Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 30 de junho de 2011

Um percurso visual pela Divina Comédia 6

O Purgatório (conclusão)

canto XXV

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Dante chega ao sétimo e último patamar, da Luxúria (Luxuria)onde os penitentes são consumidos pelo fogo.

Virgílio lembra a Dante a história de Meleagro, filho de Eneu e Alteia, que ao nascer as Parcas(Moiras) decretaram que viveria o tempo de um tição. A mãe escondeu o tição mas quando de pois de vencer o gigantesco javali da Caledónia, Meleagro mata os seus tios, Alteia a mãe para vingar os irmãos deita o tição no fogo e Meleagro morre consumido por um fogo interior.

“Se recordasses como Meleagro/ardeu quando um tição ardeu, por isso/não fora”, disse, “o caso a ti tão agro;

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Jean Valdor (1616-1670) Nascimento de Meleagro 1670/1700, tapeçaria de lã e seda 3,40 x 3,31 m. Museu Nacional de Arte Antiga

Os poetas encontram os pecadores caminhando através do fogo cantando e rogando Summae Deus clementiae (Ó Deus a Tua Suprema clemência)

“Summae Deus clementiae” no seio/do grande ardor ouvi cantando,/do que ânsia de lá olhar não menos veio;

e vi espíritos pela chama andando…

E apontavam exemplos de castidade como Maria e Diana.

E junto ao fim dos últimos compassos,/alto gritavam:”Virum non cognosco”;/baixos recomeçando então a espaços.

Dante evoca as palavras de Maria ao Arcanjo Gabriel em Lucas 1,34.

31- Eis que conceberás e darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32- Este será grande e será chamado filho do Altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono de David seu pai; 33- e reinará eternamente sobre a casa de Jacob, e o seu reino não terá fim. 34- Então Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, se não conheço homem?

(Nota – das muitas pinturas sobre o tema da Anunciação escolhemos duas que se encontram em museus portugueses, sendo a primeira de um quase contemporâneo de Dante)

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Giovanni del Biondo ( activo entre 1356 e 1399) Anunciação século XIV, óleo sobre madeira 86,3 x 64,2 Museu Grão Vasco Viseu Portugal

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Frei Carlos (activo entre 1517-1539) oficina do convento do Espinheiro Évora Anunciação 1523 óleo sobre madeira de carvalho 197,5 x 198 cm. Museu Nacional de Arte Antiga

Depois Dante refere o episódio de as Metamorfoses de Ovídio, em que Diana (Artemisa) defende a sua castidade.

E ao fim gritavam inda:”Lá no bosco/Diana ficou, cassa Hélice e a sanciona,/que o veneno de Vénus saiu tosco.”

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Ticiano (ca 1485-1576) Diana and Callisto. 1556-1559. óleo sobre tela National Gallery of Scotland Edinburgh, UK

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Tiziano Vecellio (c.1488-1576) Diana e Calisto c.1566,óleo sobre tela 183 x 200 cm. Kunsthistorisches Museum de Viena, Gemäldegalerie

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TICIANO, (ca 1485-1576) Diana e Calisto 1566. gravura, água-forte, p&b. 43,6 x 36,5 cm. Biblioteca Nacional, Portugal

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François Boucher (1723/1770) Diana e Calisto 1744 óleo sobre tela Kansas City, Nelson-Atkins Museum of Art

Diana, que se refugiara da floresta para preservar a sua castidade. Helice (ou Calisto) a ninfa que a servia é seduzida por Júpiter, disfarçado de Diana. Dos amores nasceu Arcas e Helice foi transformada por Juno numa ursa. Quando um sem saber ia atacar o seu filho Júpiter interferiu e colocou-a no céu como a constelação Ursa Maior.

Canto XXVI

Os poetas seguem pelo sétimo patamar e as almas penitentes perguntam a Dante qual a natureza da sua viagem. Entre os pecadores da Luxúria surge Guido Guinizzelli, poeta e exemplo de excesso na busca do prazer.

Por mim , curto o desejo te fazemos:/sou Guido Guinizelli; e já me purgo,/ por bem doer-me antes de meus extremos.

Guido Guinizzelli, mostra a Dante, entre as almas Arnaut Daniel o qual na língua provençal diz a Dante para abreviar a sua pena com as orações antes de se esconder no fogo. E se escondeu no fogo que os refina.

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Gustave Doré Virgil and Statius among the Lustful: c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

canto XXVII

O Anjo da castidade previne Dante, Virgílio e Estácio que para prosseguir na ascensão é necessário atravessar a barreira de fogo. p142_thumb[3]

Gustave Doré Before the wall of flames which burn the lustful : c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

Dante, aterrorizado e é Virgílio que o acalma elhe dá coragem falando de Beatriz. Finalmente atravessam as chamas

E se em fervente vidro eu já penetro,/em vez de entrar ali, vou refrescar-me,/tanto lá o incêndio sem ter metro.

