Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 26 de outubro de 2010

A greve

A propósito de mineiros, greves e manifestações !

Apontamentos sobre pintura do realismo social do século XIX.

A palavra vem do francês grève, proveniente da Place de Grève, em Paris, na margem do Sena, desde 1803 place de l’Hôtel de Ville (Paços do Concelho) outrora lugar de embarque e desembarque de navios e depois, local das reuniões de desempregados e operários insatisfeitos com as condições de trabalho. O termo grève significa, originalmente, "terreno plano composto de cascalho ou areia à margem do mar ou do rio". Daí o nome da praça e o surgimento etimológico do vocábulo, usado pela primeira vez no final do século XVIII.

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Lutetia, vulgari nomine Paris,urbs Gallia maxima Braun and Hogenberg
Civitates Orbis Terrarum, 1572

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Detalhe da Carta de Braun tendo ao centro a Place de Grève, com o Hôtel de la Ville, e vendo-se o porto de Grève, no Sena com os barcos atracados.

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Detalhe com a praça.

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Théodore-Joseph-Hubert Hoffbauer (1839-1922) - Hôtel de Ville et place de Grève. 1856 Musée Carnavalet

Esta pintura embora realizada em 1856, procura reconstituir a Praça da Greve como seria no século XVI. O pavimento em terra batida, descia até ao Sena criando o “porto da Greve” onde acostavam os barcos que transportavam cal, e carvão. No lado nascente da praça a Câmara Municipal.

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Jean-François Janinet (1752-1814) - Vue de l'Hôtel de ville de Paris, prise du côté de la place. 1810
Musée national du Château de Versailles

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Edouard Denis Baldus (1813-1889) - Hôtel de ville de Paris. 1856
Prova s/ papel salgado 34.4 x 44.8 cm Musée d'Orsay

A Greve

As lutas populares são tão antigas como as próprias sociedades, mas é no século XIX, após a Revolução Francesa, que elas assumem uma forma organizada.

Terá sido Eugène Delacroix (1798-1863) com La Liberté guidant le peuple, exposto no Salão de 1831, que criará o modelo da representação pictórica das lutas populares. A personagem feminina, representando a Liberdade, seios descobertos e empunhando na mão direita a bandeira francesa e na esquerda uma espingarda, guia um conjunto de populares por cima de uma barricada onde jazem alguns soldados. Ao fundo a visão da Notre Dame situa a acção no centro de Paris. Os três elementos: a bandeira empunhada dirigindo o combate ou a manifestação, a barricada (com os mortos e o rapaz do tambor), e o fundo com significativos elementos arquitectónicos, serão de uma forma ou de outra utilizados nas pinturas de lutas populares. O quadro, pela dinâmica da sua composição, pela força do gesto do braço levantando a bandeira, com o povo caminhando e lutando decididos, tornar-se-á o modelo formal e o símbolo universal da luta pela Liberdade.

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Eugène Delacroix – La Liberté guidant le peuple 1830 óleo sobre tela 2,60 x 3,25 m Musée du Louvre

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A Bandeira e o fundo

Théophile Alexandre Steinlen, “May 1871”

O tema da mulher com a bandeira guiando o povo, tornar-se-á um símbolo que perdura até aos nossos dias.

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Théophile Alexandre Steinlen (1859-1923) “May 1871”. Ilustração para o Le Chambard Socialiste, Maio de 1894.

A figura feminina empunhando a Bandeira, também irá ser profusamente utilizada em Portugal na Implantação da República.

Alfredo Roque Gameiro – Liberdade

Nesta aguarela de Alfredo Roque Gameiro uma Liberdade com um traje regional de camponesa do Minho, (onde se notam o colete e o lenço e sobretudo os cordões, brincos e um pendente em forma de coração em ouro próprios do Minho), com um ar entre o decidido e o preocupado, empunha na mão direita uma espada e na esquerda a (nova) bandeira nacional. No fundo elementos arquitectónicos manuelinos - na época ainda associados ao nacionalismo e ao romantismo - onde se destacam as Capelas Inacabadas da Batalha, os Jerónimos e o Convento de Tomar.

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Alfredo Roque Gameiro (1864-1935) - “Colecção Portuguesa" - P. Guedes - Ilustração de Roque Gameiro

in Collectus loja de colecções http://coleccionar-collectus.blogspot.com/

As Barricadas

A Barricada será conotada com as revoltas urbanas, em particular em Paris, já que em todos as lutas (1830, 1848 e 1871) há um apelo às barricadas, forma de defesa contra a repressão policial.

