Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 17 de julho de 2010

Mais sobre a Duquesa de Borgonha e Jan van Eyck.

Ver neste blogue “A Virgem do Chanceler Rolin ( La Vierge du Chancelier Rolin)”

A propósito do texto publicado neste blogue sobre o quadro de Jan van Eyck e da sua estadia em Portugal, o excelente blogue Arquivo Digital 7cv (http://arquivodigital-7cv.blogspot.com/) que nos poupa imenso tempo ao pesquisar os livros portugueses na Net e sobretudo no arquivo da Google (http://books.google.com/ ) disponibilizou recentemente um livro do Conde de Sabugosa com o título “GENTE D'ALGO” e o subtítulo (que é um índice) As Musas de D. Diniz. — A Mysteriosa Beatriz — Duqueza de Borgonha - Imperatriz de Allemanha. — A Excellente Senhora - A corte em Setúbal e os Porquês anonymos— Uma noiva do Prior do Crato - Matronas de 1640 — A Freira Portugueza - A Condessa da Ericeira — Académicas— Duas Realezas. Publicado pela LIVRARIA FERREIRA Ferreira L.''', Editores 132, R. do Ouro, 138 LISBOA em 1915.

O Conde de Sabugosa é António Maria Vasco de Melo César e Meneses (1851 -1923), 9.º conde de Sabugosa, que formado em Direito, foi um diplomata e alto funcionário, mordomo-mor da Casa Real, Par do Reino, poeta e escritor. Pertenceu aos Vencidos da Vida, e colaborou na Revista de Portugal. Em 1903 escreveu o livro O Paço de Cintra, apontamentos historicos e archeologicos ilustrado com desenhos da rainha D. Amélia, com a colaboração artística de E. Casa Nova e Raul Lino.

No livro Gente de Algo, sobre a Duquesa de Borgonha, Isabel de Portugal (1397-1471), o Conde de Sabugosa começa por referir a sua relação com os cisnes do Palácio de Sintra:

“Estendendo os pescoços compridos com um geito ao mesmo tempo guloso, e cheio de voluptuosidade, semelhante ao do mythologico amante de Leda, os cysnes do Paço de Cintra procuravam na concha côr de rosa, formada pelas mãos da Infanta Izabel, a iguaria appetecida.”

Referindo de seguida que esta predilecção teria começado ou sido reforçada pela oferta de um casal de cisnes, feita por Filipe o Bom, através dos seus embaixadores quando em 1429 se deslocaram a Portugal para aprazar o casamento.

Esta oferta, é ligada pelo Conde de Sabugosa com a Lenda do Cavaleiro do Cisne, incluída por Wolfram von Eschenbach no seu "Parzifal" (c. 1210), conhecida e popularizada a partir da Idade Média, e que Richard Wagner utilizou para uma das suas mais célebres óperas.

Lohengrin é um misterioso cavaleiro que vem em socorro de uma donzela em perigo num barco puxado por um cisne. Acaba por com ela se casar mas impõe como condição não revelar a sua origem. Como ela rompe o compromisso tentando saber de onde ele vem o cavaleiro abandona a esposa para sempre.

No seu texto sobre a Duquesa de Borgonha, o Conde de Sabugosa refere de seguida que:

“No mesmo anno o Duque Borgonha por seu lado envia a Lisboa numerosa e luzida Embaixada a concluir o tratado de casamento.

Vinha n'ella o Senhor de Roubaix e de Erzelles, a quem acompanhavam Balduino de Lanoy ; o mesmo Thoulongeon que cá estivera ; o Dr. Gil de Tournay, e outros muitos, entre os quaes “mestre Joào moço da camara do Duque, excellente mestre n’arte de pintura.”

Este mestre João era nada mais e nada menos que João Van Eyck, ou João de Bruges, o mais notável dos pintores flamengos da sua épocha, e um dos mais illustres do mundo, aquelle que revolucionou a pintura nos seus processos e no seu ideal artistico.

Estava elle todo entregue à faina de pintar o retábulo da Cathedral de Bavon, trabalho encommendado por Josse Vydt, Senhor de Ramela, quando o Duque de Borgonha o encarregou de vir a Portugal com a Embaixada, afim de retratar a noiva.

Interrompeu a monumental tarefa, que só annos depois havia de continuar, e com os enviados do Duque chegou em Dezembro a Lisboa. D'ahi foram todos a Estremoz onde a Corte estava.

