Nota explicativa
Tenho recebido diversos e amáveis comentários sobre o conteúdo deste blogue. Muitos deles, por minha culpa é certo, baseiam-se num equívoco. Não pretendo neste blogue publicar estudos completos ou exaustivos sobre qualquer dos temas tratados. Particularmente neste tema “Os Bairros Sociais no Porto”, devia ter tido o cuidado de lhe acrescentar qualquer coisa como apontamentos, ou achegas…
Este blogue procura ser mais um álbum de imagens legendadas do que uma colecção de textos ilustrados, sendo por isso que me socorro muitas vezes de citações que melhor legendam as imagens que apresento. Trata-se pois, e apenas, de chamar a atenção para temas, apontar pistas, mostrar e valorizar a capacidade de “ler” imagens, seguindo a frase de Proust no cabeçalho do blogue: “Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux.” (A verdadeira viagem de descoberta não consiste em procurar novas paisagens, mas em possuir um novo olhar).
Os Bairros do Plano de Melhoramentos
A quarta geração de bairros sociais no Porto, que corresponde ao plano lançado em 1956, é sem dúvida a mais importante e que marca a cidade até aos nossos dias.
Parte I – Os antecedentes
O Congresso Nacional de Arquitectura 1948
Para um enquadramento político e cultural de Portugal e do Porto ver neste blogue Porto onde nasci e cresci I e II, onde se aponta a importância do problema da habitação no Congresso Nacional de Arquitectura de 1948, a influência de Le Corbusier e da sua Unité d’Habitation de Marselha, da arquitectura brasileira, e dos movimentos dos arquitectos organizados no ICAT e na ODAM.
O Bairro de Alvalade em Lisboa 1945/48
No Congresso de 1948 é apresentado por Miguel Jacobetty Rosa (1901-1970) o Bairro de Alvalade então em execução e que já havia sido publicado na Revista Municipal de Lisboa n.º 26 3.º trimestre de 1945. (1)
De facto ele é importante na influência que teve na concretização da 4ª geração dos bairros sociais do Porto. Veja-se a referência a que ele faz Fernando Távora em 1960, a propósito da Unidade Residencial de Ramalde: “O plano foi executado tomando em conta dois projectos existentes (baseados no Bairro de Alvalade, o supra-sumo para a altura) e que se não integravam num esquema geral.” (in Fernando Távora – ed. Blau, Lisboa 1993)
O Plano de Urbanização do Sítio de Alvalade, inicialmente designado por Plano de Urbanização da Zona a Sul da Av. Alferes Malheiro foi promovido pelo D.L. 33921 de 5 de Setembro de 1944 e da Lei 2007 de 7 de Maio de 1945, em que o regime procurava dar uma resposta à crise da habitação no clima do pós guerra.
O plano projectado pelo arquitecto João Faria da Costa (1906 – 1971) dava continuidade ao PDUL (Plano Director de Urbanização de Lisboa 1938-1948) de Étienne de Gröer (1882-1970) e tinha como objectivo urbanizar e integrar a zona entre o Campo Grande e o Areeiro e dar resposta à carência de habitação que nos anos da guerra se havia avolumado em Lisboa.
Plano de Urbanização da Zona Sul da Av.ª Alferes Malheiro
“Vista do plano em execução, da nova zona de expansão da cidade que abrange a área limitada a N. pela Av. Alferes Malheiro, a E. pelo prolongamento da Av. Almirante Reis, a S. pela linha férrea de cintura e a O. Pelo Campo Grande e Av. Da República.
Comportará 45.000 habitantes: 31.000 em habitações colectivas de rendas económicas; 9.500 em habitações de renda não limitada; 2000 em habitações unifamiliares de renda económica; 2.500 em moradias unifamiliares de rendas não limitadas.
Além dos edifícios destinados a habitação, observa-se no plano: a conservação de espaços livres arborizados ou destinados a instalações desportivas; a previsão de zonas industriais (pequeno artesanato) e comerciais; a localização de mercados e outros edifícios de interesse público, tais como: Escolas, Liceus, Igreja, Centro Social, Centro Cívico, etc..
Os transportes colectivos estão assegurados por: Caminhos de Ferro, Carros Eléctricos e Auto-carros.” In os Grandes Problemas de Lisboa – a construção de casas de renda económica - Revista Municipal de Lisboa n.º 26 3.º trimestre de 1945 e I Congresso dos Arquitectos Portugueses 1948
A urbanização e construção Bairro de Alvalade iniciou-se com a construção de 2066 habitações distribuídas por 302 edifícios de 3 e 4 pisos, sem elevador, localizadas nas células I e II do Plano, ao abrigo do programa das Casas de Rendas Económicas.
O projecto é coordenado por Jacobetty Rosa, nele tendo trabalhado o ainda estudante Nuno Teotónio Pereira.
“No que respeita aos prédios de habitação colectiva, todos os fogos devem ter acesso directo e, além de oferecerem boas condições de higiene, solidez e duração, devem possuir sistemas de distribuição de água e de esgotos ligados às redes públicas ou privativas; cada prédio não deverá ter mais do que r/c e 3 pisos, com o mínimo de 2 divisões para as habitações de 2.a classe e de quatro para as de 1 .a classe além de cozinha, despensa, casa de banho e retrete.”
O projecto previa a construção de 9 tipos diferentes de fogos agrupados em três séries de três tipos cada, correspondendo as séries aos diferentes níveis sociais dos agregados familiares e os tipos ao número de pessoas a abrigar em cada casa.
As habitações variam em cada série pela introdução de mais um quarto, da série I para a série II com a introdução de um escritório e da série II para a série III com a introdução de um quarto de criada com a respectiva instalação sanitária.
Fichas com as 3 séries e os 9 tipos, plantas cortes e alçados, descrição e renda
In os Grandes Problemas de Lisboa – a construção de casas de renda económica - Revista Municipal de Lisboa n.º 26 3.º trimestre de 1945 e I Congresso dos Arquitectos Portugueses 1948
Jacobetty apresenta ao Congresso a metodologia utilizada na concepção e organização dos fogos, baseados nos modernos princípios do racionalismo e do funcionalismo.
