Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 3 de junho de 2010

A Virgem do Chanceler Rolin (La Vierge du Chancelier Rolin)

A Virgem do Chanceler Rolin ( La Vierge du Chancelier Rolin) é um dos mais belos e preciosos quadros de Jan van Eyck, existente no Museu do Louvre em Paris.

Sobre ele, pela sua qualidade, existem em diversas publicações, muitíssimas análises, interpretações e mesmo dúvidas e polémicas.

O Museu do Louvre, editou mesmo um filme La Vierge du Chancelier Rolin a la loupe (A Virgem do Chanceler vista à lupa) - http://www.louvre.fr/ -

de que seguiremos muitas das suas informações, acrescentando as relações indirectas que o quadro tem com Portugal.

Trata-se de uma pintura a óleo, que na época constitui uma verdadeira revolução na técnica da pintura, já que até aí era utilizada a têmpera, com uma deterioração muito mais rápida.

É um quadro de pequenas dimensões (66 x 62 cm) mas por isso mesmo executado com uma precisão em que todos os pormenores são pintados com uma minúcia e um realismo extraordinários.

O quadro veio da capela de São Sebastião da igreja de Autun. Com a Revolução Francesa em 1793 e a destruição da capela, o quadro é removido para o Louvre perdendo-se o seu enquadramento, a assinatura e a data da sua execução.

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Jan van EYCK 1390 – 1441 - A Virgem do chanceler Rolin c. 1435 óleo s/ madeira de carvalho 66 x 62 cm Museu do Louvre, Paris

Jan van Eyck

De Jan van Eyck não sabemos a data exacta e o local de seu nascimento, mas supõe-se que terá nascido por volta de 1390, na província oriental do Limburg Holanda.

Terá aprendido a pintar com o seu irmão Hubert van Eyck, com quem terá trabalhado no Retábulo de Gand (1425-1432), que com a morte do irmão terá terminado sozinho.
A partir de 1425 faz parte da corte de Filipe o Bom da Borgonha, não só como artista, mas como diplomata ao serviço do Duque.

Com outros pintores desenvolve na Flandres a técnica da pintura a óleo que lhe permite introduzir na sua pintura uma diferente concepção da luz e um maior realismo nos detalhes.

O quadro

O quadro apresenta duas personagens sentadas frente a frente, numa loggia, que abre sobre uma varanda ajardinada de uma muralha, e tendo por fundo uma paisagem que se estende de uma povoação dividida ao meio por um rio atravessado por uma ponte, até a longínquas montanhas, símbolo da protecção divina.

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A composição tem uma concepção espacial nova. As figuras colocam-se de uma forma quase escultural num compartimento desenhado segundo as leis da perspectiva, e diversos elementos acentuam a profundidade do quadro.

A simetria da composição divide o mundo terrestre (à esquerda) do chanceler Nicolas Rolin do mundo divino (à direita) da Virgem.

As Personagens: o Chanceler Rolin

Do lado esquerdo o Chanceler Nicolas Rolin (1376/1380 - 1462), que encomendou o quadro.

Nicolas Rolin de origem modesta, graças à protecção dos duques da Borgonha João sem Medo e do seu filho Filipe o Bom, irá ascender em 1422 a chanceler do ducado da Borgonha e da Flandres, ou seja o braço direito de Filipe o Bom.

Van Eyck representa o chanceler ajoelhado num oratório perante a Virgem e o Menino, ricamente vestido de um traje de peles e bocados, revelando a importância da personagem e com um livro aberto provavelmente a Bíblia, em que quase se pode ler as Escrituras.

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O chanceler não olha para o livro e nem parece olhar a Virgem, mas está em meditação ou oração, mergulhando numa visão interior.

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As suas feições são pintadas com particular realismo já que as podemos comparar com outras pinturas contemporâneas.

Em 1443, terminava a guerra entre a França e a Inglaterra, deixando a Borgonha devastada. Para prestar assistência gratuita Rolin criou com a mulher o hospício a que deu o nome de Hôtel Dieu.

O Hospício de Beaune, tem uma arquitectura gótica muito característica, com os seus telhados coloridos, e com uma Grande Sala, dividida em pequenos compartimentos onde se colocavam os doentes. Pelo corredor central circulavam os visitantes e pelos corredores laterais circulavam os padres e as freiras que prestavam assistência aos doentes.

