Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Os Planos para o Porto – dos Almadas aos nossos dias 7 VI

Os planos dos italianos 2

A colaboração do arquitecto Giovanni Muzio (1893-1982)

Nota - Continuamos a seguir no essencial o texto “História da Evolução dos Planos Gerais de Urbanização da Cidade do Porto”, do Prof. Antão de Almeida Garrett publicado no Boletim n.º 11 da FEUP. Os textos em italiano foram traduzidos para português.

Tendo como pano de fundo uma Europa em guerra, e após a cessação do contrato com Marcello Piacentini, a Câmara no início de 1940, convida em 21 de Fevereiro de 1940, para Consultor Urbanista do Gabinete do Plano de Urbanização e Expansão da Câmara Municipal do Porto (…) o ilustre arquitecto urbanista italiano G. Muzio, que aceitou orientar os trabalhos do Gabinete do Plano de Urbanização e Expansão da cidade do Porto, gabinete que funciona na Câmara Municipal. Congratula-se com o facto, informando que se tomaram as disposições para que as linhas gerais do plano estejam concluídas até ao fim do ano corrente e sendo conveniente que a colaboração do académico Muzio prossiga nos três anos seguintes[...]. " (Intervenção do Presidente, Acta da reunião da CMP de 11 de Abril 1940 in Gravato, Adriana Trajecto do Risco Urbano – A arquitectura na cidade do Porto, nas décadas de 30 a 50 do século XX – Dissertação de Mestrado em História da Arte em Portugal FLUP 2004).

Deste Gabinete de Urbanização dirigido então por Arménio Losa, fazem parte os engenheiros Antão de Almeida Garrett e Miguel Resende.

Não se conhecem os critérios que levaram a CMP, depois da frustrante experiência com Piacentini, a insistir na contratação de um arquitecto italiano e a escolher Giovanni Muzio (1893-1982). Sendo um conhecido arquitecto milanês, ligado ao grupo Novecento, a sua actividade exercia-se nesta época, simultaneamente no campo da projectação de edifícios, na investigação teórica e na vida cultural de Milão. Colabora nas revistas "Il Primato" e "La Casa", e na revista socialista "Popolo e Arte"e “Emporium”.

Nos seus primeiros projectos destaca-se a Cà Brüta, um conjunto residencial construído entre 1919 e 1923, considerada como uma primeira tentativa de conciliar uma arquitectura moderna com formas neoclássicas.

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G. Muzio - Casa na Via Moscova em Milão dita Cà Brüta (1919)

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G. Muzio - Monumento aos Caduti di Milano no Largo Gemelli em Milão (1926) foto Secco d'Aragona

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G. Muzio - Universidade Católica do Sagrado Coração no largo Gemelli em Milão(1927)

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G. Muzio - Igreja de S. Ambrósio 1935-1938, Cremona

A sua experiência urbanística afirma-se sobretudo em 1925 e 1926 como um dos fundadores do “Club dos Urbanistas”,de que fazem parte A. Alpago Novello, G. De Finetti, T. Buzzi, O. Cabiati, G. Ferrazza, A. Gadola, E. Lancia, M. Marelli, A. Minali, P. Palumbo, G. Ponti, F. Reggiori.

Esta associação concorre em 1927 à elaboração do Plano Regulador de Milão, com o projecto “Forma Urbis Mediolani”, (Mediolanum é o nome romano de Milão) obtendo o 2º prémio. O vencedor é o arquitecto P. Portaluppi com o projecto "Ciò per amor".

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G. Muzio e o Club dos Urbanista - “Forma Urbis Mediolani”, concurso PR de Milão 1926/27

Segundo Piacentini esta proposta apresenta “…a necessidade de conservar, para além dos monumentos artísticos, os quadros urbanos mais importantes, por razões pictóricas, históricas e sentimentais; sugere um razoavel limite às demolições do núcleo central, indica os novos edifícios de utilidade pública a construir, estabelece a oportunidade de descongestionar as zonas actualmente mais pressionadas mediante a abertura de novas vias…” (M. Piacentini Il concorso nazionale per lo studio di un progetto di Piano Regolatore e d’Ampliamento per la città di Milano” in Architettura e Arte Decorative Novembro / Diecembre 1927, cit. em Storia dell? Architettura Italiana, il primo Novecento Electa, 2004)

Em 1936 é encarregado da cadeira de Urbanística na nova Faculdade de Arquitectura do Politécnico de Milão, e em 1939 torna-se “Accademico d’Italia”.

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A Câmara Municipal do Porto, embora já não esteja pressionada para cumprir o prazo fixado pelo decreto, depara-se no início de 1940 com um conjunto de problemas que se vão acumulando e então agravados pela concretização, em Junho, da Exposição do Mundo Português. Embora se realize em Lisboa tem um conjunto de actividades e iniciativas espalhadas por todo o território nacional, sendo que no Porto a mais significativa é a concretização do Terreiro da Sé.

Por isso, enquanto Giovanni Muzio não chega ao Porto, o Gabinete da CMP, “…reviu o que tinha sido feito até então, continuou com a elaboração do inquérito, pensou no possível andamento dos estudos, para ter uma opinião informativa junto do arquitecto Muzio, quando chegasse.” (A. Almeida Garrett, op.cit.)

Abril de 1940

O arquitecto italiano chega ao Porto em 7 de Abril de 1940, para uma curta visita, tomando uma primeiro contacto com a cidade e com os principais problemas com o gabinete técnico da Câmara, e com os estudos até então elaborados para a formalização do Plano. Segundo A. Garrett, a Câmara comprometeu-se a enviar “relatórios circunstanciados sobre a situação e principais problemas em curso”.

Maio 1940

Nesse sentido logo em 7 de Maio - data significativa já que é a data da Concordata entre a Santa Sé e a República Portuguesa - foram enviados 2 relatórios e um terceiro a 17 do mesmo mês, expondo os problemas de circulação na cidade e arredores, tendo em conta a ligação com Leixões, a saída para sul pela ponte Luís I, e a prevista ponte da Arrábida. Ainda são focadas as ligações de navegação e aéreas.

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Primeiros Estudos entregues ao Arq. Muzio em 7 de Maio de 1940 AHMP – in Mesquita, Mário João – A Cidade da Universidade, catálogo da Exposição, UP 2006

Junto a esses relatórios são enviados dois esquemas: a rede actual urbana e a proposta de grandes comunicações.

Para uma melhor compreensão apresentam-se os esquemas de A. Almeida Garrett e para melhor compreensão uma versão colorida de M. Alexandra Amorim.

