Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 3 de julho de 2010

O Porto há cem anos 6

Da Praça de D. Pedro pela Zona Ocidental da cidade

parte 1 Da Praça de D. Pedro ao Palácio de Cristal

parte 2 Do Palácio de Cristal ao Campo Pequeno / rua da Boavista / rua de Cedofeita / Praça Carlos Alberto e regresso à Praça de D. Pedro

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Detalhe da planta do Guia Baedeker de 1901
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O percurso no Guia do Porto Illustrado 1910
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Detalhe da planta do Guia do Porto Illustrado 1910

parte1 - Da Praça de D. Pedro ao Palácio de Cristal

A zona monumental do Porto. Com efeito nesta zona encontram-se as igrejas dos Clérigos, do Carmo e Carmelitas, de N.ª Sr.ªda Vitória, o convento de S. Bento da Vitória, a Academia Politécnica e o Hospital de Santo António.
O Largo dos Lóios
O (…)largo dos Loyos, um dos mais importantes pontos commerciais da cidade, onde ha maior numero de livrarias, podendo recommendar-se entre estas, não pela sua vastidão, mas pelo sortido dos seus livros e pela seriedade das transacções, a antiga Livraria Fernandes de J. Pereira da Silva;…
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…a Pharmacia Lima & Ramos, Succ., que não é uma casa para recomendar pela luxuosa installação, mas que toda a gente conhece por ser depositaria d'um preparado pharmaceutico universalmente conhecido — o Polvilho Antiseptico de Silva Ferraz; …
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…a importante casa commissionista de Pinto Basto & Leite, representante da invencível marca de automóveis «Darracq», da conhecida machina de escrever «Continental» e de todos os artigos e machinaria graphica, papeis, etc….Guia do Porto Illustrado
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A rua dos Clérigos
(…)R. dos Clérigos, logo a principio, uma das mais conhecidas e bem sortidas livrarias do Porto, de Eduardo Tavares Martins; ao alto da rua a egreja e torre dos Clérigos; …” Guia do Porto Illustrado
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Foto Comte Henri de Lestrange ( 1853-1926) – Vista do Porto 1897
Positif noir et blanc pour projection Gélatino-bromure Support verre;Recadrage au papier collé
Ministère de la Culture (France), Médiathèque de l'architecture et du patrimoine (archives photographiques) diffusion RMN
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Chusseau-Flaviens, Ch. - Porto Eglise dos Clerigos/et rue dos Clerigos ca. 1900-1919
negative, gelatin on glass 15 x 10 cm.
George Eastman House Archive

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“A rua dos Clérigos à hora da passagem d’El-Rei.
Ao fundo vê-se a egreja e Torre dos Clérigos empavesada de bandeiras.”
Illustração Portugueza n.º 143 16 de Novembro 1908
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Fotografia da DGEMN (visita do rei D. Manuel II 1908 ?)
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Ao cimo a Igreja dos Clérigos, com a sua Torre, “a mais alta de Portugal”, obras de Nicolau Nasoni.
A execução do projecto foi entregue a Nicolau Nasoni, as obras ao mestre pedreiro António Pereira, depois ao mestre Miguel Francisco e por fim ao mestre Manuel António de Sousa.
“(…) A Egreja dos Clérigos (…) de architectura composita, tem, exteriormente, a forma octogonal a que corresponde a forma oval interna, exceptuando a capella mor que possue um bello retábulo em már­more, artisticamente delineado.
Para o serviço do culto possue pre­ciosos ornamentos e alfaias de valor, que facilmente podem ser apreciados.” Guia do Porto Illustrado
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Foto Alvão in Domingos Alvão – A Cidade do Porto na obra do Fotógrafo Alvão, ed. fotografia Alvão, Porto 1993
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Joaquim Villanova Egreja dos Clérigos 1833
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Foto Alvão – in Domingos Alvão – A Cidade do Porto na obra do Fotógrafo Alvão, ed. fotografia Alvão, Porto 1993

A fachada está dividida em dois níveis.
No primeiro duas janelas laterais, com ornatos vegetais, e um janelão central, todas separadas por pilastras.
Sob o janelão central um portal com frontão.
No segundo, um janelão a meio em cuja parte inferior figura a mitra papal.
Dos lados, imagens em calcário, de S. Pedro e S. Paulo.
Um frontão triangular quebrado remata todo o conjunto, vendo-se no tímpano um medalhão com o monograma AM (Avé Maria).
A execução do projecto foi entregue a Nicolau Nasoni, as obras ao mestre pedreiro António Pereira, depois ao mestre Miguel Francisco e por fim ao mestre Manuel António de Sousa.
A Torre dos Clérigos

“(…)Torre dos Clérigos elegantíssimo monumento do architecto italiano Mazoni (sic), concluído em 1763. E' a mais alta torre de Portugal, toda em cantaria lavrada, com 70 metros de altura e que se avista do mar a mais de 50 kilometros.” Guia do Porto Illustrado
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Chusseau-Flaviens, Ch. (active 1890s-1910s) Porto Torre dos Clerigos ca. 1900-1919
negative, gelatin on glass 15 x 10 cm.
George Eastman House Archive
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CASANOVA, Enrique, 1850-1913
Torre dos Clérigos ca. 1890
gravura : litografia, color. ; 29x30 cm http://purl.pt/1055 BND
“(…) A visita ao alto da torre, que está franqueada ao publico no dia 15 de agos­to de cada anno, mas que também é fácil realisar-se n'outra qualquer occasião, é deveras curiosa e compensa bem a massada de trepar 246 degraus, porque de lá se gosa formidável panorama.
O aspecto parcial da cidade, publi­cado a paginas 54 d'este guia, é a re­produção de uma photographia tirada do alto da torre dos Clérigos.” Guia do Porto Illustrado
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Guia do Porto Illustrado Página 54
A torre dos Clérigos apresenta-se como um ponto de referência, definindo eixos de evolução da cidade.
Esses eixos apontam na direcção das diversas igrejas existentes ou em construção.
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A Torre dos Clérigos na planta de 1813
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Artur Loureiro [1853-1932] Torre dos Clérigos
óleo s/ madeira 335x670 cm
Casa Museu Fernando de Castro


A Rua das Carmelitas (antiga rua do Anjo)
(…) na rua das Carmelitas, os populares Armazéns de Santo António, vastos e com magnifica installação; …
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a acreditada livraria, papelaria e typographia, de Francisco Joaquim d’Almeida, cujos créditos profissionaes bem patentes ficam pela execução esmerada das 2.a e 3.a partes d'este guia; …” Guia do Porto Illustrado
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A rua das Carmelitas antes da construção do bairro das Carmelitas
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Postal Alberto Ferreira Tipografia Peninsular
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Postal Arnaldo Soares
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Foto Alberto Ferreira Tipografia Peninsular
O bairro das Carmelitas
A antiga cerca do convento das Carmelitas vai ser na mudança do século urbanizado, com a abertura da rua da Galeria de Paris e, posteriormente pela edificação e regularização da rua do Correio.
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Detalhe da planta do Guia Baedeker
Integrado no plano de Correia de Barros de 1881 existiu um projecto para um mercado coberto de 1888, que não foi realizado.
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Projecto Mercado das Carmelitas 1888
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Guia do Porto Illustrado
Casa Fernandes, Matos & C.ª – Armazéns das Carmelitas 1904
“autor Licínio Guimarães C.O.P.
Edifício comercial na Rua da Galeria que nunca foi coberta, onde se instalaram os Armazéns das Carmelitas - Fernandes, Matos & Ca. A arquitectura transparece algum monumentalidade na escala urbana e reserva uma surpresa estrutural no interior, com um amplo espaço dominado por colunas em ferro, de bases vegetalistas, fustes marmoreados, capitéis e decorativas consolas apoiando na estrutura do tecto, que derrama luz de geométricos candeeiros. Passando o mobiliário de parede e o colorido de tectos expostos, vislumbra-se uma monumental escadaria que nos conduz aos pisos superiores, marcados novamente pela estrutura vertical, menos alta e mais delgada.” BRANCO, Luís Aguiar – Lojas do Porto vol. 2, edições Afrontamento, Porto 2009
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foto de BRANCO, Luís Aguiar – Lojas do Porto vol. 2, edições Afrontamento, Porto 2009
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foto arquivo RF
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fotos de BRANCO, Luís Aguiar – Lojas do Porto vol. 2, edições Afrontamento, Porto 2009
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foto arquivo RF
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Largo do Correio (rua Candido dos Reis) foto Beleza in Porto Margens do Tempo Livraria Figueirinhas Porto/Lisboa 1994
O edifício 4 Estações 1905 de José Marques da Silva
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Estudo para fachada Tinta da china s/ papel opaco 0,33x0,27 IMS/AJMS
in Mesquita, Mário João – Marques da Silva O Aluno, o Professor, O Arquitecto – Catálogo da Exposição FAUP 2006
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Armazéns da Capela de 1904 da responsabilidade técnica de Estevão P. Silva Leitão.

