Os anos 30 e os Planos dos Italianos para o Porto
Entre o Prólogo ao Plano do Porto do engenheiro Ezequiel de Campos de 1932 e o início da colaboração dos arquitectos italianos em 1938, diversas e profundas transformações se deram, a vários níveis, em Portugal e na cidade do Porto.
I Parte – Aspectos dos anos 30 (continuação)
Duarte Pacheco (1899/1943) e a política de Obras Públicas
A personalidade chave na fundamental política de Obras públicas e na consolidação e fachada moderna do Estado Novo é o engenheiro Duarte Pacheco (1899/1943).
Formado muito novo em engenharia electrotécnica (em 1923) pelo Instituto Superior Técnico (criado em 1911 pelo governo republicano) é nomeado professor de Matemáticas Gerais (em 1925), e dois anos depois (aos vinte e sete anos) Duarte Pacheco é já o seu Director.
Encarregará Pardal Monteiro de projectar e conduzir de 1925 a 27 as suas novas instalações, que se tornarão o protótipo e o exemplo das construções e do esforço construtivo do Estado Novo - pelo menos no que respeita edifícios públicos - até aos finais dos anos trinta.
Revista Municipal de Lisboa n.º especial dedicado a Duarte Pacheco Janeiro de 1944
O IST na Architecture d’Aujourd’hui Ano 5 n.º 4 de 1934
Passando pelo Ministério da Instrução no governo de Vicente de Freitas (em 1928), irá ocupar na significativa data de 1932, a pasta do novo Ministério das Obras Públicas e Comunicações, onde se irá manter até 1935 e de novo entre 1938 e 43, data da sua morte em acidente de viação.
Mas interessado em estender a todo o território nacional, a obra de "ressurgimento" do Estado Novo, Duarte Pacheco irá actuar ao nível da recente "ciência do urbanismo", para o que cria em 1934 o Decreto-Lei nº 24 802, que obriga os aglomerados de mais de 2 500 habitantes, a Planos Gerais de Urbanização.
Duarte Pacheco, quando é colocado como Ministro das Obras Públicas e Comunicações em 32, irá implementar uma política, apoiada financeiramente no Fundo de Desemprego, centralizadora mas com ambições de reorganizar o território nacional, chamando a com ele colaborarem, directa ou indirectamente os novos arquitectos e engenheiros.
Será sobretudo pelo desenvolvimento e realização de uma rede de equipamentos e construções - que se prolongará na década seguinte - que o Estado Novo irá, espalhar por todo o país e impor a sua presença de Ordem, de Nacionalismo e de Tradição.
Um plano que actua simultaneamente ao nível do social, do económico e do cultural, utilizando as Obras Públicas e as Comunicações, como um eficaz instrumento de propaganda e de afirmação do poder. Para isso o regime empreende um ambicioso programa de Obras Públicas e de realização dos edifícios dos Correios e Telefones, das agências da Caixa Geral de Depósitos (C.G.D.), dos Liceus, dos Paços do Concelho, Casas do Povo e Casas de Pescadores, dos Palácios da Justiça e Tribunais e de esculturas públicas.
Estas realizações até aos finais dos anos trinta terão uma expressão moderna, dando-se depois uma viragem pela influência da Alemanha de Hitler, da Espanha de Franco e, sobretudo, da perda de influência dos artistas modernos junto de Mussolini.
Operando através de uma recuperação formalista, selectiva e arcaica do passado histórico, utilizando um léxico ultrapassado, imitativo e acrítico, quer de carácter pseudo nacional e/ou local - no qual as modernas tecnologias apenas servem como meios de configuração de fachadas ou monumentos estilizados e, muitas vezes senão sempre, tornando-os meras caricaturas do neoclássico ou de estilos nacionais - quer na utilização de elementos (mal) apreendidos da arquitectura popular ou regional, numa arquitectura que será, muito irónica e justamente conhecida pelo nome de "Português Suave" (uma popular e conhecida marca de cigarros).
O período entre 1929 e 1938
Mas nos anos trinta as encomendas de equipamentos públicos e de prestígio, permitirão realizar um conjunto notável de obras de evidente modernismo.
