Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 20 de maio de 2011

Os Planos para o Porto–dos Almadas aos nossos dias 8 (V parte 1)

O Plano Director da Cidade do Porto

As zonas residenciais

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Plano Auzelle Volume I – documento 9.1.3.3 Transportes colectivos urbanos – Futura rede de circulação

Esta planta do Plano, embora se refira aos transportes, sintetiza a concepção da cidade para o Plano de Auzelle. Um reforço do centro como zona de terciário e de serviços, um anel intermédio correspondente à cidade do século XIX e das primeiras décadas do século XX, e o desenvolvimento e criação de novas zonas residenciais no anel periférico da cidade.

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Plano Auzelle Volume III – Planos Parciais de Urbanização – Localização das zonas a que dizem respeito

E, também, o esquema acima, apresentado no âmbito das alterações viárias propostas pelo plano Director ao Plano Regulador então em vigor,  aponta para este anel periférico, um conjunto de Planos Parciais de Urbanização: Campo Alegre / Pasteleira (na planta com os n.º2 1 e 2); Nevogilde/ Castelo do Queijo (na planta com os n.ºs 3 e 4) e Sul das Antas (na planta com o n.º 10). Ainda planos de urbanização para zonas onde se implantam os bairros camarários do Plano de Melhoramentos (1956-66) então em execução: Aldoar (5), Ramalde (6), Viso (8) e Cerco do Porto (11).

Neste anel periférico, duas zonas especiais: a zona do Hospital de S. João, onde o Plano propõe a Cidade Universitária (na planta com o n.º 9) e a Zona Industrial de Ramalde (na planta com os n.ºs 6 e 7).

Num momento em que a tipologia de torre se começa a desenvolver por toda a cidade, o Plano desenvolve e apresenta estudos para duas zonas residenciais particulares : no lado oriental da cidade a zona a sul das Antas e a ocidente, entre a Boavista e a Foz, a zona da Pasteleira.

A zona das Antas

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Plano Auzelle Volume I documento 3.1.4.1 – Zonas não residenciais – Grandes propriedades públicas detalhe

A zona das Antas na altura da elaboração do Plano Director, apresenta-se estruturada a partir da rua de Costa Cabral, que desde a cidade amuralhada, estabelecia no prolongamento da rua do Bonjardim e na rua de santa Catarina, a comunicação entre o centro e a zona nordeste da cidade, prolongando-se na estrada para Guimarães. Também a rua da Alegria ligava a praça dos Poveiros à avenida dos Combatentes e a Costa Cabral. A avenida Fernão de Magalhães apenas se encontra aberta até ao Bairro de Costa Cabral, embora o seu prolongamento até à Circunvalação esteja previsto no Plano Regulador (a  "Via Leste" de Ermesinde e Valongo até à Avenida Fernão de Magalhães).

No sentido poente-nascente, a zona estrutura-se entre Costa Cabral e Fernão de Magalhães, na Avenida dos Combatentes, e no prolongamento para nascente da rua da Constituição (rua Carlos Malheiro Dias). A praça Velasquez (hoje Sá Carneiro), está em execução, segundo o plano de Arménio Losa. Para além de edificações ao longo das vias, os terrenos são ainda ocupados por quintas e terrenos sem utilização.

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Detalhe da planta de 1948

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Plano Auzelle, Volume II – folha n.º 5 Planta do Estado Actual da Cidade detalhe

A castanho claro os terrenos agrícolas ou sem ocupação.

A avenida dos Combatentes

A avenida dos Combatentes, aberta na década de 30, tem em construção no seu topo nascente a igreja de Santo António das Antas. O projecto do arquitecto Fernando Tudela de 1944 mas a igreja apenas se inaugura em 1954 e completa nos anos 60.

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O Cristo monumental, o S. Judas Tadeu e os Santos Portugueses, na fachada principal são do escultor Laureano Eduardo Pinto Guedes (1938).

Arménio Losa e Cassiano Barbosa projectam em 1950, para a avenida dos Combatentes um pequeno edifício de Habitação.

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Painel em Cavan in Gravato, Adriana, Trajecto do Risco Urbano – FLUP 2004

Em 1968 Álvaro Siza vai também projectar para a avenida uma habitação unifamiliar: a casa Manuel Magalhães.