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Aurélio Paz dos Reis - Visita de João Franco ao Porto fotografia estereoscópica 1907 - APR 6805, AFP/CPF/MC
In o Porto e os seus Fotógrafos, coord. Siza Teresa, Porto 2001, Porto Editora 2001
A Livraria Chardron
Em 1869 é fundada na R. dos Clérigos a Livraria Internacional, pelo francês Ernesto Chardron e em 1894 a livraria é vendida aos irmãos José e António Pinto de Sousa Lello.
Em 1906 é inaugurada a livraria Lello e Irmão, projecto do engenheiro Xavier Esteves, professor do Instituto Industrial e Comercial do Porto.
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O Occidente n.º 976 de 10 Fevereiro de 1906
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Foto arquivo RF
As duas figuras pintadas da autoria de José Bielman, na fachada da Livraria são inspiradas na pintura pré-rafaelita aliás de acordo com o neo-gótico da decoração exterior e interior do edifício.
A Figura da esquerda simboliza a Arte (a Escultura), ao segurar um busto com a mão esquerda.
A Figura da direita simboliza a Ciência (a Antropologia), e segura nas suas mãos uma caveira e um instrumento de medição.
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O Occidente n.º 976 de 10 Fevereiro de 1906
No Interior os bustos de Camilo, Eça de Queiroz, Antero, Tomaz Ribeiro, Teófilo Braga e Guerra Junqueiro da autoria de Romão Júnior.
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Foto de Aurélio Paz dos Reis - Interior da Livraria Chardron (inauguração?)
O mercado do Anjo
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Detalhe da planta de 1892 anotada
“To the N. of the Clérigos lies the Mercado do Anjo, shaded with trees and much frequented in the morning.
In the middle is a granite fountain.” Guia Baedeker
“(…) o mercado do Anjo, que deve ser visitado de preferencia, da parte de manhã;…
“(…) O Mercado do Anjo , nome que recebeu de herança do demolido conven­to que n'este logar em tempos houve. Nada se recommenda aqui pela sua gran­deza architectonica nem pelas suas di­mensões; é apenas um exiguo terreno, de forma triangular, limitado por pequenas casas, que servem para estabelecimentos commerciaes de varia na­tureza, especialmente mercearias, salchicharias talhos, etc.; mas que tem de notável, para o touriste, como os outros mercados, o facto de ali poder observar costumes curiosos, ainda não analysados, especialmente do povo dos arredores da cidade que, desde manha cedo, quasi todos os dias, frequenta este local para effectuar suas transacções ou expor á venda os excellentes productos d'uma cultura abundante.
No interior do recinto ha um abarracamento acanhado, mas asseiado, onde as vendedeiras locaes, com mais ou menos gosto, que se vae aprimorando, fazem as suas exposições de fructos de­liciosos, que sabem vender, por preços rasoaveis, ás pessoas que desconhecem este meio.
O Mercado do Anjo , nome que recebeu de herança do demolido conven­to que n'este logar em tempos houve. Nada se recommenda aqui pela sua gran­deza architectonica nem pelas suas di­mensões; é apenas um exiguo terreno, de forma triangular, limitado por pequenas casas, que servem para estabelecimentos commerciaes de varia na­tureza, especialmente mercearias, salchicharias, talhos, etc.; mas que tem de notável, para o touriste, como os outros mercados, o facto de ali poder observar costumes curiosos, ainda não analysados, especialmente do povo dos arredores da cidade que, desde manha cedo, quasi todos os dias, frequenta este local para effectuar suas transacções ou expor á venda os excellentes productos d'uma cultura abundante.
No interior do recinto ha um abarracamento acanhado, mas asseiado, onde as vendedeiras locaes, com mais ou menos gosto, que se vae aprimorando, fazem as suas exposições de fructos de­liciosos, que sabem vender, por preços rasoaveis, ás pessoas que desconhecem este meio.” Guia do Porto Illustrado
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Artur Loureiro (1853-1932) - Mercado 1903
Óleo sobre madeira32 x 40,5 cm Museu Nacional de Soares dos Reis
A Cadeia e Tribunal da Relação
Ao cimo da rua das Carmelitas e passado o Mercado do Anjo
“(…) na direcção da torre dos Clé­rigos, depara-se-nos (…) grande edi­fício, de estylo pezado e triste, com suas janellas em grande maioria fortemente gra­deadas. São as Cadeias e tri­bunal da Relação do Porto, installadas n'este vasto e solido edifício, de aspecto severo e sombrio, onde, em pés­simas condicções hygienicas, sem ar nem luz, vive avultada população, especialmente nas en­xovias ha muito condemnadas. Todavia, para quem se inte­ressa por estas coi­sas, recommenda-se a visita a este formidavel casarão, não para apreciar sua architectura, sobre modo desgraciosa e pezada, mas para, mais uma vez,constatar documen­to authentico e in­contestável da incú­ria e deshumanidade com que o Esta­do n'este paiz cos­tuma tratar os as­sumptos d'esta or­dem,
A entrada, que dá accesso para as prisões, é pelo lado do c. dos Martyres da Pátria; e, para o tribunal da Relação, é pela r. de S. Bento…” Guia do Porto Illustrado
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Palácio da Relação e Cadeia da cidade do Porto «Archivo Pittoresco», 6, 1863. p. 104
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Foto de Alberto Ferreira 1902 negativo em vidro Tipografia Peninsular
in Mesquita, Mário João – catálogo da exposição - A Cidade dos Transportes – Centro Português de Fotografia 2008
A obra ter-se-á iniciado em 1767, segundo um projecto de Eugénio dos Santos, (1711/1760) por ordem de João de Almada e Melo e estaria terminada por volta de 1796.
O edifício implanta-se num terreno triangular, delimitado pelas ruas de S. Bento da Vitória, a travessa de S. Bento e a rua que existia entre a antiga cadeia e a muralha.
“(…) pela r. de S. Bento, estreita e abafada, en­contrando-se, logo a seguir, n'esta rua, a mais espaçosa egreja da cidade…”
“(…) S. Bento da Victoria, fundada sobre as ruínas d'uma synagoga, por D. Fr. Balthazar, bispo do Porto. Não se recommenda este templo apenas pela sua vastidão, 79 metros de comprimento, por 24 na máxima largura; mas principalmente pela magnifi­cência e grandiosidade de sua construcção, como em bem poucas mais egrejas da cidade se notará.
Pertenceu aos frades benedictinos.
Ao visitante se recomendam, entre outras ma­ravilhas, aqui dignas de nota: a abobada, toda em pedra, custosa e artisticamente la­vrada; as capellas lateraes, com suas imagens e artísti­cas grades de ferro; a talha opulenta e valiosa dos al­tares do cruzeiro; toda a capella mor e cincoenta formo­sas cadeiras coraes, de pau preto, destacando-se tam­bém o altar-mór pelo magnificente retábulo de talha dourada; o coro da egreja, sumptuoso, é tido na conta do mais rico do paiz, e onde também se salientam, pelo maravilhoso trabalho, as ca­deiras coraes, a bella balaus­trada de pau preto e a deco­ração dos órgãos, etc…” Guia do Porto Illustrado
A igreja de N. Sr.ª da Vitória



“(…) Continuando pela r. de S. Bento, encontra-se, ao fundo, outra egreja mais modesta a de N. Sr.ª da Victoria construída em fins do sécu­lo XVI, mas reedificada mo­dernamente para reparação dos estragos causados, du­rante as luctas civis, pelo fogo da artilheria que se cruzou entre os sitiantes da cidade e a bateria que ao lado do templo estava em acção.
A frontaria, simples mas elegante, é toda em granito; tem uma só nave e uma tri­buna mor digna de nota, bem como riquíssimas al­faias e paramentos que per­tenceram à egreja de S. Ben­to da Victoria.” Guia do Porto Illustrado
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Joaquim Villanova Egreja da Victoria
Num dos altares existe uma imagem de Nossa Senhora da Vitória, da autoria de Soares dos Reis.
O Passeio das Virtudes “soberbo ponto de vista so­bre o rio Douro, barra, al­fândega e Villa Nova de Gaya.
O nome d'esta alameda vem-lhe da Fonte de N. S. das Virtudes; e aqui existiu, n'outros tempos, a porta e torre das Virtudes.”" Guia do Porto Illustrado
Neste local faziam os judeus os seus enterros, denominando - se por isso o monte por "Jazigo dos Judeus".
Com expulsão dos judeus no século XVI o local foi arranjado e transformado em passeio público.
O paredão que sustenta a Alameda foi construído em 1787, por iniciativa de Rodrigo António de Abreu e Lima, juiz da Alfândega e inspector da Marinha do Douro.
Este primeiro paredão ruiu e foi reconstruído por Ordem de Francisco de Almada e Mendonça.
Junto ao paredão, em baixo, está a fonte das Virtudes, que deu nome ao local.
Próximo a este Passeio ficava a antiga Porta das Virtudes vendo-se ainda na rua do Calvário, alguns lanços da muralha do Porto.
Mais tarde, para evitar os suicídios, o paredão foi gradeado, assentando a grade num soco de cantaria.