O concurso dos Liceus
Em 1930 é lançado o concurso dos novos liceus, Beja, Lamego e Coimbra - coincidindo com a conclusão e inauguração de alguns estabelecimentos projectados pelo regime republicano - de que se destacam, como expressão clara de uma nova forma de projectar e de construir.
À modernidade destes projectos responde o "Plano de 1938", para a construção de dez novos liceus, sendo os projectos elaborados pelos arquitectos da junta: Francisco Assis e José Costa e Silva, que reduziram a resposta ao programa com soluções esquemáticas e linguagem uniformizada. Os projectos entregues a arquitectos exteriores à junta, como Januário Godinho, acabaram por ser revistos segundo os critérios internos” (Gonçalo Canto Moniz Arquitectos e Políticos. - A arquitectura institucional em Portugal nos anos 30 in http://br.monografias.com/) confirmando a ideia que, a partir de 1938, se inicia uma nova “estética” do Estado Novo.
• o Liceu Latino Coelho de Lamego, de Cottinelli Telmo de 1931/36,
• o Liceu D. Filipa de Lencastre em Lisboa de Carlos Ramos e Jorge Segurado de 1932,
foto Mário Novais BA FCG
• o Liceu Fialho de Almeida em Beja de Cristino da Silva, de 1931/34 (publicado no nº 1 da revista do Sindicato Nacional dos Arquitectos).
fotos Mário Novais BA FCG
• O Liceu Júlio Henriques (José Falcão) em Coimbra de Carlos Ramos (Segurado e Nunes) de 1931/36
A partir de 1938, nos Liceus mantém-se uma idêntica organização interna, mas altera-se a “linguagem” do exterior. Regressam as coberturas de telha, os socos e os cunhais de granito, as escadarias de entrada, os ferros forjados, etc.
Liceu de Castelo Branco 1940 arquitecto José Sobral Branco
Os edifícios dos CTT
Também na afirmação do Estado Novo e do MOPC constroem-se por todo o País as estações dos CTT, a maior parte dos quais projectados por Adelino Nunes (1903-1948).
O processo de modernização e ampliação das Comunicações Postais, Telefónicas e Telegráficas (CTT) foi dinamizado pela "Comissão para Elaboração do Plano Geral das Construções e Redes Telefónicas e Telegráficas", criada em 1934, com o objectivo levar definitivamente a todo o território a última inovação tecnológica que veio permitir a comunicação rápida à distância. Os CTT permitiam, também, o contacto directo com as colónias, contribuindo para a consolidação da política imperialista.
Paralelamente à construção da rede telegráfica e telefónica, foi iniciado um processo de construção dos edifícios dos CTT que deveriam estar presentes em todas as localidades. O arquitecto Adelino Nunes será o responsável pelos projectos de arquitectura desenvolvidos dentro da comissão. A comissão realiza um levantamento das necessidades, visita as experiências realizadas em França e em Inglaterra e apresenta um plano, em 1937, que define uma estratégia de intervenção com um programa arquitectónico, uma classificação dos edifícios a construir, as prioridades de execução, três projectos-tipo e a possibilidade de se realizarem projectos excepcionais para terrenos difíceis.
Os projectos tipo que Adelino Nunes apresenta no plano partem de uma planta racional, que garante a autonomia das três funcionalidades dos edifícios -atendimento ao público, serviços técnicos e casa do gerente -, e prevêem duas hipóteses de alçados, um moderno e o outro regionalista. Paralelamente, Adelino Nunes elabora projectos especiais para as capitais de distrito que exploram o carácter urbano das cidades onde são implantados, optando, de um modo geral, por uma linguagem afirmadamente modernista. Gonçalo Canto Moniz Arquitectos e Políticos. - A arquitectura institucional em Portugal nos anos 30 in http://br.monografias.com/
Adelino Nunes (1903/1948) a Estação Telefónica do Estoril em 37 publicada no nº 5 da, então influente nos meios profissionais, revista Arquitectos do Sindicato Nacional dos ArquitectosEstação
CTT Estoril 1937 foto Mário Novais BA FCG
CTT de Beja
CTT de Setúbal foto Mário Novais BA FCG
CTT de Leiria foto Mário Novais BA FCG
O mesmo Adelino Nunes irá a partir de 1938/ 40 projectar as estações dos CTT, com programa e organização interna semelhantes, mas utilizando no exterior uma linguagem “português suave”.
