Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Os Planos para o Porto – dos Almadas aos nossos dias 4

Barry Parker – Do Plano da Avenida ao Plano da Área Central

(Sobre a intervenção de Barry Parker refere-se de novo o indispensável trabalho de Tavares, Rui Bastos -Da Avenida da Cidade ao Plano para a Zona Centra. A Intervenção de Barry Parker no Porto.” in Boletim Cultural, da CMP vols. 3-4 - 1985-1986 e ainda Nonell, Anni Günther, Avenida dos Aliados 1914/1952 n.º 2 do Guia de arquitectura moderna, Porto 2001)

O “ilustre técnico inglês” Barry Parker chega ao Porto na última semana de Agosto do ano de 1915, (faz agora precisamente 95 anos!) a convite da Câmara para fazer parte da Comissão Técnica que iria apreciar o plano da 3ª Repartição Técnica.

Quem era Barry Parker ?

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Richard Barry Parker nasceu próximo de Chesterfield, Derbyshire (Inglaterra) e frequentou a South Kesington Art School (1886-1887). Continuou a sua aprendizagem em Manchester, com o arquitecto George Faulkner Armitage (1849-1937), mudando-se mais tarde para Buxton (1895) onde inicia actividade com o primo em segundo grauRaymond Unwin (1863 - 1941). Mais tarde tornar-se –ão cunhados pelo casamento de Raymond Unwin com Ethel irmã de Barry parker.

Sócios até 1914, ambos eram Socialistas Cristãos, envolvidos na Liga Socialista de William Morris (1834-1896) e, mais tarde, membros (como Bernard Shaw e H.G. Wells) da Fabian Society uma organização fundada em 1883 no Reino Unido que pugnava por uma reforma social e uma sociedade mais justa, e lutava contra a exploração e a miséria provocadas pelo capitalismo, cujo nome se devia ao general romano Quinto Fabio Maximo célebre por lutar contra os exércitos de Aníbal utilizando táticas de desgaste. Numa época em que Karl Marx defendia a transformação revolucionária da sociedade os fabianos acreditavam numa evolução gradual para uma sociedade socialista, ideias explicitadas em 1889 nos "Ensaios Fabianos".

Barry Parker e Raymond Unwin tornam-se conhecidos ao planear entre 1903 e 1904 Letchworth, a primeira “cidade-jardim”, concretizando as teorias de Ebenezar Howard (1850-1928) e por projectarem os Hampsted Garden Suburb (1905-1907). Em 1901 editam juntos «The Art of Building a Home»; Barry Parker, entre 1910 e 1912, publica em «The Craftsman» uma série de 29 artigos intitulados «Modern Country Homes in England» e, em 1940, escreve sobre «Sir Raymod Unwin».

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Plano de Letchworth

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Detalhe da área central do Plano de Letchworth

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Vista aérea de Letschworth

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Uma zona residencial em Letschworth

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Os Hampsted Garden Suburb

"A sociedade dissolve-se formalmente em 1914 quando Unwin ocupa o cargo governamental de inspector-chefe do planeamento urbano; Parker possegue, então, uma prática privada alcançando uma reputação interna­cional como «town-planner».

Essa projecção internacional fá-lo deslocar-se para fora de Inglaterra onde desenvolve trabalhos de planeamento urbano; para além do realizado em Portugal, a convite da Câmara do Porto, nos anos de 1915 e 1916, desloca-se ao Brasil onde projecta, entre 1918-1920, a cidade nova de Pacaembu, perto de S. Paulo." (Tavares, op.cit)

Barry Parker no Porto

Barry Parker permanecerá no Porto até ao final do ano de 1915, e aqui elaborará o projecto para a Avenida. Depois, já em Inglaterra em 1916 ampliará o seu plano da ponte Luiz I até à zona norte da praça da Trindade.

Desta sua estadia no Porto ficou-nos um documento da Câmara Municipal do Porto “Memórias sobre a projectada Avenida da Cidade (Da Praça da Liberdade ao Largo da Trindade) pelo engenheiro Barry Parker, Porto, Setembro de 1915, Typographia a vapor da Empresa Guedes, 244, Rua Formosa, 248 – Porto. O documento apresenta dois desenhos (um do plano de Barry Parker para o conjunto da Avenida e envolvente; e o outro da Avenida dos Aliados tal como será efectivamente construída), três textos de Barry Parker referindo a evolução do projecto da Avenida, a “Acta da última reunião de Technicos, promovida pela Camara Municipal, para apreciar o projecto da Avenida da Cidade” e ainda a “Resposta do auctor do projecto Snr. Parker, às considerações feitas pelos technicos, as quais consistem da acta da última sessão”. Embora este documento esteja datado de Setembro quer os desenhos quer os textos nele contidos indiciam que a publicação é posterior.

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Barry Parker no primeiro texto começa por resumir as críticas então avançadas sobre o plano existente na CMP:

“…que nem era uma Avenida nem uma Praça — larga de mais para Rua tão curta, e comprida de mais para uma Praça. Alem de que destruiria a vossa bem proporcionada Praça da Liberdade, que desappareceria mesmo, egual sorte tendo a que esperava a Praça da Trin­dade. Tudo isto sem vantagens compensadoras.”

De seguida apresenta as condicionantes que fundamentam os seus primeiros estudos:

“..O problema que me deram para resolver, afigura-se-me da seguinte forma: Abrir uma Avenida larga, que deverá ser, antes que tudo, muito dignificante.

Abrir e alargar uma parte da cidade que está muito congestionada.

Proporcionar sítios convenientes para que a collocação de edifícios de valor, es­tatuas, etc., possa contribuir devidamente para a decoração da vossa Avenida, comple­tando-a na sua concepção architectural. Ao mesmo tempo, de cada ponto de vista se deverá destacar um quadro agradavelmente proporcionado em comprimento, altura e largura, sem prejuízo da ideia de grandeza ou da impressão de amplidão.