A sua estada na Península foi fecunda, pois não só deixou discípulos, mas levou impressões da paizagem, e até recordações das torres da Sé de Lisboa, que figuram no fundo do celebre retábulo.”

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Hubert e Jan Van Eyck - Retable de L'Agneau mystique 1432 (aberto)

3,75 × 5,20 m - catedral de Saint-Bavon de Gand Bélgica

A paisagem referida pelo Conde de Sabugosa é visível na vegetação meridional que Jan van Eyck pinta nalguns dos painéis do retábulo, sendo de notar em particular as laranjeiras.

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Quanto às “recordações das torres da Sé de Lisboa, que figuram no fundo do celebre retábulo” elas aparecem nas igrejas da “Jerusálem Celeste” que se estende no fundo do painel central do “Cordeiro Místico”.

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Painel central do “Cordeiro Místico”

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Detalhe do painel central do “Cordeiro Místico”

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Ao fundo no perfil da cidade podemos observar duas igrejas que poderão constituir essas “recordações das Torres da Sé de Lisboa”, se as compararmos com algumas imagens um pouco posteriores de Lisboa e da então aparência da Sé.

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Vista de Lisboa cerca de 1520

Iluminura da “Crónica del Rey D. Affonso Henriques primeiro rey destes regnos de portugal” por Duarte Galvão

Do códice em pergaminho do Museu do Conde Castro Guimarães Cascais

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Iluminura Simon de Beninc c. 1530 - Árvore Genealógica da Casa Real de Portugal

British Museum

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Estúdio Mário Novais - foto da pintura a óleo sobre tela panorâmica de Lisboa, Igreja de São Luís da Pena

Negativo de gelatina e prata em acetato de celulose 13x18cm AFML

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Pormenor da pintura da igreja de S. Luís dos Franceses construída entre 1552 e 1622

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Braun and Hogenberg Civitates Orbis Terrarum na versão em latim do volume I foi publicada em 1572

http://historic-cities.huji.ac.il/mapmakers/braun_hogenberg.html

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Braun and Hogenberg Civitates Orbis Terrarum V 1598 http://historic-cities.huji.ac.il/mapmakers/braun_hogenberg.html

(A propósito desta gravura e num parêntesis não resisto a mostrar uma gravura datada de 1672 de F. Jollain que pretende representar Nowel Amsterdam en Lamerique (New Amsterdam na América), ou seja a futura New York e que é uma cópia da gravura anterior de Lisboa de Braun and Hogenberg. Desconhece-se as razões de tal mistificação.)

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(Nowel Amsterdam en l'Amerique. (1672?) François Jollian, ca. 1641–1704
gravura 35.4 x 50.8 cm.)

Continuando com o texto do Conde de Sabugosa:

(…)“Assim, nos caixotões apainelados da grande sala dos Infantes, o mesmo Rei (D. JoãoI) fez desenhar os celebres cysnes com a coroa ducal em guiza de gorgeira, que lhe haviam de recordar saudosamente, depois da partida da Infanta para Borgonha, as alegres matinadas, com as refeições dos estimados palmipedes.”

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tecto da Sala dos Cisnes no Palácio de Sintra http://pnsintra.imc-ip.pt/

E coloca mesmo a possibilidade de Jan van Eyck ter pelo menos colaborado na execução do famoso tecto:

“Daria elle o desenho para o tecto da sala dos Cysnes, como é tradição? Ou seria de Alvaro de Pedro o esboço?”

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tecto da Sala dos Cisnes no Palácio de Sintra http://pnsintra.imc-ip.pt/

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Der Saal der Schwäne in Cintra (v. L. - Eduard von Löwenfels) (A Sala dos Cisnes em Cintra)
Litografia c. 1841 Erinnerungen aus Portugal und Spanien Bibl. PNS Nº 73
http://pnsintra.imc-ip.pt/

O Conde de Sabugosa fala em seguida no retrato da Infanta que se sabe Jan van Eyck pintou para que Filipe o Bom pudesse apreciar a beleza da sua futura (terceira) esposa.

O que é certo é que elle trabalhou em Portugal, e que é seu o magnifico retrato da Infanta, que precedeu a Embaixada no seu regresso, e que não pouco contribuiu para a conquista do seu amo e senhor.

Foram portadores d'esse retrato, bem como das impressões, que das primeiras conferencias tinham recebido os Embaixadores, quatro mensageiros por estes destacados; dois por mar, dois por terra. Um d'estes foi um passavante chamado Portejoie, nome fadado para esta missão que ia levar alegria ao curioso Duque, e deslumbra-lo com a formosura da prometida esposa.

