Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 29 de abril de 2011

Os Planos para o Porto–dos Almadas aos nossos dias 8 (III parte 2)

Os escritórios



O Inquérito ao Centro é acompanhado, não por acaso, por duas fotografias, uma (nocturna) da praça de D. João I e outra da rua de Ceuta. Duas intervenções recentes no centro da cidade, e ainda decorrentes do plano de Barry Parker.auz183_thumb2



Plano Auzelle Fig. 7 – Um aspecto nocturno do centro da cidade – Praça D. João I.auz491_thumb2



Postal dos finais dos anos 60



(Nota – sobre a praça D. João I ver neste blogue o Porto onde eu nasci e cresci 2)



A rua de Ceuta, em cuja conformação teve um papel decisivo, o arquitecto Arménio Losa (1908-1988) é, no início dos anos 60, o símbolo do Porto moderno, “o Porto jovem, o Porto de betão armado, recém-saído da novidade arquitectónica” (Daniel Filipe, Discurso sobre a Cidade, 1957). De facto assim é vista e vivida a rua de Ceuta pelos portuenses, quer pela rapidez da sua abertura e edificação (em menos de uma década), quer sobretudo, pela qualidade e modernidade dos seus edifícios projectados pelos arquitectos Arménio Losa com Cassiano Barbosa, Agostinho Ricca e Mário Bonito, todos ligados à ODAM, e ainda Carlos Neves, Mário Ferreira, José Moura da Costa, Manuel Magalhães e Júlio de Brito.



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Plano Auzelle Fig. 8 - Rua de Ceuta vista da Praça de D. Filipa de Lencastre



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A rua de Ceuta



Nota - Sobre a rua de Ceuta consultar o n.º 8, Rua de Ceuta, do Guia de Arquitectura Moderna, dos arquitectos e docentes da Faup, Francisco Barata e Rui Pinto, Porto 2001 e a excelente Dissertação de Mestrado de Maria Adriana Pacheco Rodrigues Gravato “TRAJECTO DO RISCO URBANO - A Arquitectura na Cidade do Porto nas décadas de 30 a 50 do século XX, através do estudo do conjunto da Avenida dos Aliados à rua de Ceuta”, Faculdade de Letras da Universidade do Porto 2004, este um rigoroso e exaustivo trabalho, quer no texto, quer na recolha de documentação escrita e iconográfica, que merecia sem dúvida, uma publicação, liberta das regras de um trabalho académico, tornada mais acessível (ou se quiserem mais mediática…) a um público mais alargado. Este estudo é fundamental para quem quiser saber mais sobre a rua de Ceuta e os seus protagonistas.



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Aberta e edificada na segunda metade da década de 50, a rua de Pensada desde o início do século XX, fazendo parte do plano de monumentalização do centro de Barry Parker, iniciar-se-á a sua concretização com o prolongamento da rua de Passos Manuel, que originará, no período entre as guerras, as ruas de Magalhães Lemos e Elísio de Melo.



Nos anos 40 é aberta a nascente da Avenida dos Aliados, a praça em frente ao Teatro Rivoli que se chamará Praça de D. João I, e do outro lado da avenida, em frente à garagem de O Comércio do Porto a praça que se chamará de Praça de D. Flipa de Lencastre.



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Planta da sobreposição do traçado da Praça D. Filipa de Lencastre na malha oitocentista in O Tripeiro, V Série, Ano IX.



No lado sul da praça Filipa de Lencastre é edificado nos finais dos anos 40 e segundo um projecto de Rogério de Azevedo, o Hotel Infante Sagres, e coloca-se desde então a possibilidade e a necessidade de estabelecer o prolongamento do eixo constituído pela praça dos Poveiros – rua Passos Manuel – rua de Magalhães Lemos – Avenida da Liberdade – rua Elíseo de Melo – praça Filipa de Lencastre até à praça Carlos Alberto.



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Foto Alvão - Arquivo do Centro Português de Fotografia/ Ministério da Cultura – de reparar no edifício da The Anglo-Portuguese Telefone Company, Lda
dos anos 20



Será então aberta a rua de Ceuta até à rua José Falcão.



