Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 11 de junho de 2011

Um percurso visual pela Divina Comédia 1

 

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A Divina Comédia, Dante Alighieri, Tradução de Vasco Graça Moura, Quetzal – textos clássicos – Quetzal Editores 2001

1. A magnífica tradução da Divina Comédia de Dante Alighieri, por Vasco Graça Moura, veio permitir a leitura desse extraordinário poema, a todos os que não dominam o italiano. A proximidade da língua portuguesa ao italiano e ambas à sua raiz latina e o facto do tradutor ser ele mesmo um poeta, permite fazer uma leitura muito aproximada, nos versos, nas palavras, nos ritmos e nas rimas, na sonoridade do poema original.

2. Associada à Divina Comédia, procurei publicar neste blogue algumas considerações sobre o Danteum, um extraordinário projecto de 1938 do arquitecto Giuseppe Terragni (1904-1943), com a colaboração do arquitecto Pietro Lingeri (1894 1968) e do artista plástico Mario Sironi (1885 -1961), projecto que é abandonado pelo regime de Mussolini em 1941.

3. No entanto, para se compreender todo o alcance desse projecto, iniciei uma re-leitura da Divina Comédia, procurando as imagens e algumas das obras de arte que provocou.

I Parte – breve biografia de Dante

Dante Alighieri (1265-1321) nasceu em Florença em 1265 e morreu em Ravena em 1321. Dois factos marcam a vida de Dante: o exílio de Florença e o encontro com Beatriz.

É importante para a compreensão da sua obra saber-se que Dante participou activamente na vida política da sua cidade entre 1295 e 1301. Em 1301, o papa enviou Carlos de Valois, (irmão de Felipe o Belo rei de França), como pacificador da Toscânia. O governo de Florença no entanto, já recebera mal os embaixadores papais, semanas antes, de forma a repelir qualquer influência da Santa Sé. O Conselho da cidade enviou, então, uma delegação a Roma, com o fim de indagar ao certo as intenções do Sumo Pontífice. Dante chefiava essa delegação, e em 1302 quando está em Roma nessa missão diplomática junto do papa Bonifácio VIII, (c.1235-1303), papa entre 1294 e 1303, é condenado ao exílio, sem poder voltar à sua terra Florença. Por isso, sofrendo das amarguras do exílio, acaba por viver em diversas cidades Luca, Verona e Ravena onde acaba por morrer em 1321.

O encontro com Beatriz

Ainda jovem (18 anos), conheceu Beatrice Portinari (1266-1290), a filha de Folco dei Portinari. O Amor por Beatriz  aparece como a justificativa da poesia e da própria vida, quase se confundindo com as paixões políticas, igualmente importantes para Dante.

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Henry Holiday (1839-1927  O Encontro de Dante com Beatriz  1883, óleo s/ tela, 199 x 140 cm, Walker Art Gallery, Liverpool UK

Em 1292 Dante escreve a Vita Nuova.  Em 1304, em Verona escreve De vulgari eloquentia, e o  Convivio. de que apenas completa 4 volumes.
Em 1314 publica-se o  Inferno, primeira parte da Divina Comédia iniciada provavelmente em 1306/07.

Conhecemos diversas representações de Dante.

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Dante por Giotto Di Bondonne (c. 1267 – 1337), fresco do Juízo Final capela do palácio de Bargello Florença e retrato de Dante c.1495 por Sandro Botticelli (1444/45 - 1510) col. Part.

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Luca Signorelli (1441-1523), Dante fresco da capela de San Brizio, Duomo, Orvieto. 1499-1502.

Na catedral de Florença encontra-se uma conhecida pintura sobre madeira representando Dante, que como não podia entrar está colocado no exterior das muralhas da cidade (a terceira cintura construída entre 1284-1334) onde se reconhece a cúpula de Santa Maria del Fiori construída em 1434 por Filippo Brunelleschi (1377 — 1446), e a torre do Palazzo Vechio (1298). Veste uma túnica vermelha e tem na mão a Commedia. Dante aponta com a mão direita as portas do Inferno. Atrás a montanha do Purgatório com a sua rampa tendo no cimo a Árvore da Vida no Paraíso Terrestre.

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Domenico di Michelino (1417–1491) Dante e seus Poemas La Divina Commedia di Dante 1465 fresco 2,32 x 2,90 m. nave da catedral de Florença

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Joos van Wassenhove (ou Justus van Gent), Justus ou Jodocus of Ghent (c. 1410— c. 1480) Danti Antigerio óleo sobre madeira 111 x 64 cm. Paris, musée du Louvre

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Andrea di Bartolo di Simone dito Andrea del Castagno (1421-1457) Dante Alighieri do conjunto de retratos de “personagens famosas” - c. 1450 Fresco transferido para madeira 154 x 250 cm Galeria dos Uffizi Florença

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Agnolo Bronzino (1503-1572) retrato alegórico de Dante c1530
óleo sobre madeira 120 x 127 cm National Gallery of Art Washington

Dante segura a Divina Comédia aberta no Canto XXV do Paraíso, tendo ao fundo a montanha do Purgatório.

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Vincenzo Camuccini (1773-1844) Dante Alighieri (1265-1321) Óleo s/tela 51 x 43 cm. Versailles, châteaux de Versailles et de Trianon

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Gustave Doré (1832-1883) Dante in L’ Enfer de Dante Alighieri avec les Dessins de Gustav Doré, traduction française de Pier-Angelo Fiorentino, accompagné du texte italien, Paris, Librairie de L. Hachette et Cª, Boulevard de Saint-Germain, n. 77, MDCCCLXVIII – BNF

Dante no exílio

Nestes conhecidos versos da Divina Comédia  o poeta profetiza todas as amarguras e humilhações do exílio que o espera.

Tu lascerai ogne cosa diletta/più caramente; e questo è quello strale/che l'arco de lo essilio pria saetta./Tu proverai sì come sa di sale/lo pane altrui, e come è duro calle/lo scendere e 'l salir per l'altrui scale.

