Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Esboço incompleto da extraordinária história de La Paiva (1819-1884)

Quando se procura o portuguesíssimo nome de Paiva, em França, surge imediatamente a referência a Jóias e a um palacete (Hôtel) nos Campos Elíseos (hoje um luxuoso restaurante e sede do Traveller’s Club), pertencentes a La Paiva ou Marquise de Paiva. Tentemos saber o que são, como aparecem e de onde lhes vem o nome.

A História e o Mito de La Paiva

(Esther)Thérèse Pauline Blanche Lachmann filha de um tecelão judeu, nascida em 7 de Maio de 1819 no gueto de Moscovo, tornou-se uma das mais famosas, senão a mais famosa cortesã no Paris do seu tempo, a França do Segundo Império.

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A Europa iniciara a partir de 1815 um período de prosperidade, tanto na economia e na ciência quanto nas diversas formas de artes. Tal prosperidade não era já um privilégio da antiga aristocracia, mas pertencia agora às novas fortunas surgidas com a Revolução Industrial e que usavam as extravagâncias do luxo como forma de demonstrar e afirmar o seu crescente poder.

O Segundo Império (1852-1870) quando Luís-Napoleão Bonaparte (1808-1873) se torna Napoleão III - Imperador dos Franceses, corresponde à Revolução Industrial em França, e à criação de uma enriquecida burguesia comercial e industrial, com uma revolução das infra-estruturas, energia, portos, transportes e fábricas.

No plano da política externa Napoleão III vencedor da Guerra da Crimeia (1854-55) e na Itália (1859) que luta pela sua unificação, enreda-se no episódio Mexicano de 1862 a 1867.
E em 1870, o chanceler da Prússia, Bismark (Otto Leopold Edvard von Bismarck-Schönhausen1815-1898), primeiro-ministro do reino da Prússia, para realizar a unificação dos estados alemães provoca em 1870 a Guerra Franco Prussiana, tornando-se, entre 1871 e 1890, o primeiro chanceler do Império Alemão e provocando a queda de Napoleão III.

Paris 1850-1870

Paris, com 1milhão e 800 mil habitantes em 1872, torna-se no Segundo Império com o Barão Haussmann (ver neste blogue Os Planos para o Porto – dos Almadas aos nossos dias 2) uma cidade moderna, a “cidade luz” e “capital” da Europa, com uma influência cultural e social que se estende a todo o mundo.

Cria-se uma burguesia rica e triunfante. Fazem-se e desfazem-se fortunas, na Bolsa, na indústria, no imobiliário, nos transportes e na Banca. Esta burguesia frequenta os Teatros, os restaurantes e os cabarets. Paralelamente aumenta o fosso que separa esta sociedade dos operários, artesãos, lojistas, com condições de vida que vão da precariedade até à maior das misérias.

Esta sociedade burguesa encontra-se no edifício da Ópera de Paris (1860-1875), construido segundo um projecto de Charles Garnier (1825-1898) e que se torna um verdadeiro símbolo do Segundo Império e centro da vida social e cultural de Paris.

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Victor Navlet (1819-1886) – Le grand Escalier de l'Opéra à Paris.1880 Musée d'Orsay

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La grande salle de l'opéra Le Peletier en 1854 - lithographie d'auteur inconnu – 1860

Também os Jardins públicos então criados ou renovados se tornam local de vida social, onde é importante ver, e sobretudo ser visto…

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Edouard Manet (1832-1883), Music in the Tuileries, 1862, National Gallery - London

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Louis Theodore Eugene Gluck (1820-1898) nos jardins do Luxemburgo 1869 óleo s/ tela 73 x 95.2 cm colecção privada

Nos Boulevards…

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Monet -“Bv. Capucines” 1873 The Nelson-Atkins Museum of Art, Kansas

Também se inicia com a iluminação a gás, a vida nocturna nos restaurantes e nos cabarets, com o desenvolvimento dos cartazes e da publicidade.

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Folies-Bergére, Jules Chéret, 1877

Na publicidade, Jules Chéret (1836 – 1932) é o primeiro, em 1860, a criar cartazes publicitários de carácter artístico. Combinando a imagem com um texto curto, permitindo uma leitura rápida e a percepção clara da mensagem, compreendeu a importância da dimensão psicológica da publicidade. A utilização de pedras de grande dimensão permite litografias e cartazes visíveis à distância. Graças a tintas resistentes à chuva, torna-se possível a afixação de cartazes no exterior, nas paredes e nas colunas para cartazes. A paisagem urbana parisiense muda.Cartazes com cores vivas e ilustrações sedutoras, atarem o olhar do cidadão abrindo caminho à arte publicitária.

A vida Social

Esta vida social, efémera e fútil, desta burguesia enriquecida onde se movem as demi-mondaines, ou horizontales, eufemismo para designar as cortesãs, mulheres que vivem à custa de amantes ricos, foi sobretudo retratada por Constantin-Ernest-Adolphe-Hyacinthe Guys (1802-1892), que ilustrou de Baudelaire (Charles-Pierre Baudelaire 1821- 1867) o livro de poemas Fleurs du Mal de 1857.

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Constantin-Ernest-Adolphe-Hyacinthe Guys (1802-1892) Demi-mondaines ca. 1852-60
aguarela ca. 27 x 19 cm in "Constantin Guys, Fleurs du mal," at the Musée de la Vie romantique, Paris

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Constantin Guys, French, 1805-1892 No teatro Pincel, caneta,e aguarela 18,4 x 24,8 cm Museu Albertina Viena

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Constantin Guys, 1805-1892 Corbeille de théatre 1865-70
aguarela, guache, tinta 18 x 26 cm.

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Constantin Guys, French, 1805-1892 Conversa
Pena e tinta 19.7 x 25.1 cm colecção privada

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Constantin Guys 1805 – 1892 Recepção Caneta e tinta marrom, escova 16,3 x 19,4 cm. Brooklyn Museum New York City

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Constantin Guys (1802 - 1892)Meeting in the Park
Pena e tinta castanha, cinzenta a zul e preta 21.7 x 30 cm
Metropolitan Museum of Art New York

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Constantin Guys (1802 - 1892) Saindo do Teatro
Pena e tinta castanha e aguarela ,17.4 x 24.8 cm
Metropolitan Museum of Art New York

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Constantin Guys (1802 - 1892) Retrato de senhora
23.8 x 18.1 cm Metropolitan Museum of Art New York City

Estes temas tem continuidade com pintores mais conhecidos, como Pierre-Auguste Renoir (1841- 1919)

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Renoir (1841-1919) La Parisienne 1874

óleo sobre tela 160 x 106 cm National Museum of Wales, Cardiff

E em Édouard Manet (1832- 1883), grande amigo de Zola (Émile-Édouard-Charles-Antoine Zola 1840-1902), que pinta uma das suas mais conhecidas personagens, a Nana. Nana desempenha o papel de Vénus no Théatre des Variétés, nos finais do Segundo Império, atraindo a atenção dos homens. Ela irá utilizar a sua beleza para que lhe paguem uma dispendiosa vida de luxo.


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Edouard Manet Nana 1877

Óleo sobre tela. 154 x 115 cm. Kunstalle. Hamburgo. Alemanha.

A vida de Thérèse Lachmann, La Paiva

A história da Paiva, está rodeada de imprecisões, entre a verdade e a lenda, o que leva a que os vários autores que sobre ela escreveram, apresentem diversas versões para narrar muitos dos episódios da sua vida. Com a Paiva passa-se o mesmo que Flaubert escreveu sobre a obra de Zola “Nana tourne au mythe sans cesser d’être réelle” (Nana torna-se mito sem deixar de ser real).

Moscovo 1819-37

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Thérèse Lachmann, filha de um judeu polaco vive em Moscovo na miséria, até que se casa em 11 de Agosto de 1836 com Antoine Villoing (18 ?–1849) um alfaiate (ou tecelão ?) de Moscovo. No ano seguinte nasce um filho do casamento a que puseram o nome do pai Antoine Villoing (júnior). No entanto a sua ambição leva-a a abandonar o marido e o filho e rumar para Paris em 1837. Antoine Villoing vem a morrer a 15 Junho de 1849.

“ No dia 11 de Agosto de 1836, entre os seus vinte e trinta anos – não se sabe ao certo – ela casou com um pobre alfaiate de Moscovo, chamado François Villoing. Este casamento sem amor, foi para ela apenas uma primeira etapa para uma vida livre. Uma bela manhã, deixando o seu pobre diabo de marido, com as suas agulhas, e o seu filho – já que era mãe há alguns meses – partiu à conquista do mundo.” (Emile Blavet 1838 - 1924 La Vie Parisienne)

“…Branca Lachmann — seu verdadeiro nome — era polaca, e casada com um alfayate russo, que ella deixou a coser pelles, no paiz dos rublos, para vir a França correr à rédea solta como aquelle Mazeppa do poeta inglez…”(Pinto de Carvalho (Tinop) Lisboa d’outros tempos- figuras e scenas antigas, Livraria de António Maria Pereira, Lisboa 1898)

“…dizem que esta dama Branca Lachmann, polaca de nascimento, deixara em Moscow o marido, um alfaiate discreto que lá se ficou na sua terra alinhavando fundilhos de astarkan, em quanto a esposa airada, em Paris, penetrava nas opulências da vida dissoluta pela porta da miséria, que desculpa muitas dissoluções.” (Camilo Castelo Branco Bohemia do Espírito 1886 Porto Livraria Civilização 4,Rua de Santo Ildefonso, 6 Typ. De Arthur José de Sousa & Irmão, Largo de S. Domingos,56)

Paris 1837 e o encontro com Henri Herz

Thérèse Pauline Lachmann parte para Paris, onde passa enormes dificuldades de início, até ao momento em que encontra Henri Herz, encontro esse sobre o qual todos os autores citados divergem:

“Paris é a chama que fascina todas estas belas borboletas e que as consome quando elas não são temperadas como o aço. Mas a sorte que sorri às belas raparigas, quando elas estão decididas a tudo, não lhe sorriu de início. Teve frio, passou fome e numa glacial noite de Dezembro, apanharam-na moribunda, na avenida dos Champs- Elysées, em frente do Jardim de Inverno…O providencial transeunte que, generoso como são os artistas, a salva era um virtuoso do piano. Este encontro foi um esboço de um romance que caiu rapidamente na banalidade da vida quotidiana, porque pouco tempo depois, vários “faire-part” profusamente distribuídos em Paris,anunciaram o casamento de M. H. H... com mademoiselle P. T. L... Matrimónio absolutamente apócrifo já que François Villoing ainda cozia os fatos e o fez até 1849, data oficial da sua morte. (Emile Blavet)

Segundo Pierre de Lano, que tem imensas imprecisões quando refere Thérèse Lachmann, esta quando chega a Paris “…encontra-se, miserável, atirada para a valeta parisiense, vagabunda, à procura de uma aventura e pronta a aceitar quem viesse trazer um derivativo à sua angústia.” … E refere o encontro com Henri Herz, como tendo lugar no baile Mabille. (Pierre de Lano 1859-1904 – Les Bals Travestis et les Tableaux Vivants sous le Second Empire, illustré de vingt-cinq aquarelles hors-texte par Léon Lebègue, H. Simonis Empis, Éditeur, Paris 1893)

Para Camilo Castelo Branco o encontro entre os dois tem uma outra versão:

“Algum tempo depois d'ella chegar a Paris, o celebre pianista Henri Herz dava um concerto. Alguém lhe pediu para n'elle figurar a formosa Branca — que talvez n'uma existência anterior se chamasse Cleópatra ou Semiramis - mas Herz recusou abertamente, allegando ter já regeitado pedidos idênticos. Muito instado porém, sempre disse:—«Só se tocar commigo os trechos que tenho reservados.» Na manha do concerto, Herz ensaiou-a e, à noite, a bella polaca alcançava um enorme triumpho, não só no publico, mas no coração do pianista. (Camillo Castello Branco. Bohemia do Espirito1886)

Henri Herz (1803-1888), nascido em Viena, notável pianista e compositor, foi professor do Conservatório de Paris entre 1842 e 1874 e fabricante de pianos, inicialmente em 1825 com um sócio e a partir de 1839 com a sua própria empresa.

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Henri Herz, Litografia por Achille Deveria 1832

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A casa Henri Herz na rua des Petits-Hôtels Place Lafayette em Paris

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Brilhante pianista e compositor, compôs 8 Concertos para Piano e Orquestra, Variações sobre temas de óperas, Estudos e Exercícios para o piano, além de ter colaborado com uma variação para o Hexameron de Liszt.

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Henri Herz au piano dans un salon / Auguste Fauchery d'après Achille Devéria

Certo é que em 1845 Lachmann tem uma relação com Henri Herz que compôs duas “Ballades sans paroles pour le Piano” Op. 117. No. 2 dedicadas “à Madame Pauline Villoing”

Segundo Arsène Houssaye (1815-1896), que com ela privou, frequentando os seus salões, Thérèse, para além do seu espírito e beleza, teria aprendido piano e isso aumentou a paixão de Herz: “…Ela tinha duas armas: a sua beleza e o seu espírito; além disso tinha nascido com um espírito musical. Eis porque fez a sua primeira paragem entre os pianos de Henri Herz, que ficou enfeitiçado quer pela mulher quer pela intérprete musical. Esta folle du logis tornou-se dona de casa, ao ponto de ninguém se surpreender de ver em toda a parte, mesmo na corte, M. e Madame Herz. "

"Dizia-se que ela era mariée ailleurs, mas em Paris uma estrangeira tem todos os privilégios. Falou-se muito de Mme Henri Herz, que tocava piano de vez em quando como Liszt e Chopin… Ceava-se em sua casa onde ela convidava alguns amigos à saída da Ópera. E era uma comédia. Théophile Gautier escreveu sonetos sobre esta beleza circeniana que o tinha seduzido por um não sei qual ar de domínio e selvajaria. Ela era recebida por todo o lado, graças ao seu passaporte de estrangeira e graças ainda à figura benigna de Henri Herz, que tinha todo o aspecto de um marido. Festejaram-na mesno na corte até ao dia em que a acharam demasiado espampanante nos seus vestidos decotados. Nessa altura ninguém se decotava…” (Arsène Houssaye – Contes pour les Femmes – Eaux-fortes et illustrations par Hanriot de Solar, C. Mapon et E. Flamarion 1885)

“Pierre de Lano escreve que a Paiva se matrimoniou com o celebre pianista, e que um dos padrinhos do casamento foi o diplomata portuguez conde de V., o que é uma inexactidão.” (Pinto de Carvalho)

O que escreve, de facto, Pierre Lano é:

…Ela era bela, ela tinha espírito, e sobretudo ela era superiormente inteligente, e após uma muito séria relação com o músico, fez dele religiosamente como uma espécie de marido. Um diplomata, o conde de Valbom, foi mesmo testemunha desta união.” (Pierre Lano)

“…Ligada primeiro a Herz, pianista celebre, sob a falsa estampilha de esposa, chegou a sentar-se entre as duquezas nos saraus de Luiz Filippe. (Camilo)

Pinto de Carvalho leva-os para Londres juntos onde se daria a separação:

“…e juntos partiram para Londres, onde apresentou como sua mulher essa flor fatal perante quem os bretões se levantavam, como os velhos sentados ás portas Scéas se erguiam quando passava Helena, a filha de Tyndaro.” (Pinto de Carvalho)

Um bello dia abandonou Londres, o piano e o Herz, e, como toda a cocotte que se preza, parte a fazer conquista...da America. Em 1850 reinstallava-se em Paris, aterrando todas as dégrafées com o seu luxo insólito e com a sua formosura em plena maturidade.…”(Pinto de Carvalho)

Emile Blavet e Camilo C. Branco contam uma outra história:

“… madame H... levava a sério o seu papel de legítima esposa: tornou-se dona de casa, acompanhava o seu “marido” em todas as suas tournées artísticas e apenas descansou – porque era ambiciosa – quando ele a apresentou na corte. Fraqueza estúpida, de que ambos haviam cruelmente de se arrepender. A radiosa beleza de madame H... tinha suscitado enormes invejas; tinham, consultado o registo civil, adquirido a prova que este charmant casal era na realidade um falso casamento e quando a bela irregular fez a sua entrada triunfal na sala des Maréchaux, um ajudante de campo aproximou-se dela e disse-lhe em voz baixa: — Madame, enganou-se na porta!
Ela compreendeu imediatamente e deu meia volta arrastando atrás de si o pobre H…, envergonhado e decomposto. E enquanto voltavam para o seu apartamento, enfiada num canto da viatura, ela dizia, mordendo as suas rendas: — Os imbecis! Eu sou a mais distinta das ovelhas que ali estavam! Se havia que eliminar alguém era por mim que se devia acabar e não começar!
A partir daí, H... deixou de ser para ela uma bandeira suficiente; ela rompeu sem remorsos e sem lágrimas. Ela queria não apenas ser rica, mas pretendia também, a consideração e o respeito. Desesperando de os encontrar em Paris partiu para Londres.”

“Depois, desvelado o segredo da sua concubinagem, foi expulsa affrontosamente dos círculos também falsamente carimbados de honestidade, e fugiu para Londres, deixando ou levando o pianista…" (Camilo)

Londres

"…Aqui, ameaçada por uma segunda catequese de fome, ajuntou á sua fulminante formosura um vestuário de espavento, sentou-se langorosamente em um camarote de Covent-Garden, e fez que o rio Pactolo, representado por alguns milords, lhe lambesse os pés com as suas ondas de ouro.” (Camilo)

“Lá (em Londres) começa para ela uma vida de dívidas, de decepções e de angústias, que terminaria infalivelmente pelo suicídio, se a proprietária do seu humilde alojamento não a tivesse dissuadido: — Tendes, disse-lhe ela, todos os dons do céu, a juventude, a inteligência e a beleza. Mas não sabeis servir-vos deles. Restam-vos algumas toilettes. Eu tenho um camarote, para hoje, no Covent-Garden, ide e mostrai-vos aos nossos gentlemen nessa linda toilette branca que vos assenta tão bem e vos torna irresistível. Que tendes a perder? Se o anzol nada fisgar, estais sempre a tempo de vos matar amanhã! Perante isto, madame H... ouviu os conselhos do “mauvais ange”, e no dia seguinte tinha dez fortunas a seus pés.(Emile Blavet)

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Auditorium of the Royal Italian Opera Covent Garden in 1847 This engraving appeared in The Pictorial Times of 3 April 1847.

in http://www.hberlioz.com/

Regresso a Paris 1850 e o segundo casamento

Thérèse Lachmann, regressa a Paris e com o dinheiro que terá amealhado em Londres compra um palacete na Praça de S. Jorge.

“…regressa a França, onde queria desforrar-se, e instala-se sumptuosamente na place Saint-Georges, em frente do palacete de M. Thiers,(Louis Adolphe Thiers 1797 - 1877 que foi primeiro ministro sob o reinado de Luís Felipe, teve um papel activo na Comuna de Paris e torna-se Presidente da III República Francesa) nessa curiosa casa de esculturas góticas, hoje substituída por um prédio de rendimento, mas que em 1840, quando o arquitecto Renaud (Pierre-Louis Renaud foi o autor da gare de Austerlitz entre 1865 e 1868) a construiu, tinha feito sensação na capital.
O dinheiro tudo purifica e em pouco tempo o seu salão, onde se soube rodear de todos os confortos modernos, tornou-se um dos mais procurados de Paris.
(Emile Blavet)

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Prédio que segundo Blavet substituiu o palacete da Paiva na praça de S. Jorge em Paris, tendo em rente o busto do pintor Paul Gavarni (1804-1866)

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Hotel de Mr. Thiers Place de Saint Georges Paris

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Edmond-Georges Grandjean 1844-1908 place saint Georges 1879

óleo sobre tela 74.93 x 100.33cm colecção particular

O segundo casamento que faz de Thérèse Madame de Paiva

De regresso a Paris casa-se com Albino Francisco Araújo de Paiva (1824 – 1872), e passa a utilizar o título de Marquesa de Paiva, que usará até ao fim dos seus dias, passando a ser conhecida por La Paiva.

