Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu







terça-feira, 8 de Março de 2011

Nos 50 anos da publicação de "Arquitectura Popular em Portugal"

 

Nota - esta mensagem está ainda em construção, por incompleta e desequilibrada. Trata-se por isso de uma releitura da Arquitectura Popular em Portugal, que sugere pistas e temas a desenvolver.

Faz agora 50 anos que foi publicado o Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal. Cinquenta anos passados uma leitura da Arquitectura Popular em Portugal, dá-nos um extraordinário retrato do País rural da segunda metade dos anos cinquenta, e como o viam os jovens arquitectos da geração do pós guerra.

Realizado a partir de uma ideia de Keil do Amaral, lançada na revista Arquitectura em 1947, retomada dois anos depois, durante a breve direcção do Sindicato dos Arquitectos (Keil do Amaral é eleito Presidente em 1948 sendo impedido em 1949 de tomar posse por imposição do Governo), o Inquérito à Arquitectura Regional vem a efectuar-se entre 1955 e 60, com o apoio do Ministério das Obras Públicas, que no Dec. Lei nº 40 349 de 19/10/55, pretendia:

"..a valorização da arquitectura portuguesa, estimulando-a na afirmação do seu vigor e da sua personalidade e apoiando-se no propósito de encontrar um rumo próprio para o seu engrandecimento".

inq1

inq8inq9

Apresentado e publicado em 1961 em 2 volumes, pelo Sindicato dos Arquitectos com o título de "Arquitectura Popular em Portugal" numa edição que se esgota, foi reeditado em 1980, pela Associação dos Arquitectos, numa edição muito justamente dedicada a Francisco Keil do Amaral.

inq201

Arquitectura Popular em Portugal - 2º Volume da 1ª edição

inq7

Arquitectura Popular em Portugal – 2ª edição 1980

O Inquérito

O Inquérito não foi, nem podia ter sido - dadas as condições em que foi realizado - homogéneo nos métodos e na "filosofia", com que cada equipa abordou o problema e a respectiva região. De um modo geral tratou-se de uma aproximação à realidade da arquitectura popular, numa visão mais disciplinar (as formas da arquitectura popular), do que antropológica (os modos de vida do povo).  Mas se as diversas equipas procuraram na arquitectura popular sobretudo o que ela tem de racional e mesmo de funcional, e por isso, as suas relações com a arquitectura moderna - que então estes arquitectos praticavam ou pretendiam praticar - nem por isso o Inquérito deixou de servir para colocar aos arquitectos a necessidade da aproximação às realidades nacionais, e chamar a atenção para métodos e estudos, que implicavam outras disciplinas como a história, a economia, a geografia,a psicologia e a antropologia. No campo disciplinar e caricaturando diríamos que os arquitectos partiram à procura de Le Corbusier e dos seus 5 pontos e encontraram uma realidade muito mais vasta, que os aproximava mais de F. L. Wright e de Alvar Aalto.

Portugal Continental foi dividido em 6 Regiões para cada uma das quais se constitui uma equipa de três elementos.

(Num momento em que se volta a considerar a regionalização, tem interesse ponderar esta divisão do País, que não corresponde à então tradicional e existente divisão administrativa).

Zona 1 Minho - Fernando Távora (1923-2005) /Rui Pimentel (1924-200?) /António Menéres

Fernando Távora, participou na ODAM (1947/52), assistente na EBAP a partir de 1951, foi membro dos CIAM, e tinha, à data do início do Inquérito, realizado o Bairro de Ramalde, o bloco de habitações na Foz do Douro, e o Mercado de Santa Maria da Feira.

Rui Pimentel, pertenceu à ODAM, tinha realizado com Mário Bonito, o bloco de habitações do Ouro (1950) e como pintor neorrealista, assinando Ar.Co. tinha participado nas Exposições Gerais de Artes Plásticas (1946-56)

Zona 2 Trás-os-Montes - O. L. Filgueiras (1922-1996) /Arnaldo Araújo (1925-1984) / Carlos Carvalho Dias

Octávio Lixa Filgueiras, em 1955 publica pelo Instituto de Alta Cultura, o primeiro dos seus trabalhos sobre as embarcações do Douro. Em 1957 torna-se assistente na ESBAP.

Arnaldo de Araújo, ainda sem o diploma de arquitecto (que iria obter em 1957, com uma CODA decorrente do Inquérito) tinha participado na equipa do CIAM X.

Zona 3 Beiras - Keil do Amaral (1910-1975) /José Huertas Lobo (1914-1987) /João José Malato (1926-2003)

Francisco Keil do Amaral, o mais velho e o impulsionador da ideia, com uma extensa obra realizada de que se destacam o Pavilhão de Portugal na Exposição de Paris em 1937, o Parque de Montes claros-Monsanto, o Aeroporto de Lisboa, o pavilhão da Fil, etc. Publicou Arquitectura e a Vida, e Lisboa-Cidade em Transformação. Foi membro fundador do ICAT e foi o principal dinamizador das Exposições Gerais.

Zona 4 Estremadura – Nuno Teotónio Pereira (1922)/António Pinto de Freitas/Francisco Silva Dias (1930)

Nuno Teotónio Pereira, à data do início do Inquérito já tinha realizado  a Captação de água na lezíria do Tejo em Valada do Ribatejo, 1948-1949; a Igreja das Águas em Penamacor, 1949-1953 (publicada na revista Arquitectura nº 60 e onde colaboraram os artistas plásticos Jorge Vieira, com o grande crucifixo de bronze, António Lino com o mosaico do baptistério e António Paiva com os painéis de madeira policromada. A pia baptismal de Teotónio Pereira, aproveita uma pedra esculpida pela água de uma ribeira); a Sub-estação da EDP de Águas Santas em Ermezinde, 1950; os Conjuntos de habitação social Braga, Castelo Branco, Póvoa de Santa Iria, Barcelos e V. N. Famalicão, 1950-1960; a Fábrica do Consórcio Laneiro de Portugal em Lisboa, 1951-1957 e com A. Pinto de Freitas e com Bartolomeu Costa Cabral o Edifício das Águas Livres, em Lisboa 1953-55 (com dois grandes murais em mosaico de Almada Negreiros, relevos de pedra de Jorge Vieira no soco do edifício, um painel de betão de José Escada e um vitral de Cargaleiro).

Zona 5 Alentejo - Frederico Jorge (1915– 1994) /A. Azevedo Gomes/A. M. Antunes

Zona 6 Algarve - Artur Pires Martins (1914-2000)/Celestino Castro(1920-2007)/Fernando Ferreira Torres (1922 - 2010)

Celestino de Castro tinha realizado duas preciosas habitações no Porto. A  habitação José Braga 1948/50 apresentada como CODA, e publicada  na revista "Arquitectura" n.º 32. e a habitação no Amial 1950/52 .

Cada zona é apresentada numa introdução em que cada equipa salienta as opções e escolhas dos exemplos recolhidos, e apresenta uma contextualização histórica e geográfica.

A cada equipa é dada liberdade para orientar o seu inquérito mas todas apresentam um Mapa Tipológico, um quadro-síntese das tipologias inquiridas e sua localização. Cada exemplo é documentado com desenhos (levantamentos, mapas, por vezes croquis) e fotografias.

Os valores plásticos

De salientar a qualidade das fotografias que acompanham os levantamentos arquitectónicos, beneficiando da expressividade conferida por serem a preto e branco. Os arquitectos do inquérito, todos formados nas Escolas de Belas Artes e alguns deles dedicando-se à pintura, são sensíveis ao valor plástico dos elementos e materiais e sobretudo as suas texturas,  nas arquitecturas observadas.