“No que respeita à concepção arquitectónica procurámos, pois, tomar a posição o mais objectiva possível, libertando-nos de preconceitos e sujeições a fórmulas por vezes impostas por tradições seculares que representam um peso morto inibidor de uma emancipação de tudo quanto possa, na matéria, ser inútil ou até prejudicial.
Ë preciso, em primeiro lugar, que a casa seja acolhedora e para isso não basta que tenha um aspecto agradável (factor subjectivo). É necessário que seja bem adaptada às variadas funções da vida caseira, isto é, que se preste objectivamente, não só ao repouso da família, mas especialmente ao trabalho da dona da casa, ou de quem governa a mesma e, ainda, às lides de serviçais, quando os haja, e ao trabalho do chefe de família e dos filhos.
Necessário se torna, em suma, que a sua conformação permita reduzir ao mínimo o esforço a dispender com os serviços do lar, sem que sofram diminuição quer a comodidade, quer a higiene.
Sem abordar profundamente o estudo racionai dos serviços domésticos, como modernamente se está fazendo na América e noutros países, pois o escasso tempo de que dispúnhamos não nos permitiria essas delongas, procurámos, porém, lançar mão de métodos tanto quanto possível objectivos para controlar os estudos que empreendemos baseados nas directivas expostas e nos princípios modernos de racionalização da casa.”
Jacobetty apresenta assim um conjunto de “Princípios para a Racionalização da Habitação”, tendo como objectivo “aumentar o valor da habitação, reduzindo ao mínimo compatível a área da mesma”.
Nestes princípios inclui-se a “Ordenação das comunicações e movimento e redução dos percursos”, onde expõe as vantagens desta ordenação dos percursos:
“Por meio da ordenação das comunicações conseguiu-se melhorar a economia da habitação, simplificando as suas funções para o efeito do dispêndio de energia. Comunicações mal ordenadas conduzem a uma má movimentação e secundariamente a uma perda de superfície útil como resultante da zona de comunicação que deve ser mantida desimpedida. Racionalmente podemos considerar as mais importantes funções da vida doméstica resumidas nos seguintes ciclos:
“Cozinhar — comer», «Trabalhar — repousar» e «Dormir — lavar-se”.
É evidente que se os percursos para o desenvolvimento destas funções forem muito longos e tortuosos, isto compromete a regularidade das mesmas funções e traduz-se numa perda de tempo e energia. Por outro lado, se as linhas destes percursos se interceptarem — o que significa que os compartimentos afins não estão agrupados, — poderá resultar daí embaraço para a vida doméstica e certamente dificultará uma boa utilização simultânea de todas as dependências.”
E apresenta dois mapas em que representa o estudo gráfico dos percursos no interior de dois fogos-tipo.
In os Grandes Problemas de Lisboa – a construção de casas de renda económica - Revista Municipal de Lisboa n.º 26 3.º trimestre de 1945
E conclui expondo a economia dos passos, das mudanças de direcção e da sobreposição dos percursos:
“Verifica-se que, em áreas iguais, o desenvolvimento das linhas de percursos do ciclo “Dormir — lavar-se” na solução escolhida é de 29,15 metros, contra 40,50, o que representa uma economia de 18 passos em média por cada vez que estes percursos tenham de ser feitos, a favor da solução escolhida. Além disso, ao passo que o esquema da planta eleita nos apresenta 12 ângulos, o da variante apresenta 20, o que significa 8 mudanças de direcção a mais na habitação correspondente em relação à da planta eleita — isto representa, como é óbvio, um grande inconveniente pois, como diz Enrico Gnffmi, em breves percursos é-se constrangido a um inútil dispêndio de energia no acelerar e afrouxar o passo para volver o corpo à direita ou à esquerda o que contribui para tornar a casa menor aprazível a quem deve habitá-la, mesmo que não tenha disso a sensação precisa…
…Analisando ainda os gráficos dos percursos verifica-se que, ao passo que o esquema adoptado apresenta uma independência perfeita dos ciclos representados por cores diferentes, o outro mostra um cruzamento à entrada da casa que pode trazer inconvenientes. Assim, as pessoas que procuram a casa de banho podem esbarrar com quem venha a entrar ou a sair em serviço da cozinha, ou como visita ou habitante da sala de estar, o que não há perigo de dar-se na solução adoptada.
Para se conseguir este resultado, quanto à ordenação das comunicações, houve que fazer uma judiciosa arrumação na distribuição dos compartimentos de maneira a colocar junto da entrada as divisões destinadas ao serviço e permanência diurna, e a agrupar os quartos e casas de banho, dando-lhes um acesso fácil e lógico.”
Por outro lado Jacobetty avança com uma moderna concepção da organização do fogo abolindo o corredor de distribuição para os diversos compartimentos:
…A supressão do corredor, longo, incómodo e desgracioso, resulta do próprio racionalismo das soluções e permite integrar a área que lhe seria destinada na sala comum, melhorando extraordinariamente os seus aspecto, conforto e eficiência…
castanho – sala azul – cozinha rosa – quarto amarelo – banho Esta simbologia será utilizada em toda a mensagem
E finalmente, com esta preocupação de racionalizar a habitação e de conseguir “A Concentração da Superfície Livre” preocupa-se com o mobiliário:
“É evidente que, se se conseguir a concentração da superfície livre — e por superfície livre entende-se a parte do pavimento que permanece desimpedida após a colocação da mobília estritamente necessária — se obterá a possibilidade de alcançar cada recanto da habitação com o menor dispêndio de energia, além da ordem e economia doméstica que representa. Os móveis, a sua arrumação e redução ao mínimo foram, pois, considerados no estudo das plantas, tendo-se previsto, sempre que possível, armários integrados na construção e racionalmente localizados com vista a resolver este problema.”
Bairro de Alvalade, inauguração 1948 foto AFML
Na foto entre outros Joaquim Trigo de Negreiros (Ministro do Interior, 1950-1958), Álvaro Salvação Barreto (Presidente da Câmara Municipal de Lisboa 1944-1959) e Américo de Deus Rodrigues Tomás (Ministro da Marinha, 1944-1958).