“…regressou a Paris, ahi por 1850, e, no anno seguinte, matrimoniou-se, já viuva do alfaiate, com um marquez de primeira fidalguia portugueza, Fr. Araújo de Paiva, diz o Voltaire. Este marquez que pelo Fr. parece também ser egresso, suicidou-se d'ahi a pouco, affirma outro jornal… (Camilo)

Quem era Albino Francisco de Paiva Araújo ?

Alguns autores franceses, referindo-se a Francisco de Paiva, afirmam ser ele diplomata. Provavelmente, trata-se de uma confusão com Francisco José de Paiva, 1.º barão e 1.º visconde de Paiva (1819-1868), que esse sim, foi enviado extraordinário e ministro plenipotenciário de Portugal em Paris, neste período. A sua situação em Paris tornou-se insustentável, por não poder honrar o enorme quantidade de dívidas que foi contraindo, e como o Paiva Araújo, também se suicidou, neste caso enforcando-se.

Assim, sigamos Camilo Castelo Branco que conheceu Albino Paiva Araújo, e que sobre ele refere:

“Paiva Araújo nascera em Macau e era filho único de um negociante rico, ali fallecido por 1842. Quando o pae morreu, Paiva Araújo estava em Paris em um collegio. A viuva veio para a Europa, e para residir escolheu o Porto, onde não conhecia alguém. Mandou edificar uma casa perto da alameda da Aguardente, mobilou-a com muito gosto e selecta riqueza de baixella d'ouro e prata, jarrões japonezes e porcellanas antigas. Fechou-se com o seu mysterioso luxo de fada, sósinha, quasi desconhecida de nome e de pessoa. Chamavam-lhe a Macaense. O seu nome era D. Marianna de Paiva Araújo. Sabia-se apenas que era viuva, muito rica e tinha um filho a educar em França. A casa architectada pelo risco burguez, trivial no Porto, era de azulejos amarellos com muitas janellihas de estores brancos, sempre descidos. Tem um jardim com vasto portal gradeado para a rua, tufado de bosquetes de arvores exóticas e miniaturas de montanhas que punham na alma saudades das florestas do Bussaco e Senhor do Monte.

Paiva Araújo não frequentou curso algum nem adquiriu noções vulgares em algum ramo de sciencia. Aos dezoito annos veio para a companhia da mãe. Sobejava-lhe riqueza á mãe extremosa que dispensasse o seu filho único dos fastios de uma formatura inútil.

Por 1845 appareceu Paiva Araújo no Porto curveteando garbosamente o seu cavallo árabe por aquellas sonoras calçadas. Era um galhardo rapaz trigueiro, alto, com um buço preto encaracolado nas guias, elegante, sem as farfalhices coloridas da toilette dos casquilhos seus coevos. Tinha poucas relações, e dava-se intimamente com Ricardo Browne, o arbitro da moda…

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Augusto Roquemont (1804 - 1852) -Retrato de Ricardo Clamouse Browne (esboço)c.1852

Óleo sobre papel colado em tela. 35,5 x 25,5 cm Museu Nacional de Soares dos Reis

…Ricardo Browne era tão poderosamente iniciador que até, pelo facto de ser muito surdo, contagiou de surdez fictícia muitos rapazes em condições as mais sanitariamente physiologicas das suas grandes orelhas. Estes rapazes, assim cavalleiros, figurinos lovelacianos, esgrimidores, mais ou menos surdos, chamavam-se simplesmente janotas, ou em nomenclatura mais culta — dandys. Não se conhecia ainda em Portugal o peregrino vocabulário de sport, de turf, de sportman, de highlife e de sporting, de gommeux. Ignoravam-se estas inglezias e francezismos da actualidade mascavada de idiomas com que um qualquer modesto noticiarista da travessa de Cata-que-farás, 4.° andar, lado esquerdo, parece que nos está conversando n'um salão de Regent-Street, a marinhar com ás pernas pela espalda de um “fauteuil” cramezim, as suas emoções pessoalíssimas de Hyde-Park e Jockey-Club.

O Porto e a vida reclusa de sua mãe deviam ser intoleráveis a Paiva Araújo. Browne sahiu para Paris, e elle para Lisboa, onde se notabilisou facilmente pelas prodigalidades das suas despezas. Bulhão Pato, em um dos seus escriptos entristecidos pela saudade d'aquelle tempo, falla do cavalheiro Paiva Araújo. Dava jantares aos rapazes da alta linha, a colméa do Marrare do Chiado, parte dos quaes ainda vive mais ou menos pintada ; e, feito o ultimo brinde, quebrava a louça do toast, voltando a meza como quem ergue a tampa de um bahu. Pagava generosamente o prejuizo. O seu vinho, além de reduzir os crystaes a cacos, não tinha mais funestas consequências. Assim que prefez a edade legal, pediu o seu património paterno á mãe, e foi viajar. Recebeu lettras no valor de cento e tantos contos.

Conheceu então em Baden-Baden a deslumbrante mulher que chegara da exploração dos lords com um pecúlio que lhe permittiu construir um palácio. Casou.” (Camilo)

La Paiva no Porto

E continua Camilo:

Paiva Araújo, casado, visitou Lisboa e a mãe, com a esposa. A polaca no Porto, no topo da fétida rua do Bomjardim, com a nostalgia de Paris! . . Certas mulheres que viveram em Paris, nas máximas condiçoens de horisontalidade, só lá podem viver.

Dois annos decorridos, Paiva Araújo abandonara a viuva do alfaiate, mais ou menos espontâneamente, a um dos cinco mil príncipes russos que dão mobília nova aos bordeis parisienses, e regressou a Portugal com bastantes malas inglezas, uma dúzia de floretes, outras tantas caraças e manchettes, a fora algumas dividas. A mãe pagou-lhe as lettras, e perdoou-lhe o casamento e a dissipação do património. Durante quatro ou cinco annos, Paiva viveu muito recolhido no Porto, mas frequentando pouco a convivência da mãe. Habitava uma casinha de duas janellas, situada na extremidade do jardim. Sahia de noite, recolhia de madrugada, e passava o dia a comer e a dormir. Um escudeiro levava-lhe em taboleiro coberto o almoço e o jantar da cosinha da mãe, que elle raras vezes procurava. Era-lhe odiosa, porque lhe não dava dinheiro para sair de Portugal, e apenas lhe enviava mensalmente o necessário para dignamente se tratar na sociedade pacata, frugal e económica do Porto.

Em 1855 encontrei-o muitas tardes nos pinhais e carvalheiras da Prelada e de Lordello, passeando com uma franceza de muita vista, esculptural, com a trança dos cabellos louros desatada sob as amplas abas d'um chapéu de palha azul ondulante de fitas escarlates. Se eu procurasse o nome d'ella na sepultura para lh'o dizer, não o acharia, porque a franceza, d'um espirito raro, morreu na obscuridade da pobreza, e d'uma velhice que redime e pede perdão para os delictos da juventude.

D'essa época lembram-me dois episódios de Paiva Araújo. A Macaense dera azo a que se soubesse cá fora que o filho a quizera matar com veneno, para empolgar a herança. O «Jornal do Porto» dera a noticia com discreta prudência; mas Paiva foi insultar com ameaças de azorrague o honrado proprietário d'aquelle jornal, que desviou de si a responsabilidade da noticia, aliás verdadeira. O outro caso, mais cómico pelas consequências, foi um duello á espada, por motivos melindrosamente caseiros, com um fidalgo portuense chamado D. António Peixoto Pinto Coelho Pereira da Silva Padilha de Souza e Haucourt, simplesmente. Se bem me recordo, Paiva Araújo desarmou, com pouca effusão de sangue, o contendor. D. António, hallucinado com o êxito do duello, atirou se da ponte Pênsil sobre . . um barco rabêllo de batatas que vinha mansamente descendo o Douro. E sahiu sem contusão d'entre as batatas que, de certo, não eram tão macias e flaccidas como os almadraques de um kalifa de Córdova… (Camilo)

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O Porto em 1850

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VIDAL, Frederico Perry - Planta da cidade do Porto contendo o palácio de Christal, nova alfândega, e diversos melhoramentos posteriores a 1844, 1865 BND

Com Artur Magalhães Basto vejamos o Porto que a Paiva terá encontrado em 1851:

Comecemos pela Praça Nova (…) o Convento dos Loios, (...) Limitava, (…) a Praça pelo lado sul. Nos baixos desse formidável ca­sarão havia vários estabelecimentos comerciais.(…) ocupa­vam essas lojas negociantes de panos, de chitas, de lenços, etc. Na esquina do largo dos Loios, (…) a melhor livraria do Porto, — a More, — onde, além dos livros, se vendiam «quinquilharias» várias; a esquina da More foi um lugar cé­lebre de cavaco. Em frente deste vasto prédio, ao longo da valeta, viam-se durante o dia barracas de pano cru e mesas volantes, sobre as quais estendiam a sua sombra protectora gigantescos guarda-sóis de pano branco; encontravam-se ali à venda, desde o bacalhau às guloseimas, os géneros mais variados e as me­lhores pechinchas. Entre esta fila de vendedores e o edifício, corria o passeio chamado sarcasticamente o Pasmatório dos Loios. O convento dos Congregados (…)encontrava-se repartido por numerosos inquilinos. Era ali que estava instalado o bo­tequim do Guichard…No ângulo norte existia uma ordinária estalagem que se adornava com o pomposo título de Hotel Portuense, mais tarde Hotel do Cisne. Junto do chafariz de que já falámos andavam sempre uns cavalheiros muito graves de chapéu alto, de oleado ou poli­mento, na cabeça, e cobertos, dos ombros até aos pés, de amplo capote azul, ou cor de pinhão, com vivos encarnados. Encarnada era também a fita da cartola. Estes senhores cha­mavam-se cadeirinhas e alugavam e ... carregavam os veí­culos que lhes deram o nome. Mas este modo de transporte era moroso, bom para ir dor­mindo e sonhando pelo caminho. Quem tivesse pressa de chegar aos confins da Aguardente ou Campanhã alugava um dos jericos — havia-os aparelhados para homem ou para se­nhora— que no mesmo local estacionavam : em coisa de uma hora (!) o viajante ia e voltava e fazia uma altíssima figura. (Este superlativo é pura retórica, esclareça-se...).