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Álvaro Siza Esquisso 1968

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Planta da Habitação Manuel Magalhães

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foto Manuel Magalhães

A casa, de um só piso configura-se num volume puro, sem aberturas para o arruamento e com um pequeno programa, abre-se para um jardim posterior, conformando uma "poética do habitar" e um conforto íntimo e psicológico, sublinhados por um cuidadoso e inventivo desenho de todos os seus pormenores.

O estádio das Antas 1952/2004

A nascente de Fernão de Magalhães, o Plano Director ao “abordar o equipamento propriamente desportivo da cidade (…) verifica-se que esse equipamento é normal, ainda que subsis­tam graves insuficiências; os estádios exis­tem (fig. 15), mas os correspondentes par­ques de estacionamento não. Deve, pois, prever-se o equipamento completo destes locais de reunião do grande público. Mas o que é extremamente prejudicial à vida dos portuenses é a insuficiência notória de ter­renos de treino. Previsões de conjunto deverão favorecer o equipamento progressivo dos bairros antigos a completar, ou daqueles a criar.”

Dos estádios, assinala o Estádio das Antas, obra do arquitecto Oldemiro Carneiro, inaugurado em 1952. O estádio foi demolido em 2004.

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Plano Auzelle fig. 15 – Vista aérea do Estádio do Futebol Clube do Porto concluído em 1952 na zona das Antas

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Inauguração do Estádio das Antas em 28 de Maio de 1952 (eu estive lá!)

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Estava ainda em actividade o teleférico das minas de S. Pedro da Cova (encerradas em 1970) que transportavam carvão num percurso de cerca de 10 Km., desde as minas até ao Monte Aventino (conhecido pelas “cestinhas”).

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O Plano de Arménio Losa

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O plano de Arménio Losa, é criticado nos estudos do Plano Director porque “limitava os edifícios a 5 pisos, o que  aliado ao conjunto de edifícios rigidamente alinhados aumentava a monotonia do conjunto” , porque não satisfaziam “certas disposições sobretudo sobre a rede viária, a localização do comércio e sobretudo a implantação dos edifícios da zona central” e porque o “elemento dominante da composição era então a Praça de Touros cuja construção foi entretanto abandonada.” Esta praça de touros seria o elemento central da praça Velasquez.

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Plano Auzelle Volume II – folha n.º 2 Sistemas Viários Plano Director e do Plano Regulador (detalhe) 

A proposta do Plano Director

”Foi pois essa zona que foi objecto de um novo estudo depois de delimitado um perímetro tendo em conta as ruas executadas e as habitações construídas. Foi em função deste perímetro que estudos comparativos de densidades e de utilização dos terrenos foram realizados. A nova composição propõe diferenças de altura bastante grandes para obter efeitos plásticos tendo em conta os terrenos municipais.”auz840

Para a praça Velasquez é proposto um “grande edifício de 24 pisos” destinado a produzir “um efeito vertical” substituindo a “ composição horizontal” da proposta anterior.

E o Plano acrescenta que a “realização de um grande edifício de habitação no Porto justifica-se neste local excepcional pela ampla panorâmica e perspectivas e sobretudo pela localização distanciada de monumentos históricos – todos situados a poente desta localização – e por isso não alterando os efeitos da silhueta tradicional da aglomeração.” 

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Estudo para o edifício torre na praça Velasquez (Sá Carneiro)

“Os volumes das outros edifícios são condicionados por esta opção fundamental. Os estudos de insolação foram feitos com a máxima precisão para localizar sem interferências os edifícios de alturas e orientações diferentes entre os quais se desenvolve um vasto jardim central que passerelles conectam com o sector comercial.” (os textos em itálico são da revista Urbanisme)

A partir destas ideias preliminares é elaborado um “Arranjo da zona sul das Antas” no Volume III do Plano Director da Cidade do Porto.

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Desenhos e fotos do Plano Auzelle , Volume III, Arranjo da Zona a Sul das Antas

Considerando que “este estudo documenta um dos diver­sos graus em que a integração dos nossos projectos na estrutura geral da cidade tem de ser encarada” e evocando os arruamentos já executados e os compromissos assumidos pelo “projecto anterior”  “houve que estudar um arranjo em que as situações anteriores fossem respeitadas sem no entanto abdicar de um desejo de ordenação geral que era absoluta­mente indispensável.”