Deixarás toda a cousa que é dilecta /Mais caramente; e este dardo tal / Que o arco do exílio antes projecta./Tu provarás assim sabor a sal/Do alheio pão e como é duro mal/Se desça escada alheia ou já se escale.  (Paraíso, canto XVII, 58)

Nota – todas as citações da Divina Comédia são da tradução de Vasco Graça Moura

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Domenico Peterlini (1822-1891) Dante no Exílio Palazzo Pitti Galleria d'Arte Moderna, Florença Itália

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Lord Frederick Leighton (1830 –1896), Dante in Exile 1864, óleo sobre tela 152,4 x 254 cm colecção Sir Andrew Lloyd Webber

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Annibale Gatti (1828-1909) Dante no exílio, séc.XIX óleo sobre tela Palazzo Pitti, Galleria d'Arte Moderna, Florença Itália

Também o Romantismo português se ocupa de Dante, como no desenho de Roquemont, em que a figura de Dante é retratada com o chapéu característico e uma capa  até aos pés.

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Augusto Roquemont (1804 - 1852) Sem Titulo 1818-1828     Tinta castanha, grafite e giz branco sobre papel com preparo castanho.A.25,9 cm x L.18,7 cm Museu de Grão Vasco Viseu

E mesmo Rauschenberg numa homenagem aos 700 anos de Dante, produz um conjunto de imagens sobre Dante e a Divina Comédia.

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Robert Rauschenberg (1925 – 2008)  For Dante's 700 Birthday, No.2, 1965, grafite, aguarela e guache sobre fotolitografia, 38.2 x 79 cm The National Gallery of Art Washington

II Parte - A Divina Comédia de Dante

Iniciada quando Dante estava exilado cerca de 1307, com o nome de Comédia (ou seja com um final feliz…) só será terminada perto da morte do autor em 1321.

Na edição de 1555 assume o título de A Divina Comédia , nome porque ficará conhecida.

A obra descreve um percurso, onde Dante partindo da Selva Escura no Inferno, percorre o Purgatório para finalmente chegar ao Paraíso que no tempo se pode situar entre Abril de 1300. Dante utiliza o toscano que graças a partir daí será o italiano.

Está dividida em três partes, Inferno, Purgatório e Paraíso. Cada uma das três Partes está dividida cantos, e é utilizado

Cada uma de suas partes está dividida em trinta e três cantos, cantos (sendo que o Inferno possui um canto a mais que serve de introdução ao poema) compostos de Tercetos o terceto (terza rima), ou seja grupos de três versos em que o primeiro rima com o terceiro e o segundo constitui a primeira e a terceira rima do terceto seguinte. A composição do poema é baseada no simbolismo do número 3 (número que simboliza a Santíssima Trindade, assim como também, simboliza o equilíbrio e a estabilidade em algumas culturas, e que também tem relação com o triângulo). Possuí três personagens principais: Dante, que personifica o homem, Beatriz que personifica a fé e Virgílio que personifica a razão; cada estrofe tem três versos e cada uma de suas três partes contêm 33 cantos.

Os 3 livros que compõem a Divina Comédia são divididos em 33 cantos, com aproximadamente 40 a 50 tercetos. No total são 100 cantos ( o Inferno tem 34 cantos) e 14.233 versos. Os lugares de cada livro (o inferno, o purgatório e o paraíso) são divididos em nove círculos cada, formando no total 27 níveis. Os 3 livros rimam no último verso, pois terminam com a mesma palavra: stelle (estrelas).

Ao longo do seu percurso Dante encontra inúmeras personagens históricas, personagens contemporâneas de Dante, figuras mitológicas, sendo todas personificações de defeitos ou de virtudes, religiosas ou políticas, e cada uma sujeita a recompensa ou a castigo.

As ilustrações

T. S. Eliot (1888 — 1965), outro grande poeta escreveu em 1929: “Dante's is a visual imagination. It is a visual imagination in a different sense from that of a modern painter of still life: it is visual in the sense that he lived in an age in which men still saw visions”

Esta imaginação visual de Dante, conduziu a que desde início a Divina Comédia fosse ilustrada, ou servisse de motivo para ilustrar outros livros.

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A anunciação e cenas da "divina comédia" de Dante, c.1474-6, página de um Missal: Museo Nazionale del Bargello, Florença.

E foram vários os artistas desde a sua primeira publicação aos nossos dias que se abalançaram a ilustrar a Divina Comédia destacando-se : Divine Comédie de Dante. L'Enfer avec un commentaire de Fra Guido de Pise  c. 1330 musée Condé Chantilly, Priamo della Quercia (c.1400 – 1467), Sandro Botticelli (1445 –1510), Alessandro Vellutello (1473-?), John Flaxman (1755 –1826), William Blake (1757–1827), Gustave Doré (1832-1883), António Carneiro (1872-1930), Salvador Dali (1904 – 1989) e Robert Rauschenberg (1925-2008). Muitos outros artistas criaram obras a partir desta ou daquela cena ou personagem do poema de Dante.

Por isso, esta é uma leitura descontraída da Divina Comédia, através dessas e outras ilustrações, sem preocupações de sistematizar e com uma escolha pessoal, acrescentada de algumas obras motivadas ou apenas relacionadas pela obra-prima do poeta florentino, um pouco como ao percorrer o Danteum (que como veremos, praticamente não teria figurações), nos viesse à memória todo o conjunto dessas imagens.

Um percurso visual pela Divina Comédia

1 - O Inferno

O Inferno de Dante tem a forma de um cone com o vértice para baixo e composto de 9 círculos, sendo cada um deles guardado por uma personagem mitológica e demoníaca. À medida que se desce os círculos tornam-se cada vez mais estreitos e os tormentos mais intensos. Os círculos de 1 a 5 albergam os pecadores da incontinência (ex passione) e os círculos de 6 a 9 os pecadores da maldade (ex electione).
Lucifer, no vértice do cone, que se encontra no centro da Terra, está por isso o mais possível afastado de Deus.

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Sandro Botticelli mapa do Inferno c.1480-c.1495. Desenho sobre pergaminho  32 x 47 cm. Vat. Lat. 1896. Biblioteca Apostolica Vaticana

Canto I

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A Divina Comédia começa pelos seguintes versos:

No meio do caminho em nossa vida,/eu me encontrei por uma selva escura/porque a direita via era perdida.

