Para concluir estes textos sobre o Plano Director da Cidade do Porto de Robert Auzelle, algumas notas sobre O Plano Director e o Ensino.
O Ensino Primário
Com a construção dos bairros de Casas Económicas e do Plano de Melhoramentos, inicia-se a edificação de escolas primárias para servir as populações dessas novas áreas residenciais.
Algumas das escolas nos finais dos anos 50:![]()
Escola Primária feminina 1956/58 rua da Constituição arquitecto Alexandre de Sousa (1915-199?) CMP
Painel de Martins da Costa na escada do edifício
fresco de Martins da Costa no refeitório in Gravato, Adriana (op.cit.)![]()
Escola Primária do Covelo 1958 arquitecto Lúcio Miranda (1924) CMP![]()
Escola de Cedofeita em construção - foto do Plano de Actividade e Orçamento para 1963, C.M.P.
O Plano Director após fazer um levantamento da rede escolar na cidade, vai planear a construção de novas escolas, já que o crescimento demográfico e a expansão das áreas residenciais implica a disseminação por toda a cidade de novos equipamentos. O Plano exceptua o centro da cidade “onde existe uma deficiência de espaço para as escolas existentes (…) e uma quase impossibilidade de encontrar novas localizações. Portanto, o equipamento escolar primário é insuficiente e com reduzidas possibilidades de melhoria” , mas sobretudo a proposta de “directivas para impedir o crescimento da população residente no próprio centro, nos quarteirões de negócios.”
Plano Auzelle Volume I, documento 4.1.1.7 – Ensino Primário - Conjunto das escolas existentes a propostas
legenda: quadrados escolas existentes sendo vermelhos femininas e azuis masculinas. Cruzes escolas propostas sendo vermelhas femininas e azuis masculinas
O Ensino Técnico e Liceus
Se para o Plano Director a “escola primária não caracteriza a cidade como centro intelectual e artístico” (…) ; o ensino técnico e o ensino secundário marcam já a proeminência do Porto como centro, que de facto é, da aglomeração portuense.” O Plano realça a importância do ensino técnico “visto qualificar uma mão-de-obra absolutamente indispensável para o desenvolvimento industrial do aglomerado. Pelos inquéritos às profissões efectuados na cidade, verificou-se que o comércio e a indústria são os ramos de actividade predominantes e que, consequentemente, caracterizam a sua população. Este facto justifica a procura de uma mão de obra especializada, assim como a necessidade de cuidar da preparação da juventude escolar que se destina a estas actividades; ao ensino é dada, pois, a posição correspondente no programa do equipamento da cidade. É importante que ele beneficie das vantagens da sua localização na cidade. Deverá desenvolver-se um esforço muito particular para encontrar terrenos convenientes a destinar a este ensino.”
À data do Plano existiam no Porto 8 Escolas Técnicas e dois Institutos. A escolas técnicas eram três Elementares uma das quais feminina, a escola Clara de Resende (1) e duas masculinas, a escola Gomes Teixeira (2), e a escola Ramalho Ortigão (3); duas Comerciais, a escola Filipa de Vilhena (4), feminina e a escola Oliveira Martins (5), masculina e duas Industriais, uma feminina a escola Aurélia de Sousa (6) e uma masculina, a escola Infante D. Henrique (7) . Finalmente existia a escola de Artes Decorativas-de Soares dos Reis (8), masculina.
Os Institutos eram o Comercial (9) e o Industrial(10).
O Plano refere que “embora as localizações destes estabelecimentos de ensino não tenham obedecido a qualquer plano, quase todos eles se encontram razoavelmente situados em relação à malha urbana; estão instalados em edifícios novos ou recentemente ampliados.” Instalados em condições muito deficientes a Escola Comercial de Oliveira Martins e os dois Institutos.