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L'Hôtel-Dieu à Beaune 1920-25. Chouanard Henri (1883-1936) Archives Alinari, Florence

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O pátio do Hotel Dieu na actualidade.

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A Grande Sala na actualidade.

Para financiar este hospício o chanceler iniciou e encorajou os borgonheses a dedicar-se à produção de vinho nas terras de Beaune.
Por isso o vinho Hospices de Beaune são ainda dos mais famosos de França e desde 1859 é realizado o maior leilão de beneficência do mundo, permitindo modernizar a produção vinícola, restaurar e manter o Hotel Dieu como museu, e ainda financiar o novo hospital de Beaune.

Na sala dos doentes encontra-se o retábulo do Julgamento Final, pintado por Rogier Van der Weyden (1400-1464), pintor contemporâneo de Jan van Eyck.

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O retábulo aberto Rogier van der Weyden (1400-1464) O Julgamento Final 1446-1452 óleo s/ painel, (215 x 560 cm) Musée de l'Hôtel Dieu, Beaune

Ao centro Cristo em Magestade, Juiz Supremo.Na sua mão direita um ramo de flor de lis com que acena aos bem aventurados que se dirigem para o Paraíso.

A sua mão esquerda indica aos pecadores aterrorizados o caminho do Inferno.

Junto à figura de Cristo os 4 anjos anunciadores do Julgamento Final rodeiam S. Miguel Arcanjo que pesa os ressuscitados.

De um lado a Virgem que implora misericórdia pelos pecadores tendo atrás de si Apóstolos e Santos.
Do outro lado S. João Baptista tendo do mesmo modo, atrás de si Apóstolos e Santos.

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O retábulo fechado

Nicolas Rolin et Guigogne de Salins, estão face a face, ajoelhados e em oração. Em trompe l'oeil, como se fossem esculturas a Anunciação, São Sebastião e Santo António.

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À esquerda ajoelhado o Chanceler.

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Detalhe do Julgamento Final e detalhe da Vierge du Chancelier Rolin

A ligação com Portugal

Nicolas Rolin terá tido um papel importante no casamento de D. Isabel (1397-1471), filha de D. João I, com Filipe, o Bom, duque da Borgonha (1396-1467), que se realizou em 7 de Janeiro de 1430, em Écluse.

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Anónimo retrato de Philippe – le –Bon Duc de Bourgogne - óleo s/ madeira 27 x 20 cm Chantilly museu Condé

À direita:Escola de Rogier Van der Weyden (1399/1400-1464) - Philippe III de Bourgogne, dit Philippe le Bon c. 1460

óleo s/ madeira 29x 21 cm. Allemagne, Berlin, Gemäldegalerie (SMPK)

Jan van Eyck terá sido incumbido por Filipe o Bom de várias missões diplomáticas, uma das quais consistiu na visita a Portugal, onde pintou dois retratos de D. Isabel a futura mulher do duque. Esses retratos perderam-se mas existe ainda um desenho à pena e tinta-da-china sobre papel (séc. XVII), cópia do retrato da Infanta. Há quem defenda a influência que esta viagem a Portugal de Jan van Eyck na pintura nacional, e em particular nos Painéis de S. Vicente.

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Desenho à pena e tinta-da-china sobre papel (séc. XVII), cópia de retrato da infanta D. Isabel realizado em Portugal, entre Janeiro e Fevereiro de 1429, por Jan van Eyck, em missão por conta do duque de Borgonha (colecção particular alemã em 1961, actual local de conservação desconhecido).

“O retrato foi pintado em duplicado, conforme a relação da embaixada borgonhesa a Portugal refere, mas nenhuma das duas versões sobreviveu até aos nossos dias. Tanto a representação de uma moldura ornamental (onde figuram elementos decorativos alusivos à Ordem do Tosão de Ouro, fundada apenas em Janeiro de 1430, por ocasião da chegada de Isabel ao ducado), como a inscrição exterior em torno da mesma, são posteriores ao quadro de 1429. Em contrapartida, a inscrição interior «LINFANTE DAME ISABIEL» que parece cinzelada na pedra, num estilo de trompe-l'oeil frequente na pintura eyckiana, pertence provavelmente à pintura original. A inscrição exterior localiza o retrato copiado com precisão: «Cest la pourtraiture qui fu envoiié a phe duc de bourgoingne & de brabant de dame ysabel fille de roy Jehan de portugal & dalgarbe seigneur de septe par luy conquise qui fu depuis feme & espeuse du desus dit duc phe».

