Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















domingo, 19 de dezembro de 2010

Os Bairros Sociais no Porto II

Os Bairros da República

Com a República o problema da habitação, particularmente nas duas maiores cidades, é objecto de preocupação e de intervenção do Estado, apesar de este não ter construído uma única habitação, cabendo apenas às Câmaras Municipais a sua realização.

Logo em 12 de Novembro de 1910 publica-se um Decreto sobre as rendas que introduz as seguintes condições:

(a) pagamento das rendas das casas ao mês, em vez de ser ao semestre ou trimestre, como até aí;

(b) congelamento das rendas de casa, permitindo apenas a sua actualização de dez em dez anos até 10%;

(c) condicionamento dos despejos. (Carlos Nunes Silva - Mercado e políticas públicas em Portugal: a questão da habitação na primeira metade do século XX Análise Social, vol. XXIX (127), 1994)

A Câmara Municipal do Porto no prosseguimento dos Bairros promovidos pelo jornal “O Comércio do Porto”, entre 1914 e 1917 a CMP constrói para venda um conjunto de 191 fogos distribuídos pelas “Colónias Operárias” Antero de Quental (1914/17), Estêvão de Vasconcelos (1914/17), Viterbo de Campos (1916/17), e Dr. Manuel Laranjeira (1916/17).

Colónia Antero de Quental 1914

Promovida pela Câmara Municipal do Porto e localizada na freguesia de Campanhã, junto do Bairro do Bonfim.

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O bairro estrutura-se com os lotes agrupados em 4 formando quarteirões. A frente exterior do lote varia entre 6,5 e 11,5 metros.

O acesso às duas habitações da frente é feito através da via primária e às duas de trás por vias secundárias.

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Vias principais

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Vias secundárias

Compõe o bairro 28 casas térreas com sala, 2 quartos, cozinha e wc. e com jardim à frente ou nas traseiras, permitindo aproximadamente 80 habitantes.

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Ocupação dos lotes

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Colónia Estêvão de Vasconcelos 1914

Promovida pela CMP e localizada na freguesia de Ramalde

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Na planta do Guia do Porto Illustrado 1910

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No levantamento de 1948

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No Google Earth

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Os lotes com uma frente exterior que varia entre 8,5 e 15 metros, dispõe-se ao longo de ruas secundárias paralelas com nomes de castelos de Portugal

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Vias principais e Vias secundárias

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Os espaços públicos situam-se na periferia do bairro junto às vias envolventes.

As tipologias das Habitações

Habitações tipo 1 - 72 casas térreas dispondo de sala, 2 quartos, cozinha e WC, situado entre as casas.

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Habitações tipo 2 - 20 casas térreas com sala, 3 quartos, cozinha e WC, agrupadas quatro a quatro, com pátio central.

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Habitações tipo 3 - 20 casas com rés do chão com sala, quarto, cozinha e WC, e cave com 3 quartos.

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Número total de habitações 112, correspondente a cerca de 330 habitantes

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Colónia Viterbo de Campos 1916/17

Promovida pela CMP e localizada na freguesia de Lordelo do Ouro

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Na planta do Guia do Porto Illustrado 1910

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No levantamento de 1948 – repare-se que o bairro ainda está completo.

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No Google Earth

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No Google Earth – o bairro na actualidade reduzido a 9 quarteirões

Os lotes com uma frente de 8 metros, dispõe-se entre duas ruas paralelas.

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Vias principais.

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Vias secundárias.

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Espaços públicos

O bairro tem sensivelmente a meio da fila de habitações que abrem para a via principal um largo com uma área correspondente a um dos lotes.

As tipologias das habitações

O bairro é constituído por 64 casas idênticas, de rés do chão e 1 piso, com jardim, agrupadas 4 a 4. No rés do chão situa-se a sala, 1 quarto, cozinha e WC e no piso 3 quartos.

Permitia albergar cerca de 270 habitantes mas 6 conjuntos de habitações foram destruídas pela construção da Ponte da Arrábida.

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Sobretudo pela arquitectura das habitações, nomeadamente a forma das coberturas, a Colónia Viterbo de Campos parece ter sido algo influenciada pelo Agneta Park construído em Delft na Holanda em 1884 pelo arquitecto paisagista Jan David Zocher, II (1791?-1870?) e pelo arquitecto J. C. van Marken (1845? –1906?), um bairro popular situado dentro de um parque.