Senti que era de meu dever melhorar e não destruir a boa forma e as proporções das vossas praças da Liberdade e da Trindade, augmentando mesmo, em cada uma d'ellas, a impressão de encerramento e protecção a que os planeadores de cidades dão tanta importância, quando tratando de praças como estas.”

Justifica ainda os seus estudos compreendendo as preocupações da Câmara de criar um amplo e higiénico espaço que funcionasse como Centro:

“…o essencial seria rasgar o centro da cidade e crear um verdadeiro Centro Cívico; vejo que tudo fizestes em obediência ao propósito de salubrisar e ao mesmo tempo dignificar a cidade, e vejo-vos ainda bem scientes de que isto se não faz deitando abaixo ruas estreitas e insalubres para as substituir por outras quasi egualmente estreitas, e que, porventura, viriam a tornar-se também insalubres.”

Parker afirma então a necessidade, para se chegar a uma boa e económica solução, de compreender o sítio tal como seria se não existissem as edificações:

“O planeador de cidades chamado para remodelar uma área já coberta com casas, tem, primeiro, que resumir o que teria sido a configuração do terreno antes de edificado. D'ahi tirará guia e inspiração para o seu trabalho. D'ahi lhe virá a mais fecunda fonte de encantos, e para que o seu plano seja de todo feliz, preciso é que o planeador tire todo o partido possível da primitiva conformação do terreno. Deste modo elle poderá, com maiores probabilidades, chegar a fixar o que de mais vantajoso possa fazer-se sob o ponto de vista económico, a tirar maior proveito do dinheiro a gastar-se e ainda a obter por um custo mínimo logares planos para os edifícios de maior importância — poderá, em summa, realisar o que mais convém pelo modo mais natural e feliz.” E resume o sítio da seguinte forma: “Um pequeno valle ou depressão na encosta d?um monte. A parte inferior d'este valle está agora tomada pela rua do Laranjal, de sorte que os sítios mais planos ficarão onde este valle termina, na Praça da Liberdade, e nas linhas diagonaes que cruzam com as linhas de maior declive das vertentes d'esse valle ou depressão.”

E de seguida, passa a descrever e fundamentar esta sua primeira proposta em que colocava o novo edifício da Câmara Municipal a Sul da Avenida, separando esta da Praça da Liberdade através de um arco que permitia conservar o eixo visual, “…a vossa vista que vae da estatua no centro da Praça da Liberdade até á torre na Egreja da Trindade”

“Esta vista, assim cerceada, será muito mais encantadora, pois que, quando se passar em volta da Praça da Liberdade, ella nos surge inesperadamente atravez d'um arco praticado nos , edifícios municipaes. Fechando em parte a vista ao confinar com a Praça da Trindade, elimina-se por completo todo o desaire, que, como já referi, deriva do desagradável angulo que a Egreja da Trindade faz, com o eixo da Avenida. Em vez de se obter uma vista de toda a frente da Egreja, eu apanho somente a vista da porta principal e da torre, pouco importando, portanto, e sendo até preferível talvez, que estas se vejam de perfil.”

O projecto seria completado “…por crescentes, ou formas de meia lua, uma das quaes poderia destinar-se, por exemplo, para um bom hotel. Nos declives, para o pequeno valle, collocaria eu o ajardinamento que vós me sugeris para o centro da Avenida. No fundo do pequeno valle ou depressão, faria um passeio largo entre urna avenida d'arvores.”

Do mesmo modo o Largo da Trindade “Apezar de muitas ruas desembocarem n'esta Praça, duas das novas (as mais importantes), tem as vistas, ao fundo d'ellas terminadas pelo configurado saliente dos dois crescentes, restabelecendo assim o effeito do encerramento da Praça. Também uma das principaes ruas, que sahem d’esta Praça, fica construída na principal,linha axial da Egreja da Trindade, o que contribue para regularisar a apparencia da Praça.”

E Barry Parker termina esta sua primeira intervenção: “Se V. Ex.as virem que podem levar por deante estas suggestões, posso com a maior confiança assegurar-lhes que o resultado será o terem para a vossa cidade uma Avenida mais digna do que a proposta e que não parecerá como poderia parecer, estar por completo fora de escala com as suas visinhanças. Hade melhorar em vez de amesquinhar a Praça da Liberdade, e a Praça da Trindade não parecerá confinar desairosa­mente com as edificações do lado sul da Praça da Liberdade, ou com a Egreja da Trindade, e dar-lhes-ha, de facto, o Centro Cívico que pretendem.”

Este primeiro estudo é criticado pelo engenheiro Joaquim Gaudêncio Pacheco (tinha sido o engenheiro chefe da 3ª Repartição e autor entre outros projectos do bairro do Bonfim em 1904) e por Marques da Silva (que então já havia realizado entre outros o projecto da Estação de S. Bento, o Bairro do Monte Pedral, o Teatro S. João, os liceus Alexandre Herculano e Rodrigues de Freitas e projectava os Armazéns Nascimento), críticas essa que Barry Parker aproveitará para reformular o seu projecto para a Avenida, que se aproxima agora da forma definitiva.

(Sobre Marques da Silva é fundamental o livro do professor António Cardoso, – O Arquitecto José Marques da Silva e a arquitectura no Norte do País na primeira metade do séc. XX, Faup 1997, onde se poderá encontrar não só a vida e a obra do arquitecto mas a vida e a evolução da cidade entre os finais do século XIX e os meados do século XX).

No segundo texto de Barry Parker ele vê com agrado “…a possibilidade de se abrirem mais ruas atravez da Nova Avenida, de Leste para Oeste, ou diagonaes de Nordeste a Sudoeste, e a relação em que estas ruas deveriam ficar para com a Avenida.”

