Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 9 de junho de 2010

Lisboa: do Jardim Público às Avenidas Novas 1

Nota Prévia: embora este blogue se chame Do Porto e Não Só, e seja apesar de tudo, centrado na minha cidade, abro aqui uma nova etiqueta “Cidades”, começando pela Lisboa do início do século XX. Não pretendo ser exaustivo sobre um assunto já mais que tratado por diversos autores. Apenas pretendo de uma forma despretensiosa ilustrar algumas dessas abordagens com saudações aos meus (muitos) amigos Lisboetas.

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Rosa Araújo e a Avenida da Liberdade por Bordallo Pinheiro O António Maria de 28-8-1879

Lembro-me nos finais dos anos 50, do inesquecível João Villaret, na altura da construção do Metro de Lisboa e da abertura do túnel da Avenida da Liberdade, encarnando Rosa Araújo cantar numa Revista uma canção, com um óbvio sentido de crítica ao regime de Salazar:

Fiz a Avenida
Rasgada, comprida
Qual estrada florida
num hino à claridade
No fim de tudo
Cavaram, furaram
pra’abrir um canudo
E foi-se a Liberdade.

Os homens cultos

Desta nova geração
P'ra educarem os adultos
Que não têm instrução
Idealizaram uns cartazes bestiais
Na Avenida os afixaram a chamar avós e pais.
Os tais cartazes foram úteis a valer
Analfabetos? Nem um só deixou de os ler…

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Abertura do túnel do metro na avenida da Liberdade AML

O Passeio Público

Em 1764, e no seguimento da reconstrução Pombalina de Lisboa Reinaldo Manuel, então arquitecto da cidade, desenha o Passeio Público “sobre as então chamadas Hortas da Cera, terras húmidas e alagadiças, que foram elevadas, deitando-se para lá os entulhos do Terramoto, e plantados os primeiros freixos, oferta de Jacomo Ratton, que os mandou vir da sua quinta de Barroca d’Alva;” (texto da Junta de Freguesia de S. José)

No início do Século XIX o Passeio Público não tem ainda grande frequência como escreve o sacerdote sueco Carl Israel Ruders (1761-1837):

«(...) O jardim é grande, bonito e asseado mas no velho gosto francês (...)
…Apesar disso não me parece que os portugueses gostem tanto de passear como os estrangeiros (...) aos domingos ainda lá aparecem algumas mulheres das classes médias, mas senhoras de sociedade jamais.
O costume de fechar o jardim, ao toque das ave-marias também me parece em contradição flagrante com o fim a que ele se destina.»
Carl Israel Ruders, Viagem em Portugal, 1798-1802.

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F. Constantino.Plano geral da cidade de Lisboa em 1812

Escala [ca. 1:12000], 5000 Palmos [portugueses] = [9,00 cm]. - [Lisboa : s.n.], 1812. - 1 pl. : color. ; 36,90x52,20 cm http://purl.pt/1717 BND

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F. Constantino.Plano geral da cidade de Lisboa em 1812 Detalhe

É, contudo, na Lisboa Romântica de D. Maria II e de D. Fernando II, que o Passeio ganha nova vida e se torne mesmo o passeio predilecto de Lisboa.

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W.B. Clarke (desenho)Planta geral de Lisboa 1833

Gravura a água-tinta 420 x 350 mm Museu da Cidade

Cabe então em 1835, ao arquitecto municipal Malaquias Ferreira Leal (1787/90-1859) a renovação do Passeio Público, transformando-o num aprazível jardim fechado com um gradeamento e com portões de ferro forjado com guarnecimentos de bronze.

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O topo Norte do Passeio, ao cimo da rua central, era rematado por uma magnífica cascata, obra ali colocada segundo o plano de melhoramentos de Malaquias Leal em 1840. Tratava-se de um pavilhão de pedra ladeado por duas escadarias que conduziam ao terraço, de onde se usufruía de privilegiadas vistas sobre a baixa e o Tejo. Sob este, na fachada interior, abriam-se três grutas cobertas de folhagem e plantas aquáticas. Na do centro podia admirar-se uma estátua da Deusa Anfitrite, Rainha do Mar, deitando água de um vaso que sustinha nos braços, obra do escultor Francisco Assis Rodrigues, famoso discípulo de Machado do Castro. Frente às grutas, num lago circular, havia dois cisnes, também de pedra e do mesmo autor, que pareciam nadar. As grutas eram caprichosamente enfeitadas com seixos e conchas, que formavam lindíssimos desenhos. (J.F. S. José)

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Malaquias Ferreira Leal - Projecto para a cascata norte do Passeio Público 3 de Out. 1834

Tinta-da-china e aguarela s/papel 458 X 653 mm Museu da Cidade

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Cascata do Passeio Público - Desenho do natural de Cazellas in O Occidente n.º 159 de 21 de Maio de 1883

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Celestine Brelaz Lenoir (1811-1892) - Promenade publique (detalhe) em Dix vues de Lisbonne 1832

”Em 1836, a Rainha D. Maria II, confiou ao Município a inteira administração do Passeio Publico, de cujas obras de melhoramentos se passaria a encarregar.
Já em 1838 estava o Passeio gradeado a toda a volta e havia sido construído à entrada do lado sul, um lago enorme, que fazia o encanto dos lisboetas desse tempo. O povo da altura cantava:
“Fui ao Passeio ver o repuxo
Fiquei admirado de ver tanto luxo.”

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Litografia colorida George Vivian. Séc. XIX Dim.: 260mm X 365mm Museu da Cidade

“Logo ao pé do tanque encontraram Basílio. [...] Na água escura e suja as luzes do gás torciam-se até uma grande profundidade. As folhagens em redor estavam imóveis, no ar parado, com tons de um verde lívido e artificial.” Eça de Queiroz - O Primo Basílio, 1878

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Lago do repuxo no Passeio Público do Rossio - 1ª metade do séc. XIX

Litografia segundo daguerreótipo, Barreto, ca 1844

Junto ao pedestal do repuxo estavam colocadas estátuas de tritões e sereias da autoria do canteiro Alexandre Gomes, e concluídas por João Gregório Viegas quando a Câmara as colocou no Passeio Público.

