Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 23 de junho de 2011

Um percurso visual pela Divina Comédia 4

 

O Purgatório

A forma do Purgatório

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Dante Alighieri, La divina commedia. Padova, 1822

Se o Inferno é uma descida helicoidal ao centro da Terra, o Purgatório é uma ascensão também helicoidal até aos céus.

Dante e Virgílio chegam a uma ilha onde se encontra a montanha do Purgatório.

O Purgatório tem um primeiro patamar o Ante Purgatório e é composto por sete patamares. No Purgatório as almas chegam cantando  "In exitu Israël de Aegypto" e v~~ao sendo entoadas diversas melodias. À medida que vão expiando os seus pecados os penitentes vão subindo por patamares at´à entrada do Paraíso.

O Purgatório está dividido em sete  patamares ou níveis, sendo que  em cada um deles se castiga cada um dos sete pecados.

No primeiro o Orgulho (Superbia), onde os pecadores são punidos, com terem de transportar grandes pesos.

No segundo a Inveja (Invidia) , punida com os olhos cosidos por arames.

No terceiro o da Cólera (Ira) onde os penitentes estão envoltos em fumo.

No quarto a Preguiça  (Acedia) onde os penitentes são obrigados a correr constantemente.

No quinto, a Avareza  (Avaritia) entre os quais o Papa Adriano V  e o rei Hugo Capeto.

No sexto expia o pecado da Gula (Gula) onde os pecadores não podem comer nem beber os alimentos que se lhes apresentam.

no sétimo os pecadores da Luxúria  (Luxuri)a onde são consumidos pelo fogo.

No Purgatório Dante encontra ou refere personagens mitológicas, personagens suas contemporâneas, mas aparecem agora figuras e episódios da Bíblia.

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Jeronimus Bosch (c. 1450-1516)  Os sete Pecados Mortais 1475-1480? Detalhe  óleo s/madeira Museu do Prado Madrid

canto I

Buscando águas melhores iça as velas/a navicela deste meu engenho/que deixa atrás de si cruéis procelas;

e do segundo reino cantar venho/em que a alma humana purga e se habilite/por digna de ir ao céu no seu empenho.

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Priamo della QuerciaPurg.1: historiated initial showing Dante and Virgil in a bark 1444-1452 Yates Thompson 36. the British Library.

Calíope

Dante evoca Calíope, a musa da poesia:

A morta poesia ressuscite,/ó santas Musas, sendo eu vosso, e então,/ já surgindo Calíope, palpite

aquele som seguindo-me a canção,/que fez as Pegas míseras sentir o/golpe desesperá-las do perdão.

Também Camões, em Os Lusíadas (Canto III estrofe 1  e 2 ), evoca Calíope.

Agora tu, Calíope, me ensina/ O que contou ao Rei o ilustre Gama: /Inspira imortal canto e voz divina /Neste peito mortal, que tanto te ama.

Assim o claro inventor da Medicina,/ De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,/ Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe, /Te negue o amor devido, como soe.

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Giovanni Baglione (Roma, 1566 — Roma, 30 de dezembro de 1643) Calliope, óleo sobre tela 195 x 150 cm. Musée des Beaux-Arts, Arras France

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Eustache Le Sueur (1616-1655) Calliope 116 x 74 cm. musée du Louvre

Depois da referência a Caliope, Dante saído das trevas do Inferno contempla o cáu onde brilham 4 estrelas, simbolizando as quatro virtudes cardeais.

Aí aparece Catão, (Marco Pórcio Catão, 234-149 a.C.), que se suicidou para escapar à tirania de César.

O sabes tu, que não te foi amara/disso a morte em Utica, onde deixaste/a veste que ao grão dia será clara

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Doré, Gustave Dante kneeling before Cato c.1868  The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?]. Nesta gravura Doré colocou uma sombra em Virgílio, quando as almas não a tem.

Catão tornar-se-á o símbolo da luta contra os tiranos e pela liberdade, e por isso tema das artes plásticas e da literatura dos séculos XVIII e XIX.

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Guillaume Guillon Lethière (1760–1832) The Death of Cato of Utica, 1795, Marcus Porcius Cato Uticensis (95 BC–46 BC), Hermitage Museum Saint Petersburg, Russia

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Pierre-Narcisse Guérin (1774–1833) : La Mort de Caton d’Utique (1797) on canvas, H 113 x L 145  Grand Prix de Rome  Ecole nationale supérieure des Beaux-arts, Paris

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Louis-André-Gabriel Bouchet (1759-1842) La Mort de Caton d'Utique 1797 óleo sobre tela  114 x 144.5 cm. Grand Prix de Rome École Nationale Supérieure des Beaux-Arts Paris France

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Philippe Laurent Roland (1746-1816) La Mort de Caton d’ Utique c.1782 maquette em terra cota 22 x 27 x 13 cm. musée du Louvre

Em Portugal

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José Veloso Salgado Morte de Catão  1888 Óleo s/ tela 99 x 134 cm. Museu do Chiado – MNAC

Almeida Garrett, (1799-1854) escreve uma peça de teatro intitulada  Catão dedicada à cidade do Porto.

(Catão, tragédia. Coimbra, 1822 e Londres 1830)

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-Este abraço de morte inda é romano,
Estas mãos que te appertam não tem ferros !
Meu filho, adeus ! Sê virtuoso sempre.
Não podes ser Romano,—mas sê homem.
Roma acabou-se,—resta-te a virtude.
Já não tens pátria,—mas tens honra ainda.

(Catão Acto V Scena IX)

canto II

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Na praia do Purgatório Dante e Virgílio vem chegar uma barca conduzida por um anjo que transporta as almas que vinham cantando.

