Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Porto onde eu nasci e cresci…(2)

“São múltiplas as faces da cidade. Matinal ou nocturna, para a conhecer é indispensável descobrir todos os seus disfarces. Quem dela se abeira em busca do rosto único e imutável, busca a simplicidade, que é engano, a evidência no que é íntimo, misterioso, oculto. Diversa e contraditória aos olhos que a percorrem com amor, nisso reside a sua maior grandeza e a sua força. Exterior à cidade nunca a compreenderás nunca. É preciso esquecer, é preciso aceitá - la. Como um menino aceita o seio da sua mãe. É preciso que lhe dês um amor novo - um amor feito de conhecimento e de dádiva. É preciso que as tuas veias sejam as veias da cidade – e o mesmo sangue rubro, vivo, corra cantando nos teus músculos mortais e aflore de sonho as pedras da cidade. É preciso afinal, que faças parte da cidade.” Daniel Filipe (1925 – 1964) discurso sobre a cidade no Século Ilustrado, entre Dezembro de 1956 e Setembro de 1957
Nota - Daniel Damásio Ascensão Filipe (1925- 1964) Poeta, foi colaborador nas revistas Seara Nova e Távola Redonda, entre outras publicações literárias. Combateu a ditadura salazarista, sendo perseguido e torturado pela PIDE. Co-director dos cadernos “Notícias do Bloqueio”, colaborou também assiduamente na revista “Távola Redonda” e realizou, na Emissora Nacional, o programa literário “Voz do Império”. Daniel Filipe iniciou a sua actividade literária em 1946 com Missiva, seguindo-se Marinheiro em Terra (1949), O Viageiro Solitário (1951), Recado para a Amiga Distante (1956), A Ilha e a Solidão (1957) – Prémio Camilo Pessanha; o romance O Manuscrito na Garrafa (1960), A Invenção do Amor (1961) e Pátria, Lugar de Exílio (1963). Teve papel preponderante na vida cultural do Porto.
O Porto e o seu território
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Porto e arredores cerca de 1950
op24
Porto e arredores na actualidade
No final da segunda guerra a cidade do Porto domina todo um vasto território, onde os concelhos limítrofes, na sua grande parte pouco populosos e edificados com um desenvolvimento dependente do Porto, e das suas acessibilidades, ferroviárias, navais e rodoviárias. A norte destacam-se dois empreendimentos em construção desde os anos 30 e 40: a doca n.º1 do porto de Leixões e o aeroporto de Pedras Rubras.
O engenheiro Antão de Almeida Garrett (1896-1961) que tinha tido um papel relevante nas relações da Câmara Municipal do Porto com os arquitectos Marcello Piacentini (1881 — 1960) e Giovanni Muzio (1893-1982), e por isso tinha acompanhado e colaborado nos estudos então realizados por esses técnicos, é encarregado em 1945 de elaborar o Anteplano Regional do Porto. Entregue em Dezembro de 1946 é aprovado ministerialmente em Julho de 1950. Esse Anteplano irá ter continuidade no Ante Plano de Urbanização e no Plano Regulador do Porto, que Almeida Garrett irá elaborar entre 1947 e 1952. Será aprovado em 1954.
O Plano Regulador da Cidade do Porto
Que iremos explicitando ao longo do texto depois de um diagnóstico apresenta como principais propostas, resumidamente:
1. Comunicações
a) Comunicações rodoviárias

b) Comunicações ferroviárias
c) Comunicações aéreas
d) Comunicações fluviais e marítimas
e) Transportes colectivos
op121
2. Zonamento
Consideração de quatro tipos de zonas:
a) residenciais:
· estritamente residenciais,
· residenciais,
· residenciais e de indústria;
b) especiais:
· comerciais,
· industriais,
· ferroviárias,
· portuárias,
· praias,
· determinados edifícios públicos,
· zona Histórico-Arqueológico-Turística;
b) verdes;
As zonas verdes são constituídas por cinturas de jardins e parques envolventes aos conjuntos populacionais.
d) rurais
op120
3. Organização
a organização da Cidade faz-se com base em três escalões "naturais":
a) vizinhança
b) bairro

