa muito… Sei que és desgraçada!…Não sabia que vivias no Porto ; mas palpitou-me o coração que eras tu, apenas me chamaste Laura.
O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege não podia tardar, e convidando a filha para dar alguns passeios no salão do teatro. Elisa satisfez a carinhosa ansiedade do pai, dizendo que se sentia boa, e pedindo-lhe que se demorasse até mais tarde.”
Camilo Castelo Branco – Coisas que só eu sei - publicado em 1853 no jornal O Portuense
“Quando entrei para a carruagem pareceu-me avistar ao longe, vindo de Lisboa, um omnibus, talvez uma sege.”
Eça de Queiroz (1845-1900) – O Mistério da Estrada de Cintra 1870

“…uma sege de aluguer, que voltava para a cidade. O boleeiro deixava ir os cavalos a passo e assobiava; uma espécie de jóquei dormia ao lado dele; Carlos conheceu o boleeiro.
(…)Carlos e o boleeiro ajudaram Manuel Quintino a entrar na sege; dentro em pouco, faiscavam as pedras das calçadas sob as patas dos cavalos, fustigados com toda a alma por o boleeiro, cujo ardor o estímulo de uma gorjeta excepcional instigava. “
Júlio Diniz (1839-1871) – Uma Família Inglesa 1868
“Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados,
Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
Que triste a sucessão dos armazéns fechados!
Como um domingo inglês na city, que desterros!”
Cesário Verde – Nós –O Livro de Cesário Verde 1887

“Durante os dias da Abrilada estava ele (Afonso da Maia) nas corridas de Epsom, no alto de uma sege de posta, com um grande nariz postiço, dando hurras medonhos”
Eça de Queiroz (1845-1900) - Os Maias 1888


Uma sege de quatro rodas em frente ao Senhor de Matosinhos num postal de Alberto Ferreira
A Traquitana

Inicialmente era a sege de quatro rodas e dois lugares
Passou, por extensão a designar qualquer tipo de viatura ou viatura velha.

“E acolá, oh, suplício de Tântalo! vejo duas possantes e nédias mulas castelhanas jungidas a um veículo que, nestas paragens aos pé daqueloutros, me parece mais esplêndido do que um landau de Hyde Park, mais elegante do que um caleche de Longchamps, mais cômodo e elástico do que o mais aéreo brislta da Princesa Helena. E contudo — oh mágico poder das situações! — ele não é senão uma substancial e bem apessoada traquitana de cortinas.”
Almeida Garrett (1799- 1854) - Viagens na Minha Terra - prologo da 2ª edição 1846

“E com efeito a velha traquitana de rodas amarelas acabava de ser uma alcova de amor, perfumada de verbena, durante as duas horas que Carlos rolara dentro dela, pela estrada de Queluz, com a senhora condessa de Gouvarinho.”
Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888
"Affonso da Maia já estava recolhido. Sequeira e Steinbroken tinham partido; e D. Diogo, no
fundo da sua velha traquitana, lá fôra tambem a tomar ainda gemada, a pôr ainda o emplastro,
sob o olho solicito da Margarida, sua cozinheira e seu derradeiro amor. E os outros não tardaram a deixar o Ramalhete.
Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888

"O Canhoto, ao ouvir fallar d'uma gorgeta de libra, fez um grande espalhafato, rompeu ás chicotadas; e a velha traquitana lá partiu a galope, a escorrer d'agua, atroando a calçada."
Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888


“Jacinto e eu descemos ao pátio para acompanhar aquela debandada - e uma a uma, a traquitana do Dr. Alípio, a vitória das Albergarias a velha e imensa caleche dos Velosos, rolaram sob a noite, entre os nossos desejos de boa jornada.”
Eça de Queiroz (1845-1900) – A Cidade e as Serras 1901


" Evoco uma das recordações da minha descuidada infância, e facilmente remonto ao tempo em que eu conheci o legendário conde de Ferreira, anichado dentro da sua velha traquitana, puxada por umas velhas mulas, governada por um velho cocheiro, de cabellos brancos e chapéu de oleado. Frequentava eu n'esse tempo o lyceu nacional do Porto."
Alberto Pimentel, "Conde de Ferreira" in O Tripeiro, Porto, n.° 2 de 10 de Julho de 1908


O Cabriolé
O cabriolé é uma carruagem de dois lugares, duas rodas, com capota fixa ou movível e puxada por um cavalo. O condutor na parte de trás da carruagem, podia manobrar mais facilmente o cabriolé. Por isso embora usado no início do século XIX pela alta burguesia, tornou-se popular como carruagem urbana de aluguer, dando origem à palavra cab.




