Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Os Planos para o Porto – dos Almadas aos nossos dias 7 V

Os Planos dos Italianos para o Porto 1

Nota - O Prof. Antão de Almeida Garrett (1896-1961), então no Serviço de Obras e Urbanização da Câmara Municipal do Porto, é uma testemunha directa da actividade dos arquitectos italianos, convidados a elaborar o Plano Geral de Urbanização da Cidade do Porto entre 1938 e 1942. Em 1974 a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, publicou no seu Boletim n.º 11 um texto de A.A. Garrett intitulado “História da Evolução dos Planos Gerais de Urbanização da Cidade do Porto”, em que o autor se refere aos planos do Porto desde Ezequiel de Campos até Robert Auzelle, passando obviamente pelos planos de que é autor, e onde descreve e comenta minuciosamente a actividade dos italianos no Porto. É com base nesse texto que esta mensagem é elaborada. Muita da documentação sobre os anos 30 é ainda extraída de Maria Adriana Pacheco Rodrigues Gravato – Trajecto do Risco Urbano – A arquitectura na cidade do Porto, nas décadas de 30 a 50 do século XX – Dissertação de Mestrado em História da Arte em Portugal Faculdade de Letras da Universidade do Porto 2004 e de Maria Alexandra Martins Soares de Amorim – A Cidade Planeada – 1930/1980: Permanências /Inovações no Processo e Forma Urbanos – Dissertação de Mestrado Feup /Faup 1998.

O Porto em 1938

Em 1938, a Câmara Municipal do Porto, então presidida pelo professor da Universidade António Mendes Correia (1888-1960), vê aproximar-se o final do prazo estabelecido no Decreto N.º 24 802 de 1934, (31 de Dezembro de 1939), o que impunha a elaboração do "Plano Geral de Urbanização e Expansão da Cidade".

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O Porto nos anos 30 imagem do Graf Zepplin in O Porto Visto do Céu, edições Argumentum, Lisboa, 2000

A cidade do Porto tinha, ao longo da década de trinta, acumulado um conjunto de questões que para serem resolvidas implicavam um instrumento urbanístico que as enquadrasse, muitas delas analisadas e sugeridas no Prólogo ao Plano de Ezequiel de Campos, que no entanto não teve seguimento. A população do Porto entre 1930 e 1940, tinha crescido de 229 794 para 258 548 habitantes, aumentando consideravelmente o número de ilhas e de habitações degradadas, a que a construção de habitação social não dava resposta.

O Transporte interurbano de mercadorias e de passageiros fazia-se ainda preferencialmente pela linha férrea e pela via fluvial, tornando necessário um novo atravessamento do Douro, dando sequência ao projecto do início do século 20, da construção de uma nova ponte no local da Arrábida.

O transporte internacional de mercadorias e de passageiros, era ainda, preferencialmente feito pelo porto do Douro, onde se constroem alguns equipamentos, mas o forte investimento e no porto comercial de Leixões com a construção da Doca n.1, e o seu desenvolvimento colocava de uma forma premente a criação de ligações entre o porto artificial e a cidade.

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Foto Beleza / Mário Ferreira

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Foto Beleza / Mário Ferreira

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Joaquim Lopes (1886-1956) Douro1927 óleo sobre tela 47,5x67 cm Museu Nacional Soares dos Reis

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Leixões - construção da Doca n.º 1

Relacionado com as actividades portuárias, constrói-se, em Massarelos, junto ao rio, os Armazéns Frigoríficos do Peixe (1934/39), segundo um notável e inovador projecto de Januário Godinho (1910/1990), e construído pela então criada construtora OPCA, a que estão associados os nomes dos engenheiros Manuel Godinho (irmão de Januário), e José Praça.

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Januário Godinho - Desenhos a carvão sobre papel col. particular in OPCA Artes e Letras na tradição das gentes da casa 1992 Luís Lousada Soares

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Na cidade e seus arredores o transporte fazia-se pelo carro eléctrico, sendo que o transporte rodoviário motorizado iniciava um razoável desenvolvimento.

Reclamava-se já um “campo de aviação”:

“Sem dúvida também, como complemento da rede de comunicações, não tardará a dotar-se o Porto com as condições indispensáveis à sua comunicação nacional e internacional pela via aérea. Não faz sentido que núcleo como este, obrigado a intensivas relações económicas, - a época é da velocidade e o tempo, mais que nunca é dinheiro -, se encontre impossibilitado de servir-se, com facilidade e rapidez, das grandes carreiras aéreas internacionais, à falta de aviões que entronquem com aquelas linhas.” Cupertino de Miranda 1938 (Carlos Bastos e outros - Nova Monografia do Porto – Companhia Portuguesa Editora, L.da – Porto 1938)

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A Cidade do Porto nas décadas de 30 e de 40, desenvolve-se no sentido Sul - Norte, com os atravessamentos do Douro concentrados nas duas pontes existentes, com uma forte centralização na Baixa, e daí irradiando um conjunto de arruamentos, correspondentes à malha tradicional do Porto (portas da muralha), ao longo dos quais se vão concentrando novas edificações.

No sentido poente-nascente, desenvolve-se o eixo da Constituição, nos limites da cidade urbanizada, e ao longo da década de 30 vai-se desenvolvendo a urbanização da Avenida da Boavista, com a abertura das avenidas Marechal Gomes da Costa, como ligação à Foz e da avenida Antunes Guimarães como ligação a Pereiró.

Impõe-se ainda a estruturação da zona da Foz e de Nevogilde.

Esta estrutura é acentuada pelos transportes públicos - o eléctrico - principal meio de mobilidade dentro da cidade e mesmo de relação com núcleos periféricos de habitação nos limites exteriores à cidade (Areosa, Ermesinde, Rio Tinto, Matosinhos e Gaia).

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Detalhe de fotografia de Foto Beleza / Mário Ferreira

Ainda nos anos trinta procede-se à abertura de novos arruamentos e à construção de conjuntos urbanos como a Avenida dos Combatentes (Antas) e de Guerra Junqueiro.

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Planta da Cidade do Porto, 1937, núcleos edificados cinzento claro – 1892 e cinzento escuro-1937

A Câmara Municipal, tem ainda um conjunto de problemas específicos a resolver com urgência, entre os quais se destaca a ambicionada ligação entre a ponte Luís I com a área central da cidade (Avenida da Ponte) aspiração essa que é potenciada pelo incremento da circulação rodoviária e pelo facto de a Câmara estar instalada desde 1919 no Paço Episcopal.

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Armando Basto (1889-1923) - Ponte de D. Luís – Porto, óleo sobre madeira 54x65 cm. CAM -FCG

A praça da Liberdade e a avenida dos Aliados, cuja edificação se foi completando ao longo da década, necessita contudo de uma definição para o sector norte, a praça do Município, onde o Estado Novo pretende edificar um dos seus edifícios emblemáticos, o Palácio dos Correios.

A Câmara tem ainda entre mãos, a inserção urbana dos bairros de Casas Económicas construídos ao abrigo do Decreto-Lei 23 052 de 1933, que até 1939 estavam construídos ou em construção os bairros do Ilhéu (1935), Condominhas (1937), Amial (1938), Azenha, Paranhos e Ramalde (1939). image

Implantação das três primeiras gerações de Bairros Sociais do século XX 1903-1950

A Câmara tem ainda de planear as acessibilidades e o arranjo da envolvente do Hospital Escolar na Asperela e do Liceu Feminino na Ramada Alta.

Por isso, em finais de 1938 a Câmara Municipal do Porto, consciente da necessidade de cumprir o decreto n.º 24 802 de 1934, que impunha a elaboração do plano de urbanização num prazo de 5 anos que terminava nos finais do ano seguinte, “…resolve, com a anuência superior, procurar um urbanista estrangeiro idóneo para, como “consultor”, guiar os estudos do plano geral da Cidade, a realizar nos seus Serviços Técnicos.” (Prof. A. de Almeida Garrett – História da Evolução dos Planos Gerais de Urbanização da Cidade do Porto – FEUP - Boletim n.º 14 Junho de 1974).