E constata:

“Que todas as suas linhas de trafico convergem para dois pontos altos; que as principaes estradas, vindas do campo, tomam a mesma direcção, e que o único meio de ir d’um d’estes pontos para o outro, é descendo uma rua muito accidentada até á Praça da Liberdade para subir outra, egualmente íngreme, que parte da mesma Praça. Notei tam­bém que a maior parte das ruas, nas visinhanças da Avenida, teem a direcção de Norte Sul, sendo cruzadas por vias mais curtas, de Leste para Oeste. Que entre estas a única continua atravez d’esta área, é a formada pelas ruas 31 de Janeiro e dos Clérigos, e, final­mente que nesta área não ha ruas diagonaes.”

Para estas propõe “…que as ruas diagonaes deveriam atravessar a Avenida junto do seu extremo Norte, afim de que para ahi afflua a circulação” e “…que, passando por ahi, ficarão quasi ruas planas, cor­rendo em direcções dos lados de Leste e Oeste que fornecem caminhos alternados entre os dois pontos importantes da cidade, já por mim apontados, evitando a descida e subida do valle.”

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O projecto de Barry Parker e os projectos alternativos de Marques da Silva 1915

Barry Parker aceita ainda a sugestão de Marques da Silva o qual tinha num “…croquis expli­cativo” indicado “…que o edifício deveria ser precedido de uma praça de honra que constituiria o parvis municipal.” Assim considera “…que a Camara Municipal poderia ser edificada ao lado Norte da Avenida em vez de o ser ao Sul.” e “…deverá ficar n’um ponto d’onde domine toda a Avenida, ou seja no ponto mais alto d'ella. Se para o edifício se olhasse de um ponto mais alto da avenida, o effeito não seria tão digno. Penso egualmente que, com esta disposição, a parte Norte da Avenida, que parecia talvez vir a ser menos concorrida, ganhará muitíssimo com a visinhança da Camara Municipal, adquirindo, por isso, maior valor os terrenos ahi, visto que a Camará, attrahindo a si muita gente pelas suas múltiplas funcções, faz augmentar o trafico e a concorrência.”

Esta localização da Câmara Municipal tornar-se-á definitiva.

Neste mesmo texto Barry Parker debruça-se sobre a forma e a localização da Torre do Relógio “…uma torre de Relógio, hexagonal, com mostradores para os lados de cirna e de baixo e para cada uma das 4 ruas radiaes. Colocada a sul “…não dividia a Avenida” e pela disposição das ruas “…a torre do relógio não parecerá uma cousa collocada no meio d'uma longa rua mas será vista como um ponto terminal contra um fundo formado pelos prédios.”

E a propósito da torre do relógio e de que ela não deveria ser colocada no edifício da Câmara, coloca pela primeira vez a questão do conflito arquitectónico, mas sobretudo ideológico entre o poder Municipal e a Igreja.

“Sou de parecer que não se deverá pôr uma torre sobre o próprio edifício da Camara Municipal. Uma torre alli collocada ficaria próxima de mais da torre da Egreja da Trindade para ter bom effeito architectural —de muitos pontos se veria a torre da Trindade apparecer por cirna da Camara Municipal, e portanto a torre da Camara estaria na linha directriz da Avenida e teria, fazendo-lhe concorrência, outra torre ainda mais alta, o que faria confusão e seria de mau effeito.”

Como sabemos sucederá precisamente o contrário e a torre da Câmara (com o relógio) elevar-se-á acima da torre da Igreja da Trindade!

No texto n.º 3 Parker debruça-se sobre “…a nova Praça ou Largo, com a qual a Camará defrontará” que coloca “…num ponto e n'um angulo pelo qual posso, com a mínima alteração na existente conformação do terreno, nivelar o Largo de Leste para Oeste, ficando também a sua área central nivelada do Norte para o Sul” e “…que as cornijas de todos os edifícios que cerquem esta Praça tenham o mesmo nível. Esta Praça tem uma perfeita forma symetrica, assim como também a tem a Praça da Trindade, cortada a meio pela linha d'eixo da Egreja da Trindade.”

E sobre o próprio edifício da Câmara que “…deverá ser de frente dupla, dando d'um lado para a nova Praça e do outro para a Praça da Trindade. Fica dominando por completo todo o plano.”

E volta a referir a importância arquitectónica da Igreja da Trindade para justificar o seu projecto dos Paços do Concelho:

“…Pondo inteiramente de parte a opinião ou sentimento que haja, na mente de algu­mas pessoas, sobre a Egreja da Trindade, como Egreja, qualquer projecto seria condemnado architecturalmente que não reconhecesse a plena importância ligada a qualquer edifício (sem olhar á sua applicação ou objectivo) da grandeza d'esta Egreja, possuindo uma torre e estando situada como está.”

Por último neste documento “Memórias sobre a projectada Avenida da Cidade” é publicada Acta da última reunião da Comissão de Técnicos, realizada em 11 de Outubro de 1915, e presidida pelo Vice-Presidente da Comissão Executiva do Município, e em que estiveram presentes João Grave e Júlio Ramos membros da Comissão de Estética, Elísio Mello, Vereador do Pelouro de Obras, Barry Parker, que tinha como interprete Albert Kendall, Anibal de Barros, engenheiro-Chefe da 3.a Re­partição, Correia da Silva, arquitecto municipal, e o arquitecto Marques da Silva e a “Resposta” de Barry Parker às considerações formuladas nessa reunião.