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Planta do Agneta Park em Delft

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Duas fotografias das habitações no Agneta Park no início do século XX

Colónia Manuel Laranjeira 1917

Promovida pela CMP situa-se na freguesia de Paranhos.

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Na planta do Guia do Porto Illustrado 1910

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No levantamento de 1948

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No Google Earth

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Os lotes com uma frente exterior que varia entre 6,75 e 13,5 metros, dispõe-se ao longo das vias secundárias perpendiculares às duas vias principais que limitam o bairro a norte e a sul.

O acesso às habitações é feito através das vias secundárias, com nomes de actores.

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Vias principais e vias secundárias

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O bairro dispõe de uma praceta a poente onde está instalado um fontanário.

O bairro é constituído por 92 habitações agrupadas formando quadrados de 4 ou de oito casas, correspondendo a uma população de cerca de 370 moradores

Tipologia das habitações

As habitações são térreas, constituídas por uma sala, 2quartos, cozinha e WC. Tem um jardim à frente ou um jardim à frente e em um dos lados.

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16 Habitações agrupadas em oito constituídas por uma sala, 2quartos, cozinha e WC.

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56 habitações térreas constituídas por uma sala, 2 quartos e cozinha. O WC encontra-se junto às cozinhas entre as habitações.

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12 habitações térreas constituídas por uma sala, 2 quartos e cozinha. O WC encontra-se do lado exterior das cozinhas entre as habitações.

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O Decreto n.º 4.137 de 25 de Abril de 1918

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Em 1918 sob a presidência de Sidónio Pais é publicado o Decreto- Lei n.º 4.137 de 25 de Abril de 1918, que pretende atacar o problema da habitação com a criação de bairro de Casas Económicas.

Logo num extenso preâmbulo o decreto faz uma comparação entre a falta de iniciativas políticas em Portugal, face às “…nações mais adiantadas da Europa e da América (que) consagram os máximos esforços a estudar os melhores processos de debelarem as causas de descontentamento e de miséria dos mais infortunados. Uma dessas questões e da maior importância é a que se destina a conseguir a construção em grande escala das casas económicas, com todas as possíveis condições de conforto, independência e higiene, destinadas, principalmente nas grandes cidades, aos que, por carência de recursos materiais, têm sido obrigados até agora a viver em residências infectas, sem luz nem ar, e por isso gravemente nocivas à saúde dos que as habitam.”

Reconhecia que há muito tempo vinham sendo exigidas soluções, mas o Estado ainda nada fizera; elogia a iniciativa privada, apesar do carácter modesto
das suas intervenções, relevando a do jornal O Comércio do Porto. Previa consequências benéficas para as classes trabalhadoras, para o aumento do emprego e da riqueza circulante e um investimento rentável a médio ou longo prazo para o Estado.

No artigo 1º define-se Casas Económicas:

“Artigo 1º - Consideram-se casas económicas para os efeitos da aplicação deste decreto, as casas que se destinarem ao alojamento das classes menos abastadas, construídas nos centros de povoação, arrabaldes ou praias, e que satisfaçam às condições de salubridade e preço abaixo designados."

No Artigo 3º, apresentando um quadro, classificam-se as casas em quatro classes, de acordo com o número de quartos habitáveis de que dispunham e do seu preço locativo máximo, que variava, para o Porto e arredores, entre 10$00 para casas da classe l, com três ou mais quartos habitáveis, e 4$00 para casas da classe IV, com um quarto isolado.

Nada mais se adianta na legislação quanto à localização, variações tipológicas, formas de associação ou outros, que regulamente a distribuição espacial da construção e inserção destes bairros no tecido urbano.

Apostava na posse da habitação, modelo para o qual estavam a caminhar os países mais adiantados (França, Inglaterra, Bélgica e Itália), referindo a regulamentação que estes tinham nesse sentido e que, no caso inglês, remontava a 1837.

O decreto valorizava nos seus artigos 4º e 5º a casa unifamiliar e isolada, mas aceitava os agrupamentos ou bairros, aos quais impunha condições, nomeadamente a de terem “…sempre na retaguarda um terreno com a largura mínima de 4 m e, sendo possível, um pequeno jardim à frente”, ruas de largura mínima de 10 m, pavimento macadamizado ou calçado, passeios laterais e encanamentos completos para vazão das águas fluviais e caseiras ligados ao esgoto público.