CTT de Santo Tirso
A partir de 1938, data em que Duarte Pacheco retoma as funções de Ministro das Obras Públicas e Comunicações (de onde havia sido afastado em 35), o Estado Novo irá afirmar a sua presença em todo o território nacional acrescentando aos Correios e estabelecimentos de ensino (primário e secundário) as Caixa Geral de Depósitos (C.G.D.), os Paços do Concelho, as Casas do Povo e Casas de Pescadores, os Palácios da Justiça e Tribunais e as esculturas públicas. Esta política (e propaganda) do Regime irá prolongar-se para além da 2ª Guerra Mundial até aos anos 60.
Lisboa, capital do Império
Na Câmara Municipal de Lisboa a que preside por um breve espaço de tempo (de 1 de Janeiro a 25 de Maio de 1938), Duarte Pacheco irá ter uma acção urbanística de considerável alcance,na aquisição ou expropriação de solo, conseguindo disciplinar e conter a especulação privada que então se processava, e lançando algumas iniciativas urbanísticas parciais ou gerais. Lisboa constituía para o Estado Novo a capital do Império e portanto o local por excelência para afirmar pelas obras públicas, as capacidades do Regime.
Em 1926 a comissão administrativa nomeada para a Câmara de Lisboa convida o arquitecto paisagista Jean-Claude-Nicolas Forestier (1861-1930) a dar um parecer sobre o Parque da Liberdade. Como resposta Forestier apresenta um projecto de extensão da Avenida da Liberdade.
« A Avenida construída em seguimento da Avenida da Liberdade, teria uma largura de 190 ou 200 metros a fim de dar a impressão duma vasta avenida de jardins bastante parecida com a do Bois de Bologne ( que tem 140 metros de casa a casa ). Seria enquadrada por habitações só para moradia, certamente luxuosas e elegantes em virtude da sua situação no mais belo bairro de Lisboa. A revenda destes terrenos nas novas condições produziria receita suficiente para cobrir as despesas dos trabalhos. Temos já os exemplos de outros países: o Champ de Mars, em Paris, a Avenida de Tervueren, em Bruxelas, etc. Enfim, daqui se pode encarar o acesso ao grande Parque cuja primeira ideia partiu dos srs. Vicente de Freitas e dr. Mac Bride - indispensável para uma grande cidade como Lisboa. » Jean-Claude-Nicolas FORESTIER, entrevista ao Diário de Notícias, 29/7/1928. (cfr. CAMARINHAS, Catarina Teles Ferreira DE L’AVENUE-PROMENADE AU “GREENWAY “ : L’UTOPIE DE L’URBAIN, A LISBONNE Université de Paris IV – Sorbonne, UMR 8185 du CNRS).
Entre 1932 e 36 Cristino da Silva projecta o “Estudo do Prolongamento da Avenida da Liberdade”.
Em 1934 é criado o Parque de Monsanto e a Comissão de Estética da Cidade de Lisboa e no mesmo ano o concurso público para o arranjo do Rossio (que não tem vencedor sendo o 2º prémio atribuído a Cristino da Silva).
Em 33 é chamado para elaborar o Plano de Urbanização da Costa do Sol o arquitecto e urbanista francês Alfred Donat Agache (1875/1959).
Hubert Donat Agache formou-se na École Nationale des Beaux- Arts de Paris. Foi um dos fundadores (1911) da Société Française des Architectes, Professor de Urbanismo no College des Sciences Sociales (1913-14) e co-fundador da École Supérieure d´Art Publique onde ensinou (1914-18). Participou no grupo Renaissance des Cités, criado em 1916 para a reconstrução das cidades destruidas na I Guerra. É o autor de diversos estudos: Comment Réconstruire nos Cités Détruites (1916), Les Grandes Villes Modernes et leur Avenir (1917) e Nos Agglomerations Rurales: comment les Aménager (1917).