Fotos do AFML
Os Blocos de habitação colectiva
Apesar desta concepção moderna e racional dos fogos de habitação social proposta no Plano de Alvalade, provavelmente porque a concepção dos edifícios não “agrada” aos arquitectos que empenhados política e culturalmente na luta contra o regime, defendem e ambicionam a construção de Unidades de Habitação, para as inadiáveis questões do alojamento, sobretudo de largas camadas da população de Lisboa e do Porto. São múltiplas as declarações dos arquitectos no Congresso pugnando pelas unidades de habitação enquadradas na Carta de Atenas (então publicada na revista Arquitectura):
“…consideramos A CASA COLECTIVA A SOLUÇÃO QUE MELHOR CORRESPONDE ÀS MÚLTIPLAS NECESSIDADES DA POPULAÇÃO.” Lobão Vital
“Que as ilhas insalubres que servem mais de túmulo que de abrigo, sejam substituídas por “Unidades de habitação», as quais permitam criar espaços verdes com jardins infantis, escolas, centros de juventude, etc. (Recuperação do solo nos terraços, instalações de assistência e de cultura dentro do próprio bloco, centralização dos organismos essenciais à vida). Viana de Lima
“Que utilizem as técnicas modernas, coerentemente, em construções tendentes a solucionar o problema da habitação colectiva em bloco” João Simões/José Huertas Lobo/Francisco Castro Rodrigues
“É PRECISO CONSTITUIR UNIDADES DE VIZINHANÇA, FORMADA POR UNIDADES DE HABITAÇÃO DE UMA E OUTRA CLASSE, COMPLETANDO O CONJUNTO DOS INDISPENSAVEIS E VARIADOS INSTRUMENTOS DE CARACTER SOCIAL.” Nuno Teotónio Pereira e M. Costa Martins
“O bloco de habitação é uma realidade dos nossos dias; ele encarna o poder realizador da técnica actual, porque ele é em si, produto das necessidades materiais e espirituais do Mundo novo” Mário Bonito
“ESTRUTURAS INDEPENDENTES — aço ou cimento — pilares, vigas e lajes, pórticos.
FACHADAS — tornadas simples separação entre o interior e exterior — podem ser totalmente de vidro.
CONSTRUÇÃO SOBRE PILARES — libertando o solo, faculta este espaço à resolução dos problemas de circulação.
COBERTURA EM TERRAÇOS — recuperação do terreno no cimo dos edifícios.
PLANTA LIVRE — não mais existe a necessidade das correspondências verticais.” Luís José Oliveira Martins
Assim e na ausência de uma política de habitação social que corresponda às suas expectativas, irão a partir de experiências realizadas em habitações unifamiliar elaborar projectos promovidos pela iniciativa municipal ou privada e destinados à classe média e alta, ensaiar soluções de habitação colectiva concretizando uma arquitectura moderna, claramente conotada com as realizações dos CIAM e em particular com a obra de Le Corbusier e dos seus discípulos brasileiros. De referir o aparecimento de legislação sobre a propriedade horizontal e sobretudo do Regulamento Geral das Edificações Urbanas (RGEU) em 1951.
Desenho de João Abel Manta in Cassiano Barbosa - ODAM (organização dos Arquitectos Modernos 1947-52) edições ASA 1972
Algumas realizações de habitação colectiva entre 1948 e 1955
Lisboa
Em Lisboa Será no início dos anos 50, que se realizarão em Lisboa, por iniciativa municipal, alguns projectos residenciais de envergadura (destinados a uma população da classe média e alta), e onde os seus autores irão ensaiar e experimentar os princípios formais e espaciais da Carta de Atenas e os "cinco pontos" de Le Corbusier.
O Bairro das Estacas 1949 /1955
Sebastião Formosinho Sanchez (1922-2004) e Ruy Jervis d’Athouguia (1917-2006), (premiado na Bienal de São Paulo em 54 e prémio Municipal em 1954)
O Bairro é uma alteração de dois dos quarteirões previstos no “ Plano de Urbanização do sítio de Alvalade”. Organiza-se em blocos idênticos, de rés do chão e 4 pisos, dispostos ortogonalmente em relação aos arruamentos principais, e os espaços ajardinado, criados pelas construções, servem de acesso e estacionamento. Os blocos, que neste caso assentam num terreno quase plano, e que se apoiam em "pilotis" ( daí o nome do bairro), abrem-se aqui em duas frentes ligeiramente recuadas, onde as varandas corridas acusam a horizontalidade, conferindo a cada bloco uma compacticidade e um "purismo" racionalistas e onde é patente a influência da “escola" brasileira”.
A ideia de um espaço verde onde se implantam os blocos assentes em pilotis, da Carta de Atenas, substitui o quarteirão tradicional. As vias são hierarquizadas com separação dos acesso pedonais. A implantação e a conformação dos blocos procura abolir a noção de fachada principal e traseiras. As habitações desenvolvem-se em duplex.
AML
AFML
Os Duplex
AFML
Blocos do cruzamento da Av. dos EU-A e Av. de Roma 1952/1957
Ainda em Lisboa, realizam-se nestes anos uma série de conjuntos urbanos na então criada Avenida dos Estados Unidos da América, de que se destacam o de Filipe Figueiredo (1913-1990) e José Segurado (1913-1990), projectado a partir de 1952, com blocos/torre de 12 andares, apresentando uma "quebra" correspondente ao sétimo e oitavo pisos, numa solução então muito em voga entre os discípulos de le Corbusier. O cruzamento da Avenida Estados Unidos com a avenida de Roma seria desnivelado criando um espaço de difícil implantação para o conjunto habitacional. A solução proposta articula dois dos blocos de topo avançados para o cruzamento e outros dois recuados com o lado maior face para o cruzamento. Os edifícios exibem um tratamento exterior com os módulos regulares das varandas a sucederem-se cavando sucessivos nichos e explorando os efeitos das grelhas e vidraças. Uma quebra a todo o comprimento dos blocos com a altura de um piso, propunha uma rua comercial. O piso térreo é elevado sobre pilares, nos dois edifícios de topo, e ocupado por comércio nos outros dois. As quatro torres são dos primeiros casos de utilização desta tipologia.