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Antão Almeida Garrett “História da Evolução dos Planos Gerais de Urbanização da Cidade do Porto”

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Maria Alexandra M. Soares de Amorim – A Cidade Planeada – 1930/1980: Permanências /Inovações no Processo e Forma Urbanos – Feup /Faup 1998

1º Esquema das Grandes Comunicações 7 de Maio 1940

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Gabinete de Estudo do Plano Geral de Urbanização – Primeiro Esquema das Grandes Comunicações 7/5/40 AHMP

2º Esquema das Grandes Comunicações 17 de Maio de 1940

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Antão Almeida Garrett “História da Evolução dos Planos Gerais de Urbanização da Cidade do Porto”

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in Maria Alexandra M. Soares de Amorim – A Cidade Planeada – 1930/1980: Permanências /Inovações no Processo e Forma Urbanos – Feup /Faup 1998.

E ainda se expunha “o zonamento previsto com as zonas industriais, as residenciais e seus acesso principais, zonas verdes, campos desportivos e zonas de reserva com as áreas julgadas desnecessárias nos próximos 20 anos.” De notar a localização e a referência explícita ao Parque da Cidade.

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Antão Almeida Garrett “História da Evolução dos Planos Gerais de Urbanização da Cidade do Porto”

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in Maria Alexandra M. Soares de Amorim – A Cidade Planeada – 1930/1980: Permanências /Inovações no Processo e Forma Urbanos – Feup /Faup 1998.

Neste Relatório ainda se abordava o Problema social da habitação, em que a CMP estava então envolvida, para atalhar a carência de 8 000 fogos, para realojar as populações das “ilhas” e casas degradadas e superlotadas. Inquérito e Bairros

Refira-se como curiosidade, que o F.C. do Porto é campeão nacional na época de 1939/40.

Junho de 1940

No mês de Junho há todo um conjunto de acontecimentos, que se prendem, directa ou indirectamente com a cidade do Porto. Em 2 de Junho iniciam-se as «Comemorações do Duplo Centenária da Formação da Nacionalidade e da Restauração» com uma cerimónia no Castelo de Guimarães e simultaneamente uma cerimónia no Terreiro da Sé no Porto, entretanto aberto segundo um projecto de Arménio Losa, então a dirigir o Gabinete de Urbanização da CMP.

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Arménio Losa - Projecto de Arranjo Urbanístico da Zona da Sé e dos Paços do Concelho

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“A 2 de Junho de 1940 realizou-se no Porto um Acto Medieval, integrado nas Comemorações do Duplo Centenário da Fundação da Nacionalidade e da Restauração da Independência (1140 e 1640), no qual estiveram presentes das mais altas individualidades do Estado e da Igreja às multidões mais entusiasmadas.

As comemorações realizaram-se no renovado Terreiro da Sé com o objectivo de exaltar e reforçar os sentimentos nacionalistas desejados pelo próprio regime. Nada foi deixado ao acaso. Regressou-se ao passado medieval, montando-se no exterior um gigantesco palco para as cerimónias, que prosseguiram depois no interior da Sé com uma cerimónia de grande simbolismo evocativo.”

No dia 10, a Itália de Mussolini declara guerra à França e à Inglaterra, e a 12 é declarada a «estrita neutralidade» de Portugal pelo governo de Salazar. A 14 de Junho as tropas alemãs entram em Paris. No dia 23 abre oficialmente a Exposição do Mundo Português em Lisboa.

A 26 de Junho de 1940 Muzio envia de Milão uma primeira carta, em que refere que espera que a situação internacional se clarifique, para poder deslocar-se ao Porto, um relatório em que aponta as críticas às propostas da CMP e um primeiro esquema geral.

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Arq. Giovanni Muzio – Plano de Urbanização do Porto, recebido em 26 de Junho de 1940 AHMP in Mesquita, Mário João – A Cidade da Universidade, catálogo da Exposição, UP 2006

O 1º Esquema Geral de Giovanni Muzio

Traçado a partir da sua breve visita ao Porto e dos elementos fornecidos pelo Gabinete do Plano da CMP, é acompanhado por comentários de Muzio, sobre cada uma das opções tomadas para a solução dos principais problemas da cidade.

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1º Esquema Geral de Giovanni Muzio AHMP in Mesquita, Mário João – A Cidade da Universidade, catálogo da Exposição, UP 2006

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Antão Almeida Garrett “História da Evolução dos Planos Gerais de Urbanização da Cidade do Porto”

(Nota: em itálico citações traduzidas do italiano do documento enviado por G. Muzio em 26 de Junho de 1940, de que se manteve a numeração)

1) A primeira questão abordada por Muzio é a ligação do Centro com a Ponte Luís I, já que a Câmara pretende dar seguimento ao arranjo urbanístico do Terreiro da Sé.

Muzio propõe a ligação da avenida Saraiva de Carvalho com o largo do Corpo da Guarda. Este seria reformulado e nele seria implantado “…um edifício público com carácter monumental…”. O largo do Corpo da Guarda ligaria ao centro através da rua do Loureiro “…oportunamente alargada e com um novo traçado, em parte em trincheira, para superar a diferença de cota com uma inclinação não superior e 5%…”.

Propõe um túnel com um traçado paralelo à avenida Saraiva de Carvalho, o qual mergulhando na nova praça da estação liga directamente o centro com a praceta no arranque da ponte Luís I.

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2) “As duas artérias que ligariam respectivamente a Alameda das Fontaínhas e a Praça da Batalha com a praceta de chegada da ponte Luís I, propostas por vocês parecem-me bem.”A praça da Batalha com uma nova reformulação resultaria bem ligada à ponte Luís I. Estas artérias podem canalizar o tráfico para a parte oriental da cidade.”

3) Para ligar a saída da ponte com a zona ocidental da cidade, Muzio propõe uma artéria ligando a praça Almeida Garrett com o Palácio de Cristal, atravessando o largo de S. Domingos e a rua Mousinho da Silveira em viaduto.

4) “Esta nova via implica o alargamento da rua de Traz até ao jardim João Chagas, o alargamento da rua da Restauração até à rua da Liberdade, desembocando no jardim do Palácio a sul do quartel.”

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5) O eixo Norte Sul

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Muzio propõe o deslocamento para poente da grande avenida Norte/Sul apontada pela CMP, “que penetrando no coração da cidade terminará numa grande praça (A), junto à praça da Republica. (…) O tráfico desta grande artéria atingiria a Avenida dos Aliados mediante uma nova rua com traçado semi-circular e continuaria para a parte oriental da cidade com a nova diagonal até à praceta dos novos Correios onde seguiria pela rua Passos Manuel e avenida Rodrigues de Freitas até à estação de Campanhã.”

