Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 1 de julho de 2010

Marat assassiné par Jacques Louis David

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Marat Assassinado 1793.

Óleo s/ tela 165 x 128 cm.

Musées Royaux des Beaux-Arts, Bruxelas.

Os acontecimentos e as personagens

Em 13 de Julho de 1793 o revolucionário Jean Paul Marat, de 50 anos, director do jornal “O Amigo do Povo” deputado à Convenção e presidente do Clube dos Jacobinos foi assassinado por uma jovem vinda de Caen, Charlotte Corday.

Jean Paul Marat (1743-1793) é uma das personalidades mais radicais e extremistas dos jacobinos durante a revolução francesa

Nascido em Boudry, cantão de Neuchâtel, Suíça, estudou em Bordéus e em Paris, tendo-se formado e começado a exercer medicina em Londres.

Escreveu textos sobre física e fisiologia, em inglês e em francês como A Philosophical Essay on Man (1773)

Regressado a França trabalhou ainda como médico em Paris (1777-1783), escrevendo ao mesmo tempo alguns artigos sobre electricidade. Mas quando escreve “Plan de législation criminelle” em 1780, obra considerada subversiva, começa a escrever textos de incidência política.

Com o início da Revolução Francesa (1789) funda o jornal L'Ami du Peuple, com posições extremistas e incitações à acção violenta contra a aristocracia e os revolucionários moderados.

« …rien de superflu ne saurait appartenir légitimement, tandis que d’autres manquent du nécessaire »

Foi eleito deputado por Paris para a Assembleia Constituinte, como membro do partido mais à esquerda, os Montagnards. Membro do Comité de Vigilância da Comuna, deputado por Paris na Convenção, as suas posições extremistas exigindo uma ditadura revolucionária e incitando os parisienses à violência sobre os que se opunham à revolução valeu-lhe rapidamente a desconfiança e a oposição dos Girondinos, partido mais moderado.

O funeral de Marat

Os apoiantes de Marat, vão utilizar o seu assassinato e o seu funeral, encenado por Jacques Louis David, para o glorificar como mártir que morreu pela revolução, elevando-o, numa França onde ainda muitos são católicos, à categoria de santo. O seu busto frequentemente substituía crucifixos nas igrejas de Paris.

Como Jesus, Marat amou ardentemente as pessoas, e apenas elas. Como Jesus, Marat odiou reis, nobres, sacerdotes, vilões e, como Jesus, ele nunca parou de lutar contra estas pragas do povo.”A Convenção Nacional assistiu em peso ao funeral de Marat no Convento Des Cordeliers. Os restos mortais foram transferidos em 25 de Novembro de 1793 para o Panthéon de Paris. O elogio fúnebre foi escrito pelo Marquês de Sade, membro da Convenção Nacional e jacobino.

“Une nuit affreuse est venue étendre sur nous son crêpe funèbre ; l'intrépide défenseur de la liberté en est devenu le martyr. Marat ! Marat n'est plus. Peuple! il est donc vrai , tu as perdu ton ami. Un monstre , vomi par la tyrannie , est venu lui percer là sein. Tu l'as vu ! sa blessure mortelle s'est offerte à tes yeux ;son corps étoit froid et ensanglanté; tristes restes ! qui ont été pour toi les derniers témoignages de sa fidélité.

Ses obsèques , il est vrai , ont été ceux de ta reconnaissance ! tu l'as mis avec soin dans le tombeau ; tu l'as couvert de couronnes et de fleurs; tu as fait plus! tu l'as baigné de tes larmes.

O Marat ! qu'il est glorieux de mourir ainsi au milieu de ses frères!”

Oraison funèbre de Marat , L’Ami du Peuple

Prononcée par le citoyen F. E. GUIRAUT, membre de la commune du 10 août et de la Société des Jacobins, dans la Section du Contrat social , devant la Convention nationale, les Autorités constituées , les Sections, les Sociètés patriotiques et un grand nombre de Députés dês Assemblés primaires, le 9 août 1793 , l'an deuxième de la République, une et indivisible.

O assassinato de Marat, foi o pretexto para os Montagnards instaurarem o Terror, perseguindo e executando os girondinos.

Até 1795 continuaram as homenagens a Marat. A cidade de Le Havre chegou a acrescentar a Havre o nome de Marat.

Enterrado inicialmente no convento dos Cordeliers e transferido em 1793 para o Panthéon de Paris dele é retirado em 1795 para a Igreja Saint-Étienne-du-Mont.

Anos mais tarde o nome de Marat, como símbolo do revolucionário e do Amigo do Povo é reabilitado após a Revolução de Outubro na União Soviética, que em 1921deu o seu nome a um dos seus navios de guerra, bem como a uma rua de Sebastopol.

