Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010

Os Bairros Sociais no Porto I

Introdução

A cidade do Porto ainda hoje é marcada pelo enorme conjunto de bairros sociais, que nela se foram edificando, ao longo do século XX, sendo ainda hoje, quando o Porto perde população, uma das questões a resolver na cidade.

De facto a questão da habitação, e da irradicação das “ilhas” atravessou todo o século passado, sendo uma constante preocupação das administrações central e sobretudo local, originando pelo menos, cinco gerações de bairros sociais por vezes de iniciativa privada (mas que passaram para a administração local) e sobretudo de iniciativa da administração central e local:

1 os bairros de iniciativa de O Comércio do Porto

2 os bairros da República (as Colónias) e o Bairro Ignez

3 os bairros de Casas Económicas e o Bloco de Saldanha

4 os Bairros do Plano de Melhoramentos 1956-66 e a sua continuidade

5 o SAAL

6 o final do século XX

Nota -De cada uma destas “gerações” trataremos em próximas intervenções neste blogue, chamando a atenção para a articulação com os sucessivos textos “os Planos para o Porto” neste blogue.

A situação em Lisboa e no Porto

Com o Fontismo vai iniciar-se a industrialização em Portugal, atraindo às cidades de Lisboa e do Porto populações que vem trabalhar nas fábricas e nos serviços, como em muitas outras cidades europeias de igual dimensão. Lisboa e o Porto não estão contudo preparadas para este crescimento demográfico e para alojar este aumento considerável de habitantes. No espaço destes apontamentos não nos debruçaremos sobre as condições e as políticas de habitação nos finais do século XIX e inícios do século XX, remetendo para alguma biografia essencial:

Augusto Fuschini – Construção de casas económicas e salubres para habitação das classes pobres, Lisboa 1884

Guilherme Augusto Santa Rita - Habitação do Operário e Classes menos Abastadas, Lisboa, 1891

Ricardo Jorge - Demografia e Higiene da Cidade do Porto, Porto 1899

Caeiro da Matta - Estudos Económicos e Financeiros III, Habitações Populares, Imprensa da Universidade Coimbra, 1909);

Marielle Christine Gros – O Alojamento Social sob o Fascismo, Afrontamento 1982;

Manuel C. Teixeira - As estratégias de habitação em Portugal,1880-1940 - Análise Social, vol. XXVII (115), 1992 (1.°), 65-89);

Manuel C. Teixeira - A habitação popular no século XIX — características morfológicas, a transmissão de modelos: as ilhas do Porto e os cortiços do Rio de Janeiro, Análise Social, vol. XXIX (127), 1994 (3.0), 555-579)

Manuel C. Teixeira – Habitação Popular na Cidade Oitocentista. As ilhas do Porto, Lisboa, FCG/JNICT.1996

Nuno Teotónio Pereira- Pátios e Vilas de Lisboa, 1870/1930 in Análise Social, 127, Lisboa,1994

Fátima Loureiro de Matos Os bairros sociais no espaço urbano do Porto: 1901-1956 - Análise Social, vol.XXIX (127), 1994 (3.0), 677-695

