Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O Porto onde nasci e cresci…(1)

Inicio aqui uma nova e longa etiqueta, sobre o Porto (e não só…) dividida em duas partes:

Uma primeira parte de 1944 a 1960 e uma segunda parte de 1960 a 1974.

A primeira parte inicia-se em 1944, ano em que nasci e que corresponde às alterações provocadas pelo final da II Guerra Mundial (1945) e prolonga-se até aos finais dos anos 50 e inícios dos anos 60. De facto no final dos anos 50 e no início dos anos 60 dão-se globalmente significativas alterações no plano internacional já que dez anos após o final da guerra mundial, pode considerar-se como realizada a política de recuperação e de reconstrução dos países (vencedores e vencidos) envolvidos no conflito e inicia-se, sob o impulso norte-americano o relançamento económico do capitalismo europeu e asiático.O Papa João XXIII, tenta dar uma abertura diferente à Igreja com o Concílio Vaticano II. O XX Congresso do PCUS em1956, após a morte de Estaline (1953) tenta uma abertura política com a política de "coexistência pacífica", desmentida com a invasão de Praga em 1958. A concorrência entre os países do Leste e do Oeste, desloca-se no campo tecnológico, para a "conquista do espaço", com o lançamento em 1957 do primeiro satélite artificial o Sputnik. A revolução de Fidel de Castro triunfa em Cuba (1958)o que irá, de certo modo, influenciar as primeiras tentativas de luta armada em Portugal.

Em Portugal à invenção do transistor (1947) e a difusão do rádio portátil sucede-se a criação da RTP e as emissões regulares de Televisão (1957). Em 1955 é criada a Fundação Calouste Gulbenkian, que realiza nesse ano a I Exposição de Artes Plásticas, bastante ecléctica nas correntes artísticas apresentadas.

As eleições da presidência da República de 1958, são marcadas pela candidatura do General Humberto Delgado.

O Bispo do Porto, D. António Ferreira, publica em Julho de 1958 uma "Carta Aberta, denunciando arbitrariedades do regime, o que lhe custará o exílio, vindo assim, dar força aos grupos católicos que então se vinham formando - os católicos "progressistas" - e que se manifestavam publicamente contra Salazar.

Portugal ingressa em 1959 na EFTA (Associação Europeia de Comércio Livre) e em 1960 no Fundo Monetário Internacional, e dá-se início ao II Plano de Fomento (1959-64)

No plano mais disciplinar do urbanismo e da arquitectura a realização das ideias formalizadas no Congresso de Arquitectura em 1948: a habitação social (plano de Melhoramentos 1956/66 no Porto e Plano dos Olivais em Lisboa), o Inquérito à Arquitectura Popular (1955/61) e a reforma do ensino de Belas Artes em 1957.

I parte

Para chegar ao Porto do final da guerra farei um enquadramento político e cultural de Portugal, para se perceber o ambiente que envolve nestes anos os que “fazem cidade”.

A situação nacional

Politicamente o período que se segue ao fim da Guerra de 1939/45, inicia-se com as alterações e adaptações que com a vitória dos Aliados, vão provocar e impor ao regime de Salazar.

De facto, o Estado Novo, perdida a dinâmica dos apoios externos que nos anos trinta e quarenta, com a ascensão de Mussolini e Hitler ao poder e com a vitória de Franco na Guerra Civil espanhola, lhe tinham prestado, tem de adaptar-se, apressadamente, às novas condições geopolíticas, quer europeias quer mundiais.

No plano externo, Salazar, também ministro dos Negócios Estrangeiros até 1947 (em 1936 Salazar é, simultaneamente, Presidente do Conselho, Ministro da Guerra, Ministro das Finanças e Ministro dos Negócios Estrangeiros; em 1940 entrega a pasta das Finanças a Costa Leite, em 1944 a da Guerra a Santos Costa e em 1947 a do Estrangeiro a Supico Pinto), vai negociar a permanência do seu regime, quer propondo a continuação de vantagens militares - sobretudo as bases atlânticas entretanto (e dificilmente) postas à disposição dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha nos finais da guerra - quer explorando habilmente o início da "guerra fria".

Transformando, oportuna e oportunistamente, o Ministério das Colónias em Ministério do Ultramar e as "colónias" em "províncias ultramarinas", para responder aos movimentos de emancipação, que por todo o lado e em consequência da guerra, se começam a manifestar, Salazar consegue ainda a entrada de Portugal para a NATO, como país fundador em 1949, e mais tarde, 1955, a entrada para a ONU (apesar de nove anos de espera após o pedido de admissão).

No plano interno, as vitórias dos aliados, as diversas Resistências aos regimes nazi e fascista, a criação ao longo do período da guerra de uma oposição interna cada vez mais organizada e actuante, onde o papel do Partido Comunista é determinante, irão reforçar esses movimentos de contestação ao regime, e numerosos são os que pensam que a ditadura e o ditador, não poderão sobreviver ao final do conflito.

Os anos que sucedem à derrota do fascismo e do nazismo, serão assim marcados por uma grande agitação social e política - greves, manifestações e mesmo conspirações - e Salazar será obrigado a dar uma aparência de abertura política, definindo o regime como "democracia orgânica" e prometendo eleições que seriam "tão livres como na livre Inglaterra".

A realidade será, contudo, bastante diferente, e quando a Oposição - que então se organiza no MUD (Movimento de Unidade Democrática) - concorre às eleições legislativas de 1945, ou quando pela primeira vez apresenta um candidato alternativo às presidenciais de 1949 (Norton de Matos), será vítima de uma feroz repressão e perseguição, com prisões, torturas e assassinatos, com o estabelecimento de uma censura total e, finalmente, com a expulsão da administração e do ensino - particularmente na Universidade - de todos os que fossem suspeitos de qualquer oposição ao regime.

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Comício da Oposição no Porto (campo do S.C.e Salgueiros) - campanha de Norton de Matos 1949

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Comício da Oposição - campanha de Norton de Matos 1949

Comício da Oposição - campanha de Norton de Matos 1949

Por isso, no final da década de quarenta o regime ir-se-á isolando no plano político e cultural, começando paralelamente a organização e afirmação das oposições, que para além dos sectores sempre hostis a Salazar - operariado, campesinato e burguesia liberal e republicana - irá agregando a quase totalidade dos intelectuais e dos artistas, e mesmo no final da década de cinquenta, de algumas personalidades e sectores militares, que se não eram um dos suportes do regime, com ele sempre haviam pactuado.

No plano económico, a importante centralização e concentração de capitais que se tinha operado a partir dos anos trinta e que levou á formação de importantes grupos financeiros - consolidados durante a guerra - conduz a uma evolução no sentido da fusão do capital bancário com o industrial, à constituição das sociedades anónimas, permitindo a criação de condições para uma nova fase de desenvolvimento capitalista em Portugal.

A própria II Guerra Mundial, com a venda de matérias-primas então tornadas estratégicas e produtos de alto preço, permitiram ao Estado a acumulação de novos capitais.

O aumento do depósito de particulares e a duplicação das reservas de ouro do Estado são índice dessas novas disponibilidades financeiras.

Com o apoio dos investimentos apoiados pelo Plano Marshall, estão criadas, no final da guerra as condições materiais para o regime - passado o período das "Obras Públicas" - se lançar na criação das bases infra-estruturais energéticas e dentro destas, da hidroeléctrica (que exigia vultuosos investimentos), e ainda para imprimir um novo ritmo ao processo de industrialização.

O neo realismo

Os anos 40 e a construção do empenhamento realista

"...filha de um tempo sem graça, de um tempo de desgraça, que podemos situar real e simbolicamente entre Guernica e Hiroxima." Eduardo Lourenço

A evolução da política americana com a eleição de Roosevelt (1936), a tradicional democracia da Inglaterra, a criação da Frente Popular em França (país de onde tradicionalmente Portugal continua a receber uma importante influência cultural), os avanços da Revolução Soviética e a Guerra Civil de Espanha, implicarão uma nova responsabilidade dos intelectuais e da cultura de esquerda, começando nestes anos a definir-se uma política e uma cultura de "engagement", que irá acentuar-se nas lutas anti-fascistas e anti-nazis, e que terá a sua plena afirmação no final da II Guerra.

Se em 1940 termina - significativamente - a publicação de a "Presença" (1927/1940), onde se haviam destacado, entre outros, José Régio João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro num posicionamento cultural, apesar de tudo, voltado para uma modernidade cada vez mais enraizada nas realidades nacionais;

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A Presença (1927/40) ou "a presença" em minúsculas como a partir do nº 4 se passou a intitular, revista de Coimbra, onde se distinguiram na produção e na crítica literária, José Régio (1901-1969), João Gaspar Simões (1903-1987) e Adolfo Casais Monteiro (1908-1973), que se ocuparam, também, da crítica e a divulgação da arte e do cinema. O principal artista gráfico, autor de muitas das suas capas era JULIO (Júlio Maria dos Reis Pereira (1902-1983) engenheiro, irmão de José Régio, frequentou a EBAP. Sob o pseudónimo de Saúl Dias publicou diversos livros de poesia.

e se, no mesmo ano, também deixa de ser publicado "O Diabo" (1934/40), nas páginas do qual, em 1939, Álvaro Cunhal (1913-2005) dava já notícia do "realismo socialista", então tornado cultura oficial na União Soviética, ao longo da década de quarenta - e numa clara postura antifascista e antinazi –vai-se desenvolver, no campo da literatura e das artes plásticas um movimento que terá, no final da guerra, um carácter de corrente formalizada e teorizada.