Ah, só dizer o que era é cousa dura /esta selva selvagem, aspra e forte, /que de temor renova à mente a agrura!

Tão amarga é, que pouco mais é morte; /mas, por tratar do bem que eu nela achei,/direi mais cousas vistas de tal sorte.

Nem saberei dizer como é que entrei,/tão grande era o meu sono no momento/em que a via veraz abandonei.

Nel mezzo del cammin di nostra vita /mi ritrovai per una selva oscura /ché la diritta via era smarrita. /Ahi quanto a dir qual era è cosa dura /esta selva selvaggia e aspra e forte, /che nel pensier rinova la paura! /Tant' è amara che poco è più morte; /ma per trattar del ben ch'i' vi trovai /dirò de l'altre cose ch'i' v'ho scorte. /Io non so ben ridir com' i' v'intrai, /tant' era pien di sonno a quel punto /che la verace via abbandonai.

O poema de Dante inicia-se com uma referência temporal: No meio do caminho em nossa vida, que Vasco Graça Moura anota: A viagem situa-se no ano de 1300, numa data próxima do equinócio da Primavera. E o ano do Jubileu decretado por Bonifácio VIII. Dante tem trinta e cinco anos. Entendia-se que a duração média da idade humana era de setenta anos.

E com uma referência espacial: No meio do caminho em nossa vida, / eu me encontrei por uma selva escura, em que a “selva representa simbolicamente os erros e desvios da condição humana.”

Outro poeta, Fernando Pessoa faz uma referência à selva escura e a Dante num dos seus poemas:

Que suave é o ar! Como parece
Que tudo é bom na vida que há!
Assim meu coração pudesse
Sentir essa certeza já.

Mas não; ou seja a selva escura
Ou seja um Dante mais diverso,
A alma é literatura
E tudo acaba em nada e verso.

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Lodovico (Cigoli) Cardi (1559-1613) Dante dans la forêt , sec XVI, pena, tinta e lavis castanhos, aberto a branco sobre papel beige, 26,1x20,3 cm., musée du Louvre Paris

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Gustave Doré (1832-1883), Dante perdido na selva escura. in L’ Enfer de Dante Alighieri avec les Dessins de Gustav Doré, traduction française de Pier-Angelo Fiorentino, accompagné du texte italien, Paris, Librairie de L. Hachette et Cª, Boulevard de Saint-Germain, n. 77, MDCCCLXVIII - BNF

Na selva escura Dante encontra Virgílio, autor da Eneida,:

”Fui poeta e cantei daquele justo/Filho de Anquises que de Tróia veio/quando o soberbo Ilion foi combusto” e que Dante considera “o meu mestre, o meu autor/és tu aquele só de quem tirei/o belo estilo que me deu valor.”

Virgílio irá guiar Dante no seu percurso até à porta do Paraíso.

O Canto I termina com Dante pedindo a Virgílio “ E eu então: Poeta , me concede/por esse Deus que tu não conheceste para que eu fuja o mal que o excede,/que tu me leves lá onde disseste,/à porta de S. Pedro, ora te rogo, /e esses que tão tristes descreveste.”/Então moveu-se e eu segui-o logo.

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Priamo della Quercia (c.1400 – 1467) manuscrito com iluminura 1444-1452 Dante e Virgílio na Selva Escura Yates Thompson 36 The British Library.

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Jean-Baptiste Camille Corot (1796-1875) Dante et Virgile - musée du Louvre, Paris

Canto II

Na selva escura a Dante e Virgílio  aparece Beatriz.

Sendo, entre os mais suspensos, eu ali, /uma senhora tão beata e bela /chamou-me e que mandasse lhe pedi.

Luzia o seu olhar mais do que estrela;/e logo de dizer suave e lhana,/na voz angelical que se revela:
"Ó alma tão cortês e mantuana,/de quem no mundo a fama inda perdura/e de durar quanto ele já se ufana,
o amigo meu, que o não é da ventura,/nessa praia deserta ei-lo impedido/e atrás volveu e o medo o desfigura;
e eu temo já se encontre tão perdido,/que tarde a socorrê-lo vá levada,/por quanto cá no céu já tenho ouvido!

Ergue-te pois e com palavra ornada/e o mais que for mister a se salvar,/o ajuda, a fim que eu seja consolada.

Eu sou Beatriz, ora a fazer-te andar;/do lugar venho a que voltar pretendo,/e amor me move, que me faz falar.

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John Flaxman (1755 –1826), Beatrice's visit to Virgil 1793 in  La Divina Comedia di Dante Alighieri: cioé L'Inferno, Il Purgatorio ed Il Paradiso disegnata da Giovanni Flaxman, scultore inglese, ed incisa da Tommaso Piroli Romano. (Cornell Fiske Dante Collection)

Dante e Virgílio prosseguem na selva escura até à entrada do Inferno

Vamos pois, ambos com um só querer:/tu condutor, e tu senhor, tu mestre.”/Assim lhe disse; e ele após se mover,

entrei pelo caminho alto e silvestre.

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William Blake(1757–1827), Inferno, Canto II, 139-141. Dante e Virgílio na selva escura Illustrations to Dante's `Divine Comedy' 1824-27, lápis, pena, tinta e aguarela s/ papel 37,1 x 52,7 cm. Tate Gallery London

Canto III

A entrada do Inferno

Por mim vai-se à cidade que é dolente, /por mim se vai até à eterna dor,/por mim se vai entre a perdida gente.

Moveu justiça o meu supremo autor: /divina potestade fez -me e tais /a suma sapiência, o primo amor.

Antes de mim não houve cousas mais /do que as eternas e eu eterna duro. /Deixai toda a esperança, vós que entrais.

O Inferno não possui propriamente portas mas apenas um aviso sobre a entrada que adverte: uma vez dentro, deve-se abandonar toda a esperança de rever o céu pois de lá não se pode voltar. As almas entram porque querem. A alma só tem poder de escolha enquanto viva. Depois de morta, perde a capacidade de raciocinar e tomar decisões. Dante não deve temer, diz Virgílio, porque ele ainda está vivo e ainda tem poder de arbítrio.