Ao atravessar a barreira de fogo Dante ganha coragem escutando a passagem da Bíblia Mateus 25:34 “Venite benedicti Pater mei” (então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.)

“Venite benedicti Pater mei”,/soou dentro em luz tal que ali já era,/e me venceu e olhá-la não ousei.

Mas, antes de retomar a subida descansam nos degraus cada um de nós de seu degrau fez leito;/que a natura do monte não afiança/podermos ir mais alto e o deleito.

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Gustave Doré Dante, Virgil and Statius preparing to make a bed of the stairs for the night

Dante adormece e sonha com Lia que recolhe flores num jardim. Dante refere-se à passagem da Bíblia do Génesis capítulo 29 em que Lia é o símbolo da vida activa como a sua irmã Raquel é o símbolo da vida contemplativa.

Gênesis, cap. 29., v. 16 –20 16 Ora, Labão tinha duas filhas: Lia, a mais velha, e Raquel, a mais moça. 17 Lia tinha os olhos baços, porém Raquel era formosa de porte e de semblante. 18 Jacó amava a Raquel e disse: Sete anos te servirei por tua filha mais moça, Raquel. 19 Respondeu Labão: Melhor é que eu ta dê, em vez de dá-la a outro homem; fica, pois, comigo. 20 Assim, por amor a Raquel, serviu Jacó sete anos; e estes lhe pareceram como poucos dias, pelo muito que a amava.

“Saiba quem quer que o meu nome demanda/Lia ser eu e vou movendo em torno/as belas mãos fazendo uma grinalda

mas minha irmã Raquel nunca divaga/sentada ao espelho, o dia todo a pôr no mirar-se, e os olhos vendo em paga/com minhas mãos agora me engalano;/ a ela ver, a mim fazer embriaga.”

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Priamo della Quercia Dante's dream of Leah and Rachel; Matelda 1444-1452 Yates Thompson 36. the British Library.

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Dante Gabriel Rossetti (1828-1882) Dante's Vision of Rachel and Leah 1855 aguarela sobre papel 31,5 x 35,5 cm Tate Gallery (London, United Kingdom)

Camões refere o episódio no soneto XXIV (Obras de Luís de Camões ed. Lello & Irmão Porto 1970)

Sete anos de pastor Jacob servia /Labão, pai de Raquel, serrana bela;/Mas não servia ao pai, servia a ela,/E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,/Passava, contentando-se com vê-la;/Porém o pai, usando de cautela,/Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos/Lhe fôra assi negada a sua pastora,/Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,/Dizendo: – Mais servira, se não fôra/Pera tão longo amor tão curta a vida!

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Anónimo Jacob em casa de Labão século XVIII (?) óleo sobre cobre 61,5 x 78,5 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis

Ao acordar Dante é informado por Virgílio que estão agora próximos do Paraíso Terrestre e que a sua missão de guia está concluída, já que Dante está purificado e pode escolher o seu próprio caminho e esperar a vinda de Beatriz.

Aqui te trouxe com engenho e arte;/toma o prazer por guia que conduz:/pudeste a escarpas duras escapar-te.

De mim não terás mais fala ou acenos:/é livre, recto e são teu alvedrio,/e falha fora tu segui-lo menos:

do que mitra e coroa a ti confio.

canto XXVIII

Dante entra na floresta do Paraíso Terrestre

Já buscar dentro e em volta desejava/a divina floresta espessa e viva/que aos olhos novo dia temperava.

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Jan Bruegel, "O Velho" (1568-1625). O Paraíso Terrestre óleo sobre tela 59 x 41 cm. Museo del Prado, Madrid.

Junto a um rio de águas cristalinas Dante vê, na outra margem uma jovem, que canta e colhe flores.

e me surgiu, tal como se depare/subitamente cousa que desvia/por maravilha a todo outro pensar,

uma velida só que por lá se ia/a cantar e a escolher flor e mais flor/das que esmaltavam toda aquela via.

(Nota – Vasco Graça Moura explica o uso de “velida” para traduzir “donna soletta”)

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Doré Matelda gathering flowers c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

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Anonymous Italian artist of the 14th century Matelda Miniature

A jovem é Matelda, como será nomeada no Canto XXXIII, e explica a Dante o paraíso Terrestre, referindo o salmo 91,5 Não te assustarás do terror noturno, nem da seta que voa de dia,

que o espanto vos fará algo suspeito;/mas luz nos dá o salmo Dilectasti,/a dissipar na mente as trevas feito

E explica que no Paraíso Terrestre, o vento se deve ao movimento do céu e as águas surgem de uma fonte perene.