Postal dos anos 50
foto AFML
Foto de José Espinho - Revista Municipal n.º 74 3º trimestre 1957
Foto AFML
Foto AFML
O conjunto de blocos perpendiculares á via do lado E da Avª dos EUA 1955/58 (Prémio Municipal 1957)
João de Barros Vasconcelos Esteves (1924-), Pedro Anselmo Freire Braancamp Cid (1925/83) e Manuel Maria Cristóvão Laginha (1919/85)
A organização dos fogos T2 e T3
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Conjunto Habitacional da avenida Infante Santo 1953 (Prémio Municipal 1956)
Alberto Pessoa (1919-1985) e Hernâni Gandra (1914-1988), a que se associa João Abel Manta (1925), todos "formados" no atelier de Keil do Amaral (1910-1975), projectam a partir de 1953 o Conjunto Urbano da avenida Infante Santo, uma "bateria" de blocos perpendiculares ao arruamento, onde o declive é resolvido por plataformas, (aproveitando-o para pequeno comércio), com escadas que estabelecem a relação com a rua, e onde os blocos assentam em "pilotis". Os blocos, rigorosamente idênticos, rematados por terraços, abrem-se em fachadas geometricamente compostas e lembrando as realizações brasileiras da época. ![]()
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AFML
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O conjunto Habitacional integra um notável conjunto de painéis de azulejo.
Pormenor do painel de azulejo “O Mar” de Maria Keil (1914-)
Painel de azulejo de Rolando Sá Nogueira (1921-2002)
Painel de azulejo de Alice Jorge (1924-2008) e Júlio Pomar (1926)
Painel de azulejos de Carlos Botelho (1899-1982)
Mas sem dúvida o edifício que melhor corresponde a uma realização crítica das concepções de uma Unidade de Habitação, e dos princípios do Movimento Moderno é
O Bloco das Águas Livres 1953/56 de Nuno Teotónio Pereira (1922) e Bartolomeu Costa Cabral (1929).
Nuno Teotónio Pereira, que depois de colaborar ainda como estudante no Bairro de Alvalade e já havia projectado em 1950 o Conjunto de Casas de Renda Económica para Braga, projecta o Bloco das Água Livres, integrado no Plano de Pormenor da Praça das Águas Livres de Manuel Tainha.
Edifício projectado e realizado entre 1953 e 1956, numa tentativa de constituir uma unidade autónoma - uma espécie de (pequena) "unité d'habitation" - quer pela sua forma e tratamento, quer pelo programa que apresenta, e onde estão incluídos comércios, escritórios, ateliers e uma sala de convívio (no terraço beneficiando da vista para o Tejo), jardim infantil e uma lavandaria colectiva.
A diversidade de tipos de habitação proposta, bem como a flexibilidade interna desses mesmos fogos, e ainda a importância dada aos percursos em galeria, interiores e exteriores, sugerem - apesar de destinados a utentes de razoável capacidade económica- novas propostas de vida colectiva ou comunitária.
Colaboraram nas peças artísticas Jorge Vieira (1922-1998), Almada Negreiros (1893-1970) , Manuel Cargaleiro (1927) e José Escada (1939-1980) e o jardim foi projectado por Gonçalo Ribeiro Telles (1922).
Galerias de serviço e de distribuição dos escritórios
“Penélope” baixo relevo de Jorge Vieira (1922-1998)
O terraço com o vitral de Cargaleiro
fotos revista Arquitectura
Porto
No campo operativo é na cidade do Porto, então atingindo os 290 000 habitantes e enquadrada pelo Plano Regulador de Antão de Almeida Garrett, quer pelo seu distanciamento do centro do poder político, quer pela sua longa experiência de realizações e de lutas pela cultura e arte modernas, e a que não é alheio o papel desempenhado por Carlos Ramos como professor e director da Escola de Belas Artes, que um conjunto de arquitectos reunidos em torno da ODAM, vão procurar, na escala do possível ou do permitido pelo regime concretizar experiências racionalistas e da procura de formas arquitectónicas aderentes à realidade social.
Partindo dos estudos e das teorias sobre a habitação social, económica ou colectiva, irão ensaiar novos métodos de projecto e construtivos interpretando a tipologia do Bloco de Habitação, como a "essência" da projectação.
Localização dos blocos
1 – Bloco da Carvalhosa 2 – Bloco da Constituição 3 – Bloco de Costa Cabral
4 – Edifício Ouro 5 – Edifício Parnaso 6 – Bloco Afonso V 7 – Bairro de Ramalde
Arménio Losa (1908-1988 ) / Cassiano Barbosa (1911- 1998)
“As quatro funções do Urbanismo são teoria ainda não aceite oficialmente em Portugal. (...) A construção baixa, a sementeira de arruamentos, a pulverização da propriedade, o alastramento das cidades sobre o território que as cerca, a ocupação total do solo, o afastamento para grandes distâncias das áreas rurais, o isolamento ou a desordem dos estabelecimentos industriais, são hoje ainda as bases em que assenta o Urbanismo em Portugal” Arménio Losa 1948
O Bloco da Carvalhosa 1945/50
O Bloco da Carvalhosa insere-se numa rua “histórica” e de edificação consolidada, a rua da Boavista, e os arquitectos projectam por isso um deliberado recuo face ao tradicional alinhamento da rua, diferenciando-o assim da envolvente e, desse modo, criticando a rua-corredor.