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Divine Comédie de Dante . L'Enfer avec un commentaire de Fra Guido de Pise Virgile conduit Dante vers la Porte de l'Enfer c. 1328-1330 iluminura sobre pergaminho pag. 33 x 24,5 cm. Museu Condé Chantilly

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Alessandro Vellutello, Dante e Virgílio nas Portas do Inferno 1544 Dante con l'espositione di Christophoro Landino, et di Alessandro Vellutello (Venice: Marchio Sessa, 1564).

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Gustave Doré in  L’ Enfer de Dante Alighieri avec les Dessins de Gustav Doré, traduction française de Pier-Angelo Fiorentino, accompagné du texte italien, Paris, Librairie de L. Hachette et Cª, Boulevard de Saint-Germain, n. 77, MDCCCLXVIII – BNF

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William Blake (1757–1827) Dante e Virgílio nos portões do Inferno 1824-7, lápis, pena , tinta e aguarela s/ papel 52,7 x 37,4 cm.  The Tate Gallery London

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Federico Zuccaro (1540/41-1609) Dante et Virgile à la porte des Enfers sec XVI sanguínea 28,5 x 42,8 cm musée du Louvre

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Edgar Degas (1834-1917) Dante e Virgílio às portas do Inferno 1857/58 óleo s/ tela col. particular

Auguste Rodin (1840-1917) e  A Porta do Inferno 1880 - 1917

Auguste Rodin pensou esta obra como uma réplica da "Porta do Paraíso", de Lorenzo Ghiberti (1425-1452) no baptistério de Florença (que veremos no capítulo do Paraíso). Conhecedor das várias interpretações da obra de Dante, Rodin trabalhou posteriormente peças isoladas como "O Pensador", inicialmente “O Poeta” e que representaria o próprio Dante  ou as que veremos mais adiante "O Beijo", (Francesca da Rimini) no Canto V  e Ugolino e os filhos, no Canto XXXIII.

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Uma das versões de A Porta do Inferno 5,29 m x 3,96 m x 1,19 m Museu Rodin

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Le Penseur 1881 bronze 71,5 x 40 x 58 cm Museu Rodin

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Versão em bronze do Museu Rodin Paris

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Modest Cuixart (1925-2007) Porta do Inferno 1962 técnica mista sobre tela. 22,5 x 13 cm. Colección L.D.

Junto à entrada do Inferno encontra-se o vestíbulo dos cobardes e dos anjos neutros que nem são por, nem contra Deus.

Entre o vestíbulo e o 1 °Círculo, está o rio Aqueronte no qual se encontra Caronte, o barqueiro que faz a travessia das almas da margem que separa o vestíbulo do primeiro dos círculos do inferno. Mas como Dante é muito pesado para fazer a travessia no barco de Caronte, pelo facto de estar vivo, Virgílio adverte o mitológico barqueiro de que a travessia do rio através de seu barco é mister devido a uma ordem celeste. É através deste barco que Virgílio e Dante atravessam o rio.

Caronte é o horrível velho com olhos em brasa que conduz a barca que atravessa o Aqueronte, e a quem as almas devem pagar para essa travessia. Daí a antiga tradição de colocar uma moeda na boca do defunto, para a alma (o sopro) pagar a Caronte.

Ed ecco verso noi venir per nave,/ Un vecchio bianco per antico pelo,/Gridando : « Guai a voi, anime prave! »

E veio vindo a nós em nave lesta/Um velho, branco no vestusto pêlo,/gritando:”Guarda a tua alma funesta!”

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Gustave Doré, Caronte o barqueiro da morte 1890 gravura in Dante Alighieri's Inferno from the Original by Dante Alighieri and Illustrated with the Designs of Gustave Doré (New York: Cassell Publishing Company, 1890).

E Caronte, demónio de olho em brasa, /fazendo-lhes sinal de que os recolha, /dá co o remo nalgum que mais se atrasa

Caron dimonio, con occhi di bragia/loro accennando, tutte le raccoglie;/batte col remo qualunque s'adagia

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Priamo della Quercia (c.1400 – 1467) manuscrito com iluminura 1444-1452 Yates Thompson 36 The British Library.

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John Flaxman (1755 –1826) Charon ferries the damned across the Acheron 1793 La Divina Comedia di Dante Alighieri: cioé L'Inferno, Il Purgatorio ed Il Paradiso disegnata da Giovanni Flaxman, scultore inglese, ed incisa da Tommaso Piroli Romano. (Cornell Fiske Dante Collection)

Miguel-Ângelo (Michelangelo Buonarroti 1475-1564) representa Caronte na parte inferior de o Juízo Final da Capela Sistina.

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Michelangelo Buonarroti O Juízo Final 1534/1541 fresco 13,7 m x 12,2 m,altar da Capela Sistina S. Pedro Vaticano

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Frederico Zuccaro (1540/41-1609) Caronte, pedra negra e sanguínea 28,4 x43 cm.musée du Louvre 

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José Benlliure y Gil (1855 —1937) a barca de Caronte óleo sobre tela 176 x 103 cm Museo de Bellas Artes San Pio V Valência 

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Salvador Dali (1904-1989) Caronte y la costa de Acheron.  1951. gravura  10″ x 7,5″. in La Divina commedia. Illustrated by Salvador Dalí. 3 vols. in 6. Rome and Florence: Arti e scienze and Salani, April 1963 – May 1964

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Charles-François Hutin (1715-1776) Caronte 174 7 mármore 75 x 38 x 42 cm. musée du Louvre Paris

Canto IV

O 1º círculo

No primeiro dos nove círculos do Inferno está o Limbo, que alberga os justos não batizados, que vivem sem esperança.

O limbo é o local onde as almas que não puderam escolher Cristo mas escolheram a virtude, vivem a vida que imaginaram ter após a morte. Não têm a esperança de ir ao céu pois não tiveram fé em Cristo. Aqui ficam, para além dos não batizados, aqueles que nasceram antes de Cristo, como Virgílio, que diz a Dante:

…Quero que saibas, antes que mais andes,

Que não pecaram e, se tem mercês,/Não basta, pois ficaram sem baptismo,/que é a porta da fé em que tu crês.

E vindos antes do cristianismo,/Não prestara a Deus devido rito,/E eu mesmo sou um deles neste abismo.