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“Do novo eixo atingiria-se o Palácio de Cristal a a parte ocidental da cidade através de uma nova artéria que atravessa zonas pouco densas de habitação.”

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“Da praça terminal do grande eixo (A) pode-se chegar à praça de Carlos Alberto com uma rua também proposta por vocês.”

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6) Neste ponto da carta de Muzio, o arquitecto italiano propõe o prolongamento da rua Gonçalo Cristóvão para poente que atravessando a rua Júlio Diniz e passando junto ao cemitério de Agramonte ligaria com a GRANDE ARTÉRIA NORD SUD PER LE COMUNICAZIONE INTERPROVINCIALI, ou seja a estrada de atravessamento interurbano, que da ponte da Arrábida, seguiria para norte. De seguida a via de prolongamento da rua G. Cristóvão acompanhando a curva de nível seguiria até à Foz, com um carácter turístico e panorâmico.

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7) No ponto 7 Muzio avança algumas reflexões sobre a urbanização das margens da via que dá acesso à ponte da Arrábida, adiantando que junto à saída da ponte prevê uma praça beneficiando da “bellissima posizione panoramica” sobre o Douro e sobre o mar com dimensões e forma análoga à praça do Comércio de Lisboa.

Desta praça e até à Avenida de Boavista propõe uma nova urbanização residencial que seria um “novo importantíssimo centro do Porto” colocado entre o centro tradicional e a Foz.

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8) No ponto seguinte Muzio propõe a fixação das zonas industriais existentes nos locais de “Campanhã, Lordelo do Ouro e Vizo de Baixo” e considera de enorme importância a via de carácter industrial que partindo da Estação de Campanhã segue pela marginal do Douro até Lordelo do Ouro. Aqui curva para norte seguindo pelo vale, passando sob a avenida da Boavista e curvando de novo para poente na direcção de Matosinhos.

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Julho de 1940

O Gabinete de Urbanização da CMP responde a Muzio em 19 de Julho 1940, através do “Relatório do estudo para o snr. Arq. Muzio, em sequência à crítica que fez aos primeiros trabalhos por nós enviados”.

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Gabinete Técnico da Câmara 19 de Julho de 1940 – Antão Almeida Garrett “História da Evolução dos Planos Gerais de Urbanização da Cidade do Porto”

Esse Relatório aborda no seu ponto 1 a ligação do Centro à ponte Luís I, contestando a solução de Muzio “…porque a solução da R. do Loureiro é cara e o túnel onde vai desembocar, não resolve os estrangulamentos já existentes, dum e doutro lado do edifício das Cardosas…” propõe uma ligação em túnel ao meio do edifício das Cardosas, passando em viaduto as ruas Mousinho da Silveira e das Flores, retomando a solução proposta por Piacentini. Concorda com a proposta da Avenida até ao largo da Cividade e com o edifício monumental. Desiste da duplicação da rua dos Clérigos pelo alargamento da rua de Traz.

Em relação ao ponto 5 da proposta de Muzio, a avenida N/S, o Gabinete discorda do desvio para poente, porque acarretaria dispendiosas expropriações, e insiste no traçado inicialmente proposto.

Coloca a praça terminal do eixo a norte da Boavista, “onde não há construções” e propõe a ligação a Carlos Alberto junto à faculdade de Engenharia, onde se criaria uma praceta. Esta ligaria com a praça da Trindade em túnel. As ruas em curva propostas por Muzio são consideradas impraticáveis.

Quanto ao ponto 6 de Muzio, o Gabinete corrige o traçado para poente do prolongamento da rua G. Cristóvão, para não atravessar os terrenos do Liceu Rodrigues de Freitas, e concorda com a proposta de traçado de Muzio para o prolongamento da rua para nascente até Campanhã.

Quanto ao ponto 7, o Gabinete propõe algumas correcções mas insiste na ligação da zona do Ouro com a rotunda da avenida Marechal Gomes da Costa e, sobretudo, insiste na localização do Parque da Cidade “há anos aprovado pela Câmara” (o parque apenas se concretizará mais de 50 anos depois!).

Finalmente quanto ao ponto 8 que se refere às zonas industriais e aos bairros operários, também no essecial o Gabinete concorda, com pequenas adaptações, com as propostas esboçadas por Muzio.

Entretanto a 27 de Julho é criado o Ministério da Economia englobando os serviços dos extintos Ministério do Comércio e Indústria e do Ministério da Agricultura.

Agosto de 1940

Em 7, 10, 21 e 24 de Agosto são enviados mais elementos relativos à zona central e é dado como terminado o esquema de “massima”

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Estudo da ligação Ponte-Praça e de Carlos Alberto à Avenida Norte-Sul da Cidade enviado a 24 de Agosto de 1940 AHMP - in Mesquita, Mário João – A Cidade da Universidade, catálogo da Exposição, UP 2006

Setembro 1940

A 13 de Setembro 1940 Muzio responde, lamentando não poder deslocar-se ao Porto devido à guerra, que implica que a sua viagem seja oficialmente requerida pelas autoridades portuguesas. Em anexo uma crítica detalhada das propostas da CMP, acompanhada de 22 desenhos e perspectivas anotados. Muzio corrige alguns aspectos da sua solução inicial e preocupa-se sobretudo com o desenho urbano de alguns aspectos parciais do Plano. Por isso A. Almeida Garrett considera estas propostas com um cariz “preponderantemente arquitectónico, único possível num atelier distante”.

Ligação da praça terminal da avenida Norte/Sul com a avenida dos Aliados

“Da grande praça A, que prevejo fechada a Sul por um edifício monumental, digno pano de fundo desta amplíssima praça e da avenida que se dirige para a cidade, pode-se chegar ao Centro seguindo um percurso, em parte também considerado por vocês, atravessando o largo da Lapa até atingir uma nova praça situada entre as ruas Camões e Cardoso. Com o oportuno alargamento da rua Camões e seguindo as curvas de nível na proximidade da Trindade pode comodamente desembocar na praça da Trindade e daqui seguir até à Avenida dos Aliados no lado ocidental dos Paços do Concelho. Esta solução parece-me melhor que um túnel demasiado longo.”

Para além desta ligação considero de grande importância a continuação da rua Cardoso até à Avenida dos Aliados de forma a constituir um único sistema orgânico com o novo eixo Camões relativo às comunicações para o Norte.