Lisboa: os Pátios e as Vilas

Em Lisboa estas populações “operárias vêm-se então obrigadas a procurar alojamento em espaços desocupados ou velhos pardieiros arruinados, onde improvisam eles próprios precárias habitações ou se acomodam de qualquer maneira, sempre mediante o pagamento de uma renda ao proprietário. É assim que surgem os pátios.” (ver Nuno Teotónio Pereira- Pátios e Vilas de Lisboa, 1870/1930 in Análise Social, 127, Lisboa,1994). Estes pátios vão desenvolver-se por toda a cidade mas com uma maior concentração junto das zonas fabris e junto a instalações do porto de Lisboa. Um «pátio» situado no interior de um quarteirão era constituído por um conjunto de pequenas casas dispostas em torno de um espaço comum (o pátio). “Leite de Vasconcelos, na sua "Etnografia" fala deste fenómeno e aponta o Pátio do Biaggi, com as suas centenas de habitações, como o maior existente na capital. Entretanto desaparecido, localizava-se na rua das Amoreiras, junto ao arco do aqueduto das Águas Livres. “ “Desprovidos quase sempre de qualquer tipo de instalações sanitárias e de abastecimento de águas, os pátios não dispunham de condições de salubridade mínimas, ao que acrescia a sua localização térrea, exposta assim às humidades, e à ausência de radiação solar, por se encontrarem ensombrados, muitas vezes em caves atrás de prédios.” Na segunda metade do século XIX os «pátios» tornaram-se uma forma dominante de habitação popular em Lisboa. (Nuno Teotónio Pereira, op.cit.). Em 1905 havia 233 «pátios» em Lisboa, com um total de 2278 habitações e alojando 10487 pessoas (Caeiro da Matta - Estudos Económicos e Financeiros III, Habitações Populares, Imprensa da Universidade Coimbra, 1909).

Deixaremos, para outro texto o caso de Lisboa, sem deixar de apenas apontar algumas das realizações da capital. Assim refira-se a Vila Luz Pereira, o Pátio Bagatella de 1890, a Vila Rodrigues de 1902, a conhecida Vila Berta de 1902/08 , a Vila Gadanho de 1908, a Vila Celeste de 1910, a vila Gadanho e a Vila Cândida. E na procura de resolver algumas situações o Bairro operário na calçada dos Barbadinhos 1880/1891, o concurso nacional para os bairros económicos de 1897, e os conhecidos Bairro Estrela de Ouro de 1908 mandado edificar pelo industrial Agapito Serra, com um projecto do Arquitecto Manuel Norte Júnior e o Bairro Grandella de 1910.

Nota - Sobre os pátios e as vilas de Lisboa, para além dos textos citados, ver Ana Leonor Tomás, Cidade Oculta – A Vila Operária, intervenção em Vazios Úteis – Seminário Estudos Urbanos – ISCTE/ Julho 2007


O Porto e as ilhas

No entanto é no Porto com o fenómeno das “ilhas” que o problema atinge proporções que estão na origem da traumatizante epidemia de peste de 1899, que condicionará toda a política de alojamento e mesmo a evolução urbana do Porto ao longo do século XX.

O Porto tem um rápido crescimento demográfico:

De facto a “…população da cidade e o número de trabalhadores industriais aumentaram consistentemente ao longo da segunda metade do século. De 86 761 habitantes em 1864, a população do Porto cresceu para 105 838 habitantes em 1878, 138 860 em 1890 e 167 955 em 1900, isto é, um aumento de 81 000 habitantes, quase duplicando a sua população num período de 36 anos. Entre 1878 e 1890, o período crucial de desenvolvimento do Porto, cerca de 25 000 dos 33 000 novos habitantes da cidade neste período eram imigrantes. Perto de um terço da população do Porto em 1890 consistia de pessoas de origem rural que tinham vindo trabalhar para a cidade. A incorporação de duas novas freguesias e a promoção de novas zonas residenciais e industriais haviam aumentado quatro vezes a área construída do Porto relativamente a 1865.” ( Manuel C. Teixeira - A habitação popular no século XIX — características morfológicas, a transmissão de modelos: as ilhas do Porto e os cortiços do Rio de Janeiro, Análise Social, vol. XXIX (127), 1994 (3.0), 555-579)

E a cidade não está preparada para acolher esta população, desenvolvendo-se o fenómeno das ilhas.

