O Centro (continuação)
A Avenida da Ponte
(Sobre a Avenida da Ponte consultar “A Ponte e a Avenida – Contradições Urbanísticas no Centro Histórico do Porto”, catálogo da Exposição organizada pela CMP na Casa do Infante, integrada no programa da Capital Europeia da Cultura, 2001 e SILVA, Hugo Machado “Avenida da Ponte - Impasse em Continuidade” Prova Final para Licenciatura em Arquitectura
Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, 2007)
Para a conformação do eixo sul-norte, torna-se fundamental a concretização e o arranjo da Avenida da Ponte (Afonso Henriques).
Plano Auzelle fig. 4 Aspecto da cidade. Entrada pela ponte de D. Luís I
Desde a construção da ponte Luís I, colocou-se a questão da articulação do tabuleiro superior com a praça de D. Pedro (da Liberdade) que se ia assumindo como centro da cidade. A construção da Estação de S. Bento, e seguidamente a abertura da avenida dos Aliados, rematada a norte pelos novos Paços do Concelho, vieram tornar premente a abertura de uma Avenida que ligasse directamente o tabuleiro superior da ponte ao centro da cidade. Por isso desde Barry Parker até aos Planos “italianos”, todos eles procuram soluções para esta avenida. Nos finais dos anos 30 procede-se ao arranjo dos acessos à Sé e é aberto o Terreiro, para as Comemorações do Bicentenário (Exposição do Mundo Português), a que também não é alheio o facto da Câmara Municipal estar instalada no Paço Episcopal.![]()
As demolições entre 1940 e 1948 - Desenho de Hugo Machado da Silva op. cit.
A seguir à guerra procede-se à abertura da Avenida da Ponte (Afonso Henriques).
Postal com panorâmica vista da Sé
Entrada da rua do Corpo da Guarda antes das demolições
O início das demolições
A Avenida da Ponte - Fotografias de “Esquinas do Tempo” do Grupo IF, 1982
As demolições entre 1948 e 1985 - Desenho de Hugo Machado da Silva op. cit
Foto CMP-AH no Plano de Actividades« e Orçamento da Câmara Municipal do Porto para 1963
No pós guerra e aberta a avenida, sucedem-se os projectos dos Serviços da CMP: em 1949 do engenheiro Guilherme Bomfim Barreiros (1894-1973); em 1955 do arquitecto Fernando Távora e em 1957 dos arquitectos Manuel Fernandes de Sá (1903-1980) e Benjamim do Carmo (1923- 197?). Destaca-se o Estudo de Fernando Távora de 1955, pelo cuidadoso modo como liga a cidade antiga com a cidade moderna quer pelas edificações que rematam os quarteirões existentes, quer pela introdução de arborização.
Projecto de Fernando Távora 1955 - Desenho de Hugo Machado da Silva op. cit.
Perspectivas parciais do projecto para a Avenida Afonso Henriques (desenho de Gouveia Portuense – CMP-AH)
A proposta do Plano Director
Plano Auzelle – Um aspecto dos trabalhos de regularização de terras, do lado poente
O estudo de pormenor (na V parte do Volume III) desenvolvido pelo arquitecto Luís Cunha (1933), tinha como intenção expressas na revista Urbanisme: “ 1º evitar uma ruptura entre o quarteirão da Catedral e o da gare de S. Bento; 2º interligar plasticamente estes dois quarteirões; 3º organizar as ligações rodoviárias e os percursos de peões de tal forma que a vida continue a afluir ao centro antigo; 4º operar de seguida uma renovação geral, eliminando em primeiro lugar os edifícios de habitação mais degradados e de seguida no interior dos quarteirões todas as construções precárias.”
E o texto prossegue mostrando que estas intenções não se destinam a resolver o grave problema social da zona mas têm apenas como objectivo a promoção do turismo: “Tendo em conta a salubrização assim obtida, o abaixamento da densidade da população, a recuperação das fachadas, os edifícios públicos a construir, um sistema coerente de circuitos turísticos é estudado para por em destaque os pontos de vista sobre o Douro, os cenários arquitectónicos mais interessantes e facilitar a visita aos monumentos, museus e espaços livres mais notáveis.”
Plano Auzelle Volume III – documento 3 – Eixo-principal norte-sul – Avenida Afonso Henriques
Plano Auzelle Volume III - documento 3.a - Cruzamento da avenida de D. Afonso Henriques com as ruas de Saraiva de Carvalho, de Mousinho da Silveira e das Flores – Estado actual e proposta
Por outro lado o texto que acompanha o estudo de Pormenor, preocupa-se sobretudo com as questões de trânsito:
“A urbanização dos terrenos libertos pela abertura da avenida de D. Afonso Henriques conduziu ao estudo de uma zona relativamente vasta por se ter considerado que uma solução correcta para este caso implicava uma reorganização do trânsito de toda a zona envolvente e por ser necessário coordená-la com o esquema de ligações fundamentais previstas no Plano Director.