Assim “tendo em vista (…) a intenção de ordenar, foi limitado o trânsito de veículos aos arruamentos da periferia, à margem dos quais se encontram as garagens subterrâneas, fazendo-se pelo centro somente o trânsito de peões, o qual atravessa as vias por passagens superiores.” E define-se a “composição volumétrica (…) em torno de um edifício alto, de 23 pavimentos destinado, como todos os outros, a habitação.” A torre previa um total de 83 fogos sendo “36 habitações dum só piso, 36 em duplex e 11 aparta­mentos abrigando, no total, 83 famílias.”

São apontadas as características da edificação que define a praça Velasquez, considerando que o “edifício curvo terá 325 metros de fachada comercial”  e que o “rés-do-chão do edifício semicircular que enquadra a torre e envolve a grande garagem subterrânea central está reservado a comércio”. A Garagem “no espaço semicircular” terá 141 viaturas, 33 boxes e 45 locais de estacio­namento coberto.” Os edifícios “rectangulares menores” terão entre “4 e 8 pisos” e previa-se uma “garagem no quarteirão rectangular” para “90 viaturas.”

Toda urbanização previa um “número total de habitantes” de  2710.

O projecto é acompanhado pelos estudos de insolação, uma preocupação então sempre presente na elaboração destes bairros.

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A concretização do plano de pormenor

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A rua da Alegria

Na procura de concretizar edifícios torre na cidade a  Cooperativa dos Pedreiros (Cooperativa de Produção dos Operários Pedreiros Portuenses) constrói na intersecção da rua da Alegria com a rua D. João IV, um edifício  inaugurado em 1969 e projectado por David Moreira da Silva e Maria José Marques da Silva, com um programa de habitação, comércio, escritórios e um restaurante no último piso.

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À esquerda Foto Luís Ferreira Alves in n.º 17 do “Porto 1901-2001, Guia de arquitectura moderna”, Porto 2001

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Localizado num dos pontos mais altos da cidade o piso do restaurante constitui ainda hoje um local privilegiado para se ter uma panorâmica da cidade.

A urbanização do Campo do Luso

(cf. Manuel Correia Fernandes –Campo do Luso – n.º 19 do “Porto 1901-2001, Guia de arquitectura moderna”, Porto 2001)

Em 1959 José Carlos Loureiro com Luís Pádua Ramos (1931-2005) projectam uma urbanização para o antigo “Campo do Luso” no cruzamento da rua da Alegria com a rua de Carlos Malheiro Dias, para a Santa Casa da Misericórdia do Porto.

A sua implantação, contrariando e criticando a tradicional proposta camarária de edifício-ao-longo-da-rua, e articulando a solução num conjunto de dois blocos e duas torres, José Carlos Loureiro cria uma ampla praceta aproveitando o espaço intercalar entre os edifícios de habitação.

Esta, rebaixada em relação aos arruamentos, arborizada e onde se abre uma galeria, confere ao conjunto um certo ambiente de "unidade de vizinhança".

Contudo o desenho e o tratamento exterior dos edifícios, numa sobreposição de linguagens e influências, desde a clara leitura da estrutura de betão aparente à utilização de (falsos) telhados, desde os revestimentos de placagem de granito ao revestimento de azulejo, retiram força e unidade à edificação.

O uso do revestimento exterior de azulejo - numa tentativa de reutilização do tradicional revestimento na cidade do Porto - parece não resultar, já porque este material normalmente utilizado em superfícies contidas por guias de granito nesta obra envolve todo o exterior dos edifícios.

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Perspectiva do conjunto AHMP

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Foto de João Meneres in n.º 19 do “Porto 1901-2001, Guia de arquitectura moderna”, Porto 2001

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À esquerda foto de Jorge Gigante in Daqui Houve Nome Portugal Inova 1968

A Pasteleira

(cf.Rui Ramos – Pasteleira n.º 23 de do “Porto 1901-2001, Guia de arquitectura moderna”, Porto 2001)

Zona da Pasteleira – Sector a nascente do Bairro da Rainha D. Leonor

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No Plano e tendo em conta a zona “a sul do Bairro de Gomes da Costa” para onde “o Município já construiu um aglome­rado de habitações populares” é elaborado um estudo pelos arquitectos Alberto Rosmaninho e Rogério Barroca, para a zona “a nascente do Bairro da Rainha D. Leonor”  cuja promoção é  “exclusivamente destinado à iniciativa particular.”

O “esquema viário que foi adoptado” é constituído “por uma via de sentido único circula­tório” envolvendo todas as construções e “donde partem diversas penetrações equipadas com locais de estacionamento e garagens semi-enterradas para veículos automóveis.”

