Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 29 de abril de 2011

Os Planos para o Porto–dos Almadas aos nossos dias 8 (III parte 1)

O Plano Director da Cidade do Porto 1962 de Robert Auzelle (continuação)


O Centro


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Sistema de espaços públicos e monumentos no Centro – anos 50


Uma das ideias-chave do Plano, o Porto “centro administrativo de negócios financeiros, comerciais e industriais”, centro intelectual e artístico”,” centro de repouso, de diversões e de turismo” e “centro de comuni­cações” deve afirmar-se como cidade de terciário “cabeça da aglomeração e do distrito, mas também como capital regional do norte do País”.


O Plano considerando o papel do Porto que foi uma “…cidade portuária na origem, cidade comercial, e em seguida cidade industrial…” mas que agora deve conceber o seu desenvolvimento, como “um núcleo terciário poderoso, encaminhando as outras actividades (…) para os territórios dos concelhos limítrofes” pela “dificuldade de encontrar no próprio território do Porto novos terrenos a destinar à indústria” e que “esta situação crítica, (…) arrasta a dispersão das actividades industriais para os concelhos limí­trofes.”
Se o Porto é a capital regional o Centro do Porto - a Baixa – que concentra nesta época todas as funções e actividades administrativas, financeiras, culturais e de lazer, “deve ter pos­sibilidade de acolher todas as sedes e servi­ços terciários que proliferam à volta dessas indústrias” tornando-se um Centro Terciário impedindo “o crescimento da população residente no próprio centro, nos quarteirões de negócios.”


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Plano Auzelle – Volume II – folha 6 Plano Director da Cidade – detalhe do centro. A Azul a zona de terciário


A delimitação do Centro


Este centro está centrado na praça da Liberdade e avenida dos Aliados, e tem por limite norte a rua Gonçalo Cristóvão, a sul a praça Almeida Garrett e a rua Mouzinho da Silveira, a poente a Cordoaria e a nascente a praça da Batalha. O novo centro proposto pelo Plano estender -se-á da Boavista à rua do Heroísmo, e da Ribeira até à rua da Constituição.


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Plano Auzelle Volume II – folha 6 – Planta do Estado Actual da Cidade – detalhe da avenida dos Aliados


Os projectos do Estado Novo para o Centro


Nestes anos estão concluídos ou estão em construção alguns projectos que vêm reforçar esta concentração no centro da cidade, como o Palácio da Justiça (inaugurado em 1961), o Palácio dos Correios, (ainda em projecto e em obras de fundações e que só será inaugurado nos anos 70) e os Paços do Concelho (inaugurado em 1957).


Os Paços do Concelho


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Em 1957 é inaugurado o edifício dos Paços do Concelho, um projecto de Correia da Silva e cuja construção se arrastava desde 1919, e que será concluído pelo arquitecto Carlos Ramos (1897-1969). Pela mão de mestre Carlos Ramos, colaboram diversos artistas plásticos ligados à Escola Superior de Belas Artes, que então dirigia. (ver neste blogue O Porto onde eu nasci e cresci 1 e 2) A nova localização do edifício é de vital importância para a consolidação da terciarização do centro.
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Plano Auzelle fig. 5 – Avenida dos Aliados e edifício da Câmara Municipal


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Dordio Gomes (1890-1976) – Camilo Castelo Branco, cartão para fresco nos Passos Perdidos do Município do Porto, 1957
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S. João do Porto, 1962 tapeçaria de Guilherme Camarinha na sala de sessões (hoje da Assembleia Municipal) da CMP


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Postal do Porto dos finais dos anos 50.