Tracei de uma forma esquemática a nova estação ferroviária com uma praça bem orientada, considerando os vossos estudos e os vossos desenhos relativos à praça da Trindade."

Também nestes esquemas que vos envio figura a rua que une a grande praça A, com a praça Carlos Alberto seguindo um traçado semelhante ao dos estudos precedentes.

Dirigindo-nos para a parte ocidental da cidade destaca-se da grande praça A um rua que atingirá a rua do Campo Alegre, passando em frente do Liceu, para ligar com a grande artéria da ponte da Arrábida, de comunicação intermunicipal.

A zona de influência do grande eixo Norte/Sul corresponde à área destinada ao desenvolvimento da cidade para norte. Previ uma série de ruas perpendiculares ao grande eixo distanciadas cerca de 400 metros umas das outras, correspondente às paragens dos transportes públicos que circulem ao longo do grande eixo.

O prolongamento da rua Cristóvão fica definido para oriente até atingir a estação de Campanhã e para ocidente até interligar com a Rua Alegre.”

Urbanizações sobre o eixo da ponte da Arrábida

Da praceta da saída da ponte até atingir a Avenida da Boavista, preverei um conjunto de ruas (em parte utilizando as existentes) de modo a criar um sistema orgânico bem definido, necessário a uma zona residencial completamente nova; centro importantíssimo entre a Foz e o velho núcleo.

As zonas verdes

Defini nos esquisso o destino que devem assumir as áreas livres, os terrenos agrícolas, os parques e os jardins; com a forma de cunha, o verde público deve possivelmente atingir o coração da cidade. No exterior da cidade teremos amplos terrenos agrícolas, bosques, parques, etc.; penetrando para o interior as ditas cunhas vão tornando-se mais estreitas até formarem jardins, campos de jogos para rapazes, interligados entre eles se possível com arruamentos arborizados.

Ligação Ponte/Praça da Liberdade

Depois de maduras considerações concordo com a ideia de ligar a Ponte D. Luiz com a praça da Liberdade passando pela Cividade. é verdade que da cota 60 se sobe até à cota 75 pra voltar a descer à cota 60, enquanto que com a passagem inferior se descia à cota 52 pra voltar a subir, e o desnível era quase metade, mas sou entusiasta de um revalorização das colinas da Sé e da Cividade, afectando-as às mais alta funções civis e representativas. Aqui apenas posso sugerir edifícios públicos municipais ou do governo, e não construções de especulação privada, por isso penso em edifícios monumentais e orgânicos mais do que em praças porticadas de mais difícil distribuição e mais adaptados lugares de comércio e escritórios, e não na acrópole da cidade. Por outro lado a Sé e a Cividade tem tal importância histórica e visibilidade que não as convém considerar quase como um prolongamento da Avenida dos Aliados que tem um carácter comercial, um organismo independente.

Concluída a Avenida dos Aliados com um novo palácio ao fundo, duas ruas principais prolongam-na uma descendo para o rio e a outra subindo para a Cividade. Não creio que traga qualquer prejuízo o facto de não dar continuidade ao eixo da Avenida, porque ficaria sempre quebrado e um desvio mesmo que pequeno é desagradável, enquanto que a nova avenida partindo da praça dos Lóios, completamente aberta ao panorama a ocidente, tornar-se-á de incomparável beleza. Da ponte D. Luiz seguindo a actual Avenida de Saraiva de Carvalho atinge-se o largo Corpo da Guarda (Cividade). Nesta zona (cota 75) proponho uma única praça ligada través de um novo troço ao largo dos Lóios adequadamente desenhado.

Para simultaneamente organizar a praceta Almeida Garrett penso criar um edifício monumental no eixo da Avenida dos Aliados como um pano de fundo ao sul da grande praça e elemento regulador do tráfico que desce para a Rua de Mousinho da Silveira e daquele que sobe à Cividade e à Sé através do novo troço. O novo troço viário, que partindo do Largo dos Lóios atinge a Cividade, e passa por sobre a Rua das Flores e a Rua Mousinho da Silveira quase ortogonalmente, terá uma pendente de quase 6%.

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Dis n.º 3 Schizzo prospettico del collegamento Ponte Luiz – Piazza Liberdade Setembro 1940 55x72 cm. AHMP

Na parte norte da nova praça da Cividade colocaria um edifício público de carácter monumental com uma torre no eixo da Ponte e da Avenida Saraiva de Carvalho, e a sul um edifício público (serviços municipais) com corpos orientados segundo o eixo heliotérmico ou pátio central.

Da Cividade pode-se chegar à Sé percorrendo a nova rua de carácter panorâmico tendo e eixo o portal de igreja, ou então percorrendo a Avenida Saraiva de Carvalho e o troço da Rua Saraiva que a une à Sé.

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Dis. nº 4 Variante schizzo n.º 3 Set. 1940 39x43 cm. AHMP

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dis. nº 5 AHMP

As duas artérias que ao longo do Douro ligam a parte oriental e ocidental da cidade à ponte D. Luiz tem o mesmo traçado dos esquissos precedentes.

Em 27 de Setembro de 1940 a Alemanha, a Itália e o Japão assinam o Pacto Tripartido, formalizando a aliança conhecida como Eixo.

Outubro 1940

O Gabinete responde a 12 de Outubro, considerando “possível e muito interessante” a ideia da praça entre as ruas Camões e Fonseca Cardoso.

Por outro lado considera impossível a modificação da praça do Município, quer pelos edifícios existentes quer por “estar em estudo adiantado o novo Palácio dos Correios”.

O Gabinete faz ainda reparos à ligação da praça A com o Campo Alegre tendo em conta o terreno, a Rua da Boavista “…que por fixação de novos alinhamentos, passará mais tarde a ter a largura da Avenida da Boavista”, e a impossibilidade do prolongamento para sul da rua Serpa Pinto,” pelo terreno e pelo estabelecimento já fixado nessa área do Liceu Feminino, em estudo adiantado”

Também se preocupa com a urbanização a nascente do eixo N/S, limitada pelo prolongamento de Faria Guimarães que terá ao atingir a Circunvalação, “…a nascente, o novo Hospital Escolar da Cidade, cujo projecto já está aprovado e cuja construção em breve vai ser iniciada.”

Sobre a ligação da Ponte D. Luiz à Praça da Liberdade, o Gabinete admite a perfuração do edifício das Cardosas, “para se manter a unidade da construção”, e parecendo-lhe “pouco simpática a solução dos Lóios” mantém “a ideia de ir ao meio da Praça”.