Frederick Childe Hassam- Horse Drawn Cabs at Evening, New York
17.72 inch wide x 14.17 inch high colecção privada



A Caleche ou caleça

Veículo de quatro rodas puxado por dois cavalos com dois bancos frente a frente e o cocheiro conduzindo na parte da frente.


Caleça – século XIX – fabricada em Portugal por Anastácio Fernandes e Cª, Lisboa
Museu Nacional dos Coches



Guys, Constantin (1802- 1892) - Trois femmes dans une caleche
Dessin plume, aquarelle 12x 14,9 cm
Musée des Arts Decoratifs Paris


Lami Eugène (1800-1890)
La calèche tirée par deux chevaux, dirigés par un homme avec un fouet
encre brune, lavis brun, plume (dessin), rehauts de blanc 114 x 172 cm.
musée du Louvre Paris


“Daí a dias, Afonso da Maia viu enfim Maria Monforte. Tinha jantado na quinta do Sequeira ao pé de Queluz, e tomavam ambos café no mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche azul com os cavalos cobertos de rede.”
Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888


A Barouche, (do latim birotus)

Viatura semelhante à caleche mas com duas rodas. Era puxada normalmente por quatro cavalos e levava no máximo seis passageiros. Tinha uma cobertura removível que cobria apenas a metade traseira do veículo. Era utilizada em ocasiões menos formais como por exemplo um passeio no parque ou no campo.
Na pintura "Hatchetts The White Horse Cellar, Piccadilly the Devonport Mail and a Barouche in the Foreground" de James Pollard (1792-1867), podemos observar simultaneamente uma caleche, uma barouche e uma mala-posta.


James Pollard 1792-1867
Hatchetts The White Horse Cellar, Piccadilly the Devonport Mail and a Barouche in the Foreground
óleo s/ tela 45.5 x 66 cm
The Berger Collection Denver USA
A Caleche dos cavalos brancos


A Barouche


A Mala-Posta


A Vitória

A Vitória assim chamada em honra da rainha Vitória de Inglaterra é uma carruagem de quatro rodas e dois lugares com um banco à frente para o condutor.
Era uma viatura sobretudo urbana e de grande popularidade nos finais do século XIX e inícios do século XX.


Vitória do século XIX fabricada em Portugal
dimensões 315 x 179 x 215 cm
Museu Nacional dos Coches Lisboa




autor desconhecido
Detalhes de fotografia da Praça de D. Pedro com uma vitória passando em frente da CMP
in Dias, Marina Tavares, Marques, Mário Morais
Porto Desaparecido Quimera, 2002

Foto de Aurélio Paz dos Reis 1903 CPF/DGARQ
publicada em MESQUITA, Mário João - A Cidade dos Transportes UP 2008


Béraud Jean (1849-1936) La Victoria
óleo s/ madeira 37,5 x 56,0 cm. Paris, musée Carnavalet


“Mas a grande ‘topada sentimental de Carlos’, como disse o Ega, foi quando elle, ao fim de umas férias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga espanhola, e a instalou numa casa ao pé de Celas. Chamava-se Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mês uma victoria com um cavalo branco e Encarnacion fanatizou Coimbra como uma aparição de uma Dama das Camélias.”
Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888
"E quando Carlos o ajudou a subir para a victoria, que elle quiz descoberta para ir communicando com a lua, Ega ainda lhe agarrou o braço para lhe fallar da Revista, d'um forte vento de espiritualidade e de virtude viril que se devia fazer soprar sobre o paiz...
Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888


