Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 23 de julho de 2010

Uma visita ao Porto com D. Pedro II Imperador do Brasil 1872

Pretexto para um passeio no Porto em 1872 e um convite para uma visita ao Museu Nacional Soares dos Reis

D. Pedro II (1825-1891), filho de D. Pedro IV de Portugal, com a morte do pai, não lhe pode suceder imediatamente por ainda não ter atingido a maioridade.Torna-se de facto Imperador em 1840, num momento em que, como em Portugal, se introduz o caminho de ferro, a máquina a vapor, o telégrafo eléctrico, e é o próprio Imperador, que se interessa pelo progresso da ciência, das artes sendo o introdutor da fotografia no Brasil.

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Augusto Riedel (1836 - ca.1877) D. Pedro II, Imperador do Brasil 1876 cartão-cabinet, : pb; : 14 x 9cm. BNB

A Viagem

Em em 25 de Maio de 1871 D. Pedro II e a sua mulher D. Teresa Cristina de Bourbon (1822-1889) partem do Rio de Janeiro no paquete Douro.

Chegados a Lisboa a 12 de Junho, permanecem de quarentena obrigatória no Lazareto tendo recusado a oferta de D. Luís da corveta portuguesa Estephanea. Finda a quarentena instalaram-se no Hotel Bragança até à partida no caminho de ferro para a Europa, em Junho de1871. Visitaram Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Áustria, Itália e o Egipto no Norte de África.

No dia 29 de Fevereiro de 1872, estão de regresso em comboio a Portugal dirigem-se para o Porto. Depois de uma visita a Braga partem para Lisboa com paragem em Coimbra, Leiria, Alcobaça, Caldas e Batalha. Depois de demorada estadia em Lisboa no Hotel Bragança embarcam de regresso ao Brasil.

Esta visita é alvo de comentários diversos, sendo de salientar o texto de As Farpas, então criadas por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, de que se reproduz o início:

Esteve em Lisboa S.M.I. o senhor D. Pedro II do Brasil. È um príncipe extremamente liberal, que usa dos requintes democráticos com a mesma profusão luxuosa que um dandy poderia ostentar nas suas gravatas, mas suas luvas ou nos seus perfumes. Põe a coroa na cabeça com a simplicidade despreoccupada com que carregaria sobre a orelha um feltro de viagem. Mette debaixo do braço o seu sceptro com a ceremonia sypathica de quem traz um guarda chuva. Deseja que o fulgor da realeza fira tão pouco os olhos, que aqelle que o notar possa confiadamente aproximar-se e pedir-lhe o seu fogo.

O Senhor D. Pedro II não põe sómente a democracia na sua política e nas instituições do se império. Tambem a põe nos seus habitos, nos seus particulares, na sua conservação, nas suas maneiras, no forro do seu chapeo e na casa do seu paletot.

Se a democracia se podesse converter em alimento , S.M.I. teria acabado com ella, comendo-a com pão.

S.M.I. não aceitou a hospedagem que lhe estava preparada no palacio de Belem, nem a estação da quarentena a bordo de um navio de guerra.

Preferiu a mesa redonda do Lazareto e um quarto no hotel Bragança.

Quiz este notavel e grande príncipe dar ao mundo o espectaculo cheio de lição e de moralidade de um soberano que principia o dia mandando perguntar se ha cartas para o numero marcado no annel do seu guardanapo, e o termina pondo as botas para engraxar fôra da porta do seu quarto.

Quantos reis não invejariam – agora principalmente que o officio se está tornando grave – o estranho prazer d’este monarcha, que, abancando a uma Table d’hôte, larga das mãos as redeas do governo para receber um palito de um estudante em férias, e passar a mostarda a um commis en nouveauté!…” As Farpas 1871.

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Sobre esta visita é publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra no ano de 1872, pelos bacharéis José Alberto Corte Real, Manuel Antonio da Silva Rocha e Augusto Mendes Simões de Castro, um livro Viagem dos Imperadores do Brasil em Portugal”. Nesta publicação, os autores descrevem pormenorizadamente a visita de D. Pedro II a Portugal, sendo a segunda parte inteiramente dedicada à cidade do Porto (apenas com uma incursão a Braga). Seguiremos nesta segunda parte que se refere ao Porto, a visita imperial.

A Visita ao Porto

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Jean Laurent (1816 -1883/1892 ?) Vue Panoramique de Porto c. 1870 col. Manuel Magalhães http://albuminasetc.blogspot.com/

Visita ao Porto

Os autores iniciam a sua descrição com uma introdução:

“Não é o Porto cidade que se fique atrás em galhardia e pundonor. Além d'isto duplos motivos a incitavam a estimar a visita memorável que ia receber. Preparou-se portanto com o melhor das suas galas e costumada grandeza para hospedar o nobre descendente d'aquelle que lhe confiara o precioso deposito do coração e da espada. E de feito tiveram os soberanos brasileiros magnificente recepção nesta briosa cidade, a respeito da qual a elegante penna do sr. Abilio da Fonseca Pinto ha pouco se exprimiu nos seguintes termos:

«Não tem o Porto a corte de Lisboa, nem a universidade de Coimbra, os fortes de Elvas ou as theologicas, tradições bracharenses ; mas é um complexo de tudo isto, enriquecido ainda com o seu commercio e com a sua industria, animando tudo e a todos cora a sua admirável actividade. É como um homem robusto na intelligencia e nos nervos, mem sana in corpore sano; o sangue generoso pula-lhe vívido nas veias, o juiz assenta-se-lhe repousado no cérebro.

«O baptistério de Portugal foi o Porto, leal cidade, donde teve Origem (como é fama) o nome eterno De Portugal. (Camões).

«No Porto, berço do magnânimo infante D. Henrique, o impulsor das nossas famosas navegações, esquipou este príncipe a melhor parte da esquadra que tomou Ceuta, Eis mil nadantes aves pelo argento Da furiosa Thetis inquieta, Abrindo as pandas azas vào ao vento, Para onde Alcides poz a extrema meta. (Camões).

E principalmente na nossa historia contemporânea occupa esta cidade as mais formosas das suas paginas.

Levantou em 1820 o primeiro grito da liberdade, sustentou-a com sanguinolenta porfia em 1834, corroborou-a e robusteceu-a em 1846. E depois da luta não esqueceu a lida. Com os nobilíssimos suores do trabalho consolida a politica liberal, que firmou com o sangue das veias. Se o convento da Serra é monumento do seu valor, o Palácio de Crystal é o capitólio da sua industria. E os dois edifícios miram-se fronteiros como duas sentinellas que vigiam cautelosas e firmes pela mesma causa. Um é o guerreiro tisnado pelo sol ardente das batalhas e pelo fumo da pólvora dos canhões; o outro, estendendo-se arredondado pelo dorso da collina, semelha o bicho da seda, fabricando no seu casulo os mais primorosos artefactos. Foi, o primeiro, theatro de gloria do rei-soldado; abriu os alicerces do segundo o rei-cidadão. E as estatuas dos dois príncipes altívam-se dentro da cidade como protesto eloquente de que as suas obras ficarão firmes e duradouras como o bronze que os representa.

«Esta é a synthese da historia do Porto, os delineamentos capitães das suas façanhas e dos seus arrojos”.

De seguida descrevem os preparativos da cidade para receber o Imperador:

“Era esplendido o aspecto, que a cidade offerecia desde a ponte pênsil até á praça de D. Pedro, e d'ahi pelas ruas dos Clérigos e de Sancto António, íngremes e fronteiras, e por isso em posição apta para o effeito de ornatos e illuminações. Arcos, ricos pavilhões, coretos, postes, bandeiras, damascos, galhardetes, movimento alegre da população, haviam transformado em templo festivo a laboriosa cidade do trabalho e da industria.

Duas linhas de bandeiras tremulavam nas guardas da ponte pênsil, seguindo-se a praça da Ribeira, elegantemente adornada com mastros, bandeiras, columnatas, pyramides e vasos com flores, plantas naturaes, e além d'isto um elegante pavilhão.”

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Detalhe de uma panorâmica do Porto de autor desconhecido de cerca de 1872 vendo-se a ponte pênsil e a demolição da Porta Nobre para a abertura da rua da Nova Alfândega

“No largo, á entrada da rua de S. João, havia dois grandes obeliscos, enfeitados de bandeiras portuguezas e brasileiras, e tendo do lado direito as armas brasileiras, do esquerdo as portuguezas.

Ao cimo da mesma rua erguia-se um soberbo arco triumphal, rematado por três estatuas, symbolisando a da direita a Justiça, a do meio o Porto, e a da esquerda a Liberdade.

O grupo de todas significava o Porto a offerecer uma coroa de louro aos hospedes imperiaes, baseado na justiça e na liberdade.

A do Porto tinha em ambos os lados da base as armas da cidade; no mesmo sitio tinham as outras as armas brasileiras da direita e as portuguezas da esquerda.

No alto das duas partes que compõem o arco, distinguiam- se as iniciaes P. II e T. M.

O desenho foi do sr. Thomaz Augusto Soller, e a pintura, que mostrava bom gosto, dos srs. Marques Pinto e Salazar. Apresentava bonita apparencia este arco…

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“…um soberbo arco triumphal, rematado por três estatuas, symbolisando a da direita a Justiça, a do meio o Porto, e a da esquerda a Liberdade…

Foto in O Porto e os seus fotógrafos coord. Teresa Siza Porto 2001

…“No largo de S. Domingos construíram um pavilhão de feitio oitavado, cuja cúpula tinha a forma cónica, apoiada em oito columnas, pintada com as cores das duas nações, tendo no cimo um mastro com um galhardete, e na base as armas brasileiras e portuguezas. Acima d'estas havia um oval com as letras V. D. P. II.