É referido “…que o projecto apresentado ao exame da Commissão era o terceiro que o Snr. Parker elabo­rava…” o que mostra a evolução do trabalho realizado em cerca de mês e meio por Barry Parker em colaboração com a Comissão. Marques da Silva, que mais tarde terá um papel importante na configuração final da Avenida dos Aliados formula as seguintes objecções :

“a) O eixo principal da avenida não deve convergir ao eixo da fachada da egreja mas ao cruzamento dos eixos da Praça da Trindade, provindo d'ahi um desvio, para o poente, do eixo principal citado. Com esse desvio evitar-se-ha que fiquem na mesma recta um por de traz do outro, os dois edifícios da Camara e da egreja, ambos importantes e cuja sobreposição na vista perspectiva, seria desagradável. Da indicada deslocação do eixo poderá resultar ainda mais ampla communicação entre a avenida e a Praça da Trindade e a modificação da forma d'esta ultima Praça, em que desappareça o inconveniente do pro­jecto— ter o alinhamento da fachada posterior da Camara em angulo, isto é, em linha quebrada.

b) Entendo que a Praça Municipal não deve ser ajardinada, como está no projecto, mas de circulações mais amplas e de differente caracter architectonico. A parte restante da avenida, comquanto ajardinada, também é minha opinião dever sel-o de modo diverso do indicado no projecto.

c) Seria utilíssimo projectar o alargamento da rua Formosa do lado norte, e esse resultado poderá obter-se, senão de um jacto, pelo menos á medida que novos prédios se edifiquem ou se modifiquem os actuaes.

d) Do angulo norte-poente da Praça da Trindade poderá ser lançada uma rua á Praça da Republica, o que constituiria um ponto de vista para o futuro monumento á Republica que n’elle se pretende erigir.”

É decidido fazer “…uma maquette da planta do Snr. Parker, cor­rigindo-se n'esta qualquer incorrecção que a mesma maquette porventura accuse.”

Finalmente

“Quanto ao futuro edifício dos Paços do Concelho, a Camará abrirá concurso, ern tempo opportuno, entre os architectos, para a sua realisação, nomeando-se um jury competente que terá de seleccionar a mais bella planta.”

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Planta apresentada na Memória e que corresponde ao 2º projecto de Barry Parker.

Nesta linha de pensamento, Barry Parker proporá uma nova solução, com duas ruas diagonais, de um e outro lado da Avenida, articulando-a respectivamente com a rua de Sá da Bandeira e a Praça de Santa Teresa, e divergindo a partir da zona fronteira ao edifício municipal; uma vantagem acrescida era o partido que o seu traçado procurava tirar do movimento do terreno, já que a implantação destas artérias era praticamente de nível. Assim, tornar-se-iam alternativas à circulação transversal redu­zindo os movimentos dos pendentes entre a Avenida e as eminências da Batalha e da Cordoaria.

O último documento é interessante pelas justificações que Barry Parker dá do seu projecto, em resposta a Marques da Silva.

Quanto à possibilidade de prolongar a Avenida para norte, demolindo ou contornando a Igreja da Trindade responde Barry Parker:

“…Mas qualquer pessoa, na preparação d’um projecto, deve ter em vista a possibilidade da Egreja da Trindade poder deixar de ali estar, e que poderá chegar o dia em que será necessário prolongar a Avenida em direcção Norte, com ou sem a demolição da Egreja. Todas as condições (e em particular a formação do terreno) dão como mais prático á Avenida cortar para leste, quando se fizer a extensão, e na direcção da Praça do Marquez de Pombal, de modo que, a forma dada agora á Praça da Trindade deverá ser uma que facilite uma mudança na direcção da Avenida naquelle ponto, se, ou quando for extendida. Todos os pareceres do Snr. Marques da Silva parecem ter sido dados sem tomar na devida conta este ponto, ou talvez com a ideia que a fazer-se um prolongamento da Avenida, a qualquer tempo, ou seria n’uma linha recta ou voltando para oeste na direcção da Praça da Republica. Isto, certamente, nunca seria suggerido, attendendo ao custo da obra, ás difficuldades das cotas e ás inclinações das ruas.”

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detalhe da planta anterior da Praça da Trindade e da Praça da Câmara, em que foi salientada a edificação proposta.

Quanto à objecção d) de Marques da Silva “…uma rua que partindo do angulo N. O. da Praça da Trindade iria dar á Praça da Republica. Uma chegada a esse ponto será o sufficiente para vos convencer que o corte d’essa rua (senão de todo impossível) não seria aconselhado por qualquer engenheiro que realizasse a sua difficuldade. O Snr. Marques da Silva falla d'esta rua como abrindo um golpe de vista desde a Praça da Trindade até ao monumento que se tenciona levantar na Praça da Repu­blica, não reconhecendo que, entre estes dois pontos, ha uma grande elevação no terreno, o que impossibilitaria o vêr-se de um ponto para o outro.”

Sobre a “…nova rua diagonal, em direcção a Nordeste, partindo do ponto em que a rua Formosa desemboca na nova Praça e terminando na parte Norte da Praça do Bolhão e rua de Fernandes Thomaz, em vez de propor o alargamento da rua Formosa. Fiz isto porque uma rua com este corte facilitaria muitíssimo o trafico, emquanto que as expropriações custariam menos que o alargamento da rua Formosa, por motivo do corte ser quasi todo feito atravez de quintaes.”

A eliminação da passa­gem de peões, da Praça da Câmara para a rua do Almada correspondendo no lado oposto à entrada da rua Formosa, é eliminada contra a opinião de Marques da Silva. Parker justifica-se evocando argumentos de ordem financeira: “Eu estou de accordo que, como effeito architectural, a Praça ficou prejudicada. Mas foi considerado que esta curta passagem, entre a Praça e a rua do Almada, não offerecia sufficientes vantagens práticas para justificar a perda de chãos para edificações e que o defeito architectural não era tão importante como a parte financeira que se obteria.”

