Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Os Planos para o Porto – dos Almadas aos nossos dias 5

O Plano de Cunha Morais 1916

Em 1916 é publicado, por iniciativa do autor A. C. da Cunha Morais, um opúsculo intitulado “Os Melhoramentos da Cidade”.

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A.C.Cunha Moraes – Os Melhoramentos da Cidade do Porto – Porto Typographia Pereira, 1916

Nesta publicação o autor Augusto César da Cunha Moraes (1850-1939), engenheiro, pertencente a uma família de fotógrafos e proprietários da Fábrica de Fiação A. C. Cunha em Gaia, pretende “…sem pretender passar por ousado, traçar também um projecto que, podendo ser fruto de exageradas aspi­rações, fosse todavia a indicação das necessidades existentes, cuja satisfação se impõe num futuro mais ou menos distante, e pela força imperiosa da expansão citadina.” e (…) acreditando que de um projecto ou plano a mais não adviria grande mal, e ainda admirando a enérgica decisão de que está possuído o ilustre vereador, snr. Elisio de Melo, tão devotadamente empenhado em iniciar os grandes melhoramentos com que o Porto ha de ser dotado, decidi-me a sujeitar também o meu plano ao juizo publico e á complacência dos técnicos.”

Cunha Moraes apresenta por isso um pequeno texto de fundamentação, uma planta à escala 1:10 000 com as vias existentes e as vias projectadas, e uma descrição dos traçados que propõe nessa planta.

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Esta planta, que constitui de facto um plano é limitada a norte pela Avenida da Boavista e pelo Monte Cativo, e abarca toda a zona ocidental da cidade, que “…como outras em idênticas condições, tende a caminhar, alargando-se, no sentido do ocidente para onde, sem estorvo, é atraída para o mar; visto ser sem duvida, nessa direcção que encontra campo mais aberto e próprio para a sua expansão” e por isso, a oriente termina no jardim de S. Lázaro.

Cunha Moraes não ignora os planos municipais para a Avenida da Cidade: …“Pelo que respeita á Avenida da Praça da Liberdade á Trindade, atrevo-me a dizer que nunca imaginei possível construir uma boa Avenida—entre duas praças tortas e desalinhadas. Sempre será com pena que verei desaparecer a velha casa da Câmara, que se não é um monumento arqui­tectónico, tem a recomendar a sua conservação a data histórica de 31 de Janeiro. Contudo devo dizer que o Snr. Barry Parker com os seus profundos conhecimentos resolveu tecnicamente bem o intrincado problema: não como Avenida mas como Passeio.”

Mas propõe um novo centro já que “…não virá longe o dia em que o centro citadino tenha de ser a actual Praça de Carlos Alberto ou suas proximidades; e “Não é, portanto, de supor que o centro da cidade seja, por todo o sempre, a Praça da Liberdade;…”

O plano, com alguma influência da Barcelona de Cerdà, propõe, a partir deste novo Centro, uma Avenida paralela à avenida da Boavista respondendo “…à reconhecida necessidade duma rápida e fácil comunicação com a Foz…” eixo gerador de uma malha regular constituída por perpendiculares e diagonais que se cruzam em rotundas, procurando adaptar-se à topografia e à malha existente, embora o autor reconheça que “… ao traçar (…) sobre a planta da cidade as ruas e as avenidas que no projecto se indicam, uma grande dificuldade se me deparou—a falta na mesma, de cotas ou curvas de nivel; vendo-me porisso obrigado a recorrer á inspecção do terreno e em condições muito sumárias. Não será, pois, de admirar que deficiências sejam notadas no traçado das ruas e avenidas, demais que ele foi realisado por quem prefere os problemas da mecânica aos da topografia.”

Referindo-se a esta Avenida, traçado fundamental do seu plano, Cunha Moraes, refere que “…é de presumir que pareça essa Avenida muito extensa e por isso monótona; mas não o será, se for interrompida ou cortada de praças e revestida de arborisação variada.” e para a justificar apoia-se em Stüben para quem “…o traçado rectilíneo é o re­comendado para as ruas monumentais de grande circulação, e a linha curva para as ruas de caracter pitoresco e de transito menos activo.”

Nota 1 - Hermann Josef Stübben 1845 -1936) famoso arquitecto e urbanista alemão da transição do século 19 para o século 20, autor em 1890 do muito difundido ” Der Städtebau im Handbuch der Architektur”, (onde dedica várias páginas ao tema do verde urbano, considerado um dos temas principais da planificação da cidade), a que se seguem diversas outras obras sobre planeamento urbano. Trabalhou em diversos projectos urbanos em Bruxelas, de que os mais conhecidos são o Bois de la Cambre e a Avenida de Tervuren.