No cimo do pavilhão, circumdado de medalhões pequenos, contendo as letras V. P. II, na parte que deitava para a rua de S. João, havia três escudos, tendo pintadas as armas da cidade, as brasileiras e as portuguezas.

O estrado era cintado por um varandim, ornado de escudos, com as armas das duas nações, lyras e coroas de flores.

Na base tinha pintados emblemas de musica. Tudo que foi desenho e pintura, pertencia ao sr. Francisco António Pereira…”

“… Outro arco triumphal, em estylo manuelino, foi erguido na entrada da rua das Flores. Tinha nos tympanos escudetes de armas, cujo timbre consistia num capacete. Sobre o arco corria uma architrave. em que se lia, do largo de S. Domingos, a seguinte inscripção: Filium cor patris possidentes salutant, que deve ser assim traduzida: «Os que possuem o coração do pae saúdam o fiiho». Do lado que dizia para a rua das Flores: Martii kalendis MDCCC LXXII (um de março de 1872). Sobre a architrave continuava a decoração em estylo gothico, terminando por uma agulha, em que fluctuavam as bandeiras portugueza e brasileira.

Os remates, formados pelos columnelos, terminavam em pequenos coruchéus, os quaes faziam realçar todo o corpo do arco, caracterisando perfeitamente o seu estylo. Do centro pendia um lustre gothico, que foi illuminado a azeite, bem como todo o arco.

A planta d'este arco foi feita pelo sr. Couto Guimarães, o qual também dirigiu a pintura, executada pelos srs. Carlos Pereira e José dos Reis, que era mimosa.”…

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…Outro arco triumphal, em estylo manuelino, foi erguido na entrada da rua das Flores

Foto in O Porto e os seus fotógrafos coord. Teresa Siza Porto 2001

O Arco em estilo Manuelino, referência ao facto de a rua de (Santa Catarina) das Flores ter sido mandada abrir por D. Manuel I.

…“A entrada das ruas da Ponte Nova e do Souto era guarnecida por quatro estatuas de gesso, representando a Europa, Ásia, Africa e America.”…

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A rua da Ponte Nova Por volta de 1850Calotipo de Frederick William Flower, publicado na revista «O Tripeiro», Série VI, ano IV

in Porto Antigo http://www.portoantigo.org/

…“Desde a praça da Ribeira desfilavam, além d' isto, na rua de S. João, largo de S. Domingos e rua das Flores, alas de postes com galhardetes das duas cores luso-brasileiras.

No largo da Feira de S. Bento havia outro pavilhão, em forma de miranete turco, pintado a cores de rosa e branco. Subia-se para elle por três lanços de escadas, ornados no principio e no cimo com grandes jarras com flores naturaes. Do lado da rua das Flores tinha uma ellipse com o letreiro Pedro II e do cimo crescia um mastro, no alto do qual tremulava a bandeira portugueza.

O estrado era circumdado por um varandim e adornado com estatuas e jarras de flores naturaes; do centro pendia também um açafate com flores. O desenho e pintura d'este elegante pavilhão foi do sr. Veras, e a construcção de madeira, do sr. Moreira de Mattos. O resto do pavilhão estava enfeitado com bandeiras e galhardetes.”…

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…No largo da Feira de S. Bento havia outro pavilhão…

Foto in O Porto e os seus fotógrafos coord. Teresa Siza Porto 2001

…“No ponto que defronta com a rua de D. Maria II, elevavam-se duas pyramides alias, ornadas com bandeiras das duas nações, e outras duas á entrada do largo da Porta de Carros.

Esta rua e este largo estavam ligados por postes com bandeiras, e estes por festões de murta, também destinados á illuminação. A meio dos postes havia trophéus com coroas de louro.”

…“Na praça de D. Pedro, á direita da estatua do sr. D. Pedro IV, construíram um coreto.

Um magnifico arco triumphal tomava o principio da calçada dos Clérigos, imitando outro que existe em Paris.

Tinha entradas pelo largo dos Loyos, rua do Almada, praça de D. Pedro e calçada dos Clérigos, e tinha nos tympanos as letras P. II., e no cimo, entre trophéus, do lado da praça de D. Pedro as armas brasileiras, dos Clérigos as portuguezas, dos Loios e Almada as da cidade. Do alto pendia um grande mastro com as bandeiras das duas nações. A planta foi dada pelo engenheiro, o sr. Kopke de Carvalho, a pintura feita pelos srs. Lambertini e Porcopio, e a iniciativa e realisação pelos srs. Miguel Vaz Pinto Guedes e Fortuna e Pimenta, além da colónia brasileira, e outras pessoas….

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…Um magnifico arco triumphal tomava o principio da calçada dos Clérigos…

Foto in O Porto e os seus fotógrafos coord. Teresa Siza Porto 2001

…“Finalmente na rua de Santo António estavam collocados obeliscos pintados de azul e branco, e rematados por ovaes, onde se viam em leiras douradas os letreiros «Pedro II» e «Thereza Maria». Nos intervallos de uns nos outros viam-se plinthos com escudetes pintados de amarello e verde, com os mesmos dizeres dos de cima. e circumdados por trophéus e bandeiras. Ao cimo da rua de Santo António e no sitio onde se acha o obelisco de pedra, viam-se pintadas do lado direito as armas brasileiras, do esquerdo as portuguezas, e no centro uma allegoria representando o seguinte: «O Porto mostra ao Douro a bella estrella de Pedro II, a qual desponta no horisonte». Tanto a allegoria como as armas foram pintadas pelo sr. Lima, e eram transparentes para produzir effeito com a illuminação.

Em outras ruas havia ainda embellezamentos de menos importância.”

E continuam os autores a descrever minuciosamente os preparativos da recepção:

“Como estamos com os preparativos da recepção, vem de molde a noticia dos aposentos preparados para receber os Imperadores.

Hotel do Louvre

Fora tomado por conta do Imperador este hotel, situado à entrada da rua do Triumpho. Tornou-se digno de menção e objecto de curiosidade a grandeza e o gosto com que a sua proprietária o decorou. O primeiro andar foi destinado aos Imperadores, e o segundo á sua comitiva. O hotel foi expressamente modificado em algumas das suas disposições para este fim extraordinário, e o esmero que se empregou nesses trabalhos, bem como na decoração interna da casa, tornavam-no digno de receber os altos personagens a quem se destinava. Do portão, decorado com plantas e estatuetas, subia-se pela escada em espiral, tapetada e guarnecida também de plantas, para a galeria do 1.º andar.

No topo da escada havia dois grandes espelhos, collocados aos lados da porta fronteira á escada, que dava accesso para o quarto de vestir do Imperador. Em frente d'estes espelhos estavam collocados dois magníficos vasos de mosaico com plantas. Á esquerda da galeria ficava a grande sala de recepção. Era aprimorada a decoração d'esta parte da casa : a guarnição era de nogueira e ornatos dourados com estofo de damasco vermelho ; no topo do salão, fronteiro ás duas janellas de sacada que lhe dão luz, e por cima do sophá, um grande espelho de moldura dourada ; no meio um borm, ornado com um vaso de flores; em torno dispostas as cadeiras de guarnição dourada.

Preciosos quadros de Gobelins, contador de pau preto, internamente ornado com figuras de metal dourado, dois ricos vasos da índia com plantas, magníficos bufetes e outros adornos e amplelavara a decoração. Ao lado esquerdo da galeria seguiam a una lado o quarto de dormir dos imperiaes esposos e do outro o de vestir da Imperatriz. Era riquíssima e do mais bello gosto a decoração e serviço d'este quarto: guarnição de charão estofado de casimira branca; o serviço de porcellana de Saxe. Este serviço é considerado uma preciosidade pelo seu valor e merecimento artistico. Era primorosa a guarnição do espelho, toda de ornatos e figuras de porcellana, como o eram os candelabros, os vasos para flores e todas as outras peças que constituiam este serviço, o qual passa por ter sido comprado na exposição de Madrid. Grandes espelhos de moldura dourada e outros moveis completavam a decoração.

Era além d'isso dividido em dois quartos que communicavam entre si por uma larga porta em arco, com reposteiro de casimira. A guarnição do quarto de dormir era de charão com estofo de damasco amarello. Duas camas simples de mogno á franceza cora longo cortinado de cassa branca suspenso do tecto, grande espelho sobre o fogão, alguns quadros, toucador, lustre de crystal no centro, constiuiara a singela e elegante decoração d'esta parte dos aposentos. Seguindo pela galeria á direita, entrava-se na sala de jantar. A guarnição d'esta sala era de carvalho do norte. Ao centro uma grande meza; a um lado um aparador; do outro, espelho com moldura de carvalho, tendo era frente uma estatueta de bronze, vasos com plantas quadros e outros moveis. Abria para esta sala, que é espaçosa, outra de menos amplas proporções, destinada para se servir o café. A guarnição era de mogno com estofo de risso vermelho escuro, e constituíam o resto da decoração quadros, espelhos, vasos com plantas, etc. O quarto de vestir de Sua Majestade o Imperador ficava no topo da escada principal. A guarnição d'este quarto era de casimira listada, sendo o estofo coberto com panno de crochet. Era luxuosa a decoração, posto que não tão rica como a do quarto de vestir da Imperatriz. Havia ainda no primeiro andar outras salas, também decoradas com primor, e destinadas para conversação particular dos augustos personagens ou para reunião das pessoas da sua comitiva. O segundo andar, destinado á comitiva imperial, supposto não estivesse decorado com a grandeza do primeiro, denotava comtudo esmero e bom gosto.”…

É conhecida a história de Maria Huguette de Melo Lemos e Alves, a proprietária do Hotel ter apresentado no final da estadia uma conta de tal modo exorbitante que o Imperador não pagou. A hoteleira queixou-se aos tribunais que lhe deram razão e partiu para o Brasil para cobrar a dívida imperial. Dois portugueses radicados no Brasil acabam por pagar a conta e a Maria Huguette regressou a Portugal.

