Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Os Planos para o Porto – dos Almadas aos nossos dias 3

6. Os planos para a Avenida da Cidade

(Sobre os projectos da Avenida dos Aliados é indispensável o artigo do professor Rui Bastos Tavares - Da Avenida da Cidade ao Plano para a Zona Central. A Intervenção de Barry Parker no Porto, publicado no Boletim Cultural, da CMP vols. 3-4 - 1985-1986 que será citado abundantemente neste texto.)

O Paris fin-de-siècle com os Champs-Élysées, Barcelona com a Gran Via e Lisboa onde se rasga a Avenida da Liberdade, irá provocar no Porto a ideia de abrir uma avenida central que prolongasse a praça de D. Pedro. (sobre Paris, Barcelona e Lisboa ver neste blogue Os Planos para o Porto 2 e Lisboa do Passeio Público às Avenidas Novas).

Localmente a cidade tem no fim do século XIX um conjunto de problemas na área central que urge resolver. A inauguração em 1886 da ponte Luiz I do engenheiro Theophile Seyrig, num momento de desenvolvimento dos transportes públicos urbanos (o “carro americano” vai sendo substituído pelo “carro eléctrico”), dos transportes hipomóveis e quando surgem os primeiros (poucos) automóveis, coloca problemas da articulação da moderna ponte - nos dois tabuleiros- com a cidade e em particular com o seu centro. Apesar das soluções apontadas para ambas as situações por Correia de Barros no seu Plano de Melhoramentos, elas continuam em aberto. (Só serão resolvidas nos anos 50 do século XX, com o túnel da Ribeira e a Avenida da Ponte!).

A chegada do comboio em 1896 à futura Estação Central de Caminho de Ferro de S. Bento, cuja construção se inicia com o século, segundo um projecto de Marques da Silva, influencia os que pensam na necessidade de uma remodelação da zona central da cidade, de modo a dotar o Porto de um Centro à altura da cidade que se quer moderna e cosmopolita.

A praça de D. Pedro, onde desde 1819 se tinha instalado a Câmara, ao longo do século torna-se no centro administrativo e cívico a que se somam as funções de centro comercial e financeiro e centro de distribuição das linhas de transportes públicos. O edifício dos Paços do Concelho, mesmo ampliado para a vizinha casa Alpoim Alão, já não satisfaz as necessidades funcionais e, sobretudo simbólicas, da Administração Municipal.

Rui Tavares no artigo referido salienta que abandonada a hipótese então formulada de instalar a Câmara no Hospital de Santo António, em 1889 é criada uma Comissão composta por engenheiros com o objectivo de localizar o novo edifício da Câmara e do Mercado. Esta Comissão apresenta em finais de 1890 um relatório “ que pode (e deve) ser entendido como o primeiro plano de reforma do centro da cidade”.

E referindo o Relatório da Comissão mostra que esta acaba por decidir a localização dos novos Paços do Concelho “… junto à Praça de D. Pedro depois de ter considerado a hipótese de o implantar no espaço compreendido entre as Praças dos Voluntários da Rainha, de Carlos Alberto e de Santa Teresa; a estrutura urbana do centro da cidade assentaria, então, na localização de três grandes edifícios o Mercado das Carmelitas, em cota mais elevada e a ocidente; os Paços Municipais, ao centro; e a Estação de S. Bento (que aparece já implantada), em cota mais baixa e a oriente.

A articulação entre aqueles três edifícios não poderia continuar a fazer-se pela malha viária que então existia; por isso, a Comissão de Engenheiros entende dever complementar o seu trabalho com, um plano de rectificação e alargamento das ruas existentes junto aos edifícios pro­postos e, por outro lado, um plano de novas ruas a abrir que não só facilitassem o acesso ao conjunto edificado, mas também melhorassem as comunicações entre as partes oriental e ocidental da cidade. Este último propósito encontrava-se resolvido pela proposta de «...abertura de uma nova rua espaçosa, com 16 m de largura, no prolongamento da rua de Passos Manuel, atravessando as ruas de Sá da Bandeira, Bonjardim, D. Pedro e Laranjal, seguindo pela rua dos Lavadouros, cujo alinhamento do lado norte,, se aproveita, e cruzando as ruas da Picaria, de Sá Noronha e das Oliveiras, vai terminar na Praça de Carlos Alberto, no local hoje ocupado pela casa do Conde da Trindade”.(Relatório da Comissão nomeada pela Ex.ma Câmara Municipal do Porto para dar parecer sobre a escolha do local mais conveniente para a construção d’um edifício destinado aos Paços do Concelho e sobre a construção de um novo mercado no terreno das Carmelitas)

Esta ideia é o contributo mais importante do trabalho da Comissão de Engenheiros; trata-se, de facto, da primeira proposta para a principal via de articulação transversal pelo centro da cidade, facilitando a comunicação entre as eminências da Batalha e Cordoaria, em alternativa às ruas de 31 de Janeiro e Clérigos.