De seguida Cunha Moraes refere Cloquet, para avançar as características dos traçados e elementos urbanos “… Largas avenidas, arborisadas; boulevards, para grande circulação; passeios públicos de configuração irre­gular, com logares de repouso e de silencio; ruas de comercio, com bem iluminadas exposições; travessas, de prédios de modesto aluguer; ruas tranquilas, de casas particulares; ruas de luxo, ostentando habitações com jardim á frente: eis os requisitos para uma cidade com aspecto de vida, verdadeiramente moderna.”

Nota 2 - Louis Cloquet (1849-1920). arquitecto belga autor de um conhecido e difundido “Traité d'architecture” de 1898 e com sucessivas edições em 5 volumes. É o autor do edifício dos Correios (1898-1909) e para a Exposição de 1913 da Gare de Saint Pierre em Gand (Ghent). (Com saudações a Gabriel Silva do Porto Antigo, que me pôs a estudar melhor Gand!)

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Uma novidade no Plano de Cunha Moraes é a proposta de um novo atravessamento do rio no lugar da Arrábida – a ponte da Arrábida - que embora já pensada no início do século, só aqui aparece desenhada e articulada com a cidade existente e projectada. A ponte e a fixação do sítio serão a partir de 1916 uma constante de todos os planos para o Porto, mas a ponte só será construída, segundo o projecto do engenheiro Edgar Cardoso, no início dos anos 60, sendo inaugurada em 1963.

Depois desta introdução Cunha Moraes descreve “…singelamente e com toda a pobreza técnica…” mais pormenorizadamente “…as linhas gerais do meu plano de ruas e avenidas”:

“…Sirva de ponto de partida uma Praça Circular, situada ao norte da Praça de Carlos Alberto, entre as ruas de Cedofeita, do Coronel Pacheco e do Mirante, á qual cha­marei—Praça Central…”.

Num momento em que ainda não se iniciou a abertura da Avenida dos Aliados, Cunha Moraes propõe a deslocação do Centro as imediações da praça de Carlos Alberto, junto da zona mais monumental da cidade, a Cordoaria onde se encontram a igreja e a torre dos Clérigos, o Tribunal e Cadeia da Relação, o convento de S. Bento da Vitória, o Hospital de Santo António, a Universidade,o Quartel da Guarda Republicana e a igreja dos Carmelitas, a igreja do Carmo e o Hospital da Ordem Terceira do Carmo, a Faculdade de Medicina (antiga Escola Médico-Cirúrgica), o Jardim da Cordoaria, a igreja de S. José das Taipas e ainda o Mercado do Peixe. Esta ideia perdurará nos diferentes planos seguintes até aos finais da 2ª Guerra Mundial, ou seja até à conclusão da Avenida dos Aliados.

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Desta Praça Central “…saem ou téem seguimento:

“Para o Norte — uma larga Avenida (a Avenida Central) que, prolongando-se até próximo do Monte Cativo, termina noutra Praça egual á Central.”

A ideia de uma Avenida a partir da Praça Carlos Alberto e até aos limites norte da cidade, como alternativa à Avenida dos Aliados que é limitada pela presença da igreja da Trindade, também será constante da planificação até aos anos 50.

No entanto Cunha Moraes estabelece como limite norte uma rotunda e um Parque, tendo provavelmente presente, o desenho da Avenida da Liberdade em Lisboa.

No Monte Cativo um Parque. Este logar com o seu acidentado e os largos horisontes que se disfrutam, presta-se bem para um Parque pitoresco, ainda favorecido pelas vistas da Avenida Central, que poderá servir admiravelmente para festas, paradas, etc., e suprir assim uma falta sensível, entre nós, que não possuimos um logar que, regular e satisfatoriamente, se preste a Festas cívicas ou paradas.”

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“Para o Sul—a Praça Central liga com Praça de Carlos Alberto por meio de uma curta passagem.”

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“Para o Nascente—segue uma rua ou avenida até á Cancela Velha a embocar na rua Formosa, pondo assim em comunicação fácil, os dois Bairros, que muito carecem dela, principalmente depois de construído o grandioso Mercado do Bolhão, que muito depreciará o antigo Mercado do Anjo. Para esta rua ou avenida ter um declive uniforme, necessário seria que passasse em viadutos sobre as ruas do Almada e do Laranjal, dando-lhes assim um declive suave. Mas desde que seja aberta a Avenida da Trindade, tais viadutos não poderão ter logar.”