O Inquérito realiza-se num momento em que terminam as Exposições Gerais, em que a cultura neorrealista, na literatura e nas artes plásticas, vai dando lugar a pesquisas  estruturalistas  em torno das linguagens. No campo das artes plásticas, em Portugal surgem as primeiras obras abstractas. No plano internacional, particularmente em Paris,  alguns artistas procuram dar às suas telas relevos granulosos, conferindo-lhes valores tácteis e explorando essas qualidades plásticas. Jean Dubuffet (1901-1985)  constrói as suas telas com uma textura semelhante a paredes onde surgem figuras quase graffiti infantis. Criou com estas pinturas o conceito de Art Brut que irá influenciar a própria arquitectura dos anos seguintes, na utilização da plasticidade dos materiais naturais.

inq80

Châtaine aux hautes chairs – 1951 óleo e técnica mista sobre painel - 64.9 x 54 cm Guggenheim Museum, Ney York

inq35

Porta envernizada – 1957 Óleo s/ tela com colagem 189.2 x 146 cm Guggenheim Museum, New York

inq34 

Foto pormenor de porta Ifanes Trás-os-Montes– , zona 2 Inquérito à Arquitectura Regional 1955/61 SNA

Antoni Tàpies (1923), catalão, instalado em Paris em 1950, começa a criar um conjunto de pinturas, englobando na tela e na tinta gesso, areia e cola. No entanto as suas telas, ao contrário de Dubuffet, não tem uma atitude provocadora ou irónica, procurando sim a plasticidade das diversas texturas dos materiais utilizados, um prazer na visão táctil, em que os seus quadros adquirem uma solene poesia "quand la matiére lourde et lente commence a parler avec une force d'expression incomparable" (quando a matéria pesada e lenta começa a falar com uma força expressiva incomparável) segundo as suas próprias palavras.

inq82

C. 89 quadrado ocre gris, técnica mista 90 x 90 Colecção privada África do Sul

inq85

Pintura 1955. Técnica mista sobre tela. 96 x 145 cm.  Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía. Madrid. España.

inq92

  foto pormenor do paramento de parede (granito e xisto) - Olela S. ta Senhorinha de Basto Cabeceiras de Basto zona 1 Inquérito à Arquitectura Regional 1955/61 SNA

Alberto Burri (1915-1995) inicia em 1952  pinturas com uma poética semelhante à de Tapies mas utilizando pedaços de sacos (serapilheira) para dar materialidade à sua pintura, criando - pelas cores que utiliza, pelos fragmentos de tecido, pelos buracos - uma angústia  então conotada com a filosofia de Sartre.

inq86   inq84

"Sacco IV" 1954 e pormenor - serapilheira, algodão, cola, seda e óleo sobre tela. 114 x 76 cm. Colecção de Anthony Denney. Londres.

inq83

Composition, 1953. óleo, tinta dourada e cola sobre serapilheira e tela 86 x 100 cm Solomon R. Guggenheim Museum

inq93 

Foto aparelho de muro (adobo e xisto), Praia do Furadouro, zona 1 Inquérito à Arquitectura Regional 1955/61 SNA

Do mesmo modo, alguns escultores como Henry Moore (1898-1986) e Barbara Hepworth (1903-1975) procuram nestes anos utilizando as potencialidades expressivas dos materiais, criar espaços "ocos" que pertencem à escultura do mesmo modo que os espaços "cheios", e perfurar a massa contínua da escultura com um "furo," fazendo o objecto mais transparente e a envolvente participar na própria obra de arte.
Nas formas suas esculturas o interior oco da escultura torna-se mais importante do que a massa.

inq87

Henry Moore - Reclining Figure 1959

inq88

Barbara Hepworth - Escultura de jardim 1960, the Hirshhorn Museum Washington, D.C.

Le Corbusier e Ronchamps.

Le Corbusier, não sem causar uma considerável polémica nos círculos disciplinares, projecta e constrói, entre 50 e 55, a igreja de Notre Dame du Haut, em Ronchamps.inq74

A procura de uma diferente articulação entre edifício - ambiente natural, a poética do lugar, um edifício que se resolve num "núcleo" plástico, duro e compacto, com algo de escultórico, carregado de uma força expressiva que se acentua na utilização dos materiais, os muros rugosos rebocados a branco, contrastando com os elementos de betão aparente, a geometria orgânica e o abandono do "ângulo recto", irão provocar a perplexidade dos seus seguidores mais ortodoxos, mas irão ter um enorme impacto na obra dos arquitectos portugueses que então realizam o Inquérito.

O Inquérito – alguns exemplos

A leitura passados 50 anos da Arquitectura Popular em Portugal revela a extraordinária dimensão e  riqueza do Inquérito, e por isso neste texto apenas se dão alguns exemplos escolhidos um pouco ao acaso, com a curiosidade de muitos dos exemplos revelaram situações que se mantém e outros, como no Algarve, em que as transformações (e as destruições!) foram enormes.

Zona 1 Minho, Douro, Beira Litoral

Fernando Távora (1923-2005) /Rui Pimentel (1924-200?) /António Menéres

inq90

O inquérito da zona 1 (uma faixa litoral, entre o rio Minho e o rio Mondego) inicia-se por uma abordagem à hidrografia, orografia e geologia da zona, e ao seu clima. Segue-se uma breve história e tipologia dos assentamentos humanos, desde a pré-história até aos nossos dias, focando os castros, as cidades de origem romana, alguns edifícios românicos e góticos, os edifícios e a estrutura urbana do século XVI  e XVII(Viana do Castelo e Braga), os solares do século XVIII, o Porto do século XIX. Segue-se uma abordagem de tipos de povoamento com os seus espaços públicos (Mondim de Basto, Guimarães, Vila do Conde,…).

Inicia-se de seguida o inquérito à arquitectura propriamente dito, de que escolheremos apenas alguns exemplos.

As casas de Lavoura

Anta S. Paio, Guimarães – casa de lavoura

inq13

inq14 

Balazar Guimarães

inq15

inq16

Sobreira Carapeços Barcelos Casa sequeiro

“Nesta outra casa de Carapeços, chamada do Olival, temos uma belíssima casa-sequeiro, que além de nos dar uma planta fora do comum, ou pelo menos numa variante inesperada, oferece-se como um exemplar equilibradíssimo, sob o ponto de vista plástico. A primeira particularidade da planta é ter a cozinha no meio do corpo da casa, como que isolada. A segunda é que, ao contrário do costume, em que o seu tecto é constituído pelo telhado, lançou-se um soalho por cima, o que, como não podia deixar de ser, forçou a execução da chaminé sobre a lareira. …Mas, como dizíamos, é pela expressão, a exterior em particular, que a casa do Olival nos atrai. A fachada quebrada, a reduzida dimensão dos pés direitos e as duas sequências, de prumos de madeira no segundo piso, e pilares de granito por baixo, em frequências diferentes, além de se oporem à horizontalidade mar­cante do conjunto, reforçam o agradável efeito de repouso e aconchego para quem atentamente a observe. A falta de paralelismo entre o alinhamento dos mesmos pilares de pedra e a parede que se situa atrás, vem ainda retirar toda a dureza, pela sensação de espontaneidade ou até ingenuidade do jogo dos elementos. Depois, o contraste das secções e das matérias, da obra e da vegetação, e por fim, esse equilíbrio de antagonismo coordenado entre as formas reticuladas c brancas da casa e a natureza envolvente.”

inq17

A casa assente em pilotis

inq18   inq91inq19inq20

Os Espigueiros

A equipa 1, dedica particular atenção aos Espigueiros ou Canastros “…verdadeiros silos, erguidos sobre colunas e inantigíveis aos seus principais inimigos: os ratos e os pássaros.”

De facto os espigueiros correspondem à ideia de arquitectura que estes arquitectos então perseguem, ou seja uma concepção funcional e utilitária, com uma estrutura e uma construção simples, segundo um modelo cuja “forma é invariável por toda a parte. Uma caixa comprida e estreita, coberta por duas águas de telha ou lousa, com divisões interiores removíveis e porta num dos topos.” Dos muitos exemplos apresentados, escolhi o caso do Lindoso, pela sua espectacular concentração e por permanecer ainda nos nossos dias.

Parada do Lindoso

Planta de uma eira comum rodeada de espigueiros

inq22a

inq22inq21

O Lindoso na actualidade

foto Paulo Melo in http://travel.webshots.com/

inq96

Os Pormenores e elementos arquitectónicos

Olela S. ta Senhorinha de Basto, Cabeceiras de Basto Habitação e pormenor do paramento de parede.

inq94inq92

As Capelas de peregrinação

Tendo porventura presente Ronchamps de Le Cobusier, a equipa referencia as capelas de peregrinação, de “fisionomia ridente e esplêndida” já que “a cal não falta”, e que se “distinguem… nos cumes dos montes”.

Lindoso Capela de Santa Maria Madalena

inq95

Noras e Moinhos

Também são assinalados as noras e os moinhos (de tracção animal ou eólicos), de que se destaca o de Perafita com o  “aspecto insólito …reforçado pelo encontro agudo das duas paredes, figurando como que a quilha duma embarcação”, recordando que desde o século XVI, é estreita a ligação, no trabalho de madeira, entre a construção naval e os moinhos.

Perafita Penafiel  Moinho de linho

inq28

Moinho de linho pormenor do engenho

inq27

O Mapa Tipológico da zona 1

inq10   inq11

Zona 2 Trás-os-Montes

O. L. Filgueiras (1922-1996) /Arnaldo Araújo (1925-1984) / Carlos Carvalho Dias

inq97

inq98

Na minha opinião será o mais “antropológico” dos inquéritos, pela atenção dada, para além das pessoas, aos objectos, aos instrumentos agrícolas e aos carros de bois, e nestes às raízes da sua decoração. O inquérito da zona 2 , abre com uma brevíssima introdução em que se expõe com pequenas plantas, a Altimetria e Rios, a Geologia –Terra Fria e Terra Quente, as Culturas, e Sentido das Correntes de Trocas. É explicitamente referido o CIAM X.