c) unidade residencial d) unidade urbana
e) unidade rural
Almeida Garrett propõe uma nova divisão administrativa da cidade.
op140
4. Zona Central
5. Regulamento
Perante a necessidade, sobretudo económica, de uma maior mobilidade regional, estes planos são marcado pela preocupação de, acrescentando à rede ferroviária e aos transportes navais, definir a componente rodoviária traçando e hierarquizando as vias de e para o Porto, num momento em que o transporte motorizado, público e privado, de passageiros e de mercadorias está em franca expansão.
op30
op31
Como a situação dos concelhos limítrofes do Porto (de que nos voltaremos a ocupar na segunda parte deste texto) se apresenta de uma forma diversa, diferentes são as propostas e as prioridades desta rede rodoviária.
A sul, em Vila Nova de Gaia tem particular importância as actividades da sua zona ribeirinha, onde se situam as caves do vinho do Porto (um factor de prestígio e ainda da economia do Porto), mas é sobretudo ao longo do canal que constitui a Avenida da República, que a partir da ponte Luís I articula com a principal estrada de ligação do Porto com Lisboa a n.º 1, que a povoação se vai urbanizando e edificando.
“Pelo sul, a estrada de Lisboa, a E. N. 1, preconizou um novo traçado a partir de Santo Ovídio, ao topo da Avenida da República. Está realizado em parte e está no programa dos grandes trabalhos da J. A. E.
Porque a ponte rodoviária de Luís I é insuficiente e precisa de beneficiação, pensou-se no alargamento dos seus tabuleiros, ope­ração muito dispendiosa e que obriga a reflectir. Porque conduz todo o movimento ao centro mais comercial e de negócios da cidade, de intenso movimento local, julgou-se mais conveniente que se aproveitasse a circunstância de ser necessária uma nova ponte ferroviária no lugar da de D. Maria II (sic), para a fazer também rodoviária e desviar para ela o trânsito que se destina a leste, por uma nova via que contorne Gaia, a partir do nó em frente ao edifício dos seus Paços do Concelho.” (A. Garrett)
Ao longo da n.º1 vão instalando-se indústrias em diversos núcleos populacionais pertencentes aos concelhos de Feira, S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis, e Albergaria.
Ainda para sul, ao longo da estrada marginal para Aveiro (E.N. 1-15) que liga o Porto a sul para Espinho, Ovar e Aveiro. existem e criam-se indústrias beneficiando da linha do Norte do Caminho de Ferro, cujas mercadorias e matérias primas vão também progressivamente sendo substituídos pelo transporte rodoviário. Estas vias ferroviárias e rodoviárias dão ainda acesso às praias de Miramar, Aguda, Apúlia, Granja, Espinho, Esmoriz, Cortegaça, Ovar e Furadouro.
“À estrada de Espinho a Valadares, a E. N. 1-15, previu-se o alargamento do seu perfil transversal, já em execução, e o prolon­gamento até ao alto da Afurada para a nova ponte a construir daí à Arrábida na região do Campo Alegre.”
A estrada para Guimarães (E.N.105) com saída pela rua Costa Cabral dá acesso a Gondomar onde se desenvolve pela proximidade com o Porto o lugar de Ermezinde, local de habitação de muitos operários que quotidianamente vem trabalhar no Porto e ainda a instalação de algumas indústrias.
Ainda em Gondomar desenvolve-se o lugar de S. Pedro da Cova, onde estão instaladas minas de carvão, que ainda é um factor importante da energia da cidade.
A estrada para Penafiel (E.N.15) com saída pela rua de S. Roque da Lameira, dá acesso a Rio Tinto e a Valongo, conhecido pela produção da lousa, material utilizado na construção civil e em equipamento escolar.
“A marginal de Entre-os-Rios, já com a ponte do Sousa, será uma realidade dentro de poucos anos e permitirá canalizar à cidade e ao tabuleiro inferior da ponte de Luís I todo o trânsito das mar­gens do Douro, que se vê obrigado a procurar as estradas do Marco e de Penafiel.”
A estrada nacional (E.N.13) que liga o Porto a Viana, com saída pela rua dos Monte dos Burgos, dá acesso a Vila do Conde, Póvoa de Varzim, e Esposende, procurados locais de veraneio, e de industrialização.
A estrada Porto Braga (E.N.14), com saída pelo Amial, dá acesso a Maia, um concelho rural e agrícola, e apenas a criação do aeroporto de Pedras Rubras, a santo Tirso e ao vale do Ave onde se desenvolve a indústria têxtil.
“Às duas estradas, de Viana (E. N. 13) e de Braga (E. N. 14), que entram na cidade respectivamente pelas ruas do Monte dos Burgos e do Amial, cria ramais, a norte da Ponte de Moreira e do lugar de Barreiros, que se juntam numa só artéria no lugar da Quinta do Chantre para vir até à cidade onde penetra junto da Telheira dirigindo-se a Salgueiros, próximo da Lapa. É esta artéria designada por «Via Norte».
O Aeroporto de Pedras Rubras
O aeroporto construído ao longo dos anos 40 como aeródromo relvado e concluído como aeroporto em 1945, é da iniciativa e responsabilidade da Câmara do Porto em colaboração com o Estado, como se vê neste texto de 1941:
“É importante a tarefa de elaboração, já feita, do projecto do Aeródromo da Cidade a construir em Pedras Rubras em colaboração com o Estado. Esse projecto tem dado margem à consideração de problemas que ainda não tinham sido postos no país como o do arrelvamento de grandes superfícies, o qual está em via de ponderada e satisfatória resolução, mercê da cooperação de técnicos especializados da Estação Agronómica Nacional. Concluiu-se, no prazo previsto, o projecto da primeira fase dos trabalhos — Terraplanagens — os quais, dado o facto de já se ter completado a desarborização do terreno, já estariam em execução se as actuais circunstâncias internacionais não aconselhassem, a vários títulos a execução desses trabalhos por processos não mecânicos. Houve, por isso, necessidade de remodelar completamente aquele projecto para aproveitamento da mão de obra local e, verifica-se, que o novo processo de construção — que por razões especiais não foi encarado na realização do aeroporto da Portela de Sacavém—se revelou mais económico do que o anteriormente previsto(…) Tais trabalhos tornaram indispensável a construção de um pavilhão de madeira em Pedras Rubras no qual se instalarão os serviços de direcção e fiscalização das obras, com o respectivo laboratório de ensaios do solo. Também se efectuou o estudo da estrada de acesso ao aeródromo, em ligação com as grandes artérias de penetração na Cidade estudadas pelo Gabinete de Estudo do Plano Geral de Urbanização e iniciou-se o estudo dos edifícios a construir em primeira fase estando concluído o ante – projecto.A primeira parte dos trabalhos, incluindo a drenagem dos campos poderá iniciar-se no começo do próximo ano de 1942.” Relatório de Gerência da CMP 1941
Em 1945 é inaugurado o Aeroporto de Pedras Rubras.
Almeida Garrett que no Plano Regulador propõe a Via Norte, refere a articulação do aeroporto de Pedras Rubras com a cidade do Porto e considera ainda o aeroporto de Espinho, como uma alternativa de comunicações aéreas.
“Comunicações por ar
As comunicações por ar, fazem-se com o aeroporto de Pedras Rubras, muito brevemente mais directamente ligado à cidade por uma estrada do campo à Via Norte e que o colocará a 10 minutos de trajecto de automóvel.
Uma ligação mais; directa da estrada militar da Carreira de Tiro para Silvalde, dará o acesso conveniente do aeroporto de Espi­nho às estradas que conduzem à cidade.”

op8
Pavilhão provisório de trabalho no Aeródromo do Porto em Pedras Rubras 1941
op7
Cercados para ensaios de arrelvamento no novo Aeródromo 1941
op9
Finalmente o concelho de Matosinhos é a excepção, quer porque nos anos entre as guerras o Estado Novo investiu na construção da doca n.º 1 do porto de Leixões tornando-o verdadeiramente um porto comercial e esvaziando progressivamente o porto fluvial, quer pelo desenvolvimento das pescas e sobretudo da indústria conserveira cujos produtos são muito procurados durante a guerra, tanto no mercado interno como no externo. Matosinhos beneficia ainda, das suas praias, tradicionalmente procuradas pela facilidade de transportes, pela população do Porto.
A ligação com o porto de Leixões desde os finais do século XIX constitui uma preocupação da cidade do Porto, já que todos os interesses comerciais e a Alfândega estão situados na zona ribeirinha do Douro. À ideia dessa ligação ferroviária e até por canal, somou-se nos anos 30 a preocupação com uma ligação rodoviária.
Será planeada por A. Almeida Garrett:
“A ligação Porto-Leixões passa a fazer-se pela Via Rápida, artéria directa da Boavista ao porto de mar e que substituirá com vantagem os acanhados caminhos de Francos ou da Vilarinha e o percurso extenso e em região urbana da Avenida da Boavista.”