Numa Europa nas vésperas da guerra, a escolha recai naturalmente num técnico italiano, quer porque a Espanha está envolvida na Guerra Civil, porque o regime desconfia da França da Frente Popular, e ainda de uma Alemanha nazi cada vez mais radical e agressiva, quer, sobretudo, pelas semelhanças na estrutura corporativa dos dois regimes, e nas influências culturais, que incluem a arquitectura e o urbanismo.

Assim, a CMP envia a Roma o Engenheiro Chefe dos serviços encarregados do Plano, que “após informar-se” escolhe “…o Académico de Itália Prof. Marcello Piacentini, urbanista de grande prestígio, que disse ao enviado a Roma estar na disposição de aceitar o encargo.” (idem.). Assim o Presidente da Câmara oficializa o convite a 30 de Dezembro de 1938, a que Marcello Piacentini responde em Fevereiro de 1939, aceitando o convite, mas dados os seus afazeres que lhe não permitem deslocar-se ao Porto, propõe a vinda de dois dos seus colaboradores o arquitecto Giorgio Calza Bini e o engenheiro Vicenzo Civico.

Na reunião da Câmara Municipal de 9 de Março de 1939 o Presidente Dr. António Augusto Esteves Mendes Correia, a propósito do "Plano de Urbanização do Porto (…)informa a Câmara de que o notável arquitecto-urbanista italiano Marcello Piacentini aceitou a função de consultor-urbanista da Câmara para a elaboração do plano geral de urbanização da cidade. Dois seus colaboradores, o arquitecto Calza Bini e o Engenheiro Vicenzo Civico, iniciarão já os seus trabalhos no próximo mês.” (Acta da Reunião de 9 de Março de 1939).

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Mas quem é Marcello Piacentini, e quem são os seus colaboradores enviados ao Porto?

(…) membro ilustre da «Reale Accademia de Italia», é catedrático de «Urbanística» na Universidade de Roma desde a fundação desta cadeira em 1920, tendo sido o relator da comissão que elaborou o Plano de Urbanização da cidade de Roma actualmente em execução; e está-lhe hoje confiada a alta missão de dirigir os trabalhos de arquitectura, parques e jardins da Exposição Universal de Roma para 1942.” (Acta da Reunião Da Câmara de 9 de Março de 1939).

Marcello Piacentini é filho de um arquitecto Pio Piacentini. Em 1912 obtém o diploma de arquitecto na Escola de Engenheiros de Roma, embora já tenha realizado um razoável número de projectos e obras, como o Pavilhão de Itália na Exposição Universal de Bruxelas em 1910 e o plano para o centro de Bergamo em 1907/1911. Em 1912-28 projecta o palácio de justiça de Messina e entre 1915 e 1917 projecta o cinema Corso e a Villa Allegri em Roma. Em 1921 dirige com Gustavo Giovannoni (1873–1947) a revista “Archittetura e Arti Decorative” até 1928 quando esta passa a orgão oficial do Sindicato dos Arquitectos Fascistas. Em 1932, a revista passa a denominar-se apenas “Archittetura” e Piacentini reassume a sua direcção.

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O Académico de Itália Prof. Marcello Piacentini

Em Itália o regime fascista no seu início, apresenta uma política cultural que, pela influência do Futurismo do início do século 20, se quer moderna e de ruptura com o passado. São diversas as declarações de Mussolini até aos meados dos anos trinta nesse sentido:

“Noi dobbiamo creare un’arte dei nostri tempi, da porre accanto al patrimonio storico...un'arte fascista”. Mussolini 1931

(Nós devemos criar uma arte dos nossos tempos, colocando-a ao lado do património histórico…uma arte fascista.)

"Tengo a precisare in modo inequivocabile che io sono per l'architettura moderna... Sarebbe assurdo pensare che noi oggi non potessimo avere il nostro pensiero architettonico e assurdo il non volere un'architettura razionale e funzionale per il nostro tempo. Ogni epoca ha dato una sua architettura funzionale.

Anche i monumenti di Roma che noi oggi stiamo riscavando rispondevano a una loro funzione. Il Colosseo, un tondo, dei buchi e in mezzo l'arena per gli spettacoli". Mussolini 1934

(Devo precisar de uma forma inequívoca que eu sou pela arquitectura moderna…Seria absurdo pensar que hoje, nós não pudessemos ter o nosso pensamento arquitectónico e absurdo não querer uma arquitectura racional e funcional para o nosso tempo. Cada época criou a sua arquitectura funcional. Mesmo os monumentos de Roma, que hoje estamos recuperando correspondiam a uma função. O Coliseu uma forma rdonda, buracos e no meio a arena para os espectáculos.)

A questão das relações entre a arquitectura e a política, entre a modernidade e a identidade do fascismo, o que deve ser a Arquitectura e o Urbanismo Fascista, são fruto de um debate iniciado nos anos 30 e que em 38 parece ter sido ganho com uma solução de compromisso, encarnada precisamente por Marcello Piacentini (1881-1960), que se torna então, o arquitecto “oficial” do regime de Mussolini. Lembre-se que em 1938, com as polémicas em torno da Igreja de Nossa Senhora de Fátima de Lisboa, e do Concurso de Sagres e com a preparação da Exposição do Mundo Português, também o regime de Salazar termina a sua fase “moderna” de edifícios públicos.

Dos diversos trabalhos até então realizados por Marcello Piacentini, escolhemos três em que melhor podemos compreender a “filosofia” arquitectónica e urbanística do autor e da arquitectura italiana e a sua influência, nas propostas para o Porto (embora indirecta já que Piacentini nunca chegou a vir ao Porto).

A Praça da Vitória em Brescia 1929-1932

Em primeiro lugar a Piazza della Vittoria, uma das principais praças de Brescia, que projecta e constrói entre 1927 e 1932, demolindo uma parte do centro histórico medieval sendo um dos exemplos da arquitectura e do urbanismo da época fascista.

De facto foi realizado um concurso ganho por Piacentini com um projecto que previa a abertura de uma praça, que funcionava como centro da cidade e propunha uma reorganização da rede viária estruturada em dois eixos perpendiculares.

A realização da praça da Vitória não teve contemplações para alguns edifícios históricos como o matadouro do século XV, a capela de S. Ambrósio (de origem românica mas reconstruída no século XVIII) e as ruínas da curia ducis romana.

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Projecto inicial para a Piazza della Vittoria 1929-1932

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Plano para a praça da Vitória em Brescia

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Fotografia aérea de Brescia com as demolições previstas no plano de Piacentini 1929

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A Praça em construção

O projecto de Piacentini faz diversas referências à arquitectura romana origem da cidade de Brescia. A praça é rematada a norte pelo palazzo delle Poste (palácio dos Correios), com uma fachada revestida a ocre e branco.

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Num dos cantos a torre do Ina, Istituto Nazionale Assicurazione.

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Piazza della Vittoria – Palácio do Istituto Nazionale delle Assicurazione (Instituto Nacional de Seguros)

Completam a praça, a Torre della Rivoluzione (torre da Revolução) com um relógio e um baixo relevo representando Mussolini a cavalo (demolido), e três outros palácios, entre os quais o palazzo Peregallo (destruído por um bombardeamento durante a 2ª guerra).

Na praça uma escultura com nove metros de altura de Arturo Dazzi (1881-1966), em que um jovem despido, em mármore branco, representa a Era Fascista (removida após o final da guerra).

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Piazza della Vittoria – No primeiro plano a escultura de Arturo Dazzi e ao fundo o Palácio dos Correios

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Sob a Torre da Revolução, o púlpito em pedra avermelhada utilizado por Mussolini durante o discurso de inauguração da praça em 1932.No púlpito nove baixos relevos com episódios por ordem cronológica da história de Brescia: a Vitoria alada, que dá nome à praça e recorda as origens romanas da cidade; o Rei Desiderio, Arnaldo de Brescia, Berardo Maggi, S. Faustino e St. Giovita, os pintores Romanino e Moretto, as Dez jornadas de Brescia, a 1ª guerra mundial e finalmente a Era Fascista, com a inscrição "FASCISMO ANNO X" ( a praça foi inaugurada no décimo aniversário da marcha sobre Roma).