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Em 1942, inicia-se a publicação em Coimbra da revista "Vértice", desde início conotada com correntes realistas de inspiração marxista.

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Também, no campo literário, e tendo como antecedentes Aquilino Ribeiro (1883/1963), Ferreira de Castro (1898/1974) ou mesmo José Rodrigues Miguéis (1901/1980), e com o conhecimento que então se tem dos escritores brasileiros - Jorge Amado, Graciliano Ramos e mesmo Erico Veríssimo - norte americanos - Steinbeck, Hemingway, Dos Passos e Caldwell - e ainda a influência das obras de Gorky ou de Malraux, inicia-se em Portugal a publicação de um conjunto de romances, que pretendem descrever e intervir na realidade concreta nacional, na condição do seu operariado e, na reduzida dimensão deste, na condição do seu sector primário camponeses, pescadores e mineiros.

Em 1940, Alves Redol (1911-1969) publica "Gaibéus" que nas palavras do autor "não pretende ficar na literatura como obra de arte . Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso será o que os outros entenderem" e no ano seguinte "Marés",(com capa de ribeiro de Pavia) a que se segue "Fanga" de 1943; Manuel da Fonseca (1911-1993) publica em 1942 "Aldeia Nova" e no ano seguinte "Cerromaior"; Soeiro Pereira Gomes ( 1909-1949) em 1941 o romance "Esteiros" (com capa de Álvaro Cunhal) e Fernando Namora (1919-1989) em 1943, "Fogo na Noite Escura", bem como Carlos de Oliveira (1921-1981) o seu romance "Casa na Duna", para referir apenas os livros e autores mais influentes.

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Também na poesia se inicia o "Novo Cancioneiro", que revela os poetas Álvaro Feijó (1916-1941), Fernando Namora, João José Cochofel (1919 – 1982), Joaquim Namorado (1914-1986), Manuel da Fonseca, Mário Dionísio (1916-1993), Carlos de Oliveira (com Mãe Pobre de 1945) e Sidónio Muralha (1920-1982), que a partir dos anos quarenta irão elaborar uma poesia e uma linguagem da "resistência", ao regime salazarista e aos regimes nazi-fascistas.

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De igual modo no campo das artes plásticas, a partir de 1940, inicia-se um movimento de oposição às correntes oficiais e que do mesmo modo terá a sua expressão máxima no final da guerra.

É, por um lado, a tendência surrealista, animada por António Pedro (1909-1966) e Vespeira (Marcelino 1925-2002), com uma exposição realizada logo em 40, e por outro lado a acção de um conjunto de pintores que haviam já realizado as capas dos escritores como Júlio Pomar (1926), Ribeiro de Pavia (1907-1957) , AR.CO. (Rui Pimentel 1923- 1999), Vítor Palla (1922-2006) e F. Lanhas (1923),que expõe em 1943 no Porto, e no campo crítico a "descoberta" dos pintores mexicanos Orozco (1883 – 1949), Rivera (1896-1957) e Siqueiros (1896-1974) e do brasileiro Cândido Portinari (1903-1962) - cuja pintura “Café” esteve na Exposição do Mundo Português - e ainda, da obra dos pintores portugueses Abel Salazar (1889-1946) e Augusto Gomes (1910-1976).

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Cândido Portinari (1903-1962)“Café” 1935 óleo s/tela 130 x 195cm

Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

O neo realismo do pós guerra

(Nota – muitos dos elementos sobre o neorealismo nas artes plásticas são extraídos do blogue Alexandre Pomar http://alexandrepomar.typepad.com/)

Havia tempo para dirigir a pintura no sentido do inquérito, da descoberta sensível de um país, duma tradição, de um povo..." Ernesto de Sousa

"...postes de electricidade com isoladores brancos, em cacho, substituíram árvores a cuja sombra algumas gerações tinham dormido sestas; sem poiso e sossego, bandos de pássaros fugiram." Soeiro Pereira Gomes - Engrenagem

Este movimento neo-realista, gerado e fortalecido durante os anos da guerra, torna-se a partir de 1946, no campo literário e artístico, quase hegemónico.

Com uma clara conotação política, relacionada com os movimentos oposicionistas, onde o partido comunista tem uma discreta mas clara influência, os escritores, ensaístas, críticos e jornalistas de que se destacam entre tantos outros:

Alves Redol (1911/1969), Soeiro Pereira Gomes (1909/1949), Urbano Tavares Rodrigues (1923),Jorge de Sena (1919-1978), Eduardo Lourenço (1923), Óscar Lopes (1916), António Ramos de Almeida (1912/1961), Mário Dionísio (1916/1993) e Júlio Pomar (1926) procuraram teorizar e propagandear o programa político/estético do neo-realismo, agrupados em torno de publicações já existentes - a Seara Nova e a Vértice - ou criando outras como o Mundo Literário (1946/48) ou Horizonte (1946/47), e ainda utilizando os suplementos culturais dos jornais diários como no diário portuense A Tarde, onde durante 1945, Júlio Pomar dirige a página Arte.

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Vértice de 1959 com capa de Júlio Pomar

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Assim, no final da guerra, no campo do romance, da poesia e do ensaio - crítico, histórico, sociológico, etc. - quase todos os títulos publicados entre 1945 e 1955 aparecem directa ou indirectamente relacionados com o neo-realismo, colocando-se numa clara oposição ao regime, o qual assim se viu esvaziado do apoio da quase totalidade dos intelectuais e criadores.

Do mesmo modo as artes plásticas, e mais concretamente a pintura, irá ser dominada pelas correntes neo-realistas e surrealistas.

A Arte depois da Guerra

As referências internacionais centram-se ainda em Paris e nos artistas que aí trabalham: Picasso, Chagall, Miró, Dali, Léger, Gromaire, etc..

Mas nos anos que sucedem imediatamente após a guerra, ou seja entre 45 e o início dos anos cinquenta, é Picasso, a figura central da arte europeia, já que "...o seu passado é inatacável, a sua orientação política explícita (aderiu ao partido comunista), a sua obra recente é integral e ideológicamente empenhada..." como refere Argan.

Depois de em 37 ter pintado a Guernica denunciando a violência da Guerra de Espanha, em 46 pinta La Joie de Vivre como exaltando os valores da alegria e da vida.

Adere ao movimento pela Paz criando um conjunto de cartazes com a pomba reconhecido como o símbolo da paz.

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" GUERNICA “ pavilhão da República Espanhola, na Exposição Internacional de Paris, 1937

óleo sobre tela 350 x 782 cm. Centro Nacional de Arte Rainha Sofia, Madrid

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La Joie de Vivre 1946

Óleo sobre fibrocimento 120 x 250 cm Musée Picasso, Antibes

Adere ao movimento pela Paz criando um conjunto de cartazes com a pomba que se torna mundialmente reconhecido como o símbolo da paz.

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Realismo Socialista e o Neo Realismo

Na década que sucede ao conflito mundial, e com a força ideológica e o prestígio que então assumem os movimentos e os artistas saídos das Resistências, e então na sua maioria ligados aos partidos comunistas, pensa-se que a arte e a literatura não se podem alhear da política e, como esta se concretiza e realiza na luta de classes, também a acção do intelectual e do criador deve desenvolver-se de acordo com o partido que conduz essa luta.

Assim para o Neorealismo, como este movimento vai ser designado e que então se teoriza, o autor deve servir a realidade do seu tempo e do seu lugar contribuindo, com a sua actividade para a renovação e democratização da cultura, num processo paralelo à democratização do seu país.

Para a literatura, as artes plásticas e o cinema, não é agora tão importante recorrer a uma escolha temática ligada à imaginação abstracta ou à memória.

A realidade envolvente e circunstancial impõe, por si própria, prioridades bem claras: a resistência contra a opressão, a miséria proletária e rural, a construção do socialismo.

O artista e o escritor devem ser assim, testemunhas e agentes "engagés" (no sentido em que é utilizado por Jean Paul Sartre, figura nestes anos emblemática das relações entre o intelectual e a sociedade) do seu tempo e do seu lugar, quer relatando experiências pessoais, quer como cronistas imparciais, oferecendo material para contribuir e fazer progredir a consciência , a compreensão e a análise da situação história e concreta em que se inserem.

A ideia de realidade coincide com a realidade social; ou seja o mundo económico como determinante, a luta de classes e a condição operária e camponesa como culturas de uma classe ascendente.