À popa vinha o angélico barqueiro,/e parecia beático ter inscrito;/de espíritos mais de um cento viajeiro

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Doré, Gustave  Dante kneeling before celestial helmsman. c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

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Salvador Dali  The Ship Of Souls La Divina commedia. Illustrated by Salvador Dalí. 3 vols. in 6. Rome and Florence: Arti e scienze and Salani, April 1963 – May 1964

No Purgatório de Dante diversas personagens entoam cânticos:

As almas transportadas na barca cantam o salmo 114.1 In exitu Israel de Aegypto (Quando Israel saiu do Egito):

“In exitu Israel de Aegypto”/cantavam todos juntos a uma voz/com quanto mais do salmo inda escrito.

Gil Vicente (1465? — 1536?) também escolhe a barca, como tema central do seu Auto da Barca do Purgatório de 1518

Anjos

Remando vão remadores
Barca de grande alegria,
O patrão que a guiava,
Filho de Deus se dizia;
Anjos eram os remeiros,
Que remavam a porfia.
Estandarte da esperança,
O quão bem que parecia!
O mastro da fortaleza,
Como cristal reluzia:
A vela, com fé cosida,
Todo o mundo esclarecia;
A ribeira mui serena,
Que nenhum vento bulia.

 O Auto da Barca do Purgatório faz parte de uma trilogia de autos das barcas de que o mais conhecido é o primeiro, o Auto da Barca do Inferno de 1517 e o Auto da Barca da Glória de 1519

ANJO Que quereis?
FIDALGO Que me digais,
pois parti tão sem aviso,
se a barca do Paraíso
é esta em que navegais.
ANJO Esta é; que demandais?
FIDALGO Que me deixeis embarcar.
Sou fidalgo de solar,
é bem que me recolhais.
ANJO Não se embarca tirania
neste batel divinal.
(Auto da Barca do Inferno)

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Francisco Vieira de Matos [Vieira Lusitano] A Barca de Caronte (?) 1722-1729 Sanguínea s/ cartão 24 cm x 33 cm. Museu de Grão Vasco

canto III

No ante Purgatório estão as almas dos indolentes, que demoraram a arrepender-se.

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Salvador Dali The Indolent Ones La Divina commedia. Illustrated by Salvador Dalí. 3 vols. in 6. Rome and Florence: Arti e scienze and Salani, April 1963 – May 1964

canto IV

Ainda no ante Purgatorio Dante e Virgílio iniciam a subida ao 1º patamar.

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Dante encontra um amigo polémico, o florentino Belacqua.

canto V

Ainda no ante Purgatório, no segundo patamar, as almas por morte violenta cantam o salmo 50:

E entanto pela costa no transverso,/gente ia à nossa frente mais um pouco,/cantando “Miserere” verso a verso.

Depois de algumas almas se apresentarem a Dante e a Virgílio avizinha-se Buonconte de Montefeltro, contemporâneo de Dante, gibelino e morto na batalha de Campaldino em 1289.

Eu fui de Montefeltro, eu sou Bonconte:/Giovanna e os mais de mim não fazem cura;/e disso entre estes vou com baixa fronte,”

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Doré, Gustave Buonconte on the shores of the Archiano streamc.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

AII80243 The Death of Federigo da Montefeltro, Duke of Urbino (1422-82) by Smargiassi, Gabriele (1798-1882)
oil on canvas
Galleria d'Arte Moderna, Florence, Italy
Italian, out of copyright

Gabriele Smargiassi (1798-1882)a morte de Buonconte de Montefeltro Modern Art Gallery, Pitti Palace, Florence

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Johann Heinrich Fuseli (1741-1825) Buonconte da Montefeltro 
desenho à pena e aguarela 1744  Kunsthaus Zurique

E finalmente Pia de Tolomei, mandada assassinar pelo marido, em 1297 para casar com outra.

“recorda-te de mim que sou a Pia:/Siena me fez; desfez-me então Maremma:/o sabe o que antes anilhada havia

de desposar-me, com a sua gema.”

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Doré, Gustave LaPia c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

Pia de Tolomei, tornou-se uma personagem do Romantismo e do Pré-rafaelismo do século XIX, na arte e na música.

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Dante Gabriel Rossetti (1828–1882)Pia de Tolomei 1868-1880  óleo sobre tela 120,6 x 104,8 cm Spencer Museum of Art, University of Kansas, Lawrence, KS, USA

Na música Gaetano Donizetti (1797-1848), estreou em  1837 no Teatro Apollo de Veneza Pia de' Tolomei, uma tragédia lírica em dois actos.

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A capa do disco é um detalhe, aliás invertido, da  pintura Pia de Tolomei de cerca de 1867 do pintor Stefano Ussi (1822–1901). p46

canto VI

Ainda no ante Purgatório Dante e Virgílio encontram os que morreram pela violência. Entre eles Sordello poeta de Mântua, que os guiará neste patamar.

Mas vê aquela alma que está posta/só e sozinha e a olhar-nos se atarda:/da via breve nos dará resposta.”

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Salvador Dali The Dead By Violence La Divina commedia. Illustrated by Salvador Dalí. 3 vols. in 6. Rome and Florence: Arti e scienze and Salani, April 1963 – May 1964

canto VII

Sordello da Goito (c. 1200/10-1269)  conduz Dante e Virgílio por ameno um vale florido onde se ouve o cântico “Salve Regina”

“Salve Regina”, lá no verde e flores,/assentadas cantando almas vi;/fora do vale escondem-se os cantores.

Depois que em leda saudação aos dois/por três ou quatro vezes ele exulta, /já Sordello recua e diz:”Quem sois?”

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Doré, Gustave Sordello bowing before Virgilc. 1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

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Salvator Dali’ (1904-1989) Sordello da Goito La Divina commedia. Illustrated by Salvador Dalí. 3 vols. in 6. Rome and Florence: Arti e scienze and Salani, April 1963 – May 1964   

canto VIII

Ao por do sol enquanto dois anjos descem do céu, as almas entoam o cântico Te lucis  ante terminum:

“Te lucis ante” tão devotamente/sua voz disse com tão doces notas,/que fez a mim sair de mim em mente;

Os anjos impedem o avanço da serpente, símbolo da tentação.