Jean Victor Schnetz - Le combat devant l'Hôtel de Ville 1830

No quadro de Schnetz, que se refere ao levantamento de barricadas em Paris em 1830 e à generalização da luta civil que conduziu à Monarquia de Julho, mantém-se os três elementos: a bandeira aqui empunhada por um combatente, a barricada com os mortos e o rapaz do tambor (o gavroche dos Miseráveis de V. Hugo), e o fundo identificador do local da acção, aqui o Hôtel de Ville (a Câmara de Paris) e a praça, a antiga praça da Greve.

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Jean Victor Schnetz (1787-1870) Le combat devant l'Hôtel de Ville, le 28 Juillet 1830

óleo sobre tela musée du Petit-Palais Paris

Em 1848 nova revolta, que com o aparecimento de barricadas por todo o Paris e a adesão aos revoltosos da Guarda Nacional, conduziu à queda da monarquia e à abdicação de Luís Filipe, à dissolução do parlamento, e à criação da Segunda República (1848 –1852).

Na revolução de 1848 ficou célebre a barricada do faubourg Saint-Antoine sobretudo porque Victor Hugo, no “Os Miseráveis” lhe dedica várias páginas, de que traduzimos (livremente!) um excerto:

“A barricada de Saint-Antoine era monstruosa: tinha a altura de três andares e a largura de setecentos pés (23 metros) Ela fechava de um lado ao outro a espaçosa entrada do bairro, isto é, três ruas; cheia de altos e baixos, cortada por enorme seteira, apoiada em contrafortes que eram verdadeiros bastiões, fortemente apoiada aos dois grupos de casas dos arredores, ela surgia como um dique ciclópico no fundo da terrível praça que havia presenciado o 14 de Julho. Foram levantadas mais dezanove barricadas, ao longo da rua e por detrás da barricada principal. Bastava vê-la para se sentir naquele bairro o imenso sofrimento agonizante chegado ao minuto extremo em que o infortúnio quer transformar-se em catástrofe. De que era feita esta barricada ? Das ruínas de três casas de seis andares, demolidas expressamente, disseram uns. Do prodígio de todas as fúria, disseram outros. Ela tinha o aspecto lamentável de todas as construções do ódio: a ruína. Pode-se ainda perguntar: “Quem fez isto ?” Também se pode perguntar: “Quem destruiu isto ?”

Foi a improvisação da ebulição. Olha! este portão! esta grade! esta cobertura! este pedaço de chaminé! este braseiro quebrado! este pote rachado! Trazei tudo! Deitem aqui tudo! Empurrai, rolai, desmontai, derrubai, fazei cair tudo! Era a colaboração do pavé, do bloco de pedra, da cal, da barra de ferro, do pano, da sucata, do painel quebrado, da cadeira sem palha, do talo de couve, do trapo, e da maldição. Era grande e era pequeno. Era o abismo parodiado de improviso pelo tumulto. A massa, ao lado do átomo, o pedaço de muro em ruínas e a escada quebrada: uma fraternização ameaçadora de todos os lixos. Sisifo tinha colocado ali o seu rochedo e Job o seu caco. Terrível, em suma. Era a acrópole dos pés-descalços, carroças viradas criavam obstáculos no declive: um imensa grua estava caída e atravessada, as rodas para cima e parecia um cicatriz nessa fachada tumultuosa; um omnibus, içado alegremente à força de braços para o cimo da pilha, como se os arquitectos desta selvajaria quisessem somar a infantilidade ao terror, oferecia-se a não se sabe que cavalos aéreos. (…) Se o oceano fizesse diques era assim que os faria. (…) Era descomunal e viva; e, como do dorso de uma fera eléctrica, dela saía um estalido de raios. O espírito da revolução cobria como uma nuvem aquele cume onde ecoava raivosa a voz do povo que se assemelha à voz de Deus; uma estranha majestade desprendia-se daquela titânica alcofa de entulho. Era um montão de lixo e era o Sinai… (Victor Hugo - Les Misérables, Cinquième partie : Jean Valjean - Livre premier : la guerre entre quatre murs)

Anónimo - La Barricade du faubourg Saint-Antoine

Nesta reprodução de um quadro cujo autor se desconhece, de novo os três elementos: a bandeira empunhada sobre a barricada e o fundo com elementos que permitem distinguir o local.

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Anónimo - La Barricade du faubourg Saint-Antoine óleo sobre madeira Monuments historiques ANF

Antoine Gobaut Barricade du faubourg Saint Antoine

E no quadro de Antoine Gobaut, podemos ver a dimensão da barricada.