Por isso as relações entre esta realidade e a sua representação tendem a ser analisadas e expressas de uma forma senão optimista, pelo menos esperançosa, mobilizadora e de fácil compreensão.

Se no campo do cinema o neo-realismo irá ter nestes anos que se seguem à II Guerra Mundial o seu período dourado, as artes plásticas irão procurar outros caminhos para exprimir este empenhamento social e político.

Destacam-se apenas em Itália Renato Guttuso (1912-1987) e em França André Fougeron (1913-1998), ambos militantes dos partidos comunistas e por isso com uma pintura tematicamente panfletária e tecnicamente devendo muito ao cartaz.

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Renato Guttuso - A Discussão 1959-60 Tempera e óleo s/ tela 2,20 x 2,48 m Tate Gallery

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André Fougeron - La civilisation atlantique, 1953 Óleo s/ tela 380 x 559 x 7cm, Tate Modern Londres.

Em Portugal

Nestes anos três pintores escrevem diversos textos sobre o Neo Realismo, sobre Portinari e os pintores mexicanos.

Júlio Pomar: A Arte e as Classes Trabalhadoras. Mundo Literário, nº 24. Lisboa, 19 de Outubro de 1946.

A Escola de Paris e a França viva. Vértice, vol.3, nº 40/42. Coimbra, Dezembro de 1946.

O pintor e o presente, Seara Nova, nº1015, Lisboa, 11 de Janeiro de 1947.

Abel Salazar, artista. Vértice, vol.3, nº44. Coimbra, Fevereiro e Março de 1947

Realismo e Acção. Mundo Literário, nº 48, Lisboa, 5 de Abril de 1947 .

A V Exposição Geral de Artes Plásticas, Vértice, vol.9, nº 82. Coimbra, Junho de1950.

Augusto Gomes. Vértice, vol.13, nº118. Coimbra, Junho de 1953.

A 7ª Exposição Geral de Artes Plásticas a pintura. Vértice, vol.13, nº 120. Coimbra, Agosto de 1953.

Lima de Freitas

Salão da Primavera. Vértice, vol. IX, nº81. Coimbra, Maio de 1950.

Caminhos e Crise da Pintura Moderna. Vértice, Vol.11, nº99-101. Coimbra, Novembro de 1951/ Janeiro de 1952.

Carta aberta a Portinari. Vértice, vol.13, nº118. Coimbra, Junho de 1953.

Exposição de Gravura Francesa Contemporânea. Vértice, vol. 13, nº 118. Coimbra, Junho de 1953.

O Realismo na Pintura. Vértice, vol.15, nº142 Coimbra: Julho de 1955.

Pintura, desenho e escultura na VI Exposição Geral de Artes Plásticas. Vértice, vol. 11, nº 94. Coimbra, Junho de 1951.

e Mário Dionísio Portinari, pintor de camponeses, Vértice, nºs 30 - 35, volume 12. Coimbra, Maio de 1946, e Portinari e Ferreira de Castro. Vértice, nº147, volume 15. Coimbra, Dezembro de 1955.

As Exposições dos Independentes no Porto

Inicialmente realizadas pelos estudantes de Belas Artes do Porto Amândio Silva (1923-2000), Júlio Resende (1917) e Fernando Lanhas (1923), na III Exposição de Dezembro de 1944, realizada no Coliseu do Porto juntam-se outros alunos vindos de Lisboa, como Victor Palla (1922-2006) e Júlio Pomar. Também nesta III Exposição participam os professores Dordio Gomes (1890-1976) e Joaquim Lopes (1886-1956), os artistas do grupo Mais Além de 1929 Augusto Gomes, Guilherme Camarinha (1912-1994) e António Cruz (1907-1983), o aguarelista Carlos Carneiro (1900-1971) e o médico e pintor Abel Salazar.

IX Missão Estética de Férias Évora, Agosto e Setembro de 1945 dirigida pelo Pintor Dordio Gomes

As Missões Estéticas foram criadas em 1936 por iniciativa da Academia Nacional de Belas Artes e destinavam-se aos finalistas das duas Escolas de Belas Artes.

(Ver XAVIER, Pedro do Amaral – “Educação artística no Estado Novo: as missões estéticas de férias e a doutrinação das elites artísticas – III Congresso Internacional da APHA, Porto, 2004)

A IX Missão, realizada no verão de 45, sob a direcção de Dordio Gomes, professor da ESBAP, distingue-se quer por se realizar no imediato pós guerra, quer pelo conjunto de participantes de que alguns irão ter um papel determinante no movimento neo-realista. Participam do Porto: Aníbal Alcino, António Lino, Arlindo Rocha (escultura), Israel Macedo, Júlio Pomar, Maria Moutinho (escultura) Nadir Afonso (arquitectura) Raúl David (arquitectura) Júlio Resende, e de Lisboa: Francisco Castro Rodrigues (arquitectura), Maria Luísa Tavares, e Vasco Conceição (escultura).

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Missão Estética de férias 1945 Évora

Gadanheiro 1945 - Foto de Castro Rodrigues 6,6 x 5 cm Espólio Castro Rodrigues Museu do Neo-realismo, Vila Franca de Xira via http://alexandrepomar.typepad.com/

Gadanheiro 1945 – Júlio Pomar - Óleo sobre aglomerado 122 x 83 cm Colecção Museu do Chiado Lisboa

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Pomar pintará Gadanheiro, (que Francisco Castro Rodrigues fotografará) quadro no mesmo ano exposto na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa e referenciado por Mário Dionísio no artigo O Princípio de um Grande Pintor? publicado na Seara Nova de 8 de Dezembro de 1945.

Em Junho de 1946 realiza-se a 1ª Exposição da Primavera no Ateneu Comercial Porto. Com a ausência de Lanhas, Resende e Nadir, o grupo das Independentes está representado por Amândio Silva, Rui Pimentel, Armando Alves Martins, Eduardo Tavares e Pomar (um dos organizadores), bem como Jorge Oliveira e João Moniz Pereira, que se lhes juntara. A eles se associam, entre outros Abel Salazar, Augusto Gomes, Camarinha e Manuel Filipe.

Em Setembro de 1947 Júlio Pomar expõe “Pomar - 25 desenhos” na Galeria Portugália, dirigida por Vítor Palla na rua de Santo António(31 de Janeiro) no Porto.

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Francisco Keil do Amaral (1910-1975)

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Pela importância que assume a personalidade de Keil do Amaral, não só do ponto de vista profissional mas sobretudo como dinamizador da constestação política e cultural ao regime, impõe-se aqui uma referência particular.

Entre 1945 e 1952 irá realizar um conjunto de obras e projectos abrindo caminho para as realizações modernas, num espaço que continua dominado pelas concepções “imperiais” e ultrapassadas do regime.

Keil do Amaral projecta entre 1945 e 49 o Palácio da Cidade (não realizado), a casa de Tom (Tomaz de Mello) em 1947, o restaurante do Campo Grande em 1948, uma moradia no Restelo (actual Embaixada da Noruega), prémio Municipal de 1951 e ainda, em colaboração com Alberto Pessoa (1920/85) e Hernâni Gandra (1914), o Clube de Ténis de Lisboa em 1952.

Todos estes projectos reflectem já uma inteira adesão aos princípios da arquitectura do pós guerra, que se traduzem no dinamismo com que são tratados os espaços, na ênfase dada aos elementos estruturais e à utilização dos muros, e à importante relação que Keil estabelece entre a construção e os espaços ajardinados.

Apesar de uma certa cedência ao gosto tradicional na moradia de Tom, mas não podemos esquecer que este foi um dos colaboradores, no campo das artes gráficas do SPN de António Ferro.

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Keil do Amaral - Palácio da Cidade, várias versões 1945/49

O plano de Keil do Amaral para o Parque florestal de Monsanto concebido a partir de 1938 pretendia organizar uma área de perto de 900 hectares, que seria arborizada e onde se implantariam diversos equipamentos.

O Clube de Ténis é um desses equipamentos onde Keil vai procurar uma integração no local projectando uma série de plataformas e procurando valorizar as vistas para o Tejo.

Junto aos courts de ténis projecta um pavilhão em dois pisos aproveitando o com uma cobertura, de uma única água em chapa de fibrocimento apoiada em asnas de madeira. Uma década depois Fernando Távora projectará um outro Pavilhão de Ténis, com repercussões na arquitectura contemporânea.

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Keil do Amaral c/ Alberto Pessoa e Hernâni Gandra - Clube de Ténis de Lisboa 1947/1950

As Exposições Gerais de Artes Plásticas (cf. França, J. A. – A Arte em Portugal no século XX, Bertrand 1974)

Mas são sobretudo as Exposições Gerais de Artes Plásticas, entre 1946 e 1956, que possibilitam e revelam os artistas neo-realistas.

Organizadas pelo MUD, mas sobretudo dinamizadas por Keil do Amaral (1910-1975), poder-se-á afirmar, como no texto do catálogo da última exposição:

" ...que a história do neo-realismo nas artes plásticas em Portugal é, em boa parte a história das Exposições Gerais...".