Naquela parte onde é sem anteparo/esse pequeno vale, era uma bicha,/talvez que a Eva deu o cibo amaro.

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Angels putting the serpent to flight in the Valley of the Rulers. c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

p108

Dante and Virgil's first night in Purgatory : c.1868  The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

O olhar de dante é atraído por três estrelas, representando as três virtudes teologais (Fé, Esperança e Caridade) e que substituem no céu as quatro estrelas matinais que representavam as virtudes cardeais(Prudência, Justiça, Fortaleza e Sabedoria)

fito o céu de olhos ávidos por vê-lo,/lá onde alguma estrela mais retarde,/qual junto ao eixo a roda está a fazê-lo.

E meu guia:”O que vês que o céu lá guarde?”/e eu a ele:”Essas três tochas belas,/das quais o pólo todo aqui arde.

canto IX

A concubina de Titono antigo/já se branqueava ao balcão de oriente/fora dos braços do seu doce amigo;

A concubina de Titono (Titão) é Aurora a deusa dos dedos rosa que abrem as portas do céu ao carro do sol (Apolo). Titão o seu amante, sem a eterna juventude envelheceu sendo transformado em cigarra.

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Gérard de Lairesse (1641-1711) Apollon et Aurore séc. XVII óleo sobre tela 2,040 x  1,93 m. The Metropolitan Museum of Art, NY

p122

Cândido Costa Pinto (1912-1976) Aurora Hiante 1942 óleo sobre cartão  56,5 x 42,5 cm. Museu do Chiado – MNAC

p124

Marc Chagall  (1887-1985) L'Aurore, hymne au soleil  1966/67 (projecto para cenário da Flauta Mágica de Mozart) aguarela, lápis, tinta, guache, papel dourado, 55,2 x 74,2 cm.  musée national d'Art moderne - Centre Georges Pompidou

O sonho de Dante

Dante adormece e sonha ser transportado por uma águia para o monte Ida, onde Ganimedes foi raptado por Jupiter, precisamente sob a forma de águia.

em sonhos pareceu-me ver que acesa/pendia águia do céu com penas de ouro,/de asas abertas e a baixar retesa;

e pareceu-me estar naquele foro/lá onde os seus deixara Ganimede/por ter sido raptado ao sumo coro.

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Gustave Doré, Dream of the eagle c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

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Dali The DreamLa Divina commedia. Illustrated by Salvador Dalí. 3 vols. in 6. Rome and Florence: Arti e scienze and Salani, April 1963 – May 1964

Ganímede, príncipe de Troia foi raptado por Júpiter, sob a forma de águia, seduzido pela sua beleza. No Olimpo torna-se o escanção dos deuses. O mito relatado por Homero e Ovídio, foi objecto de diversas interpretações na pintura  e na escultura.

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Giulio Romano (c. 1499 -1546) Enlèvement de Ganymède sec. 16 tinta e lavis castanho, pedra negra 20,5 x 16 cm. musée du Louvre,Paris

p68

Peter Paul Rubens (1577 - 1640) Ganymede, 1611/12 óleo s/tela 2,07 x 2,07 m. Fürstlich Schwarzenberg'sche Kunststiftung, Vaduz Liechtenstein Museum Viena

p63

Eustache Le Sueur (1616-1655) Ganymède enlevé par Jupiter  c. 1644 séc.  óleo sobre tela 1,270 x 1,08 m. musée du Louvre Paris

p65

Rembrandt Harmensz van Rijn (1606-1669) L'enlèvement de Ganymède 1635 óleo sobre tela 1,71 x 1,323 m.  Gemäldegalerie Alte Meister, Staatliche Dresden Alemanha

p66

Gustave Moreau (1826-1898) Ganymède 1854 óleo sobre madeira 35 x 28 cm. musée Gustave Moreau Paris

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Hans Arp (1886-1966) Ganymède 1954 gesso 21 x 33 x 26 cm. fondation Arp Clamart, France

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O Occidente n.º 820 de Outubro de 1901 A escultura de António Fernandes de Sá obteve uma menção honrosa no Salon de Paris em 1898 e uma medalha de bronze na Exposição Universal de 1900.

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António Fernandes de Sá (1874-1959) Rapto de Ganimedes 1898 gesso  149 x 190 x 90 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis

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António Fernandes de Sá  (1874-1959) Rapto de Ganímedes 1910, Porto Portugal

A porta do Purgatório

Aproximando, éramos na parte,/que lá onde antes roto parecia/o muro, ou com tal fenda que o reparte,

vi que uma porta e três degraus havia/de cor diversa, sendo o acesso aí,/e um porteiro que nada lá dizia.

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Doré, Gustave Angel of the Church before the Door of Purgatory c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

Devoto me lancei aos santos pés;/pedi misericórdia e que me abrisse,/mas antes em meu peito bati três

vezes.E como sete P sentisse/marcar-me a fonte a espada,”Depois laves,/sendo lá dentro, as chagas”, ele disse.

O Anjo da Porta com a espada desenha na testa de Dante sete “P” os sete pecados capitais, que serão expiados nos sete níveis do Purgatório.

O Anjo com as chaves de S. Pedro, uma de ouro e outra de prata introduz Dante e Virgílio no mundo das penitências.

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Anónimo italiano A entrada no Purgatório século XIV miniatura

Ao entrar no Purgatório Dante e Virgílio escutam o Te Deum laudamos

Voltei-me a escutar aquele trom,/e “Te Deum laudamos” se diria/ouvir em voz conjunta ao doce som.

canto X

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Dante e Virgílio passada a porta do Purgatório estão no primeiro patamar do Orgulho (Superbia), onde os pecadores são punidos, tendo de transportar grandes pesos. Seguem primeiro por um caminho estreito escavado na rocha, em cuja parede de mármore branco, estão belíssimos alto-relevos que representam exemplos de humildade: a Anunciação à Virgem, o rei David dançando à frente da Arca e o imperador Trajano ouvindo as súplicas da viúva.

e ser de mármore alvo e tal adorno/de entalhes, que à natura e a Policleto/teria despeitado o seu contorno.