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Antoine Gobaut barricade du faubourg Saint Antoine museu do Carnavalet – Paris

Os motins populares

Philipp Hoyoll - O assalto à padaria 1846

A pintura descreve o assalto e destruição de uma padaria na Rua Charlotte, por uma população revoltada, durante os motins populares que decorreram durante dois dias, em Berlim em 1846

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Philipp Hoyoll (1816-1876) - O assalto à padaria na Breslauer Haymarket, 1846
Óleo sobre tela, 71 x 99 cm. Museu de Regensburg

As greves e as manifestações

A greve foi, no século XIX, de fundamental importância para a vida moderna na Europa, e mantém-se nos nossos dias como uma forma importante de luta e acção colectiva. As greves encontraram nas artes visuais, um apoio e uma valorização histórica e simbólica. Muitos artistas, mais ou menos comprometidos com as lutas sociais, traduziram nas suas obras, com imagens por vezes épicas ou heróicas, a luta por melhores condições de vida e por uma maior justiça social.

Alfred-Philippe Roll 1846-1919 – A Greve dos Mineiros c. 1880

La Grève des Mineurs mostra como Roll se interessava pela condição operária, já que tinha vivido entre eles. Os trabalhadores tristes, miseráveis e angustiados confrontam-se com a polícia. No primeiro plano à direita dois deles prendem um mineiro. Ao fundo as instalações da mina vendo-se uma bandeira agitada pelos grevistas. A. Roll realizou várias gravuras comemorando o centenário da Revolução Francesa.

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Alfred-Philippe Roll 1846-1919 – foto de La grève des mineurs ( A greve dos mineiros ),exposto no Salão de 1880

Óleo sobre tela, 345 x 434 cm.Amsterdam, Vincent Van Gogh Museum Library

Vincent van Gogh numa das cartas que escreve ao seu irmão Theo, refere:

“Vi nestes últimos dias, e tenho também na minha colecção uma gravura em madeira de um quadro de Roll, “A Greve de Mineiros”. Por acaso conheces este pintor, e, em caso afirmativo, o que já viste dele? Este quadro representa a entrada de uma mina de carvão, frente ao qual fervilha um grupo numeroso de homens, mulheres e crianças que visivelmente tomaram de assalto o prédio. Eles estão em pé ou sentados ao redor de uma carroça tombada e são controlados por guardas a cavalo. Um homem ainda atira uma pedra, mas uma mulher trata de segurar seu braço. As figuras são excelentes; são desenhadas de forma rude e brutal e também pintadas em consonância com o tipo de assunto. Não chega a ser como um Knaus ou Vautier mas tem mais paixão, por assim dizer- quase nenhum detalhe, o conjunto é concentrado e simplificado -, mas tem muito estilo. Há muita expressão, ambiente e sentimento, e os movimentos das figuras, as diferentes acções, estão magistralmente expressos.”

Robert Koehler (1850-1917) – A Greve 1886

À esquerda a casa do patrão com uma figura feminina com uma criança ao colo e uma outra junto de si, simbolizando a miséria da classe trabalhadora. Sob o alpendre da casa o proprietário da fábrica, de chapéu alto e tendo a seu lado um aterrorizado capataz, parece enfrentar os grevistas, do alto das escadas o que o coloca numa posição de evidente superioridade. Destacando-se de um fundo em que está representada a cidade industrial, com inúmeras chaminés, vemos à direita, não longe da habitação do patrão, a fábrica. Dela ainda avançam operários que vem apoiar o seu representante, simbolicamente de camisa vermelha, junto do patrão e que de braço estendido para os trabalhadores, parece mostrar a sua miséria e reforçar as suas reivindicações. No primeiro plano uma figura apanha uma pedra, como a preparar-se para o pior. Um casal parece discutir a participação na greve e as suas vantagens e perigos.


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Robert Koehler 1850-1917 A Greve 1886 óleo s/ tela 184,47x281,31Deutches Historisches Museum Berlin

Robert Koehler (1850-1917) nasceu em Hamburgo mas a família mudou-se para os EUA, estabelecendo-se em Milwaukee, onde existia uma numerosa colónia alemã. Estudou em Pittsburgh e Nova Iorque, mas depois cursou a Academia de Artes de Munique. Esta pintura apresentada no Salão da Primavera de 1886 na Academia Nacional de Nova York, teve um enorme sucesso, já que coincidiu com as lutas dos trabalhadores americanos pela jornada de trabalho de oito horas.

Käthe Kollwitz - Marcha dos tecelãos (Cortège des tisserands)

Numa paisagem rural, figuras masculinas com foices e machados e uma figura feminina com uma criança nas costas, dirigem-se num passo decidido e de punhos fechados para um qualquer lugar que se advinha ser o local onde possam exprimir e exigir as suas reivindicações. Esta gravura faz parte de um conjunto A Revolta dos tecelões, uma série de três litografias e três gravuras realizadas entre 1893 e 1898, ilustrando a miséria e a revolta dos operários têxteis na Alemanha dos meados do século XIX. O conjunto, baseado na peça Die Weber (1892),de Gerhart Johann Robert Hauptmann (1862-19469), é considerado um marco na utilização da arte como forma de promover a consciência de classe.