Continuando o relato dos autores da Viagem…

Palácio do sr. visconde da Trindade

…“Também o sr. visconde da Trindade se preparou para receber e obsequiar no seu histórico palácio os esperados viajantes, como costuma sempre que alguma pessoa real visita aquella cidade. E tinha uma novidade que lhes offerecer. Na sala do palácio, onde esteve depositado o cadáver de Carlos Alberto, figuraram pela primeira vez os retratos de todas as pessoas reaes, que o têm visitado, e que são — Suas Majestades D. Luiz I e a rainha a senhora D. Maria Pia em 1863, el-rei o sr. D. Fernando, o príncipe Humberto, e agora o Imperador e Imperatriz do Brasil. Estes retratos foram pintados, os primeiros quatro pelo sr. João Marques da Silva Oliveira, alumno da academia portuense de bellas artes, e os outros dois pelo sr. Adolpho Cyrillo e Sousa Carneiro alumno da mesma academia e brasileiro.”…

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Palácio do visconde da Trindade, e praça de Carlos Alberto Nogueira da Silva «Archivo Pittoresco», 4, 1 861, p. 393

in Imagens do Porto Oitocentista, Eduardo Pires de Oliveira - AHCMP/ARPPA 1985

Preparativos em Gaya

“A camará municipal de Villa Nova de Gaya mandou preparar uma sala na estação das Devezas para Suas Majestades descansarem; nomeou uma comissão, composta dos srs. António Joaquim Borges de Castro, presidente, barão do Corvo, Caetano de Mello Menezes e Castro, e João do Rio Júnior, vereadores, encarregada de receber os monarchas na estação, e representar em tudo a mesma câmara. Promoveu uma subscripção para as despezas dos festejos. Mandou postar uma banda de musica na estação, enfeitou a estrada, desde este ponto até á ponte pênsil, com grande variedade de vistosas bandeiras, e convidou os habitantes a ornarem as suas casas.”

Depois de descreverem os preparativos os autores iniciam a descrição da estadia de D. Pedro II e sua mulher no Porto:

Chegada á estação das Devezas…

“Na estação das Devezas esperavam Suas Majestades as camarás de Villa Nova de Gaya e Porto, os srs governador civil Bento de Freitas Soares e seu secretario Joaquim Taibner de Moraes, general José deVasconcellos Corrêa e estado maior, o cônsul o sr. Manuel José Rabello, o vice-consul Agostinho Francisco Velho, adminisiradores de Villa Nova e Porto, commissario geral de policia, chefe do departamento maritimo, director da alfandega e alguns empregados, vários titulares, oíficiaes reformados e muitas outras pessoas de consideração.

A camará municipal do Porto compôe-se dos srs. Francisco Pinto Bessa, presidente—António Caetano Rodrigues—António Ribeiro Moreira—Augusto Pinto Moreira da Costa—António José do Nascimento Leão —António Domingos de Oliveira Gama—José Luiz Gomes de Sá—Manuel Justino de Azevedo—-José Duarte de Oliveira — Pedro Maria da Fonseca— António Ferreira dos Santos.

Fora da estação e junto á linha, para o lado do norte, estava a banda que foi do palácio de Crystal; do lado do largo das Devezas, dentro do gradeamento, que dá entrada para a estação, formava o esquadrão de cavallaria 6, que fazia a guarda de honra; e no largo, em frente da estação, um esquadrão de cavallaria da guarda municipal. A policia era feita por guardas civis, vestidos de grande uniforme.

Em uma das salas da estação, do lado direito, foi improvisada a sala de recepção mandada adornar pela câmara municipal de Gaya. As paredes eram forradas de velludo carmezim no centro, e de seda azul e branca dos lado; o tecto coberto com damasco amarello, tendo no centro as armas brazileiras; o chão tapetado. A um dos lados tinham sido col locadas duas cadeiras de espaldar estofadas com velludo vermelho. Em volta da estação agglomerava-se bastante povo.

Pelas sete horas e meia, chegou á estação o comboio, o que logo foi annunciado por uma salva de vinte e um tiros na forlaleza da Serra do Pilar e por outra no castello da Foz. Os Imperadores foram recebidos pela commissão da câmara municipal de Gaya, governador civil, câmara municipal do Porto, e mais pessoas acima mencionadas, e dirigiram-se para a sala de recepção. As câmaras em breves palavras felicitaram os augustos viajantes e convidaram-os a descançar. A musica, que foi a do palácio de Crysial, tocava o hymno brasileiro, e o povo que rodeava a estação, dava vivas aos Imperadores do Brasil.

Suas Majestades, porem, poucos minutos se demoraram, e o senhor D. Pedro II, sahindo só com a Imperatrizpelo braço, foi á sala das bagagens, voltou, e, mettendo-se no trem que lhe estava destinado, seguiu para a cidade.

Como o esquadrão de cavallaria o acompanhasse, Sua Majestade acenou ao general para o mandar retirar, o que fez com que elle retardasse a marcha, e seguisse a maior distancia.

Os vivas repetiram-se ao sahir da estação.

O trajo e maneiras do Imperador eram, como sempre, despretenciosos e simples: fato preto, chapéu baixo e manta de xadrez branco e preto em volta do pescoço; a sua mala de couro preta na mão direita, chapéu de chuva na esquerda, sobraçado um embrulho de papeis, não desdizia da mais natural singeleza de qualquer outro viajante.

A Imperatriz trajava egualmente de luto; vestido de merino preto e chapéu de palha da mesma côr.

Desde as Devezas até á ponte pênsil estava a estrada toda embandeirada e as janellas guarnecidas de cobertores de damasco.”

…e entrada no Porto

“Eram perto de oito horas quando os imperiaes viajantes entravam na cidade heróica, donde surgiram sinceros propugnadores da liberdade, e onde o trabalho tem glorioso brazão.

Abriam o préstito dois officiaes do estado-maior, seguidos por seis soldados de cavallaria, e após estes a câmara municipal do Porto e logo Suas Majestades.

O trem era descoberto. O Imperador sentava-se em um dos logares da frente; nos fronteiros iam a Imperatriz á direita e sua dama de honor, a sr.' D. Josephina da Fonseca Costa ; seguiam-se mais alguns trens, em que vinham as pessoas da comitiva dos imperiaes viajantes. O restante préstito era assim disposto: o general da divisão e respectivos ajudantes, e o esquadrão de cavallaria 6 e da guarda municipal, que formavam a escolta de honra ; camará de Villa Nova de Gaya; os srs. governador civil com o ministro dos estrangeiros, o sr. Andrade Corvo ; secretario geral com o sr. marquez de Ficalho ; cônsul brasileiro no Porto com o sr. Ministro do Brasil em Lisboa; administradores dos bairros, corpo consular, auctoridades, corporações e muitas outras pessoas.

O cortejo seguiu pelas ruas de S, João, Flores, Feira de S. Bento, Praça de D. Pedro, calçada dos Clérigos, Carmo e praça do Duque de Beja até ao hotel.

A guarnição, na passagem dos augustos viajantes, apresentou armas e as musicas tocaram o hymno brasileiro.

Os corpos formavam por esta ordem: caçadores 9 ao entrar na rua de S. João; infanteria 5 na mesma rua até ao largo de S. Domingos; infanteria 18 do mesmo largo até á rua das Flores; nesta rua a guarda municipal. A excepção d'este corpo, todos os outros vestiam de grande uniforme em ordem de marcha, sendo a brigada commandada pelo general, o sr. Marçal. Logo que os imperiaes viajantes passaram á rua de S. João, o batalhão de caçadores marchou para fazer a guarda de honra no hotel do Louvre, onde Suas Majestades hospedaram. Em seguida serviu-se um opiparo almoço, ao qual não assistiu pessoa alguma alem da imperial comitiva.”

Visita à egreja da Lapa

“Findo que foi o almoço. Suas Majestades sahiram cerca das 11 horas, e pelas ruas do Duque de Beja. Carmo, Carmelitas, Clérigos, Almada e Campo da Regeneração se encaminharam para a real capella da Lapa, aonde os levava o mesmo sentimento, que lhes guiou os seus primeiros passos em Lisboa.

Na hora solemne do passamento quizera o sr. D. Pedro IV que o seu coração fosse confiado á guarda da cidade do Porto. Pois que a ambos havia immorlalisado, bem era que o possuísse a que lhe sobrevivia, dentro de cujas muralhas tantas vezes palpitara no meio dos perigos, cuidados e glorias da porfia homérica, que a nós legou a liberdade, e a elles, os heróicos permulantes do precioso legado, por symbolo immorredouro da grande epopeia dos seus feitos o titulo de immortal a um e de invicta a outra.”

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Egreja ou real capella de Nossa Senhora da Lapa, no Porto «Archivo Pittoresco», 10, 1867, p. 25

in Imagens do Porto Oitocentista, Eduardo Pires de Oliveira - AHCMP/ARPPA 1985

“No dia 7 de fevereiro de 1835 recebeu o Porto, com a mais viva e pungente saudade, este inapreciável legado, penhor valiosíssimo do entranhado amor que lhe dedicara o dador das nossas liberdades.

Na egreja da Lapa se erigiu um condigno monumento para servir de deposito ao coração de D. Pedro.