Roger Vaillant (1907-1965) jornalista e escritor, em 1937 tinha escrito em parceria com Raymond Manevy), Un homme du peuple sous la Révolution, sobre a vida de Jean-Baptiste Drouet um Montagnard como Marat.

Vaillant durante a ocupação nazi, militando na Resistência escreve Drôle de jeu (Éditions Correa, Paris, 1945) publicado no final do conflito e em que mostra o quotidiano de uma rede de resistentes e onde a principal personagem (o narrador) assume precisamente como nome na clandestinidade de Marat.

Também o alemão Peter Weiss (1913-1982) um dos mais conhecidos dramaturgos do século XX escreveu uma peça de teatro Perseguição e Assassinato de Jean-Paul Marat Representado Pelo Grupo teatral do Hospício de Charenton Sob a Direção do Marqués de Sade, mais conhecida como Marat/Sade em 1963.

Como Sade (autor de um dos elogios fúnebres de Marat) tinha sido internado no Hospício de Charenton em 1801 (onde aliás ficará até à sua morte em 1814) e onde escreveu e ensaiou um conjunto de peças de teatro representadas pelos próprios doentes, Weiss coloca em confronto as duas personalidades que tinham vivido a Revolução. Marat com o seu radicalismo procurando fazer avançar a revolução igualitária através, se necessário, do Terror, contra Sade que vê na revolução sobretudo a consciência racional da liberdade individual.

“Sade

Para distinguir o verdadeiro do falso temos de nos conhecer a nós mesmos.

Eu não me conheço.

Quando penso ter descoberto alguma coisa logo dela duvido e a nego.

O que quer que façamos é apenas uma sombra do que queríamos fazer…

Marat

O qué necessário é arrancarmo-nos do fosso pelos cabelos virarmo-nos do avesso e sermos capazes de ver todas as coisas com olhos novos…”

Charlotte Corday

Marie-Anne Charlotte Corday d'Armont (1768-1793) era descendente de uma família da pequena aristocracia rural da Normandia, tendo sido educada num convento católico em Caen.

Charlotte Corday então com vinte e quatro anos, chega a Paris em 11 de Julho de 1793 e a 12 escreve o panfleto Adresse aux Français, em que justifica os seus actos futuros.

No dia 13 de Julho de manhã Charlotte Corday compra uma faca e dirige-se para o número 30 da rua des Cordeliers , onde vivia Marat. Não conseguindo ser recebida, escreveu-lhe uma carta onde afirmava ter importantes revelações a fazer sobre o que se passava com os girondinos em Caen. Tendo regressado a casa de Marat às sete horas da tarde, acaba por ser recebida no quarto onde Marat escrevia num tamborete pousado sobre a tina em que se encontrava para acalmar as dores provocadas pela sua doença de pele. Charlotte assassina então Marat. Presa imediatamente, é julgada, condenada à morte e executada a 17 de Julho.

Posteriormente, nos meados do século XIX haverá quem tente reabilitar o seu gesto, entre os quais o poeta e escritor Alphonse de Lamartine (1790-1869), dedicando-lhe a sua “Histoire des Girondins” de 1847, onde aliás descreve minuciosamente o contexto do assassinato de Marat, que considera como um acto de justiça, apelidando Charlotte de Corday de “l’Ange de l’assassinat”.

Para justificar o assassinato como um acto heróico escreve “En présence du meurtre, l’histoire n’ose glorifier; en présence de l’heroïsme, l’histoire n’ose flétrir.

Jacques Louis David (1748-1825)

Em 1766 David entra para a Academia Real de Pintura e Escultura, de França e em 1774 ganha o Prix de Rome com «Antíoco e Estratonice» um quadro que ainda é influenciado pelo rocaille de um dos seus mestres François Boucher /1703-1770), mas onde aparece já um fundo arquitectónico de cariz clássico.

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Antiochus and Stratonice 1774
óleo s/ tela 135x 120 cm
Ecole des Beaux-Arts de Paris

em 1780, realizou «Belisário pedindo esmola» uma cena da antiguidade, em que se notam influências de Poussin.

Em 1782 casou com Marguerite Pécoul, filha do empreiteiro e superintendente das obras no Palácio do Louvre, o que lhe permite uma vida mais desafogada.

Em 1784 foi eleito para a Academia Real com o seu «Andrómaca chorando Heitor», onde surge a temática do herói da Antiguidade Clássica.