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No topo do púlpito um outro baixo relevo tendo ao centro a leoa, símbolo da cidade, ladeada pelas inscrições "BRIXIA FIDELIS FIDEI ET JVSTITIAE" e "BRESCIA LA FORTE BRESCIA LEONESSA D'ITALIA" recordando versos de 1877 do poeta Giosuè Carducci (1835-1907), primeiro italiano a receber em 1906 o Prémio Nobel de Literatura: “…Lieta del fato Brescia raccolsemi, / Brescia la forte, / Brescia la ferrea, / Brescia leonessa d'Italia / beverata nel sangue nemico”.

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Vista aérea da praça da Vitória em Brescia

A Cidade Universitária de Roma (1933-1935)

Mussolini impaciente por ver resolvida a questão da cidade universitária de Roma, a nova “Sapienza”, que se arrastava desde o século XIX, e desconfiado da morosidade e da eficácia dos concursos, encarrega directamente Marcello Piacentini de planear a Cidade Universitária de Roma, que, de facto é realizada em dois anos.

Piacentini elabora o plano geral baseando-se no assentamento romano prevendo dois eixos principais, na intersecção dos quais se abre uma praça (o Forum), com um portal de acesso e as dimensões da Praça Navona. A praça é rematada pelo edifício da Reitoria, de que se encarrega do projecto, e em frente da qual é colocada a escultura da deusa Minerva de Arturo Martini(1889-1947). O edifício da Reitoria terá influência nos projectos para as cidades universitárias de Lisboa e de Coimbra.

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Estudo da Minerva para a Cidade Universitária de Roma 1934 Galeria Nacional de Arte Moderna de Roma

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A deusa Minerva ergue a lança e o escudo num sinal de guerra. No seu braço direito enrola-se uma serpente, símbolo de Eritónio.

O interior do edifício é organizado em função da Aula Magna colocada no eixo principal e composto por elementos autónomos.

Para a Aula Magna Piacentini exigiu que o fresco da abside fosse realizado por Mario Sironi (1885-1961) pintor, escultor e arquitecto, que tinha em 1932 escrito um importante artigo sobre a recuperação do fresco e do mosaico, como modo de tornar públicas as realizações artísticas, que no caso da pintura não deveria estar confinada à fruição privada de um quadro de cavalete. Este artigo abre um debate sobre a relação e a integração das três artes, que terá repercussões também em Portugal, onde o regime irá introduzir nos edifícios públicos pinturas e esculturas, com uma temática mais ou menos histórica e/ou mais ou menos propagandística.

Para a Aula Magna da Reitoria Sironi, compõe um fresco intitulado “A Itália entre as Artes e as Ciências”, para o qual realiza uma série de cartões preparatórios.

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Mario Sironi: cartão preparatório do fresco “ L’Italia tra le arti e le scienze” na Aula Magna da Università La Sapienza em Roma

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Mario Sironi: A Geografia e o Império, desenho preparatório do fresco “ L’Italia tra le arti e le scienze” na Aula Magna da Università La Sapienza em Roma

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Mario Sironi: Astronomia cartão preparatório do fresco “ L’Italia tra le arti e le scienze” na Aula Magna da Università La Sapienza em Roma

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Mario Sironi: Vitória alada cartão preparatório do fresco “ L’Italia tra le arti e le scienze” na Aula Magna da Università La Sapienza em Roma

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Mario Sironi - Aula Magna Itália entre as Artes e as Ciências 1935 – estado actual

Toda a cidade Universitária seria limitada por um muro, que garantiria a necessária tranquilidade do recinto, isolando-a ao mesmo tempo, dos vizinhos bairros populares de São Lourenço. Piacentini, para projectar os diversos edifícios universitários - quer pela pressão de Mussolini de rapidamente realizar a obra, quer pela coerência com a sua posição de compromisso - vais escolher um conjunto de jovens arquitectos que como ele procuram uma arquitectura que conjuga a modernidade com a tradição clássica e vai excluir os que praticam uma arquitectura radicalmente moderna (leia-se os que de uma forma ou de outra estiveram ligados ao Grupo 7).

Assim a praça central, para além do edifício da Reitoria, é conformada pelos edifícios da Matemática de que se encarrega Giò Ponti (1891-1979) e da Geologia e Mineralogia com um projecto de Giovanni Michelucci (1891-1990).

Giò Ponti Instituto de Matemática

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O edifício de Ponti possui um pátio semicircular.

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Na fachada principal, simplificada até à abstracção, apenas a porta principal é tratada de forma a conferir monumentalidade e significado ao edifício.

Giovanni Michelucci (1891 1990) Instituto de Fisiologia Geral

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O edifício abre-se num pátio central rectangular e como alberga dois cursos possui duas entradas e dois corpos. Esta simetria é alterada pela colocação da Aula Magna numa das alas do conjunto. O elemento mais característico e inovador é a fachada principal revestida a travertino. Nas extremidade abrem-se grandes vãos em toda a altura onde estão colocados os acessos.

Outros edifícios da Cidade Universitária

Para os outros edifícios, Piacentini escreve uma espécie de Regulamento das edificações em que propõe uma arquitectura reduzida aos elementos essenciais com poucas variantes , uma fenestração rectangular e regular, materiais como o tijolo e o travertino, procurando dar unidade ao conjunto.

O Instituto de Física é projectado por Giuseppe Pagano (1896-1945), na altura director da revista Casa Bella. Pagano projecta um edifício com uma organização volumétrica baseada na justaposição e encastramento de volumes os quais geram pátios. A entrada é colocada numa posição tangencial sublinhando a lógica da distribuição interna. Não existe qualquer referência a elementos clássicos ou a conotações de monumentalidade.

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Maquete do Instituto de Física

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O instituto de Química é projectado por Pietro Aschieri (1889 –1952).

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A Sede da Milícia por Gaetano Minnucci (1896 – ?)

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Giuseppe Capponi (1896-1980) Instituto de Botânica e Química Farmacêutica

E Giuseppe Capponi (1896-1980) projecta o Instituto de Botânica e Química Farmacêutica, sem dúvida o mais interessante dos edifícios. Completamente diferente do conjunto, tem uma planta em U, ligeiramente curvo e no centro o núcleo de acesso e a distribuição vertical. A escada assume um papel determinante na articulação volumétrica constituindo um elemento vertical no centro da fachada onde se encontram os dois braços de acentuada horizontalidade sublinhada pelas rasgada fenestração.

O uso do vidro, mostrando no exterior a funcionalidade do interior, o uso de uma linguagem moderna, a estrutura, faz deste edifício o mais avançado da Cidade Universitária.

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Apesar de linguagens totalmente diversas, há na concepção dos dois edifícios algumas analogias formais.

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Trabalham ainda na CU de Roma os arquitectos Gaetano Rapisaldi, Saverio Muratori, Francesco Fariello e Giorgio Calza Bini. Este será um dos arquitectos que Piacentini envia ao Porto.

A Via da Conciliação em Roma

No seguimento do Pacto assinado em 1929, entre o Estado Italiano e a Santa Sé, é considerada a ideia de criar uma via, a Via da Conciliação, que enquadrando a Basílica de S. Pedro, ligasse o Estado do Vaticano com Roma. O projecto foi entregue a Marcello Piacentini e Attilio Spaccarelli e iniciou-se a abertura em 1936 com a demolição do quarteirão chamado de "Spina di Borgo" A sua concretização arrastou-se contudo até 1950 data em que foi oficialmente inaugurada.