António Salvador Marques http://paineis.org/

Sobre a vida da Infanta D. Isabel que se tornou Duquesa de Borgonha pelo casamento com Filipe o Bom, e foi mãe de Carlos o Temerário, ver Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal, duchesse de Bourgogne (1397-1471 ). Une femme de pouvoir au cœur de l’Europe du Moyen âge. Editions Lanore, Paris, 2008.

Agustina Bessa Luís também faz uma referência à Duquesa quando a sua personagem Luísa Baena “… lembrou a duquesa de Borgonha, seca como um pau e, no entanto, formidavelmente dotada para o jogo da política. Vivera muito numa corte de homens e não a deixara senão com algumas reservas, algum sofrimento. Que lhe prometia o ducado tão abundante de riquezas? Já a travessia do mar foi penosa para a saudosa Isabel que deixava um reino e recebia em troca um amor de lei e não um amor de cama como o seu coração desejava.”O Concerto dos Flamengos (1994)

Existem ainda diversos retratos da Duquesa da Borgonha.

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Rogier van der Weyden 1400 – 1464 - Isabel de Portugal c.1500

Óleo s/ painel 47 x 38 cm. Paul Getty Museum, Los Angeles, California, USA

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Escola flamenga – retrato de Isabel de Portugal (1397-1472),

século XVI óleo s/ madeira 41x30c m. Musée de l'Hospice Comtesse Lille

Também se supõe que no retábulo da Catedral de Saint Bavon em Gand de Jan e Hubert van Eyck, 1432, D. Isabel está representada na figura da Sibila de Cumas.

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Hubert e Jan Van Eyck Retable de L'Agneau mystique 1432 da catedral de Saint-Bavon de Gand (Bélgica) 3,75 × 5,20 m (aberto)

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3,75 × 2,60 m (fechado)

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As Personagens: a Virgem com o Menino

Na parte direita do quadro está representada a Virgem, sentada sobre uma almofada ornamentada de motivos florais num banco de mármore.

O manto vermelho com pérolas e pedras preciosas e com uma franja onde estão inscritas palavras religiosas sublinha o carácter de solene devoção religiosa.

A Virgem é glorificada pelas palavras ELEVATA e EXALTATA.

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A Virgem olha para a terra, sobre a qual reina e protege, enquanto o Menino faz um gesto a abençoar o chanceler e por ele toda a Humanidade

Um anjo segura uma riquíssima coroa, uma jóia de ourivesaria, numa referência à coroação da Virgem na Jerusalém celeste.

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As asas do anjo em arco-íris, são uma referência à ligação entre o mundo terrestre e o mundo celeste, entre a aliança de Deus com os homens.

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A criança segura um globo, símbolo do Cristo criador e universal, e do duplo poder espiritual – a cruz – e temporal – o globo.

O cristal simboliza a pureza da Virgem.

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A Loggia

A loggia abre-se para o exterior por um arcada, em três arcos (referência à Trindade), e comunica com dois espaços laterais.

O quadro organiza-se em três planos sublinhados pela iluminação e que dão uma profundidade que vai desde o interior intimista da loggia ao infinito da paisagem

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Os capitéis e os frisos trabalhados com uma precisão microscópica, (convém lembrar as dimensões do quadro) representam cenas do Génesis, como é frequente em Van Eyck. Os capitéis representam cenas do Antigo Testamento que mostram os erros, os pecados da Humanidade: a Expulsão do Paraíso, o sacrifício de Caim e Abel, Deus recebendo a oferenda de Abel, a morte de Caim, a Arca de Noé.

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Um capitel da Catedral de Autun.

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O pavimento é constituído por mosaicos alguns estrelas de oito pontas. O pavimento define as linhas de perspectiva que convergem para o exterior, mas que não se encontram num ponto de fuga preciso, já que a perspectiva é ainda intuitiva e não rigorosa como acontece com os pintores italianos da época.