A obra é de granito, tirado das pedreiras dos subúrbios da cidade, e foi delineada pelo hábil architeoto, o sr. Costa Lima. Não temos espaço para descrever esta peça architectonica. Apenas trasladaremos aqui a inscripção commemorativa que tem na frente:

EN. COR

ILLIUS TANTI VIRI

QUI GLORIiE AMORE FLAGRANS

SINGULARIQUE IN OMNES INGENIO LIBERALI PRAEDITUS

PRIMUM CICLO CCC XX VI

LUSITANOS SUA SPONTE LIBERTATE DONAVIT

DEINDE CICLO CCC XXX III

IPSOS ACERBISSIMA CAPTIVITATE OPPRESSOS

ARMIS ET CONSILIO ITERUM IN LIBERTATEM ASSERUIT

TUM CICLO CCC XXX IIII

INNUMERIS TYRANNI COPUS CONTUSIS PENITUSQUE DISJECTIS

IPSO E SOLIO DETURBATO AC FINIBUS EXPULSO

MARIA AUTEM II FILIA SIBI CARISSIMA

IN AVITO SOLIO COLlOCATA

CONVENTUS INDIXIT IMPERIUMQUE

PROUT TEMPORA POSTULABANT STABILIVIT

AD POSTREMUM CICLO CCC XXX IV

TOT TANTISQUE LABORIBUS FRACTUS

ET IMMATURA M0RTE PRAEREPTUS VIII KAL : OCTOBR

AB HAC IN MELIOREM VITAM MIGRATURUS

HOC TANTI AMORIS PIGNUS.

A traducção d'esta inscripção é como se segue:

Eis o coração d'aquelle varão tão grande, que, infflammado no amor da gloria e de génio singularmente liberal para todos, primeiro (1826) outorgou a tíberdade aos portuguezes ; depois (1852), opprimidos estes pelo mais acerbo captiveiro, por armas e conselho os restituiu de novo a liberdade; então (1834), batidas, e de todo desbaratadas as innmneras tropas do tyranno, derrubado este do sólio, e expulso do reino, e collocada no solto de seus avós Maria II, sua caríssima filha, convocou cortes, e consolidou o império conforme as exigências do tempo; por ultimo (1837), quebrantado por estes e tantos trabalhos, e arrebatado por uma morte prematura, ao passar d'ella para melhor vida (24 de setembro), legou a esta nossa antiga, muito nobre, sempre leal e invicta cidade, esta melhor porção de si mesmo, este tão grande penhor do seu amor.”

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No interior do monumento ha um receptáculo, ond se vê um elegante pedestal de ordem jónica, e sobre este uma urna de prata doirada contendo um vaso de crystal que encerra o coração. Nas almofadas do pedestal estão gravadas varias inscripções notáveis, sendo a da frente da maneira seguinte:

DKO ÓPTIMO MÁXIMO

PETRO . BHAGANTIjE . DUCE . FUNDATORE . PACIS . AC . PUBLICLAE

LIBERTATIS . AUCTORE . ET . VINDICE . QUOD . DIVINITATIS .

IMPULSO . ANIMI , MAGNITUDINE . AD . PORTUGALENTIA

LITTORA . APPULSO . IBI . CUM . EXERCITU . SUO . NEC -NON

MÁXIMO . ET . VIX . CREDIBILI . CIVIUM . ADJUCTORIO . TAM .

DE .TYRANNO.QUAM.DE.OMNI.EJUS.FACTIONE.UNO.TEMPORE.

JUSTIS . ARMIS - LUSITANIAM ULCISCENTE . ET . ILLIC .

UBI . SE . SUAMQUE .VITAM . PATRIE . MAGNANIMITER .

ORTULIT . CORDIS . SUI . REQUIETORUM . IN .VICTA . ADHUC.

ELIGENTE . AMELIA . AUGUSTA . CONJUX . AMANTISSIMA .

LIRENS . MERITO . SPONSI .VOTUM . SOLVENS . QUOD MORTALE

FUIT ILLIUS CORDIS IN HAC URNA DEVOTISSIMA POSUIT.

Cuja traducção é:

D. Pedro, duque de Bragança, fundador da paz, doador e vingador das liberdades publicas, havendo, por impulso da Divindade, e com a sua grandeza de alma, aportado ás praias do Porto, e tendo alli, pela força do exercito que commandava, e pela grande e quasi incrível ajuda que lhe prestaram os portuenses, vingado ao mesmo tempo, e com justas armas, a Portugal, tanto do tyranno que o opprimia, como de toda a sua fracção, elegendo o duque, por isto mesmo, e ainda em vida, aquelle logar onde tão magnanimamente expoz a própria vida pela pátria, para nelle, depois da morte, descamar o seu coração. Amélia Augusta, amantissima consorte do duque, querendo de boa vontade, e com razão, cumprir o voto de seu esposo, encerrou reverentemente nesta urna os despojos mortaes do coração de seu marido.»

Na almofada correspondente a esta estão gravadas as seguintes memoráveis palavras, extrahidas da proclamação que D. Pedro dirigiu aos portuenses quando no mez de julho de 1834 visitou a heróica cidade:

«…Eu me felicito a mim mesmo por me ver no theatro da minha gloria, no meio dos meus amigos portuenses, d'aquelles, a quem devo, pelos auxílios que me prestaram durante o memorável sitio, o nome que adquiri, e que honrado deixarei em herança a meus filhos.

Porto, 27 de julho de 1856

D. Pedro, Duque de Bragança

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Preciosa relíquia convidava por tanto o sr. D. Pedro II a começar pela homenagem do seu amor de filho a visitar e orar junto do coração de seu pae. A egreja havia sido sumptuosamente adornada, sobresahindo no arco cruzeiro, no meio de um tropheu de bandeiras, as armas de Portugal e Brasil. Exteriormenle também estava embandeirada. Á porta achavam-se o reverendo prelado, mesarios da irmandade, pegando ás varas do pallio, debaixo do qual deviam ser conduzidos o soberano e sua esposa. Junto do pallio estava acamara municipal, mais auctoridades e outras pessoas.

Entrando no templo, a primeira cousa que fizeram, foi beijar o osculatorio que o sr. D. Américo lhes apresentou. Logo se dirigiram á capeila-mór, e ajoelhando oraram por algum tempo junto da urna que encerra o coração do sr. D. Pedro IV collocada do Iado do Evangelho. Ergueram-se, fizeram ainda oração ao Sacramento, exposto no altar-mór, e depois foram occupar as cadeiras que lhes estavam preparadas debaixo de um docel de damasco encarnado do lado do Evangelho, d'onde assistiram á missa resada que se seguia, celebrada pelo reverendo cónego da Sé, António Alves Mendes da Silva Ribeiro. A esquerda, em plano inferior, debaixo do docel branco estava outra cadeira para o prelado diocesano, que nella assistiu também á missa, paramentado de pontifical. Ao sólio do prelado assistiam os reverendos deão dr. Joaquim José Corrêa de Vasconcellos, e cónegos João Bernardo e Alves Mendes. A missa foi acompanhada de symphonias desempenhadas pela musica instrumental do sr. Canedo. Suas Majestades conservaram-se sempre de pé, e a Imperatriz lia um livro de orações. Ambos vestiam de preto, e denotavam profunda commoção. Recusaram as almofadas que lhes foram offerecidas para se ajoelharem. No fim não houve o Te Deum, a pedido do Imperador. Assistiram também á missa os srs. governador civil, secretario geral, camará ecclesiastica, general de divisão, general de brigada, officialidade dos corpos da guarnição, corpo consular, commissario geral de policia, administradores dos dois bairros, alguns titulares, outras pessoas de distincção e muito povo, que irrompeu pela igreja dentro logo em seguida aos Imperadores.

O regimento de infantaria n.° 48 fez a guarda de honra. Concluída a missa. Suas Majestades, antes de sairem, foram prostrar-se e orar de novo deante da urna que guarda o coração do sr. D. Pedro IV. Á saida subiram ao ar girandolas de foguetes, a banda regimental tocava o hymno brasileiro, e a multidão que enchia o largo, saudava os monarchas, agitando os chapéus e os lenços. As ruas por onde passaram, estavam adornadas de ricos cobertores e bandeiras, assim como o largo da igreja. Algumas ruas estavam juncadas de hervas e flores”

Visita a vários pontos

“Da Lapa passaram a visitar a quinta do sr. Agostinho Francisco Velho, vice-consul do Brasil no Porto, na qual desejavam ver o terreno onde foi o reducto das Medalhas, assim chamado por ser um dos pontos mais arriscados e expostos das linhas, onde succumbiram muitos dos que o defendiam, sendo por isso condecorados todos os que escaparam ás balas inimigas. Em razao de ser muito descoberto, e de muito sangue nelle derramado, foi primeiro conhecido pelo monte de sangue. Depois a necessidade obrigou a levantar um reducto, que servisse de abrigo aos combatentes, e tornasse defensivel a posição; mas, como continuou a ser um dos pontos mais balidos pelo inimigo, e mais perigoso, a chrisma de guerra mudou-lhe o nome para reducto das medalhas, menos lúgubre, mas igualmente expressivo.”