“O edifício afasta-se do alinhamento existente criando um espaço de transição que simultaneamente lhe diminui a presença do tráfego e o assinala desligando-o das outras construções.” Sérgio Fernandez – Percurso, Arquitectura Portuguesa 1930-1974 FAUP 1988
A zona no levantamento de 1948
“A entrada é marcada pela existência de um grande vão que permite a leitura do átrio; naquele se insere um pórtico revestido com pedra, a emoldurar a porta principal.A racionalidade da organização dos fogos, considerando, entre outros, os factores de insolação, impõe que as zonas de serviço das habitações sejam voltadas para a rua; assume--se esta situação, embora cuidando de lhes diminuir a presença, pela adopção de uma fenestração reduzida, praticada no paramento central da fachada, elemento de grande força a ligar a construção ao terreno. As zonas de refeições e estar formam um espaço contínuo e abrir-se-ão francamente, tanto a norte como a sul. Do lado do arruamento estes amplos envidraçados sublinham a intenção de separar o edifício dos que lhe são contíguos. ” Sérgio Fernandez – Percurso, Arquitectura Portuguesa 1930-1974 FAUP 1988
foto dos anos 50 in ODAM, compilado por Cassiano Barbosa ed. ASA 1972
“A entrada é ligeiramente elevada em relação ao nível da rua, de modo a assegurar iluminação para a cave. (…)A porta de entrada recorta-se numa expressiva moldura saliente de cantaria, que assinala e permite a leitura do grande átrio, tratado com a riqueza espacial de um ambiente sofisticado, uma imagem de prestígio civilizado, onde se desenvolve uma belíssima escada helicoidal, solta da estrutura, sob o fundo luminoso do pano de tijolo de vidro a definir o saguão interior, numa magnífica ambiguidade na relação interior-exterior.” Ana Tostões - Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos anos 50 FAUP 1997
“Um vasto saguão permite a iluminação e ventilação dos compartimentos secundários da zona íntima, sem que haja devassamento entre habitações. Em cada fogo um solário limitará esse saguão, proporcionando uma zona suplementar de estar ou trabalhar, desde a qual se controlará o espaço destinado ao recreio das crianças, ao nível do terreno, junto das garagens.” Sérgio Fernandez – Percurso, Arquitectura Portuguesa 1930-1974 FAUP 1988
“A fachada articula-se em dois planos: o central, maciço, de alvenaria — onde se desenham as aberturas das zonas de serviço e se marca a entrada com um grande vão transparente — liga-se fortemente ao terreno através do contraste da relação do plano mais recuado, completamente transparente, com a estrutura apenas assinalada que corresponde à zona da sala. A junção dos dois planos é genialmente protagonizada pelas varandas em comprimento que ligam os dois pontos com uma forma em leque que se desprende, nas finíssimas guardas de ferro, da fachada.” Ana Tostões - Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos anos 50 FAUP 1997
Mas é na proposta de organização interna dos fogos, quer pela (polémica) colocação da zona de serviços voltada para a rua, quer propondo uma zona comum de estar e jantar, que o projecto tem um carácter renovador, pretendendo mais do que responder a um programa, propor uma moderna forma de vida e uma utilização racional do alojamento. O esquema é funcional porque separa as funções de habitar em duas zonas: zona comum e de serviço viradas a norte e zona íntima a sul. E ainda porque se preocupa com o ruído da rua fazendo recuar em relação à rua o edifício.
“Ao fundo do logradouro, um bloco horizontal abriga uma correnteza de garagens cobertas por um terraço-solário a que se acede por uma cinética escada de caracol, que transforma um comum "quintal" num espaço de utilização civilizada e moderna” Ana Tostões - Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos anos 50 FAUP 1997
Bloco da Constituição 1953
O Bloco da Constituição foi construído numa rua aberta nos anos 40 e que era o prolongamento da rua da Constituição (hoje rua Carlos Malheiro Dias). Assim, embora o edifício quando da sua construção não confrontasse com outros edifícios fazia parte de um projecto de conjunto da CMP de edificação ao longo da rua.
A zona no levantamento de 1948
“Trata-se de um edifício cuja fachada principal está voltada a norte e por isso as fenestrações são de pequenas dimensões e inseridas num pano de parede contínuo que aparece ritmadamente perfurado, tal como na solução adoptada no edifício da Carvalhosa.” (Sérgio Fernadez op.cit.)
Uma cornija remata a fachada norte do edifício escondendo da rua a cobertura inclinada de telha.
Apesar da visibilidade da estrutura de suporte esta assenta em " pilotis ", reduzidos apenas a uma imagem meramente formal.
“O edifício solta-se do solo através de um plano ligeiramente recuado, tratado na composição como um lambril correspondendo às aberturas da cave e do primeiro piso, sobreelevado, onde se abrem longas fenestrações em comprimento entre os pilares de marcação da estrutura, e preenchidas entre elas por um pano ondulado de molde em “lusalite”. (Ana Tostões op. cit.)
foto dos anos 50 in ODAM, compilado por Cassiano Barbosa ed. ASA 1972
O edifício ainda isolado sem construções contíguas
“Embora, respeitando o alinhamento das construções contíguas esta grande massa liberta-se daquelas pela introdução dos envidraçados que, abrangendo toda a altura do edifício, iluminam as escadas.” (Sérgio Fernandez op.cit.)
“O primeiro piso de habitação, ligeiramente sobre elevado em relação ao passeio, é tratado de modo particular; a estrutura aparece marcada , quer pelo seu volume quer pelo uso de material diferenciado; as aberturas, mais recuadas, ganham acentuada horizontalidade, abrangendo a largura total dos módulos.” (Sérgio Fernandez op.cit.)
Alfredo Viana de Lima (1913- 1991)
“É pela criação de uma nova habitação, habitação que represente o espírito da segunda era da Civilização Maquinista, onde se facilite o repouso dos gestos e dos movimentos, onde cada um tenha o seu canto, onde haja intimidade, simplicidade e beleza, que nós, Arquitectos, utilizando todos estes princípios fornecidos pela adaptação das formas e dos espaços devemos pugnar (...)dar aos homens alegria e optimismo e às cidades, vilas e aldeias a forma radiosa proposta pela Carta de Atenas.”
O Bloco de Costa Cabral 1953.
A zona no levantamento de 1948
O projecto inicial previa a construção de 4 blocos de habitação colectiva, aproveitando ao máximo os condicionalismos do local de modo a que todos tivessem as mesmas vistas e a mesma insolação. A organização volumétrica dos blocos baseava-se em regras racionalistas, articulando-se edifícios altos com construções baixas, na tentativa de organizar um lote largo, profundo e irregular
No limite seria um edifício tipo que se reproduziria conforme a dimensão dos quarteirões.
O Bloco de rés do chão e 5 pisos e um recuado na cobertura, apresenta uma fácil apreensão da estrutura.
O edifício recuado em relação à rua e separado desta por uma zona ajardinada apresenta uma entrada enfatizada pela grande pala assente num pilar central.
O edifício que com o recuo do rés do chão procura ter uma leitura de um bloco de 5 pisos assente em pilotis os quais suportam uma viga que corre ao longo de todo o edifício, e onde estão marcadas as vigas transversais da estrutura. De notar a solução encontrada para os pilares dos cantos, com um capitel que soluciona o encontro das fachadas.