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1º versão

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Versão final

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Maqueta da Via da Conciliação

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Em 1937

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Via da Conciliazione antes de 1937 e depois de 1950

Os colaboradores que vieram ao Porto

Estando de facto ocupado, entre outros projectos, a projectar e a supervisionar a Exposição Universal de Roma (EUR42) prevista para 1942, (mas de que apenas se realizaram alguns edifícios, já que foi suspensa devido à 2ª guerra mundial), Piacentini nunca veio ao Porto, tendo enviado dois dos seus colaboradores o arquitecto Giorgio Calza Bini e Vincenzo Civico

“…O jovem arquitecto Calza Bini, assistente de Piacentini na cadeira de «Urbanística» e seu colaborador directo no projecto e construção de alguns dos edifícios da Cidade Universitária de Roma, tem o seu nome já ligado também a outras interessantes obras arquitectónicas, como a Estação de camionagens de Génova, o Palácio corporativo da Provinda de Cosenza e modernos quarteirões de habitações colectivas de Roma, assim como o Plano de Urbanização de Savona, Aprillia e outras cidades. E ao considerado engenheiro Vicenzo Civico, Secretário Geral do «Istituto Nazionale di Urbanística» e da «Reggensa Nazionale Gruppi Urbanistici», deve também já a Itália realizações notáveis como, entre outras, o plano de urbanização de Rimini e estudos dos projectos para Catania, Sassulo, Pordenone, etc. São estas as individualidades de relevo, de cujo conselho muito tem a esperar a cidade do Porto na elaboração do seu Plano de Urbanização." (Intervenção do Presidente da Câmara - Acta da reunião da CMP de 9 de Março 1939)

Giorgio Calza Bini (1908 - 1998)

Giorgio Calza Bini é filho de Alberto Calza Bini (1881- 1957), nos anos trinta o arquitecto que com Piacentini, maior peso político tem na Itália fascista, já que era o Secretário do Sindicato Nacional Fascista dos Arquitectos (desde a sua fundação em 1923 até 1936), que em 1926 obtém mesmo a supressão da Ordem dos Arquitectos e Engenheiros. Em Portugal também a associação de classe dos arquitectos tomará o nome de Sindicato dos Arquitectos.

Diplomado em 1933 pela Faculdade de Arquitectura de Roma torna-se em 1934 assistente, sendo a partir de 1937 assistente de Piacentini na cadeira de Urbanística.

Entre 1934 e 1936, realiza diversos projectos, de evidente modernidade, entre os quais as estações da auto estrada de Génova - Serralve Scrivia, o Concurso para a Casa do Estudante na C. Universitária de Roma 1933 e Edifício das Corporações em Cosenza 1936.

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Estações da auto-estrada Genova‑Serravalle

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G. Calza Bini , S. Muratori, F. Fariello – Concurso para a Casa do Estudante na C. Universitária de Roma 1933

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Projecto para o edifício das Corporações em Cosenza 1936

O Plano de Guidonia

Como urbanista Giorgio Calza Bini consolida a sua experiência na elaboração do Plano para a nova Cidade Aeronáutica de Guidonia (nome atribuído pelo próprio Duce em homenagem ao general e engenheiro Alessandro Guidoni fundador do Corpo del Genio Aeronautico, uma espécie de centro de investigação aeronáutica), junto ao aeroporto militar Alfredo Barbieri.

O Plano Regulador de Guidonia , elaborado por Calza Bini, contou ainda com a colaboração de Gino Cancellotti (1896-1987) e do engenheiro Giuseppe Nicolasi.

O plano de Guidonia enquadra-se no planeamento de novas cidades, fundadas nos anos trinta por Mussolini como Sabaudia (a mais conhecida), Aprilia, Littoria e Carbonia.

Em Outubro de 1937 a cidade é inaugurada por Mussolini que afirma: “Esta cidade apresenta-se com o aspecto típico da arquitectura fascista; sólida, alegre e moderna, digna do nosso tempo. Faço aqui um vivíssimo elogio ao camarada Calza Bini que projectou e realizou a cidade, aos seus colaboradores mais próximos e aos outros e a todos os que participaram na sua construção.”

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vista aérea de Guidonia

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Centro Cívico de Guidonia

No Centro Cívico Calza Bini projecta o Palazzo degli Uffici e a Torre Littoria, enquanto Giuseppe Nicolasai projecta o Palazzo del Comune e o edifício destinado a habitação e comércio no Centro.

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Calza Bini projecta um edifício assente em pilotis ligado por uma passagem elevada ao volume da torre, numa solução que tira partido do contraste horizontal/vertical e claro/escuro dos dois corpos.

Calza Bini projecta ainda a Igreja paroquial de Guidonia.

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Vicenzo Civico, o engenheiro que acompanha na sua visita ao Porto Calza Bini, é um especialista em transportes e arruamentos, que colaborava com Marcello Piacentini na revisão do Plano de Roma e com diversos artigos publicados sobre planeamento e transportes, como Progressi dell'urbanistica italiana: dai piani regionali ai piani territoriali, L'Ingegnere, aprile 1939 e L'urbanistica come problema nazionale, Critica Fascista, marzo 1942 e “Distribuire il lavoro per distribuire la popolazione” idem, maggio 1942

Vincenzo Civico, é Secretário Geral do «Istituto Nazionale di Urbanística» e da «Reggensa Nazionale Gruppi Urbanistici” e responsável em 1939 pelo Esquema das Grandes Comunicações Viárias do Plano Regulador de Roma.

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Os colaboradores de Marcello Piacentini no Porto

Escolhido o arquitecto Piacentini, e dada a impossibilidade de este se deslocar ao Porto, envia os seus dois colaboradores.

Segundo A. Almeida Garrett (op.cit.), Calza Bini e Vivenzo Civico chegam ao Porto em 29 de Março de 1939, onde se demoraram dez dias, sendo que “(…) Durante a sua permanência de­senvolveram uma actividade para conhecimento cabal da cidade e região inte­ressada, e realizaram trabalhos de concepção e de efectivação em anteprojecto como Plano-base preliminar, que eu reputo absolutamente notáveis e de que V.Ex.ª pode tomar conhecimento.” (Carta do Director do Serviço de Obras e Urbanização ao Presidente da Câmara de 6 de Maio de 1939).

A Câmara possuía dois documentos que podem ter ajudado os técnicos italianos a melhor conhecer a cidade: o levantamento efectuado em 1937 (sem o rigor da “velha” planta de 1892) e a Nova Monografia do Porto, publicada em 1938, e dirigida por Carlos Bastos mas onde colaboram diversos autores, de que se destaca o prof. Mendes Correia que na altura presidente da Câmara.

A estrutura da Cidade do Porto nas décadas de 30 e de 40, desenvolve-se no sentido Sul - Norte, com os atravessamentos do Douro concentrados nas duas pontes existentes, com uma forte centralização na Baixa, e daí irradiando um conjunto de arruamentos, correspondentes à malha tradicional do Porto (portas da muralha), ao longo dos quais se irão concentrando novas edificações.

Calza Bini e Cívico cartografam essa estrutura das vias num primeiro Esquema da Rede de Comunicações, destacando a Sul a saída para Lisboa pela ponte Luís I; para poente a ligação com Matosinhos (Leixões) pela Avenida da Boavista e pela Marginal; para Norte as saídas: para Viana pelo Monte dos Burgos; Braga pelo Amial; Guimarães por Costa Cabral; Penafiel por S. Roque da Lameira; e para Gondomar pelo Freixo.

(Nota – apresentam-se os esquemas de A. Almeida Garrett in História da Evolução dos Planos Gerais de Urbanização do Porto,e, para melhor compreensão os esquemas coloridos da Dissertação de Maria Alexandra Martins Soares de Amorim – A Cidade Planeada – 1930/1980: Permanências /Inovações no Processo e Forma Urbanos – Faup/Feup1998.)

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Esquema da rede de comunicações existente da cidade do Porto, 1939

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Esquema da rede de comunicações existente da cidade do Porto, 1939

Bini e Civico elaboram então um 1º Esquema da futura rede de comunicações, datado de Maio 1939, que procura responder às necessidades da cidade na sua articulação com o território e às necessidades de circulação interna.

1. Sul/Norte

Os técnicos italianos, traçam um novo eixo Sul-Norte retomando a ideia de um novo atravessamento do Douro, a ponte da Arrábida, até à Estrada da Circunvalação prosseguindo para Viana. Do mesmo modo, procuram articular a ponte Luís I e o Centro da cidade com a rotunda da Boavista, onde é prolongada a Avenida da França até à Circunvalação, seguindo para Braga. A norte da Estrada da Circun­valação, eram estabelecidas ligações entre estas duas vias permitindo seguir para qualquer das duas direcções.