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Alexandre Gomes João Gregório Veiga - Grupo escultórico do Passeio Público

pedra de Lioz - 2,450 x 1,700 m Lago do Jardim - Museu da Cidade

Ao centro havia outros lagos com esculturas do Tejo e do Douro, depois transportadas para a Avenida da Liberdade.

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Avenida da Liberdade Lagos com as esculturas de Alexandre Gomes alegóricas ao rio Tejo e Douro

Anónimo Negativo de gelatina e prata em vidro18 x 24 cm e 13x18 AFML

Mas terá sido D. Fernando II a colocar o Passeio Público no hábito da burguesia lisboeta, como é retratado por Leonel Marques Pereira vinte anos depois da chegada de D. Fernando a Portugal.

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Leonel Marques Pereira (1828 - 1892) D. Fernando no Passeio Público 1856
óleo sobre tela 97 x 130 cm Palácio Nacional da Pena (Sintra)

“Este rei chama-se D. Fernando. E pae do actual soberano de Portugal e é adorado pelos seus súbditos.

O povo, que encontra quasi sempre a palavra apropriada, chama-lhe o rei-artista. Eu dar-lhe-hei antes o nome de artista-rei.

É necessário vel-o no Passeio Publico, com os olhos semi-cerrados, meneando lentamente a cabeça, inebriando-se de musica, com muito mais gosto e critério do que nenhum dos que o rodeiam. Este príncipe devia ter nascido nos tempos gloriosos de Athenas, quando as artes attingiam o cumulo do esplendor nas margens- da Jonia. Porque é um amigo do sol, o sr. D. Fernando !

Pagou ao paiz a sua divida de principe e vive actualmente á sua vontade, como burguez, como artista, como caçador, retirado no seu Castello da Pena,—um verdadeiro ninho de águia — onde a sua mais agradável distracção é a companhia da esposa e sobrinhas.” - Portugal de Relance (Portugal a Vol d’Oiseau)

“Mais chegado ainda, quasi em baixo, bem que as franjas das suas grandes arvores não attinjam esta altura, está o vasto jardim chamado Passeio Publico com seus lagos e fontes, cysnes e estatuas, alegretes de flores e passeios sombrios. O tout ensemble forma um quadro de tão deliciosa magnificência, que não haverá quem deixe de exclamar como eu, no arrebatamento de taes bellesas: Lisboa é, sem duvida, uma explendida cidade !”

Catarina Carlota Lady Jackson - A Formosa Lusitânia –Versão do Inglez, prefaciada e anotada por Camillo Castello Branco, Porto Livraria Portuense editora 1877

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Filippe Folque(1800-1874), Atlas das Cartas Topográficas de Lisboa, 1856 –1858 AML

A Marquesa de Rio Maior descreve-lo-ia nestes termos: “Um belo dia (...) encontrei o Passeio transformado (...) um elegante gradeamento substituíra o muro de pedra, entrava-se por um portão também de ferro (...) havia esplêndidas acácias logo à entrada (...). E um grande lago com repuxo (...) depois ao centro outros dois lagos com o Tejo e o Douro (...) e chorões. Um coreto magnífico para música. Muitas árvores raras (...) e ao fundo, pela altura da Rua das Pretas, uma linda cascata com avencas.” Branca de Gonta Colaço, Memórias da Marquesa de Rio Maior, Lisboa, 1930, p. 54. (em Marieta Dá Mesquita - Lisboa no século 19 –intervenções urbanas conferência na fauusp em 14 de maio de 2008 sob a coordenação do professor Murillo Marx)

Em Agosto de 1851, com a chegada do gás, ficaram também célebres as iluminações do Passeio.

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“A porta do jardim fecha-se ao anoitecer; mas no Passeio de cima se nos offerece uma scena animadíssima logo que Lisboa se illumina. O gaz nas ruas, a luz jorrando de todas as janellas, ou tremulando na folhagem das arvores circumpostas,o lampejar radioso dos candieiros semiIhante á popa de um navio, o murmurio da confusa toada que se ergue da cidade, áquella hora em que milhares de pessoas divagam a gozar a aragem da noite.” Catarina Carlota Lady Jackson - A Formosa Lusitânia –Versão do Inglez, prefaciada e anotada por Camillo Castello Branco, Porto Livraria Portuense editora 1877

“Depois, para fazer logo tapar as bocas do mundo, foram ao Passeio Público – onde havia essa noite iluminação e fogo preso, indo primeiro tomar sorvete ao Martinho. ……

……Mas as noites piores eram as que passava no Passeio Público: levava-o lá o horror de estar só; mas aquela solidão entre gente, sob árvores alumiadas a gás,

vendo tanto homem levando uma mulher pelo braço, era-lhe mais dolorosa que a sua sala deserta e fria, com o seu piano fechado.” Eça de Queiroz - Alves & C.ª Livraria Lello & Irmão Porto 1952

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A entrada do Passeio Público - O Occidente n.º 147 21 de Janeiro 1883

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Entrada sul e principal do Passeio Público

“Se sahir do Rocio pelo lado occidental, defronta-se com a formosa entrada do Passeio Publico, o Passeio par excellence, onde grande parte dos lisbonenses se ventilam e passeiam por noites estivas até ás onze horas, ouvindo, ás vezes, as harmonias das musicas regimentaes e particulares, que tocam em um coreto central; ou, o que é melhor, «segredando meigas babozeiras» aos condescendentes ouvidos das damas ; ou ainda— o que é mais provável — pavoneados por aquelle tremulo vacillar com que a luz das estrellas se mescla aos lampejos do gaz, filtrando-se pela folhagem das curvas ramarias, dardejam olhares apaixonados que são apaixonadamente correspondidos, de traz de um leque fluctuante, em quanto as mamãs estão entretidas com a maledicência de alguma amiga.”Catarina Carlota Lady Jackson - A Formosa Lusitânia –Versão do Inglez, prefaciada e anotada por Camillo Castello Branco, Porto Livraria Portuense editora 1877

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José Artur Leitão Bárcia, [1871?]-1945 , Alameda do Passeio Público AFML

O passeio, a promenade não é apenas uma distracção mas uma necessidade de representação social e um acto de afirmação pessoal, de ver e ser visto.