Sugere ainda a junção numa só das duas praças que Muzio prevê para a Cividade “o que lhe aumenta a grandiosidade, sem nada prejudicar o conjunto, conforme nos parece pela perspectiva que enviamos”.

Para o sistema do Campo Alegre-Ponte da Arrábida, o Gabinete envia um novo desenho, considerando que a proposta de Muzio não se adequa ao terreno.

Do mesmo modo insiste no prolongamento da rua da Constituição para criar a paralela à avenida da Boavista.

O Gabinete também concorda com a urbanização ao longo da Avenida Gomes da Costa, mas aponta a impossibilidade da ligação a norte com o eixo da ponte da Arrábida.

Mantém a ideia da ligação do Ouro à Avenida Nun’Alvares, atendendo ao tráfego de pesados na ligação Douro/Leixões, “enquanto não se fizer a estrada industrial que se projectou agora”. No mesmo sentido o Gabinete mantém a ideia da ligação da rotunda da Boavista com a Snr.ª da Hora.

O Gabinete refere as ligações para nascente do centro da cidade considerando que o sistema muito completo.

Finalmente o Gabinete termina com uma referência às zonas verdes e apelando à vinda ao Porto do arquitecto italiano que “julgámos indispensável”.

Em 28 de Outubro o exército italiano invade a Grécia, pela fronteira com a Albânia. Hitler e Mussolini encontram-se em Florença.

Dezembro 1940

Só a 17 de Dezembro 1940 Muzio responde à Câmara Municipal do Porto, numa bastante lacónica carta em que praticamente aceita na sua quase totalidade as propostas e sugestões do Gabinete de Urbanização, sobre o Campo Alegre e a Arrábida, o novo Hospital, e Avenida Gomes da Costa e Nun’Alvares.

Muzio anexa contudo, um texto sobre a ligação entre a Ponte D. Luiz e a Praça da Liberdade, com diversos comentários, esquissos e fotos de maquetas.

“A entrada na nova praça da Cividade no eixo da Avenida de Saraiva de Carvalho seria organizado com uma dignidade monumental mediante dois edifícios-torre incorporados nos palácios que formam a praça, perfeitamente visível a quem quer que venha da ponte D. Luiz, dada a abertura da Avenida (ver foto nº 2)”

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foto n.º 2 - La piazza da Cividade vista dalla Sé Dez. 1940 AHMP – in catálogo da exposição A Ponte e a Avenida Casa do Infante Set./Dez. 2001

“Anexo alguns estudos considerando a nova ligação entre a Praça da Liberdade e a Sé ao eixo da Avenida dos Aliados:

Schizzo nº 1

Blocos simétricos, frente contínua sobre a praça da Liberdade com portal de acesso na nova artéria. Na praça Almeida Garrett nova fachada paralela à frente da Estação.”

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AHMP – in catálogo da exposição A Ponte e a Avenida Casa do Infante Set./Dez. 2001

Schizzo nº 2

Praça terminal parcialmente fechada arquitectonicamente, ligação directa com a praça da Liberdade, portais de união com as praças laterais”

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AHMP – in catálogo da exposição A Ponte e a Avenida Casa do Infante Set./Dez. 2001

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Schizzo n.º 3 Dez. 1940 37x25 cm.AHMP in catálogo da exposição A Ponte e a Avenida Casa do Infante Set./Dez. 2001

1941

Janeiro/Fevereiro 1941

Em 26 de Janeiro de 1941 Muzio chega ao Porto onde permanecerá até 10 de Fevereiro de 41.

São discutidos com os técnicos da CMP alguns dos problemas da Cidade considerados mais prementes, como os acessos ao Hospital Escolar, a Ponte da Arrábida e a sua articulação com a zona do Campo Alegre, o sistema de Gomes da Costa, a ligação entre a Boavista e o Porto de Leixões e a criação da zona industrial de Ramalde, e a zona desportiva do Castelo do Queijo (actual Parque da Cidade).

Destes encontros resultaram ideias, sugestões e formalizações que A. de Almeida Garrett elenca e que se transcreve, já que o texto fornece preciosas indicações da cidade em 1941, e das concepções urbanísticas da época. A ponte da Arrábida é tratada como uma entrada na cidade e por isso a preocupação com o desenho urbano (praças, ruas, edifícios…).

“Em relação à ponte da Arrábida:

Uma sala de entrada pequena, 100 x 150 m, ou aproximadamente capaz de tomar valor com edifícios de 20 m de altura, e colocada o mais avançada possível. Duas saídas para o Norte: uma pela Rua António Cardoso alargada; a outra a poente desta e indo aproximadamente ao cruzamento da Rua Bessa Leite, abaixo da fábrica do Bessa, directa à avenida da Boavista.

Um sistema quadriculado de ruas neste ramo para Norte.”

Zona Industrial do Ouro

“É a bacia do vale de Lordelo que a constitui. Por isso, a rua alargada das Condominhas até à passagem inferior à Avenida da Boavista e uma outra pelo fundo do vale para melhor servir os terrenos mais planos junto a esse fundo do vale. São a considerar estas duas ligações principais.

A ligação do Ouro à Rotunda de Gomes da Costa (Praça do Império) não é precisa, porque as ligações com Matosinhos se farão muito bem pela Avenida da Boavista e as do rio pela marginal. (Mais tarde o Arq. Muzio concordou com a sua existência para a ligação rápida do Ouro a Leixões)”

Sistema da Avenida de Gomes da Costa

Propõe um sistema fechado tendo por eixo Gomes da Costa, que diz deve vir a ter um transporte colectivo.”

Ligação Ponte D. Luís - Praça

Segundo A. Almeida Garrett a 28 de Janeiro “iniciou-se o estudo em maior detalhe das soluções e sobretudo da ligação Ponte D. Luís – Praça, que tantos desenhos perspectivos tem tido a ilustrar várias hipóteses de solução.”

Achou boa a ideia da ligação pela Cividade; mas crê ser melhor pensar na demolição do edifício das Cardosas, fazendo um novo, melhor a eixo e em frente ao edifício novo do Município, com duas vias: uma descendo ao rio e a outra subindo à Sé, dos dois lados.

O edifício das Cardosas, com a penetração ficaria necessariamente mau, muito reduzido no seu valor útil pelo lado interior. A passagem inferior é sempre feia e, como a distância aos dois cruzamentos, da estação e dos Lóios é muito pequena causaria sério embaraço ao trânsito.”