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“Para Sudeste—parte da Praça Central outra avenida em direcção à Praça da Liberdade, alinhando o seu centro com a Estatua de D. Pedro e a Estação de S. Bento, a qual pelo seu grande movimento, substituindo em parte o que se faz agora pela rua dos Clérigos e Carmelitas, facilitará o transito pela Grande Avenida para a Foz. “

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“Regressando á Avenida Central, esta no seu caminho para o norte crusa com a rua dos Bragas e com outra avenida que, partindo do lado sul da Praça da Republica, vai atravessar o largo do Bom Sucesso.”

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“Ainda a Avenida Central no seu percurso atravessa as ruas de Alvares Cabral e da Boavista, terminando na Praça, junto ao Monte Cativo, já notada, da qual saem para o nascente duas avenidas: uma em direcção á Praça do Marquez de Pombal e outra ao Largo da Lapa; e para o poente, em continuação das mesmas, uma que vai passar próximo do Bom Sucesso, e finalmente outra que para Matosinhos se dirija.”

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“Querendo dar-se um aspecto mais imponente ou luxuoso á Praça Central, pôde esta ser dotada com um arco monumental no principio da passagem para Carlos Alberto, ter dois edificios fronteiros á entrada da Avenida Central também de arquitectura suntuosa, e semelhantes, destinados a serviços públicos, a casas bancarias, etc. E' obvio que todos os edificios das duas Praças e Avenida Central deviam ser de arquitectura escolhida, mas especialmente os da Praça Central e da passagem para Carlos Alberto.”

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Cunha Moraes também indica a localização dos Paços do Concelho:

“…O melhor sitio para a edificação dos Paços Municipais, afigura-se-me ser o angulo formado pelas Avenida Central e Grande Avenida com uma pequena fachada sobre a Praça Central donde se veria de frente a Avenida que vem á Praça da Liberdade, a Estatua de D. Pedro IV e a Estação de S. Bento; com a apreciável vantagem de se gosar dos Paços Municipais o desembarque de quaisquer comissões ou os cortejos que á Camara se dirigissem. “

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Depois debruça-se sobre a “pièce de resistance” da sua proposta: o eixo estruturante ou a Grande Avenida:

“Da Praça Central—no sentido da Foz—prolonga-se a Grande Avenida destinada a servir o intensivo transito, que dia a dia aumenta, do centro da cidade para a Foz.”

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“Esta Avenida, depois de atravessar a rua de Cedofeita, crusa com outra nova Avenida que parte da Cordoaria, e vai passar no extremo da rua do Rosário para mais adeante atravessar, em viaduto, a rua da Piedade, crusando obliquamente, sobre o mesmo viaduto, com o desde ha muito projectado prolongamento da rua de Júlio Diniz ao Palácio de Cristal, prolongamento que encontra no trajecto a continuação da rua de D. Pedro V até á rua de Júlio Diniz.”

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“A Grande Avenida, passando ao sul do Cemitério Ocidental, vai encontrar uma Praça na Salaverca, donde segue em direcção ao Cemitério de Lordelo, cortando o prolongamento da rua fronteira á Egreja, para crusar mais adeante, em Serralves, uma outra praça atravessada obliquamente pela Avenida que se dirige á Esplanada do Castelo, que deve ser ampliada.

Esta Avenida entre a Boavista e a Esplanada do Castelo corresponderá nos anos 30 à Avenida Gomes da Costa.

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“Deixando essa praça, a Grande Avenida cruza com uma outra rua nova e vae encontrar uma Grande Praça semelhante á da Boavista, donde saem diversas ruas e avenidas, sendo uma para o Ouro, outra para o Passeio Alegre, outra para a rua do Gama, etc.”

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“A Grande Avenida, depois de sair daquela Grande Praça, é atravessada por uma rua que também vai ter à Esplanada do Castelo e segue até outra Praça que fica no prolongamento da rua do Molhe, indo acabar em uma meia lua na rua do Castelo do Queijo.”

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A sul da Grande Avenida, Cunha Moraes traça um conjunto de ruas curvas na zona do Campo Alegre e Lordelo, adaptando-as à topografia do terreno.