Que destino teve este retrato?

Abramos aqui um parenthesis.

(Quando em 1856 El-Rei D. Fernando, Principe de Saxe Coburgo, se encaminhava para Portugal a fim de casar com a Rainha D. Maria II, foi recebido carinhosamente na sua passagem em Bruxellas pela Familia Real, que deu um baile de mascaras em sua honra.

A Rainha da Bélgica, n'uma intenção amável para com o noivo da Rainha portugueza, apresentou-se com um trajo copiado de um retrato existente na bibliotheca d'aquella capital, que se suppunha ser o da Infanta Dona Izabel, pintado por Van Eyck. O Conde do Lavradio, que fora o negociador do casamento d'El-Rei D. Fernando, assim o assegurou ao Conde de Raczynsky.

Levado por esta indicação, dirigi-me em carta ao distincto Inspector da Bibliotheca Real da Bélgica, Mr. Mainier, que amável e promptamente me deu a seguinte indicação :

Le portrait de l’Infante Isabelle dont vous m'entretenez est un dessin qui se trouve à la Bibliothèque Royale dans un de nos manuscripts: «Memoriaux de Succa».”

Mas quem é Succa e o que são os “Mémoriaux de Succa” ?

Antoine de Succa nasceu em Antuérpia em 1567 e aí faleceu em 1620, e foi um pintor e desenhador membro da Guilda de são Lucas como Peter Paul Rubens (Siegen, 1577 — Antuérpia 1640) seu contemporâneo. Em 1600 recebe uma carta livre-trânsito dos arquiduques Albert e Isabelle autorizando-o a estudar as efígies dos antigos príncipes das casa de Austria, Borgonha, Barbante e Flandres. Succa percorre então a região passando por Tournai, Gand. Louvaina, Bruchelas e Antuérpia, anotando nos seus cadernos de viagem - os « Mémoriaux » - um conjunto de desenhos e comentários dessas viagens.

Em 1977 realizou-se na Bibliothèque Royale Albert I em Bruxelas a Exposição “LES MEMORIAUX d' Antoine de Succa”, comissariada por Micheline Comblen-Sonkes e Christiane Van den Bergen-Pantens de que resultou um catálogo com os desenhos e anotações de Succa.

http://belgica.kbr.be/fr/coll/ms/msII1862_fr.html

http://lucia.kbr.be/multi/II18621Viewer/imageViewer.html

Nele estão referenciados dois desenhos de Isabelle de Portugal: um na folha 1, que é fácil de identificar:

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Folha n.º 1 dos Mémoriaux

1 JACQUELINE DE BAVIÈRE [?] (25 juillet 1401 - 9 octobre 1436), comtesse de

Hainaut, Hollande et Zélande, fille de Guillaume de Bavière et de Marguerite

de Bourgogne, épouse de Jean de Touraine, de Jean IV duc de Brabant,

de Humphrey duc de Gloucester et de François de Borselen 6.

2 ANTOINE, GRAND BÂTARD DE BOURGOGNE (1421-1504), fils de Philippe le

3 ISABELLE DE PORTUGAL (21 février 1397 - 17 décembre 1471), fille de

Jean 1er de Portugal et de Philippine de Lancastre, troisième épouse de Philippe le Bon, duc de Bourgogne

4 DON CARLOS (8 juillet 1545 - 24 juillet 1568), infant d'Espagne, fils de Philippe II et de sa première épouse Marie de Portugal.

5 Attestation et signature autographes du collectionneur Denis de Villers.

(Foram eliminados os comentários adicionais a cada uma das figuras)

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3 ISABELLEDE PORTUGAL (21 février 1397 - 17 décembre 1471), fille de Jean 1er de Portugal et de Philippine de Lancastre, troisième épouse de Philippe

le Bon, duc de Bourgogne 11.

Dessin au crayon, avec quelques retouches à la plume dans le vêtement.

Monument: Tableau (?).

Date: Troisième quart du XV· siècle 12.

Auteur: Inconnu 13.

Situation: 1601. Collection du chanoine

Denis de Villers. Actuellement inconnue.

Commentaire de Succa: Identification

du portrait.

Bibliographie: L. Alvin, Iconographie, p. 392; K. Westendorp, Die Anfange, p. 75-76; W.H.J. Weale, Hubert and John van Eyck, p. 180, ill.; M. Devigne, Une collection, p. 348-355; L. Baldass, Jan van Eyck, p. 285, note 2; K. Bauch, Bildnisse, p. 106, ill. 9; M.J. FriedIander, The Van Eycks, p. 66; Londres, British Museum, ms. 1841.12.11.8, Costume-Book, attribué à P.P. Rubens, fO17.