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MOREIRA, ca 18- -
Carta topographica das Linhas do Porto [Material cartográfico / levantada e publicada pelo Coronel Moreira. - Escala [ca 1:25400], Palmo por Legoa de 2540 Braças. - [S.l. : s.n., 1834]. - 1 carta : p & b ; 43x31 cm. - Data atribuída de acordo com o acontecimento histórico representado. - Contém ainda escala gráfica de "1000 Braças". - No canto superior esquerdo contém descrição histórica BND

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Detalhe da Planta das Linhas do cerco do Porto – a vermelho o Reduto das Medalhas

“Foi commandante d'este reducto o então major Bernardo José d'Abreu, hoje tenente general reformado. Este valente olficial substituiu alli o major Nogueira, cuja morte se prende a um incidente digno de ser mencionado. O major Nogueira sairá do Monte Pedral, nome civil d'esla posição, com alguma força a atacar o inimigo, que eslava defronte. Atacou a peito descoberto, e por isso foi ferido por uma bala, quando se achava já ao alcance das fortificações inimigas. Um sargento, vendo-o com vida, ergueu-o, e pretendia retirar-se com elle ás costas; outra bala porém os matou a ambos.

O sr. Velho tinha preparado um abundante lunch.”

De seguida o Imperador do Brasil dirigiu-se para o Palácio da Bolsa, ainda inacabado no seu interior.

“Á uma hora da tarde os Imperadores visitaram o sumptuoso edifício da Bolsa, sendo ahi recebidos pelo muito digno director, o sr. Francisco Ignacio Xavier, que os acompanhou durante a visita. Percorreram todas as secções daquella casa, demorando-se principalmente na sala dos retratos e no salão de honra, que ainda se anda construindo. “

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Palácio da Bolsa no Porto Coelho J. «Archivo Pittoresco». 4, 1 861, p. 309

Uma gravura em tudo semelhante foi publicada na revista «Lê Tour du Monde», 2, 1861, p. 296; desenho de H. Catenacci e gravura de Pannemaker; sob a gravura diz ainda «... d'après une photographie». É esta a gravura que se reproduz.

in Imagens do Porto Oitocentista, Eduardo Pires de Oliveira - AHCMP/ARPPA 1985

Depois de terem assignado os seus nomes no livro dos visitantes, retiraram-se, indo em seguida á igreja da Ordem de S. Francisco, a qual tem para admirar a riqueza da obra de talha que a adorna.

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Francisco Rocchini (?) – Igreja de S. Francisco1849-1873papel albuminado, pb : 40,4 x 31,6cm Album pittoresco e artistico de Portugal. colecção Thereza Christina Maria - Biblioteca Nacional (Brasil)

O Album pittoresco e artistico de Portugal existente na Biblioteca Nacional do Brasil, pertence à colecção da mulher de D. Pedro II, D. Teresa Christina, e possivelmente terá sido adquirido quando desta visita do casal Imperial a Portugal. Compõe-se de um conjunto de 50 fotografias (6 do Porto) de Francesco Rocchini, de diversos monumentos e paisagens de Portugal.

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“De lá encaminharam-se para a rua das Flores, a fim de visitarem a secretaria da Santa Casa da Misericórdia, onde foram recebidos pela mesa. Examinando os retratos dos bemfeitores da Santa Casa, que alli se acham, admiraram um quadro allegorico á instituição do hospital d'aquelle pio estabelecimento, considerado como davida d'el-rei D. Manuel.”

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Anónimo - FONS VITAE – Cerca de 1520 - Óleo sobre madeira de carvalho 267 x 210 Igreja da Misericórdia do Porto

“(…)Um dos maiores tesouros da pintura flamenga que o Porto possui é o conhecido painel Fons Vitae que se encontra na Santa Casa da Misericórdia daquela cidade. Datada de 1518-1521 e atribuída, pelos estudos mais recentes, ao círculo de Barend Van Orley. A obra, cujo historial permanece desconhecido até Agosto de 1824, altura em que é referido no inventário da Santa Casa da Misericórdia do Porto, foi analisada, sob diversas vertentes, por Pedro Dias. A pintura representa Cristo crucificado, já morto, com o lado direito ferido pela lança do soldado, do qual jorra abundantemente o sangue redentor. É este sangue de Cristo, derramado pela remissão dos pecados da humanidade, que dá nome à pintura: Fonte da Vida. De facto, Cristo afirmara: «quem beber do meu sangue terá a vida eterna» (Jo 6, 54). Representando literalmente esta alusão eucarística, mediante uma iconografia invulgar, o pintor faz com que o precioso sangue do «Cordeiro de Deus» imolado seja recolhido numa taça de enormes proporções no bordo exterior da qual é possível ler as inscrições latinas: Fons Misericordie, Fons Vite, Fons Pietatis (sic). A composição assenta numa rigorosa simetria tendo como eixo central a cruz que emerge do centro da taça. Cristo é ladeado pela sua Mãe e pelo apóstolo São João, presentes no Calvário no momento da sua morte. Ambos expressam dor e comoção pelo fim trágico do Filho de Deus. O drama do acontecimento é reforçado pelas tonalidades sombrias das nuvens que, no momento da morte de Cristo, «envolveram de trevas toda a terra» (Mt 27, 45). Na paisagem longínqua, tratada de forma miniatural à maneira flamenga, vislumbra-se a cidade de Jerusalém palco dos acontecimentos daquela memorável Sexta-feira Santa. Em redor da Fonte da Vida, de joelhos, em atitude de contemplação e adoração, dispõem-se, em círculo, mais de trinta personagens que os historiadores têm vindo a identificar. Assim estão presentes, no primeiro plano, o monarca D. Manuel I e sua mulher, ladeados pelas princesas D. Isabel e D. Beatriz, no lado direito da rainha, enquanto do lado esquerdo de D. Manuel, se encontram os seis infantes. Seguem-se, de ambos os lados, uma série de personagens religiosas e laicas que têm originado alguns ensaios de interpretações e identificações. Todavia o facto de estarem presentes figuras da corte portuguesa, bem como as alterações detectadas no processo construtivo por exames recentes, leva a crer ter existido um acabamento em duas fases, a última das quais já em Portugal altura em que foram concluídas as diversas fisionomias.”

Luís Alberto Casimiro Pintura e Escultura do Renascimento no Norte de Portugal

Revista da Faculdade de Letras CIÊNCIAS E TÉCNICAS DO PATRIMÓNIO Porto 2006-2007 I Série vol. V-VI, pp. 87-114

…“Descendo para o átrio, o digno provedor, o sr. António Ferreira Moutinho apresentou a Suas Majestades a sra. Sandeman e sua filha, a quem o Imperador fallou com sentimento dos doze martyres da pátria, cujos restos alli se achavam, um dos quaes era pai d'aquella senhora. Também visitaram o archivo. Entre outras perguntas desejou o Imperador saber se a Misericórdia tinha bemfeitores que residissem no seu império, sabendo por esta occasião, com signaes de agrado, do valioso donativo, que havia pouco fora deixado pelo fallecido sr. José Plácido Campeão.

Sairam, e, quando entraram para a carruagem, foram saudados pela multidão agglomerada á porta da Misericórdia. O Imperador correspondia affectuosamente a estas manifestações.

Da Misericórdia passaram à Sé e Paço Episcopal.

Atravessando o largo da Batalha, demoraram-se deante do monumento do sr. D. Pedro V, que contemplaram detidamente.”…

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Estatua de D. Pedro V, na praça da Batalha (Porto) Rafael / Pastor «O Universo Illustrado». 2, 1878, p. 1 in Imagens do Porto Oitocentista, Eduardo Pires de Oliveira - AHCMP/ARPPA 1985

(Sobre a estátua de D. Pedro V, ver neste blogue O Porto há cem anos 2)

Visita ao Atheneu, Academia de Bellas Artes, Bibliotheca Publica, etc.

O Atheneu Portuense ou Museu Portuense que tinha herdado o acervo do Museu Allen, deu origem em 1940a o Museu Nacional Soares dos Reis. Por isso lá se encontram muitas das obras e peças que os autores que temos seguido referem como sendo do interesse e da curiosidade de D. Pedro II.

Vale a pena ir apreciar essas e outras obras directamente no Museu Nacional Soares dos Reis

…“Pelas duas horas e meia estavam á porta da Academia de Bellas Artes, sita no extincto convento de S. Lazaro…

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Emilio Biel Academia de Bellas Artes e Bibliotheca Publica – 1891 - fototipia 16x21,8cm Museu Nacional de Soares dos Reis

…“Esperava-os á entrada do edifício o sr. conde de Samodães, par do reino e ministro de estado honorario; Augusto Moreira, e Pedro Maria da Fonseca, vereadores; João António Corrêa, professor de pintura; Eduardo Augusto Allen, bibliolhecario; Eduardo Coquet, e outros empregados. O sr. conde foi-lhes apresentado pelo cônsul brasileiro na sua qualidade de vice inspector da Academia depois do que lhes apresentou por seu turno os professorais da Academia, que se achavam presentes. O Imperador tomou nota de seus nomes, e dirigiu ao digno vice-inspector e a elles palavras muito lisongeiras, recordando-se immediatamente dos actos políticos do sr. conde, e de ter sido s. ex.' quem lhe endereçou a felicitação que os portuenses lhe dirigiram pelas victorias do império brasileiro no Paraguay.

Dirigindo-se então ao Atheneu a primeira cousa que chamou a attenção do Imperador foi o busto do fallecido José da Silva Carneiro, lente de mathematica e collaborador do antigo Periódico dos Pobres. O sr. Conde de Samodães na occasião em que Sua Majestade elogiava aquelle retrato, e perguntava de quem elle era e o seu auctor, apresentou o professor de pintura J. A. Corrêa como habilitado a dar explicações relativamente ao busto e outras obras d'arte d'aquelle museu. O retrato é modelado em barro, e foi feito pelo esculptor António Couceiro, discípulo da Academia.