O decreto, no seguimento das ideias da época, continua a ter uma preocupação fundamental com a salubridade e a higiene propondo a criação de Comissões que avaliariam as condições dos bairros, podendo aprovar ou retirar licenças de salubridade. Também propunha a instalação de fontanários, lavadouros e iluminação e limpeza semelhante a qualquer outro bairro. Propunha-se ainda, seguindo as experiências de outros países europeus a criação nos bairros de escolas e creches e “…quando estes forem afastados dos centros industriais ou comerciais” transportes baratos. (cf. Maria Júlia Ferreira - O Bairro Social do Arco do Cego — uma aldeia dentro da cidade de Lisboa in Análise Social, vol. XXIX(127), 1994)

O Decreto nº 4137, de 25 de Abril de 1918, e a legislação complementar produzida até 1919, provocou a criação em Lisboa dos Bairros do Arco do Cego, o da Ajuda, Alcântara e Braço de Prata, em Lisboa. Destes destacam-se o Bairro do Arco do Cego, com projecto de Edmundo Tavares e Frederico Machado (469 casas), e o Bairro da Ajuda (264 casas). E embora a construção do Bairro do Arco do Cego tenha começado em 1919, e a do Bairro da Ajuda em 1920, problemas financeiros fizeram parar as obras em 1922, sendo a sua construção retomada em 1927, após a queda do regime republicano, e finalmente, concluídos em 1931 sendo inaugurados com grande aparato pelo Estado Novo como de uma obra dele se tratasse

No Porto este Decreto veio possibilitar à Câmara Municipal do Porto, na afirmação do dinamismo municipal e baseando-se na experiência das Colónias Operárias que vinha promovendo desde 1914, a construção do Bairro Sidónio Pais na zona da Arrábida.

O Bairro Sidónio Pais 1919/29

O bairro localiza-se na freguesia de Lordelo do Ouro junto e a norte da Colónia Viterbo de Campos.

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Na planta do Guia do Porto Illustrado 1910

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No levantamento de 1948, junto à colónia de Viterbo de Campos.

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No Google Earth

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A legislação publicada pelo Estado tinha como objectivo incentivar a construção pelos privados de habitações de boa qualidade para os trabalhadores. No entanto perante o desinteresse dos privados e do próprio Estado a construção do Bairro Sidónio Pais foram desencadeadas algumas acções, destacando-se o caso da construção do Bairro Sidónio Pais (actualmente Bairro da Arrábida), acabou por ser promovida pela Câmara Municipal.

O Bairro é constituído por 100 habitações, podendo ser ocupada por aproximadamente 300 habitantes.

Os lotes com uma frente variando entre os 4 e os 8 metros, dispõe-se formando três quarteirões.

O acesso às habitações é feito através das vias principais e secundárias.

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Vias principais

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Vias secundárias

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Espaços públicos - no limite da propriedade criando pequenas pracetas com jardim. Tem um fontanário.

Tipologia das habitações

24 casas térreas com uma sala/quarto, cozinha e WC, possuindo um pequeno jardim.

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32 casas térreas com sala, quarto, cozinha, com a possibilidade de serem ocupados de diversas formas. Tem o WC no logradouro. Possuem um pequeno jardim.

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12 casas situadas nos cunhais, de rés de chão com sala e cozinha, e 1º piso com 1 quarto e uma alcova. Tem o WC no logradouro. Possui um pequeno jardim.

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32 casas com rés do chão com sala e cozinha e 1piso com 2 quartos. Tem o WC no vão da escada e um pequeno jardim.

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Número total de habitações : 100 aproximadamente 300 habitantes

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O conjunto e a articulação dos 3 tipos de habitação

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Alçado dos cunhais

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Panorâmica do Porto mostrando a zona de Massarelos e Lordelo do Ouro antes do início da construção da ponte da Arrábida c.1950

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De notar a actividade no Douro, e a proliferação de chaminés de fábricas. Ao fundo a Colónia Viterbo de Campos e o Bairro Sidónio Pais ainda intactos.

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Pormenor da foto mostrando os bairros.

Fotografia realizada durante a construção da ponte da Arrábida c. 1958, onde se observa a Colónia Viterbo de Campos e o Bairro Sidónio Pais ainda intactos.

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À esquerda em primeiro plano a Casa Rosa da FAUP. Ao fundo os Bairros e o arranque da ponte.

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Detalhe da foto com os dois bairros.

Bairro Ignez 1915

Não pertencendo à iniciativa municipal no período da 1ª República é de referenciar o Bairro Ignez. No último ano do século XIX é comprada aos condes de Burnay, uma parte do convento de Monchique para a instalação de uma fábrica de serraria, carpintaria e pregaria.