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Participantes nas Exposições Gerais de Artes Plásticas

Entre outros, podem ver-se Francisco Keil do Amaral, José Dias Coelho, Maria Keil, Júlio Pomar, Lima de Freitas, Mário Dionísio.

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Lima de Freitas, João Abel Manta, Francisco Castro Rodrigues, José Dias Coelho, Joaquim Correia, Coutinho Raposo, José Borrego e Rolando Sá Nogueira

Fundação Mário Soares

E, se na I Exposição, realizada na SNBA, em que colaboram 93 participantes - pintores, escultores, arquitectos e artistas gráficos - as tendências são ainda ecléticas, no ano seguinte com a II Exposição, o regime reage com violência.

Primeiro, com a publicação no jornal "oficioso" Diário da Manhã, a toda a largura da primeira página de um artigo de denúncia ideológica "A "FRENTE POPULAR" DA ARTE OU A"UNIDADE NO PESSIMISMO E NA DESORDEM",

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e de seguida, com uma rusga policial e a apreensão, pela PIDE, de alguns quadros:

"Resistência" de Júlio Pomar,

"O Menino da Bandeira" de Avelino Cunhal (1886/1966),

"Regresso à Terra" de Maria Keil (1914/),

"Pintura" de AR.CO. - ARtista COmunista, pseudónimo do arquitecto Rui Pimentel (1924/2004)

“Pintura” de José Chaves (Mário Dionísio)

e ainda duas pinturas de Nuno Tavares, bem como os desenhos de Ribeiro de Pavia (1910/57).

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II Exposição de Artes Plásticas. Ao fundo à direita o Almoço do Trolha de Júlio Pomar

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Júlio Pomar Almoço do trolha, 1946/50 Óleo sobre tela 120 x 150 cm Colecção Manuel Torres, Oeiras

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Mário Dionísio ( 1919 - 1993 ) – “Pintura», óleo s/ tela, 130 x 97, 1947. Assinado com o pseudónimo José Chaves, exposto na II EGAP (1947) onde foi apreendido pela PIDE, Museu da República e Resistência e na Casa da Cultura de Coimbra (1996).

Estes dois quadros, apreendidos pela Pide, são dos poucos cujo tema se refere a operários urbanos. De notar como constante da pintura neo realista a ênfase no tratamento das mãos (e dos pés descalços) como referência ao trabalho manual base indispensável do trabalho intelectual. Mário Dionísio irá prosseguir na sua fase neo realista ainda com motivos urbanos ou políticos.

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O Músico”, 1948 tinta de esmalte sobre tela 131,5 x 96,5 cm Exposto na III EGAP (1948) Colecção Museu Berardo

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«Reunião Clandestina», óleo s/ tela, 97 x 130, 1947. Exposto na III EGAP (1948),na exposição Arte Moderna -Vértice (1949), em Almada (1949), com o título «Interior».

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fonte : http://www.centromariodionisio.org/

José Dias Coelho 1923 –1961

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A partir da II Exposição (1947) as exposições que se realizarão até 1956, serão submetidas a um regime de censura prévia, mas ganham uma clara conotação de oposição ao regime.

De notar, que durante as suas realizações serão expostos 366 projectos de arquitectura, daqueles que durante a época de quarenta já se haviam distinguido na contestação do regime, como Arménio Losa, Cassiano Barbosa e Keil do Amaral, aos quais se vem juntar uma nova geração formada no Porto, na escola de Carlos Ramos como Francisco Castro Rodrigues (1920-), Celestino de Castro (1920-2007) e Vítor Palla (1922-2006), ou no contacto com o atelier de Keil do Amaral, como Hernâni Gandra (1914-1988), Alberto Pessoa ou Huertas Lobo (1914-1987).

Muitos dos pintores neo realistas vão procurar temas dentro do sector primário ou no mundo rural, ou no mundo das pescas.

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AR. CO. Rui Pimentel (1923 – 1999) Ceifeira 1945 (destruído por um incêndio)) óleo s/ madeira 0,84 x 0,68 cm colecção particular

Em 1953, Alves Redol organiza um conjunto de visitas aos arrozais do Ribatejo, procurando estabelecer um diálogo directo entre os intelectuais e os camponeses de onde resultará “O Ciclo do Arroz” de Júlio Pomar.

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Fotografias não identificadas ( in http://alexandrepomar.typepad.com/ )e estudos para o “Ciclo do Arroz” de Júlio Pomar 1953

Manuel Ribeiro de Pavia (1907 – 1957)

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Ilustração para a capa de A Noite e a Madrugada (1950),e de Retalhos da Vida de um Médico (3.ª edição, ampliada, c. 1953)de Fernando Namora (1919-1989).

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Lima de Freitas (1927-1998)

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Ilustrações para o livro “Olhos de Água” (1954), de Alves Redol

Na temática da pesca e dos pescadores são exemplo Augusto Gomes e Lázaro Lozano, naturais de vilas piscatórias, aquele de Matosinhos e este da Nazaré.

Augusto Gomes (1910 - 1976)

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Augusto Gomes - As Visitas1953 Óleo sobre tela 100 x 77,5 cm MNSR

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Augusto Gomes - Prova de grande Composição Óleo sobre tela 170 x 200 cm. FBAUP

“Imagem e louvor de Augusto Gomes

Ele pinta lentamente uma luz supliciada,
porque tudo é amor e ama-se lentamente;
aqui e ali sublinha uma pálpebra, uns lábios,
e os olhos procuram o coração dos homens.

Nas suas mãos, raparigas passam despenteadas,
passa um pescador de rosto azul,
passa outra vez setembro, uma criança ainda,
e o mar irrompe de sombra em sombra,
porque tudo é amor, amor difícil, turvo,
lutando por ser diáfano em suas mãos.

Com alegria, descobre a cor da liberdade,
dos barcos, da juventude, e logo esquece.
Volta. Recomeça. Amorosamente
encontra um corpo - um corpo ? -
uma coluna de espanto e recomeça.

Escreve agora na terra um nome inocente,
cinco sílabas brancas, todas elas maduras,
e confia melancólico um segredo
à luz de cinza que se desprende da noite.”

Eugénio de Andrade

Lázaro Lozano (1906-1999)

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Lázaro Lozano - Viúvas na praia 1946 Óleo s/ platex 75 x 63 cm Museu Dr. Joaquim Manso

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Lázaro Lozano - Gente da Nazaré Guache sobre tela 46 x 57 cm Museu de José Malhoa

Avelino Cunhal (1887-1966)

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'Pescadores‘ 1954 Óleo sobre madeira 47,5 x 43 cm. colecção particular

Júlio Pomar

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Mulheres na Praia 1950 - Óleo s/ tela 94 x 123 cm - CAM FCG

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Maria da Fonte, 1957 Óleo sobre aglomerado 121 x 180 cm

Colecção Família Pelágio Nogueira, Lisboa

O realismo poético

Tem a sua principal representação em Júlio (1902-1983) onde se podem perceber influências de Picasso e Chagall.

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"Mulher a ler" 1948 Tinta da china s/ papel 45 x 34 cm Col. particular

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Série O Poeta 1953 Tinta da china s/ papel Col. particular

Na fotografia

Victor Palla (1922 – 2006)

Filho de um fotógrafo amador, Victor Palla e Carmo nasceu em Lisboa em 1922 e desde cedo que se iniciara na fotografia para ajudar o pai. Concluído o curso de arquitectura em meados dos anos 40, após frequência da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e de uma breve incursão na do Porto, acaba por se fixar por alguns anos nesta última cidade, onde funda e dirige a Galeria Portugália em 1944. No Porto colabora ainda nas “Exposições Independentes”. Em Lisboa participa com as suas fotografias nas “Exposições Gerais de Artes Plásticas”. Em 1949 com José Cardoso Pires funda colecção de bolso Os Livros das Três Abelhas.

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Em 1952 tira em Londres um curso de Publicação e Produção de Livros no Arts Council of England.

Em 1956 com Costa Martins (1922-1996), também arquitecto, lança-se no projecto “Lisboa Cidade Triste e Alegre”, título extraído do poema de Fernando Pessoa

(…) Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui… (…)
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo.

Álvaro de Campos, "Lisbon Revisited (1926)"

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cujas imagens são expostas em 1958 na Galeria Diário de Notícias, em Lisboa e na Divulgação no Porto (actual Livraria Leitura), também no mesmo ano.

Com uma estética influenciada pelo cinema neo-realista italiano as fotografias dão uma particular atenção aos ambientes urbanos vividos e habitados, sendo as mulheres e as crianças as presenças maioritárias.

Em 1959 sob o título de Lisboa, cidade triste e alegre foi editado o livro.