O Plano previa construções de três tipos: “habitações individuais na parte mais baixa sobranceira ao Jardim do Ouro, blocos de 5 pavimentos com acessos verticais por escadas servindo duas habita­ções por pavimento e edifícios de 14 pavimentos em forma de torre” para uma “população de 2 830 pessoas que, rela­cionada com os 14 hectares abrangidos pelo pro­jecto, equivale a uma densidade de 200 habitantes por hectare.”

Ainda como “complemento das habitações reserva­ram-se terrenos para a construção de pequenas instalações comerciais, simples apoio ao centro comercial que no futuro será construído em terrenos confinantes. Na depressão junto às vias de acesso que partem do Largo de António Calem está prevista a construção de um Parque infantil.”

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Desenhos e fotos do Plano Auzelle , Volume III, Zona da Pasteleira – Sector a nascente do Bairro da Rainha D. Leonor

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O edifício de 1963/67 dos arquitectos Pedro Ramalho e Sérgio Fernandez

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Os edifícios P, Q e R de 1968/71 dos arquitectos Pedro Ramalho e Sérgio Fernandez

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O edifício 1971 do arquitecto José Pulido Valente

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As torres da Pasteleira

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O Jardim do Ouro (largo António Calem)

Na zona ribeirinha a sul da Pasteleira, o Plano numa reflexão sobre os parques e jardins, “…que se revelam cada vez mais necessários em virtude do desenvolvimento da habitação em imóveis residenciais.” colocando “as zonas de habitações individuais com jardim” sob a ameaça “pelo próprio jogo da especulação” e da “invasão abusiva dos edifícios em altura” apresenta uma fotografia, do jardim público realizado em 1960, o Jardim do Ouro.

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foto n.º3 do Plano - Vista aérea do Jardim do Ouro construído em 1960. No canto superior direito da fotografia vêem-se os acessos à zona da Pasteleira.

Para este Jardim foi proposto um monumento aos Calafates, a que concorre Álvaro Siza.

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Projecto de Álvaro Siza para o arranjo do Jardim do Ouro, com o monumento aos Calafates. in França, José Augusto - A Arte em Portugal no Século XX, Bertrand 1974

Mas no Jardim do Ouro (largo António Calem), será realizado o Monumento à Conquista de Ceuta da autoria de Lagoa Henriques e inaugurado em 27 de Agosto de 1960auz810

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Foto de António Ramos de 2007 in Web Picasa

No monumento a inscrição “FROTA DO INFANTE /CEUTA 1415/À GREI que lhe deu Navios Provisões
e nela embarcou/PORTO 1960. E no muro lê-se  “…E vendo El-Rei isto, como houve em ela grande poderio de mais quando passou a Ceuta que foram em setenta naus e barcas afora outra muita  fustalha que não sabeis um só lugar…de que tão poderosa armada pudera sair… Dos Capítulos  da Cidade do Porto nas Cortes de 143.”

A zona da Boavista

Em 1961, Agostinho Ricca  projecta a torre de habitação do Montepio Geral na rua Júlio Diniz, que pela forma como se insere no espaço envolvente, sem perturbar o perfil da cidade e da zona, pela sua modelação escultórica e pelo cuidado tratamento dos espaços internos, o torna exemplo único de edifício / torre na cidade, num momento em que se iniciava a "corrida" especulativa, que semeou o espaço urbano de edifícios em altura sem consideração ou critério quanto ao local em que se implantavam. O edifício perdeu o seu carácter de torre com a construção do edifício adjacente.

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in Rodrigues Jacinto  Agostinho Ricca, Ordem dos Arquitectos Norte 2001

auz1003Esquisso da Torre do Montepio, rua Júlio Diniz 1962 in Gravato Adriana – Trajecto do Risco Urbano, FLUP 2004 - Esquisso oferecido pelo arquitecto Agostinho Ricca 1990

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O Parque Residencial da Boavista

Projectado e realizado entre os anos sessenta e setenta, uma tentativa de elaborar uma "Neighborhood Unit" (Unidade de Vizinhança), então possível, pela centralização e controle de todo o processo construtivo - da propriedade do terreno à distribuição / venda das habitações, passando pelo projecto, construção e mesmo publicidade - concentrados num mesmo promotor e na mesma empresa e associadas.