As seis imagens descrevem um ciclo: nas duas primeiras Not (miséria) e Tod (morte), a artista descreve as condições dos revoltosos; a terceira Beratung (comissão), ilustra a preparação da luta contra as condições dos operários; a quarta Weberzug (a Revolta dos tecelões) que apresentamos e a quinta Sturm (ataque), mostram o levantamento dos operários e a última Ende (fim), a repressão e esmagamento da revolta com a morte de operários.

Este conjunto foi exibido na mostra anual de arte de Berlim, em 1898. Devido ao seu teor politico o Kaiser Wilhelm recusou-se a atribuir-lhe a medalha que tinha ganho. No entanto, Kollwitz foi nomeada para ensinar na Künstlerinnenschule Berlin.

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Käthe Kollwitz 1867-1945 Marcha dos tecelãos (Cortège des tisserands) em Weberzug, imagem 4 do ciclo La révolte des tisserands, 1893-1897

Gravura água forte 21.6 x29.5 cm Käthe Kollwitz Museum Paris

Käthe Kollwitz (1867-1945) nasceu em Königsberg (hoje Kaliningrado, Rússia) Em 1884 entrou para uma academia criada especialmente para as mulheres , em Berlim. Kollwitz continuou seus estudos de arte em Königsberg , e na Escola de Munique para Mulheres Artistas. Em 1891 Kollwitz casou com o Dr. Karl Kollwitz, um médico que tratava gratuitamente muitos trabalhadores pobres. Käthe Kollwitz trata os temas da injustiça social nas sua obras, representando mães e crianças, a guerra e a morte, como um testemunho do sofrimento das populações marginalizadas de Berlim durante o período da República de Weimar e a ascensão do fascismo. Foi a primeira mulher a ser eleita para a Academia Prussiana de Artes, em 1919, e onde desde 1928 dirigiu o departamento de artes gráficas. Em 1933 foi expulsa pelos nazis quando chegaram ao poder. Morreu a poucas semanas do fim da II Guerra Mundial , tendo o seu estúdio sido bombardeado e muito do seu trabalho destruído.

Plinio Nomellini (1866 – 1943) A greve 1889

No primeiro plano, à frente da multidão dos grevistas, um operário, com um braço sobre os ombros do camarada, parece querer convence-lo das vantagens da greve, sob o olhar de duas mulheres. Três outros operários conversam em círculo enquanto na multidão uma figura feminina ergue os braços numa atitude mais de súplica do que de luta. Ao fundo uma paisagem industrial marcada por chaminés de fábricas.

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Plinio Nomellini (1866 – 1943) A greve 1889 col. privada

Plinio Nomellini, também poeta, foi um radical de esquerda tendo mesmo passado vários meses preso em 1894, acusado de anarquismo. No entanto nos anos vinte do século 20, aproxima-se e adere ao Fascismo. Estudou na Academia de Belas Artes de Florença. Inicialmente ligado a uma corrente, o Divisionismo, trata temas relacionados com questões sociais, como a pobreza , o sofrimento e a luta das classes trabalhadoras.


Eugène Laermans (1864-1940) Um dia de greve. A bandeira Vermelha 1893

No primeiro plano uma multidão compacta de homens, mulheres e crianças vestidos de cores sombrias desfilam atrás de uma bandeira (agora) vermelha. Ao fundo entre algumas construções aparece uma fábrica com a sua chaminé. É evidente a influência de Brueghel, no desenho das personagens.

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Eugène Laermans (1864-1940) Un soir de grève. Le drapeau rouge (Streikabend. Die Rote Fahne) 1893. Óleo s/tela 106 x 115 cm Brüssel, Musées Royaux des Beaux-Arts de Belgique

Jules Adler (1865-1952) A Greve no Creusot 1899

Jules Adler compõe o seu quadro a partir da realidade dessa jornada de luta, como são relatados na imprensa da época.

No primeiro plano o desfile dos trabalhadores, onde se nota um elevado número de mulheres e crianças. De novo as bandeiras francesas e vermelhas, o rapaz com o tambor e a paisagem ao fundo com as torres das minas.