Fevereiro de 1941

Com as indicações dadas pelo Arq. Muzio e segundo o contrato iniciou o Gabinete a concretização do Plano Regional com uma Memória e uma Planta à escala 1/50 000, e seguidamente o Plano Geral de Urbanização nas escalas 1/10 000 e 1/ 5 000.

Antão Almeida Garrett apresenta um esboço da Memória do Plano Regional, com data de 1/2/1941 e com os seguintes pontos:

1 – Situação

2 – População

3 – Terreno

Em que são apresentadas muito genericamente as características do Porto e da sua região, segundo estes items, e

4 – Comunicações

onde se descreve a situação actual das estradas de ligação a norte, e se propõe uma “só grande penetração de Norte, passando próximo do Ameal”, e se refere que o “Campo de Aviação de Pedras Rubras, aproveitará desta ligação.”

A leste também se considera uma nova ligação “ladeando o caminho de ferro”.

O estudo propõe um “grande eixo E-W da Cidade” pela marginal.

Para Sul propõe-se a ligação directa da ponte Luís I com a praça da Liberdade, “perfurando o edifício das Cardosas” e a ligação da Avenida dos Aliados ao grande eixo N/S.

Propõe-se o novo atravessamento do Douro, pela ponte da Arrábida, e indica-se já a possibilidade da “auto-estrada do norte, que irá ligar , ladeando o núcleo da actual cidade à grande penetração vinda de Braga.”

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Antão Almeida Garrett “História da Evolução dos Planos Gerais de Urbanização da Cidade do Porto”

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in Maria Alexandra M. Soares de Amorim – A Cidade Planeada – 1930/1980: Permanências /Inovações no Processo e Forma Urbanos – Feup /Faup 1998.

5 – Zonamento

O texto refere nas Zonas de residência, Gomes da Costa e do Campo Alegre, prossegue definindo a Zona industrial articulada com as linhas de caminho de ferro e a Zona de grande comércio “o actual núcleo citadino”.

Em relação às Zonas verdes de uso público, para além dos já existentes um parque em Salgueiros, o parque a norte da Boavista junto ao Castelo do Queijo e um parque “junto ao rio do lado de Gaia”

Zona indeterminada cuja utilização fica subordinada a autorizações particulares, para habitação económica e pequenas indústrias.

Zonas de reserva que serão todas as zonas agrícolas dos cinco municípios que enquanto não estiverem aprovados os seus planos reguladores, ”se deverão sujeitar ao espírito deste Plano Regional”

Março 1941

A 9 de Março de 1941 o ministro das Obras Públicas e Comunicações Duarte Pacheco desloca-se ao Porto onde tem a tão solicitada e aguardada reunião com o Arq. Muzio e o Gabinete do Plano da CMP.

Antão Almeida Garrett no seu texto faz uma descrição detalhada, como uma acta, desse encontro, não poupando elogios à intervenção do ministro (“Grande lição a que nos deu o Sr. Ministro”).

Convenceu-nos de que um plano geral de urbanização, na sua enorme complexidade, tem de ser um todo orgânico, não se pode limitar ao estudo de uns tantos problemas, em­bora nos pareçam e sejam de facto os mais importantes, como por exemplo o esquema das comunicações que nos tem prendido durante meses."

Duarte Pacheco toca diversos pontos do Plano, começando pelas ligações saídas (entradas) da cidade e as suas articulações regionais, rodoviárias, ferroviárias e fluviais e marítimas. O ministro debruça-se de seguida sobre a rede urbana e trânsito na cidade. Indica ser necessário estudar os planos de urbanização de Gaia e Matosinhos. Finalmente Duarte Pacheco indica um conjunto de possibilidades para o financiamento para a execução do Plano.

Estudos para o Plano Regulador

Após esta reunião o Gabinete do Plano da Câmara inicia o que pretende ser a concretização do Plano Regulador, elaborando uma "memória descritiva" em que faz um diagnóstico bastante crítico da situação da cidade do Porto em 1941 (a que não será alheia a presença de Arménio Losa no Gabinete), para fundamentar algumas opções do plano.

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Plano Regulador do Porto – enviado a 26 de Julho de 1941 AHMP - in Mesquita, Mário João – A Cidade da Universidade, catálogo da Exposição, UP 2006

A Memória começapor afirmar:

O Porto é uma cidade desordenada, tradução aliás fiel da nossa forma de ser”
A ocupação do solo caracteriza-se pela concentração da população num centro “extremamente construído e povoado”, com “fitas de casario pelas linhas de penetração e velhos caminhos de ligação com o exterior verdadeiramente rurais. Agrupamentos de casas aqui e acolá no meio de extensos campos de cultura”.

“Há portanto um centro urbano e pequenas aldeias à volta” .

A memória indica de seguida o carácter meramente convencional dos limites da cidade, propondo para futuro a inclusão de “Vila Nova de Gaia, Matosinhos, Águas San­tas do Concelho da Maia e Rio Tinto de Gondomar”.

A necessidade de criar “zonas de expansão” de modo a dispersar a população excessivamente concentrada no centro urbano, e “para atender ao natural crescimento da cidade que no decénio de 1930 a 1940 foi de 12,5 %.”.

De seguida refere-se a ausência de “parques e jardins públicos do tipo de repouso e recreio” e a falta de hábito da gente do Porto de frequentar esses parques e jardins, propondo uma acção de “criar e educar. Criar os parques e jardins públicos com aqueles atractivos que os tornem frequentados; educar a nossa gente a servir-se deles como retemperamento do espírito e dos ner­vos.”

Segue-se um conjunto de considerações sobre as condições sociais das classes trabalhadoras, habitação, salários, educação e condições da indústria:

“A gente humilde vive mal: casa miserável e vida de pobre e a baixa remuneração dum trabalho incerto levam as ilhas e à fome o nosso povo. E que havendo já gente a mais na cidade para os misteres humildes, ainda a quantidade cresce por um sem numero de artistas e operários que das aldeias e vilas vizinhas procura aí trabalho e fixar-se. O excesso de oferta sobre a procura traz o baixo preço do salário.

(Nota – Em 1936 o presidente da Câmara Prof. Mendes Correia, manda proceder a um Inquérito às "ilhas" do Porto e que terminado em 1939, concluiu pela existência de 13000 casas em "ilhas", nas quais habitam cerca de 45 000 dos 240 000 habitantes do Porto, mostrando as deficiências das operações de extinção das ilhas e de criação de bairros de renda económica).