“Outra alameda, como a das Fontainhas, se bem que voltada para o occidente. Tem o que quer que seja de antigo mirante feudal, d‘ onde o senhor castellão fosse todos os dias espreitar se alguma caravella de piratas velejava no mar ou já vinha rio acima prear as suas embarcações de recreio. Bonita d‘ uma vez! »
Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, 1876



Firmino Pereira refere a situação do Jardim por volta de 1912:
(…)A magnifica fonte, para a qual se desce pela rampa pedregosa que principia à entrada da Cordoaria Velha, está completamente abandonada. Quem quer encher o seu cântaro vae á fonte das Taipas. As Virtudes, que viram passar as mais lindas mulheres do século XVII e XVIII, que foram o ponto de reunião dos peraltas e faceiras do velho burgo episcopal, que serviram de recreio a fidalgos, desembargadores e fra­des, é hoje o que era antes de ser convertido em jazigo dos judeus — um local abandonado onde se acoitam va­dios e gatunos... Da fonte monumental, adornada de pirâmides, com as suas carrancas gigantescas, lavradas em pedra, fabrica magnifica que Archimedes y Vitruvio y Eadides paeden inbidiar para sus ingenios, como diz Novaes (op. cit., pag. 40), pouco ou nada existe. Restam os tanques, onde o mulherio do bairro vae lavar os seus trapos e catar os filhos, em dias de sol...”
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Arquivo Fotográfico dos SMAS in Amorim, Alexandra Agra e Pinto, José Neves - Porto D’Água - - SMAS 2001
O Jardim da Cordoaria 1866/67 Emílio David
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Detalhe da planta de 1892
“To the W. of the Clerigos stretches the large Campo dos Martyres da Patria, in which the Jardim da Cordoaria was laid out in 1866, a pleasure-ground abounding in noble planes and different kinds of palm-trees, and noted for its wealth of camellias in early spring. The S.E. side of the Campo is occupied hy the Tribunal (court-house) and the Cadeia da Relação (gaol) of the 18th cent. ; the S.W. side by the Praça do Peixe (fish-market).
To the N.W. is the Real Hospital de Santo Antonio da Misericordia, with an Escola Medica established in 1883. To the N.E. is the Academia Polytechnica (founded in 1877), with the Instituto Industrial e Commercial.” Guia Baedeker
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Alberto Ferreira 1900 Arquivo da Tipografia Peninsular in in Mesquita, Mário João – Da Academia à Universidade Catálogo da Exposição DGEMN 2007
O Guia do Porto Illustrado de Carlos Magalhães apresenta um Jardim da Cordoaria que contrasta com o O Porto d’outros tempos de Firmino Pereira, sensivelmente da mesma época.
No Guia:

“(…) pode o touriste dirigir-se ao Jardim da Cordoaria, o prin­cipal jardim publico da cidade, que tam­bém serve de jardim botânico da Acade­mia P olytechnica. Está admiravelmen­te tratado, possue notável série de plantas de valor, es­pecialmente a den­tro da pequena zona do lago, e tem todo o recinto limitado por uma bella e pre­ciosa collecção de camélias. E' bem ar­ruado, e, na aveni­da principal, desti­nada a passeios, en­contra-se um coreto onde, geralmente, em dias feriados e quintas-feiras, toca uma das bandas da guarnição do Porto.”
No Porto d’outros Tempos:
Tendo perdido toda a claridade e toda a poesia, transformaste-te no jardim banal que hoje és.(…)Tudo quanto te honrou, te sublimou, te engrandeceu, se sumiu para sempre(…) Jardim de sonhos e esperanças – jardim de alegrias e de doiradas quimeras!…Quem te viu e às tuas doces sombras se acolheu, passa hoje por ti, de largo, na negra tristesa da sua imensa saudade…” Firmino Pereira - O Porto d’ Outros Tempos, 1914
(O que escreveria Firmino Pereira se visse o Jardim da Cordoaria hoje!!)
Desde que foi criado o Jardim da Cordoaria, rapidamente se tornou o local privilegiado do Passeio dos Portuenses, substituindo o Jardim de S. Lázaro, sendo depois por sua vez ultrapassado pelo Palácio de Cristal e pelo Passeio Alegre.
"A Cordoaria está uma bizarria! Não tem bucho nem repucho mas é o cartuxo do luxo, o passeio do aceio, a estancia da elegancia. O lago é uma formosura d'água pura em forma de ferradura. Há que embirre com tal e julgue mal a esperteza municipal. Aos domingos, apesar dos pingos, acha-se repleto o jardim seleto da melhor roda, da gente à moda, da aristocracia genuina, do bom tom, das botinas à Benoitton, de paspalhões enfiados em jaquetões que deixam vêr o que não se pode dizer, de negociantes barrigudos dentro de enormes sobretudos, de soldados espartilhados, de damas com vestidos de escamas e enormes penteados que parecem esguedelhados, cintas de dedal, tacões de metal, chapéus de general, etc. e tal...Quem gosta de tafularia vae à Cordoaria ! Quanto a chapeus, enchem trinta museus. O chapeu Margarida (obra garrida) é muito elegante. O rapazito chama-lhe tunante. Como mais louçã é a pluma à Buridan. O chapeu à Napoleão primeiro é um tanto guerreiro mas tem ar feiticeiro. Parece um tinteiro. O tirolez já vae sendo burguez mas é lindo duma vez. O Patty c'est bien joli"
Anónimo 1870 - citado por Firmino Pereira - O Porto d’ Outros Tempos, Livraria Chardron de Lello & Irmão - 1914
O Lado Sul
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Com o Chalé…
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O Chalet da Cordoaria publicado em Porto Desaparecido ed. Quimera 2002, de Marina Tavares Dias e Mário Morais Marques

…e sem ele.
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O interior do Jardim
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Alberto Ferreira Tipografia Peninsular Alameda poente/nascente do jardim
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Teixeira Lopes - Flora - Homenagem a José Marques Loureiro – horticultor e floricultor Ing. 1904
in Domingos Alvão – A Cidade do Porto na obra do Fotógrafo Alvão, ed. fotografia Alvão, Porto 1993
Jardim da Cordoaria - O melhor de todos os passeios públicos do Porto é actualmente o da Cordoaria, posto lhe falte o horisonte, pois se acha encravado entre as cadeas da Relação, o mercado do peixe, o hospital da Misericórdia, e as casas comprehendidas entre este hospital e a Academia Polythechnica.
Todavia está muito bem tratado, e a disposição dos alegretes e arvoredo, ainda pouco frondoso por ser novo, é certamente graciosa. (...)
(…) O passeio está interiormente fechado por urna bonita sebe de catrapeiro, e exteriormente por uma grade.
Ha musica neste passeio, ás quintas feiras á noite e aos domingos de tarde. Costuma ser muito concorrido. “