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Andromache chorando Hector1783
óleo s/ tela Musee du Louvre Paris

Regressou no mesmo ano a Roma, desta vez acompanhado pela mulher e assistentes, para pintar um enorme quadro, o «Juramento dos Horácios», o primeiro quadro que rompe com a estética rococó, afirmando o que será mais tarde conhecido por neoclássico.

As personagens de tamanho natural estão dispostas no primeiro plano como numa pintura de um vaso grego.

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O Juramento dos Horácios1784
Óleo sobre tela 4,248 x 3,298 metros
Musée du Louvre Paris

Apresentado pela primeira vez no estúdio de David em Roma, participou no Salão de Paris de 1785, tendo aí provocado sensação, sendo considerado um manifesto em defesa de uma renovação artística.

No fundo, acabou por se tornar um manifesto político contra a corrupção da aristocracia de final do século, e pelo regresso aos princípios morais atribuídos à Roma republicana.

Em 1787 pinta «A Morte de Sócrates»

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The Death of Socrates1787
óleo s/ tela
Metropolitan Museum of Art New York

…e no ano seguinte os «Amores de Paris e Helena».

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Paris e Helena 1788
Óleo s/ tela Musee du Louvre Paris

Em 1789 no início da Revolução pinta «Os Lictores devolvendo a Brutus os corpos dos seus filhos», e este quadro do cônsul patriota que condenou à morte os seus próprios filhos por traição, adquire então uma enorme importância política.

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Os Lictores devolvendo a Brutus os corpos dos seus filhos 1789

óleo s/ tela 422 x 323 cm Musee du Louvre Paris

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O quadro irá ainda influenciar a moda masculina e feminina, já que o modelo de República conhecido era a romana. Por isso os cabelos à Brutus nos homens e as túnicas nas mulheres tornam-se então muito populares.

Após a Revolução David que entretanto tinha aderido aos Montagnards, participa activamente na revolução, desenha alguns acontecimentos políticos e torna-se amigo de Marat.

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Le serment du jeu de paume 1791
Musee national du Chateau (Versailles, France)

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Estudos do juramento dos deputados
Óleo sobre tela
1791
600 x 490 centímetros
Musée National du Chateau (Versalhes , França)

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Marie Antoinette no caminho para a guilhotina1793
desenho à tinta 100 x 150 cm Musée du Louvre Paris

O Quadro

Após a morte de Marat Jacques Louis David que, com outros cidadãos se tinha encontrado com Marat nas vésperas do assassinato, é encarregado pelo deputado Guirault e pela Convenção de pintar um quadro que homenageasse o revolucionário.

« O crime ! une main parricide nous a ravi le plus intrépide défenseur du peuple. Il s’est constamment sacrifié pour la liberté. Voilà son forfait. [...] Où es-tu David ? Tu as transmis à la postérité l’image de Lepelletier, mourant pour la Patrie, il te reste un tableau à faire ! »

“ Accourez tous, la mère, la veuve, l’orphelin, le soldat opprimé; vous tous quil a défendus au péril de s avie, approchez! Et contemplez votre ami; celui qui veillait n’est plus; sa plume, la terreur des traites, sa plume échappe de ses mains. O désespoir! Votre infatigable ami est mort! Il est mort votre ami, en vous donnant son dernier morceau de pain; il est mort sans même avoir de quoi se faire enterrer. Posterité, tu le vengeras…C’est a vous , mês collègues que j’offre l’hommage de mês pinceaux; vos regards, en parcourant les traits livides et ensanglantés de Marat, vous rappelerons ses vertus, qui ne doivent cesser d’être les vôtres.”

Discurso de David na Convenção 1793

Para além de encenar o enterro de Marat, começa a elaborar o quadro que lhe é encomendado.

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Precisamente na manhã em que Maria Antonieta é executada o quadro acabado três meses após a encomenda é exposto no pátio do Louvre.

O artista declara nesse dia: « Il est mort votre ami, en vous donnant son dernier morceau de pain… ».

Na apresentação da sua tela na Convenção, disse: "Cidadãos, o povo novamente clamou por seu amigo; sua voz desolada foi ouvida: 'David, toma teus pincéis, vinga Marat!'… Eu ouvi a voz do povo, e obedeci".

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Jaques Louis David não é pois, um pintor académico respondendo a uma encomenda, pintando um acontecimento histórico.

O Marat Assassinado é sobretudo um testemunho da sua participação política.

No seu realismo David inventa a função da arte como propaganda exaltando Marat como um símbolo de um homem novo saído da revolução francesa.

David em colaboração com os seus assistentes, pinta aliás várias cópias do seu quadro, tornando-o um verdadeiro cartaz de propaganda revolucionária.