O Dr. Ricardo Jorge, com um papel determinante, no surto de peste bubónica, escrevia em 1889 "( ...) Em compensação vulgarizou-se no Porto um género especial de habitações colectivas, conhecidas pelo nome de "ilhas". Já no século passado rebelo da Costa diz haver na Sé e Santo Ildefonso "casas que têm 15 famílias diferentes e que pela sua dilatada extensão se chamam ilhas". Esta criação caseira do proprietário indígena prosperou e multiplicou; não melhorou por certo de construção nem de aluguer mas piorou na acumulação, porque as há que albergam dezenas de famílias. São renques de cubículos, às vezes sobrepostos em coxias de travesso. Esta âmbito, onde se empilham camadas de gente, é por via de regra um antro de imundíce; e as casinhas em certas ilhas, dessoalhadas e miseráveis, pouco acima estão da toca lôbrega dum trogolita. Existem estes ruins espécies disseminados por toda a cidade, mais frequentes no Carvalhido, Paraíso, Fontinha, S. Victor, Antas, Montebelo, Fontainhas, etc. (...) São o acoito das classes operárias e indigentes que mercê dum aluguer usurário, pagam o seu direito de residência a preço mais subido do que as classes remediadas. Há no Porto 1048 ilhas com 11 129 casas, o que dá uma média de 10,6 casas por ilha. São pois 11 129 fogos de residência, o que corresponde aproximadamente a perto de 50 mil moradores (...) Vê-se que quase metade da gente do Porto mora e acama-se nas ilhas, gerando uma acumulação insalubérrima."

As ilhas “(…)consistiam em filas de pequenas casas de um único piso, geralmente com áreas que não excediam os 16m2. A maior parte das «ilhas» não tinham abastecimento de água e os sanitários eram comuns a todos os seus habitantes. O acesso a estas «ilhas» fazia-se através de estreitos corredores, que passavam por baixo de casas construídas à face da rua. As «ilhas» não tinham qualquer relação formal com anteriores tipos de habitação, quer rural, quer urbana. Elas eram uma forma de habitação específica, desenvolvida para satisfazer a procura de habitação barata por parte das classes trabalhadoras. A maior parte das «ilhas» localizava-se em zonas da cidade construídas nas primeiras décadas do século como zonas residenciais das classes médias e que ao tempo de construção das «ilhas» se encontravam já num processo de decadência. As maiores concentrações de «ilhas» encontravam--se na proximidade de zonas industriais, onde por vezes atingiam densidades de até 900 habitantes por hectare. As casas construídas nas «ilhas» representavam 65,5% do volume total de construção no Porto entre 1864 e 1900 Em 1899 existiam 1048 «ilhas», com 11129 casas, alojando 50000 pessoas. Em 1909 o número de «ilhas» tinha aumentado para 1200, com 12000 fogos. Em 1929 o seu número tinha ainda aumentado para 1301 «ilhas», com 14 676 casas.(TEIXEIRA, Manuel C.- As estratégias de habitação em Portugal,1880-1940 - Análise Social, vol. XXVII (115), 1992 (1.°), 65-89)

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A peste bubónica em 1899

Em 1899 o Porto assistiu a um surto de peste bubónica. A cidade foi posta em quarentena, com grandes repercussões psicológicas e sociais, conduzindo à tomada de consciência pelas administração central e local e a opinião pública do perigo que a falta de higiene e de condições das ilhas poderia provocar.

Os Bairros do início do século 20

Por toda a Europa, na transição dos séculos inicia-se a construção de bairros destinados a albergar estas populações operárias, de iniciativa privada e pública, e que irão influenciar os projectos dos bairros construídos ou apenas projectados em Portugal. Destacam-se, pela influência que a França tem na cultura portuguesa, dois exemplos:

As Cités Ouvrières de Mulhouse, na Alsácia, que terá profundo impacto no projecto dos primeiros Bairros do Porto e o “Concours pour la Construction d’un Groupe de Maisons a Usage de Petits Logements Salubres et Economiques” para Paris promovido pela Fundação Rothschild a partir de 1904, que formulará o modelo da construção de alojamentos sociais em prédio de vários pisos.

As Cités ouvrières de Mulhouse nascem a partir do bairro Jean Dollfus (1800-1887) em Mulhouse construído pela Société mulhousienne des cités ouvrières fundada em 1853. Em 1854 um primeiro bairro operário é projectado pelo engenheiro Emile Muller (1823- ), compreendendo duas tipologias: casas em banda e casas agrupadas em grupos de 4, com jardim, w.c., lavadouro,escola, padaria e talho, restaurante. O bairro vai aumentar em 1856 com a construção do bairro novo e em 1897 estão construídas 1243 casas.