O  X CIAM realizado em Agosto de 1956, em Dubrovnic torna efectiva, com a constituição do TEAM X, a cisão que se esboçara em 1953, no IX CIAM de Aix-en-Provence, de um grupo de arquitectos, dos quais se destacavam Peter e Alison Smithson, Aldo Van Eyck, Giancarlo De Carlo, Jaap Bakema, Georges Candillis, e Shadrach Woods, a que agora se juntam e Jose Coderch, Ralph Erskine, e Alexis Josic. O que basicamente se encontra em discussão são os conteúdos do desenvolvimento urbano, da cidade e do território, e a consciência de que os princípios, dogmatizados, do Movimento Moderno e, sobretudo, a Carta de Atenas, estão não só esgotados, como não permitem dar resposta aos novos problemas que se colocam a arquitectos e urbanistas.

Neste CIAM X participam os arquitectos Fernando Távora com o Mercado de Santa Maria da Feira, e Viana de Lima com o Hospital Regional de Bragança. É exposto o trabalho Habitat Rural realizado por uma equipa de que fazem parte  Octávio Filgueiras, Viana de Lima, Fernando Távora, Arnaldo Araújo, Carvalho Dias e Alberto Neves, realizado no tempo do Inquérito à Arquitectura Popular, e que mostra a procura das expressões do país real. De notar a participação dos três membros da equipa da zona 2.

inq146

inq147inq148inq149

Grelha CIAM X – Dubrovnik 1956

O inquérito da zona 2 inicia-se por abordar três povoações:

Montes no Marão

inq99

Montes -O trajecto das cabras a caminho do Monte

A conformação da estrutura urbana depende também dos percursos animais.

inq100

Há nesta equipa de arquitectos uma particular atenção ao interior das habitações, ao mobiliário e aos objectos, à vida quotidiana dos seus moradores, numa palavra  à “casa vivida”.

inq111

Sob  esta fotografia Montes – Interior da casa da tecedeira, o texto que se transcreve na íntegra:

“Também com muito poucos passos se medem as «casas». Por casa, entenda-se um espaço fechado onde o frio e a chuva se imiscuem com maior ou menor dificuldade, mas que é, afinal, o último reduto da vida do indivíduo. Normalmente na penumbra, com uma, duas ou três pequenas entradas de luz, que chega para fazer outros tantos buracos claros recortados no chão negro, às vezes com tabiques precariamente dispostos, sempre mostrando uma colecção heterogénea de pertences, estes espaços, que circunscrevem a vida em resguardo, apresentam valores tão válidos como os das nossas casas, ou ainda mais, somente com a diferença de que, a par dum aspecto de penúria extrema, existe uma sobrevalorização proveniente do ar pessoal com que as coisas aparecem feitas, pousadas e utilizadas. Devassar uma intimidade destas tem muito mais de íntimo porque em tudo perdura o ar do seu dono. Em meia dúzia de pormenores sem importância, saltam-nos aos olhos todas as funções, hábitos, maneiras dos ocupantes. Pode existir uma única peça, o que é o caso geral. Mas, mesmo assim, com o carácter unicelular do autentica­mente amebiano, destrinçam-se os espaços e as funções à moda de vacúolos, e percorrendo a sucessão de catres, de arcas, da mesa e de algumas cadeiras, e da zona mais substancialmente recheada de caçarolas e pratos, sentimos o ciclo das vinte e quatro horas de cada dia a perpassar da forma de sempre, da mesma forma limitada de sempre. O que se não vê é o que marca essa sucessão de dias de vinte e quatro horas aparentemente uniformes - um ano agrícola pior, uma doença, a morte dum animal ou duma pessoa mais chegados, a carta que se esconde timidamente entre a roupa e que, por vezes, atravessou milhares de quilómetros até chegar ao seu destino. O resto pode ser o fumo, o musgo, o encortiçado de muitos anos que dão o tom às coisas, mas que não passam duma epiderme tosca a encobrir corações iguais aos nossos.”

Montes – Uma Casa

inq103inq101inq102

Montes – planta da casa do sr. José Tamanqueiro

inq29

Rio de Onor

inq104

A equipa da zona 2 cita expressamente o etnólogo (António) Jorge Dias (1907-1973) que havia já publicado dois trabalhos sobre Trás-os-Montes:  em 1948, Vilarinho da Furna, Uma Aldeia comunitária, e em 1953  Rio de Onor - Comunitarismo Agro-Pastoril, publicado pelo Centro de Estudos de Etnologia Peninsular do Instituto de Alta Cultura.

inq110

Rio de Onor – Uma rua

inq105

Rio de Onor – A rua na actualidade

inq105a

Rio de Onor – Porta de varanda

inq106

Rio de Onor – Planta de uma casainq107

Rio de Onor – Uma lareira circular

inq108

Ifanes, Miranda do Douro

inq112

Ifanes – esquema da povoação

inq113

Ifanes – pátio

inq30  inq31

corte longitudinal do “treato” do mesmo pátio

inq32

vista do “treato”inq33

Ifanes – pormenor de porta carral

inq34

Textura e Nobreza dos materiais…

A acompanhar este conjunto de fotografias…

Muro de Vedação

inq116

Duas Igrejas – O Granito

inq117

Duas Igrejas – Telhados

inq118

…um wrightiano texto de inspiração neorrealista sobre a beleza e a plasticidade dos materiais naturais:

“Textura e nobreza dos materiais...

A pedra que, penosamente, foi cortada sob o Sol escaldante; a madeira, contando toda a sua história centenária, no emaranhado dos seus veios; a telha humilde que formas toscas e mãos calejadas ofereceram em holocausto ao Sol, nos terreiros da cozedura... Portanto, nobreza na humildade e majestade, na presença que cada um de tais elementos acusa fortemente para si. E sabedoria, na maneira como os homens souberam deixá-los falar por si mesmos, e os sujeitaram às vicissitudes das necessidades e às contingências da sua utilização.

Desde a fala reticente dos muros encastelados que toscamente, separam os lombos hirsutos de restolho, até às paredes - polifonia adusta em que os volumes acompanham a extrema maleabilidade dum material que só aparen­temente é rígido e inerte —; desde os vãos, tomados pelo negro do vazio ou pelo escuro das madeiras queimadas pelo tempo, até às coberturas fortemente estriadas pelas nervuras das capas e canais dum vermelho que se vai esvane­cendo ou que ficou reduzido a um trágico tisnado de velhice; paisagem, casas e homens aparecem-nos talhados pela mesma forma de ciclopes, ainda que gigantes caseiros, criados a migas de vinho e embalados no marcado compasso do Mirandum.”

A equipe apresenta ainda  Pitões das Júnias, no Barroso. inq115

Pitões das Júnias – Um dos núcleos da povoação

inq119

O Vale do Douro

Apenas com texto e fotografias, inicia-se com uma planta esquemática da região do vinho do Porto e com uma fotografia do Douro onde navegam dois barcos rabelos. Note-se que a equipa da zona 2 é liderada por Octávio Lixa Filgueiras, então já um investigador e perito sobre os barcos tradicionais portugueses.

A região demarcada do vinho do Porto

inq120

 

inq121

Capelas e espaços de feiras

O inquérito da zona 2 dedica então uma parte às capelas, salientando os Campanários, e aos espaços  de feiras.

Barroso. Capela de alpendre, no cimo de um outeiro. Cortes e planta

inq126  inq127inq128inq129

A equipa dedica uma parte do seu trabalho à pintura popular nas capelas da região de que se mostra um dos exemplos apresentados.

Vale da Castanheira, próximo de Chaves. A “Ceia” uma das pinturas que ocupam as quatro paredes duma pequena capela.

inq125

Os locais de feira

Caçarelhos. Terras de Miranda. Local da feira. Capela, alpendre e mesas de pedra.

inq131

Alçado parcial do alpendreinq132

Corte transversal do alpendre e um pormenor do alpendre e das mesas exteriores

inq133inq134

Finalmente um apontamento de arquitecturas urbanas, de Bragança, Lamego, Miranda do Douro, Chaves , S. João da Pesqueira, Murça, Freixo de Espada à Cinta.

Zona 3 Beiras

Keil do Amaral (1910-1975) /José Huertas Lobo (1914-1987) /João José Malato (1926-2003)

inq145

O inquérito à zona 3 é organizado em quatro partes.

1) A primeira parte, Panorâmica, dividida em A Região…com aspectos da paisagem, da geologia, climatologia e culturas e em  A Traços Largos, os povoados da Beira… com fotografias de Alvoco da Serra, Sortelha, Sabugal, Outeiro da Vinha. Segue-se Moreira de Rei e Castelo Novo, com o levantamento da praça com o pelourinho.

Moreira de Rei

inq173inq174

Castelo Novo

inq175inq177inq176

Finalmente, o levantamento do forno comum e o Tronco do ferrador de Parada e o levantamento do poço público e a Feira de Lardosa.

Parada

inq179       inq178

Lardosa

inq181  inq182

2) A segunda parte Zonas Diferenciadas e Construções Típicas, apresenta um mapa de sub-regiões e um conjunto de desenhos e fotografias dos diversos tipos de casas de cada uma dessas sub-regiões identificadas de A a G. Nesta parte é apresentado o Mapa Tipológico.

inq184

3) A terceira parte intitula-se os “Porquês”.