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(…) A rua de Santo António não estava ainda toda bordada de casas. Mais ou menos a meio do seu percurso havia uns parapeitos, que davam, o do lado norte, sobre extensos quin­tais ; o do sul, sobre a rua da Madeira e cerca do Convento das Freiras da Avé-Maria. Além das numerosas fábricas e lojas de chapéus, (…) a de Maia e Silva data de 1848, e de vários estabelecimentos de modas, sapateiros, relojoeiros, e luveiros, havia «lojas de quinquilharias, estampas, lumes prontos, oleados, colchões, vinho, carne e mercearia, baús e outras obras de folha de Flandres». (…) ali também um botequim inaugurado em 1851, um pasteleiro, um cabeleireiro, um alfaiate, etc. Muitos desses estabeleci­mentos pertenciam a estrangeiros: a Mrs. Buisson, Martin, P. Suère, Delage, D. José, etc. A rua dos Clérigos estava quasi toda ocupada, de um e outro lado, por estabelecimentos em que se vendiam chitas, chalés, panos e carapuças, de onde veio aos seus donos o nome de carapuceiros, nome por que ainda hoje alguns são conhe­cidos. Chegamos à rua das Carmelitas. O mercado do Anjo, inaugurado em 1833, viera ocupar o local em que até então tinha havido a Capela e o Recolhimento do mesmo nome. Do outro lado da rua ficavam a cerca e Con­vento das Carmelitas, de que, supomos, nem vestígios actual­mente restam. No convento, além de várias outras repartições públicas e escritórios comerciais, estava instalada a Central do Correio; a cerca, depois de variadas aplicações, serviu, de 1865 a 1867, para as exposições de feras, com que o francês Paulo Barnabó e os italianos Marcelo Servini e Miguel Puga embas­bacaram o público portuense e, mais tarde ainda, houve ali um barracão de feira com pretensões a teatro, onde se exibi­ram actores e bailarinas célebres no seu tempo. Os ferros velhos (…) ocupavam também parte dos ter­renos do convento. Mais acima, no alto desta rua das Carmelitas, passando a Praça dos Voluntários da Rainha, temos a de Carlos Alberto, (denominação que recebera por essa época), terminus das car­reiras de diligências que do norte do País, pelo Carvalhido ou pelo Serio, chegavam ao Porto. Chamavam-lhe também Largo dos Ferradores ou Feira das Caixas. Muito próximo ficava a Feira do Pão, depois Praça de Santa Teresa, e hoje de Gui­lherme Gomes Fernandes, guarnecida de uma interessante fonte e frondosas árvores, e na qual estacionavam as padeiras de Valongo e Avintes. (…) Desçamos as ruas das Carmelitas e dos Clérigos. Ao fundo desta, à direita, fica o largo dos Loios, de onde desaparece­ram, em 1833, a igreja e parte do convento velho que deram o nome ao local. Na esquina da rua dos Clérigos, oposta à livraria More, onde hoje se vê a Casa Bancária Pinto Leite, havia em 1851 a loja de fazendas, algodões e sedas de Joa­quim Pinto Leite. A rua de D. Maria II, aberta havia pouco, estabelecia comunicação directa com a das Flores. (…) Mais ou menos em frente da Igreja dos Congregados, vemos uma fonte e um pano das muralhas antigas da cidade; no ângulo destas fica a a freguesada taberna do Frutuoso. Seguindo ao lado do Mos­teiro da Avé-Maria, transpomos o largo da Feira, deixando para a esquerda a rua do Loureiro e o largo das Freiras de S. Bento. Em frente de nós temos a íngreme calçada do Corpo da Guarda (…) o largo de S. Roque com a capela do mesmo nome, o rio da vila, a viela do Anjo da Guarda, a rua e os aloques da Biquinha, etc. Enfiando pela rua das Flores, ladeada de lojas de panos e ourivesarias, iremos dar a S. Domingos A rua das Flores vem ter a rua que deve o nome à velhíssima ponte nova, por onde se atravessa para a outra margem do infecto riacho de imun­dícies— o rio da vila, de que falámos. (…) Obras importantes realizadas neste largo e na rua do mesmo nome tinham tornado mais suave o acesso às ruas de Belo-Monte e das Flores, do lado da rua de S. João. (…) Deixando à esquerda os esterquilíneos dos aloques da Biquinha, desçamos pela rua das Gongostas — Cangostas ou até Quingostas... — e largo de S. Crispim, à rua Nova dos Ingle­ses. A rua das Congostas é quasi um despenhadeiro, tortuoso e sujo, de largura irregular, bordado de casas velhas e «de triste aparência». Habitam-na principalmente sapateiros e picheleiros. Conduz à ampla rua Nova dos Ingleses, formigante de homens de negócio se a visitarmos das nove ou dez da manhã às quatro da tarde. Ë aqui a praça comercial do Porto. Os prédios desta rua são quási todos ocupados por escritórios, cambistas e sedes de Companhias. Quem quiser auscultar o coração do Porto mercantil tem de descer até aqui. (…) Sigamos o nosso caminho. Passemos às ruas da beira-rio, ainda quási indemnes da acção modernizadora. O mercado de peixe que desde tempos imemoriais se fez na praça da Ribeira fora recentemente transferido para a Cor­doaria, (…) A rua da Reboleira, a de Cima do Muro, a dos Banhos que levava à Porta Nova ou Nobre, a Minhota ou Munhota, o Forno Velho, a viela de Galca-Frades, etc., eram todas soturnas. acanhadas, imundas e mal cheirosas, mas cheias de movimento e de ruído.(…) Da rua dos Ingleses podemos regressar à das Flores su­bindo pela nova rua de Ferreira Borges, que cortou as cercas dos extintos conventos de S. Francisco e S. Domingos. Tra­balhava-se desde 1842 na edificação do sumptuoso Palácio da Bolsa, que ocupa o local do convento de S. Francisco, incen­diado em 1832 pêlos próprios frades, segundo se dizia. Já ali estavam, provisoriamente, instalados o Tribunal do Comér­cio e a Associação Comercial. (…) Da igreja de S. Domingos nada restava, e do convento, in­cendiado em 1833, via-se pouco mais do que as paredes, em parte aproveitadas para o edifício da Caixa Filial do Banco de Portugal, que ali estava instalada. A rua do Almada (…) Cobriam-na, por assim dizer, «largos toldos de linhagem branca» e «estava cheia de cães de caça, semi-selvagens, podengos e galgos, que dor­miam estiraçados a toda a largura e a toda a extensão da rua, por entre os feixes de verga de ferro e os balotes de linho em rama».(…) a rua do Bispo, depois chamada de D. Pedro, viesse desembocar na Praça deste nome. No terreiro onde depois foram edificados os prédios em que esteve o Hotel Francfort, entre as ruas de D. Pedro e Laranjal, era onde, de 1849 a 1851, a Câmara mandava matar, esfolar e enterrar os cães vadios que eram apanhados na via pública. A rua de Sá da Bandeira, aberta em 1833, através da cerca dos Congregados, ia somente da Praça Nova à rua do Bom-jardim. Esta desembocava na rua de Santo António, junto da Igreja dos Congregados, e, como muitas outras, estava cheia de cruzeiros que, só mais tarde, apesar de tentativas várias desde 1835, foram removidos, quasi todos, para os cemitérios da cidade. Quem da rua do Bomjardim quisesse ir para a rua For­mosa, podia seguir, mas não era de aconselhar, pela viela da Neta, a célebre viela em que, naquele tempo, tam largo con­sumo se fez de política e... de açougue. As casas que a bor­davam eram quasi todas térreas e mal habitadas. Exceptuava-se, entre outras, uma espaçosa e com grande quintal onde vivia o popular caudilho José da Silva Passos. (…) Desta viela partia, a nascente, a viela das Pombas, que dava para a rua de Santa Catarina. Havia ainda, no Porto, dois melhoramentos de que não podemos deixar de falar. Um era o vasto Cemitério do Re­pouso, benzido e inaugurado no 1.° de Dezembro de 1839. (…) Se ao Porto custou a aceitar, como em geral a todo o país, esta novidade, o mesmo não se pode dizer em relação ao outro melhoramento a que nos queríamos referir: ao Jardim de S. Lázaro. Só concluído em 1841, fora contudo aberto ao público em 4 de Abril de 1834, dia do aniversário natalício de D. Maria II, e tornara-se, em poucos anos, o ponto obri­gatório de reunião das famílias do Porto, tendo conquistado um lugar de destaque na crónica elegante desses tempos. (Artur Magalhães Basto O Porto do Romantismo, Imprensa da Universidade Coimbra 1932)

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Gravura do Barão de Forrester, destinada a ilustrar, com outras, a litografia do seu mapa “O Douro portuguez e Paiz adjacente”, estampado em 1860.

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Ainda o Paiva Araújo

Sabe-se que em 1858 Albino Francisco de Paiva Araújo solicitou ao Governo "concessão para estabelecer um caminho de ferro dos denominados americanos" entre esta cidade nortenha e a Foz, projecto que nunca levou por diante.

Continuemos ainda com Camilo sobre Paiva Araújo:

”…Em 1860 encontrei Paiva Araújo em Braga, leccionando francez no collegio da Madre de Deus, no palácio dos Falcões, onde uma família estrangeira tentava inutilmente a fortuna. O marido de Branca Lachmann, n'esse anno, trajava menos que modestamente. O seu casaco e chapéu, em taes condições, não lh'os acceitaria um dos seus antigos creados. Dobaram-se alguns annos em que nada averiguei ; até que, em 1873, li nos jornaes portuguezes que Paiva Araújo se suicidara em Pariz. Conversando a tal respeito com António Augusto Teixeira de Vasconcellos, em Lisboa, por 1874, me disse o famoso escriptor, que o conhecera muito em Paris, e tinha exactas informações da sua morte. O marido indigente de madame de Paiva procurou congraçar-se com a sua marqueza, que vivia opulentamente no seu palácio de Pont-Chartrin o das 365 janellas, decorado por Paul Baudry, ligada ao conde Henckel de Donnesmark. Ella repelliu-o. Paiva manteve-se algum tempo de empréstimos, e pequenos donativos talvez da mãe com que ia disfarçando a sua pobreza aos olhos de outros a quem tencionava recorrer. Um dia, era grande apuro, escreveu pedindo 2:000 francos a um rico e antigo conviva dos seus desperdícios, e, juntamente com a carta, metteu na algibeira do frac coçado, um revolver. A carta foi, posta interna, ao seu destino, e a resposta, no dia immediato, foi entregue ao porteiro do hotel. Quando voltou a casa e leu a resposta negativa, ainda subiu alguns degraus, e, no primeiro patamar, cahiu moribundo com um tiro no peito. Se bem me lembro, foi o ministro portuguez quem pagou o carro que conduziu o cadáver ao Père La Chaise.”