Da ponte Luís I propõe ainda para nascente uma via que a partir da estação de Campanhã seguia para norte, paralela à linha férrea, até à Circunvalação, bifurcando de seguida nas direcções de Guimarães e de Penafiel.

2. Este/Oeste:

Para resolver um dos principais problemas da cidade, a articulação rodoviária com o porto de Leixões, propunham o prolongamento da rua da Constituição até francos, junto da Avenida Antunes Guimarães, onde flectia para noroeste até Leixões.

Propunham ainda o prolongamento da Avenida da Boavista na direcção nascente até à rua Pinto Bessa e à estação de Campanhã.

Finalmente, propunham um novo eixo este-oeste, desde a Avenida Marechal Gomes da Costa, seguindo para este, pelo Campo Alegre até à Praça da Galiza; aí, em alternativa seguia até à Praça do Município e à Estação de Campanhã; ou pela Rua Júlio Dinis, até ao Palácio de Cristal e, ao longo da Rua de D. Ma­nuel II, Rua Afonso Aires de Gouveia, Rua da Restaura­ção, Campo dos Mártires da Pátria, Lóios, Praça Almei­da Garrett, ligação à Ponte de D. Luís retomando a ideia de uma nova avenida (a Avenida da Ponte). É apontada a localização do Hospital Escolar e esboçados os seus acessos.

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Esquema da futura rede de comunicações, Maio 1939

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Esquema da futura rede de comunicações, Maio 1939

O esquema viário proposto pelos colaboradores de Piacentini, é regular, simples e funcional, multiplicando e racionalizando, quer as ligações Norte/Sul quer as ligações Poente/Nascente. Contudo a execução desta proposta implicaria um enorme número de expropriações, numa cidade em que a propriedade era muito dividida e por outro lado algumas destas vias esbarrariam em condicionantes topográficas que as onerariam de uma forma significativa.

No entanto a partir deste esquema é formulada uma proposta abrangendo o território da cidade a norte e a sul, em que é apontada a ligação destas vias urbanas com a rede de estradas nacionais: EN 13 para Viana, EN 14 para Braga, EN 105 para Guimarães, EN 15 para Penafiel e EN 1 para Lisboa.

De notar o ramal da estrada Arrábida/EN 1, em direcção ao aeródromo de Espinho.

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Futura rede das grandes comunicações por estrada Maio 1939

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Futura rede das grandes comunicações por estrada Maio 1939

Em Maio de 1939, os dois técnicos regressam a Itália como comunica à Câmara o Presidente:

“Já é do conhecimento de Vas Exas que os urbanistas italianos Srs. G. Calza Bini e V. Civico estiveram nesta cidade recolhendo os primeiros elementos para o estudo do plano geral de urbanização que se espera esteja concluído, sob a direcção do Prof. Marcello Piacentini, antes do fim do ano. Este professor conta vir ao Porto no próximo mês de Julho, voltando também aqui, mais do que uma vez, os referidos Sr.s Calza Bini e Civico. " (Acta da Reunião da CMP em 11 de Maio de 1939).

Em Julho de 1939, Piacentini envia ao Porto um outro seu colaborador, o arquitecto Augusto Baccin, (1914-1998), um jovem arquitecto autor de diversos estudos sobre arqueologia e urbanismo, na altura colaborando no projecto da Via Imperial e no projecto do Palácio de Exposições da EUR em Roma. Baccin que se demora no Porto entre 7 de Julho e 17 de Agosto, é portador de um conjunto de desenhos entre esses os quais um 1º esquema da Rede de Comunicações, com uma nova versão do esquema de Bini e Cívico.

Mantém-se o eixo sul/norte pela ponte da Arrábida, agora apontando como direcção o Aeroporto (não localizado).

Prolonga-se para sul até à marginal, a outra via norte/sul que atravessa a rotunda da Boavista.

É criada uma nova via em direcção a Braga, a partir da praça Carlos Alberto, retomando a antiga ideia de Cunha Morais e Ezequiel de Campos. Esta avenida, partindo de Carlos Alberto para norte, manter-se-á nos planos dos anos 40.

A avenida Fernão de Magalhães é prolongada até encontrar a rua de Costa Cabral, junto ao Hospital do Conde de Ferreira.

Mantém-se a via para Penafiel acompanhando a linha do caminho de Ferro, bem como o prolongamento da rua da Constituição para poente, estabelecendo a ligação com Leixões, e para nascente até à Circunvalação no Freixo.

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1º esquema de Rede de Comunicações Julho 1939 (arq. Baccin)

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Durante a sua permanência na cidade o arquitecto Augusto Baccin com os técnicos do Gabinete de Urbanização da CMP, elaboram um esquema das vias fisicamente possíveis, que foi então enviado para o gabinete de Piacentini.

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Gabinete CMP - Estudo das vias fisicamente possíveis, Julho de 1939

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Neste esquema introduzem-se algumas variantes e correcções ao traçado de algumas vias adaptando-as à morfologia da cidade, propõe-se ainda o prolongamento da Rua da Alegria até à Circunvalação como acesso ao Hospital Escolar, e propõe-se que o prolongamento da Avenida da Boavista para nascente até à Rua de Pinto Bessa seja efectuado em túnel.

Em Agosto de 39, Piacentini entrega em Roma ao delegado da Câmara um 2º Estudo e último estudo para o Plano de Urbanização da cidade.

Neste estudo apresenta-se um conjunto, algo excessivo, de acessos ao Hospital Escolar, não se considera o prolongamento até à Circunvalação da avenida Fernão de Magalhães, que a Câmara já decidira

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Segundo e último estudo trazido de Itália, Agosto 1939

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O segundo e último esquema proposto por Marcello Piacentini, já não procura uma malha tão formal, permitindo alguma organicidade nos eixos. É evidenciada a importância da zona ocidental, como zona de expansão residencial, com bairros de vivendas em Gomes da Costa, Lordelo e ladeando a Avenida da Boavista. São propostos os Bairros de Casas Económicas em Ramalde, Amial, Paranhos e Campanhã.

São propostos um Estádio e um Hipódromo na zona do Castelo do Queijo.

Comparando as propostas de Piacentini e a contraproposta da CMP, surge clara a evidência dos pequenos acertos feitos em algumas direcções dos eixos propostos pelo arquitecto italiano, como já referido anteriormente. Estabelecendo uma relação com a resposta da CMP, o arquitecto não estabelece nenhuma correcção particular, evoluindo no sentido de completar áreas não visadas anteriormente, acatando parte das sugestões da equipa do gabinete camarário, sobretudo relativamente às saídas da cidade.

Finalmente comparando as duas propostas de Marcello Piacentini, observa-se uma evolução na condução dos planos, primeiro numa esfera mais interna, na resolução de problemas de circulação e ligações deficientes da cidade, e no segundo uma visão relativa à aproximação territorial , dando mais ênfase ao desenho das saídas norte da cidade.

As propostas de Piacentini para o Centro

Em Novembro de 1939 Piacentini faz chegar ao Porto um conjunto de 25 desenhos “…relacionados com o Plano da Cidade, de que, infelizmente só uma parte foi encontrada na Câmara.” (A.A. Garrett, op.cit.).

Esses desenhos referem-se, na sua maior parte, a estudos para a área central e em particular para a ligação entre a ponte Luís I e a Praça da Liberdade, ou seja a Avenida da Ponte.

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Alguns aspectos da Área Central do Porto na década de 30

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Foto Beleza área central c. 1930

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Foto Beleza

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Na área central. ao longo da década de 30, prossegue a edificação da Avenida dos Aliados.

Os edifícios públicos

No topo norte da Avenida prossegue a construção dos Paços do Concelho, necessitando a Câmara de um projecto de organização da praça do Município e da implantação do palácio dos Correios.

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Foto Beleza área central c. 1930 detalhe da praça do Município

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Foto Beleza Paços do Concelho Arq. Correia da Silva

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Foto Alvão

As instituições Bancárias

Na Praça da Liberdade termina em 1933 a construção do Banco de Portugal.