Inicia-se com O Povoamento da Beira…um pequeno texto com uma síntese da história do povoamento da região, acompanhado de dois mapas Tipos de Povoamento e Economia Agrícola.

Segue-se A Estrutura dos Povoados…com três exemplos de povoados condicionados pela orografia, com fotografia: Barco  e Monsanto na Beira-Baixa e Loriga na Beira-Alta. Depois povoados estruturados em função da exploração agrícola: Valezim na Beira Alta, com a exploração do milho;  Marialva, também na Beira Alta em que já é possível o centeio e algumas oliveiras; um terceiro exemplo apresentado é Travanca (Lafões) onde também se plantam vinhedos.

Numa página refere-se os Castelos, com Sabugal (planta  fotografia panorâmica) e fotografias de Sortelha, Trancoso e Almeida. De seguida uma breve referência à presença da Igreja, com uma planta e uma vista aérea do Largo da Sé (António José Pereira) em Viseu e duas panorâmicas  de Coimbra.

De seguida um levantamento com desenhos e fotografias, intitulado Quanto aos Edifícios…com vários exemplos de santa Comba Dão, Santa Cavadoude, Gralheira, Arrifana, Linhares, etc. com particular atenção aos materiais, tecnologias construtivas, e elementos da construção.

Santa Cavadouve

inq41

Santa Comba Dão

inq42

Paúl

inq43    inq44inq45inq46

Ainda um outro pequeno capítulo Também o Clima…em que se apresentam e justificam as Varandas.

Pedrogão Pequeno e Guarda

inq36inq38

Santa Cruz da Trapa

inq37 

Moimentainq40

Um capítulo intitulado As Condições Económicas… “…um condicionamento da mais alta importância para a sua (da Zona)Arquitectura”, onde se apresentam os Espigueiros e os mercados de Santa Comba e de Marialva.

Prendendo-se com este capítulo um outro A Organização Social…em que se expõe as relações de vizinhança, nos pequenos e nos maiores povoados, e como elas condicionam a arquitectura, exemplificando com casas populares e casas fidalgas.

Esta III parte termina com a referência às construções religiosas num pequeno capítulo intitulado A Igreja…a que se segue As Vicissitudes da História…numa breve referência à presença dos Judeus e as suas marcas nas edificações (cujo exemplo mais conhecido é Belmonte) e ainda aos que no século XVIII emigraram para o Brasil e voltaram para construir as suas casas.

4) A quarta parte Formas e Expressões, aborda a Arquitectura regional da Beira sob o aspecto plástico. Num primeiro capítulo Superar a Estrita Função…

“Superar á estrita função é, pois, uma condição fundamental para que as construções se transformem em obras de
Arquitectura. Superá-la sem a obliterar,é óbvio. Dar aos elementos funcionais poder emotivo, mas sem para isso os
mascarar ou lhes anular as razões de ser.
Na Beira, fora dos povoados de maior vulto, não são correntes as edificações em que as bases materiais tenham sido francamente sublimadas pelo poder da Arte. Hábitos seculares de estrita economia e desconforto fazem com que o rural da Beira se contente com soluções construtivas rudimentares, sem preocupações estéticas a enobrecê-las. Contudo, apesar da escassez de meios e da ausência de solicitações espirituais, aparecem, aqui e além, soluções que se impõem pela harmonia dos volumes simples, pelos efeitos de claro-escuro, pela riqueza dos paramentos, pela elegância das varandas, pelo lançamento das escadas exteriores, ou por outros aspectos menos comuns.

Quanto à organização espacial interna dos edifícios, são menos frequentes as soluções de verdadeiro interesse arquitectónico e, por isso mesmo, aparecem minimizadas neste estudo. Só nalguns casos esparsos, de que Malpica constitui, porventura, o exemplo mais valioso, a compartimentação, o dimensionamento e a valorização dos espaços internos revelam imaginação e sensibilidade criadora. As mais das vezes, à pobreza de meios com que se organizam, aliam-se uma acentuada pobreza de imaginação e uma notória ausência de interesses estéticos.”

No segundo capítulo A Arquiectura Erudita e a Arquitectura Popular… procura-se analisar as influências recíprocas, documentando com imagens dos Pelourinhos, “Alminhas” e Cruzeiros, bem como elementos arquitectónicos.

E a equipa de Keil do Amaral termina o seu inquérito à arquitectura beirã com uma espécie de conclusão que partindo da arquitectura beirã se pode estender a toda a arquitectura popular em Portugal, apontando pistas para posteriores investigações. Assim num capítulo intitulado A Definição das Constantes na Expressão da Arquitectura Beirã… , em que considerando que não sendo “…uma tarefa simples…parece vantajoso ensaiá-la”  escrevem “Reuniram-se nestas últimas páginas, para facilitar a apreciação do problema, algumas fotografias de edificações típicas da Beira, em que figuram duas igrejas (Lourosa e Covilhã), um solar (Rabaçal), algumas casas de habitação e uma câmara municipal (Santa Comba Dão). O mais antigo desses edifícios foi construído há dez séculos e o mais recente há dez anos. São diversas, portanto, as respectivas funções e as épocas em que os ergueram. É fora de dúvida, apesar disso, que evidenciam traços comuns. Não os de um estilo determinado, nem os que poderiam resultar duma função idêntica, mas os que decorreram das imposições do meio. A simplicidade dos volumes e das composições salta à vista, bem como o geometrismo elementar das articulações das massas construtivas e dos elementos que as definem, completam ou valorizam. Robustos, sólidos e sem devaneios, os edifícios assentam pesadamente na terra. É uma Arquitectura máscula e humilde, a da Beira Alta e da Beira Baixa. De proporções modestas, dominantes horizontais, disciplinada e sem arrogância. Até os solares barrocos revelam continên­cia e humildade nas fantasias da composição. Exibem enquadramentos de vãos mais ricos de molduras, brasões mais aparatosos, tectos mais enfeitados e decorações de talha dourada nas capelas; mas os volumes, a modulação, as proporções, a horizontalidade, permanecem sem grandes alterações. Continuam humildes no aparato. A comparação com edifícios típicos da mesma época e finalidade, da Alemanha, da Áustria, de Espanha ou do México colonizado, fará ressaltar com evidência tais características. Outro aspecto a acentuar é o do hermetismo das edificações. Do absoluto predomínio das paredes sobre os vãos, só contrariado nas varandas envidraçadas, que são, aliás, elementos exteriores a paredes pouco rasgadas. Imposições de ordem técnica, climatérica e económica, encontram-se na base dessas soluções fechadas, maciças, que um nível primevo de existência e de concepções fizeram perdurar. «Livra-te dos ares que eu te livrarei dos males» - diz-se ainda na Beira. E é raro abrir-se uma janela numa alcova ou num quarto. Cremos bem, de resto, que de um modo geral (embora mais acentuadamente no interior do País) as características apontadas são típicas da Arquitectura portuguesa. A sobriedade, a horizontalidade e o hermetismo caracterizam, com efeito, as edificações típicas de regiões mais vastas do que as da Zona em estudo. Explicam, aliás, em certa medida, a persistência do românico ou de feições romanizadas entre nós, a manutenção das armações de madeira de tipo paleocristão nas coberturas das igrejas góticas da Estremadura, o partido meridional, mediterrânico, da Bata­lha, a concentração de decoração, mesmo a Manuelina, em certos pontos de edifícios sóbrios e compactos, a secura ordenada do Pombalino, a feição comedida do nosso Barroco, e várias outras facetas portuguesas da Arquitectura erudita, além das que mais acentuadamente, evidenciam as feições regionais da Arquitectura popular.

Zona 4 Estremadura

Teotónio Pereira/Pinto de Freitas/Silva Dias

inq153

A zona 4 “compreende a área limitada pela costa e uma linha quebrada, de vértices em Setúbal, Abrantes, Coimbra e a Praia de Mira.”

Trata-se por isso de uma zona heterogénea, dominada pela cidade de Lisboa, abrangendo algumas povoações com vocação turística como a Nazaré no litoral e Óbidos e Sintra mais no interior, povoações piscatórias, povoações ribeirinhas e povoações rurais e agrícolas. A equipa apresenta por isso um conjunto de quatro mapas, Densidade da População, Divisão da Propriedade, Formas de Cultivo e Tipos de Povoamento, para enquadrar o seu inquérito.