Finalmente, em 1942, Arménio Losa, dirigindo o Gabinete de Urbanização da CMP, apresenta um estudo de implantação da Praça Filipa de Lencastre e da Rua de Ceuta com a conformação definitiva da rua, projecto aprovado em 1944. auz428_thumb3



Em 1950 iniciam-se os primeiros edifícios que em 1958, estão concluídos.



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Desenho in Adriana Gravato op.cit.



Na rua de Ceuta



9 – Arménio Losa e Cassiano Barbosa 10 - Carlos Neves, edifício da Café Ceuta 11 - Agostinho Ricca 12 - Mário Ferreira 13 - Mário Bonito, edifício da livraria Leitura.



14 - José Moura da Costa 15 – Manuel Magalhães 16 – Júlio de Brito 17 – Carlos Neves 18 – Agostinho Ricca



Na praça Filipa de Lencastre



6 – Júlio de Brito, edifício do café Aviz 7 – Rogério de Azevedo, Hotel Infante Sagres 8 – ? The Anglo Portuguese Telephone C.ª



Na rua Elísio de Melo



1 e 2 - Rogério de Azevedo sede e garagem de O Comércio do Porto 3 - Michelangelo Soá, edifício do café Guarany 4 - José Emílio da Silva Moreira 5 – ? auz467_thumb2



Rua de Ceuta – fachada virada a sulauz453_thumb3



Rua de Ceuta – fachada virada a Norte



A rua de Ceuta é marcada pelo Edifício Soares & Irmãos, projectado pelos arquitectos Arménio Losa (1908-1988) e Cassiano Barbosa (1911-1998) e construído entre 1950 e 1953. auz424_thumb2



Ocupando um lote “de forma sensivelmente triangular” junto do edifício dos Telefones no início da rua da Picaria, permitiu a Arménio Losa e Cassiano Barbosa, de uma forma inteligente resolver o gaveto entre as duas ruas, marcando a modernidade da rua de Ceuta, concebendo uma solução “que poderá parecer, quando observado da Praça Filipa de Lencastre, um único edifício.”



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Marcando pelo contraste com a linguagem do edifício da ATP, “o novo edifício terá de ter uma fachada com características próprias e sendo assim o respectivo projecto deverá ser considerado e examinado em si e independentemente da sua situação em contiguidade com outra fachada de características muito diferentes”. Para isso os autores projectaram “um elemento de ligação e transição entre as fachadas contíguas” e “junto do cunhal e em plano um pouco recuado em relação ao da nova fachada, uma faixa quasi lisa em toda a sua altura apenas com a continuação para esse lado das cornijas existentes na fachada voltada à rua da Picaria. "
(
os itálicos são do Parecer do Conselho de Estética Urbana da CMP de 7 de Agosto de 1951)



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O edifício “integra” assim a fachada do edifício dos Telefones, sendo essa integração acentuada pelos dois planos e tratamentos diferentes da fachada para a rua de Ceuta do edifício Soares & Irmão. Junto do gaveto uma fachada com uma fenestração corrida entre panos fechados, a que segue um corpo balançado assente em pilotis, com uma fachada constituída por uma estrutura de “brise-soleil” com lâminas de alumínio orientáveis, lembrando o edifício do (antigo) Ministério da Educação do Rio de Janeiro, edificado entre 1937 e 1945, e projetado por uma equipe de arquitectos liderada por Lúcio Costa (1902-1998) e de que faziam parte Oscar Niemeyer (1907) e Affonso Eduardo Reidy (1909-1964) e tendo como consultor Le Corbusier(1887-1965).



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À esquerda o edifício Soares e Irmão e à direita o edifício do Ministério da educação no Rio de Janeiro



Refira-se a importância que ao longo dos anos 50, a moderna arquitectura brasileira assume e a influência que exerce sobre a arquitectura portuguesa, salientando-se que em 1960 é inaugurada Brasília, a nova capital do Brasil. Também a obra de Le Corbusier começa a ser divulgada nos anos 60, em meios não arquitectónicos como se constata no n.º 263 da revista Vértice de Agosto de 1965, tendo na capa uma fotografia da terraço da Unidade de Habitação de Marselha, com depoimentos de Álvaro Siza, José Pulido Valente, Campos e Matos e Formosinho Sanches, e um poema de Fernando Assis Pacheco.



