Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Os Planos para o Porto – dos Almadas aos nossos dias 7 II

Os anos 30 e os Planos dos Italianos para o Porto

Entre o Prólogo ao Plano do Porto do engenheiro Ezequiel de Campos de 1932 e o início da colaboração dos arquitectos italianos em 1938, diversas e profundas transformações se deram, a vários níveis, em Portugal e na cidade do Porto.

I Parte – Aspectos dos anos 30 (continuação)

Notas sobre o cinema português entre guerras

O cinema, que se havia iniciado relativamente cedo no nosso país, só no final da I Guerra, no entanto, deixa de ser uma simples curiosidade para se tornar um fenómeno de massas, implicando estruturas de produção próprias, bem como salas de espectáculo expressamente desenhadas para a projecção cinematográfica.

E será o cinema - cuja história em Portugal acompanhou durante muitos anos a história da arquitectura - que irá permitir a realização do primeiro edifício moderno em Portugal: o Capitólio de Cristino da Silva.

Em 1918 funda-se, em Lisboa, a Lusitânia Filmes, animada por Leitão de Barros e a que estão associados dois arquitectos, Carlos Ramos e Cottinelli Telmo, enquanto no Porto se constitui a Invicta Filmes, fundada no Porto, em 1912, por Alfredo Nunes de Mattos, gerente do Jardim Passos Manuel desde 1908, que se irá manter até 1924, produzindo uma notável quantidade e qualidade de títulos, aliás de êxito comercial.

Mas nos anos vinte não só se criarão novas empresas de produção, com maior ou menor sucesso, como penetrarão no mercado português as grandes produtoras e distribuidoras norte americanas como a Paramount e a Metro.

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As casas de espectáculo, que esta rápida difusão e massificação do cinema vão requerer, sobretudo a partir do sonoro em 1930, constituirão com as Garagens, pela paralela difusão do automóvel, os programas que irão proporcionar aos arquitectos avanços significativos na procura de novas soluções conceptuais e formais.

Nos anos trinta, o cinema que se torna sonoro, é marcado quer por uma rápida e grande difusão internacional (de curiosidade no início do século transforma-se em indústria), quer por um recrudescimento da produção nacional em Portugal, sobretudo nas cidades de Lisboa e do Porto,.

Paralelamente esta difusão do cinema, vai permitir ao grande público conhecer outras realidades e outras paisagens, cidades e arquitecturas (lembre-se o King Kong de 1933 mostra ao mundo inteiro New York,e o Empire State Building na época o mais alto edifício do mundo).

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Cartaz do filme e revista O Cinéfilo n.º 275 de 1933

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Mas o cinema e em particular a comédia ligeira, para além dos ambientes, vão contribuir para a transformação dos gostos, vão modelar situações, gestos e comportamentos na vida quotidiana.

Logo em 1930, é estreado em Portugal o filme "Sombras Brancas no Mar do Sul", primeiro filme sonoro apresentado em Portugal e que irá provocar a produção de filmes sonoros nacionais.

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O cinema, será impulsionado por António Ferro e pelo Secretariado da Propaganda Nacional já que o regime viu, rapidamente, neste meio de expressão e comunicação poderosa arma de propaganda.

"Vê como o Estado Novo pensa em ti. Depois da realidade, a poesia. Depois do pão nosso de cada dia, o sonho vosso de cada noite." António Ferro in "Teatro e Cinema" 1950

O Cinema Popular Ambulante, criado em 1935 com o objectivo de permitir ver filmes às populações de localidades onde não havia salas de cinema, foi um poderoso instrumento de propaganda, com o acesso ao cinema pela mão do SPN e pela exibição dos documentários oficiais de apologia do regime.

Ao cinema nacional está ligada, por diversas maneiras (produção, realização, cenografia, figurinos, etc.) a geração de artistas e arquitectos modernos, todos nascidos entre os finais do século XIX e o início do século XX, muitos deles contemporâneos na Escola de Belas Artes de Lisboa.

Directamente na realização: Leitão de Barros (1896-1967), Cottinelli Telmo (1897-1948),Eduardo Chianca de Garcia (1898 -1983) Arthur Duarte (1895 - 1982) e um pouco mais novos António Lopes Ribeiro (1908/1995), o seu irmão Francisco Ribeiro (Ribeirinho) (1911-1984), Manoel de Oliveira (1908) e Jorge Brum do Canto (1910-1994); participando noutras actividades ligadas ao cinema, entre outros: Almada Negreiros (1893-1970),Martins Barata (1899-1970), Carlos Botelho (1899-1982), Jorge Barradas (1894-1971), Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957), Cassiano Viriato Branco (1897-1970), Luís Cristino da Silva (1896-1976), etc.

Também neste período e correspondente ao crescente interesse pelo “mundo” do cinema surgem com mais ou menos duração publicações especializadas : Cine Revista (1917), O Film (1919), Invicta Cine (1923) Imagem (1928), Cinéfilo (1928), Kino (1930), Cinema (1932), Animatógrafo (1933) e Filmagem (1941).

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O cinema - a partir de modelos ensaiados na década de trinta - irá ser apropriado e utilizado pelo Estado Novo, quer como uma forma directa de propaganda, com documentários e filmes "oficiais", quer de uma forma indirecta, com os melodramas e comédias, conduzindo e habituando o espectador a rever-se nas personagens das camadas populares, dos pequeno burgueses e burgueses, criando estereotipados valores nacionalistas como o Fado, a Casa Portuguesa, etc. quer nos filmes históricos procurando uma adesão e uma identificação ao regime, no heroísmo e nos mitos das figuras da história pátria .

A comédia dos anos trinta e quarenta é um cinema optimista, utilizando a música e as canções, aproveitando e enfatizando as possibilidades do filme sonoro, sendo que muitas dessas canções perduraram com sucesso para além do próprio filme.

Ainda antes da instituição do SPN de António Ferro, no campo do cinema destaca-se Leitão de Barros (José Júlio Marques Leitão de Barros) (1896-1967),natural do Porto mas tendo frequentado a Universidade e a Escola de Belas Artes de Lisboa. Jornalista e pintor, cenógrafo e encenador (em 1932 criou, com grande êxito, as marchas populares e, em 1934, foi criador da Feira Popular), foi contudo no cinema que se destacou. Em 1918 iniciou a carreira de cineasta para a produtora Lusitânia Filmes com os filmes Mal de Espanha e Malmequer. A ele se devem os primeiros filmes nas diversas categorias. Leitão de Barros é para António Ferro "o primeiro realizador português com olhos do nosso tempo".

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Cartaz de Stuart para as Festas de Lisboa 1934

Em 1929, realiza para a Companhia Cinematográfica de Portugal “Lisboa, Crónica Anedótica” um relato da cidade de Lisboa em episódios que abordam figuras e situações do quotidiano alfacinha, estreado em Abril de 1930.

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Uma referência ao filme em o Cinéfilo, n. 89, Maio de 1930 in http://revistaantigaportuguesa.blogspot.com/

Breve classificação por géneros dos filmes entre as duas guerras:

Nota – a quase totalidade destes filmes encontra-se disponível, parcial ou totalmente, com maior ou menor qualidade no You Tube.

Esta classificação do início dos anos 30 até ao final da 2ª Guerra, não pretende ser exaustiva , sendo que alguns filmes correspondem a mais do que uma das categorias apresentadas. De notar que é Leitão de Barros que primeiro ensaia muitos dos géneros de cinema neste período.