Zola, no seu romance Germinal, cuja acção se passa numa zona mineira onde se realiza uma greve, onde ele aliás viveu, também descreve a manifestação representada no quadro de Adler:

“…As mulheres tinham aparecido cerca de mil, com os cabelos desgrenhados pela marcha, com as roupas esfarrapadas mostrando a pele, nudez de mulheres cansadas de dar à luz mortos de fome. Algumas com os bebes entre os braços, levantavam-nos ou, agitavam-os como uma bandeira de luto e vingança. Outras, mais jovens, com o peito inchado de guerreiras, empunhavam paus; enquanto as velhas, horríveis, gritavam tão alto que as veias dos seus pescoços magros parecia que iam rebentar. E de seguida jorraram os homens, dois mil furiosos, os mineiros, os mecânicos, os condutores, uma massa compacta marchando como um único bloco apertado, uniforme, ao ponto de não se distinguir nem as calças desbotadas nem as camisolas de lã apagadas numa mesma uniformidade cor de terra. Os olhos flamejavam, apenas se viam as negras frestas das bocas, cantando a Marselhesa, cujos versos se perdiam num rugido confuso, acompanhado pelo bater dos socos no chão duro. Por cima das suas cabeças, entre o agitar de barras de ferro, um machado passou,e este machado único, que era como o estandarte do grupo, tinha, no céu claro, o perfil agudo de uma lâmina de guilhotina…” Émile Zola (1840-1902), Germinal 1885 trad. RF

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Jules Adler (1865-1952) La grève au Creusot (1899).

Óleo sobre tela 231 x 302 cm Ecomusée de la Communauté

A siderurgia apoiada nas minas da região em Creusot, foi criada em 1836 por Eugène (1802-1845) e Adolphe Schneider (1805-1875) e tornou-se uma das maiores de França no século XIX. Gozou de uma estabilidade social, durante vários anos, graças ao crescimento baseado numa tecnologia avançada, permitindo salários relativamente altos acompanhados do acesso a uma formação profissional, e à criação pelos patrões de escolas, de um hospital e de bairros para os trabalhadores.

É o próprio crescimento da empresa, que à produção de material para o caminho de ferro (em particular as locomotivas), barcos a motor e pontes metálicas, se vem juntar o material de guerra, a produção de aço e de material eléctrico, provocando um aumento de encomendas e por isso um insuportável ritmo de trabalho, associado ainda, ao facto de em 1898 assumir a direcção um novo patrão Eugène Schneider II (1868 - 1942), que se ausenta frequentemente para Paris onde se dedica à política. Estes factores conduzem à crescente insatisfação dos trabalhadores, começando a germinar a ideia da criação de um sindicato, o que se concretizará nesse mesmo ano. Assim em 1899 são desencadeadas várias greves, sendo que em 24 de Setembro, a greve é acompanhada de uma enorme manifestação a que se juntam os mineiros da vizinha Montceau-les-Mines.

Constantin Meunier (1831-1905), ilustração de O Filho do Grevista, 1889

Nesta água-forte de Constantin Meunier, feita para ilustrar o livro O Filho do Grevista de Louis Meunier, vemos no primeiro plano, numa vala do caminho de ferro, algumas figuras que protestam sendo que uma delas parece atingida ou desmaiada. Na ponte do lado esquerdo caminha a manifestação com uma bandeira e empunhando utensílios de trabalho. À direita um pelotão prepara-se para a repressão. Ao fundo a fábrica com as suas chaminés.

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Constantin Meunier (1831-1905) Gravures à l'eau-forte et dessin de fond par Karl Meunier para Louis Delmer Meunier - Le Fils du gréviste. Croquis de moeurs belges. Brux., Sté Belge de Librairie, 1889, 4°, br., dos en demi-basane beige. Edit. orig. tirée à 100 ex. num. 1/90 sur Opaline double.

O belga Constantin Meunier, foi um pintor e escultor realista que abordou preferencialmente a temática da vida dos trabalhadores. Nos seus últimos anos de vida dedicou-se a um Monumento ao Trabalho, composto de 5 esculturas, a Maternidade, o Ancião, o Mineiro, o Ferreiro e o Semeador e por 4 alto-relevos a Indústria (o fogo), a Ceifa (o ar) o Porto (a água) e a Mina (a terra). Este monumento apenas foi realizado, em Bruxelas, depois da sua morte.

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A Mina (Terra) Meunier coloca as figuras dos mineiros numa “mina” escavada na própria rocha que reveste o monumento.

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O Mineiro

Paul Louis Delance - Grève à Saint-Ouen 1908

O quadro de Delance não parece retratar em particular uma das muitas greves e manifestações que tiveram lugar em Saint-Ouen no início do século XX. No centro do quadro e olhando para o espectador, destaca-se uma mulher, com uma criança ao colo, sobre o vermelho da bandeira erguida por um velho operário, e que centraliza toda a composição. Por detrás, encabeçada por um jovem operário cantando,avança uma manifestação, estendendo-se até horizonte de chaminés de fábricas, que se advinha cantando e erguendo mais bandeiras.