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Federico Zuccari, Purgatorio, 1586-88, disegno, Gabinetto disegni e Stampe, Galleria degli Uffizi, Firenze

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William Blake The Rock Sculptured with the Recovery of the Ark and the Annunciation lápis, pena e tinta, aguarela sobre papel
52,8 x 37,4 cm. Tate Gallery Londres
 

A Anunciação à Virgem

Jurado se teria dissesse “Avé!”/porque ali era imaginada aquela/que a abrir o alto amor rodou a chave;

e no seu gesto impresso se revela/”Ecce ancilla Dei”, propriamente/como figura em cera se modela.

Na Bíblia Sagrada Lucas 1, 26-48:

Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo

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Simone Martini  (1284-1344) l'Annunciazione, 1333 têmpera sobre madeira 265 x 305 cm., Galleria degli Uffizi, Firenze

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Salvador Dali  Our Lady of the Annunciation La Divina commedia. Illustrated by Salvador Dalí. 3 vols. in 6. Rome and Florence: Arti e scienze and Salani, April 1963 – May 1964

O rei David dança junto à Arca

E na pedra talhada reconheço/o carro e os bois trazendo essa arca santa/porque o encargo se teme não expresso.

Diante havia gente;e se levanta/em sete coros tais que a meus dois sensos/um faz dizer que “Não”, o outro “Sim,canta”.

…….

Em face, a esfígie, posta numa vista/do grão palácio, Micol contemplava,/qual dama despeitosa se contrista.

Na Bíblia Sagrada o episódio da  Trasladação da Arca para Je­ru­salém:

 13 E a cada seis passos que davam os que transportavam a Arca do Senhor, sacrificavam um boi e um carneiro.14 David, cingindo a insígnia votiva de linho, dançava com todas as suas forças diante do Senhor. 15 O rei e todos os israelitas conduziram a Arca do Senhor, sol­tando gritos de ale­gria e tocando trombetas. 16 Ao en­trar a Arca do Senhor na Cidade de David, Mical, filha de Saul, olhou pela ja­nela e viu o rei a saltar e a dançar diante do Senhor; e sentiu por ele des­prezo em seu coração. 17 Introduziram a Arca do Senhor e coloca­ram-na no seu lugar, no centro do taberná­culo que David construíra para ela; e Da­vid ofereceu holocaustos e sacrifí­cios de comunhão diante do Se­nhor. 18 Quando David acabou de ofe­re­cer holocaustos e sacrifícios de co­mu­nhão, abençoou o povo em nome do Senhor do universo 19 e distri­buiu ali­­mentos a toda a multidão dos israe­litas, homens e mulheres, dan­do a cada pessoa, um bolo, um pe­daço de carne assada e uma filhó. Depois, toda a multidão se retirou, indo cada um para a sua casa. 20 Voltando David para abençoar a sua família, Mical, filha de Saul, saiu ao seu encontro e disse-lhe: «Que bela figura fez hoje o rei de Israel, dando-se em espectáculo às servas de seus vassalos, e descobrindo-se sem pudor, como qualquer homem do povo!» Mas David respondeu: 21«Foi diante do Senhor que dancei, do Senhor que me escolheu e me preferiu a teu pai e a toda a tua família, para me fazer chefe do seu povo de Israel. 22 E bai­larei ainda mais, e me desonrarei aos meus próprios olhos, mas serei hon­rado pelas servas de que falaste.» 23 E Mical, filha de Saul, não teve mais fi­lhos em todo o tempo que ainda viveu.

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Francesco Salviati,  (1510–1563) o rei David dança junto à Arca 1552-1554 fresco Palazzo Sacchetti.

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Marc Chagall  (1887-1985) o rei David transportando a Arca para Jerusalém  1957 Haggerty Museum  of Art at Marquette University Wisconsin USA

O imperador Trajano que faz justiça a uma viúva

eu digo de Trajano imperador;/e uma pobre viúva lhe era ao freio,/toda lavada em lágrimas e dor.

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  Doré, Gustave   Bas relief of Emperor Trajan and poor widow c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

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Trajano e a Viúva  c. 1475/1500, têmoera sobre madeira 34 x 31,5 cm.  National Gallery Londres

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Ludovico Cardi (Cigoli) Viúva diante do Imperador Trajano Século XVI – XVII  Pena a tinta sépia e sanguínea 18,6 x 15,1 cm Museu Nacional de Arte Antiga Lisboa Portugal

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Eugène Delacroix, 1798-1863 la justice de Trajan 1840 óleo sobre tela 396 cm x 495 cm musée de Rouen

Repare-se como a composição a partir da diagonal do canto inferior esquerdo para o canto superior direito acentua o dinamismo e dramatismo da cena,

Sobre este quadro escreveu o seu amigo Baudelaire: " La justice de Trajan est un tableau si prodigieusement lumineux, si aéré, si rempli de tumulte et de pompe ! L’empereur est si beau, la foule, tortillée autour des colonnes ou circulant avec le cortège, si tumultueuse, la veuve éplorée, si dramatique ! "
Charles Baudelaire, Curiosités esthétiques, Exposition universelle de 1855.

canto XI

No primeiro patamar estão as almas acusadas de Soberba curvadas com o peso de enormes pedras que constitui a sua penitência. Dante comenta a fama de dois pintores seus contemporâneos e conterrâneos, Cimabue (c.1240 – 1302) e Giotto (1266-1337) como exemplo da efêmera fama.