Por outro lado, a nossa indústria manietada pela rotina e outras circunstâncias, só pode viver com os salários baixos. E quem recebe pouco e nem sempre recebe porque nem sempre trabalha, não pode pagar um aluguer razoável para ter uma casa razoável, e comer o suficiente para ter saúde.

Há aqui um defeito de cima e de baixo.

De cima, por não existirem elites capazes de organizar a industria e o comercio em moldes de desafogo que permitam pagar bem aos operários ou servidores.

De baixo, por falta de competência profissional; a maior parte dos nossos operários continua a não saber ler - o que lhes reduz muito a ga­rantia dum trabalho certo e bem remunerado. No meio de esta gente que sabe e vale pouco, é sempre fácil escolher o que mais se sujeita.

Nasce disto a necessidade de se darem facilidades a industria, criando-lhes locais que estejam a isso apropriados; de se criarem tipos de casas sadias e baratas as massas operarias, para que possam viver; de se pedir as instâncias superiores escolas técnicas e profissionais que hábilitem os rapazes a ser bons artistas. O plano de urbanização indicará os lu­gares da industria, das casas operarias, das escolas de aprendizagem dos misteres e, nas grandezas que se julga convenientes.”

A Memória debruça-se de seguida sobre as comunicações da cidade para a periferia e entre as zonas da cidade, justificando as novas vias de penetração propostas:

“Há a certas horas do dia, ida e volta do trabalho, um movimento grande da periferia para o centro e vice-versa. Mas deslocações dum bairro para outro são muito reduzidas, o que e de admirar. Daqui se conclui que há necessidade de cuidar atentamente dessas penetrações, pois serão as vias de grande caudal, sobretudo as tais horas ligadas ao trabalho quotidiano.

E fácil foi constatar que as actuais não satisfaziam as condições que hoje se impõem a sua categoria. Como o seu alargamento é impossível pe­lo denso casario que as bordeja, pensou-se em desdobrar umas vias conceben­do outras estradas de penetração, conduzindo o mais possível ao centro e no menor número para que, verdadeiramente funcionais, a sua execução se fi­zesse sem dificuldades de maior.”

Refere-se ainda o tráfico pesado de atravessamento: “Há um transito pesado de atravessamento que deve ser desviado do centro, onde é praticamente impossível fazer a cirurgia das grandes vias”.

A Memória critica a ausência de planeamento salientando:

“Porque a desordem total, ao lado do palacete se encontra a ilha; no meio de uma zona residencial nela se encontra a fábrica com a sua chami­né fumarenta e isto por toda a cidade; porque há um centro de forte actividade comercial e muita gente que se tem de deslocar a grande distancia para se prover do necessário…” .

E propõe um zonamento e a criação de unidades de vizinhança:

“…exige-se uma disciplina na cidade capaz de ir pou­co a pouco e inflexivelmente fazendo um conveniente condicionamento da po­pulação: isto é, uma diferenciação por actividades que permita melhor viver e melhor trabalhar; pondo cada um no lugar próprio, pode muito bem pensar-se em prover esses lugares de tudo o que é julgado hoje necessário. E surgem os mercados distribuidores e de vendas; as escolas; as administrações; os edifícios religiosos, etc, etc,.

Realça então o papel da autarquia e do plano no sentido de orientar a iniciativa privada:

“Por outro lado, como não convém de forma alguma coartar a inicia­tiva de realizações construtivas, e necessário orientá-la para que faça on­de convém à cidade e ao próprio interesse.”

E de preservar zonas agrícolas e de reserva:

“E porque na área do cidade existem longas zonas rurais, muito mais extensas do que a previsão para 50 anos exige, veda-se completamente aí fa­zer qualquer edificação que não tenha carácter rural, agrícola. Mais ainda: porque na cidade existem pouquíssimas massas arbori­zadas quer públicas, quer particulares, pode exigir-se que as existentes se conservem, para bem de todos.”

E a Memória Descritiva termina com um apelo cívico:

Nada disto se poderá fazer sem a intervenção da edilidade e do Governo nos interesses dos particulares. Mas, há que urbanizar a Cidade do Porto, o mesmo e dizer-se que tem de a tornar melhor, mais bela, mais cómo­da a vida dos seus habitantes. Nunca ninguém pensou dever ser o vizinho o decorador, o organiza­dor, o ordenador da nossa casa. Ele tem a sua porque olhar. Pertence a cada um de nos olhar pela nossa.

Ora esta cidade é a casa dos que cá vivem; é natural e justo que sejam razoáveis na defesa do que por ventura lhes seja pedido para a rea­lização do Plano. Não deve ser o Estado ou o Município a menosprezar os le­gítimos direitos dos particulares, mas estes tem o dever de colaborar no su­perior interesse da comunidade.”

Estudos para o Plano Regulador

Paralelamente à Memória descritiva, o Gabinete de Urbanização da CMP, com a colaboração de G. Muzio irá elaborar em meados de 1941, e a partir dos sucessivos estudos, duas plantas intituladas “Estudo para o Plano Regulador”, que chamaremos de Solução A e Solução B.

Solução A

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Solução B

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Estes Estudos consagram um conjunto de ideias e soluções que foram sendo elaboradas pelo Gabinete da Câmara Municipal do Porto, desde 1939, num processo de permanente discussão com o urbanista consultor arquitecto Giovanni Muzio.

Na análise das plantas destaca-se:

A consolidação da ideia da grande avenida partindo de uma praça projectada na zona de Águas Férreas e dirigindo-se para norte cruzando a Circunvalação, junto ao Hospital Escolar, cuja implantação e acessos estão já definidos. Na solução A a avenida tem uma forma rectilínea e as margens estão cartografadas como áreas a urbanizar como como zonas residenciais. Na solução B a avenida não tem a mesma “monumentalidade” e perfil, adaptando-se mais ao terreno.

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Na solução B os acessos ao Hospital Escolar estão mais definidos, criando-se a sul uma avenida a eixo do recinto do hospital que se desdobra em duas outras ruas a poente e a nascente.

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A articulação do centro da cidade com esta avenida seria uma rua situada entre a rua de Cedofeita e a rua das Oliveiras, a partir da praça Carlos Alberto demolindo o palacete Balsemão (!) até cruzar com o prolongamento da rua Gonçalves Cristóvão. Na solução A partia em linha recta até encontrar a grande Avenida; na solução B seguia em linha recta até G. Cristóvão e daí articulava com as duas ruas norte/sul de acesso à praça terminal da grande avenida.

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Na solução A, a rua da Boavista é prolongada para poente até à Estação de Campanhã.