1 - O cinema etnográfico e/ou realista, explorando a vida em povoações rurais ou piscatórias, que, depois da força e modernidade dos primeiros filmes, progressivamente se vai tornando para o regime, uma visão folclórica e de promoção turística da realidade rural e piscatória. Nos anos 40 são os movimentos de resistência e contestação ao regime que particularmente na literatura, regressam a uma visão ideologicamente empenhada desta realidade (o neo-realismo).

Nazaré, Praia de Pescadores (1927), e Maria do Mar (1930) de Leitão de Barros

A partir de um seu documentário “Nazaré, Praia de Pescadores “ de (1927), estreado em Janeiro no São Luiz, Leitão de Barros realiza em 1930 o extraordinário “Maria do Mar” (1930), com influências do cinema soviético e expressionista, com uma grande dramaticidade na interpretação dos actores, com o uso de grandes e contra-planos numa composição expressiva (vejam-se os fotogramas) antecipando o que no pós 2ª guerra será o cinema neorealista (na temática, na utilização da população local como figurantes e actores, e na realização). (veja-se La Terra Trema 1948 de Luchino Visconti realiza La Terra Trema, que descreve a vida dos pescadores da Sicília numa localidade Aci Trezza, onde Visconti procura "o fio condutor, a ferramenta que me permita descobrir os homens sicilianos, a vida mais secreta insular". A procura da autenticidade de Visconti leva-o a utilizar a população da ilha e a manter na versão original os diálogos em dialecto siciliano pedindo aos improvisados actores que o utilizassem.)

Filmado na Nazaré, com, no elenco Rosa Maria (Maria do Mar), Oliveira Martins (Manuel), Adelina Abranches (Tia Aurélia), Alves da Cunha (Falacha), Perpétua dos Santos (Mulher do Falacha) e Horta e Costa (“Perú”) foi apresentado em Lisboa nos cinemas Odeon e São Luiz, a 20 de Maio de 1930 e na cidade do Porto, no cinema Águia de Ouro, a 9 de Junho do mesmo ano.

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fotogramas de Maria do Mar

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Notícias Ilustrado n.º 92 1930

"Foi a partir das obsessivas imagens de "Nazaré" - certamente - das mais obsessivas de todo o cinema português - que Leitão de Barros", crescentemente influenciado pelo cinema soviético (e obras de Pudovkine ou Eisenstein de menor conteúdo propagandístico) e que conhecera melhor numa viagem ao estrangeiro em 1929, empreendeu o "documentário romanceado" "Maria do Mar", estreado em 1930 e que foi unanimamente considerado o maior acontecimento havido até então no cinema português. Se a "parte romanceada" (particularmente aquela em que Barros recorreu a dois "monstros sagrados" do teatro português, como Adelina Abranches (1866-1954) e Alves da Cunha (1889-1956) desiquilibra um pouco o conjunto, volta a afirmar-se a suprema maestria de Barros na captação da realidade humana dos pescadores da Nazaré.

(...) "Maria do Mar" (como "Nazaré") é sobretudo um soberbo fresco, onde o cinema português grava pela primeira vez uma tipologia humana dramática e por vezes trágica, com uma força telúrica esmagadora." João Bénard da Costa, Histórias do Cinema Português.

"É um dos exemplos mais conseguidos, à época em que foi feito, de abordagem documental de uma ficção dramática e lírica, utilizando quer a ficção quer o documentário para criar um microcosmos, onde explodem, sem peias argumentativas, as grandes paixões do homem. Conseguiu-o através de uma encenação que é uma das sínteses mais poderosas e singulares do realismo expressivo germânico, do conceptualismo soviético e do cultismo representativo americano." João Bénard da Costa, Maria do Mar, Catálogo da Cinemateca Portuguesa. in http://www.amordeperdicao.pt/

"Douro, Faina Fluvial" (1931) de Manoel de Oliveira

Em 1931 é apresentado "Douro, Faina Fluvial", Manoel de Oliveira (1908) no Congresso Internacional da Crítica, organizado por António Ferro. (ver neste blogue).

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“Gado Bravo" 1934 de António Lopes Ribeiro

António Lopes Ribeiro (1908-1995) que estreou a sua carreira de cineasta como critico e assistente de realização em 1925 e foi um dos fundadores da revista Imagem em 1928 (e do jornal A Bola), e dirigiu os semanários Kino (1930) e Animatógrafo (1933), é considerado o “realizador do Estado Novo” sobretudo pelos documentários e os filmes realizados entre 1940 e 1970, em que faz a apologia do regime e a cobertura de todos os actos oficiais.

Em 1935 realiza "Gado Bravo", com Nita Brandão (Branca), Olly Gebauer (Nina), Mariana Alves (Mariana), Raul de Carvalho (Manuel Garrido) e Arthur Duarte (Artur Fernandes).

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Estreado a 8 de Agosto no Tivoli, Gado Bravo de António Lopes Ribeiro mas onde também participou Max Nosseck.

A história desenrola-se no Ribatejo, entre campinos, cavaleiros tauromáticos e touros, criando um dos mitos regionais do Estado Novo.

Estreou comercialmente no cinema Tivoli, tendo em complemento o filme "Douro, Faina Fluvial", em 8 de Agosto de 1934.

“Uma restauração recente, feita a partir do negativo existente na Cinemateca Francesa e pelos serviços de restauro desta, permitiu a revisão do filme no esplendor original. O termo "esplendor" não o uso irónica ou superlativamente. "Gado Bravo", convencionalíssimo no argumento, história de um homem manso entre touros e mulheres bravias, um dos inúmeros filmes que tem por cenário campinas e Ribatejo, faceta indispensável do luso folclore que até ao 25 de Abril se revelou um dos mais sinistros filões do nosso cinema, é plasticamente belo e é mesmo o mais belo de todo esse ciclo ribatejano."

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, col. Sínteses da Cultura Portuguesa, Europália 91, ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991. http://www.amordeperdicao.pt/

A Canção da Terra 1938 de Jorge Brum do Canto

Jorge Brum do canto colaborou em várias revistas de cinema dos anos trinta (Cinéfilo, Kino, Imagem) e realizou vários documentários como Fabricação de Mangueiras (1932), Abrantes (1933), Uma Tarde em Alcácer (1933), Berlengas (1934), A Dança dos Ulmeiros (1934), A Obra da junta Autónoma das Estradas (1934) e Hora H (1938), este último sobre a Orquestra Aldrabófona, um fenómeno radiofónico de grande popularidade.

Em 1938 realiza A Canção da Terra, em Porto Santo, Madeira , estreado no Condes e no S. Luiz, com Elsa Romina (Bastiana), Barreto Poeira (Gonçales), Óscar de Lemos (Caçarola), João Manuel Pinheiro (Nazairinho) e Maria Emília Vilas/Marimília (Mãe), considerado, pela crítica de então, como um novo passo do cinema português, um dos nossos filmes maiores.

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"À época Jorge Brum do Canto defendeu que "A Canção da Terra" é quase um filme de cowboys (...) tem acima de tudo o mais, aquele ritmo feroz, impressionante e ofegante dos westerns, ritmo que foi o pai de todo o cinema de hoje". A comparação não é despropositada, como o não é a adjectivação do ritmo do filme. Mas, o que mais surpreende, a uma visão actual, é a elevação à máxima sacralidade do décor e da paisagem de Porto Santo. (...) Hoje o que sobreleva é a carga mitológica da obra, o seu animismo crucial a sua sensualidade mórbida e, por vezes, assaz escatológica."