O cinema

Num período de estagnação do cinema português que apenas realiza alguns filmes na continuidade do cinema ligado ao regime no período entre as guerras (dos quais se destacam no filme histórico “Camões” de Leitão de Barros de 1946; na comédia “O Leão da Estrela” de Arthur Duarte de 1947; no filme de adaptação de obras literárias “Frei Luís de Sousa” de António Lopes Ribeiro de 1950; no filme nacionalista “Chaimite” de Jorge Brum do Canto de 1953 e não comprometido com a cinematografia oficial o documentário “O Pintor e a Cidade” de Manoel de Oliveira de 1956 sobre António Cruz),

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image frei luis de sousa - cartaz

o cinema do pós guerra que é visto em Portugal é dominado pelo cinema americ.ano, com os filmes ligados à temática da guerra ou com filmes populares como é o caso dos westerns, de onde sobressai alguns “clássicos”: “O Terceiro Homem” 1949 de Carol Reed ou “O Comboio Apitou Três Vezes” 1952 de Stanley Kramer e “Johnny Guitar” de 1954 de Nicholas Ray.

Os filmes americanos que terão contudo mais impacto na geração em formação em Portugal, serão os filmes de Elia Kasan: “ Há Lodo no Cais” 1954 e “A Leste do Paraíso” 1955; de Nicholas Ray “A Fúria de Viver” 1955, revelando os actores Marlon Brando e James Dean.

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A cinematografia europeia, então sujeita a forte censura em Portugal, vai sendo divulgada através dos cineclubes, onde se destaca o papel do Cine Clube do Porto.

Nesta cinematografia assume um papel determinante na cultura portuguesa da época, o cinema neo-realista italiano já que vem ao encontro do “empenhamento realista” dos escritores, artistas plásticos e arquitectos, na sua luta contra o regime de Salazar, e já que se aproxima de algumas experiências cinematográficas do período entre as guerras, como “Nazaré” e “Ala Arriba” de Leitão de Barros, e “Aniki- Bobo” de Manuel de Oliveira.

O Neo Realismo Italiano

“Quis que meus filmes fossem os mais elementares, os mais simples, a bem dizer os mais triviais possíveis. O ideal seria criar um espectáculo cinematográfico com noventa minutos da vida de um homem a quem nada aconteceu.” Cesare Zavattini (1902-1989)

“O meu papel é de depurar" V. de Sica

A partir dos anos quarenta e, sobretudo no pós guerra, um conjunto de realizadores italianos irão elaborar um conjunto de filmes que Umberto Barbaro, na revista "Filme", irá designar pelo movimento neo realista.

Baseados numa estética que os aproxima da estética neo realista da literatura e das artes plásticas, este conjunto de realizadores irão questionar a própria linguagem do cinema:

" O registo automático ou fiel da realidade era apenas para os cineastas russos uma matéria prima para a verdadeira operação estética: a montagem. Ora a montagem falsifica o tempo, manipula a duração, opera uma síntese nova com o acontecimento. Eu gostaria de filmar a história de noventa minutos da vida de um homem numa narrativa directa, sem montagem. Porque o respeito da realidade é também o respeito do tempo real. Devemos sempre aprofundar, analisar ainda mais o conteúdo do instante presente." Zavattini

Ao contrário do expressionismo dominante dos anos 20/30, o neo realismo italiano procura, nos seus primeiros filmes, um decantamento da realidade, ou seja de tornar a realidade o mais compreensível ou legível, exprimindo, apenas, o essencial com uma procura rigorosa e distanciada da realidade.

Destacam-se de entre estes realizadores:

Vittorio de Sica (1902 – 1974) que representa uma poética cinematográfica cujo objectivo é narrar ou descrever uma realidade sempre significante ou significativa, mas sem perder credibilidade baseando-se na austeridade do estilo, na montagem extremamente discreta; na recusa de ângulos ou takes insólitos ou surpreendentes com raro uso de grandes planos; uma narrativa com um carácter próximo da reportagem do quotidiano, do "fait-divers", conferindo-lhe um carácter dramático pelo sublinhar da essência ética. Vittorio de Sica abre o caminho aos neo realistas na utilização de actores não profissionais e procurando sobretudo cenários de rua.

Em 1948 realiza Ladri di biciclette

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O filme começa com uma sequência em que uma multidão espera pelos anúncios de emprego em frente a um departamento do governo, espera essa quase sempre infrutífera. Todavia, um desses desempregados, António Ricci (Lamberto Maggiorani), é seleccionado para um trabalho que consiste em colar cartazes na cidade. Esse trabalho é feito de bicicleta mas António tinha vendido a sua para conseguir sustentar a família por mais algum tempo. Sem outra hipótese, António e a mulher Maria ( Lianella Carell ) regressam à loja de penhores para recuperar a bicicleta, trocando-a pelos poucos bens que ainda tinham. O drama inicia-se logo no primeiro dia de trabalho, quando a bicicleta é roubada. Desesperado, António começa a vasculhar toda a cidade com o seu filho Bruno ( Enzo Staiola ) em busca da preciosa bicicleta, chegando ao extremo de roubar ele próprio uma bicicleta. É essa busca através dos mais variados locais que centraliza toda a narrativa do filme. Com um ponto de partida quase banal, a história transforma-se rapidamente numa viagem à condição humana e às necessidades básicas das pessoas. Filmado em exteriores na Itália do pós-guerra, com actores amadores, o filme baseia-se no suspense sobre o encontro da bicicleta, mas vai muito mais longe, tornando-se um conto sobre o desespero, a esperança, a perda e a redenção, traçando o retrato da sociedade italiana da época com a crise económica, o desemprego e a miséria. O filme constitui também uma homenagem ao relacionamento entre o pai e o filho.

Em 1952 V. de Sica realiza “Umberto D”com argumento de Zavattini.

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Numa Itália saída da guerra "Umberto D." é um drama sobre a solidão na terceira idade, a miséria e o egoísmo da sociedade. Umberto Domenico Ferrari é um reformado, sem amigos e sem família, que vive sozinho com seu cão Flik e que tenta a todo o custo manter a sua dignidade. Como não consegue pagar as suas dívidas (“para pagar tudo o que devo, precisaria ficar um mês sem comer”) e ameaçado de despejo e perante os dramas que o cercam como a manifestação dos seus colegas reformados violentamente dispersa pela polícia ou o drama da empregada da casa onde vive num quarto alugado vai entrando em depressão sucessiva até se juntar aos mendigos que pedem esmola nas ruas de Roma.

Roberto Rossellini (1906 –1977)

Rossellini dava a seguinte definição do neo realismo:

"Seguir com amor um ser em todas as suas descobertas, em todas as suas impressões", ou seja, seguir implacavelmente uma personagem, espiando-a com uma impiedosa ternura ou humanidade em todas as suas hesitações, em todos os seus conflitos com o mundo, que se estabelecem ao longo do seu percurso, e procurar captar todos os sobressaltos, todas as convulsões, que a agitam como que conduzida por uma força invisível.

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Em 1945 realiza Roma, Cidade Aberta (1945), por muitos considerado o primeiro e o mais importante dos filmes do neo -realismo italiano.Roma em 1943 e até 1944 é declarada pelos nazis "cidade aberta" para evitar os bombardeamentos aéreos. Nas ruas, comunistas e católicos combatem lado a lado os alemães e as tropas fascistas. Giorgio Manfredi, (ou Ferraris, ou Epíscopo) um engenheiro comunista do Comité de Libertação Nacional esconde-se na casa do operário Francesco, que está noivo de Pina. (Anna Magnani). Pina mãe do pequeno Marcello, é baleada no dia do casamento, quando vê seu companheiro ser preso. Manfredi com o padre Don Pietro tentam escapar dos nazis mas são denunciados por Marina a dançarina e amante de Manfredi. Manfredi é torturado e morre. Don Pietro condenado à morte é fuzilado perante Marcello dizendo que não é difícil morrer bem, difícil é viver bem. A imagem final, de Marcello caminhando para a cidade abraçado a um amigo, deixa uma esperança de que um dia ele possa viver num mundo melhor.

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É um ser pequeno esmagado por qualquer coisa que o domina e que de repente o atingirá aterradoramente, no momento preciso em que ele se encontra livremente no mundo, sem esperar o que quer que seja ".

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Em 1950 filma Stromboli, Terra di Dio, com Ingrid Bergman com que assume uma relação que na Itália dos anos 50 é considerada como escandalosa.

Em Stromboli, Rossellini escreve no genérico, significativamente estes versículos de Isaías:"Eu exaltei os que não me pediam nada. Eu deixei-me encontrar pelos que não me procuravam"

Para poder escapar de um campo de concentração uma mulher aceita casar-se com um pescador de uma pequena ilha. Mas cedo se apercebe que a vida na ilha é outra condenação. Por ser uma estranha é hostilizada pelas mulheres da ilha, e apenas o padre a tenta ajudar. Entretanto engravida. Uma erupção do vulcão faz com que toda a aldeia seja evacuada obrigando seus habitantes a passarem quase 24 horas em seus pequenos barcos, afastados da costa. No regresso Karin diz a António que não vai esperar para ter seu filho naquele lugar e António prende-a em casa. Karin consegue fugir com a ajuda do faroleiro e vai tentar chegar a Ginostra uma aldeia próxima mas do outro lado do vulcão. Depois de subir a montanha e ao chegar ao cimo adormece. No dia seguinte ao recomeçar a caminhada suplica a Deus que lhe dê força e coragem para conseguir salvar o seu filho inocente. O filme termina na dúvida se a personagem consegue ou não sobreviver.