Será o Jardim Público dos meados do século XIX, e em Lisboa o Passeio Público, que assumirá esta dupla funcionalidade de lugar de recreio e espaço de representatividade social: salão de convívio elegante, e, simultaneamente, palco selectivo do teatro urbano.

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Eduardo Portugal1900-1958 - Alameda principal do Passeio Público ,AFML

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Rua do Príncipe, actual rua 1º de Dezembro. Vê-se um dos portões do Passeio Público 1882 AFML

A Avenida da Liberdade

«A bela Avenida foi com meia dúzia de jardins muito bem tratados e os americanos eléctricos o que de melhor nos trouxe a civilização». O Occidente, 20 Junho 1906.

“Subitamente, Ega parou: — Ora aí tens tu essa Avenida! Hem?... Já não é mau! Num claro espaço rasgado, onde Carlos deixara o Passeio Público, pacato e frondoso — um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um traço cor de açúcar na vibração fina da luz de Inverno: e os largos globos dos candeeiros que o cercavam, batidos do Sol, brilhavam, transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar.Dos dois lados seguiam, em alturas desiguais, os pesados prédios, lisos e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde negrejavam piteiras de zinco, e pátios de pedra, quadrilhados a branco e preto, onde guarda-portões chupavam o cigarro: e aqueles dois hirtos renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as famílias que outrora se imobilizavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa «da uma», ouvindo a Banda, com casimiras e sedas, no catitismo domingueiro. Todo o lajedo reluzia como cal nova. Aqui e além um arbusto encolhia na aragem a sua folhavam pálida e rara. E ao fundo a colina verde, salpicada de árvores, os terrenos de Vale de Pereiro, punham um brusco remate campestre àquele curto rompante de luxo barato — que partira para transformar a velha cidade, e estacara logo, com o fôlego curto, entre montões de cascalho. Mas um ar lavado e largo circulava; o Sol dourava a caliça; a divina serenidade do azul sem igual tudo cobria e adoçava. “ Eça de Queirós, Os Maias

A ideia de rasgar uma Avenida que seguisse do Passeio Publico, pelas terras do Vale Pereiro até S. Sebastião da Pedreira e Campo Pequeno, foi enunciada já em 1859 pelo então Presidente da Câmara, Júlio Pimentel cabendo ao engenheiro municipal Pierre Joseph Pezerat (1801-1872), autor de vários projectos e estudos municipais o projecto integrado no "Projecto de rectificação e alargamento de ruas" (1860?).

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ROCCHINI, Francisco, 1822-1895 panorama tirado de Vale de Pereiro para a Avenida da Liberdade 1881.p&b ; 34x147 cm. - Data segundo a dedicatória de ex. da BN. - Grande panorâmica constituída por montagem de 5 fotografias

Data de 1870 o 1º projecto de abertura de uma avenida ligando o Passeio Público ao Campo Grande, da responsabilidade do então Ministro das Obras Públicas, Joaquim Tomás Lobo D‘ Ávila (1819— 1901,engenheiro formado na École Imperiale des Ponts et Chaussées de Paris.

Com a morte em 1872 de Pezerat, é Frederico Ressano Garcia (1847-1911) que assume a chefia da Repartição Técnica em 1874.

No ano seguinte é apresentada à Câmara Municipal pelo Ministro das Obras Públicas Saraiva de Carvalho, uma proposta do arquitecto Domingos Parente da Silva de uma avenida ligando o Rossio a São Sebastião.

Em Dezembro de 1873 José Isidoro Viana (1825-1902) – vereador da Câmara Municipal de Lisboa – referiria a necessidade da abertura de uma “(...) grande avenida que deve ter principio no extremo norte do passeio do Rocio e a finalizar na circunvalação para dar regular acesso, boa servidão e, estabelecimento de uma condigna entrada em harmonia com a importante disposição da cidade baixa, mandada executar pelo Marquês de Pombal.” Sessão de 18 de Dezembro de 1873, Archivo Municipal, n. 60, p. 1913. (Marieta Dá Mesquita op.cit.)

FOLQUE, Filipe, 1800-1874 Carta topographica da cidade de Lisboa 1871 Escala 1:10000. color. ; 81x52 cm http://purl.pt/3525 BND

Mas é em 1879 que José Gregório de Rosa Araújo (1840-1893), presidente da Câmara Municipal de Lisboa, apresenta a proposta, que se irá concretizar, de uma “Grande Avenida Passeio Publico ao Rocio” com 1.276 m de comprimento, 89,5m de largura e terminando numa "... praça circular de 200 m de diâmetro d'onde irradiam quatro ruas de 30m - uma em direcção ao Rato, outra ao local do novo edifício da Penitenciária e Entre-Muros, outra para Santa Marta e finalmente outra para os sítios do Campo Grande e Benfica".

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1.º Plano de Ressano Garcia 1879

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O Plano da Avenida aprovado em 1879 O Occidente n.º 99 de 21 Setembro 1881

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Planta de arborização da avenida da Liberdade. Esc. 1:1000. – [189-]. – ms: tela: color, 178 x 57 cm
Câmara Municipal de Lisboa in Catálogo da Exposição Lisboa de Frederico Ressano Garcia 1874-1909, FCG Lisboa 1989

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Perfis transversais da avenida da Liberdade. Repartição Técnica. Esc. 1:200. – [188-]. – ms: tela: color,15 x 32 cm CML

in Catálogo da Exposição Lisboa de Frederico Ressano Garcia 1874-1909, FCG Lisboa 1989

Sendo a proposta aprovada e perante as dificuldades financeiras da CML o próprio Rosa Araújo investe capital próprio para que a obra se possa realizar.