É, real­mente, uma ideia definitiva, já que em todos os trabalhos posteriores ela será considerada.” (Tavares, Rui Bastos -Da Avenida da Cidade ao Plano para a Zona Centra. A Intervenção de Barry Parker no Porto.” in Boletim Cultural, da CMP vols. 3-4 - 1985-1986).

O século XX

A. A Proposta de Carlos Pezerat

Carlos Filipe Júlio de Pezerat nasceu no Rio de Janeiro entre 1825 e 1831 datas em que seu pai Pierre-Joseph de Pezerat, "arquiteto particular de Sua Majestade o Imperador" aí se estabeleceu. Em 1840 regressa com o seu pai Pierre Pezerat que em 1852 é "Engenheiro-Chefe do Escritório Técnico da Câmara Municipal de Lisboa" como ele próprio se intitula e em 26 de Fevereiro de 1853, será nomeado Professor Adjunto de Desenho, da Escola Politécnica de Lisboa,cujo edifício lhe é aliás atribuído. (in José Augusto França - “Pierre-Joseph Pézerat (1801-1872) / O Último Arquiteto Neoclássico de Lisboa” (www.vivercidades.org.br/ ). Existe uma versão em francês deste texto.)

Carlos Pezerat em 1865 “formula o pedido de ingresso no Real Corpo de Engenheiros Civis, apresentando um pequeno curriculum onde diz possuir a “prática de Engenheiro Civil” na execução de vários trabalhos entre os quais , em colaboração com os senhores Goullard, a “Planta de Lisboa à escala de 1/500 para a Câmara Municipal. Propôs em 1859 com Francisco e César Goullard a elaboração da Carta Topographica de que irá resultar a planta de 1892 que a Câmara não aceita pois irá abrir em 1866 um concurso. Entre 1881 e 1883 exerce como Director de Obras Públicas de Lisboa no Ministério das Obras Públicas. Em 1883 vai ocupar o lugar de Engenheiro Director da Compagnie Générale des Eaux pour l’Etranger, e fixa residência no Porto.

O “Projecto d’embelezamento” de Carlos Pezerat

Em 1889, Pezerat “Tendo visto na imprensa periódica a apresentação, a propósito da escolha do melhor local para a construção projectada dos novos Paços Municipais, de um plano baseado no rompimento de uma Avenida desde a praça de D. Pedro à da Trindade, procurei traduzir graficamente aquele pensamento, aproveitando para esse fim as elementos especiais fornecidos pêlos estudos a que fui obrigado no desempenho das minhas funções técnicas junto à Companhia Geral das Águas.” oferece à Câmara de uma forma “completamente desinteressada” o “Projecto d'embelezamento da cidade do Porto para servir a edificação aos novos Paços do Concelho e outros edifícios públicos oferecido a Ex.ma Câmara Municipal pelo Engenheiro Carlos de Pezerat”,

Este projecto datado de 30 de Novembro de 1889 está representado na escala de 1/500, tendo por base o levantamento topográfico de Teles Ferreira tem ainda, a Indicação - n.º 2.(O que faz supor tratar-se de uma segunda planta, ou a Carta que então a acompanha ser o n.º 1).

Os objectivos do projecto são consagrados na Carta que Pezerat envia à Câmara e já que a planta apresentada “…acha-se, segundo suponho, instruída por forma a tornar dispen­sáveis quaisquer comentários explicativos, para inteligência do plano con­cebido, podendo até ser facilmente compreendida pelas pessoas menos versadas em assuntos de engenharia.” são condensados num parágrafo:

“..apresentar resumidissimamente as vantagens da obra em relação ao seu primordial objectivo: determinação do local para levantamento dos novos Paços Municipais e outras consequências profícuas que, por derivadas, não são de menor importância, facilidade de trânsito e de comunicação entre os bairros oriental e ocidental, aformoseamento in­dispensável duma parte da cidade que, sendo inegavelmente o seu coração e fórum tradicional, exige agora, com a construção de uma estação de caminho de ferro em S. Bento, condições de perspectiva que impressionem agradavelmente os viajantes e finalmente a modificação das condições higiénicas determinadas pelo ar e pela luz largamente difundidas.” (em itálico citações da CARTA DE CARLOS FILIPE JÚLIO DE PEZERAT DIRGIDA À CÂMARA MUNICIPAL DO PORTO, EM 12 DE DEZEMBRO DE 1889 reproduzida em Tavares, Rui Bastos - Da Avenida da Cidade ao Plano para a Zona Central. A Intervenção de Barry Parker no Porto.” in Boletim Cultural, da CMP vols. 3-4 - 1985-1986).