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, col. Sínteses da Cultura Portuguesa, Europália 91, ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991. http://www.amordeperdicao.pt/

"Visto à distância de quase cinquenta anos, "A Canção da Terra" não perdeu qualidades, sobretudo naquilo que sempre constituiu o seu forte: o ritmo visual, a sequência sempre dominada pela imagem, a beleza incomparável da terra e do mar, o tom lírico mantido com segurança e sem pieguice. (...) Jorge Brum do Canto soube traduzir essa imagem poética numa forma cinematográfica que muito deve ao seu operador Aquilino Mendes. Mais próximo de Flaherty ou de Epstein que dos russos, sobra-lhe uma sensibilidade e um conhecimento pessoal muito directo daquilo que mostra."

Luís de Pina, in História do Cinema Português, ed. Europa-América, col. Saber, 1986. http://www.amordeperdicao.pt/

Ala-Arriba! (1942) de Leitão de Barros

Anos após os filmes rodados na Nazaré, Leitão de Barros vai filmar na Póvoa do Varzim. Asim realiza Ala Arriba para a Tobis Portuguesa estreado em Setembro de 42 no São Luiz e apresentando em complemento o documentário A Póvoa do Varzim.

O filme financiado pelo Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) retrata a comunidade piscatória da Póvoa do Varzim, interpretado mais uma vez por pescadores e habitantes locais, é realizado na sequência de Nazaré, praia de pescadores e Maria do Mar. Com música de Rui Coelho, foi o primeiro filme português a conquistar um prémio num festival de cinema internacional, o Festival de Veneza, em 1942.

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O filme começa com o narrador (o pároco da Senhora da Lapa), explicando as “castas piscatórias” da Póvoa de Varzim. «Os poveiros são honestos. Bons pais e bons filhos. Mas não são todos iguais: esta colmeia de pescadores mais velha de Portugal tem a sua aristocracia e a sua plebe. Os nobres são os pescadores lanchões, heróis da pesca do alto, possuidores das grandes lanchas poveiras, antigas de muitos séculos. O povo são os sardinheiros, pescadores humildes de batéis pequenos, a arraia-miúda que não vai para o mar largo e se contenta com o peixe costeiro. Destas duas castas se forma a multidão poveira, havendo às vezes questões por uns pescarem nas águas dos outros. Quando a filha de lanchão gosta de um sardinheiro, é preciso que este se eleve por méritos próprios ou por dádivas, até ingressar na classe superior; e não raramente é o pai da rapariga que dota o futuro genro para que tudo fique a parecer bem.»

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"Ala-Arriba se não é o melhor Barros, é do melhor Barros. (...) neste fresco (...) o que o cineasta fez foi gravar documentalmente as cerimónias tradicionais da Póvoa, recorrendo a actores quase exclusivamente não profissionais (só dois intérpretes vieram dos palcos).

Desta feita, o erotismo de Barros cedeu o passo a uma impressionante gravidade, a uma "figuração do luto", centrada nos casamentos em cemitérios e nos campos dos "mortos no mar".

Com uma belíssima fotografia de Octávio Bobone e Salazar Dinis, o filme joga permanentemente com os pretos e brancos e com os rostos impressionantes dos intérpretes. E a impressão dominante é de uma coralidade majestosa, erguida pela morte e erguida para a morte."

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, ed. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1991. http://www.amordeperdicao.pt/

Veja-se o La Terra Trema 1948, realizado seis anos depois por Luchino Visconti, e que descreve a vida dos pescadores da Sicília numa localidade Aci Trezza, onde Visconti procura "o fio condutor, a ferramenta que me permita descobrir os homens sicilianos, a vida mais secreta insular". A procura da autenticidade leva-o a utilizar a população da ilha e a manter na versão original os diálogos em dialecto siciliano pedindo aos improvisados actores que o utilizassem.

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“Aniki Bobo” 1942

Primeira longa-metragem e primeira obra de ficção de Manoel de Oliveira. Adaptação de um conto da autoria de Rodrigues de Freitas, intitulado "Meninos Milionários". Estreado no Eden (Lisboa) em 18 de Dezembro de 1942.

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"É uma história um tanto ingénua, mas que encerra muitas das minhas preocupações. (...) A palavra ainda não era, para mim, a revelação que depois foi. "Aniki-Bóbó" vive muito mais da imagem do que da palavra (...)

Não era uma melopeia do meu tempo de miúdo. Eu desconhecia-a. Era uma melopeia que eles usavam e eu aproveitei logo. (...) Decidi aproveitar como título "Aniki-Bóbó". Achei que envolvia um certo mistério. Esse mistério adequava-se aos personagens, à riqueza interior dos personagens, e adequava-se àquela cena da noite, em que eles falavam de fantasmas, de Deus, do Diabo, das Estrelas, etc.(...) Pu-los a discorrer sobre a noite e sobre as estrelas, sobre o diabo e as tentações. (...) Eram preocupações minhas, fantasmas meus, que depois se reflectem ao longo de outros trabalhos meus.

...todos os meus filmes vão parar ao desconhecido, ao que se descobre por detrás do desconhecido. Porque a morte é uma espécie de cortina preta que nos impede de saber a mais pequena coisa. Para além da morte, de mais nada as pessoas se apercebem. Portanto, isto desperta logo a curiosidade e a aventura de pensar sobre o que estará para o lado de lá, para além dessa cortina negra. Isso já se reflecte na conversa dos pequenos do Aniki-Bóbó, sobre a noite, o escuro, as estrelas, o demónio".

Manoel de Oliveira, entrevista com João Bénard da Costa,1989.

"Quais as intenções em "Aniki-Bóbó"? Certamente que as havia e bastante ambiciosas. Procurando contar uma história tão simples, queria reflectir nas crianças os problemas dos adultos, aqueles que estão ainda em estado embrionário; pôr em contraposição a noção do bem o do mal, do ódio e do amor, da amizade e da ingratidão. Queria sugerir o medo da noite e do desconhecido, a atracção pela vida que pulsa em cada coisa à nossa volta, com força e com convicção". Manoel de Oliveira

"Aniki-Bóbó é um filme quase inteiramente representado por crianças e quase inteiramente rodado em décors naturais (os bairros ribeirinhos do Porto e de Gaias). Estas características, quando o filme, a seguir à guerra, foi divulgado na Europa, levaram alguns e dos mais célebres críticos europeus a considerá-lo um precursor do neo-realismo italiano, nomeadamente da "Sciuscia" de De Sica, filme três anos posterior. Ainda hoje essa valorização é um lugar comum.

Não resiste, no entanto, à análise do filme que é sobretudo obra sobre a culpa e o medo, o desejo e a trangressão. O facto de serem crianças os protagonistas dessas emoções não alivia - antes obscurece - a carga delas. "Aniki-Bóbó", desde o seu misterioso plano inicial (movimento de câmara que insere a cidade no céu e no cosmos) religa o natural ao sobrenatural e faz pairar sobre os personagens uma magia difusa, um encantamento que a melopeia titular mais radicalmente exprime. De certo modo, todos e tudo são feitichizados neste filme em que o objecto da tentação suprema e do desejo supremo é uma boneca. Todas as crianças reflectem um mundo adulto e as proibições e interdições desse mundo. São elas que vão transformar o jogo em terror, o desejo físico em queda, o ciúme em desejo de morte. E são elas que transformam este filme singularíssimo numa obsessiva obra sobre a culpa - ou o pecado - desenvolvendo-se através da alegoria em torno da mulher, figurada numa rapariga inocentemente perversa ou perversamente inocente, e na boneca que metaforicamente com ela se confunde. Tudo converge para a loja das tentações, onde o único adulto do filme preside a um terror tão mais insinuado quanto - na única sequência onírica do filme - se assume, simultaneamente, como Deus e o Diabo, oculto conhecedor - e punidor - dos desejos recalcados.