11 L'effigie présente une ressemblance indéniable avec celle du retable de l'église d'Hesdigneul- Ies-Béthune (France, dép. du Pas-de-Calais, arr. de Béthune), provenant de l'ancienne chartreuse du Val-Saint-Esprit de Gosnay où Isabelle fut inhumée pendant un an. Il était placé en face de son tomb:o:auet porte la date de 1500 (voir A. de Loisne, Les tableaux, p. 50-55, pl. 1(lV). D'après M. Devigne, op. cit., le portrait du retable pourrait dériver d'un original perdu de Roger van der Weyden.
12 D'après le costume, une robe décolletée jusqu'à la ceinture et un couvre-chef léger noué sous le menton, et le maintien un peu courbé du personnage, qui révèle un certain âge. K. Bauch, op. cif., tient également l'original pour un portrait tardif de la duchesse.
13 L. Alvin, W.H.J. Weale et M.J. FriedHinder, op. cif., se demandent si cette effigie ne refléterait pas un des deux portraits de la princesse peints au Portugal, avant son mariage, par Jean van Eyck. Cette opinion est rejetée par L. Baldass, op. cif., tandis que M. Devigne, op. cit., songe à un original disparu de Roger van der Weyden, dont dériverait aussi le retable d'Hesdigneul-Ies- Béthune.

O outro desenho é mais difícil de referenciar. Penso que seja este mas não estou seguro.

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Folha n.º 50

ISABELLE DE PORTUGAL (21 février 1397 - 17 décembre 1471), fille de Jean 1er de Portugal et de Philippine de Lancastre, troisième épouse de Philippe le Bon, duc de Bourgogne.

Acte d'Isabelle de Portugal en date du 21 septembre 1435, fondant des messes anniversaires à la mémoire de plusieurs membres de sa famille, et érigeant une chapelle dans laquelle ces messes seront chantées. «Donnéz en la ville

d'Arras, le XXle jar de septembre, l'an de grace mil quattre cens et trente cincq ». Il était transcrit sur une plaque de cuivre apposée sur le mur nord de l'église; cette plaque a disparu.

O Conde de Sabugosa termina esta descrição da estadia de van Eyck em Portugal:

“Emquanto o flamengo Van Eyck desenhava as feições da sua futura soberana, e ella servindo de modelo, bordava cuidadosamente os gorjaes com campainhas destinados aos cysnes, que o noivo lhe enviara, os Embaixadores n'outra sala assentavam com El Rei as condições do contracto — entrega das 154.000 coroas de ouro, Vestidos, jóias, e baixellas, que a Infanta havia de levar para Flandres : e por parte do noivo — a casa que lhe havia de destinar, as doações de terras, e outras muitas condições que o contracto existente, no Archivo Nacional, indica.

A 24 de Julho de 1429 realizou-se o casamento por palavras de presente, nos Paços do Castello, sendo procurador do Duque o Senhor de Roubaix, e celebrante o Bispo d' Evora. Assistiu D. João I, e assistiu toda a Corte.

Passados mezes a Infanta sahia a barra de Lisboa com uma armada de muitas embarcações, acompanhada por seu irmão D. Fernando, pelo Conde d'Ourem e por muitas senhoras, cavalleiros e escudeiros. Ao todo umas duas mil pessoas.”

Para finalizar um outro duplo retrato de Isabel e Filipe o Bom existente no Museu de Belas Artes de Gand.

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O retrato da duquesa figura na capa do livro de Daniel LacerdaIsabelle de Portugal, duchesse de Bourgogne, Une femme de pouvoir au coeur de l’Europe du Moyen-âge”, Paris, Lanore, 2008.

1 comentário:

  1. Mais um aparte:

    sobre as «“recordações das torres da Sé de Lisboa, que figuram no fundo do celebre retábulo” referidas pelo Conde de Sabugosa,

    e uma vez que eu me desloco com alguma frequencia à muito recomendável cidade de Gent por razões familiares, e sendo obvio que as principais torres e fachadas representadas no quadro sejam o centro civico daquela cidade

    creio não me enganar demasiado que as ditas torres assinaladas sejam as da Igreja de St. Jacob/James ou Saint -Jacques atendendo ao conjunto do edificio e volumetria:

    http://gentbelgium.ca/attractions/stjameschurch.html

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