Federico Fellini 1920-1993, que se iniciou como assistente de Rossellini, dirige em 1956 La Strada, antes de procurar num realismo mágico e autobiográfico outros caminhos cinematográficos.

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Com música de Nino Rota, e a participação da sua mulher Giulietta Masina e de Anthony Quinn. O filme começa e termina num mesmo lugar a praia. No início a personagem de Gelsomina (Giulietta Masina) encontra-se feliz na praia clara de dia. No final é o depressivo e arrependido Zampanò (Anthony Quinn) no escuro, na praia à noite. Entre o início e o final as diferenças entre as personagens.

Luchino Visconti (1906-1976)

"O peso do ser humano, a sua presença, é a única coisa que deve dominar as imagens. O ambiente que cria e a presença viva das suas paixões dão-lhes vida e relevo" Visconti

Visconti era um “…exemplo típico do intelectual da sua geração...proveniente de uma classe privilegiada, ele aceita, entre outros benefícios, o aceder e praticar a arte, servindo-se precisamente dessa mesma arte para denunciar a injustiça do meio de onde provém" .(Tomaso Chietti)

A sua vida e as suas origens levam-no a analisar lucidamente as batalhas perdidas da sua classe social, já que a sua cultura e as suas simpatias políticas o conduzem à necessidade revolucionária da transformação da sociedade. Assim a dialéctica da contradição está presente em toda a obra de Visconti. Desde os filmes mais depurados da estética neo-realista, até às obras de reconstituição histórica. Desde a utilização de uma linguagem de simples compreensão até à adaptação de obras literárias complexas. Desde a análise marxista da luta de classes e da sua história até aos conflitos internos do indivíduo. E mesmo, nas diversas estratégias que utiliza para o cinema ou para o teatro.

A sua primeira longa metragem é Ossessione (1943)

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Baseado no romance “The Postman Always Rings Twice“ (o Carteiro toca sempre duas vezes) de James Can , Visconti transpõe a conhecida história para o vale do Pó. Gino Costa chega ao albergue de Bragana e na ausência deste inicia uma relação com Giovanna a sua jovem mulher. Ao partir de comboio para Ancona depois do encontro com o Espanhol encontra casualmente Giovanna e Bragana. Aceitando trabalhar para Bragana no regresso Gino mata-o. O Espanhol denuncia-o à polícia. O casal desloca-se para Ferrara para Giovanna receber o seguro do marido. Gino começa a suspeitar de ter sido empurrado para o homicídio por Giovanna apenas para esta receber o dinheiro. Depois de uma briga entre os dois como ela revela estar grávida reconciliam-se e resolvem fugir. Mas num acidente Giovanna morre e Gino é preso.

Em 1948 realiza La Terra Trema, uma adaptação do romance de Giovanni Verga sobre uma aldeia da Sicília.

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Com o subtítulo de "Episódio do Mar” o filme é uma adaptação do romance "I Malavolgia" de Giovanni Verga (1840-1922), publicado em 1881. O filme descreve a vida dos pescadores da Sicília numa localidade Aci Trezza, onde Visconti procura "o fio condutor, a ferramenta que me permita descobrir os homens sicilianos, a vida mais secreta insular". A procura da autenticidade de Visconti leva-o a utilizar a população da ilha e a manter na versão original os diálogos em dialecto siciliano pedindo aos improvisados actores que o utilizassem. O argumento trata a história de Toni Velastro, pescador siciliano, que cansado de trabalhar para um armador hipoteca sua casa e tenta trabalhar por conta própria. Apesar do início favorável, uma tempestade destrói seu barco e ele é obrigado a voltar ao antigo emprego, embora sabendo que será novamente explorado. A partir deste argumento, Visconti desenvolve um quadro da realidade proletária da Sicília.

Em 1951 realiza Bellissima e em 1954 Senso, primeira abordagem a um passado político com ressonâncias contemporâneas. Em 1957 As Noites Brancas adaptado de Dostoievsky.

Mas será em 1960 com Rocco e os seu irmãos que Visconti irá ter em Portugal um grande sucesso, nas sessões em que é permitido ser projectado.

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O filme retrata o desmoronamento de uma família de cinco irmãos oriunda de Lucania que depois da morte do patriarca Antonio Parondi chega a. Milão onde já vivia o irmão mais velho, Vincenzo (Spiros Focás) e a noiva Ginetta (Claudia Cardinale). Vincenzo o mais consciente, gosta da família mas quer sobretudo casar e ter filhos de Ginetta. depara-se com a árdua tarefa de encontrar um tecto para a família e trabalho para os irmãos, Simone (Renato Salvatori), Rocco (Alain Delon), Ciro (Max Cartier) e Luca (Rocco Vidolazzi), este último ainda criança. Simone (Renato Salvatori) torna-se boxeur e rapidamente fica famoso. Entretanto os irmãos conhecem Nadia (Annie Girardot) uma prostituta que vive com o pai no andar de cima. Simone apaixona-se por Nadia mas vai arruinar-se com a sua obsessão por Nadia e comprometendo a sua carreira com o tabaco e o álcool. Rocco (Alain Delon), é-nos apresentado como um “santo”, um homem bom que ama a família mas conformista, e ingénuo que por sua vontade nunca teria saído de Lucania, a sua terra.
“ – Lembras-te Vince? O pedreiro, quando começa a construir uma casa nova, atira uma pedra na sombra da primeira pessoa que passa.
– Porquê? (pergunta Luca)
– Porque ele oferece um sacrifício, para que a sua casa se torne sólida.”
de facto ele sacrifica-se ao renunciar a Nadia por causa de Simone, quando substitui o irmão no boxe de que não gosta apenas para pagar as dívidas do irmão. No final, existe um diálogo entre os mais novos Ciro e Luca que nos descreve as personalidades de Rocco e de Simone.

“Ninguém amou tanto o Simone quanto eu! Quando chegamos a Milão, eu era um pouco mais velho que tu… e Simone explicava-me as coisas que eu não conseguia entender. Dizia que na nossa terra todos viviam como animais. Só conheciam a fome e a servidão. Que ninguém deve ser escravo do outro…e não se esquecer do seu dever. Mas Simone esqueceu-se disso…e por isso teve esse fim terrível. Arruinou-se e trouxe-nos a vergonha. Ele causou muito mal ao Rocco, e a ti, Luca, que és o menor de todos. Simone era bom, mas meteu-se com más companhias. E o Rocco está errado em ser tão bom e generoso. Ele é um santo. Mas o mundo não é assim. Ele não se defende. Ele perdoa tudo a todos e nem sempre isso está certo!”

Em 1963 Visconti filmará o que para muitos (eu incluído!) é a sua obra-prima: Il Gattopardo (O Leopardo).

(Ver neste blogue Visconti:Il Gattopardo)

Seguem-se ainda em 1967 O Estrangeiro do romance de Albert Camus, A Morte em Veneza do romance de Thomas Mann, com música de Mahler em 1971. E ainda Violência e Paixão de 1974 e O Inocente de1976.

A arquitectura e o planeamento

Disciplinarmente o que então se realiza em Portugal, corresponde ao período que se inicia com o Congresso de 1948 e termina com a renúncia aos modelos exemplares do Movimento Moderno, a que internacionalmente corresponde o último CIAM (1959) e localmente ao início e publicação do Inquérito à Arquitectura Popular (1955/61).

Esta fase da evolução da cultura portuguesa, inicia-se como vimos, com o repreendimento económico do pós-guerra e com o relançamento da industrialização do país, e terminará com a crise política de 1958/61.

Aquilo que, efectivamente, indica neste período uma perceptível transformação do empenho político e cultural dos arquitectos, de um modo seguro e evidente, é a preocupação pelas questões da habitação (sobretudo das largas camadas da população de Lisboa e do Porto) e o início das questões inadiáveis do urbanismo e do planeamento.

Essas preocupações apresentam-se num enquadramento de luta contra o regime, o qual, no plano profissional é representado por arquitectos cada vez mais ligados com uma ultrapassada arquitectura de regime.

Em 1944 é publicado o DL 33921, que torna obrigatório às Câmaras Municipais do continente e ilhas adjacentes promover o levantamento de plantas topográficas e a elaboração de planos gerais de urbanização e expansão das sedes dos seus municípios, em ordem a obter a sua transformação e desenvolvimento segundo as exigências da sua vida económica e social, da estética, da higiene e da sua viação com o máximo proveito e comodidade para os seus habitantes.