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A Varanda

No segundo plano uma varanda de uma muralha em que duas personagens se debruçam sobre a cidade e um jardim que acentua a impressão de profundidade.

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O Jardim, pintado com uma rigorosa pintura das diferentes plantas que remetem para um conjunto de alusões simbólicas à Virgem:

  • os lírios brancos(pureza);
  • os papa-figo, planta oriental (paraíso);
  • as rosa bravas (sofrimento);
  • as íris (a dor);
  • as margaridas (inocência).

À esquerda esmagados pela coluna um coelho e uma raposa símbolos do amor carnal e do diabo.

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Ainda na varanda podem ver-se três pavões que são o símbolo da vida eterna.

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No centro do quadro duas personagens debruçam-se sobre a paisagem, mostrando a implantação do palácio/castelo.

A muralha que se entrevê é uma alusão à muralha da Jerusalém celeste.

A personagem da direita com um bastão e um turbante vermelho, pensa-se ser o próprio Van Eyck

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A presença no quadro do pintor, representa também o papel atribuído ao artista de mediar o mundo terrestre na sua relação com o mundo espiritual, e por isso Jan van Eyck, representa-se num outro célebre quadro da sua autoria, o Retrato de Giovanni Arnolfini e mulher.

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Jan van Eyck (1395-1441) retrato de Giovanni Arnolfini e mulher 1434

Óleo s/ painel 82 x 60 cm. National Gallery, London

Nesta pintura Van Eyck representa-se com um assistente, na imagem do espelho, por cima do qual escreve « Johannes de Eyck fuit hic » (« Jan Van Eyck esteve aqui»).

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Também o uso do turbante vermelho parece indicar ser o próprio van Eyck, de quem é o possível auto-retrato da National Gallery de Londres.

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Homem do turbante 1433 óleo s/ madeira 25.5 x 19 cm National Gallery, London, UK

A paisagem do fundo

A paisagem no fundo, dividida pelo rio, acentua a oposição entre a direita celeste e a esquerda terrestre.

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Barcos com passageiros atravessam o rio, onde se vê uma ilha com uma torre fortificada.

Mais perto uma ponte, com sete arcos, uma torre de portagem fortificada e com ponte levadiça, que une as duas margens.

Numerosos peões e cavaleiros atravessam-na.

No seu centro uma cruz, simbolizando a passagem do mundo terrestre para o mundo celeste.

Também se pode tratar de uma evocação do assassínio, em 1419, de João Sem Medo, pai de Filipe o Bom, na ponte de Montereau por um dos conselheiros de Carlos VII.

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De ambos os lados da composição a representação minuciosa de uma cidade ou de cidades.

Do lado do chanceler uma povoação (arrabalde?) rodeando um convento e a sua igreja, e uma paisagem que se estende por vinhedos.

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Na margem do lado da Virgem um conjunto de igrejas, destacando-se a cabeceira de uma catedral gótica com capelas radiais.

Junto à catedral uma praça com diversas personagens. A cidade está rodeada de muralhas.

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Diversas hipóteses tem sido avançadas para identificar a cidade (ou as cidades) representadas.

Há quem veja do lado da Virgem a Cidade de Deus e do lado do Chanceler a Cidade dos Homens.

Muitos pensam tratar-se apenas de uma cidade imaginária, outro da Jerusalém Celeste.

Outros procuram ainda identificar cidades existentes, Emile Mourey que avança a hipótese de se tratar de Chalon-sur-Saone.

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A Vierge du Chancelier Rolin é assim pela composição, pelo espaço e pela profundidade, onde desde o mais pequeno detalhe até à paisagem que se prolonga até ao infinito, pela representação das personagens, pelo tratamento e pela cor (as cores são o vermelho da paixão, o azul do desconhecido e o amarelo da esperança)e pela simbologia de cada um dos detalhes e até pelas diversas interpretações que suscita uma obra prima que se destaca da pintura medieval.

1 comentário:

  1. Excelente trabalho. Como professor de Artes Visuais, fiquei satisfeito com o conteúdo postado. Parabéns,pelo bom gosto.

    Professor Gilson Nunes - Paraíba - Brasil.

    gilsonunes2000@bol.com.br

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