Quanto mais o tempo passa, mais "Aniki-Bóbó" se revela surpreendentemente moderno, pondo em questão sucessivos discursos críticos e sucessivas interpretações. No imaginário cinematográfico português não teve antecedentes e não teve consequentes a não ser os que - muitos, muitos anos depois - o próprio Oliveira lhes daria, como permanente perturbador das visões estabelecidas e permanente voyeur das visões proibidas."

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, col. Sínteses da Cultura Portuguesa, Europália 91, ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991.

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“João Ratão" (1940) de Brum do Canto

Produção da Tobis Portuguesa e estreado em Abril de 1940 no São Luiz com Óscar de Lemos (João Ratão) Maria Domingas (Vitória) António Silva (Teotónio) Manuel Santos Carvalho (Manuel) e Teresa Casal (Manuela) é a história de um soldado português na I guerra que quando regressa da batalha da Flandres se vê envolvido numa intriga amorosa. Tem a particularidade de evocar a I Guerra Mundial e a participação portuguesa, num momento em que termina a Guerra de Espanha e Portugal se vê afastado da 2ª guerra. O filme inicia-se com as notícias da frente da batalha que chegam através do jornal aos madeireiros e com uma imagem simbólica de um tronco a ser lançado ao rio como se fosse um projéctil no campo de batalha a que seguem cenas na frente.

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Cartaz e fotograma de João Ratão in http://pauloborges.bloguepessoal.com/

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2 - O cinema e o fado

"A Severa", 1930 Leitão de Barros

Também é Leitão de Barros que ensaia e inicia uma outra categoria de filmes, com a "A Severa", adaptação do romance de Júlio Dantas escrito em 1908 e o primeiro filme português sonoro.

Estreado em 1931, no teatro S. Luís, tendo em complemento o documentário Exposição Colonial, foi um êxito de bilheteira, já que esteve mais de 6 meses em exibição e foi visto por cerca de 200 mil espectadores.

Com músicas de Frederico de Freitas, muitas das quais se tornaram populares, no elenco contava com Dina Teresa (Severa), António Luis Lopes (D. João, o Conde de Marialva), António de Almeida (Lavradio) (D. José), Ribeiro Lopes (Custódia), Silvestre Alegrim (Timpanas Boleeiro), António Fagem (Romão Alquilador) e Augusto Costa/Costinha (Marquês de Seide), torna-se um protótipo do cinema e da ideologia do Estado Novo, e implicou a formação e a construção em 1933 na Quinta das Conchas,da Tobis Portuguesa (Tobis Klang Film) sob parecer técnico de A.P. Richard, segundo projecto do cineasta e Arquitecto Cottinelli Telmo

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Capas Negras 1947 de Armando de Miranda

"Capas Negras" foi a rampa de lançamento de Amália Rodrigues no cinema.

Estreou comercialmente no cinema Condes, em 17 de Maio de 1947, só em Lisboa esteve 6 meses em cartaz, com 350 exibições e cerca de 200 mil espectadores, no que foi um dos maiores êxitos de sempre no cinema português. No elenco Amália Rodrigues, Alberto Ribeiro e Artur Agostinho, Vasco Morgado, Barroso Lopes, Humberto Madeira, António Sacramento e Graziela Mendes.

Em Coimbra, José Duarte (Alberto Ribeiro), estudante de Direito, namora Maria de Lisboa (Amália Rodrigues). O romance é rompido por suspeita de traição de Maria, partindo José para o Porto. Algum tempo depois, Maria é presa no Porto, sob acusação de abandono do filho. O advogado que a defenderá será José Duarte.

O filme mostra imagens do Porto, com a ponte D. Maria, a Esplanada da Foz, a Estação de S. Bento, etc.

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Amália na Esplanada da Foz do Douro

"Capas Negras conta, à partida, com duas super vedetas no auge da popularidade, com todas as suas canções na boca do povo. Depois, junta numa mesma acção os mitos nacionais do fado, o fado de Lisboa e o fado de Coimbra, este reforçado por uma piscadela de olho a outro fortíssimo mito, o do estudante de capa e batina, tudo reforçado com um final portuense que traz para as imagens esse outro mito da solidez, do dinheiro, da prosperidade, que é a imagem do Porto em certos cineastas da capital. Em terceiro lugar, o argumento é o melodrama absoluto, com o advogado defendendo no tribunal a mãe solteira do seu filho ilegítimo, um final que, quer se goste ou não, é das sequências mais emocionantes e melhor encenadas do nosso cinema."

Luís de Pina, in História do Cinema Português, ed. Europa-América, col. Saber, 1986 http://www.amordeperdicao.pt/

Fado História de uma cantadeira 1947 Perdigão Queiroga

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com Amália Rodrigues (Ana Maria), Virgílio Teixeira (Júlio Guitarrista), António Silva (Chico Fadista), Vasco Santana (Joaquim Marujo), Tony d’Algy (Empresário Sousa Morais), Raul de Carvalho (Embaixador), Eugénio Salvador (Lingrinhas), José Vítor (Pai Damião) e Maria Emília Vilas/Marimília (Mãe Rosa).

Primeira longa-metragem de Perdição Queiroga, recém chegado da América onde estagiara, e segunda aparição de Amália Rodrigues no cinema, depois de " Capas Negras”, produção do mesmo ano.

A história, nas suas linhas gerais, é baseada na vida da própria Amália.

Vencedor do Grande Prémio do SNI e do Prémio SNI à Melhor Actriz - Amália Rodrigues.

Estreou comercialmente no Trindade, em 16 de Fevereiro de 1947, onde esteve 26 semanas em cartaz, batendo o recorde de audiência para um filme português.

"O efeito do real (com Amália a ser bem dirigida e bem fotografada), a popularidade de Virgílio Teixeira e o hábil aproveitamento, em papéis secundários, de António Silva e Vasco Santana, conjugaram-se da melhor forma com o mito da protagonista."

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, col. Sínteses da Cultura Portuguesa, Europália 91, ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991. http://www.amordeperdicao.pt/

3 - a adaptação ao cinema de obras literárias de sucesso

As Pupilas do Sr. Reitor" de Leitão de Barros

"As Pupilas do Sr. Reitor" de Leitão de Barros, retomando a tradição dos filmes mudos de conteúdo rural e das obras de conhecidos escritores portugueses. De assinalar, nas múltiplas interferências que nestes anos se manifestam entre a arquitectura e o cinema, já que os "décors" são da autoria e responsabilidade de Cristino da Silva tendo como referência as aguarelas de Roque Gameiro (seu sogro) que ilustraram a edição de luxo do romance.

Filme louvado pela Inspecção dos Espectáculos como sendo "uma bela expressão da arte nacionalista."

Produção da Tobis Portuguesa, estreou no cinema Tivoli (Lisboa), em 1 de Abril de 1935 e apresentava os complementos: Festas da Cidade (com Beatriz Costa) e Porto de Lisboa (1934) e foi um êxito comercial para um filme português.

No elenco: Joaquim Almada (Reitor), Maria Matos (Senhora Joana), António Silva (João da Esquina), Leonor d’Eça (Margarida), Maria Paula (Clara), Oliveira Martins (Pedro), Paiva Raposo (Daniel) e Lino Ferreira (João Semana). Com fotografia de Salazar Diniz e Heinrich Gartner, música de Afonso Correia Leite, produção de Chianca de Garcia e com exteriores filmados em Coimbra no Minho e no Douro.