Por tais defeitos, não outro delito, /sendo perdidos, temos por ofensa,/Sem esperar, viver desejo aflito.”

Na mitologia clássica, o Limbo não fica no inferno, mas suspenso entre o céu e o mundo dos mortos. Na poesia de Dante não se tem uma noção precisa de como se chega lá, pois o poeta desmaia no ante-inferno e quando acorda já está no Limbo, o primeiro círculo infernal.

No Limbo, Dante encontra Homero (século IX ou VIII a.C.) poeta soberano, Horácio (65 a.C.a 8 d.C.) sátiro que vem, poeta romano lírico e satírico, autor da Ars Poetica , Ovídio (43 a.C.a 17 d.C.) poeta romano autor de várias obras, entre as quais obras de mitologia como Metamorfoses, e o último Lucano (Marcus Annaeus Lucanus 39 –65 d.C.), autor do poema épico Farsália.

Os poetas da antiguidade estão junto a um castelo, rodeado de 7 cintas de muralhas:

Fomos ao pé de um mui nobre castelo/que uma alta cerca sete vezes mura/e havia um ribeirinho a protegê-lo.

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Priamo della Quercia Dante and Virgil with Ovid, Homer, Lucan, and Horace; the castle of Limbo 1444-1452 Iluminura Yates Thompson 36.The British Library

E Dante vê ainda um conjunto de personagens entre as quais Sócrates, Platão, Demócrito, Diógenes e Anaxágoras, Empédocles, Heráclito, Tales, Séneca, Euclides, Ptolomeu, Avicena, Hipócrates, Galeno, e Averróis, mas de que Não posso dar de todos nome pleno.

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Gustav Doré Dante com os grandes poetas da antiguidade L’ Enfer de Dante Alighieri avec les Dessins de Gustav Doré, traduction française de Pier-Angelo Fiorentino, accompagné du texte italien, Paris, Librairie de L. Hachette et Cª, Boulevard de Saint-Germain, n. 77, MDCCCLXVIII – BNF

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William Blake Homero e os poetas da antiguidade 1824-7, lápis, pena , tinta e aguarela s/ papel, 37,1 x 52,8 cm. The Tate Gallery London

Eugène Delacroix (1798-1863) pinta entre 1841 e 1846, na Cúpula da Biblioteca do Palácio do Luxemburgo em Paris,  o Limbo segundo a Divina Comédia. Dante conduzido por Virgílio encontra aí os grandes espíritos da humanidade anteriores ao cristianismo, e por isso, apesar da sua bondade não podendo ascender aos céus.

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Ao centro da esquerda para a direita Horácio, Ovídio, Homero e Lucano acolhem Virgílio e Dante.

Pirro, armado, acompanha Aníbal.

O grupo dos romanos, mostra Trajano de pé junto a Pórcia no chão, debruçando-se na direção de Marco Aurélio. Este aponta para Catão de Utica que tem na mão o tratado de Platão, e por terra a espada com que se suicidou. Em 2º plano César com um globo e uma espada tem perto dele Cícero e outros romanos.

Do outro lado vemos Aquiles sentado, Aristóteles, Alexandre de armadura, Apelle sentado, Aspásia de branco, Sócrates, Platão, Alcibíades, Xenofonte e Demóstenes.

Eugène Delacroix Les Limbe – 1841/1846 Coupole du Sénat e jardim du Luxembourg

Canto V

O 2º círculo

O Canto V é certamente um dos mais conhecidos e dos mais belos da Divina Comédia.

O 2º círculo, dos Luxuriosos, é guardado por Minos antigo rei de Creta, tornado monstro alado, com serpentes enroladas nas pernas, que julga as almas que se apresentam no Inferno.

Minos lá era horrível que rangia:/a examinar as culpas logo à entrada;/conforme julga e manda, a cauda o estria.” d92

Priamo della Quercia 1444-1452 Iluminura Minos judges the damned Yates Thompson 36.The British Library

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Gustave Doré – Minos in L’ Enfer de Dante Alighieri avec les Dessins de Gustav Doré, traduction française de Pier-Angelo Fiorentino, accompagné du texte italien, Paris, Librairie de L. Hachette et Cª, Boulevard de Saint-Germain, n. 77, MDCCCLXVIII – BNF

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Salvador Dali Minos in La Divina commedia. Illustrated by Salvador Dalí. 3 vols. in 6. Rome and Florence: Arti e scienze and Salani, April 1963 – May 1964

O poeta descreve um conjunto de personagens:

É ela Semirâmis ,(a rainha do Egipto, da Caldeia e da Assíria) de quem sei/que a Nino sucedeu e foi esposa:/e teve a terra em que o sultão é rei”/Aqueloutra matou-se de amorosa, quebrando a fé às cinzas de Siqueu,(Dido rainha de Cartago, que seduziu Eneias no canto II da Eneida de Virgílio que acompanha Dante) /vem Cléopatra após, luxuriosa. /Helena (de Tróia) vês por quem se padeceu /tão triste tempo, e Aquiles gentil,/que com amor à morte combateu./ Vês Páris e Tristão… Canto V 58- 67

Dido e Eneias

A história dos amores de Dido e Eneias é narrada por Virgílio na sua Eneida. Dido, rainha de Cartago,  influenciada por Vénus, deusa do amor e mãe de Eneias, apaixona-se por este. No meio de uma tempestade, abrigados numa caverna, Dido e Eneias consumam a sua paixão. Júpiter envia Mercúrio a Eneias lembrando-lhe que o seu destino é  fundar uma nova cidade. Eneias abandona Cartago sem que Dido se aperceba. Esta  enganada e  furiosa pelo amor não correspondido, suicida-se.