O porto de Leixões
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António Cruz - Construção da Doca n.º 1, 1936 Aguarela 37x26 cm. Col.particular
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Júlio Resende Porto de Leixões 1944
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Foto Beleza – O porto de Leixões c. 1950
Fruto de este desenvolvimento do concelho em Matosinhos está também em construção o Mercado, segundo um projecto de antes da guerra da A.R.S. (Fortunato Cabral 1903-1978, Fernando Leão 1909-? e Mário Morais Soares 1908-1975), tirando partido das possibilidades estruturais e estéticas do betão armado.
op174
op25
op26



A Cidade do Porto
op1
Mancha edificada em 1948
População
Na década de 50 o Porto ultrapassa os 300 000 habitantes, sendo que as freguesias de Paranhos, Campanhã, Ramalde e Lordelo serão as de maior crescimento acentuando a expansão para norte da zona central da cidade.
op2
Freguesias1930194019501960
Aldoar 1 8741 7492 8356 050
Bonfim 38 41841 26042 50142 105
Campanhã 23 62125 97235 47540 035
Cedofeita 36 52041 83542 79640 196
Foz do Douro 8 0888 4919 89010 891
Lordelo 8 6009 44010 26015 539
Massarelos 9 20111 14811 22212 252
Nevogilde 2 4852 4194 2295 290
Paranhos 25 85334 49837 50744 986
Ramalde 12 30613 80819 15021 064
Miragaia 7 1307 5198 6208 316
S. Nicolau 6 3477 8817 6857 825
St. Ildefonso 24 48325 58125 42626 219
16 68916 87615 82714 651
Vitória 8 1799 5787 7178 001
Total 229 794258 548281 406303 424
O Hospital de S. João
Dentro dos limites administrativos do Porto, estão ainda em construção ou apenas planeados e/ou projectados, alguns edifícios do Estado, responsáveis pelo planeamento dos anos 30 e 40. Entre eles o mais significativo pela sua dimensão social e arquitectónica é o Hospital Escolar.

O Hospital Escolar de S. João foi projectado por Hermann Distel nos finais dos anos 30 como o seu “irmão gémeo” o Hospital de Santa Maria em Lisboa. Depois de um conjunto de hesitações em torno da sua localização e da sua articulação com a cidade, que se reflecte nos estudos feitos por G. Muzzio e pela CMP, a sua construção atravessa os anos 40 e 50:

(…)“o novo Hospital Escolar da Cidade, cujo projecto já está aprovado e cuja construção vai em breve ser iniciada.”Almeida Garrett, carta para o arquitecto Giovanni Muzio Outubro 1940
Será inaugurado em 1959.
op17
Hermann Distel – projecto de um hospital escolar na Cidade Universitária 1941/42
op13
Foto de “15 Anos de Obras Públicas “ MOP 1948
op10
op11
Fotos DGEMN
A Construção do Hospital de S. João irá obrigar ao planeamento da sua área envolvente. Retomaremos a urbanização e edificação da zona nordeste da cidade.
“(…) uma artéria que virá penetrar na cidade no lugar da Areosa pela Avenida de Fernão de Magalhães que será prolongada até à Circunvalação,…” Plano Regulador
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Arménio Losa - Plano Parcial de Urbanização na Areosa 1944
A Área Central
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A Baixa na planta de 1948 A - Cordoaria B – Avenida dos Aliados C - Batalha
Esta Zona Central é (…) o centro comercial e cívico da cidade, onde se concentram as actividades mercantis, os teatros e cinemas, os cafés, os escritórios, etc. Exerce, por tudo isto, um comando que se estende ainda para além das fronteiras muni­cipais,
É neste anel da Zona Central que se consideram terminadas as grandes penetrações, devendo o trânsito tomar uma outra feição, mais lenta, para a eficiência das actividades e maior segurança dos circulantes.
(…) Destina-se a zona central ao comércio, escritório, repartições, cafés, teatros, cinemas, etc., actividades que põem na rua um movi­mento intenso, sobretudo a certas horas do dia e da noite.
O barulho inevitável faz excluir destas áreas a habitação que quer sossego e acessos seguros e calmos.
Sendo mais rica a ocupação pelo comércio do que pela habi­tação, ele se encarrega de afastar a moradia. Por enquanto, porém, há ainda muita casa de residência na zona comercial e em alguns prédios novos as moradias ocupam os andares superiores, menos procurados pelo comércio pelo afastamento da via pública.
Por outro lado, a evolução da ocupação comercial foi encon­trar encastradas, por entre as casas de moradia, muitas oficinas e algumas fábricas que não têm conseguido afastar. Resultou assim uma diferenciação de ocupação que é já uma espécie de zonamento, embora natural.
E precisamente porque ele resulta de circunstâncias muito topográficas —. o avanço do comércio procurou a mais fácil pene­tração pelo vale que partia da Ribeira à Avenida dos Aliados e Rua de Sá da Bandeira e parou nos altos de Carlos Alberto e da Batalha, a um e outro lado — não vemos inconveniente de maior em consentir que esse estado se prolongue desde que existe de facto e não é naturalmente transformável.
Essa transigência representa uma tolerância e, por isso as indús­trias que se encontram na zona comercial central e na zona resi­dencial central devem delas sair, embora a longo prazo; já na zona mista de residência e indústria é permitida a permanência das fábri­cas existentes e a sua beneficiação dentro de certos condiciona­mentos quanto à estética e aos incómodos, fazendo-as assim integrar no ambiente cuidado que deve constituir o centro citadino.
(…) considerou-se uma Zona Central com toda a extensão do território abrangido pelo Anel da Zona Central e a penetração baixa da Ribeira à Praça de Almeida Garrett, da Rua de Mouzinho à Rua do Comércio do Porto, e onde se con­centram quase todas as actividades comerciais, de negócios e de administração; e um certo número de Zonas Comerciais locais constituídas por cruzamentos e troços de ruas onde já há muitos estabelecimentos e se julgaram locais apropriados a se desenvol­verem — embora com melhor organização do que a actual.
Na Zona Central, destinada a continuar a ser o grande centro comercial e cívico da cidade, ainda se admitiram duas tolerâncias, baseadas no existente, por topogràficamente ficarem desviadas das grandes correntes do trânsito — e por se julgar não serem essas áreas necessárias à expansão do núcleo fundamental: uma residen­cial a norte da Rua de Miguel Bombarda e uma mista de residência e indústria a leste da Rua da Alegria.