E em 1946, a Lei 35931 de 4 de Novembro de 1946 a qual determina que os planos de urbanização aprovados pelo Ministério sobre parecer do Conselho Superior de Obras Públicas sejam obrigatoriamente respeitados em todas as edificações, reedificações ou transformações de prédios e no traçado de novos arruamentos nas áreas das sedes de concelho e demais localidades ou zonas por eles abrangidos sendo-lhes aplicáveis as disposições do artigo 29º do decreto-lei n.º 33921 e do artigo 61º do Código Administrativo.

Esta Lei prevê a necessidade de elaboração de projectos de carácter sumário os anteplanos - que adquiriram carácter vinculativo.

A lei não considerava a necessidade de planos de pormenor.

Os Anteplanos não eram mais do que uma planta de zonamento urbano.

Os planos de urbanização, incentivados por Duarte Pacheco, consistiam num tratamento cuidado das áreas centrais, no traçado de uma série de vias e no enquadramento de espaços verdes.

Mas os planos propunham áreas residenciais de baixa densidade, o que levou ao aumento do preço do terreno e à localização dos estratos sociais economicamente mais débeis fora dos perímetros urbanos.

Finalmente em 1951 é publicado o D. L. 38 382 de 7 de Agosto de 1951 "Regulamento Geral de Edificações Urbanas ".

No campo operativo é na cidade do Porto então atingindo os 290 000 habitantes e enquadrada pelo Plano Regulador (1946/47) de Antão de Almeida Garrett, que se vai constituir a base de partida para o fecundo prosseguimento - na escala do possível ou do permitido pelo regime - das experiências racionalistas e da procura de formas urbanas e arquitectónicas aderentes à realidade.

De facto o Porto, tem um distanciamento do centro do poder político, e uma longa experiência de realizações e de lutas pela cultura e arte modernas, com conotações explícitas com a tradição de uma ideologia de fundamento liberal e democrático e, no campo da arquitectura e da cidade não é alheio o papel desempenhado por Carlos Ramos como professor e director da Escola de Belas Artes.

Será assim, por um lado o início de um conjunto de investigações, que partindo dos estudos e das teorias sobre a habitação social, económica ou colectiva, se começa a precisar sobre temas específicos de arquitectura e ainda, sobre as condições do construir, dos novos métodos construtivos e das infra-estruturas económicas da construção, interpretando a tipologia residencial como a “essência” da projectação.

E, por outro lado, também assume importante relevo neste período, a definição urbanística do território, pela qual o contexto da disciplina se amplia a zonas mais vastas, com a realização dos primeiros planos de urbanização com uma clara fundamentação funcionalista.

O Congresso de 48

Assim, quando da realização do I Congresso Nacional de Arquitectura, promovido pelo Sindicato Nacional dos Arquitectos e realizado em Lisboa em 1948 (paralelamente com o II Congresso Nacional dos Engenheiros (o I Congresso dos Engenheiros realizou-se em 1931), e quando Salazar e o seu Governo, com a realização simultânea de uma grande exposição – 15 Anos de Obras Públicas - pretendem organizar um "espectáculo" de apoteose do regime e balanço público das suas realizações, os grupos de (jovens) arquitectos, agrupados em torno de duas organizações - a ICAT e a ODAM - e tendo como pano de fundo a contestação política da Oposição ao regime de Salazar, vão enfrentar e confrontar-se, no Congresso, com aqueles que então representavam o "status quo" do salazarismo.

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Catálogo da exposição 15 Anos de Obras Públicas

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A entrada do Instituto Superior Técnico ladeada por esculturas

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O Congresso que se realiza no Instituto Superior Técnico e num momento politizado da vida nacional - entre as eleições de 45 e 49 - marcará um dos raros momentos de intervenção, senão teórica, pelo menos crítica da arquitectura portuguesa, de reflexão e polémica sobre a situação e o futuro da arquitectura nacional e, mais ainda, uma ocasião em que essa reflexão se pode confrontar - embora que limitadamente - com o poder político e a opinião pública. Daí que as consequências do Congresso se façam ainda sentir alguns anos após a sua realização.

Dois grandes temas estão em discussão: "A Arquitectura no Plano Nacional" e “O Problema Português da Habitação".

Perante o silêncio táctico (?) de Cristino da Silva e as ausências (por razões provavelmente opostas) de Cassiano Branco e Raul Lino, cabe a Pardal Monteiro (na época Presidente do SNA) e a Cottinelli Telmo a tarefa de expor e defender (se alguma coisa havia a defender) as posições oficiais - então em tempo de uma certa auto crítica, motivada pelas necessárias adaptações às novas realidades do pós-guerra - perante as violentas críticas das novas gerações de arquitectos, consolidadas nas obras teóricas e operativas de Le Corbusier e na "Carta de Atenas", publicada nesse ano (48) na revista "Arquitectura".

Sobre o I Tema são apresentadas vinte e três teses e é sobretudo sobre as questões formais ou "estilísticas" da arquitectura em Portugal que o confronto se produz. O que então está em jogo é a polémica entre arquitectura nacional e arquitectura internacional, nas suas incidências políticas: "...entende-se por arquitectura internacional - e porque não dizê-lo: "comunista"- toda aquela de características novas e de expressão não imitativa do passado, que não se serve das receitas neo-romanas ou neo-gregas dos teatros, bolsas e parlamentos de todo o mundo" como afirma Cottinelli.

Mas se neste tema se consegue, apesar de tudo, uma certa unanimidade (que aliás convém, no limite, ao regime), no campo do ensino "ministrado em condições deploráveis", aí a concordância é absoluta em todos os aspectos.

No II Tema, onde apenas são apresentadas nove teses, reter-se-á a formulação do problema dramático da habitação no País, e que as críticas são sobretudo formuladas como crítica à cidade tradicional, numa visão da Carta de Atenas (então traduzida e publicada), e consagrada nas conclusões do Congresso, defendendo-se "A casa colectiva como melhor solução para as múltiplas necessidades da população";"...que as ilhas insalubres sejam substituídas por "unidades de habitação" dentro dos moldes modernos do urbanismo"; que se "...intensifique o estudo da habitação colectiva por ser impraticável a modalidade das moradias unifamiliares"; ou que "...se facilite por meio de legislação adequada a construção de habitações colectivas "em partido vertical" criando-se imóveis de "aposentamentos"(sic) de aquisição e aluguer francamente facilitados".

Por outro lado é de salientar a importância que então se atribui ao planeamento considerado nos seus múltiplos aspectos - e de influência das economias planificadas - encarado como uma pirâmide cujo vértice é o Plano Nacional e descendo para os Planos Regionais e Locais, com claras conotações com os Planos Quinquenais das economias do Leste:" - que se tomem medidas necessárias para que os planos locais de urbanização se integrem em planos regionais e estes num plano nacional, que urge estabelecer".

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Unidade de Habitação de Marselha de Le Corbusier 1947-1952

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Desenho de Le Corbusier ilustrando “La Cité Radieuse”

Das intervenções no Congresso e das obras que se realizarão nesses anos, parece evidente que para os arquitectos do ODAM e do ICAT, é a personalidade de Le Corbusier - quer através da projectação e realização da "Unité d' Habitation" em Marselha (1945/52), largamente documentada nas revistas da época, quer através dos seus escritos - La Charte d'Athénes", de 1943, "Les Trois Etablissements Humains" de 46 e "Manière de Penser l'Urbanisme" de 45 - mais influência teve nos projectos, escritos e realizações da década que se segue à segunda Guerra Mundial, ou como mais tarde dirá Peter Smithson: "...quand on ouvre un nouveau volume de L'Oeuvre Complète, on se rend compte que Le Corbu a déjà eu toutes les meilleures idées qu'on vient d'avoir." (citado em New Brutalism de Reiner Baham).

Assim inicia-se uma acção cultural e crítica, de fundamentação claramente política, por uma nova arquitectura, pelos princípios do Movimento Moderno, mesmo se mais nos seus aspectos emblemáticos do que nos seus princípios transformadores, centrada em Lisboa e no Porto, onde se criam, respectivamente o ICAT (Iniciativas Culturais de Arte e Técnica) em 1946, e o ODAM (Organização dos Arquitectos Modernos) em 1947, agrupamentos de arquitectos de adesão racionalista e politicamente situados à esquerda, que pretendem e procuram uma reorganização dos métodos projectuais, em oposição à sempre persistente e influente - pelo menos ao nível da encomenda pública - pretensão formal dos academismos e "nacionalismos" ou "portuguesismos" conotados com o regime ditatorial.

As dificuldades dos arquitectos e da arquitectura de se afirmarem politicamente na oposição à ditadura e de cumprirem, nas suas realizações concretas, o programa neo-realista, como contemporaneamente sucedia na literatura, nas artes plásticas e no cinema, tanto mais que os modelos da URSS, estalinista, de então eram demasiado próximos, formalmente, da arquitectura oficial do regime de Salazar, ou seja, de participarem na "frente comum da cultura" , impõe, aos que então se batiam pela arquitectura moderna - reforçada pelas necessidades europeias da reconstrução do pós-guerra e pelas oportunidades que são oferecidas aos que, durante o período entre as duas guerras haviam formulado as bases do Movimento Moderno - um novo entendimento da cidade, a consideração de novos princípios construtivos, as alterações criadas no projecto pelos novos programas - particularmente na habitação, no secundário e no terciário - e por fim a utilização emblemática de obras de arte plásticas, realistas e politicamente conotadas com reivindicações sociais, como forma de evidenciar ou sublinhar o lado da "barricada" em que esta arquitectura se colocava.