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Os Fidalgos da Casa Mourisca 1938 Arthur Duarte estreado no Odeon

primeiro filme de Arthur Duarte, estreado em 1938 no cinema Odeon. O filme é baseado no célebre romance de Júlio Dinis, que em 1921 George Pallu já havia adaptado ao cinema. Arthur Duarte coloca no entanto o romance oitocentista, nos anos trinta do século XX. No seu elenco Henrique de Albuquerque (D. Luís), Teresa Casal casada com Arthur Duarte (Gabriela),Tomás de Macedo (Jorge) e Henrique Campos (Clemente).

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Tomás de Macedo em Os Fidalgos da Casa Mourisca

Amor de Perdição (1943) de António Lopes Ribeiro

Amor de Perdição filme de 1914 filme de 1918 filme de 1921

Amor de Perdição é a quarta, e não última, adaptação (1914, 1918, 1921) cinematográfica do romance de Camilo Castelo Branco. Conta com António Vilar (Simão Botelho), Carmen Dolores (Teresa de Albuquerque)e António Silva (João da Cruz) e com a música de Jaime Silva Filho, estreou no Coliseu do Porto 8 de Outubro de 1943.

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Frei Luís de Sousa (1949) de António Lopes Ribeiro

Baseado na peça teatral homónima de Almeida Garrett. Com Maria Sampaio (Madalena de Vilhena), Maria Dulce (Maria de Noronha), Raul de Carvalho (Manuel de Sousa Coutinho) e João Villaret (Telmo Pais).

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4 - o filme histórico ou de exaltação de personalidades da história pátria.

O filme histórico,pretende apresentar o próprio regime como fundamento e "guardião" de um passado histórico mistificado e reduzido aos grandes feitos da "raça" e das suas figuras de excepção, com que o Estado Novo pretende ser identificado.

Bocage (1936) de Leitão de Barros

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Em 1936, Leitão de Barros ensaia com o seu "Bocage" um novo género, que irá desenvolver-se posteriormente, com intenções mais caracterizadamente políticas: o filme sobre as personagens ou épocas da História Nacional.

Com o "Bocage", foi filmada uma versão espanhola intitulada "Las Trés Gracias", com actores espanhóis.

João Villaret estreia-se neste filme como actor de cinema interpretando a figura do Príncipe Regente. Tomás de Alcaide canta no filme "O Amor É Cego e Vê".

Estreou comercialmente no São Luíz, em 1 de Dezembro de 1936. Em termos de bilheteira, "Bocage" foi um fracasso tanto em Portugal como em Espanha, porém, no Brasil, foi um grande êxito.

"Bocage" confirmava, mas sem a inspiração anterior, a veia histórico-literária de Leitão de Barros. (...) Com opulenta reconstituição histórica, que aproveitou o recinto de "Lisboa Antiga", a São Bento, entre o edifício da Assembleia da República e a Delegação de Saúde de Lisboa, exteriores nos jardins de Queluz e magníficos cenários de Vasco Regaleira, onde passeiam figurinos de sonho, alguns dos quais vindos da casa Garnier, de Paris, o filme ressente-se deste predomínio do cenário em relação ao enredo, deste apagamento das figuras diante do estuque. Leitão de Barros não consegue harmonizar, como em A Severa, o estúdio e a Natureza, a verdade dos rostos e a convenção da época reconstituída. Bocage, apesar do brio de Raul de Carvalho, pouco à vontade na persongem, deixa de ser o poeta singular, a figura discutida que o povo consagrou. Ficam-nos alguns apontamentos de bom gosto e algumas canções, como a célebre "Marcha dos Marinheiros", de Carlos Calderón, sem esquecer a romança "a Amor É Cego e Vê", cantada por Tomás Alcaide.

Luís de Pina, História do Cinema Português, ed. Europa-América, 1986. http://www.amordeperdicao.pt/

Inês de Castro (1945) de Leitão de Barros

Adaptação da obra "A Paixão de Pedro, o Cru", da autoria de Afonso Lopes Vieira com António Vilar (Dom Pedro), Alicia Palacios (Dona Inês), Maria Dolores Pradera (D. Constança), João Villaret (Martin, o bobo), Erico Braga (D. Afonso IV), Raul de Carvalho (Diogo Lopes Pacheco) e Alfredo Ruas (Álvaro Gonçalves, o Meirinho-Mor). Estreou, em Portugal, no São Luís, em 9 de Maio de 1945.

Foi rodado em Espanha e foi feita uma versão espanhola, intitulada "Inés de Castro".

Considerado de Interesse Nacional em Espanha e vencedor Primeiro Prémio no concurso Melhores Filmes Estreados em Espanha em 1945. Algumas filmografias espanholas atribuem a realização a Leitão de Barros e a García Viñolas.

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Villaret no papel do Bobo

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Cartaz da versão espanhola

"Leitão subiu de novo ao pódio para dirigir esta caríssima co-produção. A seu lado tinha Pierre Schild e um tal Enrique Guerner que outro não era senão o alemão Heinrich Gartner, entretanto naturalizado espanhol, e que já nos anos 30 assinara em Portugal a fotografia de "Gado Bravo" e das "Pupilas". Schild foi o responsável pelos décors e é pelo lado deles que Inêonseguido exemplo do nosso cinema histórico."

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, ed. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1991.

"Não se pode deixar de concluir que no aspecto de cuidado e rigor da produção representou um esforço digno de nota. (...) a critica (...), que sendo unânime em elogiar o aspecto material do filme, já o não foi tanto quanto ao intrínseco valor cinematográfico da obra acabada. "

in Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português, de M. Félix Ribeiro. http://www.amordeperdicao.pt/

"Camões" 1946 - Leitão de Barros

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Com o apoio do SNI (antigo SPN) a “super-produção” Camões foi considerada de "interesse nacional", num despacho do próprio A.Salazar.Com António Vilar (Luís de Camões) José Amaro (D. Manuel de Portugal), Igrejas Caeiro (André Falcão de Resende), Paiva Raposo (Pêro de Andrade Caminha), Leonor Maia (Leonor), Idalina Guimarães (Inês), Vasco Santana (Mal-Cozinhado), Eunice Muñoz (Beatriz da Silva), Carmen Dolores (Catarina de Ataíde), João Villaret (D. João III, rei de Portugal).

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Obtendo os principais prémios de cinema do SNI, melhor filme, melhor actor (António Vilar) e melhor actriz (Eunice Muñoz), foi o primeiro filme português a ser seleccionado para a primeira edição do Festival de Cannes (Outubro de 1946).

Estreou comercialmente no São Luíz, em 23 de Setembro de 1946, tendo ficado 8 semanas em cartaz, com cerca de 80 mil espectadores. Dado o enorme custo de produção - "o mais desmedido e ambicioso projecto do nosso cinema" (João Bénard da Costa), "Camões" foi uma decepção em termos de rentabilidade comercial, embora fosse considerado, unanimemente, pela crítica da época, como "o melhor filme português de todos os tempos".