Em 1915 é formulado à Câmara do Porto, um pedido do engenheiro Eleutério Adolfo Moreira da Fonseca no sentido de transformar a fábrica de pregaria "União Industrial Portuense" num "bairro de casas baratas para operários". O bairro é construído segundo um projecto Inácio Pereira de Sá.

O bairro foi recuperado por Fernando Távora nos finais do século XX.

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A fábrica de serração junto ao Convento de Monchique na planta de 1892

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No Guia do Porto Illustrado 1910

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Alçado voltado ao rio Douro

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Alçado norte

A localização dos bairros

planta geral

Implantação esquemática dos bairros

A verde os bairros da 1ª geração

A Azul os bairros da 2ª geração

Nota final – Torna-se necessário fazer um levantamento fotográfico actualizado destes bairros, já que muitos deles estão já bastante alterados na sua arquitectura, se bem que conservam, de um modo geral, a sua estrutura.

10 comentários:

  1. ler o seu blog e' um prazer.

    numa e'poca em que qualquer um escreve qualquer coisa independentemente de ter algum conhecimento para tal e a correr abre um blog ou escreve num jornal, haver alguem que se ve que sabe sobre o que escreve e' raro.

    ainda e' mais raro saber transmitir esses assuntos de uma forma intteressante a um leigo, como e' o meu caso.

    excelente!

    grouchomarx

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  2. Caro Ricardo Figueiredo, quero felicitá-lo por estes postais e ficarei a aguardar pelos próximos capítulos. Mas também gostaria de dizer que se devia fiar menos na bibliografia "lisboeta" e consultar mais a bibliografia portuense sobre o tema; é que revela muitas confusões, lacunas e alguns erros que, no entanto, não mancham o empreendimento. Prometo, assim que tiver tempo, fornecer informação mais correcta e actualizada que nos ajude a compreender e esclarecer alguns aspectos focados. E também gostava de saber qual a fonte das plantas apresentadas, que são verdadeiramente um achado. Cumprimentos PA

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  3. Caro PA: O Levantamento dos bairros destes dois primeiros textos, foram inicialmente realizados no âmbito de uma disciplina leccionada na Faup nos anos 90 do século passado, e posterormente tratados. Quanto às imprecisões (ou erros)fico aguardando as correcções, já que para isso é que serve o blogue.

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  4. Antes de mais excelente blog! Cheguei aqui quando estava à procura de plantas do Mercado Ferreira Borges.
    Tenho uma proposta para si:
    Eu também tenho um blog sobre o Porto (oporto3d.blogspot.com) cujo objectivo e documentar o processo de construção do porto em modelos tridimensionais para o google earth por mim e mais dois colegas.
    A proposta é a seguinte: um link mutuo em cada um dos blogs...
    E, já agora, peço permissão para usar os alçados do Mercado e, mais tarde, de outros edifícios.

    Os melhores cumprimentos.
    Bruno Quelhas

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  5. Parte I

    Motivos pessoais afastaram-me da rede e só agora retomo os meus comentários na série Bairros Sociais do Porto.
    Então…

    A tomada de consciência das elites portuenses pela nova cidade que habitam (as fronteiras da cidade concelho ficaram definidas em 1895) revela uma visão que conjuga urbanidade e campo; um aglomerado populacional muito concentrado no centro histórico, uma cintura industrial poderosa, mas já em declínio, e o crescimento populacional e habitacional que se estendia pelas vielas populares da periferia e pelas vias pontuadas de habitações burguesas com os seus cumpridos quintais onde se construíam “casas” para alugar.

    A cidade do Porto, no princípio do século XX, vive um clima de grande agitação social, cultural e económica, beneficiando de variados transportes modernos, do Porto de Leixões, de mão-de-obra abundante e barata, muita a trabalhar por conta própria nas casas das “ilhas” [G. M. Pereira (1995) estima que, no final do séc. XIX, existam 10 mil teares a funcionar nas casas das famílias pobres, nas “ilhas”]. Tudo isso, combinado com enormes deficiências sanitárias, no acesso a água potável, na higiene pessoal e pública, resulta em altas taxas de mortalidade e mortalidade infantil, acima da média nacional. Registam-se também altas taxas de natalidade; o conceito de família, por exemplo, é muito mais alargado, é bastante comum os casais juntarem-se sem contraírem matrimónio, mesmo tendo filhos.