Passando Suas Majestades a ver as pinturas da galeria, preferiu o Imperador que lhe indicassem as principaes e sobre tudo as de pintores portuguezes. Examinou detidamente o excellente quadro de S. Jeronymo, pintado em madeira e attribuido a Gran Vasco…

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Mestre da Lourinhã “São Jerónimo no deserto” do século XVI [1510-1520] Óleo sobre madeira de carvalho. 170 x 97 cm Museu Nacional de Soares dos Reis

O mestre da Lourinhã foi o nome proposto por Luís Reis-Santos a partir da descoberta em 1933 no hospital das anta Casa da Misericórdia da Lourinhã, de duas obras: São João Baptista no Deserto e São João Evangelista em Patmos (c. 1515) que se encontravam muito degradadas e que foram restauradas para serem exibidas na Exposição do Mundo Português em 1940. Segundo o professor Manuel Batoréo o Mestre da Lourinhã seria Álvaro Pires, pintor, iluminador e ourives das oficinas de D. Manuel I e de D. João III,active entre 1498 e a data sua morte em 1539.

A pintura no Museu Na­cional de Soares dos Reis, no Porto, representando S. Jerónimo, é datável dos anos de 1510-1520, e proveniente do mosteiro da Penha Longa, Sintra.

…“São Jerónimo (347-420), um dos quatro grandes doutores da Igreja, é repre­sentado já idoso e de longas barbas brancas, entregando-se à penitência, simboli­zada pelo traje descuidado e pelo bater da pedra sobre o peito. Olha para a figura de Cristo crucificado, diante do qual ajoelha, estando a cruz segura por uma corda no tronco de uma árvore sem folhas. Por companhia tem unicamente o lendário leão ao qual retirou um espinho da pata. Da iconografia deste santo penitente fa­zem parte as vestes cardinalícias aqui representadas pela capa e o chapéu que se encontram pousados na terra entre escassa vegetação. O fundo paisagístico insere-se no processo representativo do Mestre da Lourinhã, atento aos pormenores das fragas, ao elemento aquático onde se reflectem as rochas e as árvores e à lumino­sidade do céu onde se esbate o azul-cobalto. De salientar a relação entre a figura humana e a natureza com nítida vantagem para esta contrariamente ao que sucede noutras composições onde a figura humana é dominante. A pintura revela rigor no desenho e grande equilíbrio tanto no que se refere à disposição dos elementos como à distribuição da luz e da cor.” Luís Alberto Casimiro - Pintura e Escultura do Renascimento no Norte de Portugal, Revista da Faculdade de Letras CIÊNCIAS E TÉCNICAS DO PATRIMÓNIO Porto 2006-2007 I Série vol. V-VI, pp. 87-114

…e em seguida os quadros originaes de José Teixeira Barreto,…

São vários os quadros existentes no Museu Nacional Soares dos Reis. Escolhi apresentar este:

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José Teixeira Barreto, (1763-1810) Juramento de Viriato Séc. XVIII-XIX

Óleo sobre tela 130,2 x 98,3 cm Museu Nacional de Soares dos Reis

…Pedro Alexandrino,…

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Pedro Alexandrino (1730-1810) Nossa Senhora com o Menino empunhando a Cruz Século XVIII-XIX

Óleo sobre tela A. 198 x L. 119 cm Museu Nacional de Soares dos Reis

…Josepha d'Ayalia,…

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Josefa de Ayala, dita Josefa de Óbidos (1630-1684) Casamento Místico de Santa Catarina c.1647

Óleo sobre cobre A.28 x L.35,5 cm Museu Nacional de Soares dos Reis

Josepha d’Ayalia é conhecida como Josefa de Óbidos.

Santa Catarina de Siena (1347 - 1380) (não confundir com santa Catarina de Alexandria do início do século IV) desde cedo foi cumulada de favores celestes, privando com Anjos e Santos. Aos sete anos, fez voto de virgindade; aos 16, cortou sua longa cabeleira para evitar um casamento; e aos 18, recebeu o hábito das Irmãs da Penitência de São Domingos. Vivia, já aos 20 anos, só de pão e água. Foi agraciada com favores sobrenaturais, como o "casamento místico"; recebeu estigmas semelhantes aos de Nosso Senhor e teve uma "morte mística", durante a qual foi levada em espírito ao Inferno, ao Purgatório e ao Paraíso; teve também uma "troca mística de coração" com Nosso Senhor.

…Francisco Vieira Portuense…

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Vieira Portuense, Francisco (1765-1805) Fuga de Margarida de Anjou (Episódio da Guerra das Duas Rosas) 1798

óleo sobre tela A. 126 x L. 102 cm Museu Nacional Soares dos Reis

Marguerite d'Anjou (23 de Março de 1429 — 25 de Agosto de 1482) foi rainha consorte de Inglaterra, através do seu casamento com Henrique VI a 23 de Abril de 1445. Era filha do rei Renato I de Nápoles também Duque de Anjou e de Isabel, Duquesa da Lorena Apesar de mulher e estrangeira, Margarida foi uma das personagens mais influentes na Guerra das Rosas como uma das líderes da Casa de Lancaster

“Pintada em Londres durante o período em que ali permaneceu o pintor, foi apresentada em 1798 na exposição da Royal Academy of Arts. No respectivo catálogo é apresentada com o título Queen Margaret and the Robber (A Rainha Margarida e o Ladrão). Este episódio que o pintor representa reporta-se à História de Inglaterra de David Hume e à “Guerra das Duas Rosas”: Margarida de Anjou (1429-1482), rainha de Inglaterra por casamento com Henrique VI de Lencastre, luta pelo trono para seu filho Eduardo, Príncipe de Gales. O episódio escolhido pelo pintor, o aparecimento do ladrão à rainha Margarida quando esta fugia com o filho para a Escócia, é talvez o momento mais emotivo de todo o enredo e, como tal, terá servido os intentos do pintor de conceber uma composição cuja estrutura e cromatismo evidenciassem todo o dramatismo da cena.” texto do MNSR

…Domingos António de Sequeira,…

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Sequeira, Domingos António de (1768-1837)Junot protegendo a cidade de Lisboa (Alegoria) 1808

Óleo sobre tela 73,5 x 100 cm Museu Nacional Soares dos Reis

Domingos António Sequeira (1768-1837), foi um pintor que viveu e participou num período agitado da história de Portugal. Por isso se apresentam estes dois quadros ambos pertencentes ao acervo do Museu Soares dos Reis. Em 1788, partiu para Itália onde estudou na Academia Portuguesa em Roma.
Regressou a Portugal em 1795 e em 1802 foi nomeado pintor régio, um dos pintores do Palácio da Ajuda, professor de Desenho e Pintura das princesas, e em 1806 director da Aula de Desenho no Porto. Em 1808 os exércitos de Napoleão invadem Portugal.
Um pouco como Jacques Louis David, que Sequeira admirava, no primeiro quadro pinta uma alegoria ao invasor, de que será por isso acusado de simpatias.

Sobre o 1º quadro diz José Augusto França: “(…) convocado por Junot, recebia a enco­menda de uma alegoria cujo programa (afiançou o pintor, mas isso é pouco provável) foi escrito pelo próprio punho do general. O «guerreiro invicto, prudente e justo» protege Lisboa. A cidade, sentada e triste, esfalfada, é amparada pela religião e pelo génio nacional que olha, com temor e fas­cinação de adolescente, para um magnífico Junot em grande gala de hussardo, que pega na mão de Lisboa, para a consolar. Ceres e Minerva, a abundância e a sabedoria, aproximam-se pelos ares, debaixo da sombra imensa de uma águia de asas abertas; no outro lado da composição, Marte-França fulmina Neptuno-Inglaterra — e no fundo desdobram-se regimentos franceses e perfila-se a esquadra russa. O quadro tem um tom de melancolia, na doçura do seu colorido dourado.” França, J. A. “A Arte em Portugal no século XIX” I vol. Bertrand Editora Lda, Lisboa 1990.

Vencidos os franceses, chega a estar preso nove meses preso no Limoeiro, e daí o segundo quadro tentando provar que mais do que a sua simpatia pelos ideais da Revolução francesa, pesa o seu patriotismo. Com a Revolução de 1820, acaba por ser reabilitado. No entanto com a Vilafrancada em 1823 cai de novo em desgraça e parte para Paris, onde chega a expor no Salão do Louvre, A Morte de Camões, obra que lhe mereceu uma medalha de ouro. Em 1826 segue para Roma, onde produz um conjunto de obras de arte sacra e é em Roma que virá a morrer em 1837.

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Sequeira, Domingos António de (1768-1837) Agradecimento de Portugal a Palas c.1812.

óleo sobre tela A. 45,4 x L. 35,5 cm Museu Nacional Soares dos Reis

…Joaquim Raphael, Pirralho, e os do outros pintores estrangeiros.”

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Pirralho, José Joaquim (1838 - 1882) Retrato de Joaquim da Costa Lima Júnior(18?? - 1863).

óleo sobre tela A. 65,7 x L.49,3 cm Museu Nacional Soares dos Reis

Joaquim da Costa Lima Júnior (Porto, 5 de Setembro de 1806— Porto, 29 de Janeiro de 1864)

Usava o apelido Júnior para se distinguir do tio o arquitecto Joaquim da Costa Lima Sampaio.

Em 1836 torna-se professor de Arquitectura Civil na Academia Portuense.

Foi a partir de 1853 o “arquitecto da cidade” ao serviço da Câmara Municipal.

Foi o autor de diversos projectos destacando-se os projectos do Palácio da Bolsa (edifício que acompanhou entre 1840 e 1860) e do 1º Mercado do Bolhão.