Quando ele regressou a França, pode arranjar um terceiro marido mas desta vez passando pela mairie e pela igreja. Era o marquês de Paiva, um homem de galanteios que a essa vida queria pôr fim. Com ela, contudo, era sempre um começo. Ela acreditou ter casado com um grande de Espanha, ele tinha-le falado das suas propriedades além dos Pirinéus; mas este Dom João era apenas um João sem terra; este grande de Espanha era só um grande de Portugal. Ela colocou-o à distância ficando com doze mil libras de renda. Nada lhe custava. (Arsène Houssaye)

La Paiva de novo em Paris 1854-1871

“Vous m'avez voulue, vous m'avez eue. Je voulais un nom, je l'ai, nous sommes quittes”

“…A polaca regressou a Paris, e como seu marido constituía um empacho aos seus embelècos e astúcias, requereu a separação.
Por nostalgia da grande vida, por infrene bulimia do oiro, madame de Paiva regressa ao exercício profissional do galanteio, ao trafico vil dos beijos, ás artimanhas felinas de charmeuse. Torna a pôr em bateria a sua belleza fulminante, e o artificio pyrotechnico do seu coquettismo; volta a carmear os papalvos endinheirados, a valorisar as suas graças, a ver cahir sobre as alcatifas orientaes da sua alcova parte da lista civil de mais d"uma testa coroada.
Branca estatueta, em torno dos hombros de neve adejavam-lhe os madrigaes iriados como estranhas borboletas de saphyra com azas d'esmeralda.
Vivera ella nos tempos fabulosos, em que a alma voluptuosa de Pan se misturava ás sensuaes caricias do ar, e todos diriam ser o fructo dos amores impudicos
d'algum cysne branco com alguma deusa de cabellos cor de junquilho, e que teria nascido sob o pórtico d'um templo da Vénus Aphrodite, quando o luar amoroso se desatava em catadupas, e as menadas ebrífestivas cabriolavam pelos bosques sagrados…”
(Pinto de Carvalho)

A relação com Guido Henckel von Donnersmarck (1830-1916)

Pinto de Carvalho coloca o encontro da Paiva com o conde Guido Henckel von Donnersmarck, primo de Bismarck, no casino de Baden-Baden:

“…Arredada do marido, essa flor do asphalto ligou-se a um riquíssimo conde prussiano, filho de príncipes, que a encontrou no casino de Baden-Baden jogando o baccarat, preciosamente envolta no velludo de Génova, que a detalhava toda, e agazalhada n'uma peliça de marta zibelina. O conde, que abandonara uma amante n'aquelle dia, sentou-se próximo de madame de Paiva, e emprestou-lhe dinheiro para continuar o jogo. E quedou-se absorto, numa contemplação que se fazia êxtase. Fixou lhe os olhos enigmaticos, laminados de filamentos d’oiro, a bsangrenta, viva flor de cactus, a nacarada brancura de naiade slava; admirou-lhe as linhas d’estatuetinha loura, a riqueza insolente do seu peito en parade, os seus largos conhecimentos da vida noceuse, a sua alma cheia d’alegria oxigenada e de feminis caprichos.. . O prussiano conhecera os olhos de saphyra pallida das viennenses, os de pervinca das berIinezas, os olhos d’onix das filhas de Pesth, os de nickel lantejoulado das de S. Petersburgo. Comparou, e achou melhor. E em vez d'ir tomar o absintho da solidão, julgou preferível tomar aquella nova amante.” (Pinto de Carvalho)

Enquanto Arsène Houssaye conta uma perseguição mais complexa:

Ela encontrou, por essa altura, o conde de H*, primo de Bismarck, um valoroso jovem titular, cem vezes milionário. Ela afastou-o dos seus milhões por um olhar misterioso.Ele tinha-a visto em Londres; reviu-a em Paris, depois em Baden, de seguida em Viena, por fim em Constantinopla, não podia dar um passo sem encontrar sempre esta mulher misteriosa, que ele não perseguia, mas que lhe parecia fugir. (…) Um dia contudo, o conde de H* abordou esta fugitiva. Ofereceu-lhe casamento “Eu não posso dar-vos a mão, já que sou casada três vezes. – Muito bem, marquesa, esperarei.” O conde tornou-se um dos amigos da casa. Nada se recusa aos seus amigos. Eis porque ela aceitou o château de Pontchartrain, onde chorava ainda a sombra de la Vallière.(Louise Françoise de La Baume Le Blanc, duquesa de La Vallière (1644-1710), foi uma famosa amante de Luís XIV).

A marquesa vivia principescamente no seu palacete da praça Saint Georges; passou a habitar como uma rainha no palácio de Pontchartrain, que todos os seus amigos passaram a frequentar. Foi, por excelência a “vie de château”, caçadas, pescarias, comédias, cavalgadas, jogos espirituais, jantaradas.” (Arsène Houssaye)

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Chateau de Pontchartrain em 1890 comprado em 1857 por Guido Henckel von Donnersmarck para a Paiva, que o mandou restaurar pelo arquitecto Pierre Manguin (1815-1869)

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Banheira de Donnadieu, em onix argelino, e encomendada pela Paiva nos trabalhos de restauro do palácio de Pontchartrain, sob a direcção do arquitecto Pierre Manguin. Conta-se que a Paiva nela stomava banhos de leite, de tília e de champanhe.

Ao certo é que os dois se tornam amantes e acabariam por casar em 28 de Outubro de 1871.

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Guido Erdmann Friedrich Georg Heinrich Adalberto Graf Henckel von Donnersmarck (1830-1916)

Camilo“…A viuva, 40 vezes millionaria, casou em terceiras núpcias com o conde Donnesmark, em 1875, anno em que sahiu de Paris para o seu castello da Silesia, onde morreu, ha dias, com 72 annos, dizem uns, e com 58 diz o marido.

Camilo:

“Eu conhecia dos escriptores de ha vinte e cinco annos a opulência de mad. de Paiva. Eug. Pelletan na sua Nouvelle Babylone, derivando com falsa deducção a magnificência das meretrises em sorte da corrupção de Paris, cita como exemplo a escada de onix do palácio de mad. de Paiva na praça de S. Jorge. Arséne Houssaye, em um dos tomos das Courtisanes du Monde diz, com estas ou equivalentes palavras, que as senhoras honestas paravam deslumbradas quando viam passar no seu break madame de Paiva, ao sol do Bois, faiscando as suas constellações de brilhantes. Elle, como era sua visita, disfarça-se com um pseudonymo. Certo jornal conta que os seus palácios eram o confluente dos homens mais celebrados em artes e lettras, velhos e moços, o bibliophilo Jacob, Emile Girardin, Theophilo Gautier, etc. Não sei se algum d'estes era um dos grisalhos académicos que bebiam champagne da tina em que ella se lavava. Não admiro. O asceta Lamennais beijava as plantas de G. Sand, e parece que ella, agradecida, descalçava as meias de seda n'este acto devoto.”

A Casa dos Campos Eliseos, n.º 25

“…un temple profane voué à l’exaltation de Ia femme et de Ia volupté.”

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…no tempo em que almoçava esperança e jantava ilusões, um cocheiro empurrou-a nos ChampsÉlysées, quase em frente do pequeno palacete de Morny. Ela levantou-se como se tivesse tombado num leito de rosas. É, disse, um sinal do destino. Acreditando na sua boa estrela, esta queda ser-lhe-ia paga. Ela decidiu nesse mesmo dia, embora estivesse em 1844, que construiria aí um palácio em frente ao local em que tinha caído. Este palácio, construído em 1864, é simplesmente uma maravilha. Estão lá as obras-primas de Baudry. Pode dizer-se que desde o século XVI, não se tinham pintado tectos, com tal largueza de gesto, beleza de composição e brilho de colorido. É soberbo! “ (Arsène Houssaye)

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Eugène Atget - Hôtel de la Païva sur les Champs-Élysées à Paris 1901 http://gallica.bnf.fr/

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Façade http://www.culture.fr/

…”O palácio de madame de Paiva, adornado e pintado por Paul Baudry, era um ninho digno da sua belleza bestificadora, deliciosa de graça perversa. Tão sumptuoso era, que a proprietária abandonava-o todos os annos, durante alguns mezes em que ia ao estrangeiro, para elle estar exposto. Este palácio, quasi histórico, foi vendido por dois e meio milhões de francos em 1891, e n'elle se installou depois o restaurant Cubat, onde em 1891 se realisou o esplendido baile das demi-mondaines. Emilio Blavet descreveu-o no Gil Blas, e, aproveitando o ensejo, referiu a vida da antiga proprietária, de quem fora commensal. Eugène Pelletan, (Pierre Clément Eugène Pelletan 1813 – 1884, escritor, jornalista e político) na Nouvelle Babillone, descreve a habitação maravilhosa dessa antecessora de Gora Pearl, habitação que só mais tarde teria pendant na de Hortense Schneider, estrella da operetta... e do galanteio. (Pinto de Carvalho)

Diz Pellelan: — Eis um pequeno palácio que faz honra ao gosto do architecto, é fechado por portas de bronze, coberto de telhas antigas; o pavimento ornado d’um mosaico, a mobilia é copiada sobre o estylo de Pompeia; acha se a cada passo uma exquisita gaiatice do museu secreto de Nápoles, sob a forma de tripode de candelabro. Ao centro do edificio, e sob uma gaiola de vidro pintada de azul, para lhe dar uma falsa apparencia de raio de luar, o architecto dispoz um boudoir com esta inscripção latina sobre a porta : Venereum. Em um nicho do sanctuario collocou a estatua da deusa, isto é, da dona da casa disfarçada em Vénus. Como ella se approxima dos quarenta, ornou o seu Venereum de duas pinturas da sua imaginação: A Primavera e o Outomno. A primeira figura, peito ao vento, semeia rosas a plenas mãos; a segunda sonha, a cabeça inclinada sob um livro semi cerrado. Comprehendeis a allusão. (Pinto de Carvalho)