O edifício apresenta-se como um bloco de 5 pisos assente em pilotis. A cobertura em “asa de borboleta”, solução na época muito em uso.
Ao centro da fachada norte a caixa de escadas é marcada por panos de blocos de vidro, separados da estrutura por um elemento constituído por dois painéis fixos e uma janela de ventilação.
Tratamento modulado alterna os panos de tijolo de vidro com panos de tijolo maciço onde se abrem em comprimento as aberturas e as varandas.
Revestimento das fachadas em alvenaria de tijolo maciço, com as varandas em betão.
As 4 frentes do bloco são utilizadas, o que mostra a intenção de obter insolação e ventilação.
O corredor de distribuição pelas suas dimensões pretende evocar a “rua-interior” da Unité d’Habitation de Marselha. Funciona um átrio alargado onde está implícita a ideia de espaço colectivo e de interacção social proposta pelo Movimento Moderno.
Num piso-tipo do bloco articulam-se 2 T1, 2 T3 e 1 T2 (apenas no terraço existem dois fogos).
Tende-se a diferenciar, com rigor, a zona comum da zona privada, a área diurna da área nocturna.
Contudo, o espaço de estar, de comer, de confecção de alimentos tende a uma aproximação funcional, adoptando-se a noção moderna de sala comum.
A construção é racionalizada ao pormenor. Tudo é pensado com armários encastrados, como uma célula mínima de um navio e portas de correr que funcionam como elementos que contribuem para uma flexibilidade espacial.
Mário Bonito (1912-1976) Rui Pimentel (1924-2004)
“O bloco de habitação é uma realidade dos nossos dias; ele encarna o poder realizador da técnica actual, porque ele é em si, produto das necessidades materiais e espirituais do Mundo novo” Tarefas do Arquitecto – Congresso Nacional de Arquitectura 1948
Edifício Ouro 1950
Mário Bonito projecta o edifício Ouro, talvez o mais seguro e mais racionalista dos edifícios desta fase da arquitectura portuguesa, quer pelo sentido de “habitação colectiva” - elemento gerador de toda a concepção - quer pela organização interna dos fogos, modulados e de uma grande flexibilidade de utilização, quer ainda pela procura de uma nova forma de habitar, com acessos feitos por terraços e galerias, como espaços naturais de encontro e convívio.
Também este Bloco se insere num troço em edificação de uma rua tradicional do Porto, a rua Fernandes Tomás.
A zona no levantamento de 1948
Os arquitectos concebem por isso, um edifício em que o primeiro piso de comércio, respeita o alinhamento dos edifícios contíguos, e criam um terraço onde assenta um bloco de habitação com primeiro piso de serviços recuado e 4 pisos de habitação rematados por um terraço com um recuado.
foto dos anos 50 in ODAM, compilado por Cassiano Barbosa ed. ASA 1972
O edifício é “separado” dos prédios contíguos pelo recuo criando empenas revestidas com tijolo (solução semelhante ao Bloco de Costa Cabral) e pelas duas caixas de escadas envidraçadas, que dão acesso às galerias de distribuição, numa solução utilizada no Porto pela primeira vez.
As caixas de escada colocadas no topo do edifício dão acesso a galerias de distribuição, do lado sul e colocadas simetricamente. Cada galeria dá acesso a três apartamentos.
A fachada norte simétrica é modulada e onde as varandas criam um rito horizontal contrastando com a verticalidade das caixas de escada e das zonas de serviço.
Uso de volumes, planos e formas geométricas com avanços e recuos, com longas varandas em comprimento na composição das fachadas
As guardas das varandas são abertas até ao nível do solo, na preocupação de Mário Bonito, assumida no Congresso, com as crianças e o seu uso da habitação.
foto IHRU-DGEMN
Nas zonas de serviço é utilizada uma grelha de betão.
O desenho dos pormenores revelam grande rigor e destacam a qualidade arquitectónica da obra
A intersecção entre os planos verticais com os planos horizontais
A valorização da estrutura (pilares e vigas)
José Carlos Loureiro (1925)
O Edifício Parnaso 1954/57
O conjunto implanta-se no gaveto das ruas de Nossa Senhora de Fátima e Oliveira Monteiro. Aquela, a antiga rua das Valas, uma das radiais da Rotunda da Boavista, com um perfil de maior dimensão e com uma edificação dispersa, e de acumulação de várias tipologias: conjuntos à face da rua, habitações unifamiliares, habitações geminadas e prédios de rendimento. Esta, de edificação consolidada pois correspondia, na época, à saída do Porto para Viana do Castelo.
A zona no Levantamento de 1948
O programa compreende Habitação, comércio e a Escola Parnaso.
“Uma série de volumes escalonados na implantação e na altura articulam de um modo orgânico o gaveto para uma rua de menores dimensões, de modo a fazerem a transição de escala. “ (Ana Tostões- op.cit.)
foto IHRU-DGEMN
A caixa de escadas toda envidraçada, surge como um elemento solto do edifício, como se de uma escultura se tratasse. Ajuda a formar o gaveto na medida em que surge como um elemento de transição entre o bloco da rua N.ª Sr.ª de Fátima e as habitações da Rua Oliveira Monteiro.
“O afastamento do edifício da Rua Nossa Senhora de Fátima, a que se acede por uma bem marcada passerelle suspensa, permite a criação de um belíssimo espaço de jardim, artificialmente tratado em plataformas e planos poeticamente articulados, tornando térreo o piso abaixo do nível da rua ao mesmo tempo que se acerta a cota com o antigo jardim, existente na zona mais interior do lote, para onde são voltadas as habitações, ao invés da galeria de distribuição do lado da via de tráfego.” (Ana Tostões- op.cit.)
foto IHRU-DGEMN
“A fachada já não é modulada com grelhas, mas trabalhada tridimensionalmente na relação do volume marcante da caixa de escada envidraçada, com a horizontalidade protagonizada pelo corpo principal, com galerias abertas graficamente numa pequena alheta quadrada.” (Ana Tostões- op.cit.)