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in Rodrigues Jacinto Agostinho Ricca, Ordem dos Arquitectos Norte 2001

Concebido segundo um esquema de conotação "racionalista", tendo embora presente as experiências (de outra escala) nórdicas e anglo-saxónicas, o conjunto desenvolve-se em blocos paralelepipédicos alinhados em bateria ortogonal à via de acesso principal (Avenida da Boavista) com a tentativa, no seu interior, de uma diferenciação entre os percursos motorizados e de peão, e procurando organizar um "cuore" central. Aqui localizam-se os equipamentos, que se pretendem completos para a escala do empreendimento e para a "qualidade de vida" dos utentes: garagens, galerias comerciais, escritórios, cinema, hotel, piscina, clube e igreja.

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Num programa cuidadosamente interpretado, dimensionado e resolvido, com uma modernidade acentuada com o uso do betão aparente, em perfeita aderência com o modo de vida e as aspirações da classe social dos seus possíveis compradores/moradores, marcou no Porto uma forma e uma fórmula - com sucesso - de "fazer cidade", percursora dos condomínios fechados das décadas posteriores. Do mesmo modo, o Parque Residencial da Boavista, corre o risco de acentuar a estratificação ou a segregação social, e no limite, o risco de introversão e auto-suficiência que tornam a cidade a soma das suas (melhor ou pior desenhadas) partes.

A zona da Foz/Nevogilde

O Plano atribui à zona um importante papel no desenvolvimento turístico do Porto, e não será por acaso o facto da fotografia n.º 1 do plano ser uma vista aérea da frente marítima.

auz1012Plano Auzelle fig 1 – Praia da Foz. Zona destinada a intensa valorização turística.

Repare-se que na época ainda eram poucas as construções recentes com uma volumetria equivalente a rés do chão e 4 pisos, volumetria que com mais ou menos recuado se irá maner até aos nossos dias.

auz1015A zona na actualidade

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O Plano propõe a alteração do sistema viário duplicando o percurso junto da Esplanada do Castelo e criando a rua Diogo Botelho entre o Campo Alegre e a praça do Império, a rua de Bartolomeu Velho entre a Pasteleira e a praça do Império e propondo uma avenida (Nun’Álvares) entre esta praça e Matosinhos.

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Plano de Actividade e Projecto de Orçamento para 1963 CMP - Rua da Praia na Foz do Douro – Um aspecto dos trabalhos em curso.

“…remodelação completa e prolongamento da Rua da Praia , na Foz do Douro para , em conjugação com a Rua da Senhora da Luz, se obter o estabelecimento de sentidos únicos para veículos automóveis” Plano de Actividade e Orçamento para 1963 C.M.P.

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O Plano propõe para a zona da Foz/ Nevogilde um desenvolvimento turístico e de lazer.

“É assim que se deseja encarar a valoriza­ção da praia da Foz. É uma das mais belas praias do norte de Portugal, mas o seu equi­pamento está ultrapassado, absolutamente inadaptado às exigências contemporâneas. O equipamento coerente desse patrimó­nio é tanto mais de desejar visto que uma massa de possíveis utilizadores se encon­tra próxima, o que pode justificar numero­sos investimentos. A frequência dominical intensa e popular da praia da Foz mostra bem a necessidade imperiosa dum vasto par­que de repouso e diversões, acompanhado duma praia popular em volta duma grande zona para banhos. Além disso, a evolução de que já se falou, que irá desenvolvendo cada vez mais a especialização do Porto na fixação do pessoal terciário (alojando assim uma classe média disposta a aproveitar todas as instalações que valorizem a praia da Foz) exige um tal esforço. O Plano Director deverá indicar as localizações preferíveis para as pis­cinas de água salgada (nomeadamente pis­cinas de marés), os locais de banhos, as praias, hotéis e pousada. (…) A valo­rização da praia da Foz tem repercussões imediatas nos planos local e nacional, mas também no plano internacional, pois se trata de mais uma razão para o Porto afir­mar o seu papel de capital regional de turismo.”

Assim o Plano propõe um “novo hotel central de categoria média é indispensável e, sobretudo, hotéis com vistas sobre o mar ao longo das praias da Foz.”

O Hotel, estudado pelo arquitecto L. Miranda, seria implantado no lado poente da avenida Brasil, em frente ao molhe de Carreiros e junto da estátua do Cego do Maio.