Ainda sobre a Praça da Câmara:

Sobre os edifícios em crescente : “Parece-me que se tem discutido os crescentes que occupam, um o N. E. e o outro o N. O. da proposta Praça e devo esclarecer que estes foram propostos por motivo das vantagens que offerecem; estas vantagens são que: quando se passa deante de um largo que tenha os seus cantos arredondados passa-se perante os edifícios; mas quando os can­tos do largo não são arredondados o trafico passa atravez dos cantos, deixando os edifí­cios, que formam os ângulos interiores, a perder de vista. Os chãos que assim ficam nunca teem o valor que deviam ter, e casas, nesses ângulos e cantos, são desagradavelmente devassadas pelas outras que lhe ficam em angulo recto e uma casa n’um canto não faz frente para a Praça. Á parte estas considerações parece-me que os crescentes hão-de dar um bonito effeito architectural ao projecto.”

Sobre a pavimentação: “Algumas pessoas são de opinião que a Praça em frente á Camara deveria ser calce­tada sem ter nenhuma parte ajardinada. Eu approvo a ideia mas não devemos perder de vista as desvantagens que teem grandes áreas de terreno calcetado, ou mesmo em forma de mosaico: o reflexo do sol, de verão faz calor, e a sua vista de inverno é triste. Ajardinar uma parte da Praça, sem duvida a tornaria mais agradável; a questão é se isso destruiria o seu effeito para reuniões publicas. Espero no emtanto que se permitta a plantação de sufficientes arvores para haver sombra e dar relevo á Praça.” (Algo com muita actualidade!)

O Projecto para a Avenida da Cidade de Barry Parker publicado em “The Builder” 1916

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Oporto Civic Centre: Bird’s eye View looking towards the Praça da Liberdade

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Na cartela à esquerda

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Na cartela à direita

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Na parte inferior da perspectiva

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A maquete vista do sul.

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A maquete vista do Norte

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Barry Parker toma por base da geometria da sua composição urbana o eixo que liga o centro da fachada da Igreja da Trindade à estátua de D. Pedro IV na Praça da Liberdade.

De seguida traça a partir desta estátua um a paralela à rua do Almada, que definirá a abertura da Avenida em direcção à Câmara.

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De seguida, define o espaço da Avenida pela transposição para nascente de um eixo simétrico em relação ao eixo central.

A Norte da Avenida completa o losango definindo dois lados que se encontram no centro da fachada da Igreja. Estes lados do losango definem a poente e a nascente a implantação do edifício da Câmara.

A geometria dos traçados é completada pelas transversais, duas na direcção e enquadrando o edifício da Câmara, as futuras ruas Ramalho Ortigão e Rodrigues Sampaio e mais a sul o atravessamento principal poente-nascente, constituído pela rua Passos Manuel prolongada, fazendo uma inflexão simétrica a partir do eixo central. Serão, sem seguir esta simetria, as futuras ruas Magalhães Lemos a nascente e Elísio de Melo e rua de Ceuta a poente.

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Simetricamente à entrada da rua Formosa era criada uma passagem pedonal com que Barry Parker completava o esquema. Embora retirada da proposta final apresentada na CMP, ela está ainda desenhada na planta publicada no “The Builder”.

A Praça da Trindade

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Porto — Egreja da Trindade I. Newton / A.«O Occidente», 9, 1886, p. 252 «Segundo uma photographia de E. Biel»

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A Praça da Trindade é organizada por Barry Parker de forma octogonal, a partir da utilização de um modo muito subtil, da presença dominante da torre da igreja da Trindade, dos eixos da Avenida e dos arruamentos existentes.

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A Praça do Município

“…a Praça Municipal, enquadrada pelo edifício da Câmara, cuja implantação no topo Norte dominava toda a composição. Esta acha-se rigorosamente submetida ao princípio da sime­tria axial, tirada ao eixo que unia a estátua de D. Pedro com a torre da Igreja da Trindade, integrando o próprio edifício da Câmara. Procura ga­rantir-se uma clara identidade urbana das áreas em que o projecto se estruturava, ou seja, nunca se perder a noção de que a avenida liga duas praças. Para tanto contribuía o traçado proposto para a avenida, não em linhas paralelas, mas convergentes no sentido da Praça da Liber­dade, assegurado a sua contensão. Também para a Praça Municipal se procurava essa mesma contensão, ao introduzir uma descontinuidade nos alinhamentos da avenida e da praça; enquanto no caso da avenida os alinhamentos se aproximavam do eixo central da composição, na praça eles afastavam-se.”

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Barry Parker organiza cuidadosamente a praça do Município, procurando enquadrar o edifício dos Paços do Concelho com os Crescentes, utilizando o seu raio de círculo como gerador de toda a praça. Mantém nesta proposta a passagem pedonal para a rua do Almada.

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Projecto para o mobiliário urbano da praça do Município

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Cria ainda uma praça redonda no encontro da rua Formosa com a rua do Bonjardim, criando uma rua na direcção do Mercado do Bolhão e da rua Fernandes Tomás.

O edifício da Câmara

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Projecto para o edifício dos Paços do Concelho por Barry Parker AHMP

Barry Parker com o edifício da Câmara, procura dominar toda a composição, e simultaneamente respeitar a igreja da Trindade. Por isso cria um edifício de dois pisos e um mezanino, implantado numa forma trapezoidal centrada no eixo principal da composição e definida pelos traçados propostos para a articulação das duas praças entre as quais se situava. A torre da Trindade surgiria por detrás dando a ilusão de pertencer ao próprio edifício para quem subisse a Avenida.