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O suicídio de Dido enquanto Eneias navega para longe iluminura  in Histoire ancienne jusq'à César, part 3 of the second redaction, 2nd quarter of the 14th century, Parchment  335 x 235 (215 x 140)mm.  Nápoles, British Library UK

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Nicolas Verkolye (Dutch, 1673 - 1746) and Jan Verkolye the Elder (Dutch, 1650 - 1693) Dido and Aeneas, início do século XVIII óleo sobre tela 87 x 114.9 cm The J. Paul Getty Museum, Los Angeles

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Jean-Michel Moreau le jeune (French, 1741 - 1814) Dido Excoriates Aeneas, from Book IV of the "Aeneid", 1803 cm pena com tinta castanha 22,2 x 15,6 cm. The J. Paul Getty Museum, Los Angeles

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Peter Paul Rubens  The Death of Dido, 1600-1603 pena e tinta castanha sobre papel  9.53 cm. x 11.5 cm.Bowdoin College Museum of Art, Maine

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Liberale da Verona (1445-1527/9) o Suicídio de Dido  óleo s/ painel 42.5 x 123.2 cm The National Gallery London

Na música

A história de Dido e Eneias, narrada na Eneida de Virgílio e referida na Divina Comédia inspirou a ópera Dido & Aeneas de Henry Purcell (1659– 1695) com o libreto de Nahum Tate (1652-1715), de que é sobretudo conhecida a belíssima ária  Dido’s Lament (oLamento de Dido):

Thy hand, belinda, darkness shades me.
On thy bosom let me rest.
More I would, but death invades me.
Death is now a welcome guest.
When I am laid in earth, may my wrongs create
No trouble in thy breast.
Remember me, but ah! forget my fate.

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Simon Vouet (1590 - 1649) The Death of Dido (1642-43) óleo s/ tela 170 x 215 cm Musée Municipal Dole

No entanto o Canto V da Divina Comédia de Dante é sobretudo conhecido pela história de Francesca Da Rimini, narrativa que a partir daí se torna célebre.

Francesca Da Rimini, filha de Guido Minore Da Polenta era a tia de Guido Novello Da Polenta, em casa de quem Dante se instalou antes de morrer.

Francesca tinha casado com Gianciotto Malesta senhor de Rimini, um cavaleiro feio e disforme.Francesca tornou-se amante do cunhado Paolo Malatesta. Gianciotto surpreendendo-os matou-os com um golpe de espada. Pelo amor proibido espiam a culpa no círculo dos luxuriosos enquanto o assassino se encontra na Caina o círculo mais profundo do “reino das dores”.

Dante começa por ver sombras esvoaçando, donde se destacarão as de Francesca e Paolo.

E comecei: “Poeta, aos dois primeiros,/bem quisera eu falar, que juntos vão/e ao vento me parecem tão ligeiros.” Canto V( 72-74)

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William Blake - The Lovers' Whirlwind, Francesca da Rimini and Paolo Malatesta 1824 – 1827 pena, tinta e aguarela  37,4 x 53 cm.  Museum and Art GalleryBirmingham

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Ary Scheffer 1795 - 1858 Les ombres de Francesca da Rimini et de Paolo Malatesta apparaissent à Dante et à Virgile  1855 óleo s/tela 171x239 cm. musée du Louvre, Paris

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Jean Alaux (1786-1864) Dante et Virgile aux Enfers : vision de Paolo et Francesca, 1824,  lavis castanho, mina de chumbo, pincel e aberturas a branco sobre papel, 20,7 x 26,6 cm. Musée du Louvre

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Gustave Doré (1832 1883) Paolo et Francesca de Rimini aux Enfers c. Desenho preparatório para a estampa XV do Inferno de Dante (Paris 1861), lavis de tinta da china e guache branco sobre papel 38,7 x 29,2 cm. Musé d’art moderne et contemporain Strasbourg, France

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Jean-Edouard Dargent (1824-1889), dito Yan Dargent Paolo et Francesca sec XIX óleo sobre madeira 23,5x14,0 cm. musée Magnin Dijon, França

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Pierre-Claude-François Delorme (1783-1859): Francesca da Rimini e Paolo Malatesta, 1825/30 sanguínea, e gesso sobre tela  74×29 cm . Musée Municipal de Sens França

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Dante Gabriel Rossetti (1828 —1882), Paolo and Francesca da Rimini 1855 aguarela 25 x 45 cm. Tate Gallery Londres

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Mosè Bianchi (1840-1904): Paolo e Francesca, 1877 c.. aguarela e ouro sobre papel  64,5×85,5 cm. Milano, Galleria Civica d’Arte Moderna.

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Eugène Auguste François Deully (1860-1933) Dante et Virgile aux Enfers 1897 óleo sobre tela 3,00 x 1,50 m. Lille, Palais des Beaux-Arts

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Henry Fuseli (1741 - 1825) Dante swooning before the soaring souls of Paolo and Francesca, c. 1818, gravura 50 x 33 cm. The British Museum

Dante termina o Canto V com estes versos:

De ouvir a estas almas tais ofensas,/baixei o rosto e assim fiquei de espaço,/até o mestre me dizer: «Que pensas?»

Respondi-lhe: «Ai de mim, ora que faço? /que doces pensamentos e desejo/lhes impuseram doloroso passo!»

E os encarando disse nesse ensejo/assim: «Francesca o teu martírio pôs-se /a fazer-me chorar de triste pejo.

Mas no tempo do suspirar tão doce, /a quê e como concedeu amor /que tão dúbio desejo nascer fosse?»

E ela a mim: «Nenhuma maior dor /do que a de recordar tempo feliz/já na miséria; e o sabe o teu doutor.

Mas tu, se em conhecer qual a raiz /primeira deste amor, pões tal afeito,/di-lo-ei como quem chora enquanto diz.

Um dia a ler com ele me deleito,/de Lançarote, o amor como o prendeu: /Éramos sós e nada a nós suspeito.

Várias vezes o olhar nos suspendeu/essa leitura e deu pálido aviso; /mas foi um ponto só que nos venceu.

Quando lemos do desejado riso/a ser beijado por tão grande amante,/e este, que de mim seja indiviso,

a boca me beijou todo anelante. /Galeotto foi o livro e quem o disse: /nesse dia não lemos adiante.»

Como um espírito isto referisse,/chorava o outro, e em mim tal pena vi /que foi qual se a morrer eu me sentisse;

e como um corpo morto assim caí.     (final do Canto V 109-143)

A história de Paolo e Francisca irá ser tema privilegiado na pintura do século XIX (romântica, pré-rafaelita ou simbolista).