Oh, vã glória de tanta humana posse!/Acreditou Cimabue na pintura/ser primeiro, e Giotto o há vencido,/tanto que a fama se lhe torna obscura:

Lembre-se Camões que em Os Lusíadas (Canto IV estância XCV), e noutro contexto, põe na boca do Velho do Restelo:

- “Ó glória de mandar, ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos fama!

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Priamo della Quercia Dante's dream of the eagle; Door of Purgatory; Punishment of the Proud 1444-1452 Yates Thompson 36. The British Library.

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Doré, Gustave Dante among the Proud c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

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Fiona Hall (1953– ) Purgatory, Canto XI: The proud, from the series Illustrations to Dante's Divine Comedy 1988 fotografia Polaroid 52.7 x 61.0 cm.

Dante refere ainda como exemplo da fama efêmera Provenzan Salvani (c. 1220-1269), general chefe dos gibelinos de Siena, que com as suas vitórias pretendeu tornar-se senhor de Siena. Capturado pelos florentinos na batalha de Colle, foi decapitado.

Do que ante mim lá vai com pouco auxílio/atroou Toscana inteira tal conduta,/e a Siena mal lembra neste exílio,….

“De Provenzan Salvani”, retorquiu;/”e ele está aqui porque apanhar forçosa/Siena em suas mãos já presumiu.

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Giovanni Villani (c. 1276 - 1348) miniatura do séc. XIV Biblioteca Chigiana Roma

canto XII

Dante evoca um conjunto de pecadores bíblicos e mitológicos, punidos pela sua soberba.

Os gigantes que pretendem lutar contra Zeus e são vencidos:

Via Timbreu, vi Palas e vi Marte,/inda em armas co pai, a ver o ror/de membros que aos gigantes se reparte.

Timbreu (Apolo) que venceu o gigante Elfiate, Atenas que venceu o gigante Palas de cuja pele fez uma armadura tomando o nome de Palas-Atenas, e Marte.

Nemrod o criador da Torre de Babel (cf. neste blogue Inferno canto XXXI)

Via Nemrod, ao pé do grão lavor/em desvario e a fitar as gentes/soberbas que em Sennar se lhe hão-de opor.

Niobe,

Ovídio, nas Metamorfoses conta que Niobe mãe de sete filhos e sete filhas, insultou Leto (ou Latona) a mãe de Apolo e Diana (Artemisa), por esta apenas ter gerado dois filhos. Estes para vingar a mãe, mataram todos os filhos de Niobe.

Ó Niobe, com que olhos tão dolentes/te via a imagem, a chorar, na estrada/teus sete e sete mortos inocentes!

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Abraham Bloemaert (1566-1651) A morte dos filhos de Niobe 1591 óleo sobre tela 204 x 249,5 cm. Statens Museum fur Kunst, Copenhagen

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Anicet-Charles-Gabriel Lemonnier (1743-1824) Apolo e Diana atacando Niobe e os seus filhos 1772 óleo sobre tela 141 x 112 cm Museu de Rouen

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atribuído a Bernard Van Orley (1488-1541), O Templo de Latona, pormenor de Niobe 1525-1530 tapeçaria de lã e seda 430 x 390 cm. Museu de Lamego

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Polidoro Caldara, dito Polidoro da Caravaggio (c. 1499 – 1543) Apolo e Diana matando os filhos de Niobe século XVI colado sobre cartão 18,9 x 26,9 cm. Museu Nacional de Arte Antiga

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Polidoro Caldara  Apollon et Diane lançant leurs flèches sur les enfants de Niobé  pena e tinta castanha, lavis, pedra negra papel beije 21,6 x 41,6 cm. museu do Louvre

Saul

Ó Saul, como sobre a própria espada/aqui surgias morto em Gelboé,/que mais não teve chuva nem geada!

Saul, que vencido em Gelboé se suicidou com a própria espada, como relata a Bíblia:

Então, disse Saul ao seu pajem de armas: Arranca a tua espada e atravessa-me com ela, para que, porventura, não venham estes incircuncisos, e me atravessem, e escarneçam de mim. Porém o seu pajem de armas não quis, porque temia muito; então, Saul tomou a espada e se lançou sobre ela. (I Samuel 31:4)

p56

Elie Marcuse (1817-1902) A Morte de Saul 1848 óleo sobre tela  277 x 230,4 cm. Tel Aviv Museum of Art

p60

Marc Chagall (1887-1985) King Saul Falling on his Sword 1931 gravura 35,3 x 25,2 cm MOMA

Aracne, segundo Ovídio foi a tecedeira que pela sua soberba foi transformada em aranha por Minerva.

Ó louca Aracne, assim te via até/que meia aranha, triste se espedace/a obra que a teu mal já feita é!

p22

Gustave Doré  Arachne c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

p23

René Antoine Houasse  (1645-1710) Minerve chasse la tisserante Arachné qui avait osé rivaliser en broderie avec elle, et la métamorphose en araignée c. 1688 óleo sobre tela 1.080 x 1.410 m. Versailles, châteaux de Versailles et de Trianon

p25

Paolo Veronese (1528–1588) Aracne o la Dialettica 1520 fresco Palazzo Ducale Veneza

p114

Dali Arachne La Divina commedia. Illustrated by Salvador Dalí. 3 vols. in 6. Rome and Florence: Arti e scienze and Salani, April 1963 – May 1964

Roboão

Ó Roboão, imagem que ameace,/já não te creio; e cheia de espavento/a leva um carro sem que um outro a cace!

Na Bíblia (1 Reis 12:1-16) é contado o episódio de Roboão, filho de Salomão, que por soberba recusa diminuir os tributos dos Israelitas e repudia os Anciãos que o aconselham a tomar essa medida. Teve por isso de fugir, num carro, de Jerusalém.
p61 
Ambrosius Holbein  (1493/4-1519)  A ira de Roboão 1530 ? pena, aguarela, lavis cinzento e castanho e lápis 22,5 x 38,3 cm. Gabinete de estampas de Öffentliche Kunstsammlung Basileia

Alcméon

Mostrava ainda o duro pavimento/como Alcméon a sua mãe fez caro/pagar desventurado adornamento.