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detalhe superior do Projecto publicado no “The Builder”

A fachada principal com um pórtico era enquadrado por dois corpos onde se abriam duas portarias correspondentes aos dois pisos e ao mezanino, encimados por frontões com um óculo, utilizando Parker, como em todas as edificações que projectará para o Porto, uma linguagem inspirada no neoclássico portuense, aliás de origem inglesa. Daí, aliás, a reacção por parte de uma administração e por parte dos mais conceituados técnicos, todos de formação francesa e beaux-arts.

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Fachada para a Avenida

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Detalhes da fachada para a Avenida

Esta linguagem neoclássica é ainda mais evidente na fachada do lado da Trindade onde a praça a nascente era marcada pelos edifícios neoclássicos do início do século XIX.

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Fachada para a praça da Trindade

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Foto Alvão - O largo da Trindade no início do século XX.

As plantas

O edifício de dois pisos e um mezanino, é composto por três corpos dispostos em triângulo, formando um pátio central onde surge a sala da Vereação em anfiteatro coberta por uma cúpula de vidro. Este anfiteatro era, na mais pura tradição democrática, o espaço mais nobre e importante do edifício e por isso abria pelo pórtico principal, para a Avenida ou seja, para a cidade.

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Planta do I piso

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Planta do II piso

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planta de coberturas

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Corte Sul-Norte

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Corte Poente-Nascente

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Detalhe da perspectiva publicada no “The Builder”

O troço da Avenida entre as duas praças

A parte central da Avenida, ou se quiser a Avenida propriamente dita é definida pelos traçados que abrem a partir da praça da Liberdade até à Praça do Município, conferindo-le uma forma triangular. Esta forma foi responsável por popularmente a praça ser designada pelo “Bacalhau”.

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Como refere Rui Tavares no texto citado “…O tratamento urbanístico que se propunha para aquela avenida fazia dela não uma mera área de circulação, mas uma zona de passeio. Uma vez que para aí se previa a distribuição dos estabelecimentos comerciais, era natural que fosse esse o espaço dê maior animação. O projecto oferecia assim alternativas de percurso: um passeio colunado definindo uma arcada em toda a extensão era o que se propunha para flanquear a avenida; na placa central, duas pérgolas construídas de um e outro lado do eixo principal da composição consti­tuíam a hipótese de passeio, sombreado pela vegetação.”

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A edificação ao longo da Avenida

Segundo Rui Tavares:

Uma “…se­quência alternada de corpos avançados e recuados dava origem a pátios situados por detrás do passeio colunado.”

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detalhe da Planta – quarteirão nascente entre a praça da Liberdade e a rua Passos Manuel

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“Animados por fontes, os pátios tornavam-se um elemento enriquecedor dos espaços de circulação. Por outro lado, introduziam planos de fachada Norte e Sul que, segundo Parker, praticamente dobravam a frontaria da avenida, tornando-se num forte incremento do valor financeiro dos sítios construídos.

A proposta de pátios foi ainda determinada por razões de ordem ambiental. Parker, impressionado pelo clima — glorioso clima, como ele próprio exclama — e considerando a orientação da avenida, pretendeu criar zonas de sombra de modo a que cada construção, dada a organização do loteamento, pudesse dispor de uma zona mais fresca.

Mas o aspecto mais interessante da criação dos pátios é o que ressalta da sua incidência ao nível do desenho dos alçados. Compuseram-se fachadas diferentes para os corpos avançados e recuados que, se exceptuarmos os elementos extremos, se repetem alternadamente, contri­buindo para ritmar todo o conjunto. Para além daquele aspecto, é notória e notável a incidência da solução proposta na redução dos efeitos das pendentes sobre o desenho dos alçados. Enquanto a composição dos cor­pos avançados é sempre a mesma, as fachadas recuadas variam de acordo com, o lugar que o respectivo corpo ocupa ao longo da avenida; de facto, fazendo oscilações verticais na fenestração dos corpos recuados, para obter concordância com o alinhamento das aberturas dos corpos imediatos, reforça-se o alinhamento horizontal e minimizam-se as quebras que a pro­gressão da pendente da avenida fatalmente introduz nesse alinhamento.

O desenvolvimento da arcada contribui igualmente para se alcançar aquele efeito, ao mesmo tempo que acentua o ritmo do alçado da avenida: enquanto na zona dos pátios a arcada atinge apenas a base do primeiro piso, nos corpos avançados ela integra-se na fachada- e atinge praticamente o piso nobre, logo acima do mezanino.” (Tavares, op.cit.)

Do mesmo modo Barry Parker desenha as edificações para as diagonais, sendo de salientar o cuidado posto no desenho dos cunhais, com mais um piso forma que se manterá na edificação da Avenida, de que se apresenta um exemplo.

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Estudos para o quarteirão situado entre a passagem de peões para a rua do Almada e a projectada rua Ramalho Ortigão.

A Praça da Liberdade

A praça da Liberdade, demolidos os edifícios a norte, entre os quais a Câmara, é reformulada por Parker de modo a ser integrada na composição da Avenida. Para isso propõe a reformulação da sua fachada poente criando um paralelismo com a rua do Almada, um dos eixos geradores da composição.

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A praça da Liberdade (D: Pedro) na planta de Telles Ferreira 1892

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Por outro lado Barry Parker querendo marcar a memória da praça, não a encerrando mas não a diluindo, também, na avenida, cria com os dois primeiros edifícios uma entrada na Avenida.

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O Plano global

Elísio de Mello pretende “…apro­veitar a estada nesta cidade do distinto engenheiro inglês Mr. Barry Parker para o encarregar do estudo e projecto de outros melhoramentos muni­cipais além daquele para que especialmente foi chamado (...) como outras avenidas em projecto, pareceres sobre obras aprovadas, etc. encargo a que o insigne engenheiro da melhor vontade e muito pouco exigente­mente, atenta a sua alta competência, se prestou...”