Foi o autor em 1839 da “PLANTA TOPOGRAPHICA DA CIDADE DO PORTO, Aonde se vêem exactamente marcados todos os Edificios, Praças publicas, e rua novamente abertas, bem como alguns projectos approvados pelas Authoridades Municipaes, para maior commodidade de seus habitantes, e beleza da mesma Cidade.”

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A planta de 1839 de J. da Costa Lima

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Detalhe da planta de 1839

…“Viu a espada que se reputa ser de D. Affonso Henriques, e que elle suppunha existir ainda em Coimbra, onde effectivamente se conservou até 1834 no convento de Sancta Cruz. Quando D. Sebastião visitou este mosteiro em 1570, mostrou-lhe o prior geral a espada, e o desventurado monarcha, tomando-a nas mãos, a beijou com muita reverencia, e disse para os senhores e fidalgos que o acompanhavam : Bom tempo em que se pelejava com espadas tão curtas! Esta é a espada que libertou todo Portugal do cruel jugo dos mouros sempre vencedora e por isso digna de se guardar com toda a veneração; e, dando-a outra vez ao prior, disse: Guardae, padre, esta espada, porque ainda me hei-de valer d'ella contra os mouros de Africa. E effectivamente, quando d'ahi a oito annos o valoroso mas infeliz monarcha se preparava para a desgraçada expedição de Africa, escreveu uma carta ao prior do mosteiro, pedindo-lhe aquella espada, que levou comsigo.”

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Espada atribuída a Afonso Henriques Museu Nacional Soares dos Reis

“Alludindo a este facto, diz o sr. João de Lemos na sua mimosa poesia intitulada Alcacer-Kebiri :

E partes... levas a espada,/Levas o escudo real, /Essa espada tão fallada, /Por mouros tão receada, /De Dom Affonso immortal! /Se a deixas envergonhada. /Ai de ti! de Portugal!

Refere D. Nicolau de Sancta Maria, na sua chronica, que a espada ficara na armada, sem que d'ella se chegasse a servir el-rei D. Sebastião, e que por este motivo poude voltar para o mosteiro.”

«O que é certo é que a espada do nosso primeiro rei, afeita a sahir triumphante de todos os combates, não assistiu à deplorável catastrophe, que sepultou nos areaes de África a coroa gloriosa dos reis de Portugal, o esplendor e grandeza da monarchia de D. Manoel, o Afortunado, e os brios, esperanças e forças vilães da na­ção, que devassara mares ignotos, que desvendara a Índia e o Brazil, e que conquistara tantos e tão podero­sos reinos!

«Regressando ao reino a esquadra portugueza, com a triste nova d'aquella immensa perda, trouxe para Lis­boa as armas de D. Affonso Henriques. Por ordem do cardeal-rei D. Henrique foram logo remettidas para o mosteiro de S. Vicente de Fora, e d'ali as conduziu para o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra o cónego regrante D. Francisco das Neves. Restituída ao mesmo logar em que estava antes de ser enviada a el-rei D. Sebastião, sobre o mausoléo de D. Affonso Henriques, ahi se conservou a espada até à extincção das ordens religiosas em 1834. Depois foi transferida por ordem do governo para o museu da Academia de Bellas-Artes do Porto, denominado Atheneu Portuense, aonde ao presente se acha».

Ignácio Vilhena Barbosa (1811-1890) - Estudos históricos e archeologicos, Porto, Liv. Internacional, 1875.

…“Também viu e examinou a riquíssima escrivaninha de tartaruga marchetada de ouro, a qual erradamente se crê que fora dadiva d'um papa ao venerável arcebispo de Braga, D. Frei Bartholomeu dos Martyres, no tempo do concilio de Trento, e se tem escripto que fora a que servira para as assignaturas dos decretos d'aquelle celebrado concilio.”

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Escrivaninha Século XVIII (1701-1750) Tartaruga escura, ouro, madrepérola 10,1 x 29,75 x 20,6 cm (tabuleiro) Itália (Nápoles) Museu Nacional de Soares dos Reis

…“É digno de lêr-se um artigo que sobre esta matéria escreveu o sr. A. M. Seabra d'Albuquerque nos Prelúdios Litterarios.

Esta escrivaninha pertencia ao Sanctuario do mosteiro de Sancta Cruz de Coimbra, e melhor informados, à vista do que escreve o sr. Joaquim Martins de Carvalho no seu interessante livro Apontamentos para a Historia Contemporânea, é de saber que, havendo o papa Benedicto XIV creado no mosteiro de Sancta Cruz de Coimbra, por bulla de 22 de junho de 1747, uma academia, que se denominou Academia Litúrgica, lhe offereceu, junctamente com outros objectos, aquella escrivaninha, como prova da consideração e estima em que tinha este instituto.”…

…“Continuando a visita ao Atheneu, o monarcha parou diante do chapéu, óculo e canana de seu augusto pai, descobrindo-se com reverencia, e notou os erros da data das inscripções, que circumdam a urna que encerrava aquelles objectos.” …

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Chapéu armado, óculo e cinturão usados por D. Pedro IV durante o Cerco do Porto--"Chapeú, óculos e boldrié usados por D. Pedro IV durante o cerco do Porto Século XIX [1801-1833] Chapéu: C. 45 cm; L. 14 cm; A. 17,5 cm; 28cm. Óculo: C.28,8 cm; D. 6,5 cm (estojo); C. 73 cm (aberto); 25,8 cm (fechado). Cinturão: C. 97 cm; L. 6 cm. Bolsa para munições: A. 9cm; L. 15 cm; 14,5 cm; P. 3,5 cm. Algibeira para os mapas: A. 24,8 cm; L.21 cm; 17 cm Chapéu: feltro preto, penas de avestruz (?), fitas de seda azul e branco, fio dourado, botão de metal dourado. Óculo: estojo em couro, punho da peça em couro, o restante em metal dourado, lentes de vidro. Cinturão (com bolsa para munições e algibeira para os mapas): couro preto, metal dourado Museu Nacional Soares dos Reis

..“Depois de reparar no mau estado em que se acha o edifício, cuja reparação compete à camará municipal da cidade, subiu ás aulas da Academia, e ahi notou os quadros dos srs. Francisco José Resende e João António Corrêa, que elogiou, perguntando pelo primeiro, o qual se não achava presente. …

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Francisco José Resende, Rei D. Fernando, 1859, Museu Nacional Soares dos Reis

João António Correia

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Correia, João António (1822-1896), Lebre pendurada

Óleo sobre tela Museu Nacional de Soares dos Reis

…Mais tarde foi o sr. Resende recebido no hotel do Louvre, aonde foi offerecer-ihe dois quadros, um de costumes, outro com o retrato del-rei o sr. D. Luiz.”…

…“Elogiou também os quadros do fallecido Augusto Roquemont, e do professor Guilherme António Corrêa….

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Roquemont, Augusto (1804 - 1852), Cena de aldeia (Chafariz de Guimarães) Tanque do Carmo 1842

Óleo sobre tela.22 x 27,5 cm Museu Nacional Soares dos Reis

Roquemont nascido em Genebra introduz na pintura portuguesa as figuras populares do Minho. Trata-se de um quadro com um fundo realista já que o tanque existe em Guimarães. Estava inicialmente no Largo do Carmo em 1869, a Câmara decidiu regularizar e ajardinar o Largo, mudando o Passo da Paixão para junto do edifício da Irmandade do Carmo. Em 1890 o tanque foi transferido para a Rua Nova de Santo António e em1927, mudado um pouco mais para Sul, sendo colocada uma nova cruz a encimar a coroa de armas, ligeiramente diferente da anterior. Ao centro, por detrás do tanque avista-se os Paços do Duque de Bragança.

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Guilherme Correia

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Correia, Guilherme (1829 - 1901) Auto-retrato

Óleo sobre tela 48 x 38,4 cm Museu Nacional Soares dos Reis

…”Examinou depois rapidamente a sala da pequena bibliotheca da Academia, e passou ao salão da bibliotheca publica, examinando o medalheiro que foi do museu Allen, comprado em 1856 pela camara municipal, de que era vereador o sr. conde de Samodães, encarregado da bibliotheca. “

“O segundo bibliothecario, Eduardo Allen, mostrou-lhe alguns livros e manuscriptos raros; e o Imperador perguntou ao digno vice-inspector da Academia pelo—Tirant lo Blanco—sendo-lhe então succintamenle narrada por s. ex," a historia do seu desapparecimento. O Imperador recommendou que se empregassem todos os esforços até se conseguir a sua restituição.”…

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Edição de 1511

OTIRANT LO BLANCH (TIRANTE EL BLANCO) de Joanot Martorell (1410-1468) é uma obra publicada em Valência, por Nicolaus Spindler, em 1490. O Tirante el Blanco é no D. Quixote de Cervantes o único livro que se salva da fogueira onde os livros são queimados pelo barbeiro e o padre para curar a loucura de D. Quixote. É o primeiro livro de cavalaria impresso. Cervantes consideraria esta obra “o melhor livro do mundo”, pois “aqui comem os cavaleiros e dormem, e morrem nas suas camas, e fazem testamento antes de morrer, com outras coisas de que todos os demais livros deste género carecem” (Dom Quixote, I, cap. VI). A Biblioteca Pública do Porto possuía um exemplar do incunábulo impresso em Barcelona, no ano de 1497 (proveniente do convento dos Carmelitas de Vila do Conde) que requisitado, ao que se pensa por Lisboa, desapareceu.