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Jean Auguste Dominique Ingres (1780–1867) Gianciotto descobre Paolo e Francesca 1819 óleo s/ tela Musée Turpin de Crissé Angers, France

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Gustave Doré (1832-1883) L’ Enfer de Dante Alighieri avec les Dessins de Gustav Doré, traduction française de Pier-Angelo Fiorentino, accompagné du texte italien, Paris, Librairie de L. Hachette et Cª, Boulevard de Saint-Germain, n. 77, MDCCCLXVIII – BNF

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Alexandre Cabanel, 1823 -1889 Morte de Francesca da Rimini e Paolo Malatesta, 1870, óleo s/tela 184 x 255 cm. musée d'Orsay, Paris, France

O livro caído das mãos de Francesca lembra que os amantes liam Lancelot, enquanto que escondido por detrás da cortina Gianciotto tem na mão a espada ensanguentada.d36

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Marie-Philippe Coupin de La Couperie (1773-1851): Gli amori funesti di Francesca da Rimini, c. 1812, óleo sobre tela  102×82 cm. Arenberg, Napoleonmuseum.

Também o "O Beijo" de Rodin pensado inicialmente para a Porta do Inferno, com o título de título original de "Francesca da Rimini” pretende representar os dois amantes do Canto V do Inferno de Dante. Na escultura, o livro está nas mãos de Paolo. Os lábios dos amantes não se tocam realmente na escultura, sugerindo-se que eles foram interrompidos aquando da sua morte, sem seus lábios nunca terem sido tocados. Foi exibido publicamente pela primeira vez no "Salon de la Société National des Beaux-Arts" em 1898.

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Auguste Rodin (1840-1917) O Beijo (1888-89) marbre 181,5 x 112,3 x 117 cm Musée Rodin Paris

Francesca di Rimini na música

Pyotr Ilyich Tchaikovsky compôs durante uma visita a Bayreuth no Outono de 1876 um poema sinfónico intitulado  Francesca da Rimini: Fantasia Sinfónica inspirada em Dante (Opus 32).

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E Sergei Rachmaninoff (1973 –1944) compôs em 1906 uma ópera  Francesca da Rimini (op.25).

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Canto VI

No Canto VI Dante chega ao 3º círculo:

  “Sou no terceiro círculo onde chove a/eterna chuva, fria e nunca leve;/sem regra ou ou qualidade nunca nova.

Grosso granizo, água suja e neve,/pelo ar tenebroso se dispersa;/fede a terra que dentro em si a teve.”

No 3º círculo estão os Gulosos guardados pelo mitológico Cerbero: a fera que é cruel, diversa/com três gorjas caninamente ladra/sobre a gente que ali está submersa. e que foi morto por Hércules.

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Divine Comédie de Dante. L'Enfer avec un commentaire de Fra Guido de Pise Dante et Virgile devant Cerbère. Les Gourmands étendus à terre. Démon portant un sac vers 1328-1330 iluminura sobre pergaminho 33x24,5 cm., musée Condé Chantilly France

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William Blake (1757–1827), Cerberus 1824-7, lápis, pena , tinta e aguarela s/ papel, 37,2 x 52,8 cm. The Tate Gallery London

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Gustave Doré (1832-1883) L’ Enfer de Dante Alighieri avec les Dessins de Gustav Doré, traduction française de Pier-Angelo Fiorentino, accompagné du texte italien, Paris, Librairie de L. Hachette et Cª, Boulevard de Saint-Germain, n. 77, MDCCCLXVIII – BNF

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Vaso representando Héraclès amenant Cerbère à Eurysthée. Hydrie (vers 525 avant J.-C.) encontrado em Cerveteri. Musée du Louvre, Paris.

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Hans Sebald Beham (1500 -1550)HERCULES CERBERUM TRICIPITEM AD SUPEROS PERTRAXIT A Captura de Cerbero por Hércules - gravura em cobre 52 x 77 mm; folha: 54 x 89 mm  in  Os Trabalhos de Hércules 1545 Herzog Anton Ulrich-Museum

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Peter Paul Rubens, Hercules and Cerberus c. 1636 28 cm x 31,6 cm Museu do Prado Madrid

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François Verdier (1651-1730) Hercule et  Cerbère  (título inventado) 1690 sanguínea e giz sobre papel beige, 7. X 40,6.cm. École Nationale Supérieure de Beaux-Arts de Paris

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Salvador Dali Cerberus La Divina commedia. Illustrated by Salvador Dalí. 3 vols. in 6. Rome and Florence: Arti e scienze and Salani, April 1963 – May 1964

Camões em Os Lusíadas, Canto IV estrofe XLI, refere Cerbero:

Muitos também do vulgo vil nome/vão, e também dos nobre, ao Profundo/ Onde o Trifauce Cão perpétua fome/ Tem das almas que passam deste mundo.

Canto VII

No 4º círculo os Avarentos e os Pródigos são guardados por Plutão e são condenados a empurrar com o peito grandes pesos que simbolizam as riquezas mal ganhas ou mal gastas.

che tutto l’oro ch' e sotto la Luna,/ o che giafu, di quest' anime stanche/non poterebbe farne posar una.

que sob a lua o oiro se reúna,/quando é e foi, e às almas lassas nem/a uma dê sossego e a todas puna” d52

Divine Comédie de Dante. L'Enfer avec un commentaire de Fra Guido de Pise Les Avares et les prodigues roulant des pierres vers 1328-1330, Sec. XIV iluminura sobre pergaminho pag. 33 x 24,5 cm., musée Condé Chantillyd53

Federico Zuccaro (vers 1540-1609) Prodighi et Avari - pierre noire, sanguine, 28,6 x 43,4cm. Paris, musée du Louvre

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Gustave Doré (1832-1883) L’ Enfer de Dante Alighieri avec les Dessins de Gustav Doré, traduction française de Pier-Angelo Fiorentino, accompagné du texte italien, Paris, Librairie de L. Hachette et Cª, Boulevard de Saint-Germain, n. 77, MDCCCLXVIII – BNF

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Salvador Dali - La Divina commedia. Illustrated by Salvador Dalí. 3 vols. in 6. Rome and Florence: Arti e scienze and Salani, April 1963 – May 1964

Canto VIII

No 5º círculo onde se encontram os Iracundos, os Rancorosos e os Melancólicos, entra-se na cidade amuralhada de Dite, atravessando o Estíge, com a barca de Flégias, demónio cornudo e alado.