Elaborou planos para Dunquerque (1912), Casablanca (1913), Creil (1925), Poitiers (1926), Istambul e para diversas cidades brasileiras, destacando-se o plano do Rio de Janeiro, tendo publicado em 1930 "Cidade do Rio de Janeiro: Remodelação, Extensão e Embelezamento”. Concorreu em 1911 ao Concurso para a capital da Austrália (Camberra) tendo obtido o 3º lugar.
Alfred Donat Agache Plano de Remodelação da Linha 1936 Planos para Caxias e Oeiras.
Alfred Donat Agache Plano de Remodelação da Linha 1936 Planos para Carcavelos e Parede
Alfred Donat Agache Plano de Remodelação da Linha 1936 Planos para Cascais, S. João e Estoril
Em 35, é também pela mão do Ministro que Etienne De Gröer, vem colaborar no Plano de Urbanização de Lisboa 1938/48 (De Gröer elabora ou colabora ainda, noutros Planos de Urbanização como Coimbra, Évora, Guimarães).
As principais linhas de força do plano eram as seguintes:
• Criação de uma rede viária radiocêntrica a partir de um eixo construído pela Av. A. Augusto de Aguiar e o seu prolongamento até à estrada Lisboa-Porto;
• Organizar densidades populacionais decrescentes do centro para a periferia;
• Criar uma zona industrial na zona oriental da cidade, associada ao porto;
• Construir uma ponte sobre o Tejo no Poço do Bispo-Montijo, ligada a uma das circulares;
• Construir um aeroporto internacional na parte norte da cidade;
• Criar um parque em Monsanto com cerca de 900ha, e uma zona verde em torno da cidade que incluiria o Parque de Monsanto e que se prolongaria pela várzea de Loures até ao Tejo.
O principal instrumento do plano foi o zonamento, dividindo o espaço em áreas com diferentes usos, às quais se aplicava legislação específica.
As arquitecturas
Em Lisboa Porfírio Pardal Monteiro (1897/1957) projecta em 1928 a Estação Ferroviária do Cais do Sodré.
foto AFML
José Ângelo Cottinelli Telmo projecta em 1931 a Estação Sul e Sueste.
Revista Municipal de Lisboa n.º15 1943
Pardal Monteiro projecta entre 31 e 35 o Instituto Nacional de Estatística que influenciará as habitações envolventes.
Revista Municipal de Lisboa n.º especial Janeiro de 1944
Panorâmica tirada do Instituto Nacional de Estatística sobre as moradias da Avenida António José de Almeida 1935 Fotografia de Eduardo Portugal,1900-1958 AML
Jorge Segurado (1898/1990) projecta entre 34 e 36 a Casa da Moeda.
Detalhe do friso de Leopoldo de Almeida
Os irmãos Guilherme (1891/1969) e Carlos (1887/1971) Rebelo de Andrade a Escola Naval do Alfeite, realizada entre 32 e 38 e publicado no nº 2 da revista do Sindicato Nacional dos Arquitectos em 1938.
Alfeite Edifício das Construções Navais
No campo das construções ligadas ao sector da saúde destaca-se o moderno Pavilhão do Rádio (1927/33) e o Instituto Navarro de Paiva (1931) de Carlos Ramos
O Matadouro de Lisboa (1938) é projectado pelos irmãos Rebelo de Andrade.
O Mercados de Arroios (1938/40) projectado por Luís Benavente.
Revista Municipal de Lisboa n.º especial 1944
Mas se a encomenda pública é necessária para dar um rosto moderno e propagandístico ao Estado Novo, as tentativas de elaborar localmente uma arquitectura moderna e europeia - com um caminho de relação e compreensão aberto pelo estilo "art-déco" - não se irão esgotar nas obras públicas.
A iniciativa privada
Apoiados numa burguesia enriquecida com o início do desenvolvimento industrial, e nas necessidades de novas tipologias - cinemas, garagens, prédios de rendimento - que mais facilmente permitem, e por vezes impõe, uma clara funcionalidade interna, o uso de novos materiais e consequentemente de novas concepções estruturais, apoiados também, num gosto oficial "moderno" de António Ferro e de Duarte Pacheco, e tendo ainda como pano de fundo a modernidade evidente do fascismo italiano, os arquitectos irão realizar alguns dos edifícios mais interessantes da nossa arquitectura.