"De novo tudo funciona apesar dos erros técnicos, de um certo peso cenográfico, de uma certa confusão narrativa. De novo António Vilar nos aparece como o melhor instrumento humano da mensagem criadora do cineasta. Ele será, por muito tempo, reduzindo tudo o resto à sua figura, o Camões do nosso imaginário, agora com gesto e voz. (...) Claro que Vasco Santana, claro que António Silva, o génio do povo, estão lá, magníficos cada um à sua maneira, mas Vilar tudo arrebata, com o talento que lhe valeria as portas do mundo." Luís de Pina, in História do Cinema Português, ed. Europa-América, 1986. http://www.amordeperdicao.pt/

5 – documentários e filmes de propaganda do regime

Os documentários são diversos mas directamente de propaganda do regime entre outros refira-se: "A Obra da JAE" (1934) de Jorge Brum do Canto (1910/19), a "Legião Portuguesa" (1937) e "Mocidade Portuguesa" (1937) de Leitão de Barros, "Exposição do Mundo Português" (1941) e "Inauguração do Estádio Nacional" (1944) Angola, uma Nova Lusitânia (1944), Gentes Que Nós Civilizámos (1944), A Morte e a Vida do Eng. Duarte Pacheco (1944), Inauguração do Estádio Nacional (1944), Viagem de Sua Iminência o Cardeal Patriarca de Lisboa (1944), As Ilhas Crioulas de Cabo Verde (1945) e Manifestação a Carmona e Salazar pela Paz Portuguesa (1945)A. L. Ribeiro.

Os filmes são apenas dois:

"A Revolução de Maio" (1937) de António Lopes Ribeiro

Apresentado como complemento,"A Revolução de Maio", o primeiro filme subsidiado pelo Secretariado da Propaganda Nacional e realizado nas Comemorações do Ano X da Revolução Nacional. estreia a 6 de Junho de 1937 no Tivoli.O filme, de 1937, mostra imagens do discurso de Salazar em Braga filmadas um ano antes, no décimo aniversário da instauração da Ditadura Nacional.

No elenco António Martínez (César Valente/Manuel Fernandes), Maria Clara (Maria Clara), Emília de Oliveira (Júlia, a mãe), Alexandre Azevedo (Chefe Moreira) e Clemente Pinto (Marques).

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Com argumento do próprio António Ferro, realizado por A. Lopes Ribeiro e com música de Luís de Freitas Branco, cantada por José Rosa (falecido em Itália em 39), tem o significativo título de "A Revolução de Maio" e procura a apologia do regime e das suas realizações, dos seus instrumentos de repressão e do próprio Salazar.

César Valente, perigoso agitador, regressa do exílio, vindo do Báltico, para desencadear a insurreição a 28 de Maio, no décimo ano da Revolução Nacional. A polícia limita-se a vigiar, deixando-o agir livremente até descobrir todos os pormenores da conspiração e os seus cúmplices. O conhecimento de uma linda rapariga, Maria Clara, e a constatação das transformações sociais e económicas operadas no país durante a sua ausência, suscitam enfim, em César Valente, o milagre da evidência.

"... A Revolução de Maio - é o único exemplo de uma ficção política tentado até aos anos 70 e o único filme feito explícita e expressamente à glória do Estado Novo, que o encomendou e pagou. (...) Mas mesmo para esta versão tão soft de "filme fascista", António Ferro teve as suas dificuldades. Lopes Ribeiro conta que antes dele, Ferro convidou sucessivamente para a realização Leitão de Barros, Jorge Brum do Canto e Chianca de Garcia e que todos recusaram. E o acolhimento ao filme, apesar de soleníssima estreia no Tivoli, a 6 de Junho de 1937 (não se conseguiu acabar o filme ainda em 1936, ano do aniversário), com a presença do próprio Salazar, foi discreto, para dizer o mínimo. Ninguém se lembrou de insistir mais em tal género de fitas, nem de pedir mais obras "que exaltem vibrantemente a juventude, o trabalho e a alegria de viver" ou em que "as imagens colaborem com a história", na senda de palavras de Mussolini, recordadas por António Ferro na ocasião. Aliás, o mais curioso exemplo dessa colaboração das "imagens com a história" consiste na extensa passagem de "Revolução de Maio" em que Lopes Ribeiro montou, com a ficção, o documentário do discurso de Salazar em Braga. Muito tempo depois, o realizador afirmou que essa ideia ("actualidades" mais "ficção") lhe viera da sua estada na URSS em 1929 e dos filmes de "agit prop" de Dziga Vertov..."

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, ed. Imprensa-Nacional-Casa da Moeda, 1991. http://www.amordeperdicao.pt/

Feitiço do Império (1940) António Lopes Ribeiro
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Cartaz de Estrela Faria

Francisco Morais, o ricaço de Boston, filho de uma próspera família lusitana emigrada aos Estados Unidos, decide, contrariando seu pai, naturalizar-se norte-americano. Os pais, inconformados, convencem-no a viajar à Pátria. ... Em Lisboa, o herói com tudo se aborrece: a morna vida da capital lusa, o fado (que encontra por todas as partes), o rádio, os restaurantes típicos... A sua viagem não acaba, contudo, no pequeno Portugal metropolitano, e Francisco viaja à África. Atraído pela possibilidade da caça, pela imensa paisagem e por uma rapariga branca do sul da colónia, o herói converte-se à portugalidade.

Foi o primeiro filme de ficção a abordar as colónias ultramarinas e a obra colonizadora dos portugueses. Considerado como uma obra de ficção exemplar sobre a visão colonial do Estado Novo, foi produzida pela Agência-Geral das Colónias e integrada na Missão Cinematográfica às Colónias de África, de que António Lopes Ribeiro foi o director técnico e realizador.

Estreou comercialmente no cinema Eden, em 23 de Maio de 1940, com a presença do Presidente da República.

6 – comédias e filmes de costumes

A comédia que de uma forma indirecta, aproximando-se de um modo que se pretende - e por vezes consegue - cativante do quotidiano ou de um certo quotidiano, servido por um conjunto de excelentes actores, permite uma fácil adesão e identificação, sobretudo por parte das camadas populares urbanas.As suas personagens, elaboram modelos de comportamento e horizontes de aspirações, tornando-se num meio de conformação do gosto e veículo ideológico do regime.

"A Canção de Lisboa" (1932) de Cottinelli Telmo

É um arquitecto, Cottinelli Telmo (colega nas Belas Artes e com laços familiares a Leitão de Barros) que realiza "A Canção de Lisboa" filme com um enorme sucesso (que ainda hoje mantém…) e que irá constituir o modelo do filme de comédia em que o regime, mesmo que por vezes não tenha tido disso consciência, mais e melhor utilizou ideologicamente o cinema. Apresentado a 7 de Novembro de 1933 no São Luiz.

José Ângelo Cottinelli Telmo estudou Arquitectura na Escola de Belas Artes de Lisboa curso que completou em 1920. Ainda estudante colaborou com Leitão de Barros e a Lusitânia-Film na produção dos filmes Mal de Espanha e Malmequer.

Conhecido como arquitecto, (de 1938 a 1942 foi director da revista Arquitectos – orgão oficial do Sindicato dos Arquitectos Portugueses, de que foi presidente de 45 a 48), a sua actividade estendeu-se por inúmeras actividades. Além de arquitecto e cineasta, foi bailarino, autor de banda desenhada, fotógrafo, ilustrador e músico. Na banda desenhada foi o autor das “Aventuras inacreditáveis (e com razão) do 'Pirilau' que vendia Balões” publicada no ABC-zinho. O Pirilau que Vendia Balões» era um miúdo de olho vivo — único olho geralmente visível, pois a pala do boné tapava-lhe o outro.

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Na revista ABC publicou-se uma segunda aventura de Cottinelli Telmo — «A Grande Fita Americana» — girando o enredo à volta de cowboys, índios, cavalos, estrelas de cinema, patifórios, comboios e tudo o mais.