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Este palacete de Mme de Paiva situava-se em pleno centro da cidade. Reconhecia-se do exterior pelas enormes janelas. (Frederic Loliée – La Fête Impériale, Editions Jules Tallandier 75, rue Dareau, Paris XVI eme, Paris 1912)

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“..Uma porta de bronze esculpida, pesada, majestosa abria-se sobre um vestíbulo decorado de mosaicos e onde se situava um banco de mármore vermelho sob um espelho numa moldura de ouro. (Frederic Loliée)

“…Diz Pellelan: — Eis um pequeno palácio que faz honra ao gosto do architecto, é fechado por portas de bronze, coberto de telhas antigas;… (Pinto de Carvalho)

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Na decoração do palácio trabalharam escultores como Augé , Barrias, Dalou, Delaplanche, Legrain, Brisset, Carrier-Belleuse, Cugnot e mesmo o jovem Auguste Rodin!
As pinturas foram encomendadas a uma equipe de pintores coordenada por Paul Jacques Aimé Baudry, prix de Rome 1850, e que tinha realizado a maioria das pinturas da Ópera de Charles Garnier.

“Quatro portas indicavam os acessos e por mais pequeno que fosse o olhar que sobre elas se se detivesse a examinar os motivos de bronze que decoravam essas portas, apreciava-se o charme do delicado trabalho de cinzel com que Picaud (Émile Louis Picault 1833-1915) esculpiu várias alegorias de La Fontaine.” (Frederic Loliée)

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Picault – medalhões em bronze: “Qui ne fait châteaux en Espagne” e “Petit poisson deviendra grand” http://www.culture.fr/

“Em frente convidando-vos a prosseguir um pequeno salão com uma sedutora aparência com as suas pinturas de Thirion (Eugène Romain Thirion 1839-1910) figurando entre quatro medalhões guardados por grifos simbólicos, o Génio atravessando os ares, enquanto se descobria por cima do fogão de sala em mármore negro, uma mulher meia nua sentada sobre um ramo, uma Ariane lacrimosa que gostaríamos de consolar, uma amante traída escondendo o desespero nos seus olhos, porque ela não consegue enternecer o deus pérfido pronto a levantar voo.” (Frederic Loliée)

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Os grifos de Thirion

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Medalhão O Génio atravessando os ares de Thirion http://www.culture.fr/

Ao centro do edificio, e sob uma gaiola de vidro pintada de azul, para lhe dar uma falsa apparencia de raio de luar, o architecto dispoz um boudoir com esta inscripção latina sobre a porta : Venereum. Em um nicho do sanctuario collocou a estatua da deusa, isto é, da dona da casa disfarçada em Vénus.

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http://www.culture.fr/

Como ella se approxima dos quarenta, ornou o seu Venereum de duas pinturas da sua imaginação: A Primavera e o Outomno. A primeira figura, peito ao vento, semeia rosas a plenas mãos; a segunda sonha, a cabeça inclinada sob um livro semi cerrado. Comprehendeis a allusão. (Pinto de Carvalho)

Uma pintura de Gérome, intitulada A Noite, correspondente à descrição de Pinto de Carvalho, encontra-se no Museu d’Orsay.

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Jean-Léon Gérome (1824-1904) La Nuit c. 1850-55

óleo s/tela 76,5 x 46,0 cm. Paris, musée d'Orsay

(…) o salão imenso, cujos cinco janelões abrigados contra as fortes claridades do dia por sumptuosos reposteiros cindo em espessas dobras, alinhavam-se ao longo de toda a fachada…(Frederic Loliée)

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…Aqui a atenção perdia-se, encandeada por tantos pormenores de elegância e de beleza, ela errava desde as grinaldas e das rosáceas, entrelaçando-se como correntes de flores e que uma mão hábil cinzelou no lambris de carvalho, até aos painéis cujas pinturas estavam separadas por colunas incrustadas de lápis…(Frederic Loliée)

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Paul Baudry e Eugène Delaplanche Salão http://www.culture.fr/

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http://www.culture.fr/

…A atenção fixava-se nas consolas com tampo de onix suportando figuras de bronze, saídas do cinzel de Dalou (Aimé-Jules Dalou 1838-1902) ou fixava-se no fogão de sala em mármore vermelho, encimado por um vaso antigo contra o qual se apoiavam duas figuras femininas em mármore branco, despidas até à cintura: a Música e a Harmonia, por trás das quais um enorme espelho reflectia as suas formas esbeltas.

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http://www.culture.fr/

Eugène Delaplanche – Salão fogão de sala decorado com esculturas de bronze dourado. No centro baixo relevo “Danse des amours” em mármore. Por cima vaso em mármore vermelho guarnecido de esmalte venesiano. Ao lado as estátuas da Harmonia à esquerda e da Música à direita.

La Paiva fez-se retratar, pelos mais conhecidos pintores de Paris, como Vénus, Diana de Poitiers, Catarina da Rússia e Cleópatra.

(a atenção) viajava de um lado para o outro e quando tinha rapidamente relanceado os quadros de Délaunay (Jules Elie Délaunay 1828-1891 foi professor de José Maria Veloso Salgado)…(Frederic Loliée)

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Jules Elie Delaunay Diana de Poitiers 1872 óleo sobre tela 147 x 94 cm Musee d'Orsay, Paris

…de Boulanger… (Gustave Rodolphe Clarence Boulanger 1824-1888),

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Gustave-Clarence-Rodolphe Boulanger (French 1824-1888) Catherine I of Russia negotiating the Treaty of Prut with the Turks 1866
óleo sobre tela 170.2 x 126.7 cm Prince Henckel-Donnersmark, Paris. Private Collection, Schloss Hasenwinckel, Mecklenburg, Germany.

"Ele abandonou a pintura histórica de género e hoje expõe Catarina I negociando o Tratado de Pruth. Esta apresenta-se vestida como numa história de vaudeville. Ao ver Catarina com a cabeça jogada para trás, os dedos fechados, quase a ouço parodiando uma música da moda e protestando contra o deus da diplomacia por arruinar as negociações. Por outro lado, existem duas figuras de embaixadores turcos que são excelentemente pintados. "(E. Zola)

Segundo a lenda, Mehmet cercado pelo exército do czar Pedro, foi persuadido por uma visita nocturna secreta na sua tenda pela amante do czar (depois imperatriz) Catarina. A metáfora com La Paiva é clara: como a amante de uma personalidade importante é capaz de usar seus artifícios femininos para conseguir vantagens.

Boulanger desenhou esta Cena de Orgia em 1869, que podia muito bem ter sido desenhado ao vivo em casa de La Paiva.


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G. Boulanger Scène d'orgie 1869 tinta da china e lápis sobre papel 20,5 x 31 cm. museu do Louvre

…de Lévy… (Emile Lévy1826-1890)

Uma pintura de Lévy que nada tem a ver com a casa da Paiva.

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Portrait de madame José-Maria de Hérédia (1842-1905) poète, en robe du soir rose 1885

papel e pastel 59x39 cm. Paris, musée d'Orsay

…de Gérôme, (Jean-Léon Gérome 1824-1904)

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Jean-Léon Gérome (1824-1904) Cleópatra perante César

… (a atenção) não podia mais esquivar-se do tecto de Baudry (Paul Baudry 1828 - 1886), onde …o admirável fresco que o pintor de la Vendée fez palpitar as visões luminosas do Dia perseguindo a Noite. Esta obra prima só por si, valia todos os tesouros desta demasiada bela moradia…(Frederic Loliée)

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http://www.culture.fr/

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Baudry tecto do Salão “o Dia perseguindo a Noite” http://www.culture.fr/

Vejamos a descrição implacável dos irmãos Goncourt, denunciando este novo-riquismo:

”Sexta –feira 31 de Maio…Foi a Paiva que nos disse.Ela veste um vestido de musselina, que diz ter custado 37 francos e no pescoço e nos braços pérolas no valor de 5 milhões. Estamos nesse famoso salão, e que não vale tanto estardalhaço, no meio dessas pinturas feitas e a fazer, destinadas a representar a Assunção da cortesã, e começando em Cleópatra e terminando na dona da casa dando esmola aos egípcios. Em toda esta riqueza, apenas verdadeiramente arte é o tecto de Baudry, um conjunto de deuses espalhados, um Olímpio desconexo, mas com uma deliciosa coloração, no meio da qual se ergue uma Vénus apoiada na sua bela coxa esquerda que é numa risível apoteose véronésienne um adorável trabalho académico. O resto, uma peça de tapeçaria, sem história, sem um móvel, uma estátua, um quadro que salve uma casa do demasiado novo, e lhe coloque um pouco de interesse e o agradável do histórico."(Goncourt, Edmond de (1822-1896) e Goncourt, Jules de (1830-1870) – Journal des Goncourt, Mémoires de la Vie Litteraire, G. Charpentier et C.ia, Editeurs, Paris 1851-1896)

O salão de música

“…Depois seguia-se o salão de música cujo principal ornamento era o charme radioso de Vénus saindo da onda uma estátua (??) de Picou (Henri-Pierre Picou 1824–1895);

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Henri-Pierre Picou Vénus saindo da onda – pintura mural do salão de música.http://www.culture.fr/

Picou pintou diversas vezes o mesmo tema:

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Henri-Pierre Picou O Nascimento de Vénus

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Henri-Pierre Picou O Nascimento de Vénus

O salão de jogo

…o salão de jogo iluminado do alto por quatro painéis de vidro gravado e que avivavam nas paredes as frescas pinturas de Brisset, (Pierre-Nicolas Brisset 1810 - 1890) uma trilogia de graça, ingenuidade e de amor, sob os aspectos da mulher criança, a jovem e a mulher;…