As edificações que abrem para a rua Oliveira Monteiro, tem no rés-do-chão um estabelecimento comercial e no piso superior habitação, numa tipologia frequente no século XIX portuense.
O Bloco tem seis pisos na Rua Nossa Sr.ª de Fátima. O primeiro a um nível inferior ao da cota da rua, onde está instalada a Escola de Música. Os três seguintes organizam-se em fogos de tipologias T2 e T3 com acesso por galeria do lado norte. Os dois últimos pisos constituem uma única habitação em duplex, destinada ao Director da Escola.
A galeria de acesso aos apartamentos
Planta do R/C
Na organização dos fogos é de salientar que a área do T3 é igual à área de dois T2.
Na ordem de distribuição da galeria, primeiro aparece o T3 e só depois os T2.
Planta do piso 1
zona de acessos zona de estar zona íntima
O Bloco tem uma estrutura de 6,85 metros por 8,75 metros.
Passagem do Pátio da Rua Nossa Senhora de Fátima, para o pátio interno do lote.
O Pátio-Jardim interior
foto IHRU-DGEMN
foto IHRU-DGEMN
“O jogo dos materiais aplicados, o tijolo, a alvenaria pintada, o mosaico vidrado, a pastilha de "evinel", aliados à concepção de um conjunto volumétrico de grande rigor, desenhado e controlado ao pormenor…” (Ana Tostões- op.cit.)
Pereira da Costa (1923 –?)
(Nota – Sobre o Bloco da praça Afonso V consultar: Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar, ed. ASA, Porto 2003, de onde são retiradas as excelentes fotografias de Luís Ferreira Alves)
Pereira da Costa e a Maquette do bloco de D. Afonso V in Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar ed. ASA, Porto 2003
Edifício na praça D. Afonso V 1953
“(...) Num edifício, cuja arquitectura fosse actual, conseguir o máximo aproveitamento de espaço, optando pelo desenvolvimento dos andares em habitações.
(...) Sobreposição de volumes, jogo de luz e sombra, a escolha dos elementos de composição, os materiais modernos, a cor, em conjugação e harmonia, determinam uma expressão estética, sentida através da observação do conjunto.
(...) deixamos vincado o que, como arquitectos, com emoção sempre devemos tentar conseguir: que as nossas obras reunam as condições básicas que contribuem para uma existência de alegrias essenciais.” F. Pereira da Costa – Memória descritiva e justificativa do Projecto
O edifício de habitação na Praça D. Afonso V, de Francisco Pereira da Costa, corresponde ao projecto apresentado em 1953 como C.O.D.A. (Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquitecto).
O Bloco insere-se na zona ocidental da cidade, a norte da Avenida Marechal Gomes da Costa, aberta nos anos trinta, à época ainda pouco edificada mas onde se desenvolverão habitações unifamiliares. O Bloco de Pereira da Costa irá, com o Convento Dominicano de Cristo Rei conformar a praça Afonso V.
A zona no levantamento de 1948
“Trata-se de um extenso bloco com nove fogos por piso, servido por um único acesso vertical, escultoricamente assumido como um corpo separado do edifício que dá acesso à galeria de distribuição. O tratamento modulado das fachadas, com longas varandas em comprimento quebradas pela presença alternada das superfícies de grelha cerâmica de forma quadrada, a coragem e a alegria da aplicação de cores fortes e puras, a concepção inovadora do átrio de entrada como um espaço dinâmico e provocador, nos jogos dos planos dos tectos inclinados, nas cores e na iluminação empregues, no volume expressionista da escada helicoidal que, solta da estrutura, é o elemento centralizador do espaço, permitem entender o sentido panfletário e a carga revolucionária da geração que acabava de se formar…”(Ana Tostões op. cit.)
De facto o Bloco de Afonso V é o que plasticamente mais valoriza as concepções racionalistas do Movimento Moderno, na legibilidade da estrutura, na utilização da cor, na relação entre o interior e o exterior e na sua concepção de unidade autónoma.
O Bloco de rés-do-chão e três pisos, possui 9 apartamentos por piso, (sendo que o 2º e 3º pisos correspondem a fogos em duplex), a que se acede pelo lado nascente, por uma caixa de escada central e separada do edifício que comunica com as galerias de distribuição.
O Bloco assenta em pilotis que formam um pórtico que faz a transição entre a entrada, os estabelecimentos comerciais (com sobreloja) e a praça.
A estrutura e a modulação do edifício é claramente legível na fachada poente já que os pilotis tem correspondência nos pisos, onde uma estrutura avançada formada pelas varandas e pelo brise-soleil estabelecem a modulação do edifício.
Nas fachadas laterais uma janela central ocupa os dois últimos pisos, e ilumina a escada das habitações em duplex. O terraço possui elementos decorativos.
Foto de Luís Ferreira Alves in Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar ed. ASA, Porto 2003
Rés-do-chão com os estabelecimentos comerciais, o pórtico, o acesso às habitações e a habitação do porteiro.
Piso1
9 T2, com sala abrindo para galeria e acesso ao terraço inferior, cozinha abrindo em balcão para a sala e com uma pequena marquise, banho e dois quartos com varanda para a Praça (nascente)
Piso 2 piso inferior dos nove duplex
Piso 3 - piso superior dos nove duplex
9 Duplex com:
- no piso inferior sala voltada a nascente, escritório, cozinha com uma pequena marquise, e W.C.
- no piso superior sala de banho dividida e quatro quartos
- terraço superior
Alçado poente
detalhe do alçado poente com sombreado num dos módulos
Alçado nascente
O Bloco do lado nascente notando-se a clareza da modulação estrutural.
Foto de Luís Ferreira Alves in Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar ed. ASA, Porto 2003
A caixa de escada com as passereles para a galerias e o terraço inferior. Repare-se na marcação da estrutura através de pilares que se soltam da prede nos segundo e terceiro pisos.
Foto de Luís Ferreira Alves in Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar ed. ASA, Porto 2003
A galeria e o acesso às habitações
Foto de Luís Ferreira Alves in Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar ed. ASA, Porto 2003
Foto de Luís Ferreira Alves in Fátima Fernandes, Micele Cannatà – Habitação contemporânea – Formas de habitar ed. ASA, Porto 2003
Fernando Távora (1923-2005)
“Sendo exacta a relação entre a Arquitectura e as suas condicionantes (e esta exactidão é a condição única da modernidade) serão diferentes as manifestações da Arquitectura na medida em que as referidas condicionantes a seguem. A Arquitectura moderna não é um estilo, mas o resultado de uma atitude .”