Perante estas condições e o facto do número de alunos destes estabelecimentos ter mais do que duplicado em dez anos o Plano propõe “quatro novas unidades distribuídas pela zona periférica da cidade” (Ramalde - A, Amial - B, Outeiro - C e Cerco do Porto - D) e escolhe “dois terrenos prováveis para os Institutos Industrial (aliás já definido no Plano Parcial da Zona do Hospital Escolar, junto à rua de S. Tomé - E) e Comercial (na rua de António Carneiro a norte do Liceu Feminino da Rainha Santa Isabel - F) e ainda para a nova Escola Comercial de Oliveira Martins (na proximidade da avenida de Fernão de Magalhães -G).” Números e Letras correspondentes na planta![]()
Plano Auzelle Volume I documento 4.1.2.1 – Ensino Técnico e Secundário – Escolas técnicas existentes a propostas
“Deste modo, a cidade virá a contar com 12 unidades, além dos dois institutos.”
O novo edifício da escola Comercial Oliveira Martins só é inaugurado em Maio de 1970, estando hoje ocupado pela DREN.
O velho edifício da rua do Sol![]()
foto no blogue A Vida em Fotos http://portojofotos.blogspot.com/
O Instituto Comercial (agora ISCAP) continuou no edifício da rua de Entre-paredes ,e só inaugura as suas novas instalações em S. Mamede de Infesta, Matosinhos em 1996!
Os Liceus
“Com os liceus, aborda-se já a proeminência do Porto no plano regional pois que eles são o viveiro dos futuros universitários ou estudantes das escolas superiores. Os inquéritos mostram que a situação actual não é muito favorável, e propõem-se as novas localizações com reservas de terreno suficientemente grandes, para permitir ulterior desenvolvimento. Existem actualmente no Porto quatro liceus,sendo dois para o sexo masculino e dois para o sexo feminino, distribuídos na cidade da seguinte maneira :
Liceu de D. Manuel II (antigo e posterior Rodrigues de Freitas e D. Manuel II entre 1947 e 1974) masculino, projecto do arquitecto José Marques da Silva.![]()
Liceu Alexandre Herculano masculino, projecto do arquitecto José Marques da Silva.![]()
Liceu de Carolina Michaëlis, feminino, projecto do arquitecto Januário Godinho.![]()
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Liceu da Rainha S.ta Isabel, feminino, “até agora em edifício adaptado e em más condições, mas a substituir em breve por novas instalações em construção nos terrenos junto do edifício em que tem funcionado até agora.” As novas instalações foram inauguradas em 1963.![]()
E o Plano fundamenta a criação de novos Liceus:
“Os locais onde se encontram instalados são muito aceitáveis em relação ao núcleo central; mas, se considerarmos as áreas representadas por círculos de 1000 e 2 000 metros de raio — áreas teóricas mínima e máxima a servir por cada liceu—verifica-se que existem extensas zonas habitadas da cidade sem qualquer outra instalação liceal. Além disso, a capacidade das unidades existentes foi largamente excedida, razão pela qual algumas têm funcionado num regime de desdobramento de horários, a fim de permitir, a frequência de todos os alunos matriculados. Esta situação é compreensível, porquanto os inquéritos efectuados para o Plano Regulador indicavam como frequentando os quatro liceus um número de alunos que orçava pelos 1750, enquanto que o inquérito correspondente feito em 1960 apresentava um total de mais de 7 000 alunos, isto é, mais do quádruplo. Pode analisar-se tal aumento no quadro de frequência anexo.
Compreende-se portanto que só à circunstância de existir na cidade grande número de colégios de grau liceal se deve o problema não ter tomado aspectos ainda mais graves.
Analisadas as zonas da cidade deficientemente servidas por liceus e a percentagem de aumento anual dos alunos, concluiu-se pela necessidade de um mínimo de 4 novas instalações, cujos terrenos foram escolhidos de modo a poderem servir o melhor possível todas as zonas da cidade. Neste plano estão previstos dois liceus de um só sexo — um no Bessa — 1— e o outro a poente da Quinta da Prelada – 2 - e dois mistos — um em Nevogilde -3-, aliás já considerado no Plano Regulador, e o outro na zona de Augusto Lessa — 4—.”![]()
Plano Auzelle Volume I documento 4.1.2.3. Ensino Técnico e Secundário – Proposta de localização de novos liceus.
“Para estes liceus já foram definidas as áreas necessárias e estudados os respectivos acessos.”