Segundo Estácio (Publius Papinius Statius c. 45 a c.96 d.C.), na Tebaida, Alcméon para vingar o pai Anfiarau que tinha sido traído pela mulher Erifile, matou a mãe, e de seguida enlouqueceu.

Senaqueribe

Mostrava como os filhos, caso raro/matam Senaqueribe no templo, e o/seu corpo ali deixando ao desamparo.

Senaqueribe, rei da Assíria, vencido foi morto pelos filhos. O episódio é narrado na Bíblia (Isaías capítulo 37)

36 Então saiu o anjo do Senhor, e feriu no arraial dos assírios a cento e oitenta e cinco mil; e quando se levantaram pela manhã cedo, eis que todos estes eram corpos mortos. 37 Assim Senaqueribe, rei da Assíria, se retirou, e se foi, e voltou, e habitou em Nínive.38 E sucedeu que, enquanto ele adorava na casa de Nisroque, seu deus, Adrameleb, que e Sarezer, seus filhos, o mataram à espada; e escaparam para a terra de Arará. E Ezar-Hadom, seu filho, reinou em seu lugar.

p73

Peter Paul Rubens (1577- 1640) A queda de Senaqueribe óleo sobre madeira 98 × 123 cm Alte Pinakothek München

p74

Gillis Van  Valckenborch 1570-1622 La défaite de Sennacherib 1597, 1,35 x 2,70 m. musée du Louvre, Paris.

Com o título de The Destruction of Sennacherib, também Byron, (George Gordon (Lord) Byron 1788-1824), escreveu em 1815, o poema: 

The Assyrian came down like the wolf on the fold, /And his cohorts were gleaming in purple and gold; /And the sheen of their spears was like stars on the sea, /When the blue wave rolls nightly on deep Galilee.

Like the leaves of the forest when Summer is green, /That host with their banners at sunset were seen: /Like the leaves of the forest when Autumn hath blown, /That host on the morrow lay withered and strown.

For the Angel of Death spread his wings on the blast, /And breathed in the face of the foe as he passed; /And the eyes of the sleepers waxed deadly and chill, /And their hearts but once heaved, and for ever grew still!

And there lay the steed with his nostril all wide, /But through it there rolled not the breath of his pride; /And the foam of his gasping lay white on the turf, /And cold as the spray of the rock-beating surf.

And there lay the rider distorted and pale, /With the dew on his brow, and the rust on his mail: /And the tents were all silent, the banners alone, /The lances unlifted, the trumpet unblown.

And the widows of Ashur are loud in their wail, /And the idols are broke in the temple of Baal; /And the might of the Gentile, unsmote by the sword, /Hath melted like snow in the glance of the Lord!

Ciro e Tamira

Mostrava a queda e o massacre ímpio/de Ciro, a quem Tamira no delírio/diz “Pedes sangue e dele eu te sacio.”

Heródoto, em Histórias, conta que Ciro, rei da Pérsia (560 a 529 a.C) fez prisioneiro o filho da rainha Tamiris, Spargapise que se suicidou. Ciro foi depois derrotado por Tamiris que, por vingança, procurou entre os mortos na batalha o corpo de Ciro e mergulhou a sua cabeça numa tina de sangue proclamando que o saciará de sangue.

p76

Peter Paul Rubens (1577-1640), Thomiris, Reine des Scythes, fait plonger la tete de Cyrus dans un vase rempli de sang 1620/25  óleo s/tela 263 x 199 cm Louvre, Paris, France

Holofernes

Mostrava que em derrota foge o Assírio/depois que Holofernes se assassina,/e também as relíquias do martírio.

Dante refere-se ao episódio bíblico de Judite, que se insinua junto de Holfernes e o mata para defender Betúlia dos assírios.

 6 Então, avan­çan­do para a cabeceira da cama, junto à qual es­tava a cabeça de Holofer­nes, pegou na sua espada que estava ali pen­du­rada, 7 aproximou-se do leito, agarrou-o pelos cabelos e disse: «Dá-me força, neste dia, ó Senhor, Deus de Israel.» 8 De seguida, golpeou-o no pescoço duas vezes com toda a sua força e cortou-lhe a cabeça; 9 fez rebolar o corpo na cama, retirou o cortinado de dossel das colunas e, passados alguns mo­mentos, saiu e entregou a cabeça de Holofernes à sua serva, 10 que a colo­cou no seu saco de man­timentos. Seguidamente, saíram ambas, co­mo era costume, para fazer oração. Atra­­­­vessaram o campo, deram a vol­ta à colina, subiram a montanha de Be­­tú­­­lia e chegaram às portas da ci­dade.

Em todas as épocas foi um dos temas preferidos dos artistas plásticos.

p80

Domenico Ghirlandaio  (1449-1494) Judith et sa servante 1489 têmpera s/ madeira 44,5 x 31,3 cm. Allemagne, Berlin, Gemäldegalerie (SMPK)

p77

Lucas Cranach the Elder (1472–1553) Judith with the Head of Holofernes c.1530 óleo sobre madeira 89,5 x 61,9 cm. The Metropolitan Museum of Art

p79

Jan Massys, (1509- c. 1575) Judith brandissant la tête d'Holopherne qu'elle vient de décapiter c. 1543 106 x 75 cm. musee du Louvre Paris, France

p81

Artemisia Gentileschi (1597- c.1651) Judite e Holofernes 1625/30 óleo sobre tela 1,62 x 1,26 m. Museo Nazionale di Capodimonte Nápoles Italia

p82  p82a

Francesco Ladetti (Charles François Ladatte, 1706-1787), Judith tenant la tête d'Holopherne 1741 mármore 0.905 x 0.535 x 0.355 m. musée du Louvre

p83

Domingos António Sequeira(1768-1837) Judith et Holopherne desenho à pena, tinta e lavis castanho 36,2 x 25,5 cm. musée du Louvre,

p78a

Gustav Klimt (1862-1918) Judith and the Head of Holofernes 1901 técnica mista 84 × 42 cm Belvedere, Vienna