Com o já referido desenvolvimento do cinema (e ainda do Teatro), no seguimento do Capitólio de Cristino da Silva (de 1925)…
…constrói-se o Eden Teatro em Lisboa, de Cassiano Branco, projectado - não sem dificuldades - entre 1929 e 37, e mesmo se ainda preso a uma fachada "atr-déco", pela sua concepção do espaço interno e em particular pela dinâmica do seu foyer, e pelo refinado tratamento dos detalhes e utilização dos materiais, evidencia já uma nova "metodologia" na elaboração do projecto.
Os vários estudos para o Eden:
O Eden apresentando em cartaz o Bocage de Leitão de Barros de 1936 (ver neste blogue o cinema entre guerras)
Baixo-relevos de Leopoldo de Almeida fotos AFML
O Cinearte, em Lisboa de Rodrigues Lima de 1938 (publicado no nº 12 da revista do SNA) e realizado segundo o arquitecto "...de acordo com os princípios da arquitectura contemporânea... e onde procurei o melhor que me foi possível dar realização ao programa estabelecido pelo cliente e que visava um objectivo principal: atrair o público". Para isso a importância dada à visão nocturna e à iluminação artificial. Será o mesmo Rodrigues Lima que nos finais de 50 e inícios de 60 projectará o Palácio da Justiça do Porto!
Uma outra temática que permitirá projectar e realizar novos e modernos edifícios está ligada com o desenvolvimento da indústria e a difusão do automóvel.
Pardal Monteiro projecta o Stand da Ford Lusitana (1927-32) na rua Castilho.
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Foto Mário Novais BA FCG
Publicidade dos anos 40 in http://restosdecoleccao.blogspot.com/
Hermínio de Barros (1897/?) constrói em 1931/33 a Garagem Liz.
Num outro sector, o turismo, em expansão durante estes anos e, onde a influência do SPN de António Ferro, provoca a construção de diversas infra estruturas.
Na tipologia dos hotéis, é ainda Cassiano Branco que sobressai, ao projectar entre 1934 e 36, o Hotel Vitória na avenida da Liberdade em Lisboa, outro dos exemplares mais conseguidos da modernidade em Portugal.
O projecto inicial apenas parcialmente executado.
foto Alvão
A habitação
Os bairros sociais promovidos pelo Estado tem como ponto de partida o DL 23052 de Setembro de 1933 que permitia a construção de bairros sociais de habitação económica. Posteriormente foram aprovadas leis adicionais para a construção de casas para famílias pobres e casas para pescadores. Mas se o Estado, neste período (1929-1938) ensaia algumas realizações de bairros para classes mais desfavorecidas, será sobretudo a partir de 1938 que se concretizarão em Lisboa e no Porto os Bairro de Casas Económicas. (A Habitação Social no século XX será tema para uma próxima mensagem deste blogue)
No entanto, promovidos pela iniciativa privada serão construídos, neste período em Lisboa, um conjunto notável de edifícios - os "prédios de rendimento" - dos quais se destacam, pelo tratamento interior e exterior e pela qualidade e modernidade da construção, os de Cassiano Branco, dos engenheiros Ávila de Amaral (1898/1983) e Jacinto Bettencourt (?/1959), e ainda de João Simões, de Ferreira da Costa (1879/?), bem como o conjunto urbano do gaveto da Avenida do México com a Avenida António José de Almeida em que trabalharam João Simões, Cottineli Telmo, Cassiano Branco e Cristino da Silva.
Três exemplos de edifícios projectados por Cassiano Branco
Edifício na Avenida Álvares Cabral 1936/
Edifício na Rua de S. Mamede 1937
Edifício na Avenida Defensores de Chaves 1939/
Duas obras significativas do período
O Café Portugal
O Café Portugal em Lisboa de Luís Cristino da Silva (1896/1976), apesar das suas dimensões é uma obra significativa da arquitectura dos anos 30 (daí o ser publicada no n.º 3 da revista Arquitectos do Sindicato Nacional dos Arquitectos de 1938) e seguramente da arquitectura dos cafés.
Para isso concorre um mobiliário e uma pormenorização extremamente cuidada, utilizando profusamente o tubo cromado, e os elementos decorativos de Leopoldo de Almeida, Barradas e R. Araújo, procurando símbolos da Portugalidade, que apontam já para a “viragem” do regime, mas que se integram aqui num ambiente e num desenho modernos.