“Depois de Ter, toda a manhã, apressado os encaixotadores, descortinado confortos novos para o abandonado solar, telefonado gordas listas de encomendas a cada loja de Paris - era com delícia que se vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vitória ou saltava para a almofada do fáeton, e corria ao bosque, e saudava a barba talmúdica do Efraim, e os bandós furiosamente negros de Vergame, e o Psicólogo de fiacre, e a condessa de Trèves na sua nova caleche de oito molas fornecida pelas operações conjuntas da Bolsa e da alcova.”
Eça de Queiroz (1845-1900) A Cidade e as Serras publicado em 1901


O Phaetont , Faeton ou Faetonte

É uma carruagem do século XVII e que evolui no século XIX para uma carruagem de quatro rodas, pequena, alta e descoberta, cujo nome deriva de Phaeton (“brilhante”) personagem da mitologia grega.
Phaeton era o filho de Hélios (deus do Sol) e da ninfa Climene. Um dia o pai entregou-lhe as rédeas do carro do Sol e ele aproximou-se tanto da Terra que originou um enorme e pavoroso incêndio dando o fogo ao homem. Zeus fulminou-o com um raio e Faetonte precipitou-se sobre o rio Eridano (rio Pó).



Audy Jonny (19e siècle) Le prince-président conduisant son phaéton au bois
Aquarelle 225 x 430 cm. musée de la voiture, Compiègne

“Uma casa no Campo Grande, e uma parelha de hanoverianas, e um phaeton, e uma berlinda, e cavalos árabes, e paixões ideais, e muitas paixões sem faísca de ..."
Camilo Castelo Branco – Amor de Salvação 1864

“Era Basílio que fizera entrar nobremente na platéia o seu phaeton! Direito na almofada, com o chapéu ao lado, uma rosa na sobrecasaca, continha com a mão negligente a inquietação soberba dos seus cavalos ingleses;
(…) Riram-se muito de um sujeito que passava governando atarantadamente dois cavalos pretos: - Que phaeton! Que arreios! Que estilo! Só em Lisboa!...”
Eça de Queiroz (1845-1900) O Primo Basílio 1878

“Aparece muitas vezes nas ruas de Lisboa guiando um phaeton, puxado por dois cavallos brancos.”
Maria Rattazzi – Portugal de Relance – Lisboa 1881

"Damaso,todo debruçado sobre Carlos, fazia-lhe o elogio da parelha ingleza, e d'aquelle phaeton que era a cousa mais linda que passeiava Lisboa."
Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888



O Dog-cart (de dog = "cão" + cart = "carroça")

É uma pequena viatura puxada por um cavalo, com duas rodas altas e equipado com uma cesta para acomodar os cães de caça.



“S. Exª passeou ontem as ruas de dog-cart. - Foi preso o Sr. Batalha Reis, antigo conferente do Casino. - O sr. marquês de Ávila e Carlos Bento foram.. “
Eça de Queiroz (1845-1900) Uma Campanha Alegre 1871/72
“E no dog-cart, com aquela linda égua, a ’ Tunante’ ou no faetonte com que maravilhava Lisboa, Carlos lá partia em grande estilo para a Baixa, para o ‘trabalho’.”
Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888

"Oh vôvô, gritou Carlos já excitado, dize ao Villaça, anda. Não é verdade que eu era capaz de governar o dog-cart?"
Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888

“À entrada para o hipódromo, abertura escalavrada num muro de quintarola, o faetonte teve de parar atrás do dog-cart do homem gordo — que não podia também avançar porque a porta estava tomada pela caleche de praça, onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava furiosamente com um polícia.”
Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888



O Dog-cart podia ainda ter 4 rodas como no conhecido quadro de Toulouse –Lautrec.

Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901).
Un dog-cart 1880
óleo sobre madeira 27 x 35 cm
Musée Toulouse-Lautrec, Albi
Um dog-cart na Avenida da Boavista

O Landau
Viatura de 4 rodas, com cobertura amovível e dois bancos de passageiro colocados frente a frente. Era a viatura usada nas cerimónias oficiais.