Mas um vector, aliás relacionado com Le Corbusier, que terá uma importante influência na arquitectura e na ideia de cidade desta época é, sem dúvida, a arquitectura brasileira, a qual com o pós guerra, atinge nesses anos uma projecção mundial.

De facto, a presença de Le Corbusier no Brasil em 1929, onde realiza um ciclo de conferências – no Rio de Janeiro e em S. Paulo – e ainda a sua colaboração no projecto do Ministério da Educação da capital brasileira, como consultor da equipa de Óscar Niemeyer (1907), Lúcio Costa (1902-1998) e Reidy (1909/64), irá lançar definitivamente a criação e a projecção da “escola brasileira”, obviamente de grande influência do mestre suíço.

Em 1939, o Pavilhão do Brasil na Feira de Nova Iorque, da autoria de Niemeyer e Costa é já notado, mas será a realização da Exposição no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque em 1943, “Brasil Builts” organizada por Philip Godwin, de onde resultará um livro de grande difusão internacional, incluindo Portugal, que no final da guerra dará a conhecer os trabalhos dos arquitectos brasileiros.

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Por outro lado a revista francesa “L’Architecture d’Aujourd’Hui”, que então começa a ter largo impacto e difusão nos meios profissionais portugueses, dedica em 1947, um número monográfico ao Brasil.

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Em Fevereiro de 1949, realiza-se no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, a Exposição da Arquitectura Moderna Brasileira, apresentada pelo professor Waldemir Alves de Sousa, e a partir de 1951, as Bienais de S. Paulo, começarão a ter uma enorme projecção nos meios artísticos internacionais.

Em Portugal entretanto, começarão a circular nos meios do ensino e profissionais, um conjunto de publicações de arquitectura brasileiras, como a “Habitat”, a “Módulo”, a “Acrópole” e a “Arquitetura”, que irão divulgar as obras dos arquitectos brasileiros. Referenciam-se algumas das obras com mais impacto nos arquitectos portugueses: de Niemeyer a Igreja de Pampulha de 1942, com os célebres painéis de Portinari, o Casino, o Restaurante e o Iate Clube também de Pampulha, o Bloco da Boavista de 1953, o Bloco de Belo Horizonte de 1951 ou a Escola Jucelino Kubitschek de 1954; de Eduardo Reidy o quarteirão de Pedregulho no Rio de 1947/50, o Teatro do Rio de 1950 e o Museu de Arte Moderna do Rio de 1954 e de Alves de Sousa a Unidade de Habitação em Santos de 1952.

Esta influência directa e reconhecida será reforçada pela construção durante estes anos da cidade de Brasília inaugurada precisamente em 1960.

O ODAM
(Ver Barbosa, Cassiano - ODAM, Porto 1947/52, Porto, ed. ASA 1972)

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Desenho de João Abel Manta

No Porto os arquitectos que lutam pela arquitectura moderna, então reunidos em torno da Escola de Belas Artes e de Carlos Ramos, vão constituir a Organização dos Arquitectos Modernos (ODAM), numa clara referência aos CIAM (Congrés Internacionales de l’ Architecture Moderne), realizando em 1952 uma exposição no Ateneu Comercial, instituição de considerável prestígio e projecção na cidade e no país.

Arquitectos do Grupo ODAM: Acácio Couto Jorge, Adalberto Dias, Agostinho Rica, Alfredo Ângelo de Magalhães, Alfredo Viana de Lima, António Matos Veloso, António Lobão Vital, António Corte Real, António Neves, Arménio Losa, Anselmo Gomes Teixeira, Artur Andrade, Cassiano Barbosa, Delfim Fernandes Amorim, Eduardo R. Matos, Eugénio Alves de Sousa, Fernando Campos, Fernando Eurico, Fernando Lanhas, Fernando Limpo de Faria, Fernando Távora, Fernando Tudela, João C. Segurado, João José Tinoco, João de Mello Breyner Andersen, Joaquim Marques Araújo, José Carlos Loureiro, José Borrego, Luís José Oliveira Martins, Luís Praça, Mário Bonito, Octávio Lixa Filgueiras, Ricardo Gil da Costa e Rui Pimentel.

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“OS NOSSO EDIFÍCIOS SÃO DIFERENTES DOS DO PASSADO PORQUE VIVEMOS NUM MUNDO DIFERENTE”

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Entre outros reconhecem-se em pé, da esquerda para a direita:

1 Adalberto Dias, 2, 3 Fernando Távora, 4 5 Mário Bonito, 6 7 8 Viana de Lima 9 J.C. Loureiro, 10, 11, 12, 13, 14 ,15 G. Corte Real, 16, 17 Cassiano Barbosa, 18, 19, 20 A. Corte Real, Sentados: Arménio Losa, Dr. António Macedo, advogado e director do Ateneu, …

Para estes arquitectos será o início de um conjunto de investigações aplicadas, que partindo dos estudos e das teorias sobre a habitação social, económica ou colectiva, se começa a precisar sobre temas específicos de arquitectura e ainda, sobre as condições do construir, dos novos métodos construtivos e das infra-estruturas económicas da construção, interpretando a tipologia residencial como a "essência" da projectação.

Assume também importante relevo neste período, a definição urbanística do território, pela qual o contexto da disciplina se amplia a zonas mais vastas, com a realização dos primeiros planos de urbanização com uma clara fundamentação funcionalista.

Em Setembro de 1953 realiza-se em Lisboa - a que não é alheia a influência e diplomacia de Carlos Ramos - o III Congresso da UIA (União Internacional dos Arquitectos), criada em Lausanne em 1948, e que irá discutir e debater um conjunto de temáticas que então ocupam os arquitectos no plano internacional, e que de um modo geral se prendem ainda com os problemas da reconstrução gerados pelo conflito mundial, e com a continuidade e a aplicação de ideias elaboradas antes da guerra.

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Assim os temas do Congresso são:

• A formação dos arquitectos.

• A ética profissional.

• O grau e a natureza da colaboração entre arquitectos e engenheiros e artistas plásticos.

• O urbanismo e o urbanista.

• O habitat.

• As construções escolares

• a industrialização da construção, um tema que na época assume particular atenção.

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O Congresso irá permitir aos arquitectos portugueses - numerosos e activos durante os debates - quer um conhecimento directo das experiências de outros quadrantes e dos seus autores - em especial um primeiro contacto directo com os arquitectos dos países socialistas - quer ainda prolongar o discurso interno iniciado em 1948.

É o caso de Arménio Losa e de João Andersen, que apresentam comunicações no tema Habitat, denunciando as condições de habitação de largos estratos da população de Lisboa e do Porto, a ausência de uma Política de Habitação da parte do Estado e reclamando a habitação como um direito.

Na sua comunicação Arménio Losa relativiza ainda o alcance da "habitação mínima", refere a necessidade de um planeamento que tenha em conta os "prolongamentos da habitação" e a importância de inquirir dos utentes as necessidades e a sua evolução para poder responder com diversos tipos de alojamento a essa evolução.

Muitas das teses de Losa serão, aliás, consagradas nas conclusões do Congresso.

Também João Andersen apresenta uma comunicação “Necessidades de uma família: o alojamento”, acompanhada de quadros ilustrativos de um inquérito a três exemplos na cidade do Porto.

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João Andersen - “Necessidades de uma família: o alojamento” – Congresso da U.I.A. Lisboa 1953

A arquitectura portuguesa irá, ainda em 1953, estar representada na importante II Bienal de S. Paulo, numa representação que apenas inclui (e assim consagra) realizações modernas.

Estarão representados o Norte e o Sul do País e ainda as ESBA de Lisboa (Castro Lobo) e do Porto (Rui Pimentel e Augusto Amaral).

Expõe projectos:

arquitectos

projectos

localidade

ano

Rui Atoughia

Habitação

Cascais

1952

Escola primária

Lisboa

1953

Manuel Laginha

Laboratório

Lisboa

1950

A Pires Martins

Habitação

Lisboa

1951

Formozinho Sanches

Bloco de Habitação

Lisboa

1951

Filipe Figueiredo

Bloco de Habitação

Lisboa

1952

José Segurado

Keil do Amaral

Celestino de Castro

Habitação

Porto

1950/52

Januário Godinho

Pousada

Salamonde

1951

Pousada

Caniçada

1953

ARS

Palácio Atlântico

Porto

A Losa/Cassiano Barbosa

Habitação

Ofir Esposende

José Carlos Loureiro

Habitação própria

Gondomar

Agostinho Ricca

Fábrica

Arroteia Maia

fonte Museu de Arte Moderna de S. Paulo

(CONTINUA)

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