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Vue perspective d’une partie des Cités ouvrières de Mulhouse
Dessin Lancelot, s.d. Archives municipales de Mulhouse

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Rue des cités ouvrières de Mulhouse – Boulangerie, Restaurant, Bains, et Lavoir public
Dessin Lancelot, s.d.Archives municipales de Mulhouse

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Cités ouvrières de Mulhouse – Pavillon pour quatre ménages - Dessin Lancelot, aprés une photographie

s.d. Archives municipales de Mulhouse

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foto 1985

Vai difundir-se a solução das 4 habitações agrupadas em cruz, que será adoptada em dois bairros da 1ª geração no Porto.

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La Construction Moderne 17 de Setembro 1898 – Quartier de la Capelette, Paris

O Concurso da Fundação Rothschild, é lançado em 1905 e termina em 1909, com um programa livre que apenas previa uma tipologia de edifícios de andares e o terreno do antigo hospital Trousseau em Paris. No entanto figurava em anexo ao programa do Concurso, um texto de Emile Cheysson que definia todo um conjunto de “condições higiénicas”, a que os projectos deveriam atender. Compunha-se de 9 pontos: Condições Gerais de Salubridade, Água, Water-Closets, Lixos Domésticos, Lavadouro e Secagem de roupa, Aquecimento, Iluminação, Mobiliário, Pátio, Compartimentos diversos, Carácter e despesas do programa. O concurso pela qualidade dos arquitectos concorrentes, entre os quais Tony Garnier, e pela grande projecção que teve, tornou-se um marco de referência para a projectação de habitações populares, em blocos. Nas duas soluções que se apresentam, os edifícios de andares organizam-se formando um quarteirão, cujo interior se abre para as ruas envolventes.

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1º classificado Projecto de Augustin Rey (1864-1934) planta do rés do chão

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1º classificado Projecto de Augustin Rey (1864-1934) alçado do conjunto rua de Praga

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Projecto de Augustin Rey (1864-1934)– Pormenor da fachada

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Planta do conjunto relaizado

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O edifício construído

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Projecto de Tony Garnier (1869- 1948) – planta do 1º ao 6º piso

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Projecto de Tony Garnier (1869-1948) perspectiva – publicado na La Construction Moderne, 7 de Dezembro de 1907

Em Portugal, como na Europa, surgem também, quer por preocupações higienistas e pela própria evolução do papel do Estado - administração central e local – quer pela necessidade de regulamentar as construções urbanas e substituir a insuficiente regulamentação dos Códigos Civis e das posturas municipais, novas regras.

Assim, em 1903 surge o Regulamento de Salubridade das Edificações Urbanas que explicita as "Condições Hygiénicas a adoptar na Construcção dos Prédios" , Approvado por dec. de 14 de Fevereiro de 1903, que vem complementar, e substituir as disposições do Código Civil.

Também crescem as preocupações com as condições de segurança dos operários surgindo “O Regulamento para o Serviço de Inspecção e Vigilância para a Segurança dos Operários nos Trabalhos de Construcções Civis”, approvado por decreto de 6 de Junho de 1895.

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Excerto do Regulamento de Salubridade das Edificações Urbanas de 1903

Por outro lado os tratados de arquitectura e os tratados de construção do século XVIII, vão dar lugar no século XIX aos Manuais.

Em Portugal, a par das revistas de Arquitectura, é criada a “Bibliotheca de Instrucção Profissional (Manual do Operario)” iniciada por Thomaz Bordallo Pinheiro.