“ Marat Assassinado “, de 1793, representa a morte do revolucionário (e amigo de David) assassinado por Charlotte Corday.

David representa não o acontecimento mas o momento que segue o homicídio. A assassina não é mostrada de modo a que seja condenada ao esquecimento.

Mostra o líder francês morto, debruçado na banheira, segurando uma petição (que provavelmente lhe fora dada por Charlotte na intenção de o distrair), uma pena com a qual tencionava assinar o papel e a faca com que o crime foi praticado. A David só interessa destacar e enaltecer a personagem.

A pintura tem como dimensões de 165 x 128 cm a forma de um rectângulo divido em duas metades e colocado no sentido vertical.

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A metade superior mostra um fundo escuro com o canto superior direito mais iluminado.

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A figura de Marat entre o sofrimento e a tranquilidade, aparece iluminado por um foco de luz por detrás do espectador, uma luz quase divina, apreendida em Caravaggio, e que realça o carácter de santo e mártir, que David pretende imprimir a Marat.

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A definição do lugar contradiz-se no realismo do primeiro plano, e no esbater do fundo abstracto sem sinal de vida

O pano verde e o lençol que cobrem a banheira definem a linha que separa a zona da do concreto, do real, da zona abstracta do vazio e do nada.

O espaço define-se por uma sóbria contraposição entre linhas horizontais e verticais, quase num sistema de eixos Cartesianos.

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Apenas a curva do braço rompe este sistema de linhas horizontais e verticais, conduzindo o olhar do rosto de Marat para a pena e para a inscrição.

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A pena e o nariz apontam para o papel.

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Na metade inferior, inscrito num triângulo, Marat moribundo na banheira.

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Como aponta Giulio Carlo Argan (L’arte moderna 1770/1790, Ed. Sansoni Firenza 1977):

“David não dramatiza o assassinato, nem o sofrimento, apenas descreve a passagem da vida para a morte, do ser para o nada.

Não comenta, apresenta um facto: produz o testemunho mudo e irremediável das coisas.

Diz a infâmia do delito e a virtude do assassinado.

A tina em que mergulhava para acalmar as dores e na qual escrevia as suas mensagens para o povo dizem a virtude do tribuno que domina o sofrimento para cumprir o seu dever.

Uma caixa de madeira mal envernizado faz de pequena mesa: dizem a pobreza, a integridade do político…”

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…”Sobre a caixa encontra-se um Assignat que, embora pobre, manda a uma mulher cujo marido foi para a guerra e que não tem pão para dar aos filho. Diz a generosidade do homem.”

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Na carta sobre o tamborete junto ao assignat pode ler-se “ vous donnerez cet/assignat à cette/mère de cinq enfants/et dont le mari/ est mort pour la/ défense de la patrie.”

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Nota – Assignat:título de empréstimo emitido pelo Tesouro em 1789 e cujo valor estava associado aos bens nacionais. Os assignats tornam-se moeda em 1791.

No chão, no primeiro plano a faca e a pena, a arma da assassina e a arma do revolucionário.

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No primeiro plano é a caixa-lápide com a inscrição “A Marat. David".

“Nenhuma idealização formal: o lado da caixa-mesa, que fixa o plano limite do quadro é um eixo em que se vêm com alucinante evidência de um trompe-l’oeil, os veios da madeira, os nós, os buracos dos pregos;…” (Argan)

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Na mão esquerda Marat tem um bilhete onde se lê “Du 13 juillet 1793/ Marie anne Charlotte/ Corday au citoyen/marat/ il suffit que je sois/ bien malheureuse/ pour avoir droit/ à votre bienveillance”

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Não há figuras secundárias que “distraiam” da personagem principal e que se pretende glorificar.

David pretende dar à figura de Marat a áurea de um mártir, elevando a um nível religioso e semelhante à figura de Cristo.

O tronco nu de Marat com uma ferida no peito jorrando sangue, a cabeça caída, o braço direito abandonado, o lençol manchado de sangue como um sudário

O modelo de Cristo

Para dar à figura de Marat essa auréola de santo e de mártir da revolução David vai inspirar-se em Caravaggio e na Sepoltura di Cristo, e este remete para A Pietá de Michelangelo.

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Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571 – 1610) Deposição 1604;

óleo s/ tela 300 x 203 cm. Pinacoteca Vaticana in Rome

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Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475 -1564) Pietá1499. Basílica de São Pedro Vaticano

Em todas o motivo dominante é o braço que cai e contrasta com o branco do lençol-sudário.