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O edifício Soares & Irmão tem a marcar a sua entrada um “painel decorativo em marmorite lavado alusivo às suas actividades comerciais e industriais” de Augusto Gomes (1910-1976).auz406a_thumb2



Detalhe da planta do rés do chão



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Detalhe da fachada virada a sul com a entrada e o painel de Augusto Gomes



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Foto in Gravato, Adriana op.cit.



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O Painel com alusão às actividades da Vouga, fábrica de moagem e massas alimentícias situada em Sever-do-Vouga (Fábrica de Massas Alimentícias Vouga, Pessegueiro do Vouga / Sociedade Industrial do Vouga).



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No lado norte da rua dois estabelecimentos irão contribuir para a “modernidade” da rua: o café Ceuta (a verde no desenho) e a livraria Divulgação, hoje Leitura (a azul no desenho).



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O Café Ceuta



No edifício projectado pelo arquitecto Carlos Neves e vizinho ao prédio Soares & Irmão, foi requerido em 1953 “adaptar o rez-do-chão do prédio (…) a estabelecimento de venda ao público de café em chávena, bebidas licorosas, cerveja, lanches etc. tendo no pavimento inferior o salão destinado à secção de bilhares.
[...] O pavimento do salão de café será revestido a marmorite com juntas metálicas e os lambris são forrados a mármore onde poisam espelhos de cristal. O espaço compreendido entre a parte superior do espelho e o tecto corre um friso decorativo de pintura de arte"
Esse estabelecimento será o café Ceuta, e os frescos “de pintura de arte” do pintor e escultor António Coelho de Figueiredo.



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A Livraria Divulgação



No prédio de gaveto com a rua José Falcão, instalou-se a Livraria Divulgação, que mais tarde adoptou o nome de Leitura.





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Interior da Livraria Divulgação – 1958 in PORTO, Carlos - Livrarias e Livreiros - 1945-1994. Livraria Leitura, 1994 (também em Adriana Gravato op.cit)



A importância da Divulgação, no Porto cultural e político, foi enorme. Nela se vendiam os livros proibidos pela Censura, sessões de autógrafos de escritores e poetas, nela se realizaram, numa pequena galeria na sobreloja, exposições de pintura e fotografia, nela se realizaram encontros dos que lutavam contra o regime.



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Exposição Lisboa, Cidade Triste e Alegre de Victor Palla (1922 – 2006) na galeria Divulgação 1958



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Sessão de autógrafos na Livraria Divulgação in PORTO, Carlos - Livrarias e Livreiros - 1945-1994. Livraria Leitura, 1994 (também em Adriana Gravato op.cit)



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E o Plano desenvolve a tese da terciarização fundamentada na “ procura de escritórios para insta­lação de sedes de empresas comerciais e industriais é tal, que seria prejudicial dei­xar-se construir nesta zona edifícios de habi­taçãoe avança que se pode afirmar “que se verificará sempre uma especialização do centro do Porto nos empregos terciários (…) um fenómeno perfeitamente posto em destaque pelos economistas no que respeita à evolução geral, e confirmado pelos urba­nistas no que se refere à evolução das cida­des e mais particularmente das capitais regionais.”



Esta análise da terciarização do Centro é acompanhada ainda pelo levantamento dos escritórios e consultórios dos profissionais liberais, que então se concentram na área central.auz182_thumb2





Plano Auzelle documento 5.2.1.1 I Volume profissões liberais / localização no centro da cidade



Na Legenda, vermelho – advogados; verde - arquitectos; negro - enfermeiros; azul - engenheiros e a amarelo - médicos.



E o Plano reforça a ideia considerando que “nestas condições, é de desejar que se pre­vejam na regulamentação os meios de favo­recer esta expansão do terciário, que apenas pode fazer-se no quadro duma renovação progressiva do centro, englobando todos os elementos de equipamento indispensáveis à actividade terciária contemporânea.

1 comentário:

  1. é pena o estado de degradaçao dos predios actualmente nesta rua, bem como a presença assidua de meliantes e arrumadores e do ambiente que a movida tem levado para esta zona da cidade.

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