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Projecto d'embelezamento da cidade do Porto para servir a edificação aos novos Paços do Concelho e outros

edifícios públicos oferecido a Ex.ma Câmara Municipal pelo Engenheiro Civil, Carlos de Pezerat. 1889 6ox123 AHMP

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Segundo Rui Tavares “Dominado pela ideia da Avenida-Jardim, o plano de Pezerat foi conce­bido como um «Passeio Público», na base da forma e alinhamento das duas praças e a sua composição pretende-se subordinada a um eixo Norte/Sul (de simetria apenas na placa central, ajardinada) que unia a entrada da Igreja da Trindade com o monumento a D. Pedro IV.”

Paralelamente a este eixo central que correspondia em parte à rua do Laranjal, e a partir da praça de D. Pedro desenvolviam-se dois percursos até à praça da Trindade. Do lado nascente o percurso corresponderia à rua de D. Pedro, de que se mantinha a edificação a nascente.

(Nota – o Projecto de Carlos Pezerat está orientado no sentido poente. Para uma facilidade de compreensão as imagens do projecto total ou parcial serão orientadas a norte.)

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A Praça de D. Pedro

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A norte, obviamente, seriam demolidos todos os edifícios incluindo os Paços do Concelho, criando a partir da rua de Sá da Bandeira (actualmente Sampaio Bruno) um atravessamento na direcção da rua da Fábrica que constituiria o limite da praça de D. Pedro.

A nascente manter-se-ia a edificação resultante do antigo convento dos Congregados e, do mesmo modo, a sul com o edifício das Cardosas.

Manter-se-ia sem alterações o atravessamento S. António/Clérigos.

A poente seriam recuados os dois quarteirões da Praça, e seria proposta uma rampa, na direcção sul-norte, de acesso à rua da Fábrica.

A placa central onde se encontra o monumento a D. Pedro IV seria corrigida, ampliada e definida por uma arborização ao longo de todo o perímetro, que com a arborização a poente e a nascente definiriam os percursos em torno do monumento, enfatizando a direcção sul-norte.

O Largo da Trindade

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O largo da Trindade seria alargado para sul e nascente. Para acentuar a direcção do eixo central - gerador de toda a composição - e valorizar a Igreja da Trindade como remate a norte da Avenida, seria colocado um Relógio, sensivelmente ao centro do largo. A norte, a confluência das ruas da Trindade, Fernandes Thomaz e do Estevão, formaria um pequeno largo que definiria um remate para a Travessa do Pinheiro do outro lado do Largo da Trindade. O lado nascente seria arborizado, na continuidade da Avenida projectada. A sul o Largo seria definido pela direcção da Rua Formosa prolongada, ou seja pelo prolongamento da rua Formosa até à Trindade.

A placa central

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Como refere Rui Tavares:

“…Ainda que com certo exagero, o uso da vegetação como elemento compositivo é o aspecto mais saliente da proposta de Pezerat. Este concebe uma Avenida subordinada à ideia de um ajardinamento extensivo a toda a área de passeio, que tinha expressão numa larguíssima placa central ladeada por duas ruas de circulação. Nesta placa compunha um «Passeio Público» diferenciando uma ala central, arborizada, de uma zona de grandes canteiros, simétrica à ala central, por onde serpenteavam cursos de água pontualizados por pequenos lagos; a presença da água revela-se um inte­ressante aproveitamento das condições naturais do sítio onde Pezerat propõe a abertura da Avenida tira partido de um dos braços do rio da Vila que por aí passava e que alimentou fontes ao longo desse pequeno vale como, por exemplo, a setecentista fonte d'Arca, integrada na antiga Praça das Hortas. Um conjunto de estátuas, coretos e pequenas pontes, animavam romanticamente os diferentes percursos deste «Passeio Público.”