Alberto Pimentel - Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, 1876
O Lado Poente
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O Hospício dos Expostos
Hospício dos Expostos 1838 no antigo hospício dos frades Antoninos
“Casa Hospicio do Porto, que pouco interesse poderá despertar ao touriste, não só pelo lado architectonico ou artístico, como pela parte da administração technica ou scientifica. Ali se admittem as creanças abandonadas, expostas ou desvalidas.” Guia do Porto Illustrado
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O mercado do Peixe
O mercado do Peixe já estava na Cordoaria em 1850 no local dos antigos celeiros da cidade mas o novo edifício foi construído a partir de 1869 e inaugurado em 1874.
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Detalhe da planta de 1865 de Perry Vidal
“Mercado do peixe, obra moderna, inaugurada em 1874.
E' amplo, edificado sobre os preceitos da moderna hygiene, e quasi sempre bem provido de peixe fornecido pela Povoa de Varzim, Vianna, Espinho, Vigo, etc, e ain­da pelo que para a cidade é trazido pelos vapores que se occupam da grande indus­tria do pescado.” Guia
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Detalhe da planta de 1892
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Marques da Silva - Esquisso para o Desenho do mercado do Peixe 1900 - Arquivo IAMS
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Porto, Mercado do Peixe (Fotografia Alvão) colecção Manuel Magalhães http://albuminasetc.blogspot.com
“ Agosto 1871.
Pois bem! A Câmara Municipal do Porto, com uma nobre solicitude pelo peixe, para quem parece ser uma extremosa mãe, e receando, com um carinho assustado, que o peixe se constipasse, ou sofresse a indiscrição dos vizinhos, construiu-lhe uma praça fechada, com altas e fortes paredes, varandas, gabinetes interiores, corredores, alcovas, casa bem reparada, quase um palacete. E tudo de tal modo tranquilo, aconchegado, confortável, que a Câmara hesita se há-de pôr ali peixes, se livros – e se fará daquilo um mercado ou uma biblioteca!
A nós parece-nos, que, com mais alguma despesa, a Câmara daria ao País o exemplo de uma grande dedicação pelo peixe! – Era mandar tapetar a praça, colocar nos recantos sofás, e não esquecer um piano. O peixe deslizaria aí dias de grande doçura: os robalos estariam deitados em divãs de seda: o polvo teria livrarias para se instruir! O comprador seria introduzido por criados de libré. A peixeira conduzi-lo-ia a uma alcova, com as janelas cerradas, ergueria os cortinados de um leito, e mostraria inocentemente adormecidas, sob uma coberta de damasco – duas pescadinhas-marmotas.
O comprador tiraria o chapéu comovido. E a peixeira, com lindos modos:
– Suas Ex.as recolheram-se tarde... São a 80 réis cada uma!
Ah! A Câmara tem decerto grandes planos! Como estão bem feitas, rasgadas, esbeltas, as largas varandas de ferro da fachada da praça! Alguns malévolos riem. Mas nós sabemos que essas varandas na praça do peixe, tão amplas e cómodas, têm um destino que ninguém – a não ser inspirado pelas injustiças da inveja – poderá condenar.
Aquelas varandas são para que, aos domingos – o peixe venha tomar café para a janela!
A honrada Câmara Municipal do Porto quis dotar a cidade com uma praça de peixe. Nada mais higiénico, mais justo. De todo o tempo, nas grandes cidades, o peixe teve os seus aposentos definitivos, porque a vadiagem do peixe pelas ruas – fazendo concorrência à vadiagem dos filhos-famílias – é sobremodo insalubre! Mas uma praça de peixe não é um teatro nem uma casa de banhos – nem mesmo um quartel. Tem uma arquitectura própria, condições especiais de ar, de luz, de água, etc... Assim, em toda a parte, as praças de peixe são de uma construção ligeira, aberta e devassada pelos ventos, com leves colunatas de ferro sustentando um tecto de madeira ou de vidraça, lavadas por um perpétuo escorrer de água, cercadas de árvores... Enfim, um lugar são, fresco, higiénico, livre, desinfectado. “
Eça de Queiroz - A praça de peixe do Porto, e o luxo da sua mobília” - Uma Campanha Alegre (Volume I, Capítulo XXVII)
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Porto, Mercado do Peixe (Fotografia Alvão) col. Manuel Magalhães http://albuminasetc.blogspot.com
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Mercado do Peixe 1869/74 Detalhe de Vista Panorâmica do Porto 1890 Arquivo do Museu da Ciência FCUP
Do Jardim da Cordoaria regressa-se à Praça dos Voluntários da Raínha
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foto Chusseau-Flaviens, Ch. - Porto Eglises do Carmo ca. 1900-1919
negative, gelatin on glass 9 x 12 cm. George Eastman House Photograph Archive

À esquerda o Hotel Portugal ao fundo o café Ancora d’Ouro de 1909


A praça dos Voluntários da Rainha (dos Leões)
leoestel
Porto_19073
Igreja do Carmo

“…na p. dos Volun­tários da Rainha, pertencente, bem como o hospital annexo, asylo e escolas, à irman­dade de N. S. do Carmo, fundada na capella da Batalha em 1737. Data a fundação d'este templo de 1756 e a do hospital é de 1791, sendo inaugurado em 1801.
A fachada principal, estylo rocaille, é toda em granito primorosa­mente trabalhado; e, no in­terior, além do altar-mór, luxuoso, ha seis bellos alta­res lateraes, recommendaveis pela sua boa obra de talha, seis púlpitos e um es­paçoso e bem illuminado coro. Possue também este templo boas imagens, ricas e artísticas alfaias e custo­sos paramentos com delica­dos bordos…
O hospital, que tem a principal fachada para a p. de Carlos Alberto, não é mo­numento digno de nota por sua architectura; mas é casa ampla, com ar e luz abundan­tes, onde se observa extre­mo asseio e ordem, que são os requisitos indispensáveis a uma boa casa hospitalar.
Nos seus dois pavimen­tos ha enfermarias indepen­dentes para homens, mulhe­res, doenças agudas ou para convalescentes, para entre­vados ou creanças, e ainda quartos para doentes pensionistas.

Em continuação ao hos­pital, fazendo face para a travessa do Carregal, estão installadas as aulas de instrucção primaria e musica, e um asylo para velhos, ir­mãos pobres da ordem, que diariamente, recebem uma sopa distribuída pela con­fraria.” Guia do Porto Illustrado
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José Figueiredo Seixas (?? – 1773) é um artista multifacetado, a quem injustamente pouca importância se tem sido atribuída provavelmente por ter vivido e trabalhado numa época de transição, entre o Portugal Joanino e o Portugal Iluminista, entre o Tardo Barroco, onde se formou e o Neoclássico que ainda vai tentar interpretar, entre a figura incontornável de Nicolau Nasoni, com quem terá trabalhado e os engenheiros militares ao serviço do Marquês de Pombal e dos Almadas.
Desta época de mudança são significativas as suas principais obras, ambas no Porto: as igrejas da Ordem Terceira do Carmo 1756 e da Lapa de 1759.
Pouco se sabe da sua vida, mas é indicado como natural de Viseu. (BRANDÃO, Domingos de Pinho - José de Figueiredo Seixas, algumas obras alguns documentos - separata da revista MVSEV, segunda série, nº 7, Porto, 1964)
Sabe-se que trabalhou como pintor sob a direcção de Nicolau Nasoni na Sé do Porto em 1734, em Vila Real onde possivelmente é o autor da Capela do Solar de Mateus (1743) e da fachada da Capela Nova (1753).
Traduziu e anotou em 1732, o tratado do jesuíta Andrea Pozzo (1642-1709) Perspectiva Pictorum et architectorum de 1700, tradução existente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Do estudo de Andrea Pozzo, nota-se no tratamento das janelas da fachada lateral da igreja do Carmo.
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O tratado de Andrea Pozzo
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O tratado de Andrea Pozzo traduzido por Figueiredo Seixas
Na primeira página do manuscrito pode ler-se: Perpectiva de Pintores e Architectos Composta em Roma Pelo excelentissimo Pintor e Architecto o irmaõ Andre Poço da Companhia de Jezus & Foy ofrecida pelo Autor a Joseph Emperador de Alemanha.
Na página em que se inicia o II Tomo pode ler-se “ PERSPECTIVA DE PINTORES ARCHITECTOS DE ANDRE POÇO DA COMPANHIA DE JEZU PARTE II na quoal se ensina o mais facil modo de meter em perspectiva todos os debuxos architectonicos, traduzido da Lingua Toscana nonosso idioma portugues por Joze de Figueiredo Ceixas pintor na cidade do Porto anno 1732.
É ainda o autor de O Tratado da Ruação para Emenda das Ruas, das Cidades, Vilas e Lugares deste Reino, (1762) e de um possível tratado Arte de Edificar, a que faz referência mas que está perdido.
Foi Mestre da aula de riscar na cidade do Porto, como se intitula no seu Tratado de Ruação, mas desconhece-se onde terá leccionado.
“TRATADO DARUAÇAÕ”
Para emenda das Ruas das cidades, villas, eLugares
Deste Reyno
Em duas partes dividida.
A primeira contem a forma, e grandeza, que devem ter os destritos das Povoaçoes, e o quanto estas haõ de distar huas das outras, com a divisam particular de cada hum em Praças, Edificios, Ruas, caminhos, e campos, e a forma, e grandeza, que estas partes devem ter, para serem comodas, geraes, e formozas.
E na segunda parte se trata o modo de reduzir o defeituozo Ruamento das antigas Povoaçoes, á perfeiçaõ, que se aponta na primeira parte.
Oferecido ao Ilustrissimo, e Excellentissimo Senhor Sebastiaõ Jozé de Carvalho, e Melo Conde de Oeyras, do Concelho de Sua Magestade, Senhor Donatario daVilla do Pombal, e do Reguengo, e Direitos Reaes de Oeyras, Commendador das Commendas de Saõ Miguel das tres Ordens Militares, e Santa Maria da Matta de Lobos, ambas da Ordem de Christo, e Secretario de Estado dos negocios do Reyno.
Por Jozé de Figueiredo Seixas, Pintor, e Arquitecto das Obras das Igrejas de Nossa Senhora da Lapa das Confissoes, e da de Santa Anna dos Terceiros Carmellitanos, e Mestre da Aula de riscar na cidade do Porto.”
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página do Tratado de Ruação de Figueiredo Seixas
(Recentemente surgiram duas Teses de Mestrado uma na Universidade de Coimbra e outra no ISCTE em Lisboa, que procuram colocar Figueiredo Seixas na importância que de facto tem, quer como arquitecto quer, sobretudo, como tratadista:
MOREIRA, Ana Sofia - Utopias territoriais do Iluminismo em Portugal – Dissertação de Mestrado em Arquitectura Especialidade de Teoria e História da Arquitectura, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2006
GOMES, Miguel - Geometria nos traçados urbanos de fundação portuguesa: o Tratado da Ruação de José Figueiredo Seixas – ISCTE)