Praça e Avenida dos Aliados

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Dordio Gomes, Avenida dos Aliados (Porto), óleo sobre tela, 1944. Colecção de Arte Millennium/BCP.
Em torno da Praça da Liberdade e da Avenida dos Aliados, concentram-se todas as principais actividades: os Bancos e Companhias de Seguros, os Teatros e os Cinemas, os Jornais, os escritórios das empresas e das profissões liberais, os cafés e, sobretudo, todos os principais estabelecimentos comerciais.
O Centro funciona ainda, como ponto de concentração dos transportes ferroviários com a Estação de S. Bento e a Estação da Trindade.
op65
Foto Beleza
op141
Postal com pintura de Júlio Resende 75º aniversário da chegada do comboio ao Porto
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Ponto ainda de concentração dos transportes públicos, eléctricos e os primeiros autocarros. As principais "praças" de táxis também aqui se localizam.
Em 1946 pelo decreto n.º 35.717 de 24 de Junho, é criado o S. T. C. P. (Serviço de Transportes Colectivos do Porto). Os eléctricos, mantendo ainda a supremacia do transporte público na cidade, vão progressivamente sendo substituídos pelos autocarros (introduzido em 1948) e, posteriormente, pelos trolleys (que aparecem em 1959).
p2
A grande utilização do eléctrico.
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A evolução dos eléctricos antes e depois da 2ª guerra.
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Carro eléctrico tipo STCP 28 construído em 1946, como já tinha portas não permitia o “exercíco de saltar em andamento”.
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O célebre 500 o último construído pelos STCP em 1951. Tinha portas comandadas pelo guarda-freio e lugar sentado para o cobrador.
Fotos de “O Porto, origens, evolução e transportes” de Guido de Monterey edição do autor, Porto 1972
“Convém que se termine a Avenida dos Aliados para acabar com inestéticos tapumes e completar o quadro das edificações.” Plano Regulador do Porto
Nos anos que sucedem à 2ª Guerra Mundial, a praça da Liberdade e a Avenida dos Aliados consolidam-se como o centro da cidade. O edifício dos Paços do Concelho está em construção e será inaugurado em 1959.Constroem-se a norte os edifícios de remate: do lado poente o edifício “Garantia” e o edifício “Capitólio” e do lado nascente o edifício da Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe e inicia-se a construção do Palácio dos Correios.
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foto Beleza/Mário Ferreira - A praça da Liberdade e a Avenida dos Aliados no final da 2ª Guerra
O edifício dos Paços do Concelho
A Câmara Municipal instalada no Paço Episcopal é presidida entre 1945 e 1949 por Luís José de Pina Guimarães (1901-1972), professor catedrático da faculdade de Medicina do Porto e que tinha já sido vogal na Comissão Administrativa da Câmara Municipal do Porto entre1935 e 37 e vice-Presidente do Conselho Regional da Ordem dos Médicos (1942-44). Sucede-lhe Lucínio Gonçalves Presa de 1949 a 1953 e entre esta data e 1962 o engenheiro José Albino Machado Vaz, que se destaca pela sua acção no campo da habitação social e da rede eléctrica da cidade.
O edifício dos Paços do Concelho, projectado por António Correia da Silva sendo a primeira pedra foi colocada em 1919 apenas será inaugurado em 1957.
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Antes da guerra chega a propor-se a demolição do edifício. No entanto embora sem convicção o projecto é remodelado por Carlos Ramos por encomenda do Presidente da Câmara o Coronel Licínio de Azevedo que escreve na Civitas de 1952: “Encimando o centro cívico da Cidade, a Cidade não compreendia aquela mole imensa, levantada por um gosto em que não encontrava quaisquer afinidades a não ser o duro granito das suas paredes” (in Nonell Anni Günther, Avenida dos Aliados, Porto 1901-2001 Guia da Arquitectura Moderna,Porto 2001).
Carlos Ramos irá no exterior adequar a entrada principal substituindo a escadaria por uma rampa de dois braços simétricos, permitindo a acessibilidade do automóvel, e no interior adaptar o edifício aos serviços da CMP.
No seu interior irão trabalhar diversos artistas plásticos sendo de salientar as tapeçarias de Guilherme Camarinha
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Tapeçaria de Guilherme Camarinha na sala da Assembleia Municipal do Porto
Os edifícios de remate a norte da avenida
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O edifício Garantia 1946 Júlio Brito
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O edifício Capitólio arquitecto Carlos Neves
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O edifício da Companhia Fiação e Tecidos de Fafe 1948 Júlio Brito
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Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe 1948 Júlio Brito
Carlos Ramos (1897 – 1969)
Diplomado pela EBAL em 1920. Convidado em 1940 para Professor da EBAP. Com Dordio Gomes na Pintura e Barata Feyo na Escultura estruturam a Escola de belas Artes do Porto. Eleito em 1950 Presidente da Secção Portuguesa da UIA. Director da Escola de Belas Artes do Porto em 1952, cargo que manterá até 1967. No Porto é o arquitecto que termina o edifício dos Paços do Concelho, (pela desaparecimento de Correia da Silva), projecta o Palácio dos Correios, o plano para a zona do Castelo do Queijo
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Dordio Gomes Retrato de Carlos Ramos 1954 óleo sobre tela 70x91cm. Col. particular
Dordio GomesRetrato de Carlos Ramos 1959 Óleo sobre contraplacado 33x41 cm. Col.particular
Mas é sobretudo como professor e director da Escola de Belas Artes que como dinamizador e agente cultural na cidade que realiza o importante trabalho na formação e divulgação de novos arquitectos e artistas.
Logo no primeiro ano em que assume a direcção da escola, Carlos Ramos inicia um conjunto de exposições anuais as Exposições Magnas que irão mostrar a produção da Escola de Belas Artes de 1952 a 1969, e que constituirão acontecimento de grande projecção cultural na cidade e no país, de consagração de artistas e de lançamento de novos, num momento em que apenas se inicia um mercado de arte e abrem as primeiras e poucas galerias de arte.
Na I Magna, que na impossibilidade de reunir os trabalhos escolares, foi dedicada à obra do Mestre Barata Feyo, Carlos Ramos expõe os objectivos destas Exposições: uma “Exposição Magna” anual que, reunisse os trabalhos dos alunos mais classificados durante o ano lectivo anterior a par dos professores a quem compete o ensino daquelas especialidades, dando assim a conhecer a seu tempo e publicamente o produto das actividades profissionais e escolares de mestres e alunos. (Palavras Prévias , Carlos Ramos Outubro de 1952)
No ano seguinte na II Exposição Magna, dedicada ao trabalho dos alunos, Carlos Ramos concretiza o seu programa para a Escola: …” Ora solicitada a comparecer em competições internacionais, ora colaborando com entidades e organismos que dela confiadamente se acercaram, esta Escola julga ter assim cumprido larga e generosamente a sua missão essencial a que só faltava acrescentar esta demonstração. Nela se podem apreciar trabalhos ao sabor das mais variadas tendências que traduzem outras tantas predilecções, caminhos diferentes mas igualmente respeitáveis, apontados para um ideal vivido e sonhado.”