Nesta primeira parte apresenta-se um conjunto de arquitecturas, de que destacámos:

Azenhas do Mar, exemplo de “quando o núcleo se fixa em elevações, as ruas ganham movimento e surgem as rampas e as escadas, aliadas a disposições engenhosas de valetas que permitem o rápido escoamento de enxurradas. As casas amontoam-se em perspectivas de presépio. Há nas soluções um recurso constante à linha curva, à superfície empenada ou aos socalcos que nascem espontâneamente  pela necessidade de fazer concordar dois planos, ou vencer, servindo-se da própria rocha, um desnível e nele integrar a casa e o terreno. As ruas  enovelam-se ou quebram-se em pequenos troços, na necessidade de adaptação. O aglomerado ganha uma maleabilidade quase orgânica. A preciosidade do terreno impõe uma dimensão justa, de acordo com as exigências da escala humana. As ruas estreitas e tortuosas foram feitas para os peões ou para os animais. Os automóveis são intrusos.”

Azenhas do Mar – foto de Arquitectura Popular em Portugal e na actualidade.

inq156inq180a

De Óbidos há uma apreciação do Largo: “O largo de Óbidos é exemplo dum arranjo urbano que, embora não planificado, possui grande interesse, pela sua organização espacial, distribuição do equipamento e justeza da escala. O burgo vive dentro de muralhas que lhe limitam a exten­são e condicionam a malha urbana — as ruas fundamentais, largas só de alguns metros, escravizam-se a uma convergên­cia para a entrada principal, aberta a sul. O largo apresen­ta-se na sua maior dimensão perpendicularmente a esse mo­vimento. A rua principal, fechada e estreita, alarga-se subi­tamente para o observador que a percorra. O espaço do largo surge de surpresa e o ponto para a sua primeira visão é escolhido: em primeiro plano o pelourinho e um muro, alguns metros mais abaixo o terreiro, empedrado, com desenhos de basalto negro no fundo branco de vidraço. Duas rampas de largura diferentes, uma contínua e outra quebrada por degraus, ligam os dois níveis. Sob as árvores, faz-se o mercado, e na concavidade formada pelos muros situa-se, no eixo que o pelourinho determina, o fontanário que se opõe ao portal da Igreja de Nossa Senhora, peça fundamental no conjunto da composição. O largo é definido a poente pela fachada contínua da rua, mas dissolve-se pelo aglomerado no lado oposto. Há uma sucessão fluida de espaços, um desdobrar constante de novas perspectivas — um muro de suporte e uma escada­ria que envolve um cruzeiro e descobre um outro largo, uma rua tortuosa que se esconde sob um arco...

No lado norte, ao nível da rua, dominando todo o largo — o chafariz, a entrada da igreja e o mercado —, rasga-se um telheiro alongado e baixo, sem guardas que quebrem a vista para quem se senta no banco corrido ao longo da parede. Tudo acarinha a observação e o convívio. No pavimento, um desenho ritmado contrasta com as grandes linhas de composição do terreiro.”

inq157  inq158

inq159

Escolhemos desta zona dois conjuntos arquitectónicos que se mantém:

Nossa Senhora do Cabo no Cabo Espichel

Um dos mais interessantes exemplos apresentados, que deu a conhecer essa extraordinária e belíssima obra de arquitectura, é o conjunto de Nossa Senhora do Cabo situado no planalto que o cabo Espichel lança sobre o mar.

inq160

inq162

“O conjunto deve-se à romaria de Nossa Senhora do Cabo, tem como fulcro a igreja e dão-lhe corpo as instalações para os peregrinos. A origem lê-se em lápide da época, colocada numa das alas: CASA DE NOSSA S: / DE CABO FEITAS POR/ CONTA DO SÍRIO DOS/SALOIOS NO ANO DE/ 1757/P.ACOMDAÇÂO DOS/MORDOMOS QUE VIEREM DAR BODO. “inq163

“A vida do aglomerado seria intensa, uns quantos dias por ano, enquanto os círios ou grandes peregrinações lá se conservassem. Para então, havia todo o equipamento que a vida desde o século XVIII até ao princípio dos nossos dias exigia. Além das casas e do templo, um teatro, padaria, cozinhas colectivas, fontes e cocheiras integram-se no conjunto. Em contraste com a totalidade dos aglomerados, de génese espontânea, este aparece-nos racionalizado e como produto duma composição. A estrutura fundamenta-se no vasto largo rectangular — o arraial —, definido pelo plano da fachada da igreja e pelas duas alas paralelas. O topo nascente é aberto, mas o espaço é limitado pelo cruzeiro e pela casa da água. O comprimento dos dois corpos, que as casas dos peregrinos formam, é diferente — enquanto ao norte o ritmo das arcadas vence 63 vãos, ao sul não passa de 47 —; deste modo, quem se dirige para o santuário, vindo pela estrada de Sesimbra, compreende o recinto sem ainda ter atingido o terreiro. Para os que estão dentro dele, a massa da igreja evidencia-se, embora se integre intimamente no conjunto, através do enquadramento que as duas alas lhe determinam. A decoração da fachada do templo, as volutas ingénuas entre a sobriedade rude das duas torres, o portal decorado e a sequência do desenho dos arcos marcados pelo escuro do paramento recolhido, aliam-se numa escala que se adivinha colectiva, mas não exclui a presença do indivíduo, e fazem do largo um dos mais belos conjuntos da região, só com paralelo, já dentro duma concepção erudita, no Terreiro do Paço, em Lisboa.

inq161

“Os dois corpos que delimitam o vasto recinto central — o «arraial» — são as peças mais importantes de todo o con­junto arquitectónico, não só pelo excepcional valor plástico da sua arcaria, como também pelo seu invulgar significado social. Estes elementos destinam-se ao alojamento dos ro­meiros, por famílias,

As «hospedarias», assim são chamados, constam dum piso térreo, «loja», ou dum «sobrado» e em ambos os casos se compõem duma única sala, com recanto para cozinhar. Toda a construção evidencia nítida influência da arte de edificar dos seus promotores, os saloios, quer no apuro do emprego da pedra, quer.na pormenorização.”

inq166  inq165inq164  inq167 

Na actualidade

inq186inq150inq190

“Casas dos ilhéus “ Picanceira Mafra

inq47inq48

inq172

Na actualidade

inq130

Podemos encontrar certa semelhança formal com a  banda de habitações no Weissenhof, Stuttgart de 1927 de J.J.Peter Oud

weiss307_thumb1

Os Palheiros

A equipa ao debruçar-se sobre a utilização da madeira, refere uma outra tipologia então muito frequente na costa da zona, os Palheiros, construções em madeira, que beneficiam da proximidade do pinhal de Leiria.

“Como vive esta gente? Vive com simplicidade nos palheiros, casa ideal para pescadores ou para um velho filósofo como eu. É construída sobre espeques na areia, com tábuas de pinho e um forro por dentro aplainado. Duram tanto ou mais que a vida:
cheiram que consolam, quando novas, a resina, a árvore descascada e a monte; ressoam como um velho búzio e são leves, agasalhadas, transparentes. Por fora escurecem logo,
e envelhecendo caem para o lado ou para a frente; por dentro conservam uma frescura extraordinária, e quando se abre uma janela, abre-se para o infinito. No chão dois tijolos para o lume, em esteiras alguns peixes a secar…”

Arredores de Figueiró dos Vinhos

inq169

Palheiros da Tocha

“Na costa baixa, ocupada pelo pinhal de Leiria, as exten­sas matas, a areia e a presença do mar conjugam-se como factores de um tipo de Arquitectura estreitamente ligado às condições ecológicas. As construções são de madeira, cujo emprego é nobilitado por uma técnica tradicional e apurada, e que, pela leveza que confere à obra, permite elevá-la sobre pilares, de modo a fugir à invasão da areia que, empurrada pelo vento que o mar sopra, passa livremente sob ela. As habitações apresentam geralmente um esquema muito simples, circunscrito a uma forma rectangular, e desenvolve-se num único piso, ou por vezes em dois, sendo então o primeiro destinado a arrecadação. A cobertura é de telha com duas águas. Interiormente, a casa reserva, nos exemplos mais elemen­tares, a zona que se abre à rua ou à praia para sala de fora, e a cozinha com a ligação com a varanda ou os quartos que se abrem para o lado oposto.”

inq155

Curiosamente a equipa sobre os palheiros não cita Raul Brandão que em os Pescadores lhes dedica algumas páginas de que citamos:

“Como vive esta gente? Vive com simplicidade nos palheiros, casa ideal para pescadores ou para um velho filósofo como eu. É construída sobre espeques na areia, com tábuas de pinho e um forro por dentro aplainado. Duram tanto ou mais que a vida:
cheiram que consolam, quando novas, a resina, a árvore descascada e a monte; ressoam como um velho búzio e são leves, agasalhadas, transparentes. Por fora escurecem logo,
e envelhecendo caem para o lado ou para a frente; por dentro conservam uma frescura extraordinária, e quando se abre uma janela, abre-se para o infinito. No chão dois tijolos para o lume, em esteiras alguns peixes a secar…”

(ver a Zona 6, onde esta obra de Raul Brandão é citada, provavelmente pela presença na equipa de Celestino de Castro, um portuense como Raul Brandão)

inq170

inq195

inq199    inq196inq197    inq198

Praia de Mira

inq171

As casas dos Avieiros

Os Avieiros, denominação encontrada em Alves Redol, que a equipa cita: “Incerto o pão na sua praia, só certa a morte no mar que os leva, eles partem. Da Vieira-de-Leiria vêm ao Ribatejo. Aqui Labutam. Alguns voltam ainda, ávidos da saudade do seu Mar. Muitos ficam. Avieiros lhes chamam no “Borda-de-Água”  Avieiros – Alves Redol

(Nota - Avieiros é um romance de Alves Redol (1911-1969), publicado em 1942. Em 1975 Ricardo Costa realizou para a RTP um filme documentário com o mesmo título e baseado na obra de Redol.)

inq185

As casas dos avieiros, na bacia do Tejo, “construídas em madeira, segundo a técnica da região e donde emigrara, eram montadas, previdentemente, sobre estacaria que as protegia da devastação das águas transbordantes.”