Do lado esquerdo da pintura duas figuras masculinas e uma feminina, de costas, observam a passagem de dois carros fúnebres, de que se vê a parte superior com os cocheiros, de um lado e do outro da bandeira, simbolizando a dureza das lutas operárias, de que muitas vezes resultam mortos.

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Paul Louis Delance (1848-1924) Grève à Saint-Ouen 1908

Óleo s/ tela 127 x 191 cm Museu d’ Orsay Paris

Saint-Ouen é uma cidade situada a norte de Paris e onde nos finais do século XIX e início do século XX se instalam numerosas indústrias destacando-se as metalúrgicas. Entre 1887 e 1896 é um dos principais municípios dominados pelos socialistas revolucionários.

Republicano e socialista Delance com a morte da mulher em 1892, começa a orientar a sua pintura para paisagens, retratos e temas religiosos, aproximando-se do Simbolismo.

Joshua Benoliel 1873- 1936 Greve das varinas de Lisboa

Esta magnífica fotografia de Joshua Benoliel, mostra um conjunto de varinas em greve, que avançam determinadas para protestar contra a sua condição de trabalho no início do século.

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Joshua Benoliel 1873- 1936 Greve das varinas de Lisboa início do século XX

Negativo de gelatina e prata em vidro 9x12 cm Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

Greves e repressão

No final do século XIX, ficaram célebres as greves dos maquinistas e dos trabalhadores dos transportes em várias cidades dos Estados Unidos, e sobretudo a greve em 1889 em Nova Iorque, pela forma violenta com que foi reprimida e noticiada na imprensa.

A polícia abrindo caminho para um “americano” na greve dos transportes públicos em New York 1889.

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Desenho de T. Thulsteuf in Harper’s Weekly

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Lippincott, William Henry (1849-1920), Illustrator.Streetcar strike in New York, 1889. 11 x 12 cm. From The history of our country : from the landing of the Norsemen to the present time. (New York : Niglustsch, 1900) Ellis, Edward Sylvester (1840-1916) NYPL

Ramon Casas Carbó 1866-1932 – La Carga, 1899

Também em Espanha, as lutas dos trabalhadores de Barcelona e a sua repressão, foram motivo deste conhecido quadro de Ramon Casas.

O quadro, de grandes dimensões representa um acontecimento na zona portuária de Barcelona, já que ao fundo se distingue a silhueta de Santa Maria do Mar. Ramon Casas coloca o espectador no centro de uma carga da Guarda Civil a cavalo, dispersando uma multidão de grevistas, que fogem em debandada para o canto superior esquerdo do quadro.

Ao centro enfatizando a carga policial, um grande espaço vazio, que se adivinha ter estado preenchido, criando um ambiente dramático. Um guarda a cavalo carrega num dos manifestantes que se estende por terra até aos pés do espectador, deslocando o olhar do espectador para o lado direito da composição, onde a multidão se contém perante a carga da guarda.

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Ramon Casas Carbó 1866-1932 - Carga 1899 óleo s/ tela 298x470,5 cm Museu Reina Sofia Madrid

La carga (1899-1903), foi primeiro exposta em Paris, no Salão do Champ de Mars, depois de ter sido recusada na Exposição Universal de Paris de 1900. Ramon Casas vê no entanto o quadro ser premiado com a medalha de ouro na Exposição Nacional de Bellas Artes de 1904.

André Devambez (1867-1944) A carga 1902

O mesmo tema, tratado por André Devambez, mostra um confronto entre as forças da ordem e os manifestantes.

A cena desenrola-se ao fim da tarde ou no início da noite, no Boulevard Montmartre em Paris e representa uma carga, neste caso a pé, de gendarmes pretendendo dispersar uma multidão não identificada. Nesta composição o dramatismo da cena é acentuado pela colocação do espectador num ponto de vista elevado, provavelmente uma varanda do boulevard. No centro da composição um grande círculo formado, de um lado pela polícia em tons mais claros e do outro pela população que foge, para a parte inferior e mais sombria do quadro. O quadro organiza-se numa dinâmica diagonal do canto superior esquerdo para o canto inferior direito, acentuada pela marcação no pavimento do boulevard da linha que disciplina o trânsito. De notar os cafés iluminados, as colunas Morris da publicidade e a iluminação das montras, no momento em que Paris inicia a electrificação pública e privada.