Desenho do espólio de Cristino da Silva Biblioteca de Arte da FCG
Foto AFML
Projecto de mobiliário - Desenho do espólio de Cristino da Silva Biblioteca de Arte da FCG
Escultura Leopoldo de Almeida (1898-1975)
“O Continente” e “As Colónias” Painéis de Jorge Barradas
O que foi o Café Portugal na actualidade in “Ruas de Lisboa com alguma história” http://aps-ruasdelisboacomhistria.blogspot.com/
A Igreja de Nossa Senhora de Fátima
O período de afirmação da modernidade associada ao regime, “o efémero modernismo” de que fala Nuno Portas, que se tinha iniciado com o Instituto Superior Técnico termina na arquitectura nos finais dos anos 30, simbolicamente com a Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em Lisboa, Prémio Valmor de 1938, projectada e realizada entre 1934 e 1938, por Pardal Monteiro tendo como colaboradores Rodrigues Lima e Faria da Costa, os engenheiros Bellard da Fonseca e Teixeira Duarte e nela participando Almada, Francisco Franco, Barata Feyo, Leopoldo de Almeida, Henrique Franco e António Lino.
Foto Mário Novais BA FCG
Tratando-se de um edifício que envolvia, obviamente, a instituição católica, ligada ao regime, e de um programa em que, logicamente, não podia haver lugar para alibis de funcionalidade, a Igreja de Pardal Monteiro serviu para, em nome do catolicismo, as forças mais conservadoras atacarem a modernidade da arquitectura e da arte, e esta orientação do regime, nas figuras de Duarte Pacheco e António Ferro (atacados mesmo assim pelos sectores mais reaccionários como "lamentável arquitectura de fogão de cozinha...". Falando-se em "estilo pardalino" e "numa igreja que mais parece um cinema", in A Construcção 25/1/39). A eficácia destes ataques é apenas adiada, como veremos, pela intervenção do próprio Cardeal Cerejeira, defendendo na inauguração do templo, os seus autores, declarando:"Quiséramos nós, ao erguer a igreja nova de Nossa Senhora de Fátima, que ela satisfizesse a estas três condições: ser uma Igreja; ser uma Igreja moderna; ser uma Igreja moderna bela. Quanto a ser moderna não se compreende sequer que pudesse ser outra coisa. Todas as formas artísticas do passado foram modernas em relação ao seu tempo."
Entrada principal
foto BA FCG
Friso “Cristo e os Apóstolos” do escultor Francisco Franco.
Almada executará os vitrais do Coro.
Igreja de N. Sr.ª de Fátima – Coro
Igreja de Nossa Senhora de Fátima – o Coro
Acompanhemos José Augusto França no Almada – O Português sem Mestre (Estúdios Cor 1974):
“Por cima da entrada, tratado em tríptico que prumadas de cimento determinam, a cena da Crucificação. O Pai, o Filho e o Espírito Santo compõem-se em função da cruz que um enorme esplendor rodeia, ao alto, reunindo os três painéis luminosos. Dos lados, anjos esvoaçando, com música e cânticos; em baixo, as três Santas Mulheres, chorando o Morto, repartidas dinamicamente pêlos três elementos da composição, de modo a movimentá-la, a alterar-lhe a simetria axial necessária.