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Francesco Rocchini (1822 – 1895) Album Pittoresco e Artístico de Portugal
Biblioteca Nacional Brasileira
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“De grande templo, pela magestosa architectura, aceio, riqueza e nobre fontespicio de cantaria primorosamente lavrada, qualifica Rebelo da Costa a egreja do Carmo. Não exagera, pois é deveras excellente. Constitue uma obra do estilo rocaille (rococó ou Luis XV), com opulencia manifesto na fachada, na qual abundam as curvas de requebrada elegancia, os contrastes dos planos (favoraveis aos efeitos de luz), as conchas e os frestões (cujas espécies se distinguem, mercê da hábil cinzeladura. Em tres andares se divide a frontaria. No 1º: pilastras emparelhadas aos lados; nichos, entre ellas e a porta, com as estátuas dos santos Elias e Eliseu (fundadores da Ordem Terceira do Carmo); sobre a porta, em cartela mui recortada, a inscrição comemorativa da fundação da egreja. No 2º: eguais pilastras nos lados, guarnecidas com festões, capiteis compósitos; ao meio o nicho de Sant Anna, a padroeira, de Jaspe, ladeada por dois janellões (a separação é feita por outras pilastras), aos quais e ao nicho se sobrepõem aparatosos frontões; um varandim, com balaústres em urna, um tanto se encurva entre as pilastras laterais; no centro, o entablamento ergue-se em frontão angular, para abrigo dum óculo. Constitue o 3º um amplo frontão, de cornijas onduladas; na parte central do tympano, o brazão da Ordem com a coroa régia, aos lados primorosos festões e pyramides nos cantos; sobre o fastigio uma cruz, demasiado singela, ladeada pelas estátuas dos evangelistas, em acrotérios.” Carlos de Passos - Guia histórico e Artístico do Porto , casa editora de A. Figueirinha, Lda., Porto 1935
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foto Bonfim Barreiros in Bonfim Barreiros , Fotógrafo de Arte – CMP 2001
(…)O hospital, que tem a principal fachada para a p. de Carlos Alberto, não é mo­numento digno de nota por sua architectura; mas é casa ampla, com ar e luz abundan­tes, onde se observa extre­mo asseio e ordem, que são os requisitos indispensáveis a uma boa casa hospitalar.
Nos seus dois pavimen­tos ha enfermarias indepen­dentes para homens, mulhe­res, doenças agudas ou para convalescentes, para entre­vados ou creanças, e ainda quartos para doentes pensionistas.

Em continuação ao hos­pital, fazendo face para a travessa do Carregal, estão installadas as aulas de instrucção primaria e musica, e um asylo para velhos, ir­mãos pobres da ordem, que diariamente, recebem uma sopa distribuída pela con­fraria.” Guia do Porto Illustrado

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José Francisco de Paiva - FACHADA DO HOSPITAL DA ORDEM TERCEIRA DO CARMO
Dois apontamentos a traço de lápis para a fachada do hospital da Ordem Terceira que ostenta no frontão as armas de devoção dos Carmelitas. Dim.-198xl97mm
in Pinto, Maria Helena Mendes – José Francisco de Paiva, Ensamblador e arquitecto (1744-1824) MNAA Lisboa 1973
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Joaquim Villanova Hospital do Carmo 1833
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Foto de Aurélio Paz dos Reis 1905 CPF/DGARQ/APR 5794 in Mesquita, Mário João – catálogo da exposição - A Cidade dos Transportes – Centro Português de Fotografia 2008
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Foto de Aurélio Paz dos Reis 1902 CPF/DGARQ/APR6436 in Mesquita, Mário João – catálogo da exposição - A Cidade dos Transportes – Centro Português de Fotografia 2008
In Mário João Mesquita A CIDADE DOS TRANSPORTES DA COMPANHIA CARRIS DE FERRO DO PORTO À MUNICIPALIZAÇÃO DOS SERVIÇOS 2008
“Contíguo ao templo d'esta irmandade, vê-se a Egreja dos Extinctos Carmelitas, que pertenceu aos frades carmelitas descal­ços, e que também é digna de visita.
A capella mor, sobretu­do, desperta interesse pela sua talha dourada; e, pelas paredes, existem algumas rasoaveis pinturas a óleo so­bre madeira ou tela.
Tem duas capellas di­gnas de referencia — a de N. S. das Dores e a do Sacra­mento, além de outras duas localisadas na sachristia, ins­talada n'uma parte do claus­tro do antigo convento dos Carmelitas...)” Guia do Porto Illustrado
O Quartel da Guarda Municipal
“…O antigo convento dos Carmelitas(…)que, actualmente, serve de Quartel da Guarda Municipal. Não merece referencia es­pecial este quartel. Aponta-se apenas como dever de informação. Tem commodos para três companhias de infanteria, um esqua­drão, enfermarias e grande terreno para exercícios e formaturas. Parte d'estas instalações estão em annexos construídos em terre­nos que pertenceram ao antigo e extincto jardim botânico.” Guia do Porto Illustrado
A Escola Médico Cirúrgica
“Um pouco abaixo, e também na r. do Carmo, encontra-se o edifício em que está installada a Escola Medico- Cirurgica. E' uma construcção ligeira e simples, mas espaçosa, que possue um bom theatro anatómico e uma bibliotheca valiosa, e vários salões e gabinetes excellentes.
O curso d'esta escola compoe-se das seguintes cadeiras: anatomia descriptiva e geral; physiologia, historia natural dos medi­camentos e matéria medica; pathologia externa; medicina opera­tória; partos, doenças das mulheres e dos recem-nascidos; pa­thologia e therapeutica internas; clinica medica ; anatomia pathologica; medicina legal; hygiene privada e publica e toxicologia; pathologia geral, semeiologia e historia da medecina, além da es­cola especial de pharmacia.” Guia do Porto Illustrado
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Detalhe da planta de 1892
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Em 1836 são criadas as Escolas Régias Médico-Cirúrgicas de Lisboa e Porto que, à margem da Universidade de Coimbra, irão dar um decisivo contributo para a unificação e afirmação da profissão médica.
De facto, é destas duas escolas que irá sair a elite médica portuguesa da segunda metade do Século XIX como Sousa Martins, Ricardo Jorge, Câmara Pestana, Miguel Bombarda, Júlio de Matos, Alfredo da Silva, Magalhães Coutinho, Ferraz de Macedo, e Carlos França.
A Régia Escola de Cirurgia do Porto criada em 1825 é instalada, de início, no Hospital de S. António.
Em 1836 com a Reforma de Passos Manuel passa a Escola Médico Cirúrgica e irá instalar-se, em 1883, no edifício do Carmo projecto de Joaquim Vaz Lima.
A Fonte dos Leões
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Fonte Monumental. Modelo aprovado pela CMP. Arquivo Fotográfico dos SMAS
in Amorim, Alexandra Agra e Pinto, José Neves - Porto D’Água - - SMAS 2001
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A fonte ainda com o gradeamento - Arquivo Fotográfico dos SMAS
in Amorim, Alexandra Agra e Pinto, José Neves - Porto D’Água - - SMAS 2001
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A nascente os Grandes Armazéns do Chiado com fachada para a praça e com fachada para a Galeria de Paris.