Na III Exposição Magna (Outubro de 1954) dedicada a Almeida Garrett (de que se comemora o Centenário da morte) aprofunda-se a ideia de uma Escola integrando as três “artes maiores”, colaborando com outras artes e instituições na intervenção na cidade, de que é exemplo “…o concurso aberto entre os alunos do Curso Superior de Arquitectura e tendo por tema “Joaninha de Olhos Verdes” – bailado a pôr em cena pela Escola Superior de Belas Artes e Conservatório de Música do Porto, em plena Avenida dos Aliados sobre a vasta plataforma em que assenta a estátua de Almeida Garrett, prestes a inaugurar-se…” (Catálogo da III Exposição Magna da Escola Superior de Belas Artes do Porto, Ministério da Educação Nacional, Direcção Geral do Ensino Superior e das Belas Artes, Outubro de 1954)
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O “Garrett” de Salvador Barata Feyo. Repare-se que ainda não existe o palácio dos Correios.
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(…) a vasta plataforma em que assenta a estátua de Almeida Garrett… Fernando Távora
Também num Relatório assinado pelo Director da EBAP se aprofundam os objectivos da Escola e do seu papel na cidade e no País, relatando exaustivamente todo um conjunto de actividades de professores e alunos, desde conferências, exposições, publicações, cursos livres, concursos nacionais e internacionais, e diversas intervenções dos alunos em espaços da cidade e arredores.(Ver FILGUEIRAS, Octávio Lixa – “A Escola do Porto (1940-1969)” no Catálogo da Exposição Carlos Ramos – Exposição retrospectiva da sua obra, FCG, Lisboa 1986).
Estas actividades irão ter reflexos na IV Magna (1955).
Na V Magna (1956) dá-se notícia do Inquérito à Arquitectura Popular, em que estão envolvidos diversos docentes da Escola, e são expostos a participação da delegação portuguesa no X CIAM em Dubrovnik (Trabalho de Octávio Filgueiras, Viana de Lima, Fernando Távora, Arnaldo Araújo, Carvalho Dias e Alberto Neves)…
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Grelha CIAM X – Dubrovnik – Realizada no tempo do Inquérito à Arquitectura Popular, mostra a influência “neo-realista” da procura das expressões do país real.
…e o projecto “ Mar Novo” vencedor do Concurso para o Monumento ao Infante D. Henrique em Sagres ( João Andersen, Barata Feyo, Júlio Resende). “Mar Novo” é o título de um livro de Sophia de Mello Breiner (irmã do arquitecto), publicado em 1956, como protesto à não realização do monumento.
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Projecto “ Mar Novo” vencedor do III Concurso para o Monumento ao Infante D. Henrique em Sagres1956
O Palácio dos Correios do Porto
Carlos Ramos
(…) A modificação da Praça do Município é praticamente impossível, pelos edifícios já existentes e por já estar em estudo adeantado o novo Palácio dos Correios que ficará como sabe, a nascente do edifício novo do Município.” Almeida Garrett, carta para o arquitecto Giovanni Muzio Outubro 1940
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Também projectado a partir dos finais dos anos 40 mas o projecto é revisto e o edifício construído a partir de 1952. Apenas será inaugurado nos anos 70.
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Detalhe de foto onde apenas existem as fundações do Palácio dos Correios
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Detalhe de foto com o Palácio dos Correios em construção
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A Feira do Livro
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A feira do livro na praça da Liberdade com os pavilhões em forma de livro.
A Feira do Livro que então se realiza na praça da Liberdade é um dos acontecimentos anuais, a que corresponde o aparecimento de um conjunto de escritores portuenses, de que se destacam na poesia Eugénio de Andrade que publica em 1945 “Pureza”Ilustrado com desenhos de Manuel Ribeiro de Pavia e onde o autor se apresenta ".... São essas poucas coisas que os meus versos oram e exaltam. A serra e a água, a luz e o vento... A pureza, de que tanto se tem falado a propósito da minha poesia, é simplesmente paixão, uma paixão pelas coisas da serra, na sua forma mais ardente e ainda não consumada..." e em 48 “As Mãos e os Frutos” .
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Na prosa surge Agustina Bessa Luís com “A Sibila” de 1954 e "A Muralha" de 1957.
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Ilse Losa (1913 - 2006), que em 1949 se estreia com O Mundo em Que Vivi e em 1955 publica Aqui Havia Uma Casa. Em 1955 publica-se a “História da Literatura Portuguesa” de Óscar Lopes e A J. Saraiva.
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Os Jornais
Dois dos principais jornais da cidade “O Comércio do Porto” e “O Jornal de Notícias” tem, desde antes da 2º guerra, as suas sedes na Avenida dos Aliados, sendo por isso factor de animação da Baixa, numa época em que os jornais eram elaborados pela noite dentro. Por vezes, notícias de última hora, durante o dia eram afixados manuscritos em placards nas sua portas.
O Comércio do Porto num edifício dos anos 30 de Rogério de Azevedo no lado poente da Avenida dos Aliados (hoje transformado em banco).
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O Jornal de Notícias num edifício beaux-arts de Marques da Silva no lado nascente da avenida (hoje pertence à Caixa Geral de Depósitos).
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Os cafés
(sobre os cafés da Praça e da Avenida ver Porto Desaparecido de marina Tavares dias e Mário morais marques Quimera 2002)
Num edifício de Almeida Júnior, concluído nos anos 40 na Praça da Liberdade instala-se o Café Imperial, projecto de Ernesto Korrodi (1889-1944) conhecido pelos seus vitrais alusivos ao ciclo do café e local de reunião de muitos intelectuais e artistas, sobretudo nas discretas, como convém politicamente, salas do interior.
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A águia imperial de Henrique Moreira na entrada do Café
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O ciclo do café - Vitrais de Riccardo Leone 1935
Riccardo Leone e a sua oficina efectuaram um conjunto notável de vitrais no Porto: Ourivesaria Marques 1926, na escadaria do Hotel Infante de Sagres de Rogério de Azevedo, em Lisboa na fachada da Papelaria Fernandes 1929, no Hotel Vitória de Cassiano Branco de 1936, “AS Colónias” segundo um desenho de Jorge Barradas no café Portugal de Cristino da Silva em 1938, os vitrais de Almada Negreiros para a Igreja de Nossa Senhora de Fátima de Pardal Monteiro em 1938, e ainda nas Termas do Luso de Pardal Monteiro em 1931. Mas a sua principal intervenção foi no restauro dos vitrais do Mosteiro da Batalha.
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O interior do café Imperial
Do outro lado da Praça da Liberdade e com uma frequência bem diversa as duas confeitarias: a Arcádia com projecto de José Ferreira Peneda (1938/47) e a Ateneia. Junto a esta a livraria Figueirinhas, tendo no piso superior do edifício a filial do Diário de Lisboa, num edifício de Júlio Brito.
No Passeio das Cardosas num estilo Art Déco com um belo efeito publicitário a Farmácia Vitália, projecto de 1932 de Manuel Marques e Amoroso Lopes. Na esquina da praça Almeida Garrett o café Astória (substituido por uma agência bancária em 1972)
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Ao longo da Avenida outros cafés: o Guarany aberto em 1933, com projecto de Rogério de Azevedo e baixo-relevos de Henrique Moreira do lado poente, o (novo) café Central, e o Suisso (encerrado em 1958).
A Praça D. João I 1940/50– ARS
Nos finais dos anos 30 faz-se a ligação da rua Passos Manuel à rua Magalhães Lemos e desta à Avenida dos Aliados.
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Na foto a rua Magalhães Lemos ainda sem continuidade para a rua Passos Manuel. À esquerda o Teatro Rivoli. Em frente situava-se nos anos 50 a confeitaria Primus, onde se reuniam muitos profissionais liberais, sobretudo advogados com os seus escritórios nas imediações.
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A rua Passos Manuel até à rua Sá da Bandeira ao fundo o teatro Rivoli (projecto de Júlio de Bde 1931)
Breve referência à música no Porto.
No Teatro Rivoli realizam-se os concertos do Círculo de Cultura Musical fundado em 1934. Aqui tocou Guilhermina Suggia, de que se comemoram os 125 anos do seu nascimento e que faleceu no Porto em 1950.
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GUILHERMINA SUGGIA, violoncelista.MALCOLM SARGENT, chefe de orquestra. ORQUESTRA SINFÓNICA NACIONAL. 1943
O programa deste concerto incluia o concerto para violoncelo e orquestra de Dvorak e parte do concerto para violoncelo e orquestra de Saint-Saëns.
http://suggia.weblog.com.pt/
O edifício Rialto Rogério de Azevedo (1898/1983)
Na conformação da futura praça de D. João I, Rogério de Azevedo irá projectar, entre 1940 e 44, o edifício Rialto, inaugurado depois da Guerra - que já distante da força expressionista e moderna de uma Garagem do Comércio do Porto, é ainda uma obra de concepção (sobretudo o 1º projecto) para a escala da cidade inovadora - o "arranha-céus", como então era designada .
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Primeiro projecto para o edifício
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Projecto final
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foto Beleza / M. Ferreira antes de 1957
O Café Rialto
O café Rialto, foi projectado por Artur Andrade (), em 1944, no edifício de Rogério de Azevedo (conhecido pelo “arranha céus” por ter 9 andares!). No piso térreo tinha um mural de Abel Salazar e na cave frescos de Dordio Gomes e Guilherme Camarinha. Na escadaria um painel cerâmico de António Duarte. É possivelmente ao Rialto que Daniel Filipe se refere no poema:

“Há no Porto um “café” onde se pensa. /Há no Porto um “café” onde se escreve./Há no Porto um “café” onde se discute./Há no Porto um “café” onde se é intelectual pelo preço acessível a qualquer bolsa, de “meia de leite” e “torrada bijou”...” Daniel Filipe – primus inter paris
E num outro texto "António Fernandes Pinto, vendedor por conta própria" refere expressamente, sem o nomear o Rialto: "Como qualquer pessoa, que se preza, também tenho o meu "café": um desses enormes "cafés" do Porto, com paredes de espelhos e a nota requintada de uns murais de Dordio, Camarinha e Abel Salazar. Fica no centro - o que é norma, aliás, numa cidade que persistentemente se recusa a ter vida para além dos limites da Baixa..."
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foto Beleza / M. Ferreira- detalhe do café Rialto
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Detalhe da Alegoria ao Café Abel Salazar
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Frescos de Abel Salazar no café Rialto 1947
Nele se reuniam advogados, engenheiros, médicos, arquitectos, artistas plásticos, actores,jornalistas e professores, etc., dada a proximidade do Ateneu Comercial e da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras, duas instituições de grande actividade cultural e política (de resistência ao regime).
O Teatro Experimental do Porto ( ver http://www.cct-tep.com/)
O Teatro Experimental do Porto em 1956 terá a sua sala, o Teatro de Algibeira, projectado pelo arquitecto o arquitecto Luís Praça (ou Mário Bonito ?), na travessa de Passos Manuel (hoje, Rua do Ateneu Comercial do Porto), em frente ao conhecido restaurante Abadia.
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O Círculo de Cultura Teatral - Teatro Experimental do Porto, fundado em 1950 mas iniciando a sua actividade em 1953 no Teatro Sá da Bandeira com três peças "A Nau Catrineta” do cancioneiro tradicional adaptada por Egipto Gonçalves, "Um pedido de casamento” de Anton Tchekov e "A Gota de Mel", de Léon Chancerel. Nele destacam-se António Pedro e os actores João Guedes e Dalila Rocha. Em 1957 com “A Promessa” de Bernardo Santareno, encenação de António Pedro e figurinos e cenários de Augusto Gomes, representada no Teatro Sá da Bandeira o Teatro Experimental do Porto torna-se conhecido pela polémica que a peça produziu e pela reacção da igreja e das camadas mais conservadores da sociedade e no próprio regime salazarista.
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Entre 1953 e 1961 ao TEP, como director, figurinista e sobretudo encenador, está associada a figura de António Pedro da Costa (1909—1966) encenador, escritor e artista plástico. Frequentou o Instituto Nuno Álvares, da Companhia de Jesus, em La Guardia, após o que ingressou na Universidade de Lisboa tendo frequentado a Faculdade de Direito e a Faculdade de Letras não concluindo nenhum dos cursos. Foi para Paris, onde chegou a estudar no Instituto de Arte e Arqueologia da Universidade de Sorbonne. Foi um dos fundadores do I movimento surrealista português em 1947 participando na I Exposição Surrealista. Entre 1944 e 1945, foi crítico de arte e cronista da BBC em Londres. Foi director do Teatro Apolo em Lisboa em 1949.
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António Pedro foto de Mário Novais FCG
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Dalila e Lima Couto nas “Guerras de Alecrim e de Mangerona” de António José da Silva, o Judeu, 1956
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1958 - João Guedes, Baptista Fernandes, Dalila Rocha, Alexandre Vieira e Vasco de Lima Couto em “A Morte de um Caixeiro Viajante” (1954) de Artur Miller.
Fotografia de Fernando Aroso
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João Guedes, Alda Rodrigues e Ruy Furtado em “O Morgado de Fafe Amoroso”, de Camilo Castelo Branco, com encenação de António Pedro (TEP 1958).
Fotografia de Fernando Aroso
Manoel de Oliveira o cineasta que no Porto já realizara em 1931, Douro, Faina Fluvial , documentário que nas suas próprias palavras foi estimulado pelo documentário de 1927 “Sinfonia de uma Cidade” de Walter Ruttmann (1887-1941), que nos anos 40 filma o “Aniki-Bobó”, filma em 1955 o Pintor e a Cidade sobre a arte de António Cruz.
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A praça D. João I ( cf. “A Praça D. João I e o "Palácio Atlântico" Porto : [s.n.], 1951 Tip. Progredior.)