As ruas transversais e o atravessamento poente-nascente

No lado nascente da Avenida proposta desembocariam as já referidas ruas Fernandes Thomaz, do Estêvão, Formosa prolongada, e ainda a rua da Cancela Velha, a Travessa dos Congregados, e a também já referida Rua de Sá da Bandeira. No lado poente as já referidas Travessa do Pinheiro e Rua da Fábrica.

Uma das novidades mais interessantes do “Projecto d’embelezamento” seria a criação de uma nova ligação entre a zona oriental e a zona ocidental da cidade, até aí feita exclusivamente pelo eixo Santo António-Clérigos.

Pezerat propunha substituindo a rua dos Lavadouros, uma “rua de Passos Manuel prolongada” de que apenas são apontados os arranques a partir da Avenida, mas que se advinha do lado poente o seu prolongamento até à Praça Carlos Alberto. Serão as futuras ruas de Elísio de Melo e de Ceuta.

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Os edifícios públicos

Todo o quarteirão entre a Rua de Passos Manuel prolongada e a Travessa do Pinheiro seria, no projecto de Carlos Pezerat, ocupado por três grandes edifícios separados por pátios onde se ergueriam do lado da rua do Almada alguns outros edifícios complementares. De norte para sul seguindo uma hierarquia administrativa o poder central, o poder municipal e o poder local. De notar que para afirmar a “monumentalidade” destes edifícios a arborização é interrompida em frente da fachada voltada para a Avenida.

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A Norte destinado à Administração Central, o edifício do Governo Civil e Fazenda, tendo anexo no pátio e abrindo para a rua do Almada, o edifício destinado ao Corpo da Guarda.

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Ao centro o edifício com um amplo pátio interior, destinado à Câmara Municipal do lado da Avenida e a Bibliotheca e Museu abrindo para a rua do Almada.

A norte e a sul os dois pátios que separam os três edifícios, tendo no pátio sul, centralizado por um lago, os edifícios dos Bombeiros e o pátio a norte os Serviços para a Expropriação dos Terrenos (?)

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A sul e ocupando sensivelmente o terreno onde nos anos 30 do século 20 se irá instalar a Sede e a Garagem do jornal “O Comércio do Porto” era proposto um edifício destinado à Administração do Bairros.

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Este projecto, oferecido à Câmara, recebeu desta apenas uma consignação na acta da sessão de 14 de Dezembro de 1889 de que fora recebido com apreço e num ofício enviado pela Comissão a Carlos Pezerat em 16 de Dezembro que ” … recebeu aquele trabalho com apreço que merecia e agradece a V. Ex.ª o interesse que toma pelos melhoramentos do Porto”. (citado por Rui Tavares em Da Avenida da Cidade ao Plano para a Zona Central…)

De facto, pese embora a qualidade da proposta de Pezerat, ela não vinha ao encontro das expectativas da Câmara, já que situava o edifício dos novos Paços do Concelho (e os outros edifícios públicos) numa posição marginal em relação à Avenida e subalterna à Igreja da Trindade.

Mas o projecto de Carlos Pezerat, como afirma Tavares “…tem o mérito de fixar a primeira imagem da Avenida, imagem essa que acabaria por influenciar definitivamente a proposta final…”, abrindo caminho para a decisão de demolir o edifício da praça de D. Pedro e rasgar definitivamente um Avenida Central.

O século XX

Em 1907 é eleita a “Lista da Cidade”, de que fazem parte Jaime Cortesão, Duarte Leite e Xavier Esteves. Estes vereadores com os técnicos da 3.a Repartição (serviços encarregados dos arruamentos e das obras municipais) elaboram um estudo para a área central da cidade reconhecendo que “...o rasgamento de novas Avenidas na cidade deve obedecer às vantagens de um plano geral de arruamentos e melhoramentos...” e propõem uma sequência de Avenidas: “...da Praça da Liberdade à Trindade; da Trindade à Praça da República; da Praça da República à Praça Carlos Alberto; da Praça Carlos Alberto ao Palácio”. (Tavares, op.cit)

Anos mais tarde, nos finais de 1914 e na I República, o então vereador do Pelouro de Obras, Elísio de Melo, provavelmente tendo presente estas propostas, lança um concurso público para o “Plano de Melhoramentos e Ampliação da Cidade do Porto”, que se pretendia “...elaborado em conformidade com os princípios da moderna arte de construção das cidades, tendo-se em vista as circunstâncias locais...” e cujas propostas se­riam apreciadas “...em mérito absoluto e relativo, sob o quintuplo ponto de vista higiénico, técnico, artístico, económico e social por uma comissão idónea (...) da qual fará parte, sê esta comissão executiva o tiver por bem, um profissional estrangeiro de nome consagrado nesta arte”. (Acta da sessão de 31 de Dezembro de 1914 da Comissão Executiva – Tavares op. cit.).