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André Devambez (1867-1944) A carga 1902 óleo sobre tela 127x162 cm Museu d’Orsay Paris

Nikolaj Kasatkin Alekseevich - Statschka (Greve)

No quadro de Alekseevich, apesar da má qualidade da reprodução, encontramos os elementos canónicos da representação. Em tons sombrios, tendo ao fundo uma instalação fabril, uma multidão confusa mas onde se destacam as figuras femininas, parece revoltar-se após a repressão. No centro uma clareira onde jaz uma mulher morta. Junto dela do lado direito uma outra mulher ergue o punho com um pano vermelho de uma bandeira, enquanto por trás uma outra parece motivar mais operárias para a luta. No primeiro plano uma figura feminina com uma criança parece retirar-se resignada, enquanto à esquerda uma outra operária contém a multidão perante um outro cadáver numa clareira mais pequena.

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Nikolaj Kasatkin Alekseevich (1859-1930) Statschka (Greve), 1906
Óleo sobre tela , 98 x 152 cm. Moscovo, Museu da Revolução

Kasatkin nasceu em Moscovo. Estudou na Escola de Belas Ares de Moscovo e começou por pintar a condição dos mineiros e trabalhadores na Rússia czarista. Depois da Revolução Russa de 1905, tornou-se um precursor do realismo socialista, tendo em 1922 ingressado na Associação dos Artistas da Rússia Revolucionária (AKhRR).

M.Pinto (?) – Carga policial sobre operários fiandeiros em greve, “O Charivari” 1890

No Porto, “ a Manchester portuguesa”, pelas suas características industriais do século XIX, também se realizam greves e manifestações. Neste desenho, algo ingénuo no traço, publicado no Charivari, em frente de uma fábrica, dá-se conta da repressão a que muitas greves estavam sujeitas. A Guarda a cavalo e de espadas desembainhadas carrega sobre uma multidão, onde pelos trajes se podem ver não apenas operários. A meio da rua um casal com uma criança afasta-se, enquanto ao fundo se vê a manifestação que avança. A nota insólita e humorística é dada por um homem cavalgando um muro com uma cana de pesca e pelo diálogo (escrito no muro) com o guarda: “É prohibido estar ahi / Estou a pescar / Olhe que lhe vem um peixe espada”

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Carga policial sobre operários fiandeiros em greve, “O Charivari” 1890 in História do Porto direc Luís A. de Oliveira Ramos, Porto Editora 3ª edição 2000

Théophile Alexandre Steinlen A Manifestação 1905

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Théophile Alexandre Steinlen 1859-1923 A Manifestação 1905

Óleo sobre tela 81 x 66 cm. Museu de Belas Artes de Tourcoing França

Théophile Alexandre Steinlen, nasceu Lausanne en 1859, mas viveu em França tendo assistido aos acontecimentos da Comuna de Paris em 1871. Realizou diversos cartazes, dos quais o mais conhecido é Tournée du Chat Noir para o cabaret do mesmo nome.

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Théophile Steinlen, Tournée du Chat Noir, 1896, 135.9 x 95.9 cm

Colaborou como ilustrador em diversas publicações de esquerda, como Le chambard socialiste, Gil Blas illustré, Les Humoristes, l'Assiette au Beurre e Le Rire. Foi o autor da capa de uma das edições de 1902 da Internacional, o poema de Eugène Pottier de 1887, musicado por Pierre Degeyter e que se converteu no hino do socialismo internacional.

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A Internacional é representada por uma multidão que avança na nossa direcção, tendo à frente um porta-bandeira e junto a ele um homem de torso nu com os braços por cima dos ombros dos que marcham a seu lado, num sinal de fraternidade. Os raios que emolduram a palavra L’Internationale representam o sol que iluminará o futuro radioso. As bandeiras pertencendo a diversos partidos de diversos países, mostram o carácter internacional da luta operária.

Albert Peters-Desterac - A morte de Louise Michel 1905

No quadro, Desterac preferiu representar o cortejo, a manifestação de homenagem a Louise Michel, em detrimento do carro fúnebre com os despojos. O cortejo atravessou Paris desde a Gare de Lyon até ao cemitério Levallois-Perret, sob uma forte escolta policial. A multidão de operários, mulheres, veteranos das revoltas parisienses, ardinas (um segura exemplares do Le Libertaire), que acompanha os restos mortais, é representada de uma forma compacta, onde se distinguem coroas fúnebres, bandeiras vermelhas e estandartes negros, e ao centro um agente a cavalo.