Q. Alqueidão

inq50inq51inq49

Ainda uma referência aos moinhos muito frequentes no litoral muito ventoso.

inq168

A finalizar o Inquérito da zona 4, faz ainda uma referência às capelas e à arquitectura erudita de Tomar e Sintra.

Zona 5 Alentejo

Frederico Jorge / Azevedo Gomes / A. M. Antunes

inq183

A Zona 5 foi limitada a Sul e a Oeste por uma linha poligonal, cujos vértices assentam em Aljustrel, Alcácer do Sal e Vendas Novas, estende-se esta linha até ao Tejo, limite Norte, até à fronteira, que a extrema pelo Leste.”

O inquérito da Zona 5 inicia-se por um capítulo Factor Geográfico, em que são apontados a densidade da população, a constituição geológica dos terrenos, com um Mapa Geológico da Zona, a hidrografia, e o clima. Neste item são apresentados Diagramas Climáticos.

Dada a importância que a agricultura tem na população alentejana (70%), segue-se uma página Agro-Pecuária, sobre as actividades agrícolas, e uma outra Factores de Evolução.

De seguida Organização Social, com fotografias de trabalhadores: o Pastor, o Trabalhador e o Feitor,  de uma Monda, de uma Tourada e de uma Feira.

O inquérito debruça-se de seguida sobre a Ocupação do Território, a Distribuição da População e Estruturas Urbanas, com mapas e fotografias de algumas povoações.

Passa de seguida a Materiais de Construção, sua Aplicação Directa na Arquitectura, onde se refere a utilização dominante da cal, do tijolo e da taipa, ilustrado com fotografias de pormenores de construção e sua execução “Taipa, Tijolo, Abobadilhas, Pedra, Madeira e Materiais Diversos”.

Só então se aborda a Arquitectura da Zona.

Num texto inicial cita-se de Oswald Spengler (1880-1936) a “Decadência do Ocidente” “a casa é a expressão mais pura que existe da raça. A partir do momento em que o homem, tornando-se sedentário, não se satisfaz já com um simples abrigo e constrói uma habitação sólida, aparece essa expressão que dentro da raça homem — elemento do quadro biológico - distin­gue uma das outras raças dos homens, na Histórica Universal propriamente dita, correntes de existência, prenhes de significação muito mais anímica, psíquica. A forma primária da casa é qualquer coisa que o homem sente, que com ele cresce, sem que este saiba nada dela. Como a concha do nautilus, como a colmeia das abelhas, como o ninho dos pássaros, possui a casa a sua evidência interior; e todos os traços dos primitivos costumes e formas de existência, de vida conjugal e familiar, da estrutura colectiva, acham-se reproduzidas na planta da casa e nas suas principais partes».

Refere-se, de seguida, os dois grandes grupos da habitação alentejana: “…a casa que pertence aos aglomerados populacionais e a construção isolada - o monte. Enquanto que no primeiro domina a instalação habitacional, no segundo prepondera a função agrícola.”

Cita-se Jorge Dias: «O elemento anónimo que resulta em parte da concepção pré-romântica de Herder, levou alguns etnógrafos a defender a opinião de que o povo era uma espécie de criador colectivo, como se existisse uma alma popular colectiva. Hoje está inteiramente provado que a criação é sempre individual — o que lhe confere aparentemente carácter anónimo - é mais a atitude mental do povo (vulgar) que se costuma apropriar do que lhe interessa sem se dar ao cuidado de fixar o nome do autor. Não só se apropria como modifica, aperfeiçoa ou deturpa, conforme a fidelidade da memória ou a própria capacidade criadora.” para justificar a importância do papel individual na arquitectura popular, e a dificuldade em estabelecer tipologias para a Zona considerada. Assim a equipa vai dividir a Zona em sub-regiões, utilizando uma Carta do prof. Aristides Amorim Girão (1895-1960), e explorar a arquitectura de cada uma destas sub-zonas: Areias, Barros,Serra de Borba, Plataforma de Évora, Barros de Beja, e  Além Guadiana.

inq200

Em cada uma destas subregiões, aborda-se a arquitectura popular e a arquitectura erudita, na sua concentração urbana e em (poucos) pequenos povoados.

Areias (Castelo de Vide, Nisa, Marvão e Portalegre). Numa das casas refere-se a propósito do pé-direito de 2,26 como uma “medida bem cara a Le Corbusier”, já que é a medida base do MODULOR.

Habitação vista do quinta e entrada da casa

inq215inq219

Planta

inq216

Corte

inq217

Planta do conjunto

inq218

Anexos para o gado

inq220

Barros (Ponte de Sor, Alter do Chão, Aviz, Sousel, Fronteira, Monforte, Arronches, Elvas e Campo Maior).

Serra de Borba (Estremoz, Borba, Vila Viçosa e parte do Alandroal)

Plataforma de Évora (Arraiolos, Montemor-o-Novo, Viana do Alentejo, Évora, Redondo, Alandroal, Reguengos e Portel)

Barros de Beja (Alvito, Cuba, Vidigueira, Beja e Ferreira)

Além Guadiana (Mourão, Barrancos, Moura e Serpa)

Moura Monte Branco da Serra

inq52inq53inq54

O inquérito à zona 5 encerra com uma referência e uma panorâmica de Mértola.

Zona 6 Algarve

Pires Martins/Celestino Castro/Fernando Torres

inq206

O Inquérito à Zona 6, reveste-se de um interesse particular, já que é realizado antes do boom turístico que iria transformar o Algarve em Allgarve!

O Inquérito inicia-se por uma Introdução Geográfica, com a limitação e caracterização da zona, que abrange o Algarve, o Alentejo Litoral, a Bacia do Sado e uma parte do Baixo Alentejo, acompanhada por mapas da Economia agrícola, de Tipos de povoamento e divisões geográficas e por fotografias.

Sem formular juízos de valor, compare-se a imagem de Quarteira Loulé, com a Quarteira da actualidade.

inq207

De seguida o inquérito apresenta Dois Povoados – Um Morgadio

Os povoados são Burgau (Vila do Bispo), no litoral entre Lagos e Sagres,

inq208

inq210

e Fontes da Matosa (Silves), no interior

inq209

O Morgadio de Arge e do Reguengo (Portimão), grandes instalações agrícolas, na época já em declínio e  onde hoje está instalado o Morgado do Reguengo Golf Club.

Segue-se um capítulo Estrutura Urbana , com referências a Silves, Aljezur, Vila do Bispo, Monchique e Albufeira.

Albufeira foto do inquérito e foto na actualidadeinq61inq205b

O inquérito apresenta de seguida aspectos de Olhão, Fuseta, e Porto Covo.

Segue-se um capítulo Clima, onde se relaciona as arquitecturas com o clima.

Depois Materiais e Processo de Construção

No capítulo seguinte intitulado Tipos de Habitação, apresentam-se diversos tipos de habitação da zona de que selecionamos os conjuntos de Olhão e da Fuseta.