    As colónias operárias da câmara municipal são uma tentativa de resposta a esta realidade, conhecida dos decisores, que Ricardo Jorge na viragem do século relacionou a focos de doenças infecciosas. É interessante verificar que as colónias seriam construídas como uma continuidade das “ilhas”. A colónia de Manuel Laranjeira foi construída ao lado da “ilha” de Salgueiros, que nascera junto à fábrica com o mesmo nome; a colónia de Viterbo Campos, ao lado de umas casas de maior qualidade que as das ilhas, que a Fiação do Jacinto construíra nas traseiras de um terreno dos Burmester, na Arrábida [Pereira (1995); estas casas, aparentemente, desapareceram com a construção do Bairro da Arrábida ou com os acessos à Ponte Arrábida].

    O Decreto n.º 4.137, de 24 de Abril de 1918, a primeira legislação em vigor destinada à construção de habitação, definindo casa económica (que podemos entender como Habitação Social, prevendo a construção de quartos para arrendamento), apresentava incentivos e benefícios ao investimento privado em habitação plurifamiliar até cinco andares [como os prédios do Bairro do Arco do Cego (1919-1935)] ou unifamiliar, ordenadas conforme o tipo, ligadas ao sistema de saneamento, com arruamentos e renda fixa, admitindo-se o aluguer de quartos (art.º 3.º a 6.º).

    O objectivo final da legislação é a construção de habitação para arrendamento, incentivando a iniciativa privada (a regulamentação da construção e venda de casas, a cargo da Secretaria de Estado do Comércio, encontra-se no Decreto n.º 4.440, de 14 de Junho de 1918). Mas o diploma prevê, no seu art.º 15.º, que o Estado construa “grupos de casas baratas quando circunstâncias especiais e urgentes o aconselhem”.

    Embora sem dados consistentes que permitam uma conclusão definitiva, parece ter faltado o sentido de oportunidade no lançamento desta legislação, apenas porque Portugal e a Europa viviam uma crise extrema provocada pela I Guerra Mundial, desviando o investimento privado para esse fim. A urgência em apresentar obra feita levou a que fosse o Estado a avançar com os empreendimentos no Porto e Lisboa. No caso do Porto, a construção do Bairro da Arrábida (1918-1930), prevista no art.º 1.º do Decreto n.º 4.163, de 25 de Abril de 1918, é uma iniciativa de promoção exclusivamente estatal. O Estado avança com um subsídio de 250 contos para aquisição de terreno e construção de 100 casas baratas para operários, que devem ser amortizadas pelos locatários por um período de 20 a 30 anos.

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  6. Parte II

    A oportunidade privada parece não surtir efeito, enquanto a estatal foi-se atrasando, sobretudo em Lisboa. A legislação é lançada por um governo ditatorial (cujos ministros, mais tarde, vão engrossar a classe dirigente do Estado Novo) e numa altura de grande agitação social e económica; em 1918, há soldados portugueses a combater em França; Sidónio Pais é assassinado poucos meses depois de se ter (auto)elegido Presidente da República, mas teve ainda tempo para inaugurar as primeiras 35 casas do Bairro da Arrábida (www.monumentos.pt, freguesia de Massarelos).

    Mesmo assim, a cidade do Porto regista obra feita, de acordo com a lei de 1918: bairros de iniciativa privada. Um deles, injustamente esquecido, é o Bairro da Areosa (1921), 42 casas mandadas construir pelo dono do jornal «O Primeiro de Janeiro», para servir os funcionários da fábrica de Fiação da Areosa, Azevedo, Soares & C.ª. O outro, 30 casas junto à Circunvalação, iniciativa do legado de um benemérito da Misericórdia, é o Bairro dos Pobres de António Monteiro dos Santos (1927).

    Os bairros de Lisboa, do Arco do Cego e Ajuda, inaugurados já depois da publicação do decreto de 23 de Setembro de 1933, que lança em definitivo as casas económicas, são minuciosamente criticados e depois reclamados pelo regime autoritário. Não conheço os bairros de Alcântara e Braço de Prata, sendo poucas as referências a eles, mas parecem-me ser de iniciativa privada – pela proximidade das fábricas de Abel Pereira da Fonseca, por exemplo –, e edificados de acordo com o espírito da lei original.