Landau - Século XIX fabricado por Mulbacher de Paris
dim. 400 x 190 x 205 cm Museu Nacional dos Coches

Lima, Alberto Carlos, [18--]-1949
Landau conduzindo um grupo de senhoras
Negativo de gelatina e prata em vidro 9x12cm AML

“Eles pedem ao seu país uma coisa bem simples: não é um palácio para viver, nem um landau para passear, nem fardas, nem comendas! É carne! ...”
Eça de Queiroz (1845-1900) Uma Campanha Alegre 1871-72


O coupé ou Cupê

Viatura com quatro rodas, coberta e o único passageiro que pode acolher vai virado para a frente do veículo, atrás do condutor, na frente do veículo.
Normalmente existe um vidro, a separar o passageiro e o condutor, que é protegido da sujidade da estrada.
O seu nome provem do verbo francês couper - cortar.
Era uma viatura particular mas também utilisada como trem de praça.




Coupé do século XIX fabricado por Nils Hansen e filho – Lisboa
dim. 330 x 170 x 190 cm Museu Nacional dos Coches Lisboa

Guys Constantin Ernest Adolphe Hyacinthe (1802-1892) -
Coupé attelé d'un cheval allant vers la droite
encre brune, lavis brun, mine de plomb, plume (dessin) 22,5 x 33,4 cm
musée du Louvre Paris

Coupé na praça da Batalha


Coupé Avenida Fontes Pereira de Melo em frente ao Palácio Sabrosa
Paulo Guedes (1886-1947)
Negativo de gelatina e prata em vidro13x18cm AML

“Enfim o coupé chegou. E ele desceu, com a garganta apertada numa angústia horrível. ..... Era um coupé quase novo, fofo e asseado, que rolava sem ruído. ...”
Eça de Queiroz (1845-1900) – Alves & C.ª (1925 publicação póstuma)

“Era um coupé pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma parelha côr de castanha.
O cocheiro, sem libré, estava em pé, de costas para nós, diante dos cavallos.”
Eça de Queiroz (1845-1900) –O Mistério da Estrada de Cintra 1870

“Até tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, que num coupé, credo, morria-se. “
Eça de Queiroz (1845-1900) O Primo Basílio 1878

“Ao fim da Rua do Ouro o coupé parou num embaraço de carroças,…”
Eça de Queiroz (1845-1900) O Primo Basílio 1878

"O coupé partiu, ia entrar no largo da Graça, quando uma caleche de praça, aberta, o
cruzou a largo trote. Dentro um sujeito de chapéo baixo ia lendo um grande jornal."

Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888


Lisboa – Hotel Central – Praça Duque da Terceira
Foto de Josuha Benoniel - AML


“Entravam então no peristilo do Hotel Central - e nesse momento um coupé da Companhia, chegando a largo trote do lado da Rua do Arsenal, veio estacar à porta. […]Craft e Carlos afastaram se, ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar."
.....................
“O coupé parara á porta do Hotel Central. Damaso saltou, correu ao guarda portão.
...................................
"Durante essas tres ultimas semanas vira-a duas vezes: uma occasião, estando a conversar com o Taveira á porta do hotel Central, ella chegara a uma das varandas, de chapeu, calçando uma grande luva preta; d'outra vez, havia dias, por uma tarde de chuva, ella viera parar á porta do Mourão, ao Chiado, n'um coupé da Companhia, e ficara esperando emquanto o trintanario levava dentro á loja um embrulho que tinha a fórma d'um cofre, apertado com uma fita vermelha."
........................................................................................
” – Iam pelo Chiado abaixo; anteontem, às duas horas… Estou convencido que iam para Sintra. Levavam uma maleta no landau, e atrás ia uma criada num coupé com uma mala maior… Aquilo cheirava a ida a Sintra. E a mulher é divina!”
Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888

Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua.
-
Mande-me chegar um coupé.
Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lançou logo a tipoia. - E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir á egreja da Graça.
................................................................................
- Carlos apeava-se d'um coupé de praça, que viera parar, de vagar, á esquina da Patriarchal, com os stores verdes mysteriosamente corridos.
Eça de Queiroz (1845-1900) Os Maias 1888


O fiacre

O fiacre era inicialmente uma carruagem fechada de quatro lugares e quatro rodas, mas a palavra passou a designar qualquer viatura de aluguer.
O nome parece ter origem no hotel Saint-Fiacre em Paris junto à qual estacionavam as primeiras carruagens de aluguer. São Fiacre é ainda, em França, o patrono dos taxistas.
Em Portugal o fiacre refere-se a estas carruagens de aluguer.