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…e finalmente o lugar do festim, a sala de jantar espaçosa e soberba, com os seus candeeiros de grande estilo, as sua quatro portas duplas decoradas de pinturas de Rouvre, (Heuzé Henri ? 1851-1927) temas de caça e vida campestre, e dominado no tecto pelo fresco de Dalou (Aimé-Jules Dalou 1838-1902) : Diane couchée sur un cerf. Uma reprodução em grande de um dos esmaltes mais famosos de Bernard de Palissy (1510-1590).(Frederic Loliée)

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Joseph Victor Ranvier 1832-1896 e Aimé-Jules Dalou 1838-1902 – Fogão de sala da sala de jantar http://www.culture.fr/

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fogão de sala da sala de jantar com baixo relevo em bronze representando a caça http://www.culture.fr/

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Josef-Victor Ranvier baixo relevos nas portas representando a Caça e as Vindimas.http://www.culture.fr/

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Dalou (d'après Bernard Palissy) Diane couchée sur un cerf Baixo relevo http://www.culture.fr/

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Bernard de Palissy (1510-1590)

Outras pinturas de Baudry

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Paul-Jacques-Aimé Baudry (1828-1886) Diane couché sur un cerf 1858

óleo sobretela 90x137 cm. Chantilly, musée Condé

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Paul-Jacques-Aimé Baudry (1828-1886)Vénus jouant avec l'Amour

Os Goncourt, apesar de visitas da casa, são implacáveis de maledicência:

“…passamos a sala jantar onde comemos. então é a exibição do excesso, e o convite burguês sem pudor a admirar e sempre a admirar.Não se disse o preço mas declara-se que num tal fabricante custaria 80.000 francos. E é preciso que cada um, com a mão na garganta mostre a sua admiração e o seu cumprimento; e o cumprimento , por maior que seja, não é suficiente. Saint-Victor elogia o talento do banal escultor desta peça, Carrier Beileuse, este criador de pacotilha do século XIX, este plagiador de Clodion. Ele gaba-se de lhe conseguir obter este ano a medalha de escultura, indignando-se que não tenham ainda condecorado o modelador de serviço…O jantar é bom, mesmo muito bom, mas sem nada de que um estômago se possa espantar. Eu olho e estudo a dona da casa. Uma carne branca, belos braços e belos ombros à mostra nas costas até aos rins, e o ruivo das suas axilas aparecendo sob as alças; grandes olhos redondos; um nariz com largo; a boca sem inflexão, uma linha recta, cor de rosa, na figura toda branca de pó de arroz. Aí as rugas que a luz, neste fundo branco faz parecer ainda mais negras, e, de cada lado da boca , um oco em forma de ferradura, que se junta sob o queixo que corta com uma grande prega de velhice. Uma figura que, debaixo duma imagem de cortesã ainda na idade de exercer o seu ofício, tem cem anos, e que assume, por instantes, um não sei quê de uma morte maquilhada. E durante todo o jantar, num diálogo da Paiva com o seu arquitecto e o seu conde, é um espanto de hossanas sobre o seu palácio e sobre todo o recheio do seu palácio.” (Goncourt, Edmond de (1822-1896) e Goncourt, Jules de (1830-1870) – Journal des Goncourt, Mémoires de la Vie Litteraire, G. Charpentier et C.ia, Editeurs, Paris 1851-1896)

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Paul Gavarni (1804-1866) Aprés le Diner au Seconde Empire

A biblioteca

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http://www.culture.fr/

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Portas da biblioteca com medalhões representando as artes http://www.culture.fr/

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Jules Dalou - Fogão de sala da biblioteca tendo ao centro um medalhão representando O Estudo das Artes e de cada lado duas estátuas em bronze http://www.culture.fr/

A escada em onix

Diz-se que alguém propôs a seguinte legenda:

“Comme la Vertu, le Vice à ses degrées” (Como a Virtude, o Vício tem os seus (de)graus.)

“…a lendária escada onde tudo era em onix: os degraus, o corrimão, os balaústres e mesmo o revestimento das paredes(…)

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(…) o patamar do primeiro piso, onde se parava irresistivelmente a abraçar com o olhar como uma carícia, na parede marmórea o medalhão de Anfitrite, descontraidamente sentada sobre um golfinho e comandando as ondas que embalam a sua beleza;…(Frederic Loliée)

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Em nichos do último piso sobre a escada, três esculturas representando Dante por Jean-Paul Aubé (1837-1916), Virgílio por Cogniot e Petrarca da autoria de Louis-Ernest Barrias (1841-1905), alternando com medalhões.

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Escada em onix parte superior com as estátuas http://www.culture.fr/

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Ao centro a estátua de Virgílio

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Dante e Petrarca

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Pierre Brisset (1810-1890) Pinturas representando Roma, Florença, Veneza e Nápoles.http://www.culture.fr/

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A sala de banho

(…) a sala de banho, uma maravilha onde a imaginação mais refinada apenas se satisfaz revelando a incrível sumptuosidade de uma mulher amante do seu corpo, porque a ele deve a posse dos bens mais invejados do mundo;…(Frederic Loliée)

“(…) Mas a sala de banho, se devo acreditar na legenda, sobrepuja ainda o boudoir; é a obra prima da volupluosidade moderna. Nem Petronio em toda a sua glória, nem Bebbiena com a assistência de Raphael, tiveram semelhante inspiração.

Fez-se da estufa uma cousa de duplo significado: collocou-se a banheira no meio da relva, ou antes um tanque sempre cheio d'água quente para dois e occulto sob uma abobada de palmeiras das Antilhas e de camélias; jactos d'agua conduzidos pelas folhas das plantas exóticas distillam, num dado momento, uma chuva d'agua de cheiro, que cahe em orvalho sobre o tépido crystal da banheira. Um negro vigoroso, simplesmente adornado com a tanga de rigor, faz o serviço da estufa, sempre mantida á temperatura asiática d’um harém…

(…) “ Pelletan, referindo-se áquella deidade de lupanar, conta o seguinte :

« —Ha poucos dias, depois d'uma orgia romana, uma lorette deu ordem para lhe trazerem a banheira e para a encherem com vinho de Champagne ; tomou um banho de quinhentos francos em presença dos seus convivas, deu depois o banho, ainda effervescente, a beber aos seus dez amantes.» (Pinto de Carvalho)

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Fotos de http://www.culture.fr/

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O quarto de dormir

(…) o quarto, o santuário, com o seu fausto íntimo e o triunfo insolente da cama incrustado de madeiras exóticas e marfins preciosamente trabalhados, o leito pousado como um altar “num nicho de repouso”, sob uma Aurora flutuando no azul… (Frederic Loliée)

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Louis-Robert Carrier-Belleuse (1848-1913) - Fogão de sala em malaquite verde e bronze. Ao centro um medalhão em esmalte representando um mulher deitada e duas estátuas de figuras femininas nos lados. http://www.culture.fr/

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Quarto de toilette Louis-Robert Carrier-Belleuse (1848-1913) – fogão de sala em mármore branco de Carrara e escultura de mulher com criança em bronze prateado.http://www.culture.fr/

Carrier-Belleuse também trabalhou na Ópera de Paris

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Torchère au tambourin, 1873 bronze Grande escadaria da Ópera de Paris

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Faustin Besson (1821-1882)- tecto do salão dito dos fornecedores Apoteose da mulher rodeada por crianças.http://www.culture.fr/

Para se ter uma ideia da pintura de Faustin Besson mostra-se este pormenor da pintura no Banco Nacional Belga 1867

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Salão do primeiro piso

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http://www.culture.fr/

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Armário de 1865 desenhado por Pierre Manguin (1815-1869), para a casa da Paiva, e construído pelo marceneiro Antoine Kneib, com elementos dos escultores Aimé-Jules Dalou (1838-1902), Emile-Louis Picault (1833-1915), Eugène Delaplanche (1836-1891), e pelo esmaltador Bernard-Alfred Meyer (1832-1904) .Madeira de pereira escurecida, moldura em ébano, bronze dourado, lápis lazuli, jaspe e marfim. Em1867, foi exposto na Exposition Universelle de Paris.

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Consola em bronze realizada para o palacete de la Paiva (1864-1865) por Albert-Ernest Carrier-Belleuse (1824-1887) et Aimé-Jules Dalou (1888-1902). Dois atlantes ajoelhados suportam um tampo de mármore. Museu d’Orsay Paris

“Esta casa — um escrínio de jóias— foi ponto de reunião da aristocracia do intelectualismo: Theophilo Gautier, Pelletan, o bibliophilo Jacob, Emilio de Girardin, Arsène Houssaye, Emilio Augier, Emilio Blavet e, assegurava-se que, em 1870, fora também um centro de espionagem allemã.
Pelos seus salões archi-mundanos passaram todas as personalidades masculinas e eminentes do Segundo Império.
A chronica boulevardista affirmava que algumas damas da corte tentaram ser admittidas n'essas recepções.
O próprio imperador foi uma noite a casa d'ella. É Pierre de Lano quem o assevera.
O certo é que foi um bordel de primeira classe.”
(Pinto de Carvalho)

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Adolphe Monticelli (1824-1886) Une Soirée chez la Paiva óleo s/ tela 88,9x134,7 cm. colecção privada

A guerra Franco Prussiana 1870 e a partida para a Silésia

Com a guerra com a Prússia, a Paiva então com 51 anos e o conde com 40, retiram-se para a Silésia.