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Foto Beleza / Mário Ferreira detalhe Banco de Portugal – Arq. Miguel Ventura Terra

No lado nascente da Avenida conclui-se em 1931 a Filial da Caixa Geral de Depósitos.

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Caixa Geral de Depósitos Arq. Pardal Monteiro

A norte da praça da Trindade constrói-se a estação terminal da Linha da Póvoa prolongada em 1938 desde a Boavista ao centro da cidade.

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A Estação da Trindade (demolida em 2002)

A nascente desta conclui-se o novo Mercado do Bolhão.

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Mercado do Bolhão – Arq. Correia da Silva

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O Mercado do Bolhão numa foto dos anos 30 da casa Beleza

Projectados ainda na República ou na Ditadura completam-se alguns edifícios Universitários, e constrói-se na zona do Carmo entre 1928 e 1933 o novo edifício da Faculdade de Medicina. O projecto de Rogério de Azevedo (1898-1983) e Baltazar de Castro, que a vizinhança do Hospital de Santo António, e a “dignidade” que se pretende atribuir a um edifício universitário, conduz à utilização de uma linguagem de um neo classicismo simplificado.

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No plano simbólico e monumental, procura-se a valorização dos edifícios históricos existentes (segundo os critérios da época) e erguem-se algumas esculturas.

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A "Juventude" conhecida pela "Menina Nua" 1930 Escultura em mármore de Henrique Moreira Pedestal Manuel Marques

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"Os meninos" 1932 escultura em bronze dourado de Henrique Moreira

A iniciativa privada

Mas o que marca definitivamente, a Cidade e a sua Arquitectura neste período entre as duas Guerras é o desenho de estabelecimentos comerciais e a edificação, pela iniciativa privada, de um conjunto de edifícios no centro da Cidade, destinados a habitação, a actividades comerciais e a serviços, aproveitando os terrenos expropriados pela CMP para a abertura da Avenida e ruas adjacentes e posteriormente vendidos em hasta pública.

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Farmácia Vitália 1933 Arq. Manuel Marques (1890/1956)

Assim constroem-se um conjunto de edifícios de equipamento cultural (teatros, cinemas, sedes de jornais), económico e financeiro (sedes de bancos, companhias de seguros e empresas). Constroem-se as primeiras Garagens. Concentram-se neste centro os principais estabelecimentos comerciais, os cafés e as confeitarias, e os escritórios dos profissionais liberais (médicos, advogados, engenheiros, arquitectos, etc.).

Nos anos trinta uma arquitectura Beaux Arts, que alguns arquitectos ainda utilizam e de que Marques da Silva é o principal protagonista,vai sendo progressivamente substituída por uma arquitectura moderna muito mais racional, mais despojada de ornamentação e tirando partido de uma maior dimensão dos lotes, das possibilidades estruturais e de novos programas.

O exemplo mais significativo desta evolução da concepção e da linguagem arquitectónica, é o conjunto dos dois edifícios projectados por Rogério de Azevedo para o jornal “O Comércio do Porto”.

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foto in Guia da Arquitectura Moderna - Porto 1901/2001. Porto: Civilização/ Ordem dos Arquitectos, 2001, Ficha n° 6.

O edifício e a Garagem do jornal “O Comércio do Porto” 1930

Na Avenida dos Aliados, Rogério de Azevedo (1898/1983), projecta o edifício - sede do jornal e a Garagem de O Comércio do Porto. Rogério de Azevedo nestes anos, também projecta para o mesmo cliente uma preciosa Creche na avenida Fernão de Magalhães,

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Creche de O Comércio do Porto na Av. Fernão de Magalhães in Adriana Gravato op. cit.

Em 1929 é aprovada a abertura da Rua de Elísio de Melo, uma das radiais da Avenida dos Aliados, que tinha sido proposta nos estudos de Barry Parker, como a Rua Passos Manuel prolongada. No lado norte, fazendo gaveto com a avenida é construída a sede do jornal O Comércio do Porto que vem juntar-se à sede do “ Jornal de Notícias” construído no outro lado da Avenida dos Aliados, tendo como resultado que dois dos jornais de maior tiragem e influência na cidade e na região, e numa altura em que os jornais são elaborados durante a noite, vem acrescentar à área central motivos de animação.

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Desenho de Rogério de Azevedo para a sede do jornal

As Garagens

A década de 30 pode ser caracterizada como os anos da Rádio, do Cinema e do Automóvel. Por isso os edifícios dedicados a estas duas últimas funcionalidades, pelo seu programa inovador irão permitir o aparecimento de novas organizações internas, de novas concepções estruturais e de uma nova linguagem arquitectónica.

A Garagem de O Comércio do Porto

“…Sobre construções de «garages» muitas se têm feito por esse país fora, sem contudo obedecerem a um princípio, que deveria ser inalterável - não deixarem amarfanhar o sentido artístico pelo unicamente utilitário. A feição moderna de «garage» que nada tem de comum com a antiga cocheira, deve ser o espelho da juventude do motor de explosão, tendo dum lado o utilitarismo prático do edifício e do outro a amplidão das instalações donde possa resultar o máximo rendimento, pois que enquanto a cocheira abrigava os carros dum, a «garage» abriga os carros de muitos.” Rogério de Azevedo Memória Descritiva (em Adriana Gravato op. cit)

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A Garagem pela sua concepção interna, tirando todo o partido de uma estrutura arrojada, e da implantação em gaveto, numa arquitectura sem quaisquer concessões decorativas, é uma obra que se pode considerar como de valor ímpar no panorama da nossa arquitectura e (mesmo) da arquitectura europeia.

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Do lado sul da rua Elíseo de Melo, aberta até à rua do Almada, vão construir-se três outros edifícios: o edifício do gaveto com a Avenida dos Aliados, projectado por Miguel Ângelo Soa, onde se instala o café Guarany também de Rogério de Azevedo e inaugurado em 1933;o edifício projectado por José Emílio da Silva Moreira

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Fotos Beleza/Mário Ferreira

A Nascente da Avenida dos Aliados abre-se, no enfiamento de Passos Manuel, a rua Magalhães Lemos projectada em 1924.

A fachada sul, é ocupada pelo edifício do Montepio Geral, na esquina com a Avenida dos Aliados e por um conjunto de edifícios até à rua do Bonjardim, destacando-se o edifício construído em 1932 e projectado pelo arquitecto José Ferreira Penedos.

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José Ferreira Peneda 1932 foto José Manuel Rodrigues - in Catálogo da exposição “ formar a modernidade,” faup 2001

O lado norte é ocupado pela Caixa Geral de Depósitos e pelo Teatro Rivoli projectado e construído entre 1925 e 1932pelo arq.e eng. Júlio José de Brito(1896/1965).

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Foto Beleza área central c. 1930 detalhe à direita vê-se com uma cor mais clara a fachada norte da rua Magalhães Lemos

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Foto Alvão

O Teatro Rivoli de 1931, projectado por Júlio de Brito já que a sua construção irá influenciar toda a zona adjacente da Avenida dos Aliados, provocando nos finais dos anos 40 a realização da Praça D. João I. Sucessor de o “Nacional”, cujo espaço parcialmente ocupou, inaugurou-se a 20 de Janeiro de 1932 e é, ainda hoje, o Cine-Teatro mais central da cidade.

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Desenho do arquivo da FAUP

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Em 1940 efectuaram-se obras requeridas pelo autor do projecto, que visavam sobretudo uma alteração do exterior - pretendia-se concretamente, elevar a platibanda e a fachada na esquina da casa, “para poder elevar um baixo-relevo decorativo, da autoria de Henrique Moreira -, pois nessa altura a Praça D. João I estava a tomar forma e várias casas tinham já sido demolidas”.

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Fotos Beleza / Mário Ferreira

Com a criação da praça do Teatro, ficavam à vista para quem descia a Rua Passos Manuel, “ as coberturas das diferentes partes do teatro, um efeito que desagrada” justificava o arquitecto.