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Rosto da 5ª edição do volume dedicado a Edificações da “Bibliotheca de Instrucção Profissional (Manual do Operario)”

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Página “Casas Económicas para Operários” do volume dedicado a Edificações da “Bibliotheca de Instrucção Profissional (Manual do Operario)”

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Planta do R/C e fachada principal– Sedes Sociais- Uma casa operária, “Construcção Moderna”, Ano VIII, nº 235, 20 de Setembro 1907

Os Bairros de O Comércio do Porto

No Porto, onde em 1904 se iniciam os primeiros trabalhos de abastecimento de água e de saneamento, em 1905 publica-se um código de posturas municipais determinando a necessidade de aprovação pelo Conselho de Melhoramentos Sanitários para obter uma licença de construção ou reconstrução de imóveis.

Logo em 1899 e tendo em conta a epidemia da peste, o jornal «O Comércio do Porto» promoveu uma subscrição pública, entre os emigrantes portugueses no Brasil, para construir uma série de bairros para as classes trabalhadoras denominados Colónias Operárias, em terrenos cedidos pela Câmara Municipal.

Caeiro da Matta escreve no seu estudo:

“Entre nós, ha no Porto, devida à benemé­rita iniciativa do jornal O Commercio do Porto, uma organização de bairros operários digna de menção.”

E refere os três bairros então construídos que, no entanto o próprio Caeiro da Matta, limita o alcance da iniciativa citando o mesmo jornal:
“Os bairros não foram feitos para abrigar operários indigentes; foram construídos para recolher os mais habeis, mais assíduos e mais morigerados operários, antes como prémio aos seus méritos do que como auxilio ás suas con­dições de existência. O rendimento dos bairros é fundido nos próprios bairros, pela ampliarão constante do numero de habitações que os constituem” (O Comércio do Porto, de 13 de dezembro de 1903. V. o mesmo jornal de 24 de março de 1901 e 2 de março de 1902)

O Bairro de Monte Pedral 1899/1905

“O primeiro bairro levantado foi o de Monte Pedral, construído por grupos de 4 e 2 casas independentes, com quintal e dispondo de um rez do-chão com sala de trabalho, quarto e cosinha com saída para o quintal, lendo junto a retrete com entrada exterior; no primeiro andar, dois outros quartos e arrecadação no vão do telhado; no sub-solo, quarto de banho. A renda das casas é de 1$500 réis mensaes. O custo do bairro foi de 13:945$160 réis.” (Caeiro da Matta)

De facto em 1901 o arquitecto José Marques da Silva é encarregado de projectar na zona do Monte Pedral, no cruzamento das ruas da Constituição e de Serpa Pinto, e entre o Quartel e o Matadouro, um bairro constituído por 26 casas geminadas ou agrupadas a quatro, de dois pisos e com um pequeno jardim, com uma renda mensal de 1$500 réis.

Em 1906 o bairro passou para a ser administrado pela Câmara Municipal do Porto.

O próprio Caeiro da Matta, mostra o carácter “paternalista” desta iniciativa citando o próprio jornal : “Os bairros não foram feitos para abrigar operários indigentes; foram construídos para recolher os mais habeis, mais assíduos e mais morigerados operários, antes como prémio aos seus méritos do que como auxilio ás suas con­dições de existência. O rendimento dos bairros é fundido nos próprios bairros, pela ampliarão constante do numero de habitações que os constituem” (O Comércio do Porto, de 13 de dezembro de 1903. V. o mesmo jornal de 24 de março de 1901 e 2 de março de 1902).

Por isso na fachada do Bairro em azulejo se coloca a divisa Labor, honor.

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O Monte Pedral na planta de 1892 – 1 Quartel 2 Matadouro

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O Monte Pedral na planta de c. 1907 do Guia do Porto Illustrado 1910

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BAIRRO OPERÁRIO “O COMÉRCIO DO PORTO” MONTE PEDRAL 1899 Plantas Geral e dos pisos escala 1/1000 e 1/200

tinta da china s/ aguarela s/ papel opaco 49,5x63,5 cm IMS/AJMS

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Detalhe da imagem anterior PLANTA GERAL orientada a norte, mostrando o projecto com habitações agrupadas em 4, geminadas e em banda.

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Pormenor com a Planta dos Rez-do-Chão, Planta do 1º Andar e Planta do Sub-Solo

As casas tinham no rés do chão uma sala de estar, uma cozinha e um quarto, no piso dois quartos, um sótão e um WC situado na cave. Possuíam ainda, um pequeno jardim.