Ainda em 1879 iniciam-se as obras de demolição de vários prédios entre os quais o Teatro de Variedades e a praça de Touros do Salitre.

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Lisboa – Estado actual das obras da Avenida da Liberdade (desenho do natural de Antonio Ramalho)

O Occidente n.º 99 21 Setembro 1881

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Melhoramentos de Lisboa – Avenida da Liberdade, Praça da Alegria de Baixo, Passeios demolidos (segundo uma photographia de Rocha)

O Occidente n.º 127 Julho de 1882

Fialho de Almeida (1857-1911), sempre muito crítico da Avenida escreve em 1882:

“(…) Ou derivavam no eterno motivo: — Ora veja como vão adiantadas as obras da avenida!

—Ah, muito! Ainda hontem a casa amarella, acolá adeante, estava em pé, e só lá vejo agora as paredes das lojas.

O esculptor punha-se a explicar a avenida, dizia o golpe de vista decorativo de quando ella fosse cheia de construcçoes, o palácio" de crystal com as suas naves radiando da rotunda em cúpula, torres nos ângulos com janellas de balaustres marmóreos, arvores de sombra, palácios de mil architecturas, bazares scintillantes, estatuas e jogos d'agua . . . — Para esse tempo, dizia Judith fazendo olhos tristes, já não sou viva, que pena!” Fialho d’Almeida A cidade do Vício, Madona do Campo Santo, Porto Ernesto Chardron 1882

Em 1882 procede-se à demolição de prédios fronteiros ao Passeio Público (Praça da Alegria) à demolição das grades que delimitavam o Passeio Público;

No ano seguinte procede-se à demolição da Cascata que rematava a Norte o Passeio Público.

Miguel Carlos Correia Pais, engenheiro, autor de estudos e projectos sobre Lisboa, publica em em 1884/85 uma série de artigos no Diário de Notícias, depois reunidos sob o título «Engrandecimento da Avenida da Liberdade», os n.º 1 e 2 publicados em 1886 e o n.º3 em 1887.

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Engrandecimento da Avenida da Liberdade proposto pelo engenheiro

Miguel Carlos Correia Paes.

A parte a tinta preta representa o projecto approvado.

A parte a tinta vermelha é a alteração que se propõe.

«Estive sempre convencido de que a grande Avenida devia ser traçada em linha recta, desde o fim da rua do Príncipe até à estrada da circunvalação; mas se o tivesse dito há mais tempo, poucos me acreditariam, porque a minha autoridade moral é limitada;…

(...) A Avenida da Liberdade, desde a sua origem até ao principio da Rotunda tem a extensão de 1270 metros e a Rotunda 200 de diâmetro, mas como ela não pode ter a mesma inclinação que a Avenida, porque seria inconveniente uma grande praça tão inclinada, fica horizontal ou quase, e, portanto, impossível de ser vista de qualquer ponto inferior distanciado dela, e o monumento ao Marquês de Pombal, segundo a sua altura ficará oculto no todo ou em parte.

Além disso, os terrenos adjacentes são muito acidentados, e a rotunda acha-se, por assim dizer, enterrada entre eles; por todas estas poderosas razões é que proponho a sua eliminação, e, se estivesse em meu poder, ninguém duvide de que desapareceria infalivelmente.

(...) Mesmo como passeio para gente de pé, a actual Avenida é pouco extensa, para carruagens e cavaleiros é pequeníssima e necessita absolutamente ser prolongada: mas não é este o aspecto que se apresenta a sua principal vantagem, mas sim a de ligar directamente e por meio de rampas acessíveis ao grande movimento o centro da cidade(...) com a mais importante cumiada de Lisboa...»

Miguel Correa Pais, Engrandecimento da avenida da Liberdade, Opúsculo II, Lisboa, 1886

Apesar das objecções de Miguel Correia Pais, o Plano e a concretização da Avenida avança.

Ainda em 1878 é publicada pela Direcção Geral dos Trabalhos Geodésicos, a "Carta topographica da Cidade de Lisboa e seus arredores, referida a 30 de Junho de 1876", de Filippe Folque, na escala de 1:5000 que já integra o anteprojecto aprovado pela Câmara Municipal em 1877. Esta carta será posteriormente rectificada e publicada em 1884 sob o título "Carta topographica da Cidade de Lisboa e seus arredores, referida ao anno de 1879".

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FOLQUE, Filipe, 1800-1874 Carta topographica da cidade de Lisboa [Material cartográfico / Filippe Folque. - Escala 1:10000. - [Lisboa : Direcção Geral dos Trabalhos Geodésicos], 1871.

- 1 carta : color. ; 81x52 cm http://purl.pt/3525

Na planta de 1888 está já definida a Avenida da Liberdade, bem como as vias transversais que constituem o Bairro Barata Salgueiro e o remate da cidade no Parque da Liberdade.

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Detalhe da planta de 1888

Entretanto Ressano Garcia projecta a continuidade do Plano desde a Praça Marquês de Pombal até ao Campo Grande.

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Planta parcial da Cidade de Lisboa entre a praça do Comércio e o Campo Grande, com todos os melhoramentos aprovados.
Esc. 1:1000. – 1899. – ms: tela color 74 x 110 cm AML

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Detalhe da Planta de Lisboa no Suplemento do jornal “O Século”

Planta de Lisboa com as novas avenidas construidas e projectadas. - Escala [ca. 1:9200]. - Lisboa : A Editora, [19--].color ; 79x59 cm. - Brinde de "O Século". - Inclui vista da fachada principal de "O Século" e uma vista da sucursal de "O Século" BND

No Atlas Escolar a Avenida está já definida nos seus quarteirões e projectadas as Avenidas Novas.

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Detalhe da Planta de Lisboa do Atlas Escolar Portuguez / Ricardo Lüddecke. 1897 BND

Mais pragmático o Guia Baedeker apenas referencia o construído, terminando por isso a Norte pela rotunda do Marquês de Pombal.