(…)na praça dos Voluntários da Rainha encontra-se vasta e luxuosa installação commercial — os Grandes Armazens do Chiado, um dos primeiros estabelecimentos do Porto, e dos que conta mais numerosa e escolhida clientella…”

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No lado sul da praça a Academia Polytecnica e Instituto Industrial
(Para a iconografia é fundamental consultar - Mesquita, Mário João – Da Academia à Universidade Catálogo da Exposição DGEMN 2007)
Em 1803 é encomendado, pela Junta de Obras Públicas da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro, a Costa e Silva o projecto do edifício da Real Academia da Marinha e Colégio dos Meninos Órfãos da Cidade do Porto.
“Que se proceda sem perda de tempo à edificação de huma Casa no Terreno do Collegio dos Meninos Orfãos, própria para as referidas Aulas, que se vão erigir, e para as duas já creadas, para todas ficarem em hum só Edifício; facilitando-se desta forma o commodo para aquellas Pessoas, que quizerem frequentar huma Aula depois da outra.” Alvará de 1 de Fevereiro de 1803
Terá havido um primeiro projecto de José da Costa e Silva (1747-1819) mas com a ida deste para o Brasil como arquitecto de D. João VI, esse projecto ter-se-á perdido.
O projecto de1807 é de Carlos Amarante (Carlos Luís Ferreira da Cruz Amarante Braga,39 de Outubro de 1748, Porto, 22 de Janeiro de 1815).
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Cruz Amarante Planta, Alçados e Cortes do edifício da Academia 1807
O projecto inicial de forma trapezoidal e conservando a Igreja de N.ª Sr.ª da Graça, ao longo do século XIX, com a evolução do projecto intervenção de Gustavo Adolfo Gonçalves de Sousa em 1862 e António de Araújo e Silva em 1898, acaba por adquirir a forma de um rectângulo.
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Direcção Geral de Obras Públicas / SE 1908/1909
Projecto de conclusão do edifício da Academia Politécnica planta do andar térreo
Tinta e lápis sobre cópia 1,25x0,68 esc 1/100
DOPDP-SE/DGEMN/UA16/1.3/981983 in Mesquita, Mário João – Da Academia à Universidade Catálogo da Exposição DGEMN 2007
Academia Polytecnica e Instituto Industrial
que tem, por emquanto, sua prin­cipal entrada pelo lado do campo dos Martyres da Pátria.”
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“E' um vasto edifício, ainda não de todo concluído, mas, felizmente, em via de conclusão e que comporta todas as installaçoes e principaes dependên­cias d'este estabelecimento scientifico e do Instituto Industrial e Commercial, que lhe está adjuncto.
Os estabelecimentos auxiliares de ensino d'esta Academia são: a bibliotheca, com mais de 10:000 volumes; os gabinetes de mineralogia, geologia, paleontplogia e zoologia; o gabinete de physica, labo­ratório chimico e as collecções de modelos cinematicos para uso dos aluirmos da aula de mechanica e as de instrumentos geodésicos topographicos e mo­delos de machinas para os alumnos de engenharia.
Segundo o plano actual de estudos, profes­sam-se n'este estabelecimento de ensino, abrangendo desoito cadeiras, os cursos de engenharia civil de obras publicas, de minas e industrial, e o de commercio, além dos estudos preparatórios para os cur­sos especiaes de todas as armas do exercito, para a escola naval e escolas medicas de Lisboa e Porto.
Dentro do mesmo edificio, como acima fica dito, encontra-se installado o Instituto Industrial e Commercial do Porto, mas pessimamente installado por emquanto, sem capacidade precisa para a sua população escolar, que é avultada, nem para a conveniente e útil acommodaçao do seu material de ensino que é valioso, especialmente em machinas, instrumen­tos, ferramentas, etc.” Guia do Porto Illustrado
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Academia polytechnica do Porto B. Lima / C. J. — P. «Archivo Pittoresco», 9, 1886, p. 249
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Casa Alvão 1880 fotografia a partir de vidro Arquivo CPF/MC in Mesquita, Mário João – Da Academia à Universidade Catálogo da Exposição DGEMN 2007
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Painéis de Veloso Salgado na Academia Politécnica
O Hospital de Santo António
O Hospital de Santo António, é projectado por John Carr of York (1727/1807), em 1768/69, tendo este arquitecto inglês sido possivelmente indicado por John Whithead e pelo reverendo Henry Wood, capelão da comunidade britânica instalada no Porto.
O projecto tinha uma planta quase quadrada de comprimento 566 pés (177 metro e meio) nas fachadas norte e sul e 560 pés e três polegadas (172 metros e 1/4) nas fachadas poente e nascente.
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Sir William Beechey (1753 –1839) - Retrato de John Carr 1791
óleo sobre tela 127 x 100,5 cm National Portrait Gallery
O projecto tinha uma planta quase quadrada de comprimento 566 pés (177 metro e meio) nas fachadas norte e sul e 560 pés e três polegadas (172 metros e 1/4) nas fachadas poente e nascente.
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Ao centro do pátio erguia-se uma igreja de planta grega
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Joaquim Villanova Hospital da Misericórdia (Zimbório projectado)
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Villanova - Hospital da Misericórdia (Antiga Escola Medica)
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Villanova Hospital da Misericórdia (Lado da Restauração)
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“Em frente á escola medica, eleva-se, em architectura magestosa o edifício do Hospital Geral de Santo Antonio, soberba edificação, com­pleta na sua fachada principal, e ainda por concluir nas lateraes, pertencente á formidável e benemé­rita Irmandade da Misericórdia do Porto.
E' deveras digna de visitar-se esta modelar casa hospitalar, sem duvida a primeira do paiz — a mais rica e mais antiga.
As enfermarias são vastas, abun­dantemente banhadas de luz e ar e com todos os requisitos que a sciencia moderna aconselha.
Como annexos, na grande cerca que tem o estabelecimento, onde se nota sempre irreprehensivel ordem e asseio, ha uma ma­gnifica e espaçosa lavanderia a vapor, com excellente serviço de desinfecção sempre desempenhado com rigorosa observância, dois pavilhões para doenças infecciosas, capella privativa do hos­pital, além d'uma pharmacia própria, no edifí­cio e uma escola de enfermagem.
Alberga em media 7:000 doentes por anno, e a lotação aproxima-se de 600. Tem, também bons quartos para doen­tes pensionistas.” Guia do Porto Illustrado
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John Nash (1752-1835) Hanover Terraces 1822 Londres
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Os corpos laterais da fachada são encimados por duas estátuas representando os médicos da Antiguidade, Hipócrates e Galeno.
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«O Occidente», 1 de Novembro de 1884, p. 245 «Segundo uma photographia»
O jardim Botânico e o jardim do Carregal