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Na rua Passos Manuel do lado norte do troço desde a rua de Santa Catarina até à praça dos Poveiros o cinema Olympia projectado em 1912 pelo arquitecto João Queiroz (1892-1982) comunicando com o Café Magestic aberto em 1921 e com um projecto do mesmo arquitecto.

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foto Beleza

O Coliseu 1938/41 arquitecto Cassiano Branco

No terreno onde se encontrava o Jardim Passos Manuel será projectado a partir de 1937, e finalmente concluído em 1941 o Coliseu do Porto.

Inicialmente é o arquitecto José Porto que realiza um estudo para a nova sala de espectáculos. Segue-se o holandês Jan Wils, um arquitecto ligado ao movimento Der Stijl, com um projecto moderno e finalmente o projecto definitivo será entregue a Cassiano Branco. (Sobre Jan Wils ver Boris Gomes, Jan Wils - O Moderno na Holanda e em Portugal, prova final para Licenciatura em Arquitectura FAUP 2007).

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José Porto Ante projecto do Coliseu do Porto 1937

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Jan Wils 1891-1972 Projecto para o Coliseu do Porto 1938 in Boris Gomes, Jan Wils - O Moderno na Holanda e em Portugal 2007

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O projecto de Cassiano Branco (1897/1970), procurava um sentido publicitário expresso pelo próprio autor: ” ...o seu aspecto inteiramente moderno deve exprimir um espectáculo permanente de formas, de luz e de publicidade”.

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No entanto desavenças entre o arquitecto Cassiano Branco e a Comanhia de seguros proprietária da obra levaram a que o edifício tenha sido concluído pelos arquitectos Mário Abreu e Júlio Brito.

“O Coliseu abriu as suas portas. Ambiente artístico- de grande elegância. Casacas, smokings, robes de noite, fardas, condecorações. As ruas próximas - Passos Manuel, Formosa e Fernandes Tomás - pejada de automóveis.” Jornal de Notícias 1941

No lado sul e na esquina com a rua de Santa Catarina constrói-se a Casa Inglesa (1929) com um projecto do arquitecto Oliveira Ferreira (1884 -1957).

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Foto Alvão in Fotografia Alvão Clichés do Porto 1902-2002 ed. Casa Alvão Porto 2002

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Oliveira Ferreira Edifício da Casa Inglesa – 1929 e capa da partitura da canção Espera-me na Casa Inglesa one step marcha música de Júlio Pontes

Mais acima é inaugurada em 1939 a Garagem Passos Manuel com projecto do arquitecto Mário de Abreu (1908-?)

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Desenho de Mário de Abreu arquivo Faup

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Artigo no “O Comércio do Porto” sobre a inauguração, no dia 18 de Março de 1939

Os Cafés

Ao Café Magestic de João Queiroz (1921) vem juntar-se no centro, e na Avenida o Café Sport de Rogério de Azevedo e Baltazar de Castro (1929), o Café Monumental de João Queiroz (1930) e na rua Sá da BandeiraA Brasileira de Oliveira Ferreira (remodelado em 1930).

A Brasileira 1915/1930 Arq. Oliveira Ferreira (1884 -1957)

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Na rua dos Clérigos surge em 1933 o Instituto Pasteur no Porto um projecto do arquitecto Keil do Amaral (1911-1975). Obra inserida numa fachada corrida onde a utilização de elementos modernos não irá ter impacto nem continuidade.

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Foto Mário Novais - BAFCG

A edificação das ruas da área central ao longo dos anos 30/40. Alguns exemplos.

Seguindo o plano de Barry Parker a Câmara abre as ruas Rodrigues Sampaio a nascente e Ramalho Ortigão a poente, que irão provocar respectivamente, as praças de D. João I e D. Filipa de Lencastre. Em 1934 a Câmara aprova o projecto para o prolongamento das radiais do plano Barry Parker.

"O prolongamento das ruas de Ramalho Ortigão e de Elísio de Melo, radiais da Avenida dos Aliados, completa, para o lado poente, as vias de comunicação e acesso à parte central da cidade. A sua construção impõe-se, assim como a das radiais simétricas, ruas de Passos Manuel e de Rodrigues Sampaio, atendendo às necessidades do movimento. As condições impostas ao traçado e construção das radiais dos lados nascente e poente, são as mesmas. Assim, como sucede no lado nascente, o espaço triangular compreendido entre os prolongamentos das ruas de Ramalho Ortigão e de Elísio de Melo, não será edificado, como previa o inglês Parker, quando em 1915 estudou a urbanização do centro da Cidade, mas livre, formando uma pequena praça. O movimento da Cidade tem crescido continuamente e necessário se torna prever e estabelecer, desde já, artérias e espaço livres, que permitam resolver o problema do trânsito, hoje posta de maneira a apresentar sérias dificuldades. Só o alargamento da parte central da cidade permitirá a sua solução, não podendo a Câmara do Porto exorbitar na despeza a fazer, atentas as vantagens que daí advirão. (…)O prolongamento das radiais da Avenida dos Aliados, tanto de lado nascente como de lado poente, bem como prolongamento da rua de Sá da Bandeira até à rua de Gonçalo Cristóvão, constituem um conjunto de melhoramentos citadinos de urgência indispensável e cuja oportunidade sob o ponto de vista económico, se apresenta talvez única, devido à actual crise dos preços e portanto ao relativamente pequeno custo dos prédios. Memória Descritiva do projecto de prolongamento das ruas de Ramalho Ortigão e de Elíseo de Melo. Aprovado em 25 de Outubro de 1934 Presidente - Artur de Magalhães (in Adriana Gravato op. cit.)

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Na foto que segue podemos observar a abertura da rua Rodrigues Sampaio até à rua do Bonjardim, estando já construída a Sede da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras.

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Foto Beleza área central c. 1930 detalhe da Rua Rodrigues Sampaio

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A rua de Sá da Bandeira

Com a construção do Mercado do Bolhão, a rua Sá da Bandeira, bem como as suas transversais, vai sendo edificada por um conjunto de edifícios de dimensões razoáveis para escala da cidade, destinados a comércio, escritórios e habitação.

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Arquitecto Arthur Almeida Júnior

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Arthur Almeida Júnior edifício Emporium 1939

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Arquitecto José Ferreira Peneda 1937/39 foto José Manuel Rodrigues - in formar a modernidade – faup 2001

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Arquitecto José Porto 1939 foto José Manuel Rodrigues - in formar a modernidade – faup 2001

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Arquitecto Homero Dias

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Arquitecto José Júlio de Brito 1936

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Arquitecto Almeida Júnior edifício Singer 1939

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Arquitecto Manuel da Silva Passos Júnior 1942/43

Rua Firmeza

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Arquitecto Rogério de Azevedo - foto Adriana Gravato- op.cit.

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Arquitecto José Ferreira Peneda

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Arquitecto Manuel Marques

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Ruas Santa Catarina / Fernandes Tomaz

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Foto Alvão

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Arquitecto Homero Ferreira Dias - Edifício Santa Catarina / Fernandes Tomaz 1942

Rua Fernandes Tomaz

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ARS 1938 fotos p/b José Manuel Rodrigues - in formar a modernidade – faup 2001

Rua Gonçalo Cristóvão

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1935 Arquitectos A. Losa e Aucíndio Santos

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Foto José Manuel Rodrigues in formar a modernidade – faup 2001

Apesar desta actividade da Câmara e dos privados em 1939 ainda havia quem se queixasse da morosidade das obras como o vereador Dr. Ferreira Loureiro:

[...]"Em segundo lugar Sr. Presidente desejo deixar aqui bem patente o meu desgosto posso mesmo a minha profunda tristeza, por continuar a ver paradas as obras de urbanização no prolongamento da Rua Passos Manuel e na parte norte da Rua Sá da Bandeira. O aspecto que a cidade apresenta neste centro da cidade, pode V. a Exª estar certo de que faz corar de vergonha todo o portuense que o é de coração, mesmo que como eu o não seja de berço. E muito se desprestigia esta Câmara com tão vergonhoso espectáculo que indecorosamente se vem arrastando há já longos meses. Enquanto me não convencer com argumentos irrespondíveis que não é possível agir doutra maneira, eu reprovo abertamente o processo que se vem seguindo nas expropriações para novos arruamentos, procedendo-se a demolições aqui e além deixando de permeio prédios de pé a ostentarem, por vezes, num impudor repugnante, os seus interiores para vergonha de todos nós perante quem nos visite. Porque é que não se iniciam as demolições de um bloco de casas só depois de resolvidos todos os pleitos judiciais que surgem sempre em questões de expropriações? Muito folgaria que me provassem que é inexequível este meu ponto de vista porque nenhum prazer posso sentir em laborar num erro que possa ser consequência da minha natural ignorância em assunto de engenharia e jurisprudência.” Acta da Reunião de 13 de Julho de 1939 (in Adriana Gravato op.cit)

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As propostas para o Centro do arquitecto Marcello Piacentini

Dos 25 desenhos que Marcello Piacentini enviou para a Câmara, apenas se conhecem alguns.