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BAIRRO OPERÁRIO “O COMÉRCIO DO PORTO” MONTE PEDRAL 1899

Cortes e fachada lateral escalas 1/100 e 1/200 grafite s/ papel opaco tinta da china s/ grafite s/ papel opaco 51,0x48,5 cm IJMS/AJMS

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BAIRRO OPERÁRIO “O COMÉRCIO DO PORTO” MONTE PEDRAL 1899

Estudo para a fachada principal escala 1/100 grafite s/ papel opaco 34,0x47,0 cm

IJMS/AJMS

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BAIRRO OPERÁRIO “O COMÉRCIO DO PORTO” MONTE PEDRAL 1899

Estudo de Alçados escala 1/200 aguarela s/ grafite s/ papel vegetal 22,0x54,0 cm IMS/AJMS

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Bairro “O Comércio do Porto”, 1905 Fotografia 23,5x17,6 cm IMS/AJMS

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Bairro de Lordelo do Ouro 1901/03

“O segundo bairro inaugurado foi o de Lordello do Ouro. Consta de um grupo de 29 casas, nas melhores condições hygienicas, e que occupam, com os quintaes, uma superfície de 2.880,86 m2. Ficam no pavimento terreo: uma sala de 3,40x3 m; uma alcova de 3x1,80 m; uma sala de jantar de 2,90x2,20 m e uma cosinha de dimensões eguaes ao compartimento anterior. A renda mensal é de 1$500 réis.” (Caeiro da Matta, op.cit.)

Também promovido pelo jornal O Comércio do Porto, projectado em 1901/02 pelo engenheiro Manoel Fortunato de Oliveira Motta, é construído em 1903 o Bairro Operário de Lordelo do Ouro, na freguesia do mesmo nome. É composto por 29 casas térreas (correspondentes a uma população de 152 habitantes), com uma área total de 23 metros quadrados, dispostas em banda. As casas são equipadas com poço, tanque e forno e jardim nas traseiras. Em 1932 passou a ser administrado pela Câmara Municipal do Porto.

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A localização do bairro na planta de 1892

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A localização do bairro na planta de c. de 1907 do Guia do Porto Illustrado 1910

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Fotografia de O Porto Visto do Céu, Argumentum 2000

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Os lotes dispõe-se transversalmente à rua principal. O acesso faz-se pelas vias secundárias.

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No Rés do Chão a porta de entrada abre para partir um corredor que dá acesso a uma sala comum com uma alcova e a uma cozinha que abre para um logradouro onde se situa o WC. O corredor dá ainda acesso a uma escada que leva ao 1º piso.

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O 1º piso organiza-se a partir de um pequeno hall que dá acesso a 2 quartos e ao sotão aproveitando o vão do telhado.

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Corte longitudinal pelo corredor

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Alçado principal

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Alçado posterior

Bairro operário do Bonfim 1904/08

Seguindo com Caeiro da Matta:

“Em 2 de junho de 1904 era inaugurado o terceiro bairro da iniciativa do Commercio do Porto – o bairro do Bomfim. Comprehende 32 casas, em grupos de quatro, com retretes exteriores, tendo cada uma um pequeno quintal. As casas teem uma sala de familia, cosinha, sala de jantar e dois quartos. A renda é de 1$200 réis mensaes.”

Caeiro da Matta acrescenta em rodapé o regulamento do bairro operário do Bomfim.

Construído, de facto, entre 1904 e1908, o bairro do Bonfim está localizado no Monte das Antas, freguesia de Campanhã, e foi projectado por Manoel Fortunato de Oliveira Motta e pelo eng. Joaquim Gaudêncio Rodrigues Pacheco.

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Localização do bairro na planta de 1892

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Localização do bairro na planta de c.1907 no Guia do Porto Illustrado 1910

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Os lotes com uma frente que varia entre os 7 e os 7,5 metros, agrupam-se em bandas de 16, criando quarteirões separados por ruas secundárias, a partir das quais se faz o acesso às habitações.