Partindo “…do Palácio de Cristal, donde segue também em curvas até ao alto da actual rua de D. Pedro V, que é atravessado por ela, e daqui ao Monte da Arrábida, passando junto a um parque e continuando ainda em curvas até á Praça onde crusam as avenidas que vêem do Passeio Alegre e da Esplanada do Castelo, e depois em recta e no sentido da Praça da rua do Gama, para noutro alinhamento recto atravessar obliquamente a Grande Avenida, na mesma Praça, onde incide a rua do Molhe. No trajecto desta rua ou avenida curva saem ramais, uns rectos, outros curvos, que a põem em comunicação com a rua do Campo Alegre, Largo do Ouro, novas avenidas, etc.”

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Finalmente Cunha Moraes propõe e localiza o novo atravessamento do Douro, rodoviário e ferroviário com uma estação de caminho de ferro em Sobreiras, coerente com a sua proposta de crescimento da cidade para ocidente. Os actuais estudos para a ponte do Gólgota (do eng. Adão da Fonseca e do arq. Álvaro Siza) para o Metro do Porto, viriam colmatar esta deficiência da cidade, já que a rede ferroviária apenas tem terminais em Campanhã e S. Bento.

A Ponte da Arrábida

“— Com o avançar dos melhoramentos e atingindo o Porto o desenvolvimento e a prosperidade a que tem jus, ha de vir a ser necessária uma ponte que ligue o Monte da Arrábida com o Candal, e avenidas - que a essa ponte se dirijam, cujo traçado só poderá ser indicado depois de estudada a ponte — que serviria não só para transito publico, mas ainda para o caminho de ferro do Norte atravessar o Douro naquele logar; construindo-se então uma estação em Sobreiras, ou em Lordelo, próximo da Grande Avenida.”

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Cunha Moraes termina a sua exposição do Plano com um conjunto de indicações não cartografadas:

“Indico também como de utilidade uma Avenida que, partindo do Campo 24 d'Agosto, siga directamente para Campanhã, o que tornaria o transito mais fácil e preferível ao das actuais vias.

Algumas ruas e avenidas mais se apontam na planta, cuja enumeração resultaria fastidiosa; tendo de ser alinhadas outras de secundária importância, á medida que as necessidades se forem impondo ou a marcha dos melhoramentos o determine para sua conveniente realisação.

Numa zona de 300 metros, para cada lado das duas principais Avenidas, não deveriam permitir-se industrias fabris, especialmente das perigosas ou incomodas, porque a sua laboração causaria a depreciação do valor das propriedades próximas.

Os parques indicados na planta não são suficientes. Para futuro será preciso não só que venham a ser proporcionais á superfície edificada da cidade, como ainda que sejam distribuídos de maneira a facilitar o seu goso ao publico; e o mesmo direi a respeito dos pequenos jardins (Squares) para recreio e higiene das creanças.

Actualmente, pois que a maioria das casas tem quintal ou jardim, não fazem grande falta; mas tais jardins e quintais tendem a desaparecer, precisando por isso de ser substituídos por os referidos jardins públicos.

Os cemitérios não deviam confinar com as ruas publicas e ainda menos estarem delas separados apenas por gradeamentos. Sendo destinados ao repouso e ao silencio, melhor ficariam circundados de arvoredo, como figuro no Cemitério Ocidental, no logar que ocupa na planta.”

Conclusão

Se o Plano de A. C. Cunha Moraes é apenas uma indicação de traçados de vias para a cidade, um pouco utópica porque muitas das suas propostas são de difícil e/ou dispendiosa execução, na verdade ele fixa algumas ideias que se prolongarão em planos e concretização posterior:

  • o desenvolvimento da cidade para ocidente;
  • a estruturação da zona a sul da Avenida da Boavista entre a Rotunda e a Foz;
  • a ponte da Arrábida;
  • o papel da zona da Cordoaria/Carlos Alberto no desenvolvimento da área central.

(CONTINUA)

3 comentários:

  1. Boa noite.

    Antes de mais, parabéns pelo seu blog. Sou leitor assíduo.
    Queria pedir um favor. Onde posso encontrar a obra "Os Melhoramentos da Cidade do Porto" de A. C. Cunha Moraes? Não encontro na Biblioteca Municipal do Porto.

    http://bibliotecas.cm-porto.pt/ipac20/ipac.jsp?session=13XM8L4107750.239393&menu=search&aspect=subtab13&npp=20&ipp=20&spp=20&profile=bmp&ri=9&source=~!horizon&index=.AW&term=Cunha+Moraes&x=2&y=13&aspect=subtab13


    Muito obrigado pela atenção.

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  2. Caro Flávio: Na biblioteca da Faculdade de Arquitectura da Univesidade do Porto.RF

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  3. Muito obrigado e um desejo de um bom feriado, já agora.

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