A água que vês não surge de uma veia/que a restaurar vapor gelo converta,/como um rio alento ganha e alheia;

mas sai de fonte que é eterna e certa,/que tanto Deus de seu querer despende,/quando ela em duas partes verte aberta.

O rio junto ao qual se encontram é o Letes, cujas águas fazem esquecer os pecados e da mesma fonte nasce o Eunoé, cujas águas reforçam a virtude.

O Letes é;assim do outro lado,/Eunoé se chama; e não opera/se daqui e dali não for provado:

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John Roddam Spencer Stanhope (1829-1908) The Waters of Lethe by the PLains of Elysium 1879/80 têmpera com ouro sobre tela 2,824 x 1,475 m. Manchester City Art Galleries, Manchester, United Kingdom

O rio Lima como Letes

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Almada Negreiros (1893-1970) tapeçaria na Sala de Estar da Pousada de Santa Luzia em Viana do Castelo

Há uma lenda que diz que as tropas romanas quando atingiram as margens do rio Lima pensaram ser o rio Letes e recearam que se o atravessassem perderiam a memória. Então o comandante Decius Junius Brutus ousou atravessar sozinho e da outra margem foi chamando os seus soldados pelo seu nome mostrando que não tinha perdido a memória.

Camões Elegia III

“Temo que tanto mal por a memória/nem ao passar do Lete lhe passasse.”

Alberto de Oliveira (1873-1940), escreveu um belo soneto intitulado "Velhice”

Água do rio Letes, onde passas?/Venha a mim o teu curso benfazejo/Que sepulta alegrias ou desgraças/No mesmo esquecimento sem desejo.

Quero beber-te por contínuas taças.../E às horas do passado que revejo,/Pedir-te que as afogues e desfaças/Na carícia e na esmola do teu beijo!

Quem de si nunca esteve satisfeito/E com novas empresas só procura/Corrigir seu engano ou seu defeito,

Não pode recordar sem amargura/Que a mais nenhum esforço tem direito/Na ruína presente e na futura...

Recordando o Sonnet IX dos Holy Sonnets de John Donne (1572- 1631)

If poysonous mineralls, and if that tree,/Whose fruit threw death on else immortall us,/If lecherous goats, if serpents envious/Cannot be damn’d; Alas, why should I be?

Why should intent or reason, borne in me,/Make sinnes, else equall, in mee more heinous?/And mercy being easie, and glorious/To God; in his sterne wrath, why threatens hee?

But who am I, that dare dispute with thee/O God? Oh! of thine onely worthy blood,/And my tears, make a heavenly Lethean flood,

And drowne in it my sinnes blacke memorie;/That thou remember them, some claime as debt,/I thinke it mercy, if thou wilt forget.

(Poems of John Donne. vol I. E. K. Chambers, ed. London: Lawrence & Bullen, 1896)

canto XXIX

O canto inicia-se com Matelda dizendo o salmo 32,1 Beati quorum tecta sunt peccata (Bem Aventurado aquele cujas transgressões e pecados são perdoados.)

Qual dama enamorada, então remata/o fim dessas palavras co esta à frol:/”Beati quorum tecta sunt peccata!”

Dante e Matelda caminham ao longo das margens do Letes, quando vêm na floresta uma luz intensa e ouvem uma doce melodia.

E eis que um lustre súbito vem pôr-se/a travessar as partes da floresta,/tal que a crer em relâmpago, me force.

Dante, assombrado, evoca a montanha das musas Helicona e Urânia a musa da Astronomia.

Verter de Helicona agora aqui,/deve Urânia ajudar-me com seu coro/a pôr em verso cousas tais que vi.

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René Antoine Houasse (1645-1710) Les Muses montrant à Minerve les eaux du fleuve Hippocréne que Pégase à fait jaillir sur le mont Hélicon ,óleo s/ tela 1,325 x 1,930 m.Versailles, châteaux de Versailles et de Trianon

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Eustache Le Sueur (1616-1655) (atelier de) Urânia, séc. XVII 116 x 74 cm. musée du Louvre Paris

Aparece um cortejo de grande simbolismo:

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Sandro Botticelli, O cortejo triunfal c.1480-c.1495 desenhos de Sandro Botticelli para a Divina Comédia de Dante, réplicas em miniatura dos originais no Gabinete de Gravuras em Berlim e na Biblioteca do Vaticano, com uma introdução e uma explicação do Darstellungg ed. F. homem Lipper. Berlim: G. Grote, 1921.