Para eliminação dos inúmeros pontos de conflito existentes actualmente na circulação, foi estudado um sistema de sentidos únicos, cujo funcionamento tornou necessárias algumas passagens superiores, uma das quais — a da rua de Saraiva de Carvalho — se encontra já iniciada. Como elementos fundamentais de todo o sistema deve notar-se o estabelecimento de um sentido circulatório envolvendo o "quarteirão das Cardosas" e a elevação do pavimento da praça de Almeida Garrett, ficando o nível inferior reservado principalmente para peões.”
Plano Auzelle Volume III – Quinta parte – Estudos de Pormenor – Arranjo da avenida de D. Afonso Henriques
O Plano propõe para a avenida “um edifício alongado que estabelecerá a relação de continuidade agora interrompida, entre o actual centro da cidade e o núcleo antigo dominado pelo edifício da Sé Catedral.”
Plano Auzelle Perfil transversal por AB![]()
Maquette do arranjo da avenida de D. Afonso Henriques
No edifício projectado “o rés-do-chão, abrindo sobre um passeio coberto para peões, será destinado a comércio. Os diversos andares serão ocupados por escritórios justificando-se no entanto que o topo sul, com vista sobre a zona de interesse histórico, seja utilizado para a instalação de um hotel residencial.”
Plano Auzelle - Perspectiva tomada da Igreja dos Congregados
“Completa o projecto o ajardinamento dos espaços livres e a construção de um parque de estacionamento de veículos sobre a estação de S. Bento.”
O projecto de Álvaro Siza de 1968
Em 1968 a Câmara Municipal do Porto encomenda ao arquitecto Álvaro Siza, um projecto para o arranjo da avenida Afonso Henriques (avenida da Ponte), onde Álvaro Siza se confronta, com um projecto de grande dimensão e significado urbano, numa zona de grande sensibilidade e delicadeza no tecido central da cidade. Siza irá projectar no lado nascente da avenida um edifício envidraçado, espelhando a imagem da cidade histórica envolvente, e irá refazer os percursos de peão correspondentes ao tecido tradicional. O projecto englobava ainda os pequenos e antigos edifícios existentes. A pedreira seria desmontada para criar um parque de estacionamento coberto. Apesar da qualidade do projecto e do seu desenvolvimento não será construído. O prjecto de Álvaro Siza é um dos vários projectos que decorrem do Plano de Auzelle, mas que por razões sobretudo económicas nunca foram realizados. Estes projectos permitem-nos pensar o que seria hoje o Porto, ou pelo menos algumas das suas zonas, se tivessem sido concretizados.
esquisso de Álvaro Siza e planta do edifício da avenida de D. Afonso Henriques 1968
Maquette do projecto de Álvaro Siza de 1968
A avenida na actualidade
A zona histórica
Em 1954 o arquitecto Manuel Marques de Aguiar elabora um projecto “radical” para a área envolvente da Sé e estendendo-se até à Ribeira, prevendo a demolição de todos os edifícios, deixando apenas a plataforma da Sé. Toda a zona seria reformulada com a criação de novos percursos e a edificação de blocos de expressão moderna e racionalista, destinados a habitação, comércio e escritórios.
O projecto completo in Cruarb 25 anos de Reabilitação Urbana CMP 2000
Pormenor da zona da Ribeira
in Cruarb 25 anos de Reabilitação Urbana CMP 2000
Plano Auzelle – Volume II folha 6 – Planta do Estado Actual da Cidade detalhe
Tendo presente esta proposta, o Plano Director propõe “para exemplificação do grau de aprofundamento com que os diversos problemas de pormenor foram encarados” e no âmbito da “Valorização da zona de interesse arquitectónico” um estudo para a zona envolvente da Sé, praça do Infante D. Henrique e Ribeira, procurando um “compromisso” entre “dois tipos de actuação :
1.°) Demolição de alguns quarteirões interiores para melhoria das condições de salubridade dos restantes, onde por sua vez serão feitas obras de restauro e conservação.
2.°) Introdução de edifícios novos que, pela sua utilização, possam constituir elementos de interesse capazes de fomentar actividades ligadas à cultura ou ao turismo que progressivamente atraiam uma vida nova a essas zonas.”
Plano Auzelle – Volume III – Valorização da Zona de Interesse Arquitectónico
O Plano propõe “uma rua ligando o largo de S. Domingos a um edifício de interesse público (assinalado na planta com a letra A) , implantado a uma cota ligeiramente inferior à da rua de D. Hugo e com acesso por ela. Outra ligação do mesmo edifício com a praça da Ribeira será feita por duas rampas helicoidais, com trânsito de sentido único, envolvendo um parque de estacionamento em diversos pavimentos sobrepostos.”
E o Plano propõe a " colmatação do alinhamento de prédios sobre a arcada da Ribeira”, com um edifício para o Largo da Lada (assinalado na planta com a letra B) “cujas características se integrem na paisagem urbana existente.” Os terrenos onde se implantariam estes edifícios tinham resultado das demolições efectuadas no início dos anos 50, para a abertura do Túnel da Ribeira. Só será considerada a sua edificação em 1975, pelo Cruarb (Comissariado para a Renovação da Área Ribeira Barredo), tendo na altura o arquitecto Álvaro Siza elaborado um estudo, procurando reconstruir os percursos e as memórias dos edifícios destruídos pela construção do túnel rodoviário onde propunha uma linguagem ("Le plus difficile pour ce projet a été de trouver le langage” Álvaro Siza) que recusava qualquer "pastiche".