“…Na sequência, a Câmara acordará então com o próprio Barry Parker as condições para o desenvolvimento de um outro trabalho, que seria concretizado em Inglaterra e durante o ano de 1916, inaugurando assim a segunda fase da sua intervenção no Porto.”

Barry Parker irá ampliar e integrar o Projecto da Avenida da Cidade, num plano mais vasto desde o tabuleiro superior da ponte Luiz I até à Avenida projectada e desta para norte da praça da Trindade até criando uma larga avenida que entroncaria na rua Faria Guimarães.

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O sector norte

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A norte do edifício da Igreja e do Hospital da Trindade,Barry Parker propõe uma praça junto à rua de Camões e de onde partiria uma avenida até à rua do Paraíso, onde era rematada a norte por um edifício. A nascente desse edifício a rua de Faria Guimarães faria a ligação com a rua da Constituição.

A Avenida da Ponte

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Para a Avenida da Cidade eram consolidadas as propostas já efectuadas em 1915. Mantinha-se na praça da Trindade a passagem para a rua do Almada e a naescente a rotunda que articulava a rua Formosa, a rua do Bonjardim e a rua a criar de ligação ao Mercado do Bolhão.

As diagonais que partiam da praça do Município eram prolongadas. A poente a futura rua de Ramalho Ortigão era prolongada até encontrar o prolongamento da rua de Passos Manuel na praça Guilherme Gomes Fernandes. sensivelmente a meio no local em que cruzava a rua da Picaria era criada uma praça. (Com uma forma diferente será a futura praça de Filipa de Lencastre).

Simetricamente a diagonal a nascente (a futura rua Rodrigues Sampaio) era prolongada até à rua Sá da Bandeira e o encontro com a rua Passos Manuel. Também, sensivelmente a meio, no cruzamento com a rua do Bonjardim era criada uma praça. (A futura praça de D. João I).

A zona Sul

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Era criada uma larga Avenida que ligava a avenida Saraiva de Carvalho à praça de Almeida Garrett e a Estação de S. Bento.

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“Concebida como uma verdadeira praça comercial, na base de um programa de lojas e escritórios, a avenida era contida a Norte e a Sul por estrangulamentos e flanqueada por alçados que, não sendo rigorosamente simétricos, repetiam as mesmas propostas de fachada. Projec­tados como «alçados de conjunto», estes são ritmados por uma sucessão de corpos para os quais se propõem dois tipos de fachada, distribuídos alternadamente e rematados nos extremos por elementos mais fortes.” (Tavares op.cit)

Serpenteando por esta Avenida-Praça o transporte urbano sobre carris, o eléctrico.

De novo os edifícios projectados para a avenida quer pelo desenho dos alçados de conjunto, quer pelos elementos que compõe a fachada remetem para a imagem do neoclássico portuense.

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“Em planta aquela distribuição faz-se avançando e recuando os diferentes corpos, originando uma agradável sequência de páteos quadrangulares para os quais se abrem fachadas Norte e Sul. Um passeio interior, situado por detrás dos páteos e separado destes por uma pequena colunata, articula os próprios páteos com um corpo de lojas mais pequenas; por aqui se distribuem os acessos aos andares superiores, situados naquele último corpo.” (Tavares op.cit)

Para enquadrar e valorizar a Sé do Porto, Barry Parker propunha um conjunto de demolições, criando uma praça rectangular que desse visibilidade à Galilé de Nasoni e uma praça terminado em semi-círculo em frente da fachada principal da Catedral. Esta forma seria geradora de um conjunto de ruas aproveitando a topografia do terreno.

Do projecto de Barry Parker à realidade da Avenida

Embora aprovado, o projecto de Barry Parker foi profundamente alterado na construção da Avenida, em particular na arquitectura das edificações. No entanto permaneceram algumas das ideias na forma da Avenida.

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Permaneceram:

  • o eixo central unindo a estátua de D. Pedro com o centro da fachada dos Paços do Concelho (e da igreja da Trindade).
  • A forma de abertura de sul para norte num ângulo em relação ao eixo central definido pela rua do Almada, embora apenas na zona norte da Avenida.
  • O traçado das ruas que ladeiam o edifício da Câmara na direcção da igreja da Trindade.
  • A identificação das praças da Liberdade e do Município.
  • As diagonais rua Ramalho Ortigão e Rodrigues Sampaio, embora só abertas parcialmente até à rua do Almada e até à rua do Bonjardim.
  • O atravessamento nascente-poente constituído pelo prolongamento da rua de Passos Manuel (ruas Magalhães Lemos e Elísio de Melo), que aliás já estava programado nos anteriores planos para a Avenida.
  • No plano global a ideia da Avenida da Ponte e da valorização do edifício da Sé pela demolição de grande parte dos edifícios que a rodeavam.

Aquilo em que o Projecto da Avenida de Barry Parker foi totalmente desvirtuado, com consequências na sua coerência funcional, foi na arquitectura dos edifícios e na imagem global da Avenida. Desaparece o desenho de conjunto de toda a edificação, os pátios e a arcada, alterando radicalmente a ideia de Parker transformando o que seria— um centro de comércio e uma zona de passeio”, local central da animação e da vida da cidade, num mero “local de passagem”.

Três edifícios marcarão as edificações na Avenida: no remate norte os Paços do Concelho de Correia da Silva, no início sul os edifícios da Nacional de 1920 e o edifício Pinto Leite de 1922 (Bank of London & South America) de Marques da Silva.

O início da construção da Avenida

A Avenida inicia-se formalmente no dia 1 de Fevereiro de 1916, com o início da demolição dos Paços do Concelho.