…“Elle e a Imperatriz assignaram então os nomes no livro dos visitantes. Descendo ao andar inferior, visitaram somente a aula de esculptura, onde lhe foi apresentado pelo sr. conde o professor, o sr. Manuel da Fonseca Pinto, hábil artista que recebera do duque de Bragança pelos seus primorosos trabalhos de esculptura as honras de esculptor da casa real portugueza. O sr. Fonseca Pinto foi incluído pelo cardeal S. Luiz na Lista de algum artistas portuguezes, publicada em 1839, onde se diz: «Foi este artista o que executou na cidade do Porto a elegante obra das differentes figuras allegoricas e mythologicas, e os baixos relevos, que ornam tanto os lados, como a popa e proa do vaso denominado Real Escuna. Tem executado muitas outras obras de esculptura de talha para vários navios construídos naquella cidade, etc.» Era nessa epocha lente de desenho no Conservatório das Artes do Porto, d’onde passou para lente de desenho da Universidade e Lyceu annexo, sendo elle quem inaugurou estas aulas em Coimbra. D'esta cidade passou de novo para o Porto para a cadeira que occupa na Academia de Bellas Artes, de que é director.

O Imperador mostrou que já conhecia o velho professor pela sua reputação, e o tractou com lhaneza e affabilidade. Examinou depois os trabalhos dos alumnos e elogiou alguns, mostrando pela judiciosa critica e acertadas observações que fez de algumas pinturas e estatuas, tanto no Atheneu como na Academia, que era um distincto amador de bellas-artes. O mesmo aconteceu na Bibliotheca onde o illuslre monarcha patenteou conhecimentos de um eximio bibliophilo, interessando-se muito ao ver alguns dos raros exemplares impressos e manuscriptos que lhe mostrou o sr. Eduardo Augusto Allen.”

“Depois da visita ao Atheneu, foram os Imperadores aos paços do concelho, onde a camará municipal os esperava, assim como grande concurso de povo. Na passagem para aquelle edifício deparava-se ao Imperador o monumento erigido ao sr. D. Pedro IV na praça do seu nome. Dedicaram-lhe portanto alguns momentos de attenta e respeitosa observação.”

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(Sobre o monumento a D. Pedro IV, ver neste blogue O Porto há cem anos 4)

…“Sahindo dos paços do concelho, dirigiram-se para a igreja dos Clérigos, ontle subiram á grande torre e se demoraram algum tempo na varanda mais alta, contemplando o vasto e magnifico panorama que d'alli se descortina.”…

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PEARSON Torre dos Clérigos no Porto [Visual gráfico / Pearson sc.. - [S.l. : s.n., D.L. 1987]. -

1 rep. de obra de arte : beige, cinzento e preto ; 23x18 cm. - Rep. de gravura em madeira, séc. XIX

BND http://purl.pt/12758/2/

…”Findava o dia, e, como fossem horas de jantar, recoIheram-se ao hotel, onde depois houve recepção pelas 7 horas.

Recepção

“A audiência começou pelos comprimentos das camaras municipaes de Villa Nova de Gaia e do Porto.

A primeira era representada neste acto pelo sr. António Joaquim Borges de Castro, seu digno presidente, barão do Corvo e João do Rio Júnior.

A do Porto apresentou a Sua Majestade o Imperador a felicitação seguinte:

Senhor ! — A subida consideração que Vossa Majestade Imperial se digna dar á cidade do Porto, honrando-a com a sua visita, acompanhado de Sua Majestade a Imperatriz, encheu de jubilo o povo portuense. A camara municipal, que já teve a satisfação de saudar a Vossa Majestade Imperial pela sua feliz chegada á Europa, tem mais uma vez a honra de apresentar a Vossa Majestade Imperial as homenagens de profundo respeito e sympathia que os briosos habitantes da cidade tributam à augusta pessoa de Vossa Majestade Imperial e de Sua Majestade a Imperatriz.

Esta cidade, senhor, que foi berço da monarchia portugueza e deu o nome a Portugal, é também aquella que por inexcedíveis sacrifícios concorreu mais directamente para firmar em sólidas bases a dynastia constitucional portugueza, fundada pelo immortal outorgador da Carta, o senhor D. Pedro IV de Portugal; fiel depositaria do magnânimo coração do chorado libertador da pátria, saúda com enthusiasmo o augusto filho do rei soldado, prestando assim um justo tributo de gratidão á sua memoria, e um testemunho da mais profunda sympathia pela augusta pessoa de Vossa Majestade Imperial, que sabe grangear a admiração do mundo pela illustraçào do seu governo, que tem levado o florescente império do Brasil ao grau de prosperidade em que se acha. Não foi pois uma simples e vã curiosidade a que agrupou uma multidão numerosa em volta de Vossa Majestade Imperial no acto da sua entrada dentro dos muros d'esta invicta cidade, theatro da maior gloria do augusto pae de Vossa Majestade Imperial; foi a demonstração expressiva do afecto, que os portuenses, a quem magnânimo heroe chamou companheiros e amigos, tributam à sua augusta progenie, e ao Brasil, cujo povo está ligado à nação portugueza pelos laços da mais intima confraternidade. A camara, pois, fiel interprete doa sentimentos do povo portuense, extremamente lisongeada pela distincção que aprouve a Vossa Majestade Imperial conceder-lhe, roga a Vossa Majestade Imperial se digne acceitar benevolamente as expressões do maior acatamento e respeito, que a camara e o povo d'este municipio testemunham a Vossa Majestade Imperial e a Sua Majestade a Imperatriz, e os votos que fazemos ao Todo Poderoso pela prolongação da preciosa vida de V. Majestades Imperiaes e de toda a imperial familia.

Porto, 1 de março de 1872.”

“Finalmente uma das pessoas, a quem o Imperador fallou e dirigiu expressões que merecem ficar archivadas, foi o sr. commendador Manuel Joaquim Fernandes Thomaz, muito digno secretario da universidade de Coimbra, e filho de Manuel Fernandes Thomaz, um dos gloriosos revolucionários de 1820, e que deixou de si honrada memoria, tão bem imitada e seguida pelos seus filhos. O sr. Fernandes Thomaz procurara o Imperador no hotel do Louvre, pouco depois da sua chegada ao Porto, com o fim de saber se Sua Majestade assistiria à ceremonia do capello na universidade, e nessa occasião o soberano perguntou-lhe se era filho de Manuel Fernandes Thomaz, e accrescentou que este nome não podia deixar de ser pronunciado com respeito por quem conhecesse os factos da nossa historia moderna. Deste modo honrava a memoria d'um dos mais notáveis heroes do partido liberal portuguez, que naquella mesma cidade fez parte do synedrio, que preparou e dirigiu a patriótica revolução de 24 de Agosto de 1820.”

(Não resisto a assinalar que tenho no meu nome Fernandes Tomaz, por ascendência materna!)

“Finalmente Sua Majestade, que tanta predilecção consagra aos bons livros e a quantos os cultivam, não podia deixar de receber bem, como mereciam, os srs. Chardron e Bartholomeu H. de Moraes, editores do grande diccionario de frei Domingos Vieira, os quaes sollicitaram permissão para lhe dedicarem esta obra, depositando nas suas mãos uma elegante pasta com a collecção já publicada, favores, que o monarcha acceitou gostoso, exprimindo-se em termos muito lisongeiros a respeito da empresa, que reputava muito útil á litteratura. Este diccionario intitula-se Grande Diccionario Portuguez ou thesouro da língua portugueza. Foi redigido no seu primeiro volume pelo sr. dr. Theophilo Braga, continuando a mesma tarefa nos seguintes o douto philologo, o sr. Francisco Adolpho Coelho.

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…”Duas horas se demorou o soberano com as pessoas que o procuraram, as quaes recebia com a mais natural affabilidade sem dependência de apresentação.

A cidade conservou durante todo o dia aspecto de gala. A fachada dos paços do concelho estava embandeirada, revestida de damascos, bem como todas as ruas por onde o cortejo passou de manhã. As repartições publicas não se abriram; o povo circulava pelas ruas, admirando os embellezamentos, e estacionava nos largos. A praça de D. Pedro parecia um arraial.

Theatro

Terminada a recepção, dirigiram-se Suas Majestades ao theatro Baquet perto das nove horas. Foram recebidos á entrada pelo empresário, o sr. António Moutinho de Sousa, e pelos srs. Manuel Alberto da Guerra Leal e António Teixeira d'Assis, formando em alas no átrio os porta-machados de infantaria 18, fardados de grande uniforme. Apenas entraram no camarote, contíguo ao palco, do lado direito, os espectadores ergueram-se e a orchestra tocou o hymno brasileiro.A Imperatriz trajava com extrema simplicidade, vestido afogado de faille de xadrez preto e branco. Pendiam- lhe das orelhas brincos de riquíssimos brilhantes. o espectáculo constou da comedia «O caminho da porta» do escriptor brasileiro, o sr. Machado de Assis, e “os médicos», demorando-se os monarchas até ao fím. Foram visitados por algumas pessoas no camarote, e o Imperador desceu à rua num intervallo para ver as illuminações.

À sahida foram victoriados pela grande multidão que os esperava na rua.”…

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Theatro Baquet «Desenho de Nogueira da Silva»,«Archivo Pittoresco», 6, 1863, p. 257

(CONTINUA NO DIA 2 DA VISITA DE D. PEDRO II AO PORTO)

4 comentários:

  1. José A Araújo (jaap129@gmail.com)8 de janeiro de 2011 às 13:14

    Exmo. Senhor:

    Parabéns por esta ríquissima súmula ilustrada sobre a cidade da Virgem!

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  2. Um fato sobre o nobre imperador brasileiro que eu não sabia. Viva o Império do Brasil.

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  3. simplesmente magnífico.Muitos parabéns ao autor. Elementos riquíssimos, desta cidade que muito gostámos.
    Fernando Castro freitas

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