O Carregal abrangia uma vasta área extramuros, que tomou diferentes designações, uma das quais, o Burgo do Carregal.
Construindo-se, nas últimas décadas do século XVIII, o Hospital de Santo António, no chamado Casal do Robalo (que já tinha este nome em 1549), nasceu naturalmente uma rua junto à porta principal.
Uma planta, assinada por José Champalimaud de Nussane (1788), mostra o projecto de urbanização «das belas ruas que vão do Carmo para o Carregal, e desta para os Quartéis».
Na planta redonda de Balck (1813) vê-se já, em seguimento do Largo e da Rua do Carmo, a Rua do Carregal, ligando à viela, agora Travessa do Carregal.
Na planta de Costa Lima (1839) denomina-se Rua do Paço.
« Em 1864 principiaram as obras do jardim botânico, e da casa para os trabalhos e experiências botânicas, e para guardar sementes, ferramentas, etc.
Plantaram-se logo, varias plantas, que se poderam obter na cidade e nos seus arredores. Em 1867, do jardim botânico da Ajuda veio para aqui uma collecção de 300 e tantas plantas, escolhidas pelo primeiro botânico do Porto. (...)
Do jardim botânico, de Coimbra, também para aqui vieram varias plantas e sementes - e de outras terras do reino, foram egualmente para aqui mandadas varias espécies de estimação, que se podem encontrar. Anda em construcção uma vasta e bem collocada estufa, para as plantas exóticas.
Junto a este jardim, está o edifício destinado para a escola medico-cirurgica. » Pinho Leal - Portugal Antigo e Moderno, 1873-90
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O Jardim do Carregal (Praça Duque de Beja) foi construído em 1897, pelo Jardineiro-Paisagista Jerónimo Monteiro da Costa que, nessa altura, exercia o cargo de Director dos Jardins Municipais.
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É talvez, o último Jardim Romântico do Porto com características oitocentistas.
A origem da sua toponímia deve-se à presença de uma planta gramínea de zonas húmidas - a Carrega -, que se desenvolvia nas margens do Rio Frio e que atravessava a zona de campos onde o jardim foi implementado.
O Jardim do Carregal organiza-se em torno de um lago de contornos irregulares, atravessado por uma ponte com pretenso ar de ruína, sendo rodeado por grandes exemplares de coníferas, tais como cedros e sequóias, plantadas em canteiros entre caminhos sinuosos e produzindo profundas sombras. Estas características dão ao jardim uma atmosfera misteriosa, quase de um estranho bosque.
A rua do Triumpho
À entrada da rua, na esquina da rua do Rosário situa-se o Hotel Louvre onde esteve hospedado Pedro II imperador do Brasil, na sua visita ao Porto.
“(…) logo no principio há occasião propicia para ver um dos mais interessantes estabelecimentos horticulas do Porto, o horto de Alfredo Moreira da Silva, admiravelmente sortido de plantas de estimação.” Guia do Porto Illustrado
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Postal de Alberto Ferreira 1903 Tipografia Peninsular
Ao fundo à direita o Horto Moreira da Silva
A (…) rua do Triumpho, onde veremos, a meia altura da rua o palácio dos Carrancas, actual propriedade da casa real, grande e de bom aspecto, mas que nada possue digno de nota e que justifique a visita do forasteiro.” Guia do Porto Illustrado
O Palácio dos Carrancas que recebeu e conservou a alcunha dos seus proprietários, os irmãos Manuel e Isidoro Luís, da família Mendes de Morais e Castro, foi mandado construir em 1795. O local escolhido para a edificação foi uma série de lotes de terreno, numa área já construída na Rua dos Quartéis. O risco é atribuído ao Arquitecto Joaquim da Costa Lima Sampaio. O edifico destinava-se a uma dupla função: residência dos proprietários e fábrica de galões.
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foto Alvão
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O Occidente n.º 1085 – 1908
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Jardim do Palácio dos Carrancas
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Vista geral do velódromo do Real Velo Club do Porto 1897 MNSR
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Vista geral do velódromo do Real Velo Club do Porto MNSR
“O Quartel da Torre da Marca, ainda por concluir, onde se installa um dos corpos da guarnição da cidade.”


O Palácio de Cristal
O Palácio de Cristal é um dos locais de atracção do Porto. Nele realizam-se exposições, concertos, bailes, desportos, etc.
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Detalhe da planta de 1892
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Foto Casa Alvão
“(…) Um pouco adeante, e n'uma situação admirável, encon­tra-se o palácio de Crystal Portuense, um dos monumentos mais notáveis do Porto, que não deve deixar de ser visitado por todo o touriste de bom gosto, não só pelo que em si con­tem, realmente bello ou grandioso, mas também pêlos formi­dáveis panoramas que de seus jardins se descobrem, especial­mente o que se desenvolve até à barra do Porto e que melhor se aprecia quasi ao fundo da avenida das Tílias.
O Palácio de Crystal foi inaugurado em 1865 com a pri­meira e única exposição universal que houve, até hoje, no paiz, e à qual se têem seguido muitas outras exposições, nacionaes ou regionaes, interessantes e mais ou menos notáveis.
Nos seus jardins e bosques, notáveis pelas magnificas plantas ou frondoso arvoredo que possuem, e onde se realisam variadas festas mundanas e populares, destacam-se as for­mosas e copadas avenidas de plátanos e tílias; uma pittoresca gruta com seu espaçoso lago; uma elegante capella denomi­nada de Carlos Alberto, mandada edificar pela princeza Au­gusta de Montlear, irmã do rei da Sardenha, Carlos Alberto, e varias installações onde se vêem alguns exempla­res zoológicos de minguado valor, etc.
O edifício, que tem 156 metros de comprimento, compõe-se de três naves — a central, de 25 metros de largura, com ampla galena e espaçoso palco; e duas lateraes, de 100 metros de comprimento por Q de largura, que comportam vastas installações para bazares, exposições, etc. Possue também, annexos, vários salões, como o de Bellas Artes, Leitura e Bi­lhares, etc., e um elegante theatro — o Qil Vicente — com capacidade para mil pessoas; espaçoso restau­rante, duas bellas estufas, com plantas raras, etc.
Ao fundo da nave central existe um magnifico órgão, um dos melhores que até hoje se tem contruído.” Guia do Porto Illustrado


“The Palacio do Crystal (adm. 50, on Thurs. 20, on Sun. 100 rs; concerts on Sun), a large edifice erected for the industrial exhibition of 1865, stands high above the Douro and contains a restaurant, ball-rooms, a theatre, some shops, and a small zoological garden. It affords a grand view of the city, river, and sea, seen to greatest advantage by evening-light (…)
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(…)To the E., beyond the road (bridge), is the Museu Industrial e Commercial (closed at present).” Guia Baedeker
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Construído para a Exposição Internacional do Porto realizada em 1865 e projectado por Thomas Dillen Jones e W. Shields (tendo ainda trabalhado nas suas obras de construção o engenheiro Gustavo Gonçalves de Sousa), o Palácio de Cristal, é propriedade da Associação Industrial Portuense, criada em 1852.
Construído em ferro e vidro, com influências do Chrystal Palace de Londres de John Praxton, tem três naves e três pisos: cave, rés-do-chão e um piso.
Está integrado num amplo jardim da autoria de Émile David, onde estão colocadas duas fontes, um lago, um chalet, um circo, e diversos equipamentos de jardim.
O teatro Gil Vicente data de 1868.
Na fachada principal inscrevia-se a legenda PROGREDIOR, de acordo com as ambições dos seus fundadores.
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Wentworth-Sheilds, Francis Webb (1820 - 1906) - O Palácio de Cristal 1863
Aguarela e guache sobre papel 65,9 x 98,7 cm
Museu Nacional de Soares dos Reis
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“A edificação e existência do Palácio de Crystal marca no século dezenove uma era de gloria para o Porto, e uma página dourada no livro da vida d'aquelles, que tanto se empenharam em levar á execução tão grandioso pensamento; é este um dos monumentos, que ennobrece os portuenses, porque em cada pedra, que o sustenta, existe um documento de zelo e dedicação, não só para os que tomaram a seu cargo a construcção d'este edifício, como também para os que de bom grado concorreram com as suas forças monetárias para a realização d'esta ideia grandiosa: merecem honrosa e especial menção os ex.mos srs. visconde de Pereira Machado, visconde de Lagoaça, Alferedo Allen e Francisco Pinto Bessa, pelo incansável zelo, e grandes serviços, que têm prestado.
A descripção minuciosa, que em seguida apresentámos, dará uma ideia ao visitante da magnificência e capacidade d'este edifício.
Lançou a pedra fundamental nos alicerces do palácio el-rei o Senhor D. Pedro V, de gloriosa memória, no dia 3 de setembro de 1861; e no dia 2 de agosto de 1862 é que se deu começo aos trabalhos da edificação, e do movimento de terras para as obras do parque e jardins.
Fez o risco do palácio o architecto inglez, o sr. F. W. Shields, residente em Londres, e a direcção da obra foi encarregada aos srs. Gustavo Adolpho Gonçalves e Sousa, e Pedro de Oliveira, ingenheiros.
O desenho dos jardins e parques foi commettido ao sr. Emílio David, allemão, architecto païzagista.
O palácio de crystal é construído de granito, da melhor qualidade, que se encontra no Porto, e de ferro.
A obra de pedra está concluída, e a de ferro dentro de dois mezes.
Fica o palácio, com os jardins e parque, em uma posição elevadíssima acima da superfície do mar, d'onde se goza.
Em 30 de agosto de 1861 instalou-se a sociedade para a fundação d'este palácio. “