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Em 1932, quando Cottinelli termina a construção dos estúdios da Tóbis Portuguesa, segundo um projecto de A.P. Richard, o mesmo Cottinelli Telmo realiza a Canção de Lisboa o primeiro filme sonoro inteiramente rodado em Portugal.

A Canção de Lisboa, tem uma variada e qualificada colaboração, cartazes de Almada, colaboração do poeta José Gomes Ferreira na montagem, do pintor Carlos Botelho como assistente de realização e o próprio Manoel de Oliveira como actor. O tema de abertura é, possivelmente, cantado por Laura Tágide Tavares, cantora lírica de grande projecção na época, as letras e músicas são de Raúl Ferrão (1890-1953) e Raúl Portela (1889-1942). Conta no elenco com actrizes e actores de grande popularidade como Beatriz Costa (Alice), Vasco Santana (Vasco Leitão), António Silva (Alfaiate Caetano), Teresa Gomes (Tia de Trás-os-Montes), Sofia Santos (Tia de Trás-os-Montes), Alfredo Silva (Sapateiro), Manoel de Oliveira (Carlos) e Eduardo Fernandes (Quicas).

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As canções da Canção de Lisboa – repare-se na designação de fonofilme.

"Maria Papoila" 1937 de Leitão de Barros

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Com argumento de Vasco Santana, José Galhardo e Alberto Barbosa e no elenco com Mirita Casimiro (Maria Papoila), António Silva (Mr. Scott, o Americano), Eduardo Fernandes (Eduardo da Silveira), Alves da Costa (Carlos), Maria Cristina (Margarida Noronha Baptista), Joaquim Pinheiro (Soldado 27), Virgínia Soler (Cozinheira Elvira), Amélia Pereira (D. Casimira) e Perpétua dos Santos (Ti Joaquina).

A história pretende evidenciar as contradições entre o mundo rural e o mundo urbano, entre a classe baixa e a classe alta. Maria Papoila, uma rapariga humilde e de bom coração, vem servir para Lisboa. Aqui conhece Eduardo, um recruta por quem se apaixona e que julga ser da sua condição social. Namoram até descobrir que afinal Eduardo não só é um rapaz rico como também tem namoro com uma rapariga da sua classe, Margarida Noronha Baptista.

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Um dia de manhã, a mãe de Margarida nota que as suas jóias foram roubadas durante a noite, precisamente a noite em que Eduardo foi visto ao redor da casa - depois de acompanhar, em segredo, Margarida. Eduardo é preso mas Margarida, para salvar a sua honra, nega o incidente. Quando nada parece salvar Eduardo da prisão, Maria Papoila descobre o verdadeiro ladrão, Carlos, filho da sua patroa, e apresenta-se em Tribunal, dizendo que passara a noite com o arguido. Eduardo é libertado e Maria Papoila decide regressar à sua terra, magoada, achando que Lisboa não é lugar para ela. Mas, assim que sobe para o comboio....

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"Maria Papoila é um filme popular. Realizado dentro de uma técnica simples, pois não pretende revolucionar a cinematografia, procurei rodeá-lo de todas as condições que possam despertar a atenção do público. Foi para ele que trabalhei, sem outras preocupações que não fossem as de realizar espectáculo acessível, no qual a alegria e a emoção têm lugares marcados. A missão do cinema é contar - e quanto mais reportagem da vida, mais certo é. Eis por que a realização do meu filme não tem quaisquer aspectos transcendentes. Pelo contrário, toda a acção decorre numa toada simples, como simples é a história de amor que a anima. Bem sei que o cinema, para muita gente, devia ter características intelectuais e directrizes superiores. Mas a verdade é que a sua feição mais acentuada é a de ser um espectáculo de multidões." Leitão de Barros (em entrevista)

(...) Maria Papoila é, a meu ver, a obra mais interessante de quantas nos ficaram desses negros "middle-thirties". (...) Nessa história da pastora beirã que vem para sopeira em Lisboa, Leitão de Barros conseguiu, em grande parte devido à genial criação de Mirita Casimiro - depois de Beatriz Costa, a maior revelação do nosso cinema, infelizmente jamais aproveitada depois -, um retrato admirável da oposição mundo rural, mundo da pequena-burguesia urbana, com pinceladas fulgurantes para o microcosmos dos grandes pilares da ordem portuguesa de então: a família (quer a da casa de Maria Papoila quer a do namorado), o exército (o rapaz dela é magala) e a justiça, com a magistral sequência em que Maria Papoila se apresenta no tribunal para salvar o magala, com o sacrfício da sua "honra".

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, ed. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1991. http://www.amordeperdicao.pt/

Aldeia da Roupa Branca 1938 de Chianca de Garcia

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Estreado no Tivoli, em Janeiro de 1938 Aldeia da Roupa Branca de Chianca de Garcia, é uma comédia de cunho popular com Beatriz Costa (Gracinda), José Amaro (Chico), Manuel Santos Carvalho (Tio Jacinto), Óscar de lemos (Luís), Elvira Velez (Viúva Quitéria), Armando Machado (Zé da Iria) e Octávio de Matos (Simão, o Chefe da Banda).

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A "Aldeia da Roupa Branca" foi o último filme de Chianca de Garcia antes de emigrar para o Brasil (em 1938). Foi também o último filme em que Beatriz Costa participou. De assinalar que a história original de Chianca foi planificada pelo escritor José Gomes Ferreira, em mais uma das suas colaborações com o cinema.

"O Velho e o Novo" foi o título dado originalmente ao projecto. A Censura, cortou uma pequena parte do filme, por a considerar "imoral".

Com A Aldeia da Roupa Branca, Chianca de Garcia consegue o seu melhor filme, servindo-se de uma Beatriz Costa inspirada pelos ares da sua terra, a região saloia a norte de Lisboa, e actuando em estado de graça. (...)

O processo de alternância cidade-campo, ou vida-espectáculo, ou realidade-convenção, se quisermos, concentra-se finalmente em A Aldeia da Roupa Branca, súmula da obra de Chianca de Garcia, onde tudo se harmoniza para o êxito conjugado dos elementos fílmicos: a história - com a sugestão eisensteiniana do "velho e do novo", colhida na sua "Linha Geral", que faz da camioneta do antigo condutor da galeras o elemento transformador do núcleo social, como o tractor daquele filme soviético; as personagens, caracterizadas na sua tipicidade, sem exagero nem concessões à convenção revisteira; e a acção, com os dois momentos supremos da desfilada das galeras carregadas de roupa, tal qual a corrida de quadrigas de "Ben-Hur", e da luta das bandas de música pelo único coreto da aldeia.

Luís de Pina, in História do Cinema Português, ed. Europa-América, 1986

"Mesmo que não se queira ir tão longe, há indiscutíveis afinidades com outro filme soviético: Vessiolye Rebyate (1934) do antigo assistente de Eisenstein, Alexandrov, que em Portugal correu sob o título "Os Alegres Foliões". O ritmo da "Aldeia", o uso da montagem no filme (com a corrida das galeras) e sobretudo o aproveitamento das canções (talvez as mais célebres do cinema nacional) descendem do filme de Alexandrov e a "Aldeia" - até no seu ruralismo primário - é a versão portuguesa de um conflito à portuguesa, adaptação possível da luta de classes em lutas de grupos. (...) Mas sobretudo "A Aldeia" é Beatriz Costa, na última das suas criações cinematográficas. Julgo, pessoalmente, que o mais belo grande plano de mulher do cinema português é aquele em que ela canta os três corpetes e um avental/sete fronhas e um lençol/três camisas dum enxoval/que a patroa deu ao rol".