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Na solução B é a rua de Gonçalo Cristóvão que é prolongada para poente até à Estação de Campanhã. Para nascente, (retomando a ideia do início do século XIX de J. Costa Lima) a rua prolonga-se até Francos.

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Está cartografada a ponte da Arrábida e definida o eixo N/S até à Circunvalação, onde é criado um nó rodoviário, prolongando-se para os concelhos a norte. Estão definidas a praça e as urbanizações à saída da ponte da Arrábida, bem como o bairro de Guerra Junqueiro. Na solução A aponta-se ainda a urbanização do Campo Alegre.

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Está estruturado todo o sistema da Avenida Gomes da Costa e da ligação do Ouro com Matosinhos (avenida Nun’Álvares). A avenida da Boavista seria urbanizada a sul e a norte está definido o Parque da Cidade.

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Na solução B o Parque da Cidade inclui uma zona desportiva.

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Em ambas as soluções é marcada a praça D. João I e a rua Sá da Bandeira prolongada até à Gonçalo Cristóvão.

Do lado oriental da cidade na Solução A para norte da praça da Trindade é apenas criada uma via que se prolonga até ao Hospital Escolar. É prolongada a avenida Fernão de Magalhães até à Circunvalação, sendo marcada uma praça no cruzamento com a avenida dos Combatentes (futura praça Velasquez, actualmente Sá Carneiro).

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Na Solução B é desenvolvido todo um sistema de arruamentos a norte da Trindade, em torno de uma praça situada entre a praça da República e a rua do Bonjardim.

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Na solução A está cartografada uma solução de Muzio para a ligação entre a ponte Luís I e a praça da Liberdade.

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Schizzo nº 3 1940 37x25 cm.AHMP in catálogo da exposição A Ponte e a Avenida Casa do Infante Set./Dez. 2001

Já na Solução B é uma das propostas do Gabinete da CMP que se encontra cartografada.

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AHMP in catálogo da exposição A Ponte e a Avenida Casa do Infante Set./Dez. 2001

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AHMP in catálogo da exposição A Ponte e a Avenida Casa do Infante Set./Dez. 2001

No dia 30 de Junho a Alemanha invade a URSS

Outubro 1941

O estudo de pormenor de algumas zonas mais prementes do Plano prossegue e a 16 de Outubro de 1941 são enviados para Lisboa os seguintes elementos:

Projecto da zona de Expansão do Campo Alegre.

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Projecto da zona Industrial de Ramalde

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Projecto da Via da Arrábida à Circunvalação e da Via Industrial da Rotunda da Boavista a Leixões.

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Antão Almeida Garrett “História da Evolução dos Planos Gerais de Urbanização da Cidade do Porto”

E ainda o ante-projecto das vias de ladeamento das docas e da Zona Industrial de Leixões com a ponte sobre o Leça.

Última visita de Muzio ao Porto

Em 20 de Outubro Muzio regressa ao Porto (acompanhado do engenheiro Miguel Resende que tinha estado em Milão colaborando com Muzio desde 27 de Abril a 19 de Setembro) trazendo um estudo da Zona do Campo Alegre e uma planta da Rede Viária.

Novembro 1941

Exposição Nova Arquitectura Alemã em Lisboa

“Em 8 de Novembro de 1941, inaugurou-se em Lisboa a notável exposição Nova Arquitectura Alemã organizada pelo Inspector Geral de obras da capital do Reich, Arquit. Albert Speer, em colaboração com o Grémio Luso-Alemão e com a representação lisboeta da RDV. Presentes o Presidente da República, General Carmona, e o ministro das Obras Públicas, Eng.º Duarte Pacheco (o Presidente do Conselho, Prof. Salazar, visitou-a mais tarde). Depois dos cumprimentos ao Presidente apresentados pelo ministro da Alemanha, Von Hoyningen-Huene, e pelo presidente da Sociedade das Belas Artes, Eugénio Correia, o Chefe do Estado visitou a exposição na companhia de Speer e dos organizadores e pediu explicações pormenorizadas sobre as obras dos arquitectos Troost, Speer e Kreis. Uma hora depois e apesar da chuva intensa que caía nesse dia, uma multidão aguardava em frente da Sociedade das Belas Artes para assistir à partida do General Carmona. No dia seguinte, ao saírem em grandes títulos na imprensa portuguesa as notícias da exposição, doze mil interessados foram visitá-la, apesar da chuva persistente e da enchente de visitantes, que obrigou a polícia a encerra-la temporariamente. Nos catorze dias que a exposição esteve aberta ao público, mais de cem mil visitantes ali acorreram, o que fez dela a maior até então exibida em Portugal. Dado o grande interesse demonstrado e a rapidez com que os milhares de prospectos se esgotaram, foi publicada uma obra bilingue de grande formato profusamente ilustrada que reproduzia em papel de boa qualidade as obras principais.” (Reinhard Schwarz “Os Alemães em Portugal, 1933 – 1945. A Colónia Alemã através das suas instituições”, Antília Editora, Porto, 2006)

A 7 de Dezembro de 1941 dá-se o ataque japonês a Pearl Harbor, conduzindo à entrada na guerra dos Estados Unidos.

Fevereiro 1942

Em Fevereiro de 1942 são realizados os esboços dos planos Matozinhos, Leça e VN Gaia

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Antão Almeida Garrett “História da Evolução dos Planos Gerais de Urbanização da Cidade do Porto”

Março 1942

A 17 de Março de 1942 as linhas gerais do plano são enviadas para Milão

Outubro 1942

O arquitecto Muzio envia um último esquema do Plano, introduzindo a ligação entre a rotunda da Boavista e Leixões, definindo as zonas industriais e residenciais, as zonas dos bairros operários e o Parque da Cidade.

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Antão Almeida Garrett “História da Evolução dos Planos Gerais de Urbanização da Cidade do Porto”

1943

Em 29 de Abril de 1943, o Gabinete da CMP recebe uma carta do arquitecto Muzio solicitando a opinião do Ministro sobre os estudos do Plano, então já definitivamente adiantados. Quando tudo se encaminhava para a concretização do Plano da Cidade do Porto, a evolução da 2ª guerra mundial e, sobretudo a morte do ministro Duarte Pacheco irão condicionar a elaboração do plano e cessa a colaboração de Giovanni Muzio com a CMP.

A elaboração do Plano do Porto só será retomada em 1945, no final da guerra e já integrada em novo quadro legislativo, de que será encarregado o eng. A. Almeida Garrett.

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