No seguimento do plano de Barry Parker, da edificação da rua Rodrigues Sampaio, da construção do Rivoli e do prolongamento da rua de Passos Manuel, construído o edifício Rialto a Câmara Municipal do Porto aprova em 1944 o projecto para a praça de D. João I.
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As demolições para abrir a praça D. João I do lado norte
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Conformação do espaço da Praça – desenhos sobre o lado Norte.
A primeira o desenho da Praça em forma triangular (1934), enquanto que a segunda proposta remete para o desenho da Praça em 1940, quando o alinhamento do edificado oculta o enfiamento de Sampaio Bruno em direcção ao edifício da Câmara.
De notar que a Praça é um espaço ainda inclinado.
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Evolução da forma da praça D. João I
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Primeira proposta de desenho para o edifício do lado Norte, Agostinho Ricca (1940)
A partir de 1944, fixados os alinhamentos e definidas as cérceas é estabelecido um esquema municipal de desenho, destinado a servir de base à operação de venda dos terrenos.
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A zona na planta de 1948 e na planta de 1999
O projecto municipal caracterizava-se: por definir uma praça de nível (mediante a criação de um socalco artificial) para estacionamento de veículos; pela circulação principal de veículos ser tangente ao lado Sul da Praça, prevendo-se a Norte uma rua superior para o “movimento de giração” e acesso ao edifício; pela criação de um espaço sob o arruamento a Norte, para a instalação de edifícios comerciais; por se preverem, a Norte, de escadas de modo a ser possível vencer o desnível. O projecto chegou a contemplar a proposta para a construção de um parque no subsolo da Praça, contudo a proposta foi abandonada.
Deste projecto fazia também parte uma proposta de volumetria para o talhão a edificar do lado Norte da Praça.
O talhão de terreno a Norte, assim como os espaços comerciais sob o arruamento do mesmo lado serão vendidos, em hasta pública, à Sociedade “Edifícios Atlântico” que se interessou pelo empreendimento projectado.Esta sociedade era formada pela Empresa “Sacel” e pelo “Banco Português do Atlântico”.
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ARS - estudo para o edifício Palácio Atlântico colecção FAUP
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ARS – estudo para o edifício Palácio Atlântico
O projecto foi desenvolvido em extrema colaboração entre a Câmara e a Sociedade privada, o que permitiu “imprimir ao conjunto Edifício-Praça notável harmonia, pela unidade e imponência do aspecto”.
Do trabalho entre os técnicos municipais e os Arquitectos da Sociedade resultaram sucessivos melhoramentos e alterações aos primeiros projectos.
Entre 1946 e 1948, o grupo de arquitectos ARS irá rever o esquema municipal, estudando a melhor forma de articular a nova praça com o edifício a construir a Norte, e lançando o projecto definitivo que servirá de base à edificação.
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Este projecto procurava a articulação entre as exigências práticas/funcionais definidas no projecto municipal, com a procura de obtenção do máximo efeito estético do conjunto.
Neste sentido, em primeiro lugar, a Praça deixou de ser encarada como um espaço unicamente destinado ao estacionamento de veículos, estabelecendo-se, ao nível inferior, uma placa central e um passeio periférico, que tornava possível o trânsito pedonal e o acesso aos espaços comerciais inferiores.
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Em segundo lugar, procuraram-se diversas soluções para as concordâncias laterais da Praça: os varandins do arruamento superior foram encurvados, “de modo a diminuir-se à extensão dos ramos laterais da praceta interna”; os muretes limite das ruas de Sá da Bandeira e Bonjardim foram substituídos taludes ajardinados com escadarias nos pontos terminais e, mais tarde, estes deram lugar às amplas escadarias laterais, de dois lanços, com acessos para as ruas contíguas pelos extremos dos patamares.
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A galeria tem um tecto com mosaicos de Jorge Barradas.
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Os passeios foram adornados com motivos inspirados na simbologia de Avis e do Atlântico, enquanto que na placa central foi traçada a rosa dos ventos. Em 1966, a Câmara instalou no mesmo lugar uma fonte luminosa.
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Acompanhando as escadarias, ladeando a Praça e enquadrando o edifício fronteiro a Norte, foram criados dois pedestais para a colocação de duas figuras escultóricas. Inicialmente havia-se ponderado a colocação das imagens de D. João I e de D. Filipa de Lencastre. Estas estátuas nunca chegaram a ser instaladas. Segundo o arquitecto Vasco Morais Soares por interferência directa de Salazar. Não se sabe por D. João I ser tido como um rei “revolucionário”, já que Álvaro Cunhal escreveu sobre a crise de 1383-1385, ou por influência da estética imperial de Mussolini do palácio da EUR 42, com os seus dioscuros. Os pedestais mantiveram-se vazios até à colocação de “Os Corcéis”, estátuas em bronze da autoria de João Fragoso, em 1957. Perdeu-se assim a possibilidade de homenagear um rei de importância para a cidade (onde veio casar-se, mandando abrir a rua Formosa = rua dos ingleses= rua do Infante, e onde nasceu este seu filho, sem falar na importância do Porto na conquista de Ceuta).
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Dioscuro na EUR Roma
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O projecto previa a iluminação da Praça D. João I à custa de um único candeeiro localizado no seu centro.
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Local de circulação viária e pedonal e de comércio, a Praça D. João I, em 1968 era também animada pela instalação do self banco, elemento inovador, que permitia aos automobilistas realizarem algumas operações bancárias sem saírem dos seus carros.
Construído em concordância integral com a definição do espaço público, Palácio Atlântico e Praça são complementares: “sem este edifício a praça – circunscrita por construções de aspectos arquitectónicos vários – não passaria de um largo irregular e incaracterístico. Por outro lado, sem os desníveis da própria praça o edifício perderia a imponência de que se reveste.”
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O Banco Português do Atlântico muda as suas instalações para este edifício em 1951, data da sua inauguração.
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(CONTINUA)