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Plano Auzelle Fig. 13 – Fotomontagem mostrando a implantação do hotel previsto na Foz, na esplanada de 28 de Maio

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Foto e planta na revista Urbanisme

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O local no Google

No verso do documento 7.2.1.1 – Património monumental e artístico – Porto, centro regional de turismo (Volume I), é reforçada esta proposta para a zona da Foz do Douro / Nevogilde:

“Toda a costa marítima do Porto, com as suas praias e os seus jardins, oferece condições apreciáveis para um desenvolvimento deste tipo. E precisamente com o objectivo de equipar a zona balnear da Foz para esta nova função, que no Plano Director se prevê um número de obras que em condições normais poderia ser considerado excessivo. Trata-se das pisci­nas de marés já referenciadas no documento 7. 1.3. 1; um hotel junto ao actual molhe e em estreita relação com uma das citadas piscinas ; uma pousada aproveitando os terrenos junto ao Castelo do Queijo ; uma grande piscina de características populares integrada na zona Desportiva do Castelo do Queijo ; e, dum modo geral, uma renovação das instalações complementares das praias de banhos.

A zona entre o Castelo do Queijo (praça Gonçalves Zarco) e a Circunvalação ( praça da cidade do Salvador)

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Plano Auzelle fig. 9 – Praça de Gonçalves Zarco. No canto superior esquerdo da fotografia vêem-se os terrenos destinados à Feira Internacional e Zona Desportiva do Castelo do Queijo.

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Entre a avenida da Boavista e a Estrada da Circunvalação realizava-se no Circuito Internacional do Porto o Grande Prémio de Portugal de Automobilismo, retomado depois da guerra em 1950 e realizado até 1963.

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Foto de Alvão – Panorâmica da praça Gonçalves Zarco na realização do Grande Prémio de Portugal

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Partida da prova de 1950

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Programa e cartaz

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Prova de 1960 – com o n.º 2 Jack Brabham.

Em 1966 a praça de Gonçalves Zarco é redesenhada pelo arquitecto Carlos Ramos para a colocação da estátua equestre de D. João VI do escultor Barata Feyo (1899-1990).

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Postal posterior a 1966. Já está colocada a estátua equestre de D. João VI do escultor Barata Feyo (1899-1990), com a colaboração no arranjo da praça Gonçalves Zarco do arquitecto Carlos Ramos.

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A estátua no Porto e no Rio de Janeiro

A Estátua que se encontra na Praça Gonçalves Zarco constitui uma réplica da estátua oferecida por Portugal à Cidade de Rio de Janeiro, a pretexto do 4.º centenário  baseada no tema "Fé e Império" expresso no globo encimado por uma cruz que o rei estatuado ostenta na mão direita. Barata Feyo inspira-se na pintura de Domingos Sequeira existente no Palácio de Queluz.

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Domingos António de Sequeira, 1768-1837 - Príncipe Regente Passando Revista às Tropas na Azambuja  1803, óleo sobre tela 100 x 81 cm  Palácio Nacional de Queluz

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A praça antes do Arranjo de Manuel Solà Morales em 2001

A Feira  Internacional e o Palácio dos Congressos

O Plano, considera que “para além da renovação progressiva do centro da cidade por uma melhor adapta­ção às funções de trocas, é igualmente impor­tante favorecer as relações internacionais no plano comercial e industrial.”

Para isso propõe a criação de uma “Feira Internacional (que) permitiria trazer à importação e à exportação o ponto de encontro tão necessário ao desen­volvimento do aglomerado portuense, assim como ao conjunto do País.” E o Plano propõe um local “escolhido em função das ligações a assegu­rar com as povoações vizinhas e na proxi­midade dos meios de comunicação rodoviá­rios, ferroviários, marítimos e aéreos”, ou seja no Parque da Cidade.

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Plano Auzelle Volume II folha n.º 1 – Plano Director da Cidade do Porto – detalhe do Parque da Cidade

continua…

2 comentários:

  1. Acabo de comprar uma casa com 100 anos na rua da constituição. Como é de traça nobre lembrei-me que talvez se consigam arranjar fotos de época. Acha que me pode ajudar?
    obrigado e parabéns pelo trabalho

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  2. Boa noite,

    eu gostaria de lhe enviar um email, mas não consegui aceder ao mesmo na sua página pessoal.

    Seria possível entrarmos em contacto?

    email: g.castropinheiro@gmail.com

    O motivo prende-se com uma informação que dá e que está ligada a uma pessoa de família, sobre a qual estou a desenvolver um trabalho.

    Obrigado.

    ResponderEliminar