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Albert Peters-Desterac 1874-1951 La mort de Louise Michel 1905
água-forte sobre papel 51,4 x 62 cm Musée d'Art et d'Histoire de Saint-Denis

Louise Michel (1830-1905) “la Vierge Rouge”, foi uma anarquista com um papel relevante na Comuna de Paris. Foi deportada para a Nova Caledónia e regressou a Paris em 1880, onde se tornou extremamente popular, como activista das lutas pelos ideais do anarquismo, do sindicalismo e do feminismo, até à sua morte em Marselha onde se dirigia para um comício, aos 74 anos.

Jules Grandjouan, La grève 1906

Jules Grandjouan (1875-1968) anarquista e sindicalista foi o principal colaborador de L’Assiete au Beurre (1901-1912)

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L'Assiette au Beurre",La Grève N.º 214 Maio 1906.
par Bernard Naudin 1876-1946 Jules-Felix Grandjouan 1875-1968

e ainda de La Voix du Peuple, Les Temps Nouveaux, La Guerre Sociale, e o Le Libertaire. Procurou ainda outras formas de exprimir as suas ideias socialistas como a canção e o cartaz. Quando da greve e da repressão em 1908 em Villeneuve-Saint-Georges (o exército dispara sobre os grevistas causando quatro mortas e dezenas de feridos) de onde resulta o quadro-panfleto Honte à celui qui ne se revolte pas. Os seus cartazes e caricaturas de Clémenceau, bem como em 1911 os seus desenhos antimilitaristas levam-no à prisão. Em 1912 parte para a Alemanha com Isadora Duncan com quem tem uma relação, e publicará em 1912 um álbum de desenhos de Isadora.

Jules Grandjouan, Honte à celui qui ne se revolte pas…1910

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Jules Grandjouan 1875-1968 Honte à celui qui ne se revolte pas…1910 chateau du duc de

Giuseppe Pellizza da Volpedo 1868-1907 - Il Quarto Stato 1901

Popularizado pelo filme Novecento de 1976 de Bernardo Bertolucci (1941) foi pintado entre 1898 e 1901 e apresentado na Quadrienal de Turim de 1902.

O quadro resulta de uma série de estudos de Giuseppe Pellizza realizados entre 1892 e 1901: “Ambasciatori della fame” 1892 e “Fiumana” 1895-97, em que o tema vai sendo depurado de vários elementos locais até ganhar uma coerência formal e ideológica, que o torna universal. Inicialmente denominado “O caminho dos trabalhadores”, Pellizza muda-lhe o título para “O Quarto Estado”, um nome mais “científico” e simbolizando os que se afirmam para além dos três estados clássicos da história: nobreza, clero e povo.

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Giuseppe Pellizza da Volpedo 1868-1907 - Il Quarto Stato 1901

óleo s/ tela 293x545 cm, Galleria d'Arte Moderna Milano

O tema inspirado por uma greve, apresenta uma multidão de trabalhadores que avança ordenada para uma praça ensolarada, deixando para atrás um crepúsculo, sinal de uma classe cumprindo o seu caminho.

No primeiro plano destacam-se três figuras em tamanho natural: um homem ao centro, ladeado por duas figuras um pouco atrás. Á sua direita um outro trabalhador e à sua esquerda uma mulher, com uma criança nos braços.

A dimensão do quadro e as figuras centrais em tamanho natural, envolvem o espectador na própria cena representada.

Por detrás destas três figuras, a multidão que se advinha numerosa mas de que vemos apenas quatro filas de manifestantes. Retratados como um bloco, os trabalhadores envolvendo várias idades e actividades, ganham a dimensão de uma classe, quase um organismo vivo, que se movimenta e desloca unida. Apresentam-se de braços e mãos abertas, como que manifestando o insuportável da sua condição e a determinação contra ela de lutar.

O quadro composto em tons de ocre e vermelho pálido, é dominado por uma serenidade de uma classe confiante, determinada que para afirmar a sua força, não precisa de bandeiras, de faixas, ou de agitar instrumentos de trabalho porque sabe que o futuro lhes pertence. O colete vermelho da personagem central é suficiente para como uma bandeira destacar a figura que lidera a manifestação.

A minha aspiração de justiça fez-me idealizar uma massa de pessoas, de camponeses, que inteligentes, fortes, robustos, unidos, avançam como uma inundação varrendo todos os obstáculos para alcançar o lugar onde encontram o equilíbrio. Pellizza

Esta serena objectividade e a força desta confiança e determinação, contribuíram para o valor simbólico do quadro, adoptado como um verdadeiro manifesto dos trabalhadores e das suas associações, ao longo de todo o século XX.

2 comentários:

  1. Parabéns pela postagem, muito rica em informações e imagens. Tenho um blog sobre a temática das greves... te encontrei procurando obras de arte que abordem o contexto, estou maravilhado. abraço
    julianogodoi

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  2. Excelente postagem. Parabéns!

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