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Detalhe da Planta de Lisboa do Guia Baedeker 1901

O Parque da Liberdade

Em 1887 foi organizado um concurso internacional para a elaboração do projecto ganho por H. Lusseau que embora concluído em 1894 e integrando café-concerto, quiosques, teatro, um jardim zoológico e um aquário, por desinteligências entre o arquitecto e a CML nunca será concretizado.

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Parque da Liberdade. Planta Geral, 19 de Dezembro de 1899 Arquivo Municipal de Lisboa

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Planta geral da cidade. Esc. 1:25.000, 1903 dim: 64 x 61 cm AML

A inauguração da Avenida e os Restauradores

Apesar das polémicas a Avenida irá chamar-se da Liberdade e em 1886, na presença do Rei, é inaugurado o seu primeiro lanço e o monumento aos Restauradores.

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O Monumento aos Restauradores inaugurado em 1886 resulta de um concurso realizado em 1875/76 e ganho pelo arquitecto António Tomás da Fonseca (1822-1894), com a colaboração de João Simões de Almeida Jr. (1844-1926) e António Alberto Nunes (1838-1912).

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MONUMENTO AOS RESTAURADORES DA INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL , NA PRAÇA DOS RESTAURADORES , EM LISBOA INAUGURADO NO DIA 28 DE ABRIL DE 1886

desenho do natural por J. Christino OCCIDENTE n.º 265 1 de Maio de 1886

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O Anjo ou o Génio da Victoria, estátua de bronze por Simões de Almeida Junior (segundo uma photographia do modelo em barro)

in O OCCIDENTE n.º 266 de 11 de Maio de 1886

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O Génio da Independência, estátua em bronze por Alberto Antunes (segundo uma photographia do modelo em barro)

in O OCCIDENTE n.º 266 de 11 de Maio de 1886

Não são muitas as pinturas de paisagens urbanas desta época, onde os artistas na transição de um Romantismo para o Naturalismo procuram sobretudo ambientes e paisagens rurais ou marítimas. Exceptuam-se algumas pinturas de Alfredo Keil, como o “Aterro” e “Restauradores”.

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Alfredo Keil (1850-1907)- O aterro / No Cais do Tejo, 1881

óleo sobre madeira, 92 x 154 cm. Museu do Chiado, Lisboa

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Alfredo Keil (1850-1907)- Restauradores 1889

Óleo sobre cartão 18x14 cm Museu do Chiado

“Num claro espaço rasgado, onde Carlos deixara o Passeio Público pacato e frondoso - um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um traço cor de açúcar na vibração fina da luz de inverno: e os largos globos dos candeeiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam, transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar.” Eça de Queiroz in Os Maias, 1888

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O Palácio Foz

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Mandado construir pelo 2.º Marquês de Castelo Melhor. Arrasado pelo Terramoto foi reconstruído em 1777 sabendo-se que nela terá trabalhado Francisco Xavier Fabri. Em 1845, recomeçam as obras, no tempo do 4.º Marquês, as quais foram concluídas em 1858. Foi comprado pelo Estado em 1940.

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Benoliel, Joshua Palácio Foz 1909 com a legação dos EUA AML

“O palácio dos Castellos Melhor passou ás mãos do marquez da Fóz, que alli deu algumas festas sumptuosas. Mas a mais brilhante, a que deixou grande impressão na gente da época, foi o celebre baile das Chagas, na antiga residência, antes de mudar para o palácio da Avenida. N'esse baile se exhibiram todas as preciosidades que o marquez adquirira —quadros, baixelas Germain, etc. Romperam-se os tectos da sala de baile, para se construir uma galeria onde tocaram os músicos, acompanhados pelo coro de S. Carlos. Ahi começou também o marquez a arruinar-se. Gastou, gastou... Só as grades de ferro do corrimão do palácio da Avenida custaram noventa e cinco contos. O marquez chegou a ter cem contos de renda.” Raul Brandão - Memorias 1918 1º volume edição de A Renascença Portuguesa

Eden Teatro

Em 1929, o arquitecto Cassiano Branco (1898/1969), um dos mais interessantes dos arquitectos da geração modernista, irá projectar diversas versões do Éden Teatro até 1937.

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Desenhos do Catálogo da Exposição “Cassiano Branco : uma obra para o futuro” - Câmara Municipal de Lisboa 1991

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A Abertura da Avenida

“ O projecto do boulevard do passeio do Rossio ao Campo Grande é de uma concepção bem tristemente pretensiosa…

…O boulevard não serve senão para espalhar os maus hábitos do café e do trottoir, o amor da ostentação, a ociosidade, o boulevardismo, a cocotice, o luxo pelintra da toilette…” Ramalho Ortigão - as Farpas

«Às três da tarde iluminado por um sol reconfortante sob a concha azul de uma safira incomensurável, o ponto de reunião dos tafues e casquilhos da quadra oferece um quadro movimentado e pitoresco. Quem possui um vestido, um chapéu, um fato, um par de sapatos ou de botas novo para ostentar, escolhe para o exibir o estreito corredor, então compreendido na moderna Praça dos Restauradores e Rua das Pretas.» Eduardo Noronha, Conde de Farrobo.

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Avenida da Liberdade – Estado actual das obras – desenho do natural de J. Christino

in O Occidente n.º 235 1 de Junho de 1885

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José Artur Leitão Bárcia, [1871?]-1945

Negativo de gelatina e prata em vidro 9 x 12 cm AFML

“Às três da tarde iluminado por um sol reconfortante sob a concha azul de uma safira incomensurável, o ponto de reunião dos tafues e casquilhos da quadra oferece um quadro movimentado e pitoresco. Quem possui um vestido, um chapéu, um fato, um par de sapatos ou de botas novo para ostentar, escolhe para o exibir o estreito corredor, então compreendido na moderna Praça dos Restauradores e Rua das Pretas.» Eduardo Noronha, Conde de Farrobo.

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Avenida da Liberdade. Litografia color, 59,5 x 45 cm Câmara Municipal de Lisboa

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De notar a colocação da iluminação pública no centro da via.