O Palácio dos Correios do Porto localizado e projectado a partir dos anos 40 por Carlos Ramos (1897-1969) - como refere Antão Almeida Garrett em carta a Giovanni Muzio (…) A modificação da Praça do Município é praticamente impossível, pelos edifícios já existentes e por já estar em estudo adiantado o novo Palácio dos Correios que ficará como sabe, a nascente do edifício novo do Município” - continua em obras de fundações, e apenas será concluído nos anos 70 com a colaboração do seu filho arquitecto Carlos Manuel Ramos.
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Foto Bomfim Barreiros c. 1950– in catálogo da Exposição Bomfim Barreiros – Fotógrafo de Arte , CMP 2001


À direita na foto os tapumes da obra do Palácio dos Correios.


O Plano apenas refere a Baixa como local de manifestações lúdicas, em particular o S. João, mas escamoteia que a praça da Liberdade e a avenida dos Aliados são os locais privilegiados das manifestações políticas. A chegada ao Porto do general Humberto Delgado em 1958, e as diversas manifestações no ano de 1962, ano da publicação do Plano, na comemoração do 31 de Janeiro, as manifestações estudantis, o 1º de Maio e o 5 de Outubro são de isso exemplo.
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Chegada do General Humberto Delgado à Estação de S. Bento em 1958


O Palácio da Justiça, com um projecto do arquitecto Raul Rodrigues Lima (1909-1979), também dos anos 40, é inaugurado em 28 de Outubro de 1961. Implantado no local onde existia o mercado do Peixe, com uma arquitectura monumental de influência nazi, procurando afirmar a presença do Estado Novo, destruiu a relação visual do Jardim da Cordoaria com o rio Douro. Permitiu no entanto, também pela influência de Carlos Ramos, a participação de diversos artistas plásticos, muitos deles ligados à Escola Superior de Belas Artes (sobre a ESBAP veja-se mais adiante os Concursos para professor).
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Justiça” escultura em bronze de Leopoldo de Almeida (1898-1975) e baixo relevo de Euclides Vaz (1916-1991)


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Fontes do Direito - O Direito Natural, o Costume, a Lei, a Jurisprudência e a Doutrina, friso de Salvador Barata Feyo (1899-1990)auz301


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1 João das Regras escultura em granito de Sousa Caldas (1894-1965) 2 J. P. Ribeiro escultura em granito de Gustavo Bastos (1928) 3 Ferreira Borges escultura em granito de Lagoa Henriques (1923-2009)
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Assistência à infância desvalida fresco de Júlio Resende (1917)


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Criação do Tribunal da Relação do Porto fresco de Augusto Gomes (1910-1976)auz309


Preito de Lealdade de Egas Moniz fresco de Guilherme Camarinha (1912-1994)auz311


Porto cidade da Virgem de Amândio Silva (1923-2000)


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Os 12 de Inglaterra tapeçaria de Sousa Felgueiras (1930)


A Baixa como centro financeiro


Os Bancos


Um dos aspectos em que se reflecte o crescimento da cidade neste período é o da acumulação do capital financeiro, e do aumento do número e da capacidade das instituições bancárias, sendo então o Banco Português do Atlântico o maior banco privado português. Também as instituições bancárias se concentram nesta área central, como o demonstra o “documento 5.1.2.1” a evolução do movimento bancário na cidade”, constatando que esta actividade “está nitidamente circunscrita ao núcleo central da cidade”.
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Plano Auzelle documento 5.1.2.1. Bancos / Inquérito e localização


Para além das agências bancárias cartografadas, existiam apenas uma agência na Foz e outra na Areosa, embora fosse previsível a proliferação de agências bancárias de proximidade.


Na esquina da rua de Sá da Bandeira com a rua de Sampaio Bruno é inaugurado em Fevereiro de 1962 o edifício-sede do Banco Pinto de Magalhães, segundo um projecto do arquitecto Fernando Silva (1914-?), em frente do Banco Borges. A concentração das sedes e agências bancárias junto à rua Sampaio Bruno, torna-a conhecida entre os trabalhadores dos bancos como a “Wall Street”.


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Edifício-sede do Banco Pinto de Magalhães - foto in O Porto , Guido de Monterey 1972



continua…

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