“Quando rebentou a guerra de 1870, Henckel e a Paiva partiram para a Silesia, onde viveram algum tempo retirados. Assignada a paz, o conde foi nomeado
governador da Alsacia-Lorena. Depois voltou a Paris, e a sua presença aqui esteve a ponto de provocar um conflicto diplomático, fallando se mesmo em expulsar do território francez o conde e a sua amante. Mas, graças a Thiers, o facto não foi consummado, e os dois amantes, renunciando a antiga habitação, foram residir na Maison Blanche, no bosque do Bolonha, outr'ora moradia de llaussmann, quando Prefeito do Sena. A sua residência em Paris foi de curta duração. Regressaram à Prússia, onde a Paiva casou em 1871 com o seu desvelado protector.
A proterva carcassa caiada ainda foi encerar aquelles bigodes com os seus dedos ultrajosamente pesados de anneis diamantinos. Pelo terceiro matrimonio
recebeu em dote bastantes milhões de florins, e retirou definitivamente para o seu castello, cujas grimpas se recortavam airosas no azul eléctrico do céo da Silesia, e que ella mandara construir, diziam, sob um risco imitado das Tulherias, afim de se vingar de a haverem expulso deste palácio, onde a levara o pianista
Herz no tempo de Luiz Filippe.”
(Pinto de Carvalho)

A casa dos Champs-Elysées ficou abandonada e a ela se refere em 1878, de um modo feroz, o antisemita e nacionalista Edouard Drumond (1844-1917) jornalista no seu “Mon Vieux Paris” :

“…o palacete da Paiva, por um inaudito acaso teve a sorte que merecia: a alcova não mudou de destino, dividida em quartos particulares. Um povo virtuoso, noutros tempos, talvez tivesse arrasado esta casa infernal, onde tantos complots alemães foram tecidos contra a França. Gambetta, que se pretendia o irreconciliável inimigo da Prússia, jantava todas as sextas feiras com Proust el Spuller (Eugène Spuller 1835-1896) em casa da Paiva, agora condessa Henckel de Donnesmarck: o apóstolo da vingança sentava-se à mesa com o primeiro governador da Alsácia – Lorena!
Edmond de Goncourt que, também ele, a frequentava teve a coragem de mostrar o seu aborrecimento e deu nota curiosa desses jantares de letrados onde o desgosto do dinheiro apanhava-os pelo pescoço na louça onde,como verdadeira Judia, a dona da casa avaliava em marcos o seu valor. Eram os traços do seu espírito: tanto de renda nas sua orelhas, tanto de aluguer por dia para o palacete dos Champs-Elysées e a propriedade senhorial de Pont-Chartrain!
Um verdadeiro Barême esta Cleópatra de ocasião. Fora do menu, aliás sumptuoso, era impossível obter um copo de água açucarada…Quando não se traía aborrecia-se de morte.Pobre Théophile Gautier que tinha posto estas recepções na moda! Hoje, instalou-se na casa um restaurante de alta categoria, tendo como reclame os destroços do luxo da cortesã, o tecto de Baudry, a escadaria em onix, os quadros cujo preço era fabuloso. O estilo é de uma má época: o gosto, o da judiaria alemã e da prostituição.A casa com certeza é curiosa: e o contraste não é menor no dia em que a redacção do la Parole fetejava o quarto aniversário da sua fundação na moradia de uma triunfante de Israel e de uma espia da Prússia. A legenda do menu “ la France aux Français” era nova para estes lados e parecia para os Antisemitas como um presságio de vitória.Na casa da companheira do conde Henckel, Gambetta estava, contudo, a dois passos do troféu das nossas vitórias! (Édouard Drumond (1844-1917) - Mon Vieux Paris ed. E. Flammarion1878)


As jóias da Paiva e o Palácio de Neudeck

Os diamantes

Em Maio de 2007 num leilão da Sotheby's realizado em Genebra um comprador que conservou o anonimato adquiriu por 5 milhões de euros dois diamantes excepcionais.

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Estes dois diamantes de cor amarelada, um lapidado em forma de pêra (82,42 quilates)

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e o outro lapidado em forma de almofada (102,54 quilates) pertenceram à Paiva e foram-lhe oferecidos pelo terceiro marido Guido Henckel von Donnersmarck e foram posteriormente usados pela sua segunda mulher a princesa russa Ekaterina Slepzowa von Donnersmarck.

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Como outras jóias da ex-imperatriz Eugénia, numa espécie de vingança da Paiva sobre a imperatriz que a expulsara da corte, tinham sido adquiridas em 1872 por Guido Henckel von Donnersmarck, para a mulher, quando foram leiloadas na Christie's em Londres.

O colar de pérolas

Este colar de pérolas foi uma das peças mais preciosas que tinha a ex-Imperatriz e tinha sido um dos seus presentes de casamento com Napoleão III.

Consiste de três voltas de pérolas, a primeira com 35 contas, a segunda com 39 contas e a terceira e mais longa com 47 contas, num total de 121 pérolas.

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Na imagem a Princesa Katharina Henckel-Donnersmarck com a jóia e a tiara de diamantes

As jóias da princesa von Donnersmarck

Guido Henckel von Donnersmarck, continuou a oferecer jóias à sua segunda mulher Catarina, como o colar de esmeraldas e diamantes, e os lagartos entrelaçados incrustados de diamantes

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o colar de esmeraldas e diamantes

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Os lagartos entrelaçados 1889

É uma jóia com uma base de platina representando em tamanho natural dois lagartos (ou lagartixas) esculpidos com diamantes, formando as escamas dos animais. Os olhos são rubis. te elaborado em corpete jóias de platina, encantado com a representação viva e naturalista. O tamanho dos animais é semelhante à ocorrência natural e pode ser considerado como um estudo realista da natureza.

O Palácio de Neudeck

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Hector Lefuel (1810-1881) Palácio de Neudeck en Silésie 1869-1876

aguarela e lápis 71,5x108 cm.Paris, musée d'Orsay

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Leo Woerl - Guia Ilustrado para a área industrial da Alta Silésia, com especial atenção aos locais de Katowice, Chorzów, Bytom, Tarnowitz, Zabrze e Gliwice1904

O Palácio de Neu­deck (Świerklaniec),na Si­lé­sia polaca, foi reconstruído entre1868 e 1872, incendiado em 1945 e demolido em 1961

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“Existe algures na Alemanha nos confins da Silésia, um palácio magnífico, perdido entre vastas explorações mineira, onde os devotos das Tulherias desaparecidas, se eles levam a sua devoção ao ponto de fazer esta longa viagem, irão encontrar na sua integridade, virgens do ultrajes da Comuna, a velha morada dos nossos reis. É o palácio de Newdelck, onde se apagou, na terça-feira, às quatro horas, a condessa Henckel de Donnesmark, mais conhecida dos Parisienses pelo nome, outrora célebre, de madame de Paiva.
Esta reconstituição, realizada pelo arquitecto Lefuel,
(Hector-Martin Lefuel (1810-1880) um dos grandes amigos da defunta, com a mesma religião artística com que M. Violet-Leduc `pôs na reconstrução de Pierrefonds, foi uma das inumeráveis reais fantasias em que esta manipuladora de milhões abrilhantou a sua espantosa carreira. Pode-se por este simples detalhe fazer uma ideia da sua fortuna colossal; e, se se pensa na humildade do seu início compreender-se-á a vontade feroz que a possuía para a conquistar. A vontade foi, efectivamente, a qualidade maior de madame de Paiva, e eu poderia dizer a sua maior virtude, se não temesse, que no caso, esta palavra me faz sorrir. ” (Emile Blavet)

A morte da Paiva e o segundo casamento do conde

A Paiva morreu em Neudeck em 21 de Janeiro de 1884.

“A imprensa jornalistica parisiense, menos atarefada nos assumptos grávidos da politica, da industria e da moral, commemorou, ha dias, o trespasse de uma mad. de Paiva, marquesa do seu appellido, e em terceiras núpcias condessa Henckel de Donnesmark.” (Camilo)

Depois da morte da Paiva o conde (agora príncipe) Henckel von Donnesmark casa-se com a russa Katharina Slepzow (1862 - 1929) em Wiesbaden a 11 de Maio de 1887. Tiveram dois filhos, Guido Otto (1888-1959) e Raul Krafft Paul Alfred Ludwig Guido (1890-1977).

A segundo mulher de Henckel von Donnersmarck após a morte do príncipe, foi abrir uma sala a que há muito ninguém tinha acesso, excepto Guido von Donnersmarck, que aí passava muitas horas.
Nela encontram, flutuando num tanque de formol o corpo da Paiva. Mesmo na morte, von Donnersmarck não tinha sido capaz a deixar. A cortesã foi então enterrada no jazigo da família.

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Nota Final:

Este texto é apenas um esboço incompleto,baseado em textos mais ou menos coevos da vida da Paiva.

Portugueses:

Camilo Castelo Branco Bohemia do Espírito 1886 Porto Livraria Civilização 4,Rua de Santo Ildefonso, 6 Typ. De Arthur José de Sousa & Irmão, Largo de S. Domingos,56

Pinto de Carvalho (Tinop) - Lisboa d’outros tempos 1898

E franceses que são, por mim, livremente traduzidos:

Arsène Houssaye – Contes pour les Femmes – Eaux-fortes et illustrations par Hanriot de Solar, C. Mapon et E. Flamarion 1885

Loliée, Frédéric (1856-1915) La Fête Impériale – Paris 1907

Pierre de Lano 1859-1904 – Les Bals Travestis et les Tableaux Vivants sous le Second Empire, illustré de vingt-cinq aquarelles hors-texte par Léon Lebègue, H. Simonis Empis, Éditeur, Paris 1893

Emile Blavet 1838 - 1924 La Vie Parisienne

Édouard Drumond (1844-1917) - Mon Vieux Paris ed. E. Flammarion1878)

Seria necessário consultar as obras dedicadas à Paiva , mas a que ainda não tive acesso:

Janine Alexandre-Debray - La Paiva, 1819-1884: Ses Amants, Ses Maris, Libr. academique Perrin 1986

Virginia Rounding, Grandes Horizontales: The Lives and Legends of Four Nineteenth-Century Courtesans. London: Bloomsbury, 2004

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4 comentários:

  1. Muitos parabéns pelo post. Andava eu a estudar a história do piano e a abertura de salas de concertos pelos seus construtores - Pleyel e Érard, em Paris -, e dei com o Herz, de que apenas conhecia o nome vagamente. Do Herz à Paiva e ao marquês foi um pulinho. Óptimo retrato que permite sentir o pulsar social da época.

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  2. Nessa época as mulheres eram conquistadas por muitos lingotes de ouro, a cotação delas andava pelos píncaros da glória. Par contre, hoje elas se trocam por um chopinho com batata frita.....Palmyra Garibaldi

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  3. Existe algum livro em portugues que conte a vida de La Paiva? obrigada

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  4. Sim...agora já existe. Livro: A Marquesa de Paiva" de João Pedro George.

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