Universidade e Cidade Universitária
A Universidade tem as suas Faculdades (Engenharia, Ciências e Economia e Farmácia), instaladas em edifícios construídos ou adaptados no período entre as duas guerras. A Faculdade de Medicina instala-se em 1959, no Hospital Escolar (S. João) e é recriada a Faculdade de Letras que o Plano assinala que “veio completar o conjunto das possibilidades de ensino especializado e criar no norte do País uma verdadeira capital regional.”
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Jornal de Notícias de 20 de Agosto de 1961
A Cidade Universitária
Com a instalação da Faculdade de Medicina no Hospital de S. João, coloca-se a hipótese de, à semelhança de Lisboa e Coimbra, criar no Porto uma Cidade Universitária, nos terrenos não construídos em torno do Hospital.![]()
Plano Auzelle Volume I - foto n.º 11 – Vista aérea do Hospital de S. João envolvido pelos terrenos destinados à Cidade Universitária
O Hospital Escolar de S. João 1940/59, projectado por Hermann Distel,como o “gémeo” Hospital de Santa Maria de Lisboa (1934/53), que como refere Antão de Almeida Garrett em carta enviada a Giovanni Muzio em Outubro de 1940: (…)“o novo Hospital Escolar da Cidade, cujo projecto já está aprovado e cuja construção vai em breve ser iniciada.”![]()
Arménio Losa - Plano da Zona do Hospital Escolar in catálogo da Exposição “Património da ESBAP e FAUP, UP 1987
Em torno do Hospital de S. João o Plano prevê a construção de uma Cidade Universitária. “No que diz respeito à Universidade, o reagrupamento decidido pelo Governo numa Zona Universitária, viu ainda aumentada a sua área, ocupando actualmente cerca de 135 hectares. Tal número é suficiente para mostrar a importância atribuída a este elemento primordial da vida intelectual do Porto.” ![]()
Terrenos para a Cidade Universitária do Porto. - 1:500 Arquivo Digital Universidade do Porto![]()
idem - Cidade Universitária do Porto. - 1:2000 ADUP
No entanto a contestação estudantil e a greve académica em 1962, a que se sucedem ao longo dos anos 60 diversas outras manifestações de estudantes quer em Portugal quer no estrangeiro, colocam um dilema ao regime. Ou concentrar as instalações universitárias em campus, com o perigo evidente de potencializar essas contestações pela junção num mesmo espaço de toda a população universitária, com a agravante da “inviolabilidade” pelas forças repressivas desses recintos, ou a dispersão pela cidade das diferentes instalações universitárias, correndo o risco da adesão das populações aos protestos estudantis.
Por isso, no caso da Cidade Universitária do Porto, o processo irá arrastar-se até ao 25 de Abril e na prática, nos anos 60, apenas se inicia o projecto das novas instalações da Faculdade de Economia. Criada em 1953 a Faculdade de Economia esteve de início instalada no edifício da Praça Gomes Teixeira (Leões) então ocupado pela Reitoria e pela Faculdade de Ciências. Contudo o aumento exponencial do número de alunos (de uma centena em 1954 para cerca de 800 em 1960), provoca a urgência de novas instalações. Do projecto do novo edifício da Faculdade de Economia, na Asprela, é encarregado o arquitecto Alfredo Viana de Lima (1913-1991). ![]()
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Viana de Lima 1º projecto 1961 in Fernandez, Sérgio – Faculdade de Economia – Guia de arquitectura moderna Ordem dos Arquitectos Porto 2001
O projecto então elaborado (1961) consistia num edifício de dois pisos destinado às zonas comuns de onde se destacava uma torre de planta quadrada de doze pisos, assinalando a presença no vasto território da Cidade Universitária. O regime recusou tal proposta, que pela sua modernidade não se enquadrava na visão retrógrada de que tinha para as instalações universitárias. Viana de Lima faz sucessivas revisões do projecto, até à versão actual, que apenas será inaugurada em 1974. Apesar dessas revisões, o edifício da Faculdade de Economia constitui o primeiro e único edifício universitário funcional e plasticamente moderno, realizado no período do Estado Novo. (O Instituto Superior Técnico projectado em 1927 por Pardal Monteiro, é a excepção mas num momento em que o regime de Salazar procurava uma afirmação de modernidade para se opor à I República).

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