Os arruamentos tem nomes de personalidades ligadas ao jornal O Comércio do Porto.

O Bairro é constituído por 40 casas em agrupamentos de quatro, com dois pisos e quintal que permitem uma ocupação de 210 habitantes.

16 casas Tipo 1 com 2 Pisos

20 casas Tipo 2 com 2 Pisos

4 casas Tipo 3 com 2 Pisos.

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Casas tipo 1

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Rés do chão com sala, cozinha, quarto e WC no acesso e três quartos no 1º piso.

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Alçado

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Alçado

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Casas tipo 2

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Rés do chão com sala, cozinha, quarto e WC no acesso. Jardim na entrada.

Casa tipo 3

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Rés do chão com sala, cozinha, quarto e WC no acesso. Um quarto no 1º piso

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Alçado

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Alçado

Quadros comparativos dos três bairros

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Comparação dos 3 bairros na relação com as vias principais e secundárias

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Comparação dos 3 bairros na ocupação dos lotes.

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Localização dos três bairros numa planta da época – Guia do Porto Illustrado 1910

Esta localização na então, periferia da cidade construída, será determinante para a localização de muitos dos bairros das gerações seguintes.

7 comentários:

  1. Ricardo,

    Excelente este teu contributo para a história da nossa cidade.

    Um abraço
    Pedro Aroso

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  2. Parte 1
    Então se me der licença farei uma série de comentários aos seus interessantes postais, “Bairros Sociais”.

    Antes de mais, mil desculpas pela minha arrogância, quero apenas contribuir para melhorar o conhecimento e debate sobre a cidade. E, neste caso, a cidade industrial e pós-industrial. [Devo dizer, aliás, como terá percebido, que me chamo Paulo Almeida, embora continue a assinar como PA]

    Não o farei, mas seria importante definir habitação social. Habitação construída pelo Estado para alojar as famílias menos solventes? Habitação construída por privados para rendimento da propriedade (com preocupações sociais)? Construção de habitação destinada a quem?

    Abílio Cardoso dá um importante contributo nesta área em “Do desenvolvimento do planeamento ao planeamento do desenvolvimento”,1996, (Afrontamento), ao conceptualizar a crise de habitação.

    Quanto a mim, seria importante, neste primeiro capítulo, ir além das construções promovidas pelo “Comércio do Porto. Por que se constroem casas para arrendar/vender destinadas (supostamente) a operários? Trata-se de uma consequência (e uma oportunidade) da cidade industrial. O crescimento populacional da cidade é muito elevado; entre os séculos XIX e XX o Porto está transformado num enorme “entreposto populacional”, exportando mão-de-obra para as Américas, sobretudo Brasil; registando-se também uma considerável população flutuante, que acorre à cidade durante a semana, pernoitando em quartos subalugados ou nas “casas de malta”.

    A cidade vive uma agitação permanente durante 24 horas por dia, já que são muitas as fábricas a laborar em período nocturno, muito à custa de trabalho feminino e infantil. É nas “ilhas”, por exemplo – mas não as “ilhas” das traseiras das casas burguesas –, que, no final do século XIX, surgem os movimentos anarquistas e associativos que pugnam fortemente por leis laborais e pelo seu cumprimento. As “ilhas” são habitações precárias, barracas, que se constroem em becos, em terrenos desocupados, próximo do centro cívico da cidade e para lá da cintura industrial que se formou em Cedofeita, Campanhã, Bonfim e S. Ildefonso. (A definição de Teixeira está certa, mas incompleta, pois ele já não chegou a perceber as ilhas erradicadas pelo Plano de Melhoramentos; prefiro a de Abílio Cardoso e Gaspar M. Pereira, esta em "Famílias Portuenses na Viragem do Século 1880-1910", 1996, Afrontamento).