Unidade Residencial de Ramalde 1952/60
Será Fernando Távora quem irá ensaiar, pela primeira vez, os princípios que os arquitectos da ODAM e da ICAT, tanto haviam reclamado no Congresso, ao projectar o Bairro de Ramalde, primeira grande operação de habitação social promovida pela Câmara Municipal do Porto.
“O plano foi executado tomando em conta dois projectos existentes (baseados no Bairro de Alvalade, o supra-sumo para a altura) e que se não integravam num esquema geral. Procurou-se então dimensioná-lo para permitir um mínimo de vida própria; o tráfego mecânico ia perdendo em importância à medida que se aproximava dum eixo central de peões, ligando as casas, o parque e o centro comercial. O equipamento era bastante desenvolvido e a orientação das fachadas a melhor possível - o que agravou um condenável geometrismo já condicionado pelo volume dos edifícios previamente projectados e dos quais se introduziram apenas algumas alterações. Passei ali alguns dos grandes momentos da minha vida profissional... Depois, a Câmara não fez as plantações previstas; os edifícios públicos e o parque não se realizaram; a entidade promotora do empreendimento não tornou possível a revisão dos projectos para a 2.a fase (que agora se terminou, apenas com uma nova disposição dos edifícios, cobertura de telhado e revisão da coloração das fachadas); a estrutura viária preconizada está comprometida como esta 2.a fase ocupa o local da Escola pré-primária. O desleixo nos espaços livres continua e a Federação das Caixas de Previdência parece não construir novos programas porque o custo dos terrenos teria ultrapassado as possibilidades”. F.Távora 1960 (in Fernando Távora – ed. Blau, Lisboa 1993)
O Bairro de Ramalde foi implantado numa zona então periférica e pouco edificada da cidade, junto à avenida da Boavista e à Avenida Antunes Guimarães.
A zona da Fonte da Moura/ Ramalde no Levantamento de 1948
A natureza da operação colocava problemas de concepção urbanística e de economia de meios, que Távora procurou resolver segundo os princípios da Carta de Atenas - numa concepção que lembra ainda os "Siedlungen" alemães de entre as duas guerras - numa malha regular de blocos paralelepipédicos e iguais.
Os blocos implantam-se num esquema viário hierarquizado, onde os percursos pedonais e os espaços verdes intercalares entre as construções são pensados como espaços verdes ajardinados.
O bloco de três pisos, simétrico, numa solução de direito/esquerdo com um acesso central, assente num soco de granito é valorizado plasticamente pela saliência das varandas e pela pala quebrada que destaca a entrada. A cobertura é plana.
in Esposito, Antonio - Fernando Távora : opera completa,Milano, Electa, 2005.
A cuidada pormenorização de cada elemento: caixilharias em madeira, caixas de correio, soleiras, etc.
A caixilharia do patamar das escadas.
O alçado posterior.
Os fogos - em que não foi esquecida a investigação da “Existenzminimum” dos CIAM - são rigorosamente organizados de modo a reduzir as áreas à sua expressão mínima por economia, mas sem por isso perderem qualidade de vida.
O Bairro de Ramalde constituiu, de facto, a primeira (e diria a melhor) operação de habitação social da Câmara Municipal do Porto, em bairros organizados segundo a Carta de Atenas. Seguir-se-á a partir de 1956 o Plano de Melhoramentos, tema da II Parte.
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(1) Muito se tem escrito sobre este plano. Eis alguma bibliografia:
LOBATO, Luís Guimarães e FARINHA, Manuel Brazão (1946); Construção de Casas de Rendas Económicas - Condições Gerais, CML, Lisboa Fevereiro 1946.
LOBATO, Luís Guimarães (1951); "A Experiência de Alvalade" in Separata da Técnica, Revista de Engenharia, nº209-210, Instituto Superior Técnico, Lisboa 1951.
TOSTÕES, Ana (1994), "O Bairro de Alvalade" in MOITA, Irisalva (Ed.), O Livro de Lisboa, Lisboa, Livros Horizonte,
ALEGRE, Alexandra Nave et al (1999), "A Reabilitação das Casas de Rendas Económicas das Células I e II do Bairro de Alvalade" in Urbanismo, Boletim da Direcção Municipal de Planeamento e Gestão Urbanística, Câmara Municipal de Lisboa, ano 2, n.º6, pp. 10-15
ALEGRE, Alexandra Nave et al (1999), Estudo de Diagnóstico de Consulta e Apoio à Reabilitação das Casas de Rendas Económicas das Células I e II do Bairro de Alvalade, Dissertação de Mestrado em Construção, Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa
CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA (1948), A Urbanização do Sítio de Alvalade, Lisboa, Edições CML
COSTA, João Pedro (1997), Bairro de Alvalade - considerações sobre o urbanismo habitacional, Dissertação de Mestrado em Cultura Contemporânea e a Construção da Sociedade Moderna, Lisboa, Faculdade de Arquitectura, Universidade Técnica de Lisboa
LÔBO, Margarida Souza (1993), Duas Décadas de Planos de Urbanização em Portugal (1934-1954), Dissertação de Doutoramento, Universidade Técnica de Lisboa (publicado pela DGOTDU/FAUP, com o título Planos de Urbanização à época de Duarte Pacheco, 1995)
PORTAS, Nuno (1998), "A Arquitectura da Habitação no Século XX Português" in BECKER et al, Arquitectura do Século XX, Lisboa, Portugal-Frankfurt97 SA,

Muito bom este pedaço de história... Tenho uma habitação de família no Bloco da Carvalhosa, vivi lá desde 1976 até 2000, a família continua lá, e a planta apresentada não representa a realidade. Mas tirando isto está mesmo bom...
ResponderEliminarParabéns! Esta compilação é fantástico
ResponderEliminarMuito bom. De momento trabalhando num trabalho de pesquisa para Arquitectura e este blog apresentou-me uma data de informação muito util.
ResponderEliminarObrigado