A equipa da zona 6, para fundamentar as relações com o norte de África na arquitectura destas duas povoações  algarvias, cita frases (a azul) de um texto, Olhão Agosto 1922,  de os Pescadores (1923) do portuense Raul Brandão (1867-1930), de que se reproduz a passagem na íntegra : “Há meio século, Olhão entranhado de Salmoura e perdido no mundo, vivia só do mar.Todos se conheciam. Os que não eram marítimos eram filhos ou netos de marítimos, contrabandistas uns, e outros pescadores costeiros e pescadores do alto que iam à cavala a Larache. A pesca costeira, a das caçadas, fazia-se com groseiras, grandes espinéis, para o cachucho, o goraz, o safio, a carocha, o ruivo, a abrótea e a pescada; e com a arte da xávega, em calões e botes, puxando a tripulação o aparelho para terra enquanto o arrais, numa pequena lancha, a calima, vigiava o lanço e dirigia a manobra.
Havia muito peixe e a vida era extraordinária. Toda a noite o chamador batia de porta em porta com um cacete:
– Arriba com Deus, mano João!
Nesta arte ia ao mar quem queria – os pequenos, os humildes e os fracos – todos de varino e por baixo nus.
– Levas a barça? – perguntava o arrais.
Era o essencial. Dizia-se de um homem pobríssimo: – Aquilo é um
homem sem barça nem lasca.
O dinheiro arrecadava-o o dono num monte com uma esteira por cima, e distribuía-o enfiando o braço por um buraco e tirando um punhado de cobre ao acaso:
– Toma lá!
Fazia as contas que entendia e os pobres diziam:
– O que ele tem enricado à custa daquela esteira!...
E as mães às filhas:
– Ó filha, Deus queira que não olhes para home que ande na arte!.
A pesca do alto fazia-se em caíques cobertos, de vinte cinco a trinta toneladas, com duas velas triangulares. Este barco voava. Ia a Setúbal, a Lisboa, às Berlengas, ao Porto, e só voltava a casa no S. João, no Natal e nas festas grandes do ano. As mulheres esperavam pelos maridos com alvoroço – dando outra mão de cal nas casas.
Tripulavam-no vinte e cinco homens e dois cães, que ganhavam tanto como os homens. E mereciam-no. Era uma raça de bichos peludos, atentos um a cada bordo e ao lado dos pescadores. Fugia o peixe ao alar da linha, saltava o cão no mar e ia agarrá-lo ao meio da água, trazendo-o na boca para bordo. O caíque pescava e vendia pela costa fora. Às vezes sucedia-lhes estarem em Lisboa, abrigados do temporal, longe da terra em dias de festa, no da procissão do Senhor dos Passos, por exemplo – a que o marítimo nunca falta vestindo o melhor fato e pondo a cartola na cabeça: – Compadre, vamos nós à procissão? – Ventania rija, vagalhão de meter medo na barra... – Por cima da água ou
por baixo da água, vamos sempre. – E iam. Marítimos extraordinários, não usaram nunca agulha de marear: sabiam onde estavam pelo cheiro.
Outro barco, o do navego, comprava géneros em Almeria e Gibraltar, palma na Barbéria (Marrocos) ou ia a S. Martinho buscar o pero que tem fama, levando do Algarve o figo, a alfarroba e o peixe sêco para vender.”

O conjunto de Olhão

“É de notar que, tanto em Olhão como na Fuseta, os alçados destes conjuntos correspondentes às entradas não se distinguem da banalidade das construções vizinhas, não tendo o interesse plástico das zonas posteriores.”

inq55inq56inq57

O conjunto da Fuseta

inq58inq59inq60

O Inquérito à Zona 6 termina com um capítulo Elementos de Valorização, pretendendo destacar alguns aspectos que qualificam a arquitectura algarvia: as platibandas e as chaminés, a organização dos pátios interiores, a aplicação da cal, as molduras  nas capelas e igrejas, os rotulados nos vãos de janelas.

Estas formas e arquitecturas, irão ser utilizadas de uma forma mais ou menos feliz (infelizmente mais menos !) nos chamados “aldeamentos turísticos”, a partir do boom do turismo algarvio dos anos sessenta.

As consequências da Arquitectura Popular em Portugal

Serão diversas, quer no campo do debate arquitectónico quer no campo operativo, as consequências do inquérito publicado em 1961. Por um lado ele serviu - quase definitivamente - para desmistificar as diversas correntes ou versões da "Casa Portuguesa" e do tradicionalismo folclórico do gosto oficial, pequeno burguês, então ainda em prática, pela recolha que fez das experiências vivas da arquitectura popular ou espontânea. Por outro lado o Inquérito trouxe para as Escolas, e particularmente para a ESBAP, uma nova atenção ao mundo rural e aos meios urbanos degradados, ou seja, uma nova atenção para a realidade concreta da situação portuguesa, e que se traduzirá no ensino da escola do Porto em dois vectores ou direcções de trabalho:

1. as operações Matosinhos e os inquéritos aos bairros degradados da cidade (Operações realizadas sob a direcção de Octávio da Lixa Filgueiras, no âmbito da disciplina Arquitectura Analítica I e II (com a seguinte sequência: 1960/61 - "Universidade"; 1962/63 - "Matosinhos" (esta mobilizando toda a Escola); 1963/64 - "Miragaia";1964/65 a 1968/1969 - "Barredo".

inq2

Desenhos de Vasco Morais Soares da operação Universidade

inq3

2. as "codas" de análise e intervenção nos ambientes rurais, com uma motivação claramente ideológica, neorrealista e politizada, ainda que fosse apenas pela denúncia da condição urbana e rural dos anos sessenta nacionais.  As "CODA" de análise e intervenção no meio rural são iniciadas em 1957 com Arnaldo de Araújo (1925-1984), com um rigoroso, bem documentado e metodologicamente exemplar trabalho intitulado "Formas do Habitat Rural - Norte de Bragança, Contribuição para a estrutura da Comunidade".

inq4inq4a

A que se seguirão em 1962, Joaquim Alves da Silva (1927) com "Alguns Aspectos do Habitat na Região Alentejana";

inq5a

inq5

Em 1963, Joaquim José Dias (1932) com "Recuperação de Aldeias - Espinhosela, Bragança", este já com um sentido mais operativo não se limitando à análise da realidade rural;

inq62inq63inq64inq65

E finalmente, em 1964, Sérgio Fernandez (1937), com "Recuperação de Aldeias (equipamento colectivo) Rio De Onor, Bragança", intervindo com uma proposta de um equipamento colectivo - a Casa do Povo - projecto de importante significado, não só na estrutura comunitária do povoado, como na recuperação de tecnologias e linguagens populares.

inq66inq66ainq69inq67inq68

O equipamento colectivo

inq70inq71inq72inq73

As consequências no campo operativo

No campo operativo, o Inquérito veio a influenciar os projectos e as obras dos arquitectos, quer nas suas formas e linguagens quer, sobretudo, nos seus métodos de projectar.

No plano das linguagens

A reutilização e a importância atribuída aos telhados e beirais, às chaminés e lareiras, às varandas e aos alpendres, às portas e aberturas. A reutilização dos materiais naturais e tradicionais - pedra, tijolo e madeira – das suas tecnologias,  evidenciando os seus valores plásticos.

No plano metodológico,

1. A revalorização das arquitecturas de pequena dimensão,

2. A importância que a cultura local (no seu sentido antropológico), que o lugar, tem para a conformação e o enraizamento da obra, bem como a sua adaptação e modelação ao terreno e/ou às construções existentes;

3. O sentido da "sobriedade" e de equilíbrio utilitário, fruto de uma empírica economia de meios quer materiais quer técnicos, experimentados ao longo de gerações e em que as inovações são, por isso, sempre controladas e testadas, como resultantes de fortes razões lógicas;

4. A noção de espaço e de conforto radicados mais em razões psicológicas e culturais do que em avanços tecnológicos;

5. E ainda, a organização dos espaços envolventes e adjacentes à construção - pátios, eiras, jardins, anexos - quer com elementos simples quer como elementos relacionados com a própria construção.

O Inquérito, vem ao encontro a uma nova cultura arquitectónica, iniciada nos meados da década de 50 arquitectónica com uma nova concepção do espaço e da espacialidade e uma nova atenção às arquitecturas de Wright e Aalto. Bruno Zevi (1918-2000) que em 1945 já havia publicado “Verso un’architettura organica” e em 1948 o muito difundido “Saper Vedere l'Architettura”, publica em 1950 a sua "Storia dell'Architettura Moderna" - cuja edição em espanhol irá ter no nosso pais uma enorme difusão nos meios estudantis e profissionais - fundamentada numa interpretação historiográfica com particular atenção pelo ambiente internacional e pelas experiências das figuras "heróicas" e dos protagonistas mais válidos e convincentes do movimento moderno (apesar de algumas omissões posteriormente corrigidas), mas sobretudo centrada na defesa do "Organicismo" de Wright e Aalto.

inq75inq89inq76

A obra de Frank Lloyd Wright é ainda amplamente divulgada e valorizada por Bruno Zevi na revista que então dirige: "L'Architettura, Cronache e Storia". Zevi  foca em particular o tratamento e utilização de materiais naturais e locais, a adaptação ao terreno natural, a procura dos valores essenciais da casa como a Lareira e a Chaminé, a Porta e o Telhado,  a relação e integração com a paisagem em soluções que procuram, no limite, o mimetismo, a utilização de recurso formais como a horizontalidade, e a  fluidez dos espaços internos, no fundo tudo o que os arquitectos do Inquérito redescobrem na arquitectura popular.

Casa Robbie Chicago, 1910

inq211

Fallingwater Bear Run,1935-1937

inq212

Também Alvar Aalto é considerado por Bruno Zevi como o autor capaz de realizar, na arquitectura europeia, a síntese entre o organicismo e o racionalismo, irá ao longo dos anos cinquenta, e prolongando-se pelas décadas seguintes, assumir uma importância crescente no panorama internacional e irá influenciar, decisivamente, os caminhos da arquitectura portuguesa.