ELUCIDARIO do VIAJANTE NO PORTO por Francisco Ferreira Barbosa Coimbra 1864
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O Palácio em construcção in O Porto e os seus Fotógrafos – coord. Teresa Siza Porto 2001
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Le palais de cristal : quadrille brillant : [pour piano] / par Ed. Chardon ; [ill. par] Gustave Donjean
Chardon, Ed. (18..-18..). Compositeur Editor : A. Bocq (Paris)
Data de publicação : 1865 Formato : 5 p. : couv. ill. ; 28 x35 cm
Bibliothèque nationale de France, département Musique
Para nós a exposição internacional do Porto significa uma cidade que fez um prodígio, representa cidadãos que conseguiram o inesperado, e importa e vale mais que tudo isso, porque significa a inauguração no País de uma nova era de trabalho e iniciativa muito prometedora de incalculáveis benefícios públicos.
A exposição do Porto denuncia o acordar de um povo de um longo letargo oficial que lhe trazia adormecidas as forças vivas, anulados os espíritos e apagadas as energias” J. M. da Ponte e Horta (1866)
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Camilo Castelo Branco, mesmo preso na Relação, escrevia jocosamente sobre o “circo-bazar-teatro-restaurante-ginástico-pirotécnico, chamado em linguagem enxacoca Palácio de Cristal” aquando da sua construção, no jornal Lisboeta “Revolução de Setembro”:
Um Palácio de Cristal no Porto já não é mera utopia de cristalinas imaginações. O dinheiro é a alavanca de Arquimedes […]. Dai-me dinheiro e eu cristalizarei a Cidade Eterna. É que o Porto está riquíssimo. Os capitais não sabem já onde hão-de frutificar cinco por cento. E os capitalistas começam a descrer de Cristo e da sua palavra, porque este dissera: «dar-vos-ei cento por um» e as coisas correm de modo que daqui a pouco será muito feliz quem tirar um por cento. O que eu não sei é se Jesus fez esta promessa a uns cavalheiros que ele encontrou uma vez dentro do templo."
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“Palácio de Crystal - Pela sua deliciosa posição, pela grande amenidade dos seus bosques e jardins, e ainda para muitas pessoas pêlos seus theatros, bilhares e demais diversões, o Palácio de Crystal, sendo durante a semana muito pouco frequentado, - ó assombro! - é todavia o encanto e admiração de todas as pessoas de mais fino gosto que visitam o Porto.
O domingo é o dia habitualmente destinado ao Palácio de Crystal, porque n'esse dia é costume haver musica de tarde e queimarem-se fogos de artificio á noite. Mas, por Deus, que n'esse dia o Palácio de Crystal, petulante de garridice domingueira, involto em turbilhões de gente e pó, é simplesmente um passeio como qualquer outro, sem as suas grutas remançosas, sem as suas sombras cheias de silencio e mysterio, sem a tranquilla doçura das suas arvores e das suas ruas. Verdade é que, se grande numero de pessoas começasse a frequental-o á semana, o Palácio de Crystal perderia essa deleitosa serenidade que para nós é o seu maior encanto, e atravessaria uma ininterrompida serie de domingos, quer dizer, de dias em que a concorrência é tamanha, que chega a molestar-se.
Ha males que vem por bens.
Continue a população portuense a procurar o Palacio de Crystal ao domingo para ouvir musica e ver queimar fogos d'artificio, e deixe-o em paz durante a semana, como sempre tem feito, para que o visitem as pessoas mais namoradas da paizagem que dos effeitos acústicos e pyrotechnicos. »
Alberto Pimentel - Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, 1876
"Ah! srs. Directores do Palácio de Crystal Portuense, temos que conversar a respeito d'estas malfadadas taboletas, mais da sua collocação. Que a primeira das citadas taboletas, como diria o sr. Jayme José Ribeiro de Carvalho, estivesse pelo lado de fora da porta de entrada, comprehendia-se, porque n'esse caso as damas que, ignorantes da vossa determinação, conduzissem consigo as suas cadelinhas de Itália, os seus cachorrinhos de pello branco, depois de lerem o dístico, que diz textualmente assim:
NÃO É PERMITIDO CALCAR
OS
ALEGRETES DE FLORES OU PLANTAS
OS CÃES SÓ PODERÃO TER ENTRADA NOS
JARDINS
SENDO CONDUZIDOS COM UMA CADÊA OU CORDÃO
iriam á primeira loja de capellista comprar o cordão exigido ou ao primeiro estabelecimento de latoeiro comprar a cadêa reclamada por essa terrível alternativa em que vós, na mesma epocha em que se généralisa a protecção aos animaes, collocaes os cães abastados que podem concorrer aos divertimentos públicos.
Mas affixada dentro da porta de entrada, a vossa primeira taboleta, ó srs. Directores, demonstra simplesmente que vós quereis armar um laço ás pessoas que conduzem cães sem cadêa ou cordão, porque depois dos vossos empregados os haverem deixado entrar, a vossa taboleta, ex.mos srs., exige a essas desprevenidas pessoas que vão prender os seus cães - com uma cadêa ou cordão.”
Alberto Pimentel - Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes 1876
A Fachada poente do Palácio
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in O Porto e os seus Fotógrafos – coord. Teresa Siza Porto 2001
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A nave central
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PORTO – EXPOSIÇÃO DE ROSAS NO PALACIO DE CRISTAL, REALIZADA EM 10 DE MAIO DE 1879
Segundo desenho de C. Rocha O OCCIDENTE n.º 35 Junho de 1879
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O Chalet
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O Porto e os seus Fotógrafos coordenação Teresa Siza Porto 2001
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A capela de Carlos Alberto
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WWW.delcampe.net
O Jardim do Palácio de Cristal
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Planta do Palácio de Cristal em 1891
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Artur Loureiro (1853-1932) - Vista do jardim do Palácio de Cristal 1927
Óleo sobre madeira 35,6 x 77 cm
Museu Nacional de Soares dos Reis
"Aos domingos, no Porto, na grande avenida do Palácio de Crystal, as senhoras constituem grupos separados; e os homens, a não serem os maridos ciumentos e os solteirões rheumaticos, passeiam kilometricamente, permitta-se-me o adverbio, d'um lado para o outro, cumprimentando-as sem lhes fallar. Ora em Lisboa, na grande rua do Passeio, é raro o grupo de senhoras em que não conversem dous ou trez homens, e em que não haja uma certa animação gárrula.
Seja, porém, dito em honra da verdade, se as senhoras do Porto são menos conversáveis que as de Lisboa, são muito melhores donas de casa, e em geral muito mais delicadas mães."
Alberto Pimentel - O Porto por Fora e por Dentro ( 1878)
" A meu vêr, o Palácio de Crystal do Porto concorreu, com a impudicicia dos seus bailes de mascaras, para destragar os austeros costumes portuenses, porque os filhos familias (sic), uma vez cahidos n'aquelle abysmo de prazer, tomaram gosto á pandega ...e ao dinheiro dos pais.”
Alberto Pimentel - O Porto por Fora e por Dentro ( 1878)
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Aurélio Paz dos Reis - Avenida das Tílias fotografia estereoscópica s/d APR 2644, AFP/CPF/MC I
n o Porto e os seus Fotógrafos, coord. Siza Teresa, Porto 2001, Porto Editora 2001
Continua na II Parte do Percurso

8 comentários:

  1. Bom dia,
    qual a fonte desta imagem que se encontra aqui no seu blogue? http://lh5.ggpht.com/_FkKgTDI7ngU/TDC5Voxqv0I/AAAAAAAAFoY/6IYIResu744/s1600-h/rt1005%5B5%5D.jpg
    Poderia disponibilizar?
    Obrigado

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    1. gostaria de saber a data se fosse possível...
      Obrigado

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  2. Olá,
    Antes de mais, parabéns pelo blog e muito obrigada pela informação que aqui dispõe.
    Queria apenas saber quem é/são o(s) autor(es) do "Guia do Porto Illustrado" que surge como referência ao Mercado do Anjo e Mercado do Peixe, e respectivos anos.
    Muito obrigada!


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  3. Fernando Castro Freitas
    Muitos parabéns pelos conteúdos.Gostaria de saber quais são os autores do PORTO ILUSTRADO a que faz referencia no Blogue.
    Muito obrigado.
    Castro freitas

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    1. Caro Fernando Castro Freitas: Muito obrigado pela referência ao meu blogue. O Porto Ilustrado é um Guia publicado em 1910 pela “Empreza dos Guias "Touriste",“Guia do Porto Illustrado”, com desenhos e direcção litteraria de Carlos Magalhães" e fotografias de diversos fotógrafos do Porto entre os quais Domingos Alvão.

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  4. fernando castro freitas
    Muito obrigado pelo seu cuidado e até breve.
    Castro freitas

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  5. Exmº Senhor,
    Gostava de saber se me indica por favor, como posso obter fotos antigas e textos sobre a Quinta da Prelada no Porto.
    Cumprimentos cordiais, Fernando Castro Freitas

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  6. Bom dia,
    Gostava de saber por favor, onde posso obter fotos de Editoras/Livrarias do início do século vinte da cidade do Porto.
    Apresento os meus cordiais cumprimentos,
    Fernando Castro Freitas

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