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CRISTINO, João, 1858-1947 Lisboa Avenida da Liberdade1905 Suplemento ao nº 488 da "Mala da Europa"

litografia, color 32x60 cm http://purl.pt/11551 BND

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Joshua Benoliel1873-1932 Lisboetas passeando na avenida da Liberdade 1912

Negativo de gelatina e prata em vidro 9 x 12 cm AFML

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José Artur Bárcia1871?-1945 Avenida da Liberdade

Negativo de gelatina e prata em vidro 9 x 12 cm AFML

A Avenida da Liberdade com os seus apoiantes e os seus detractores, rapidamente se torna o passeio preferido da Lisboa do início do século XX.

Apesar da sua dimensão não resisto a transcrever o texto de Carlos Malheiro Dias, nas suas Cartas de Lisboa:

“22 de setembro

Acabam de chegar os pardaes á Avenida. Surprehende-me que esta noticia considerável não tenha sido logo publicada no Carnet Mondain das Novidades, tão absorventemente occupado com os teas do Mont'Estoril e de Cascaes, -como se não fora incomparavelmente mais importante para a chronica elegante de Lisboa o regresso dos pardaes do que as chávenas de chá das mil e uma condessinhas que veraneiam á beira-mar.

A chegada dos pardaes á Avenida equivale á subida do maestro para a cadeira de uma orchestra.

A opera-comica mundana de Lisboa tem, ha muitos annos, esta mesma symphonia ensurdecedora, que hontem se prin­cipiou a executar desde o monumento da Res­tauração até á rua das Pretas.

Os pardaes já entoam a symphonia do inverno. O inverno não tardará a principiar: este inverno de Lisboa, que não é, como o inverno da província, uma estação de chuvas e de inclemeneias, de frios e de constipações, de rheumatismo e de semsaboria, mas um inverno de operas e discursos, de bailes e jantares, de actrizes francezas e de vestidos de velludo.

A chegada do pardal pre­cede sempre de poucos dias a abertura do Colyseu.

Atrás do pardal vão chegando as lisboe­tas, os políticos, os frequentadores de S. Carlos, toda a troupe brilhante d’ esse grande theatro a que se convencionou chamar a grande socie­dade.

Chegaram, pois, os pardaes. Em grandes bandos compactos, n'uma chiadeira de festa, as primeiras caravanas aladas, conduzidas pêlos velhos de cada tribu, principiaram a descer ante-hontem, ao cahir da tarde, sobre os arvo­redos da Avenida, d'onde começam a voar, como pequenos annuncios da season, as folha­gens vermelhas e amarellas das acácias.

Até à primavera, ai l i os temos installados nos ramos, em breve despidos de folhagem, das olaias e das tílias. É necessário convir que os pardaes demonstram com a preferencia d'este poleiro elegante as mais surprehendentes predilecções mundanas !

Tinham os senhores pardaes o arvoredo da Eschola Polytechnica á sua dis­posição, com o espectáculo em extremo recrea­tivo dos flirts das institutrices; o agazalho tranquillo da Tapada da Ajuda: luxuosíssima estação de inverno para pardaes; os arvoredos hospita­leiros do jardim da Estrella, com musica aos do­mingos ; a aérea hospedaria de S. Pedro de Al­cântara, com lindas vistas. Installam-se, porém, na Avenida, entre a praça dos Restauradores e a praça da Alegria. E ainda na preferencia dada a esta zona resumida do grande passeio elegante da capital os pardaes revelam noções singular­mente exactas sobre os hábitos do high-life lisboeta. É, com effeito, entre o palácio do snr. marquez da Foz e a pastelaria Bijou que se acotovela ás tardes, durante os mezes de inverno, tudo o que Lisboa exhibe de mulheres bonitas vestidas em Pariz e de homens irresis­tíveis vestidos no Amieiro.

O pardal tomou os melhores aposentos para passar em Lisboa um inverno divertido. Empo­leirado na ramaria, assiste commodamente ao desfilar dos coupés, das victorias e dos laudaus de luxo, puxados por parelhas de raça, condu­zidas por cocheiros inglezes; ouve todas as con­versas, surprehende todos os segredos, está na confidencia de todos os amores, de todas as vaidades e de todos os escândalos.

Empoleirado na sua acácia, o pardal está de posse de toda a chronica mundana da cidade. O que não seria uma Carta de Lisboa escripta por um d'esses pardaes maliciosos e omniscientes !

Ora, positivamente, o pardal alfacinha não escolhia a Avenida da Liberdade para se installar de outubro a abril se o não seduzissem os requintes do luxo e do exhibicionismo e se elle não fosse por educação e por índole a mais sociavel e a mais mundana de todas as aves da creação. Loquaz, desenvolto, buliçoso, irreve­rente, o pardal tem todos os pequenos vícios e todas as attrahentes graciosidades que são distinctivo e apanágio das populações das grandes cidades. É na ramaria da Avenida que os pardalitos novos, sahidos da casca na primavera, completam a sua educação. Naturalmente, o que aprendem n'essa eschola bussonière é um pouco frívolo e todos elles, ao chegar o mez de abril, quando partem para as suas villegiaturas nos arrabaldes, levam a nostalgia pretenciosa e o pequenino ar impertinente de quem foi creado a ver passar os batedores da casa real, as patrulhas da guarda, as folias do Entrudo e de quem sabe distinguir pel'a cor da farda os trintanarios da casa de Palmella e da casa O’Neill. D'ahi a falta de respeito que o pardal lisboeta tem pelas hortas e pelas eiras do saloio e a irreverência com que pousa no chapéu alto dos espantalhos erguidos nos campos de painço.