Jean Béraud (1849-1935) Chez moi! c.1890
Óleo s/ tela 40.3 x 31.8 cm colecção privada



Frederick Childe Hassam (1859-1935)
Fiacre Rue Bonaparte 1888,
Oleo s/ tela colecção privada


Alfredo Keil ( 1850-1907) Restauradores 1889
Óleo sobre cartão 18x14 cm Museu do Chiado

“Padre Joaquim entrou num fiacre com o guia posto à sua ordem pelo ministro português. Apearam ao portão do prédio; perguntaram ao porteiro se o morador do quinto andar, lado esquerdo, estava em casa. Saiu do interior da loja, residência do porteiro, o criado de Afonso, o qual, reconhecendo padre Joaquim, se lançou a ele de modo que o ia afogando ao primeiro abraço.”
Camilo Castelo Branco (1825-1890) – Amor de Salvação1864

“Enfim, partimos! Sob a doçura do crepúsculo que se enublara, deixamos o 202. O Grilo e o Anatole seguiam num fiacre atulhado de livros, de estojos, de paletós, de impermeáveis, de travesseiras, de águas minerais, de sacos de couro, de rolos de mantas; e mais atrás um omnibus rangia sob a carga de vinte e três rolos de mantas; e mais atrás um omnibus rangia sob a carga de vinte e três malas.”
Eça de Queiroz (1845-1900) – A cidade e as Serras pub. póstuma 1901

Os trens de praça ou de aluguer
Estava dando meio-dia, o sol de julho abrasava as ruas: e as lojas fechadas, a gente nos seus fatos de Domingo, as carruagens de praça abrigadas no lado à sombra, tudo dava uma sensação maior de calma e de inércia.”
Eça de Queiroz – Alves & C.ª (pub. póstuma)
As tipoias
As tipóias eram trens de praça, de quatro rodas e puxadas por uma parelha com a possibilidade de abrir a capota..
Eça de Queiroz refere frequentemente o termo :
"Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua.
- Mande-me chegar um coupé.
Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lançou logo a tipoia. - E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir á egreja da Graça."
......................................................
Mas era facil encontral-o pelo Chiado e pelo Loreto, a rondar e a farejar - ou então
no fundo de tipoias de praça, batendo a meio galope, n'um espalhafato de aventura.
......................................................
E n'essa tarde, como não havia ainda outro escondrijo, tinham abrigado os
seus amores dentro d'aquella tipoia de praça.

Pararam á porta do theatro da Trindade no momento em que, d'uma tipoia de praça, se
apeava um sujeito de barbas de apostolo, todo de luto, com um chapéo de largas abas
recurvas á moda de 1830."



"Tipóias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia e tacão alto, com os movimentos derreados, a palidez clorótica duma degeneração de raça; nalguma magra pileca, ia trotando algum moço de nome histórico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos de praça gente estirava-se num torpor de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos sobre as suas altas rodas, era como o símbolo de agriculturas atrasadas de séculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burguês enfastiado lia nos cartazes o anúncio de operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operários havia como a personificação das indústrias moribundas..."
Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro 1875

Tipóia no Hotel Metrópole entre 1913 e 1916
Negativo de gelatina e prata em vidro: 18x24 cm AML


Benoliel, Joshua, 1873-1932 As éguas trotadoras do Conde de Fontalva1907
Negativo de gelatina e prata em vidro 9 x 12 cm
Ilustração Portuguesa, 1907, 20 de Maio, p.622


Bastos, Artur Inácio As tipóias de Lisboa
Negativo de gelatina e prata em vidro 9 x 12 cm AML


coupé de aluguer no Largo da Graça Lisboa
Bárcia, José Artur Leitão, (1871? – 1945)
Negativo d gelatina e prata em vidro 9x12cm AML