    O Estado Novo começa apenas em 1933, com a promulgação da nova Constituição Política. Os bairros do Arco do Cego e Ajuda são terminados já durante o novo regime (que assumiu todos os rituais autoritários que vingavam na Itália e Alemanha) e já depois da inauguração do primeiro bairro de casas económicas saído do Decreto-lei n.º 23.052, de 23 de Setembro de 1933. E onde nasceu esse bairro? No Porto! O primeiro bairro de casas económicas do Estado Novo, habitação unifamiliar geminada, duas a duas, com quintal e logradouro, em regime de renda resolúvel a amortizar por funcionários públicos e sócios dos sindicatos nacionais durante 20 anos, foi edificado no Porto, entre 1934 e 1935, no lugar do Ilhéu, em S. Roque da Lameira. Mas lá iremos.

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  7. Parte III

    No período da ditadura militar (1926-1933) houve ainda dois decretos importantes que estão na origem de um pequeno bairro do Porto, raramente referenciado (o injustamente esquecido Bairro da Garantia 1928-1929 [www.monumentos.pt, freguesia de Paranhos]). Em 1928, o Governo ditatorial de Óscar Carmona cria um fundo nacional de construções e rendas económicas, “destinado a promover e subsidiar a iniciativa particular de construções e o barateamento das rendas de casas e de quartos para habitação das classes média e operária”. O fundo, inscrito no orçamento do Estado, concedia empréstimos ou subsídios às mesmas entidades enunciadas em 1918. Ainda no mesmo ano, em Outubro, já com Salazar e Duarte Pacheco no Governo, são “ampliados” os incentivos à iniciativa privada e defende-se que “as obras a realizar não podem ser executadas pela administração do Estado ou, em escala razoável, pelos municípios”. Notável que a partir de 1933 “toda” a iniciativa habitacional portuguesa pertença ao Estado, quer seja em regime de arrendamento ou renda resolúvel, quer seja para as classes menos solventes ou para as mais solventes, para pobres e ricos. E apesar de nunca se ter construído tanto, a oferta nunca alcançou a procura, situação que só se inverteu no final do século XX, mas com os centros históricos das cidades degradados, devolutos e despovoados, como no Porto.

    Termino aqui e passarei para a minha última intervenção na caixa de comentários da série Bairros Sociais do Porto em “Do Porto e não só”.

    [O desfasamento entre as datas do Decreto n.º 4.137, de 24 de Abril de 1918, refere-se certamente ao critério publicação/assinatura: apesar de publicado no Diário do Governo de 25 de Abril, o decreto é assinado por Sidónio Pais em 24, data que privilegiei em todas as identificações do normativo legal].

    Cumprimentos
    PA

    PS: Noto que a minha intervenção está a "tentar" transformar os seus postais em imagens complementares destes textos. É um erro que tentarei suprimir na minha última intervenção.

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    Respostas
    1. Obrigada por referir o Bairro Garantia, de que nada sei. Passo por lá imensas vezes, já que moro em S. Mamede de Infesta. Olho sempre aquelas casas lindíssimas, mas sempre de fugida, nunca lá fui a pé para tirar umas fotos. No site da Remax está uma das casas à venda, com alguns dados e fotos. Os bairros construídos para os empregados de uma empresa também se chamam bairros sociais?

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  8. De; Sérgio Lisboa

    Caro Sr. Ricardo Figueiredo.
    O muito tenho a louvar pessoas como o senhor, pois disponibilizou um documento em vários, que numa busca sobre os bairros portuenses, vim ter aqui e muito me congratulo por isso.
    Já serviu para dar as minhas aulas sobre Urbanismo e retratar como exemplo, mais, estou em vias de reconstruir uma casa na Arrábida nesse mesmo Bairro, e andei à procura de elementos como plantas e história do local.
    Com os alçados que disponibilizou, consegui conjuntamente com o levantamento da casa, fazer o projecto inicial e posteriormente fazer as alterações, respeitando sempre o aspecto formal da habitação.
    Devo confessar, que não sou um expert em matéria de informática e destas coisas; mas não pude deixar de tentar, e escrever estas palavras de agradecimento pelo seu trabalho.
    Sempre que posso virei cá, pois em outros artigos seus, vão ser um ponto de partida para aprofundar os meus estudos. Sou do Porto mas estou em Luanda a leccionar arquitectura e pretendo trabalhar cá em matéria de urbanismo e publicar algo referente a esse trabalho.
    São pessoas como o senhor que nos fazem crescer e motivar para que a "obra nasça".
    Um bem aja deste amigo, "de trás de um monitor"

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  9. a leitura deste blog é um excelente trabalho sobre o Porto.No entanto os comentários são também eles, muito ricos e ajudam a conhecer melhor esta cidade.muito obrigado.Castro Freitas

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