12 comentários:

  1. parabens por esta viagens so tenhp pena que na cidade ainda nao exista urbanista com formação de urbanistas para a nossa querida cidade poder respirar de alivio.
    um Abraço
    Cândido Correia

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  2. Quanta informação preciosa por aqui se encontra! Não posso deixar de lhe prestar a minha mais sincera homenagem e admiração por este trabalho precioso e notável. Estando a fazer uma dissertação de mestrado sobre parques públicos do Porto, já por diversas vezes aqui vim "beber" informações e fotografias.
    Muito obrigado por este seu contributo!
    Cumprimentos,

    Sandra Bastos | arq. Paisagista

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  3. Parabéns pelo que me deu em imagens. Vi construir o Palácio Atlântico e o "arranha céus" onde estava o café Rialto (que saudades). Por esse tempo o Porto parecia avançar. Hoje, a noite caiu na cidade. Mas um dia voltaremos a ter sol.
    Armando Sousa

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  4. PARABÉNS!SOU DE PORTUGAL E MORO NO BRASIL.VI ESTE SITE POR ACASO,E AMEI MUITO...TENHO MUITA PENA DE TEREM TIRADO DA AV.DOS ALIADOS AQUELAS LINDAS FLORES.OUTUBRO DE 2011

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  5. Fantástico trabalho, parabéns...

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  6. A Fonte Luminosa na Praça D. Joao I foi oferecida pelo meu Avô, Alipio Antero fundador de A Confidente, á Cãmara Municipal do Porto, para aí ser colocada.
    Felicito-o por esta maravilhoa exposição!
    Melhores Cumprimentos
    Maria do Rosário Casanova Antero

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  7. Penso que a Fonte Luminosa está hoje no jardim da Praça do Marques de Pombal.

    Maria do Rosario Casanova Antero

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  8. Quando preciso de informação para as minhas fotos, venho beber nesta fonte.

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  9. Eu queria saber que construção existiu no local onde foi construído o Palácio dos Correios do Porto. Quando estava a fazer uma busca no Google, encontrei este blog, onde ainda não encontrei resposta para a minha ignorância, mas onde encontrei uma imensidão para descobrir. Uma maravilha!

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  10. Bom trabalho, sem dúvida.
    No que concerne à praça D. João I uma grande lacuna, não sei se propositada.
    Mesmo já passados muitos anos, mais de 70, a memória das pessoas não é assim tão curta.
    O edifício Norte da praça D. João I, Edifício Atlantico, ocupava inicialmente uma parte da actual área da praça e tapava uma das perspectivas mais curiosas da cidade do Porto.
    Trata-se da perspectiva que se pode observar sobre o edificio camarário, quando nos posicionamos no cruzamento da Rua de Passos Manuel com a Rua Sá da Bandeira; num primeiro plano, sobre o edifício da Associação de Escritores e Homens de Letras do Porto, e num segundo plano, sobre o edifício da Câmara Municipal.
    Valeu a atenção do Dr. José de Souza-Soares que, apercebendo-se da barbaridade que se iria cometer em termos urbanísticos (“um crime de lesa-arte” como considereou na altura), escreveu uma série de artigos no Jornal de Notícias a alertar para o sucedido.
    Lamentou identicas barbaridades cometidas anteriormente, como é o caso da construção do actual edifício do Instituto Abel Salazar, que amputou a perspectiva que se podia obter sobre edifício a corpo inteiro do Hospiutal de Santo António, um dos mais interessantes em termos arquitetóniocos da cidade do Porto.
    A troca de artigos de opinião entre o Dr. José de Souza-Soares e os técnicos da câmara, criou grande polémica, muitos Portuenses foram ao local constatar a situação, e foi reconhecido o erro.
    Embora os terrenos já estivessem, à data, expropriados, reformulou-se o projecto da praça e o edificio Atlatico recuou, e foi possiver garantir a perspectiva sobre o edificio camarário.
    Bons tempos esses em que ainda havia Homens de boa vontade, que desinteressadamente e orgulhosamente se empenhavam e batalhavam pela melhoria da qualidade da nossa cidade.
    Memórias que o tempo não apagou.

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  11. Muito obrigado pelo comentário e pelo contributo sobre a praça de D. João I.

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  12. Bom artigo. É pena não incluir as fontes da informação textual e das imagens. De resto, é de longe o compêndio mais completo sobre informação relativa à história da praça que se pode encontrar online.

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