Esquissos de Álvaro Siza para o Bairro da Lada, CRUARB 1975
O estudo foi contudo, recusado pelo Comissário do Cruarb, provavelmente por incompreensão do seu valor e significado, já que veio a ser substituído, já nos anos 80, precisamente por um medíocre pastiche no edifício do Largo da Lada.
No arranjo da praça do Infante D. Henrique serão eliminadas as ruas que ladeiam o espaço verde central pelos lados poente e norte sendo este último ocupado por um edifício de interesse público.
O Plano propunha ainda para a praça do Infante D. Henrique uma “unificação de espaços, conseguida com a supressão dos arruamentos”, para obter “uma monumentalidade adequada aos diversos monumentos do local, acentuada ainda pela abertura de vistas para o rio após a demolição do quarteirão entre a igreja de S. Nicolau e a rua da Alfândega.”
E propunha a demolição do Mercado Ferreira Borges, e no seu local a construção de “um parque de estacionamento de 3 pavimentos.”
Na verdade nenhum destes “arranjos” foi concretizado e a zona foi-se degradando quer física quer, sobretudo, socialmente.
Em 1969, Fernando Távora é encarregado para organizar um estudo da Zona Ribeirinha do Porto, por iniciativa da Câmara Municipal. Nesse estudo, no plano arquitectónico, Távora propõe uma recuperação do património arquitectónico, que irá mais tarde servir de base, para as intervenções após o 25 de Abril.
Mas esse estudo, no plano social (e portanto, político) constitui uma veemente denúncia das escandalosas e dramáticas condições de habitação e de marginalização dos moradores, que ao longo de anos, se acumularam e acentuaram na zona medieval da cidade. Por isso este plano, não tem seguimento e é mesmo rapidamente ignorado e esquecido pelos próprios promotores.
A área central poente - a zona da Cordoaria
Plano Auzelle Volume II – folha n.º 6 da Planta do Estado Actual da Cidade detalhe da zona da Cordoaria
Para a zona da Cordoaria o Plano propõe uma via que permita “estabelecer uma ligação directa da ponte da Arrábida com o centro da cidade, comportando um troço em túnel sob o Jardim da Cordoaria” e considera que “este túnel é de fácil construção, pois pode ser executado a céu aberto, e a sua realização não obriga a quaisquer expropriações”. O túnel, eliminando a rua de S. Filipe Nery, permite “aumentar consideravelmente a área do jardim da Cordoaria, (…)“o maior espaço verde do centro da cidade” estendendo-se até à praça de Lisboa. O túnel nunca será realizado, sendo substituído pelo anacrónico túnel da rua de Ceuta, na transição do século XX para o XXI.
Plano Auzelle Volume III – documento 5 Acesso da Ponte da Arrábida ao centro da Cidade – detalhe túnel da Cordoaria
Para a zona é elaborado um estudo pelos arquitectos Almeida d’Eça e Luís Miranda, que tendo em conta “a construção do novo Palácio da Justiça” propõe a demolição do quarteirão do café Piolho (Âncora d’Ouro) e a sua substituição por um edifício com uma forma de cruz gamada de três braços “de acordo com a necessidade de instalações para escritórios.”
A demolição deste quarteirão foi proposta por diversas vezes desde o século XIX até aos nossos dias, mas a verdade é que nunca foi concretizada!
Primeiro estudo para a zona da Cordoaria – arquitectos Almeida d’Eça e Lúcio Miranda (1924)
Plano Auzelle Volume III Quinta Parte Arranjo da zona da Cordoaria Planta esquemática do edifício Comercial (6 pisos)
O Estudo propõe ainda para zona “limitada pelas Praças de Carlos Alberto, de Gomes Teixeira, de Guilherme Gomes Fernandes e pela rua de José Falcão” condicionada pelo “prolongamento da rua de Ceuta” um conjunto de demolições e de edificação de novos edifícios cuja conformação “foi condicionada à obtenção de amplos espaços para a circulação de peões, para que as características de zona comercial que actualmente possui se possam afirmar completamente” reformulando todo o conjunto de espaços públicos: a praça Guilherme Gomes Fernandes, o largo do Moinho de Vento, o lado nascente da praça de Carlos Alberto e a frente virada a sul da praça Gomes Teixeira.
Plano Auzelle Volume III Quinta Parte Arranjo da zona da Cordoaria
Para o quarteirão a norte do edifício da Reitoria e Faculdade de Ciências, o Plano propõe a sua demolição integral e a construção de um Centro Comercial, que irá constituir o tema do Concurso para professor do 1.º Grupo Arquitectura da Escola Superior de Belas Artes do Porto realizados entre 1961 e 1962.
_________________________________________
continua…

0 comentários:
Enviar um comentário