A morte de Marat, amplamente admirada durante o Terror, e cujos líderes ordenaram mesmo várias cópias da obra original (as cópias se fizeram em 1793-1794 por alunos de David para servir de propaganda), o quadro de David contudo, caiu em desgraça ao tempo da queda e da execução de Robespierre.

Uma dessas cópias está no museu do Louvre sendo que a inscrição no tamborete é agora:

N’ayant pu me corrompre

ls m’ont assassiné

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Marat Assassiné

óleo s/tela 162 x 130 cm

Paris, Musée du Louvre

A França envolvida numa guerra com as potências europeias aparentemente estava em vantagem e o estado de emergência decretado pelo Comité de Segurança Pública deixou de existir. No entanto a luta política continuava e Robespierre (1754-1794)foi preso e depois executado.

David apesar do seu apoio aos montagnards foi apenas preso.

Na prisão fez um auto-retrato, mostrando-se muito mais jovem do que a sua verdadeira idade 46 anos. Voltará a tornar-se conhecido e prestigiado quando Napoleão assume o poder.

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J. L. David - Portrait de l'artiste 1794
0,81x 0,64 m. Musée du Louvre

Quanto ao quadro foi devolvido a David em 1795 e desde 1795 até a morte de David, o quadro e caiu no esquecimento. Em 1826 (e mais tarde), a família tentou aliená-lo, sem nenhum sucesso. O quadro foi posteriormente oferecido à Bélgica pelo neto de David em reconhecimento pelo acolhimento dfeito a Jacques Louis David exilado por Luís XVIII depois da derrota de Napoleão em Waterloo.

Apenas em em 1846 Charles Baudelaire (1821-1867) recupera o quadro escrevendo:

“Cruel comme la nature, ce tableau a tout le parfum de l’idéal. Quelle était donc cette laideur que la sainte Mort a si vite effacé du bout de son aile? Marat peut désormais défier l’Apollon, la mort vient de le baiser de ses lèvres amoureuses, et il repose dans la calme de sa métamorphose. Il ya dans cette oeuvre quelque chose de tendre et de poignant à la fois; dans l’air froid de cette chambre sur ces murs froids, autour de cette froide et funèbre baignoire, une âme voltige”

Le musée classique de Bazar Bonne Nouvelle 1846 in Baudelaire, Critique d’Art Gallimard 1976

Outra interpretações do assassinato de Marat

A partir desta reabilitação feita por Baudelaire, o tema volta a ser considerado pelos pintores.

O pintor académico Paul Baudry (1828 – 1886), pinta uma outra versão do assassinato.

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Paul Jacques Aimé Baudry - Charlotte Corday após o assassinato de Marat.1860

óleo sobre tela, 2030 x 1540 mm Musée des Beaux-Arts, Nantes, France

Baudry mantém os elementos referentes a Marat (a banheira, os panejamentos, o tamborete, etc.) vistos de um ângulo diferente e introduzindo e reabilitando a figura de Charlotte Corday.

Repare-se ao fundo o Mapa de França com os seus oitenta e três departamentos criados em 1790.

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A new map of France divided into eighty three departments London : Robert Sayer, 1793.

carta : imp., com traçados a cores, em papel ; 57x48 cm http://purl.pt/3735

E também Jean-Joseph Weerts (1847-1927), pintor belga e também ele académico procura uma outra interpretação do tema.

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No século XX Edvard Munch (1863 — 1944), produz duas interpretações expressionistas do tema:

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Morte de Marat I, 1907
óleo s/ tela 150 x 200 cm- Munch-museet, Oslo

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Morte de Marat II, 1907
óleo s/ tela 153 x 148.5 cm Munch-museet, Oslo

O cineasta Abel Gance (1889 —1981) no seu mais importante filme Napoléon de 1927, encena a morte de Marat tendo em atenção o quadro de David.

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Mais recentemente 1934, Picasso trata o tema ao desenhar uma capa para um livro.

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Pablo Picasso "La mort de Marat" capa para livro 1934

Fine Arts Museums of San Francisco

As paródias

Como todas as grandes pinturas o Marat Assassiné é motivo de paródias (algumas serão?)

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Marat?? by Riscchip http://www.worth1000.com/search/marat/2

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O fantasma de Marat by Checker http://www.worth1000.com/search/marat/2

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battery computer by millionaire http://www.worth1000.com/search/marat/2

Muitos recordar-se-ão do excelente programa sobre arte de Sister Wendy Beckett (n.1930) para a BBC.

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Alguém, sob o pseudónimo de Sister Randy, realizou uma delirante e non-sens série de animações em que aparece uma Sister Randy, sempre a fumar e debitando risíveis opiniões sobre artes plásticas.

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