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, ed. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1991. http://www.amordeperdicao.pt/

O Pai Tirano (1941) A. L. Ribeiro

Estreado no Eden, é uma comédia que coloca diversas questões entre o teatro, o cinema e a realidade.

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Com Vasco Santana (José Santana), Francisco Ribeiro/Ribeirinho (Francisco Mega), Leonor Maia (Tatão), Graça Maria (Gracinha), Teresa Gomes (Teresa), Luísa Durão (D. Cândida), Laura Alves (Laurinha), Nelly Esteves (Júlia), Idalina de Oliveira (Idalina) e Arthur Duarte (Artur de Castro).

Repare-se na utilização quase integral dos nomes dos actores para os nomes das personagens, algo que só muito mais tarde será utilizado no cinema.

Francisco Mega,caixeiro nos Grandes Armazéns Grandella, é actor amador num teatro de bairro dirigido por José Santana. Entretanto apaixona-se por Tatão uma empregada da Perfumaria da Moda, cuja paixão é o cinema. Gera-se um equívoco quando Tatão confunde o ensaio da peça com a realidade, julgando que Francisco´descende de uma família aristocrata.

"Para além dos méritos do script - O Pai Tirano - é basicamente um filme de argumento - três actores geniais: Ribeirinho, Vasco Santana e Teresa Gomes - ajudaram poderosamente a levar este curiosíssimo exemplo de teatro filmado e de filme teatral (o argumento funciona tanto sobre a representação de uma peça como sobre a oposição teatro/cinema no interior da representação que a envolve) à quintessência do género. O resto (...) é uma questão de timing e aí chapeau para Lopes Ribeiro, na melhor prestação da sua carreira."

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, col. Sínteses da Cultura Portuguesa, Europália 91, ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991. http://www.amordeperdicao.pt/

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A cena em que Francisco dialoga sobre o amor com Tatão, tendo por fundo um cartaz de um conhecido limpa metais (a Solarina Coração) cujo símbolo é um coração atravessado por uma seta. Este recurso de sublinhar um diálogo contrapondo-o com o fundo, também só alguns anos mais tarde será utilizado no cinema.

"O Pátio das Cantigas" (1942) Francisco Ribeiro (Ribeirinho)

Estreado no Eden, O Patio das Cantigas de Francisco Ribeiro/Ribeirinho, com produção de António Lopes Ribeiro tornou-se um dos mais populares filmes portugueses.

Ribeirinho dirigiu várias companhias de teatro como o Teatro do Povo, Os Comediantes de Lisboa, o Teatro Universitário de Lisboa, o Teatro Nacional Popular e o Teatro Nacional D. Maria II este último de 1978 a 1981 .

No cinema como actor participou em vários filmes assinados pelo seu irmão e ainda em filmes realizados por Arthur Duarte.

O Pátio das Cantigas tem no elenco António Silva (Evaristo), António Vilar (Carlos Bonito), Armando Chagas, Barroso Lopes (João Magrinho), Carlos Alves (Engenhocas), Carlos Otero (Alfredo), Eliezer Kamenesky, Francisco de Castro, Francisco Ribeiro (Rufino), Graça Maria (Susana), Laura Alves (Celeste), Maria da Graça (Maria da Graça), Maria das Neves (Dona Rosa) e Vasco Santana (Narciso).

Ficaram célebres a cena de Vasco Santana bêbado dialogando com um candeeiro de iluminação pública, bem como a expressão “Oh Evaristo tens cá disto ?”.

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O Pátio das Cantigas – Óh! Evaristo, tens cá disto?!

"O Costa do Castelo" (1943) Arthur Duarte

Estreado em Março de 1943 1no São Luiz, com António Silva (Simplício Costa), Maria Matos (Mafalda da Silveira), Milú (Luisinha), Fernando Curado Ribeiro (André/Daniel), Manuel Santos Carvalho (Simão), Teresa Cazal (Isabel) e Hermínia Silva (Rosa Maria).

"O Costa do Castelo", é o primeiro filme de uma série de comédias ("A Menina da Rádio" e "O Leão da Estrela"),que Arthur Duarte irá realizar com sucesso nos anos 40. Nelas retrata-se a vida da pequena burguesia de Lisboa com as suas aspirações a pertencer à classe alta. Estas comédias devem muito a António Silva e as suas interpretações de personagens que tudo resolvem, que tudo sabem e que com todos se relacionam.

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“ A Menina da Rádio” (1944), Arthur Duarte

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Estreado em Julho no São Luiz, apresentava como complemento, Inauguração do Estádio Nacional de António Lopes Ribeiro.

Arthur Duarte realiza uma comédia musical mostrando o mundo da rádio, “…com as suas vedetas, os seus locutores (...), os seus concursos e as suas orquestras. Num breve apontamento Arthur Duarte chega a idealizar um aparelho de televisão, mercê de um truque bem realizado que poucos notaram." Luís de Pina, in História do Cinema Português, ed. Europa-América, col. Saber, 1986

Com António Silva (Cipriano Lopes), Maria Matos (D. Rosa Gonçalves), Maria Eugénia (Geninha), Óscar de Lemos (Óscar), Francisco Ribeiro/Ribeirinho (Fortunato), Fernando Curado Ribeiro (Fernando Verdial), Teresa Cazal (Teresa Waldemar), Aida Ultz (Aidinha Seabra) e Maria Olguim (Maria do O).

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"O Leão da Estrela" (1947) Arthur Duarte

Terceira das comédias de Arthur Duarte com António Silva (Anastácio), Milú (Jujú), Maria Eugénia (Branca), Erico Braga (Barata), Laura Alves (Rosa), Fernando Curado Ribeiro (Eduardo), Artur Agostinho (Miguel, o Motorista), Maria Olguim (Carlota), Cremilda de Oliveira (Madame Barata), Tony d’Algy (Comandante) e Óscar Acúrsio (Filipinho).

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Depois do mundo da Rádio o Futebol, desporto que na época já tem uma enorme popularidade.

Anastácio ferrenho adepto do Sporting quer ir ao Porto ver o desafio Porto-Sporting. Como em muitas destas comédias a família de Anastácio de condição modesta faz-se passar por pertencer a uma classe mais elevada como a família que os aloja no Porto. Quando estes retribuem a visita, a família de Anastácio recorre a uma casa que não é sua…

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O Jogo Porto-Sporting no Campo do Lima. Repare-se na saudação das equipas.

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Os relatos radiofónicos dos eventos desportivos.

"O Leão da Estrela (...) é uma espécie de super-Arthur Duarte em tudo: o bairro, o Homem das Arábias-António Silva, leão ferrenho, o novo-riquismo do comerciante portuense Erico Braga - portista convicto -, o toque desportivo do Porto-Sporting, mas insinuando-se sob as imagens, perfeitamente claro, o tema da rivalidade Lisboa-Porto, que Arthur Duarte, um tanto simbolicamente, resolve com um casamento entre a solidez portuense (o engenheiro Curado Ribeiro) e a garridice lisboeta (a bonita Maria Eugénia).

As proezas de António Silva são aqui extraodinárias (...) mas o conjunto, a trama secundária, não atinge plano de relevo, salvo a frescura de interpretação de Laura Alves e Artur Agostinho, a criada e o motorista apaixonados. (...)"

Luís de Pina, in História do Cinema Português, ed. Europa-América, col. Saber, 1991 http://www.amordeperdicao.pt/

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