Almada executará ainda os vitrais da cabeceira e das naves laterais. (todas as fotos seguintes são de Mário Novais BA FCG)
Igreja de N.Sr.ª de Fátima - Cabeceira e Altar – Mor foto BA FCG
(…) Por detrás do altar-mor, três tapetes azuis em quadrados pequenos, diversos na intensidade da cor e nas suas manchas. Entre esses quadrados, num ritmo unitário, imagens de anjos cantores, como iluminuras numa enorme paginação de missal. Cada elemento, constituído pela imagem e por uma moldura de vidros, tem uma estrutura rectangular, ao alto, e liga-se a outros, à direita e à esquerda, para cima e para baixo, realizando assim um fundo ao mesmo tempo constante e variado, contra o qual a igreja organiza as suas cerimónias. O espaço da abside projecta-se assim para um infinito de céu real tanto como ideal, e dessa maneira prolonga o espaço solene da grande nave central.(…)
(…) “Nas laterais, dez janelas estreitas e longas, cinco de cada lado, pontuam de luz este mesmo espaço. Em cada uma delas, figurações variadas da Virgem, da Mater Dolorosa, à Stella Maris, à Domina Populi, à Regina Apostolorum — até à última imagem, do lado da Epístola, logo antes do altar-mor, que é a de Nossa Senhora de Fátima, Mater Nostra. A composição de cada uma destas fendas luminosas é constante e variada dentro dessa constância que o próprio formato impõe (…)
(…) De cima para baixo, anjos, símbolos religiosos, a Virgem, e cenas ou grupos bíblicos ou do povo da Igreja. Se o elemento principal de cada janela é a Virgem, na parte inferior da composição reside a sua maior originalidade. O tratamento dos grupos e das cenas figuradas é ingrato, na exiguidade da superfície oferecida mas nisso mesmo Almada consegue uma diversidade gráfica e de colorido que dá surpresa a cada uma das imagens(…)
(…) Os pastorinhos de Fátima, mais convencionais apesar do esforço anti-saintsulpiciano do pintor, a choça de Belém (sob a Mater Dei), sem grande inovação gráfica também, são os menos interessantes (…)
(…) mas já o Povo Cristão, sob a imagem da Regina Christianorum, compondo-se em sobreposição de elementos um escritor, um operário e uma ceifeira, tem, na sua imediatidade iconográfica, um valor seguro;e, do lado do Evangelho, o pormenor do Descimento (sob a Mater Dolorosa), a Anunciação (sob a Immaculata), e dois santos dominicanos orando em suas vestes brancas (sob a Fios Rosarium), desenham-se com uma grande invenção gráfica. (…)
(… )A proa de barco, debaixo da Stella Maris, última janela do lado do Evangelho, junto do altar-mor, anuncia já uma visão lisboeta que dentro de poucos anos se definirá em outras composições a fresco.” (J. A. França refere-se aos frescos de Almada para as Gares de Alcântara e do Conde de Óbidos, também projectadas por Pardal Monteiro – ver neste blogue)
“Mas as três organizações gráficas mais originais e mais perfeitas de todo o conjunto, estão certamente nas figurações do Inferno, sob a Senhora do Carmo, do lado do Evangelho, e, na nave da Epístola, nos Apóstolos e nos Bispos, respectivamente por debaixo da Regina Apostolorum e da Domina Populi. As três composições são tratadas em altura, como a superfície figurativa exigia, com um arranjo das cabeças das personagens em função dum eixo central, em relação ao qual as doze cabeças dos Apóstolos parecem folhas regularmente dispostas numa haste, entre as quais escorre um rio de sangue rubro — ou seguindo um movimento em ziguezague em que as cabeças e as mãos dos danados estrebucham entre labaredas vermelhas, ou pontuando de mitras douradas as duas dimensões oferecidas, num ritmo graficamente agitado.
Depois, por toda a igreja, nos altares das naves como por cima da porta do baptistério ou dos confessionários, sempre sobre um fundo axadrezado amarelo, uma caldeira azul, em firme desenho heráldico.”
Ainda de Almada os vitrais da Capela de N. Sr.ª das Dores.
Capela lateral de N. Sr.ª das Dores e vitral
Almada ainda executará os vitrais e símbolos eucarísticos do baldaquino da Abside e os mosaicos e portas do Baptistério.
Igreja de N. Sr.ª de Fátima - Baptistério
O S. João Baptista sobre a pia baptismal é de Leopoldo de Almeida que fará ainda o retábulo com a ressurreição de Lázaro e a imagem de Nossa Senhora de Fátima junto da capela-mor.
Na Capela de Santo António, a escultura do santo é de Barata Feyo.
Ainda colaboram na igreja, António Costa com a imagem da padroeira da igreja no topo da fachada principal do lado do Evangelho e os pintores Henrique Franco que executa os frescos na nave central, e António Lino que realiza a decoração do arco triunfal e do friso da coroação da Virgem, na cortina do coro.

Muitos edifícios que não conhecia. Excelente post!
ResponderEliminarCumprimentos