As conversas dos janotas e os segredos das mulheres não lhe devem ter communicado gran­des escrúpulos de consciência» O amor do lar, a fidelidade conjugal, as virtudes familiares, a continência e a modéstia não o distinguem no­bremente entre a espécie. Aventureiro e bohemio, em qualquer buraco de parede ou desvão de telhado arma o seu ninho transitório, um verdadeiro ninho de exilado, sem luxo, sem ordem e sem conforto. A sua volubilidade amorosa é condemnavel. A sua conducta é reprehensivel. Não tem o lyrismo do rouxinol, a ternura do pombo, a constância da andori­nha, a seriedade laboriosa do pintasilgo. Es­tróina como um garoto, polygamo como um sultão de Marrocos, o pardal não se recommenda por nenhuma elevada qualidade mo­ral. Mas com que endiabrada verve, com que animação infatigável elle se diverte ! Desde pela manhã até à noute esvoaça e brinca pela Ave­nida, janta com as migalhas das confeitarias, passeia pela cabeça das figuras de bronze do monumento dos Restauradores, balouça-se nos fios de telegrapho e de telephone, passeia no tejadilho dos eléctricos e á tarde, em enormes assembleias ruidosas, entretem-se a fazer pirra­ças ás cartolas dos janotas. Roma teve os gan­sos do Capitólio; Veneza tem as pombas de S. Marcos; Lisboa tem os pardaes da Avenida. Pois que outro animal poderia ser mais do que este o symbolo d'esta linda capital de um povo gárrulo e fatalista, aventureiro e voluptuoso, declamador e sceptico?”

Carlos Malheiro Dias – Cartas de Lisboa 3ª série 1905-1906 – Livraria Classica Editora Lisboa 1907

Ou Alberto Pimentel:

“Quanto ás tardes de inverno na Avenida, tudo ahi nos parece grandeza e fausto, capital e propriedade, a julgar pelas toilettes, que obedecem á uniformidade do figurino, e pelo ar altivo e desdenhoso das pessoas.

Se nos contentássemos com este espectáculo, ficaríamos crendo, erradamente, que Lisboa nada em dinheiro e opulência.

Mas voltam-se duas folhas no livro das Estações, passa a primavera, chega o estio, e eis que nos apparece a Avenida inteiramente conquistada por uma população diversa, muito menos pomposa e por isso mesmo mais sincera, uma população que se não sabe ao certo a que bairros ou classes pertence.

Não será isto? Creio que sim.” Alberto Pimentel – Fitas de Animatographo Lisboa 1909

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Levantamento de Lisboa, 1911 Esc. 1:1000
Levantado e desenhado sob a direcção de Júlio António Vieira da
Silva Pinto Arquivo Municipal de Lisboa. A. M. L.

As Arquitecturas

“(…) um bisonho canal de casarões saloios que arrotam sobre a via, chatos e altíssimos (…) dizendo (…) a estupidez do arquitecto, a farófia patuda dos donos (…) o vazio soez da sociedade!” Fialho de Almeida 1893

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Em 1898 só tinham sido construídos dois palacetes na Rotunda.

Na mesma década, instaurada que estava uma das maiores crises económicas, a arquitectura em Portugal era votada a uma “indiferença transcendente”, “prova tristíssima mas eloquente do profundo atraso em que o país se encontrava” comentava, no seu discurso de admissão à Associação dos Arquitectos Civis, em 1895, o jovem arquitecto Adães Bermudes que criticava ainda os projectos das poucas iniciativas registadas, classificando-os de “construções de uma banalidade cretina, exasperada, inverosímil” (Boletim de Arquitectura e de Arqueologia, 1898,VII, p. 34).

O Prémio Valmor

Cf. “100 anos Prémio Valmor “ José Manuel Pedreirinho / Fotografia de José Carlos Nascimento, Lisboa 2003 e ainda José Manuel Pedreirinho “História do Prémio Valmor” D. Quixote Lisboa 1988

Contemporaneamente com a edificação da Avenida, procurada pela alta burguesia lisboeta, é instituído em 1902, o Prémio Valmor, destinado a distinguir um “belo prédio ou casa edificada em Lisboa, com a condição de que essa casa (…) tenha (…) um estilo digno de uma cidade civilizada”. Do Testamento do Visconde de Valmor de 1897.

Por isso muitos dos Prémios e Menções Valmor são atribuídos neste período, a edifícios situados na Avenida da Liberdade e nas Avenidas Novas.

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Os prémios Valmor na planta de Lisboa in José Manuel Pedreirinho “História do Prémio Valmor”

Palácio Adolfo Lima Mayer 1901

1º Prémio Valmor 1902

Avenida da Liberdade (esquina com a Rua do Salitre)

Arq.º Nicola Bigaglia (? -1908)

A propriedade incluía, para além do edifício, um extenso jardim, no qual, em 1921, se edificou o Parque Mayer.

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Palacete Lima Mayer AFML

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Levantamento de 1911

“D’entre o grande número de projectos que analysou, muito poucos atrahiram a sua attenção; e mesmo d’esses, se alguns são realmente apreciaveis sob o ponto de vista esthetico, não possuem, no entanto, superioridade tal na sua concepção e decoração exteriores, que os recommende para a concessão do premio, o qual só deverá ser conferido, como muita acertadamente estipula o programma, a um trabalho architectónico de reconhecido valor que contribua para o enriquecimento da esthética da cidade. Com verdadeiro pesar faz o jury esta declaração, não só por sentir que no anno transacto a nossa capital não fosse dotada com um trabalho architectónico importante da especialidade a que se refere o programma, e cuja falta tanto é para lamentar, mas também pelo facto de não ser conferido o premio logo no primeiro anno em que se pretende dar cumprimento ao valioso legado.

No entanto, no caso de a Exm.ª Câmara querer remediar este segundo inconveniente, tem o jury a honra de lembrar que o predio do Snr. Lima Mayer, situado na Avenida da Liberdade, à entrada da rua do Salitre, deve ser considerado como um trabalho que, honrando o seu auctor, contribue, sem a menor duvida, para o engrandecimento do local em que se admira.” o Jury (José Luiz Monteiro, José António Gaspar e Francisco Carlos Parente)

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Nicola Bigaglia projectou em Matosinhos a Casa de Santiago na Quinta de Santiago, mandada construir em 1896 pela família Santiago de Carvalho, proprietária do Paço de S. Cipriano Tabuadelo-Guimarães. A Casa de Santiago foi recuperada pelo arquitecto Fernando Távora.