Extracto do Regulamento dos trens de Praça do Porto 1869

“- § 2.° Entendem-se por trens de praça, os que forem tomar lugar nas estações designadas pela Camara.
§ 3.° Os trens d‘ aluguer que não forem de lotação superior a quatro lugares, terão os números pintados na aba da cadeira do cocheiro, d‘ ambos os lados, também com letras brancas em fundo preto. Todos os outros serão numerados na parte posterior como os trens de praça.
Art. 109.° As estações publicas de trens, destinados a conducção de passageiros serão nas praças da Batalha, — de D. Pedro, — da Trindade,—de D. Pedro V, — ruas, Occidental do Campo dos Martyres da Pátria, — dos Inglezes, — de Miragaya,— Campo Pequeno,— e na Foz, ao fundo da rampa do Castello.
§ único: O numero e local das estações poderá ser alterado, segundo parecer conveniente á Camará, a bem do serviço publico.”

“Art. 112.° O serviço de carros chars-à-bancs, diligencias, e outros transportes de lotação superior a quatro lugares, e que não tiverem hora certa de corrida, será feito por ordem, conservando-se todos em linha uns após outros, conforme pertencer a cada um, segundo o local para onde fizerem as suas corridas.
§ 1.° Logo que qualquer dos referidos trens chegar ás estações, tomará o seu lugar em seguida áquelle, ou áquelles que lá se acharem.
§ 2.° Findas as corridas diárias, o trem, ao qual competisse a vez para a corrida, conserval-a-ha para o dia seguinte.”
Codigo de Posturas Municipaes do Porto 1869


Postura de 1888

“Será considerado perímetro da cidade toda a área compreendida dentro dos seguintes locaes, como pontos de limites: margem direita do Rio Douro, desde o Esteiro de Campanhã até á barreira do Trem do Ouro, igreja de Lordello, rua da Boavista até á rua da Mazorra, praça do Exercito Libertador, rua da Rainha até á Arca d'Agua, rua do Montebello até á rua do Amparo, rua do Costa Cabral até ao hospital de alienados, e d'ahi pela estrada até a ponte da via férrea na rua de S. Roque da Lameira, e estação dos caminhos de ferro em Campanhã.
Sendo o serviço para Villa Nova de Gaya, as passagens da ponte serão pagas pêlos passageiros
Os preços de noite só poderão ser exigidos depois das sete horas nos mezes de outubro a março inclusive, e depois das nove nos mezes de abril a setembro inclusive.
Art.469.0 - No transito pelas ruas da cidade e estradas, do concelho do Porto, todos os trens caminharão sobre o lado esquerdo dando, a direita, ao centro, do, caminho, aos carros e trens que encontrarem, quer seja, caminhando na mesma direcção quer em direcção oposta.”
Porto e paços do concelho, 30 de março de.1888 —António Augusto Alves de Souza secretario, subscrevi. A commissão executiva da camara municipal do Porto: António de Oliveira Monteiro, presidente
António de Azevedo Maia Egydio Teixeira-Duarte, João Baptista de Lima Júnior , Manoel Carneiro Alves Pimenta.

"Na Praça Nova estacionam aproximadamente uma dúzia de velhas e estropiadas carruagens. Os cocheiros perguntam sempre para onde se vae e quanto se dá: e, se se lhe offerece o preço ordinário, e a direcção lhes não agrada recuzam a proposta. Duas vezes deixaram de me levar por 2$500 reis, calculando que o passeio proposto levaria duas horas e meia a trez. E quando lhes contestava isto, respondiam-me levantando os hombros: Está assim. Que quer, minha senhora?»
Lady Jackson, (Catherine Hannah Charlotte Elliott) - Fair Lusitania – Formosa Lusitânia, traduzida e anotada por Camilo Castello Branco 1878
"

Cabs (trens: stands at the Central Station, in the Praça de Dom Pedro, Praça da Batalha, Praça de Carlos Alberto and Rua do Infante Dom Henrique).
(Guia Baedeker – Spain and Portugal Handbook for Travellers by Karl Baedeker - 1908)
Na praça de D. Pedro

Na Praça da Batalha


Na Praça dos Voluntários da Rainha

Na Praça Carlos Alberto






















































3 comentários:

  1. Completo, instrutivo e delicioso... Sempre que entra literatura, ainda mais dos mestres portugueses, o tema ganha em glamour. Do Brasil, o meu abraço. Ana

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