Em 1955 no nº 208 a revista "Casabella" publica o edifício "Rautatalo" em Helsínquia (1952/54). Seguidamente as suas realizações como a Câmara de Saynatsalo (1949/52), a Casa das Pensões de Helsínquia (1952/56), o atelier em Muratsalo (1953), a casa da Cultura em Helsínquia (1955/58) e a igreja de Imatra (1955/59) irão ser acompanhadas pelos arquitectos portugueses com uma particular atenção. Para isso terá contribuído ainda a revista ZODIAC, iniciada em 1957, e que com uma (para a época) excelente apresentação gráfica, se tornará uma referência indispensável para o debate arquitectónico internacional e interno. Das obras de Aalto pela sua acessibilidade – já que se situa nos arredores de Paris – a casa Louis Carré de 1957/60 terá ainda uma enorme influência.

inq77

No plano teórico  Gaston Bachelard (1884/1964), publica em 1958 a "Poétique de l'Espace" que com os estudos de Minkowsky e de Piaget ("Le Temps Vécu" de 1933 e " Vers une Cosmologie" 1936 de Minkowski e "La Représentation de l'Espace Chez l'Enfant" 1948 de Piaget), vão alterar o próprio conceito de espaço, com novos conceitos psicológicos como "espaço íntimo" e "espaço feliz", que se irá, radicalmente, transformar com as consequências na realização e na leitura arquitectónica.

O espaço arquitectónico não é mais o espaço abstracto, homogéneo da funcionalidade e do racionalismo, e a organização do projecto assente na importância atribuída à planta e aos esquemas de funções (organigramas), vão ser progressivamente substituídos por uma nova atenção dada à organização e à conformação dos espaços internos, entendidos agora como espaços "ambientais" e "vivenciais", às relações interior/exterior e aos contextos envolventes.

Em Portugal, Fernando Condesso apresenta, nos finais de cinquenta (1958), a sua CODA, na Escola do Porto, "Do Conceito de Espaço em Arquitectura", onde propõe a criação de uma nova ciência a "arquitectonologia", ideia que irá defender no Congresso Luso Espanhol de 1958 em Madrid ("Fundamentação de uma Filosofia Arquitectónica") e no Porto em 1959 no Congresso de Filosofia ("Problemática Arquitectónica na Filosofia das Ciências" e "A Propósito da Filosofia da Arte” in Actas do Colóquio de Estudos Filosóficos, Braga/Porto 1959). Mas pelo seu grau de abstracção, estes estudos não irão ter quaisquer consequências teóricas e muito menos no campo operativo.

Outra importância assumirá em 1962 a dissertação de Fernando  " Da Organização do Espaço", para o seu concurso de professor agregado da ESBAP, na qual partindo dos conceitos desenvolvidos por Bruno Zevi : "A arquitectura, diz-se, difere fundamentalmente da escultura pela criação do espaço interno, espaço que deve ser vivido, percorrido, para a apreensão total do edifício, donde, tal como na escultura, a existência do tempo como medida nesta arte.", e tendo como referência as suas próprias experiências projectuais dos anos cinquenta irá reflectir nas achegas para uma conceptualização da arquitectura contemporânea de Wright, Aalto, Gropius e Le Corbusier, e na "organização do espaço português contemporâneo" , avançando para uma concepção do espaço e da sua organização num sentido "existencial": ...vemos na palavra "organizar" um desejo, uma manifestação de vontade, um sentido,... e daí que usemos a expressão "organização do espaço" pressupondo sempre que por detrás dela está o homem, ser inteligente e artista por natureza...".

E no ano seguinte, 1963, Pedro Vieira de Almeida (1933), apresenta, como CODA, no Porto, um estudo teórico intitulado "Ensaio sobre o Espaço na Arquitectura" (Publicado na revista Arquitectura, nº 79, 80 de 1963 e 81 de 1964), provavelmente a primeira contribuição original realizada no nosso país para uma teoria da arquitectura, com imediatos reflexos no campo da crítica e mesmo no campo operacional. Partindo dos estudos de Bachelard, Condesso e Távora, e ainda de estudos sobre as relações da linguística e das suas análises, com a arquitectura, de Bettini e de Koenig, e ainda de uma bem documentada análise do conceito de "espaço" e de "intervalo", noutros campos criativos (teatro, cinema, música e artes plásticas), Pedro Vieira de Almeida irá avançar um conjunto de conceitos tipológicos: espaço senso-comum, espaço científico, espaço cultura, espaço centrífugo e centrípeto e ainda de espaço interno, de transição e externo, nos quais refere ainda o espaço nuclear e complementar. Da relação e da combinação destes conceitos, P.V. Almeida concebe então uma "grelha" interpretativa e valorativa, um conjuntos de critérios teóricos e gráficos, que irá aplicar e testar em exemplos consagrados da história da arquitectura, que posteriormente irá ainda aplicar e afinar - com êxito - este seu método crítico em comentários publicados na revista Arquitectura, sobre as obras então projectadas por Álvaro Siza.

Assim irão resultar projectos, pelo menos nos arquitectos mais lúcidos e avançados no nosso país, que abandonam progressivamente os métodos e as concepções do Movimento Moderno, com a sua dependência das estruturas e dos esquemas funcionais, dos zonamentos e das linguagens puristas, para procurar agora uma "poética do espaço".

Procura-se, agora, uma "poética do espaço", dando a este um conteúdo mais enriquecedor, com uma particular atenção

1. pelo controle da luz e das fenestrações.

2. pela introdução do conceito "hodológico“ (do grego HODOS = caminho, percurso) dos espaços, pensados agora numa sucessão quase cinematográfica, concreta e existencialmente vivida;

3. pela utilização dos materiais na sua expressão mais matérica e mais "brutalista", num encontro ou re-encontro com a tradição popular e com as suas técnicas construtivas artesanais (aliás ainda dominantes no país),

4. pela redescoberta de fundamentação antropológica e profunda, sem preocupações miméticas e muito menos de estilização folclorista, ensaiando assim um novo desenho e uma nova expressão arquitectónica e um novo conforto já não técnico ou tecnicista mas, sobretudo, íntimo e ambiental.

Para além da influência em toda esta geração de arquitectos, serão as obras desta época de Fernando Távora, (casa de Ofir, Pavilhão de Ténis da quinta da Conceição, Escola do Cedro, estação de serviço de Seia, convento de Gondomar) que irão sintetizar toda esta cultura e marcar uma viragem decisiva e novos rumos na arquitectura portuguesa. Mas isso será tema de uma outra mensagem.

5 comentários:

  1. Caro RF,

    Notável e lúcida reflexão sobre um documento que retrata um Portugal que, em muitos dos casos abordados, já não existe mais, que espelha um trabalho realizado por alguns dos melhores da sua época, tendo constituido um marco na arquitectura em Portugal e cujas "ondas de choque" se fizeram sentir em diveros planos, como bem sintetizou.

    O que me trás aqui não é o livro em si (esse já o conservo na minha biblioteca), mas antes uma referência que encontrei no seu texto e que gostaria de conhecer melhor: trata-se do "Alguns Aspectos do Habitat na Região Alentejana" de 1962, por Joaquim Alves da Silva (1927).
    Onde posso encontrar/adquirir este documento?

    Agradecendo a atenção dispensada, subscrevo-me com estima.
    Jorge Cardoso (jorge.mcardoso@sapo.pt)

    ResponderEliminar
  2. Parabéns pelo artigo e pela reflexão promovida aqui, excelente e merecedora de nota no meu blogue (Linha de Rumo).

    ResponderEliminar
  3. Boa Noite, estou a utilizar o seu texto no desenvolvimento da minha dissertação de mestrado em Arquitetura, cujo tema são as Casas com Pátio.
    Gostaria de entrar em contato consigo, aqui fica o meu contato:

    adriana.limadelgado@gmail.com

    espero que receba esta mensagem atempadamente, cumprimentos
    Adriana Lima Delgado

    ResponderEliminar
  4. Caro RF,
    desde já parabéns pelo excelente blogue e por exta reflexão em específico. Trouxe-me até ela uma pesquisa sobre as consequências do "Inquérito" e agredecia a sua ajuda na procura de fontes sobre o tema.
    Tal como a Adriana Delgado, estou a elaborar a dissertação de mestrado e gostaria igualmente de o citar.

    deixo-lhe o meu contacto:
    miudeko@gmail.com

    com os melhores cumprimentos,
    Ricardo Fernandes

    ResponderEliminar
  5. Caro RF,
    foi com grande interesse e entusiasmo que li este texto e fiz várias anotações sobre o mesmo.
    Sou arquitecta e estou muito interessada em aprofundar conhecimento na área da Arquitectura Tradicional Portuguesa e suas técnicas.

    Gostava de saber se poderíamos entrar em contacto, gostava mesmo muito de trocar umas impressões e fazer algumas perguntas.

    O meu email é martanunesarq@gmail.com.

    Cordialmente
    Marta Nunes

    ResponderEliminar