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Projecto da Casa de Santiago em Matosinhos

Palacete Conceição e Silva

1º projecto Parente da Silva 1888 e edifício de Henri Lusseau 1891

No final do século XIX o industrial de Bolachas, Conceição Silva, encomendou a construção de um palacete numa altura em que se rasgava a Avenida e a burguesia enriquecida ali construía as suas residências.

Recusou o 1º. projecto em estilo parisiense "segundo império" por um outro com predominância do gosto neo-árabe, traçado pelo arquitecto francês Henri Lusseau. Em 1891 inicia-se a sua construção.

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O 1º Projecto recusado

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José Artur Leitão Bárcia, [1871?]-1945

Negativo de gelatina e prata em vidro 9 x 12 cm AFML

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Para a decoração do interior vieram fogões de mármore de Itália, parquets, ferragens, vitrais em caixilhos de madeira de tela e portões de Paris.

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O palacete na actualidade

Casa Lambertini

Menção Honrosa do PV 1904 (não atribuído)

Avenida da Liberdade 166/168

Arq.º Nicola Bigaglia.

Imagemlambertini

Revista Ilustração Portuguesa 11/06/1906

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Concebida para cumprir as condições do testamento do Visconde, inspirada na Igreja de S. Marcos com uma decoração em mosaicos, executados em Veneza.

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Michel’Angelo Lambertini (1862-1920), foi uma personagem fundamental da cultura portuguesa de finais do século XIX, princípios do século XX.

No domínio da música foi executante, maestro, compositor e musicólogo além de editor e comerciante.

Num âmbito cultural mais alargado, não podemos deixar de referir a sua actividade como organizador e animador de eventos musicais e literários.

Foi também o responsável pela reunião de uma parte considerável do actual acervo do Museu da Música.

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Anuncio da Casa Lambertini Museu da Música Lisboa

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Anuncio da Casa Lambertini Museu da Música Lisboa

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Cópia da carta de Michel'angelo Lambertini a Giuseppe Verdi (Lisboa, 15 de Outubro de 1900) Museu da Música Lisboa

Lambertini irá chamar José Malhoa para pintar as paredes e o tecto da sua Sala de Música, a sala mais importante da casa.

Malhoa fará dois painéis: numa das paredes “Inspiração” e na outra “Apotheose de Beethoven”, talvez inspirado no Beethoven Frieze de Gustav Klimt, na Casa da Secessão Vienense de J. Olbrich.

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“Inspiração” José Malhoa - Sala de música da casa Lambertini Revista Ilustração Portuguesa 11/06/1906

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“Apotheose de Beethoven” José Malhoa - Sala de música da casa Lambertini Revista Ilustração Portuguesa 11/06/1906

No tecto um conjunto de Câmara vestido a rigor, toca uma peça musical, sendo que Malhoa confere aos músicos um dinamismo apaixonado.

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Tecto da Sala de música da casa Lambertini Revista Ilustração Portuguesa 11/06/1906

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Malhoa - estudo para a decoração do Palacete Lambertinni

Óleo sobre tela 47,5 x 35,5 cm Museu Malhoa

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José Malhoa - Estudo para a Sala de Música - Casa Lambertini

Óleo s/ tela 48 x 39,2 cm Museu José Malhoa

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Pormenor do tecto da sala de música do palacete Lambertini 1903

O Hotel Vitória 1936

Junto ao Palacete Lambertini é construído em 1936 o Hotel Vitória, uma das obras principais do arquitecto Cassiano Branco (1898/1969), com uma interpretação muito pessoal do estilo Art-Deco, introduzindo alguns elementos como as varandas redondas no cunhal sul conferindo uma dinâmica expressionista ao edifício.

O projecto só parcialmente foi concretizado. O edifício é hoje uma das sedes do Partido Comunista.

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O projecto completo.

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Edifício de habitação António José Gomes Netto

Avenida da Liberdade 262/264

Arq.º Jorge Pereira Leite.

Menção Honrosa do PV 1904

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Junto a este edifício Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957) também numa linguagem ainda de influência Art-Deco, irá entre 1936 e 1940, projectar e construir o edifício sede do Diário de Notícias. Prémio Valmor de 1940.

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Foto Mário Novais FCG

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Fotos da revista Arquitectura.

Edifício propriedade de Domingos da Silva Av. da Liberdade, nºs 206 /218

Prémio Valmor 1915

Arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior (1878-1962)

O júri do PV salienta a "importante composição e opulência decorativa (que) engrandecem aquela nossa primeira promenade".

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A introdução de um sistema de chauffage e a técnica construtiva dos pavimentos, com a utilização de abobadilha de tijolo, são dois dos aspectos que merecem maior destaque no interior do edifício.

“(...) Os moradores não são encomodados pelo ruido que os vizinhos fazem nos andares superiores; todas as divisões são aquecidas por meio de vapôr (...) enfim a construção foi feita de ferro e tijolo, por forma a evitar que se veja invadidas pelos ratos, baratas e formigas (...).” A Arquitectura Portuguesa, n.º 475, Out. 1916, pp. 146

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A solução encontrada por Norte Júnior para a implantação do edifício no terreno consiste em dois blocos, um com fachada sobre a Avenida da Liberdade e o outro sobre a Avenida Rodrigues Sampaio, unidos através de um pátio interior e de uma estrutura de escadas de serviço (mas funcionando de forma completamente independente), solução aliás pouco utilizada em Lisboa, mas que encontramos com frequência nesta época na arquitectura de Paris ou Barcelona.

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O edifício, pertença do Visconde de Salreu, possui pinturas decorativas de Gabriel Constante, estuques de Afonso Neto, Estrela e Rodrigues, e azulejos da Fábrica de Sacavém. [Cf. A Construção Moderna, ano XVI, n.º 19, 10 de Outubro de 1916]

Hotel Veneza 1886

Edifício mandado construir por Adriano Antão Barata Salgueiro.

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CONTINUARÁ PELA AVENIDA E PELAS AVENIDAS NOVAS…

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