Para atravessar o pântano os dois Poetas apanham o barco do demónio Flégias, que os deixa às portas da cidade de Dite. Essa cidade com muralhas de fogo representa o início dos círculos mais profundos do Inferno, onde as culpas e as punições são cada vez mais fortes.

Flégias para se vingar de Apolo incendiou o Templo de Apolo em Delfos, tornando-se o símbolo da cólera e da vingança.

“Flégias, Flégias, teu vão grito se esgote”/lhe disse meu senhor: “Por esta vez:/só a lama passar te somos lote.”

Quantos por reis a vida lá deleita,/mas, porcos na pocilga aqui, por pago,/deixam desprezo horrível que os enjeita!” Canto VIII 49-51

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Divine Comédie de Dante. L'Enfer avec un commentaire de Fra Guido de Pise Phlegyas traversant Styx. La cité de Dis avec une tour enluminée vers 1328-1330, iluminura sobre pergaminho pag. 33 x 24,5 cm. , musée Condé Chantilly

Camões faz uma referência ao Estige no Canto IV, estrofe XL,

A muitos mandam ver o Estígio Lago,/Em cujo corpo a morte e o ferro entrava

O Dante e Virgílio ou la Barque de Dante de Eugène Delacroix

O« Dante et Virgile » é o início da carreira de Eugène Delacroix no Salon de 1822, marcando o início do Romantismo.

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Eugène DELACROIX (1798-1863) Dante e Virgílio ou A Barca do Inferno 1822 Inferno - Canto VIII (vs 19-27) óleo sobre tela 189 x 241.5 cm Musée du Louvre

Delacroix pinta Dante com Virgílio de pé na barca. Os supliciados no Estige tentando alcançar a barca de Flégias. Ao fundo as muralhas de Dite. Toda a composição sugere a instabilidade da barca.

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Na barca, atravessando o Estige a caminho da cidade de Dite, vemos Dante, com o seu barrete vermelho, Virgílio com a coroa de louros e Flégias o barqueiro.

Virgílio, tranquilo, segura a mão de Dante, que atemorizado, se desequilibra e atemorizado protege-se com o braço direito. Flégias está de costas, uma maneira encontrada por Delacroix de não lhe atribuir um rosto.

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Eugène Delacroix (1798-1863) Têtes de Dante et de Virgile Etude pour "La Barque de Dante"  1822 crayon noir, estompe, fusain, lavis bistre, rehauts de blanc 20,4 x 30,77 cm., musée du Louvre Paris

À esquerda, no primeiro plano, uma figura masculina, de olhos exorbitados e o rosto deformado pelo medo, agarra-se ao barco com os dentes. d57c

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Eugène Delacroix (1798-1863) Etude pour le damné mordant la barque dans La barque de Dante encre brune ; crayon noir ; estompe ; mine de plomb ; plume 26 x 34cm. musée du Louvre

Uma « alma » flutua de costas.

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Eugène Delacroix (1798-1863) Etude d'homme nu renversé en arrière; étude pour le damné de gauche de "La Barque de Dante" (c.1822) crayon noir, papier brun, rehauts de blanc, 23,7 x 28,5 cm. , musée du Louvre,Paris

Ao centro uma outra figura masculina tenta subir a bordo, apoiando-se no ventre de uma figura feminina que se agarra de costas à barca.d57f

Ao fundo de frente para o espectador uma outra figura, tenta também subir a bordo sendo reprimida por Flégias.

E eu então : « Com choros e com luto,/maldito espírito, aqui de ficares tens ;/Que eu te conheço, mesmo não enxuto. »

E então prendeu ao lenho as mãos reféns ;/E o mestre avisado o empurrou,/dizendo : « Embora ali cos outros cães. »

Ao fundo vê-se os contornos da cidade em chamas de Dite.

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Disse o bom mestre: “Filho. à tua frente,/a cidade de Dite é a que fitas,/com grandes bandos e gravosa gente”

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Eugène Delacroix (1798-1863) Murailles et tours environnées de flammes ; la ville infernale de Dité en flammes aguarela 13,9 x 19cm. Paris, musée du Louvre

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Joachim Patenier(Patinir) Atravessando o Estige 1515-1524   óleo  sobre madeira 64 x 103 cm. Museu do Prado Madrid

Ao centro Flégias conduzindo o barco e transportando uma alma.

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Na margem à direita a cidade de Dite com o cão Cerbero.

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Na margem à esquerda um Anjo guarda a entrada do Paraíso.

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O Paraíso é uma cidade fantástica com uma arquitectura de cristal.Patinir pinta uma linha de horizonte muito alta de modo a realizar as sua fantásticas paisagens.
Os fundos são pintados com uma cor azulada e esverdeada, criando uma profundidade pela utilização de tons cada vez mais claros. Esta técnica foi denominada de perspectiva atmosférica, e foi virtuosamente dominada por Joachim Patinir e será utilizada por muitos pintores ao longo do século XVI.

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Gérard Garouste (1946) Phlegyas, Dante et Virgile 1986 verniz   2,00 x 2,35 m. Paris, musée national d'Art moderne - Centre Georges Pompidou

CONTINUA

3 comentários:

  1. Sou estudante de ARTES e fico a pesquisar esse magnifico período do final do século XIII até o fim do século XIX, onde encontramos Giotto, Dante,Miguel Ângelo, Willian Blake, Delacroix e Gustave Doré e muito outro que se for falar leva muito tempo.

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  2. Belo trabalho! Mostra bem a sensibilidade artística do mantenedor deste blog.
    O percurso visual pelo Paraíso está sendo elaborado?
    Aproveito a ocasião para divulgar o blog que mantenho, complementar a este:
    http://curtindoacomedia.blogspot.com.br/2009_09_01_archive.html

    Domingos van Erven (de Curitiba, capital do Estado do Paraná, Brasil)

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    1. Caro Domingos: obrigado pelo comentario!Já espreitei o seu blog, que verei com mais atenção. De facto tenho andado ocupado com muitos outros assuntos e tenho adiado a conclusão do Percurso Visual. RF

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