Um deles é uma planta da área central, desde a rua da Boavista e João das Regras a norte até à saída da ponte Luís I. E desde a Cordoaria a poente até à rua de Santa Catarina a nascente.

Nesta proposta destaca-se o arruamento que parte do lado nascente da praça Carlos Alberto, junto à casa Balsemão, e que se dirige para norte em linha recta até à rua da Boavista, sensivelmente paralelo à rua dos Mártires da Liberdade.

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Nesta proposta destaca-se o arruamento que parte do lado nascente da praça Carlos Alberto, junto à casa Balsemão, e que se dirige para norte em linha recta até à rua da Boavista, sensivelmente paralelo à rua dos Mártires da Liberdade.

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A praça do Município e a praça da Trindade são reorganizadas, num sistema de praças que rematam as ruas Formosa, Fernandes Tomaz, Ricardo Jorge, Alferes Malheiro, Camões e Bonjardim.

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A nascente dos paços do Concelho e da igreja da Trindade é projectado o Palácio dos Correios. Na perspectiva de Piacentini aponta-se um edifício clássico rematado por uma torre, numa arquitectura algo semelhante à da praça da Vitória em Brescia. O edifício é enquadrado por outros de arquitectura semelhante, sendo de notar que não há referência à Estação da Trindade.

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Para norte da Trindade é rasgada uma paralela à rua de Camões até João das Regras, sendo esta prolongada até Santa Catarina. cet195ab

A rua de Sá da Bandeira é prolongada para nordeste até ao encontro com Santa Catarina.

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Na Avenida dos Aliados a praça do Município é regularizada numa forma rectangular, enquadrando os Paços do Concelho. Desaparece a rua de Ramalho Ortigão, do plano Barry parker e já então decidida pela Câmara. Aparece bem marcada a (futura) rua de Ceuta até à praça Guilherme Gomes Fernandes, no prolongamento da rua Elíseo de Melo.

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Na parte sul da planta a ligação entre a praça da Liberdade e a ponte Luís I. De notar a proposta do túnel da Ribeira, sensivelmente como será aberto em 1952.

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De uma praça junto à saída da ponte partem três vias com o mesmo calibre. A via poente sob a forma de um viaduto elevado, dirige-se em linha recta até à praça dos Lóios. A via nascente, também em linha recta até às ruas da Madeira e Cimo de Vila, que rectificadas vão até à praça da Batalha onde é criada uma outra artéria que em curva vai até Duque de Loulé. A via central dirige-se até o largo da Guarda, mantendo-se todo o quarteirão. Junto à Sé parte uma circular, que passando em viaduto pela via poente, se prolonga pela rua Chã.

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Piacentini vai apresentar um conjunto de propostas para a Avenida da Ponte, todas elas concebidas no sentido de “libertar” os monumentos, e em particular a Sé, da envolvente de construções com uma arquitectura considerada menor, lembrando a fundamentação da via da Conciliação em Roma.

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Piacentini: ligação ponte – centro da cidade, 1939, In A Ponte e a Avenida, Dep. De Arquivos da CMP

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A solução proposta é considerada num conjunto de variantes, destinadas a aperfeiçoar o enquadramento da Sé e a uma melhor adaptação à topografia do local.

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Uma outra solução, Proposta di collegamento diretto Municipio-Cattedrale, embora mantendo o esquema em forma de pé-de-galinha, propõe a criação de uma larga avenida desde a Sé até à praça da Liberdade, destruindo o edifício das Cardosas que seria substituído por quatro torres que criariam uma entrada monumental na praça e avenida dos Aliados.

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O fim do contrato com Marcello Piacentini

Apesar do entusiasmo com que foi recebido o trabalho inicial dos colaboradores Calza Bini e Vicenzo Civico, levando a que o Presidente da Câmara tenha proposto a passagem de Consultor, inicialmente atribuída a Piacentini, para Autor do Plano geral de urbanização, as relações entre o arquitecto romano e o Município do Porto foram degradando-se.

Em Agosto de 1939, Antão Almeida Garrett é enviado a Roma onde em 24 estabelece com Piacentini um “acordo” aceite pela Câmara Municipal do Porto. Nesse documento estabelece-se a necessidade da Câmara realizar um conjunto de elementos que Piacentini considera necessários, e que este se deslocará ao Porto.

Vejamos o que diz A. Almeida Garrett: “…Contra o combinado, nem Piacentini veio ao Porto, alegando a si­tuação internacional, nem lhe foram enviados os elementos, tanta vez por ele baldadamente pedidos e agora com o compromisso escrito da Câmara.

O Presidente escreve a Piacentini, a 12 de Outubro, dando a enten­der que a demora da sua vinda ao Porto, - com grave prejuízo para a Cidade que vê todas as suas obras dependentes do Plano de Urbanização, - pode levar a ter de se encaminhar a sua colaboração par uma outra modalidade (a volta a simples urbanista consultor?) passando o trabalho a ser feito pelo Gabinete Técnico do Porto, confirmando esta resolução por segunda carta de 27 de Outubro.

A estas duas cartas de 12 e 17 de Outubro responde Piacentini (22 de Novembro) dizendo continuar os estudos dos casos urgentes que em bre­ve submeterá à apreciação da Câmara, pedindo para se lhe fazer as observações que entendessem, para em variantes apropriadas as poder inserir no Plano Geral. E que continua sempre à espera do material de estudo mencionado na relação conjunta Piacentini-Almeida Garrett, não.sendo, portanto, sua a culpa da demora…”

E mais adiante:

“…Inconformado com esta atitude de Piacentini e vendo distanciar-se no tempo a entrega do Plano Geral, o Presidente escreve-lhe a 14 de Dezembro a agradecer-lhe a boa vontade manifestada por ele e seus colaboradores e a comunicar-lhe a resolução de fazer elaborar o Plano, urgentemente necessário, pelo pessoal técnico do Município. Segue-se uma troca de cartas pouco agradáveis entre Roma e o Porto, ficando o caso arrumado por uma remuneração pelo trabalho realizado, estabe­lecida pela Câmara. A 16 de Abril de 1940, o Presidente pede a Piacentini para entre­gar ao Académico Arq. Giovanni Muzio os elementos que possuía. Piacentini em carta de 10 de Julho de 1940 escreve, contrafeito, relembrando que as culpas pertenciam mais a Câmara do que a ele.”

Se é certo que Piacentini está demasiado ocupado com diversos e importantes trabalhos para o regime de Mussolini e que o início da Guerra (Setembro de 1939), veio alterar e dificultar muitos compromissos, o facto é que da parte da Câmara, não parece ter sido o aproximar-se do final do prazo para a conclusão do Plano, que conduziu a esta ruptura. Certo é que a Câmara via todo um conjunto de questões urbanas, projectadas e em construção, não terem um suporte de enquadramento e continuarem a ser realizadas avulso. As propostas de Piacentini que nunca se deslocou ao Porto e portanto não conhecia a cidade, não se mostravam adequadas nem à topografia, nem aos interesses da cidade. Ficaram no entanto consolidadas algumas indicações de planos anteriores, para a resolução da ligação ao porto de Leixões, ao novo atravessamento do rio Douro (ponte da Arrábida) e para a Avenida da Ponte.

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