O mesmo Elísio de Melo irá orientar a 3.a Repartição Técnica na elaboração de um processo “Praça da Liberdade e Trindade. Projecto de uma Avenida ligando estas Praças” de que faz parte um projecto para a abertura da Avenida da Cidade, datado de 18 de Janeiro de 1915, colhendo o visto do Vereador responsável Elísio de Melo em 20 de Janeiro e apresentado à Câmara e aprovado em 3 de Fevereiro de 1915.

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(Nota – o Projecto da Avenida da 3.ª Repartição está orientado no sentido poente. Para uma facilidade de compreensão será orientado a norte.)

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O processo de que esta planta faz parte, “…revela-se um documento muito interessante para a história da forma urbana do Porto, pois contém elementos cadastrais de grande importância sobre a zona central, desde os nomes dos proprietários das construções, às funções e cérceas.” (Tavares, que aliás enumera e nomeia alguns dos proprietários das parcelas a expropriar bem como as cérceas dominantes.)

Apesar de ser uma das preocupações centrais da Câmara e um dos objectivos do plano, não se indica a localização do edifício dos Paços do Concelho. Mas de novo, demolindo a Casa da Câmara a norte da Praça (agora) da Liberdade, se retoma a ideia de uma Avenida até à Praça da Trindade, com 55 m de largura e 489 m de extensão, alinhando a nascente pela rua de Elias Garcia (antiga rua de D. Pedro) e a poente sensivelmente pela Travessa dos Laranjais. Repete-se, também, o desenho de Pezerat no prolongamento da rua Formosa até à Avenida e do prolongamento da rua de Passos Manuel, como atravessamento principal da Avenida, em direcção a Carlos Alberto.

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O processo incluía uma maquete que acrescenta à planta alguns elementos, como a vegetação no eixo da Avenida e na praça da Liberdade.

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A Maquete tem uma legenda com “Projecto da Avenida entre as Praças da Liberdade e da Trindade”. Estão colocados pequenos letreiro apontando os arruamentos: à esquerda “rua do Almada”, à direita “rua do Bonjardim”, e no segundo plano de poente para nascente “Prolongamento da…Rua de Passos Manuel”

Na maquete é também evidente a preocupação do projecto de diferenciar o espaço da Praça da Liberdade do espaço da Avenida. A Avenida é traçada com uma largura menor que a da Praça, valorizando os cunhais arredondados dos edifícios, que a poente e a nascente fazem o arranque da Avenida.

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Aprovado em Fevereiro de 1915, a maquette do projecto é publicada em 29 de Março de 1915 na “Illustração Portugueza” 2.ª série – N.º 475.

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No texto - “A Avenida da Liberdade no Porto. – A camara municipal do Porto, por proposta do seu vereador sr. Elisio de Melo, vae embelezar aquela cidade com mais um melhoramento que muito contribuirá, decerto, para o se aformoseamento. Esse melhoramento consiste na abertura de uma avenida que vae desde a Praça da Liberdade (antiga Praça Nova) até ao largo da Trindade, cujo topo é formado pelo belo edifício da Ordem Terceira, que tem n’ele instalados o seu hospital e a sua egreja.”

Na legenda – “No Porto: - Projeto em relevo, da nova Avenida da Liberdade, compreendido entre a P. Da Liberdade e o L. da Trindade. – (Cliché A. Martins).”

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Ainda seguindo o professor Rui Tavares:

Este projecto irá ser apresentado a uma Comissão Técnica de que faziam parte o Gaudêncio Pacheco, Casimiro Barbosa, Aníbal de Barros, o arquitecto Miguel Ventura Terra (que parece não ter comparecido), os membros da Comissão Municipal de Estética (entre eles Marques da Silva), o primeiro oficial-arquitecto municipal Correia da Silva e o “…ilustre técnico inglês que se encontra no Porto a convite da Câmara...” Barry Parker.

A presença de Barry Parker nos trabalhos da Comissão indicia o convite que então se formulará para o ilustre técnico inglês se encarregar de elaborar ele mesmo o Plano da Avenida. Assim o projecto da 3.ª Repartição, embora aprovado e publicitado, é esquecido em detrimento do Plano de Barry Parker.

(CONTINUA)

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