«No primeiro dia do mez de Fevereiro de mil novecentos e dezasseis, sexto anno da Republica, nesta cidade do Porto e Praça da Liberdade, às dezasseis horas, estando presentes Sua Excellencia, o Senhor Presi­dente da Republica, Doutor Bernardino Luiz Machado Guimarães, e os Excellentissimos Senhores Presidente do Governo e ministro das Finanças Doutor Affonso Augusto da Costa, e ministros do Fomento e da Instrução, Presidente do Senado da Republica, General da Divisão, Governador Civil do Distrito do Porto, Presidente da Camara Municipal de Lisboa e Presi­dente da Comissão Executiva e Vereadores desta Camara, auctoridades civis e militares e demais cidadãos que este auto assignam, procedeu-se, pe­rante grande concurso de Povo, à cerimonia da inauguração das obras da «Avenida da Cidade», arreando-se a primeira pedra do cunhal sudoeste do edifício que tem servido de Paços do Concelho, desde mil oitocentos e desassete, fim para que foi adquirido em março de mil oitocentos e desasseis, e onde téem estado instaladas as quatro Repartições da Se­cretaria Municipal, collocando-se duas lapides, uma no cunhal oriental e outra no cunhal ocidental da mesma avenida, tendo cada uma a seguinte legenda: «Avenida da Cidade — projecto approvado em sessão do Senado Municipal em vinte e nove — onze — mil novecentos e quinze — inaugurada em um — segundo — novecentos e dezasseis»—. Esta Avenida, que ligará a Praça da Liberdade com a Praça da Trindade, é mandada construir pela excellentissima Camara Municipal do Porto, segundo o projecto aprovado na referida sessão, sobre proposta do Senhor Vice-Presidente da Commissão Executiva e Vereador do Pelouro das Obras, excellentissimo Senhor Elysio de Mello. Para constar se lavrou o presente que por todos vai ser assignado e d’elle se tirará uma cópia para ser enviada ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, ficando este original no Arquivo do Município. Eu, José Marques, chefe da secretaria da Camara Municipal do Porto o subscrevi e também assino”.

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A praça da Liberdade com a demolição do edifício da Câmara

Entretanto a Câmara Municipal instala-se no Paço Episcopal em Fevereiro de 1916 tendo sido para isso publicado ainda em Novembro de 1915 o decreto n°2055 que cedera à Câmara Municipal, a titulo de arrendamento o edifício "pelo tempo somente que durar a projectada construção dos novos Paços do Município". Durará até aos finais dos anos 50!

Como o projecto de Barry Parker para o edifício da Câmara não correspondia às expectativas ideológicas e formais, quer da administração quer dos técnicos (entre eles o prestigiado Marques da Silva com notória influência na arquitectura da cidade), é de imediato lançado, ainda por Elísio de Melo, um concurso para os novos Paços do Concelho.

“No programa do concurso, datado de 12 de Abril de 1916, diz-se a propósito da situação e terreno: " O edifício será construído no extremo norte da nova Avenida entre a Praça da Liberdade e a Praça da Trindade e deverá pela sua concepção e aspecto contribuir para o embelezamento deste importante centro comercial e industrial, terminando dignamente a vasta perspectiva da Avenida em execução" e nas condições a que devem satisfazer os projectos também se acentua as relações a considerar com as edificações a executar na nova avenida, "edificações que o concorrente presumirá, impondo lhe condições que porventura julgue indispensáveis para salvaguarda da dignidade que ao edifício em projecto importa dar, atento o seu elevado destino" (Perante a Câmara Municipal do Porto está aberto concurso entre portugueses para a elaboração do projecto do edifício destinado á Câmara Municipal, Porto, 1916, pp. 3 e 13). (in Cardoso, António – O Arquitecto José Marques da Silva e a arquitectura no Norte do País na primeira metade do séc. XX, Faup 1997).

Ao concurso apenas se apresentam dois concorrentes os arquitectos Edmundo Tavares da Câmara de Lisboa e Correia da Silva da Câmara do Porto, sendo que este projecto valorizado pelo Júri, não ter de imediato sido decidida a sua construção.

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Projecto para a construção dos Paços do Concelho Correia da Silva AHMP

Publica-se em 1917 o «Regulamento para a concessão de pré­mios destinados às melhores edificações sob o ponto de vista estético” onde se estabelecia que o primeiro prémio, denominado «Prémio de Honra da cidade do Porto», era concedido «à mais bela fachada de edifício cons­truído na futura grande avenida da cidade já iniciada, (o que) abre a possibilidade de individualizar as construções do projecto do «centro cívico» subtrain­do-se ao proposto ordenamento de conjunto. (Tavares op.cit).

Entretanto nos finais de Dezembro de 1917 instala-se a nova Administração Municipal, presidida por Arthur Jorge Guimarães crítica da gestão anterior, mas que irá dar um novo impulso à construção da Avenida, iniciando-se as expropriações, o loteamento e a venda dos terrenos.

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Os lotes e edificado a expropriar na planta de 1892

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Esquema do parcelamento

Marques da Silva em 1919 apresenta o esboceto dos dois prédios para o início da Avenida, que irá projectar, marcando definitivamente a arquitectura beaux arts e monumental da Avenida que no final da Guerra se passará a chamar dos Aliados, e cuja construção estará completa (a menos do Palácio dos Correios) no início dos anos 50.

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O esboceto de Marques da Silva para o arranque da Avenida 1919 escala 1/200 Tinta da China e aguarela sobre papel vegetal 66,5 x 40 cm. IMS/AJMS/003 in Marques da Silva, o aluno, o professor, o arquitecto – catálogo da Exposição FAUP 2006

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Levantamento da Praça da Liberdade – Corte

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A Praça da Liberdade e a Avenida dos Aliados em 1930

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A Praça da Liberdade e a Avenida dos Aliados nos anos 50

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Planta da Avenida dos Aliados em 2000 com a marcação do edificado.

(CONTINUA)

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