Troia incendiada

Eu via Tróia, em cinza e ruína;/Ilíon, como tu eras baixa e vil,/vista ali no sinal que te imagina!

p49

Diogo Pereira (act. 1637-1658) O Incêndio de Tróia século XVII óleo s/tela Palácio Nacional da Ajuda

p52

Diogo Pereira (act. 1637-1658) Incêndio de Tróia 1637 –1640 óleo sobre tela 110 x 160 cm Museu de Évora

p51

Diogo Pereira (act. 1637-1658) Incêndio de Tróia  século XVII óleo s/ tela 67,5 x 53 cm. Museu Nacional de Machado de Castro

p50

António Manuel da Fonseca (1796-1890) Eneias salvando seu pai Anquises do incêndio de Tróia 1855-1871 óleo sobre tela 304 x 214 cm.  Palácio Nacional de Mafra

Aparece o anjo da Humildade que convida Dante a subir para o 2º nível, e que tira do poeta o primeiro P. Virgílio explica que todos os P serão cancelados e não mais parará de subir.

p21

Gustave Doré Dante among the Proud c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

canto XIII

p0

p0d

Dante e Virgílio estão no segundo patamar o da Inveja (Invidia) , punida com os olhos cosidos por arames. Avançam guiados pelo sol e ouvem vozes que gritam exemplos de Caridade e simbolizando o preceito evangélico de “amai os vossos inimigos”.

O episódio bíblico de Maria nas núpcias de Caná

A voz  primeira  que passou voando/”Vinum non habent” lá bem alto disse,/e atrás de nós o foi retirando.

Na Bíblia João 2,1-3

1 Três dias depois houve um casamento em Canaã da Galiléia. A mãe de Jesus estava presente.

2 Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento.

3 Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: "Eles não têm mais vinho".

p125

Giotto di Bondone (1267-1337), A Boda de Caná fresco na Capela Scrovegni, Pádua

O episódio mitológico de Orestes e Pílades,

E antes que de todos não se ouvisse,/por se afastar, uma outra “Eu sou Orestes”/passou gritando  sem que mais surgisse.

A história é narrada por Eurípedes (485 a.C – 406 a.C) na sua tragédia Ifigénia em Tauris. Orestes e Píladas são feitos prisioneiros em Tauris e oferecidos em sacrifício a Artemisa. Ifigénia a sacerdotisa do templo e irmã de Orestes propõe libertar um deles para levar uma carta e os dois amigos oferecem-se para o sacrifício para libertar o outro.

p127

Pieter Lastman (ca. 1583-1633) Orestes e Pílades disputando o sacrifício 1614 óleo sobre painel 83 x 126 cm. Rijksmuseum, Amesterdão

Ifigénia em Tauris é ainda, entre outras, uma peça de teatro de Goethe (Johann Wolfgang von Goethe 1749-1832) escrita inicialmente em prosa em 1779/81 e em 1786 em verso.
É na música, o título da ópera composta em 1779 por Gluck (Christoph Willibald Ritter von Gluck (1714- 1787).

Dante prossegue e neste patamar encontra os invejosos vestidos de cinzento e sentados no chão, com os olhos cosidos por arame, enquanto se ouve a Litania Sanctorum (Litania de todos os santos)

Então os olhos inda mais abri:/olhei em frente e vi sombras com mantos/sem que da pedra a cor os diferencie

E um pouco mais à frente ouvia os cantos/já a bradar:”Maria, ora por nós!”;/bradar “Miguel” e “Pedro” e “Todos os santos”.

p97

Gustave Doré Dante and Virgil among the Envious c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

canto XIV

Dante e Virgílio passados os Invejosos, onde se encontram muitos contemporâneos do poeta, ouvem vozes que gritam exemplos de inveja punida. Entre as almas Aglauro que opondo-se ao amor de Mercúrio pela sua irmã Herse, foi por ele transformada em pedra.

“Eu sou Aglauro e em pedra me amordaço”:/e então para abeirar-me do poeta,/à destra dei e não em frente o passo.

p128

Pierre Jean-Baptiste-Marie (1714-1789) Mercúrio apaixonado por Herse , transforma em pedra Aglauro que o que o queria impedir de entrar na casa da irmã. 1763, óleo sobre tela 3,25 x 3,29 m. museu do Louvre Paris

canto XV

O anjo da Misericórdia convida Dante e Virgílio a subir ao terceiro patamar onde estão os Iracundos.

p113

Dali The Angel of Mercy La Divina commedia. Illustrated by Salvador Dalí. 3 vols. in 6. Rome and Florence: Arti e scienze and Salani, April 1963 – May 1964

Dante,em êxtase tem uma visão de Maria e José no templo onde reencontram Jesus, o episódio da Bíblia (Luca II,48)

E ali me pareceu de uma visão/de êxtase repentino ter o efeito,/vendo um templo em que havia multidão;

e uma senhora, no limiar com jeito/doce mãe dizer:”Ó filho meu,/porque é que assim connosco tu tens feito?

Eis , já dolentes, o teu pai e eu/te buscámos”. E como se calasse,/o que antes parecera esvaneceu.

p84

Cristóvão de Figueiredo (? - c.1540) Menino Jesus entre os Doutores 1520/30  Óleo sobre madeira de carvalho 120,5 x 142,5 cm.Museu Nacional de Arte Antiga

p85

Miguel Ângelo Lupi (1826-1883)   Jesus entre os doutores lápis sobre papel 17 x 26 cm. Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea

Dante vê de seguida o episódio (colhido em Plutarco)  da reacção de Pisistrato o tirano de Atenas que recusa à mulher, vingar-se de um rapaz que tinha abraçado a sua filha em público.