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  3. Parte 2
    Há de facto um sério e complicado problema habitacional no Porto na viragem dos séculos XIX e XX, mas ele não é motivo de grande preocupação para essa enorme massa que vive em precárias condições. Esse conjunto populacional vive como pode, com baixos salários e actualizações de rendas que não permitem sonhar com melhores condições habitacionais.

    A questão habitacional do Porto, antes de ser um problema para as classes menos solventes e operariado, releva-se como uma tomada de consciência das elites para as condições em que vivem “os outros”, a “populaça”. A investigação desenvolvida por Ricardo Jorge serve, antes de mais, para se perceber que os focos infecciosos que causam enorme mortalidade não poupam classes sociais, tanto atingem pobres como ricos, tanto afectam as miseráveis casas das “ilhas”, como as casas burguesas.

    Estranho, por isso, que já no século XXI, o nosso conhecimento não se afaste do roteiro proposto no magnífico trabalho de Marielle Christine Gros [(1982), “O Alojamento Social sob o Fascismo”, Afrontamento].

    – Como enquadrar então o Bairro Herculano (Entre a Rua Alexandre Herculano e a Rua das Fontainhas)?
    – Como enquadrar a Vila Maria Odete, na Rua de S. Dinis, e os edifícios com o n.º 790, na mesma rua? (ver em www.monumentos.pt, freguesia de Paranhos)?
    – E a Vila Maria Alice, na Rua de Álvaro Castelões?
    – Como enquadrar as casas da Rua 5 de Outubro (esquina com a Rua Domingos Sequeira)?
    – Como enquadrar o pequeno bairro na Rua Particular de Monsanto (Rua de Monsanto, junto ao Bairro de Carvalhido)?
    – Ou o conjunto de casas no cruzamento da rua do Bom Sucesso com a Rua do Campo Alegre?

    Não tendo sequer a certeza de que muitas destas casas sejam já do século XX, parece-me ser possível alargar ao século XIX este conceito habitacional, de construção de casas para famílias mais e menos solventes, que confirmam modelos habitacionais da cidade industrial.

    Começar a história da habitação social do Porto no Bairro do Comércio do Porto (Monte Pedral) é limitativo e reproduz a ideologia transposta no primeiro diploma legal da República sobre habitação. A República, de resto, não faz mais (o que não é de menos) que dar início à intervenção estatal na habitação. Há quase 30 anos, portanto, que a história da habitação social no Porto começa no jornal «O Comércio do Porto», o que por si mesmo diz muito da propaganda de um determinado período da nossa história, quando o que a mim me parece evidente, é que a iniciativa do jornal reproduz o desejo do poder político em ter como parceiro, na promoção habitacional, as grandes e poderosas empresas. Desejo, aliás, que continuou por todo o período autoritário. Mas deixemos esse assunto para mais tarde.

    Gostaria de notar apenas, no contexto europeu, as experiências das "cidades jardim" de Letchworth, Inglaterra (1903) e Hellerau, Alemanha (1909).

    Envio cumprimentos
    PA

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  4. Este blogue está simplesmente excelente!
    Muito obrigada pela informação..

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  5. Antes de mais, gostaria de agradecer este excelente tópico sobre os bairros operários. Está bastante completo e muito bem estruturado.
    Gostaria que me pudesse ajudar numa dúvida que tenho.
    Estou neste momento e estudar, de uma maneira geral, os interiores domésticos e o que leccionam (nos semestres de três meses) é muito pouco. Decidi então elaborar um pequeno trabalho de habitação operária mas tem sido complicado arranjar as plantas, principalmente do interior, dos diferentes bairros. Gostaria então de lhe perguntar, onde arranjou as imagens para que possa também ter acesso a elas? Como sou de Lisboa apenas o arquivo da câmara e o SIPA é que contêm informação credível mas destes bairros não possuem nenhum tipo de desenho. Se me pudesse ajudar ficaria muito agradecida.
    Melhores cumprimentos,
    Inês Afonso

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  6. Lá vim eu roubar mais umas informações.

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  7. http://www.semcompromisso.com/2014/01/vou-te-contar-62-rua-do-trevo-27.html

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