ó Pisístrato, vinga-te e ora agride/quem a nossa filha ousou ter abraçado!” /E o senhor, brando e benigno, decide/responder-lhe em tom temperado:/ “Quem mal nos quer que gesto nos inspira,/se quem ama por nós é condenado ?”

 

E finalmente o martírio de Santo Estêvão que reza pelos seus perseguidores.

Depois vi gente acesa em fogo de ira/um jovem lapidar à pedra, e forte/a gritar entre si:”Atira, atira!”

E via-o descair, chegando a morte/com seu peso já, por sobre a terra,/mas de olhos para o céu sempre em transporte,

rogando o alto Senhor, em tanta guerra,/que perdoasse o seu perseguidor,/co aquele aspecto que apiedar descerra.

p31

Gustave Doré Martyrdom of St. Stephen c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

Dante alude ao Acto dos Apóstolos  (7, 57-60) Santo Estêvão é conduzido às portas da cidade e é apedrejado.  

57 Então eles gritaram com grande voz, taparam os ouvidos, e arremeteram unânimes contra ele

58 e, lançando-o fora da cidade o apedrejavam. E as testemunhas depuseram as suas vestes aos pés de um mancebo chamado Saulo.

59 Apedrejavam, pois, a Estêvão que orando, dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.

60 E pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. Tendo dito isto, adormeceu. E Saulo consentia na sua morte.

p30

Iluminura Le Martyre de Saint Etienne  Bibliothèque Nationale de France

p87
Annibale Carracci (1560-1609) O martírio de Santo Estevão 1603/04 óleo sobre tela 41 x 53 cm. Musee du Louvre Paris

canto XVI

p0

p0e

Os dois poetas avançam no terceiro patamar, o da Cólera (Ira) onde os penitentes estão envoltos em fumo. Por entre um fumo denso “esse fumo ali já nos cobria”  e Dante ouve o Agnus Dei.

Vozes que ouvi, cada uma me parecia/rogar por paz e misericórdia/o Cordeiro de Deus que o mal expia.

E eram só Agnus Dei os seus exordia;/uníssono em palavras que soou,/tal que nelas havia só concórdia.

Um penitente aparece, Marco Lombardo que lhe indica o caminho para subir e lhe pede para orar por ele.

“Lombardo fui, e fui chamado Marco:/soube do mundo e nele amei valores/a que ninguém traz já tendido o arco.

p99

Marco Lombardo c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

canto  XVII

Dante vê  exemplos da Ira punida.

Daquela ímpia a quem a forma mudada/foi na ave que a cantar mais se deleita, na imagem me surgiu uma pegada;

Dante refere-se ao episódio contado em as Metamorfoses de Ovídio, onde Progne, mata o seu filho Itys e o oferece despedaçado ao marido Tereu, para se vingar deste ter violado a sua irmã Filomele. Para fugir à vingança de Tereu, foram transformadas respectivamente em rouxinol e andorinha.

p133

Peter Paul Rubens (1577-1640) Tereus  confrontado com a cabeça do seu filho  Itylus 1636-38 óleo sobre tela 195 x 267 cm Museo del Prado, Madrid

Philomèle et Progné é o título e o tema de uma Fábula de la Fontaine (Jean de la Fontaine 1621-1695) no seu 3º livro

E a andorinha (Filomele) aparece no soneto 102 de William Shakespeare

My love is strengthened, though more weak in seeming;
I love not less, though less the show appear;
That love is merchandized, whose rich esteeming,
The owner's tongue doth publish every where.
Our love was new, and then but in the spring,
When I was wont to greet it with my lays;
As Philomel in summer's front doth sing,
And stops his pipe in growth of riper days:
Not that the summer is less pleasant now
Than when her mournful hymns did hush the night,
But that wild music burthens every bough,
And sweets grown common lose their dear delight.
Therefore like her, I sometime hold my tongue:
Because I would not dull you with my song.

Depois choveu nesta alta fantasia/um crucifixo, despeitoso e fero,/na sua vista, e tal já se morria;

estava perto dele o grande Assuero,/a esposa Ester e o justo Mardoqueu,/que em dizer e fazer foi tão sincero.

Dante refere-se ao episódio bíblico (Livro de Ester) da condenação e crucificação de Amã, que queria matar Mardoqueu e os hebreus, entre os quais Ester.

Este episódio deu ainda origem em 1689 a uma peça Esther de Jean Racine (1639-1699)

p88a

Jean-François de Troy (1679-1752) La condamnation d'Aman 1740 óleo sobre tela  3,320 x 4,290 m.  para tapeçaria da História de Ester  musée du Louvre

p89

estilo Giulio Romano Assuero entrega o anel a Mardoqueu - História de Ester 2º quartel do século XVI tapeçaria de  lã e seda 352 x 352 cm. Museu Nacional de Arte Antiga

Dante refere o episódio da Eneida onde Lavínia, noiva de Turnus mas que se apaixona por Eneias. Este vence Turnus e acaba por desposar Lavínia, cuja mãe Amata se enforcou ao saber que Eneias havia matado Turno.

minha visão uma menina acolha/que em prantos diz,”Rainha, quanta indina/ira te fez ousar a morte a escolha?

Por não perder Lavínia te amofina/a morte e me perdeste! E a mim enluta/a tua, ó mãe, mais que a alheia ruína.”

p129

Luca Giordano (1632–1705)  Enea vince Turno, óleo s/ tela, 176 × 236 cm. Galleria Corsini, Florença

O Anjo indica o caminho para o quarto patamar e cancela em Dante outro P da sua testa.

p32

Doré, Gustave Angel of Peace indicating where to ascend c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

(CONTINUA)

1 comentário:

  1. Merci pour ce travail remarquable !
    Obrigado por este trabalho notável !

    Jean Nougier
    France França

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