À frente surgem sete candelabros, que desenham no ar sete riscos luminosos que representam os sete dons do espírito

virtude que à razão discurso aplana/que eram candelabros ver me fez,/e as vozes a cantar Hosanna.

e vi chamazinhas por diante,/que atrás de si o ar deixavam tinto, e a listra de pincéis tão semelhante,

que por cima mantinha-se distinto/em sete listras, todas nessas cores/de que faz arco o Sol e Délia o cinto.

segue-se um cortejo de vinte e quatro velhos vestidos de branco, coroados de lírios, representando os Livros do Velho Testamento

Gentes vi eu então, que outrem conduz,/virem por perto e se vestir de branco;/e candor tal de cá jamais se aduz.

Sob um céu belo assim como eu diviso,/vinte e quatro anciãos, a dois e dois/de lírios coroados por um friso.

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Gustave Doré The twenty four elders in the procession c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

depois quatro animais com seis asas cheias de olhos (os Evangelhos)

tal como luz a luz no céu responda,/vieram logo após quatro animais,/coroados todos de uma verde fronda.

Seis asas emplumavam-nos, as quais/eram de olhos cobertas; e olhos de Argo,/sendo vivos, teriam por iguais.

Entre os 4 animais segue um carro triunfal, simbolizando a Igreja, e puxado por um grifo (Jesus Cristo)

O espaço de entre os quatro ali contém/um carro, a duas rodas, triunfal,/que por um grifo então tirado vem.

Em torno do qual dançam sete raparigas, que simbolizam as três virtudes teologais (a ruiva é a Caridade, a esmeralda é a Esperança) e a branca é a Fé) e as quatro virtudes cardeais.

À destra roda, três damas na rota/já vêm dançando: e uma se alvoroça/tão ruiva que no fogo mal se nota;

outra como se em osso e carne possa/ter sido de esmeralda apenas feita;/dir-se-ia que à terceira a neve roça;

E da sinistra vêm mais quatro em festa,…
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Doré The three theological virtues c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

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Pousada de Viseu - Antigo Hospital misericórdia – as três virtudes teologais

Fecham o cortejo dois anciãos (S. Lucas e S. Paulo), dois velhos em hábito dispares, quatro personagens de aspecto humilde(as Epístolas de Pedro, João, Tiago e Judas) quatro de humildade enxuta, e um velho adormecido que representa o Apocalipse, um velho sozinho vi vir, dormindo…

E quando o carro foi frente a meu peito,/trovão se ouviu e àquelas gentes dignas/pareceu o andar mais contrafeito,

ali parando co as primeiras signas.

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Sandro Botticelli Beatrice na carruagem da Igreja c.1480-c.1495 desenhos de Sandro Botticelli para a Divina Comédia de Dante, réplicas em miniatura dos originais no Gabinete de Gravuras em Berlim e na Biblioteca do Vaticano, com uma introdução e uma explicação do Darstellungg ed. F. homem Lipper. Berlim: G. Grote, 1921

canto XXX

Quando o cortejo chega junto de Dante um dos vinte e quatro anciãos canta Salomão 4,8 Veni, sposa, de Libano (Vem comigo do Líbano, noiva minha, vem comigo do Líbano), enquanto os anjos lançam flores, recitando Benedictus qui venis, uma forma modificada de Mateus 21,9 Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! e Manibus, oh, date lilia plenis! (Espalhai lírios às mãos cheias!) frase de Anquises em louvor de Marcelo, na Eneida de Virgílio.

e um deles, como se do céu viesse,/”Veni sposa, de Libano” cantando/gritou três vezes, sendo em todos prece.

Todos diziam:”Benedictus qui venis!”,/e flores lançando ao ar e ali em torno,/”Manibus, oh, date lilia plenis!”,

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Andrea Pierini (1798-1858) Rencontre de Dante et Béatrice au Purgatoire 1853, óleo sobre tela Palazzo Pitti, Galleria d'Arte Moderna, Florença

Envolta numa nuvem de flores, assim dentro de nuvem só de flores/que lá das mãos angélicas deriva, aparece Beatriz

senhora me surgiu, em verde manto/vestida com a cor da chama viva

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William Blake (1757-1827) Beatrice Addressing Dante from the Car 1824-7 pena, tinta e aguarela sobre papel 37,2 x 52,7 cm.
Tate Gallery London

Enquanto Dante chora o desaparecimento de Virgílio, Beatriz admoesta-o por ter ousado subir ao lugar da felicidade.

“Olha-me bem! Sou bem, sou bem Beatriz,/Como é que ousaste de aceder ao monte?/Não saberias tu se é cá feliz?

canto XXXI

Dante e Beatrice prosseguem o diálogo e Beatriz mostra a Dante como a sua morte o deveria fazer entender como são vãos os bens terrenos. De seguida dante mostra o seu arrependimento e desmaia.

Tal remorso no peito me mordeu,/que vencido caí; e outro tornei-me,/aquela o sabe que sazão me deu.

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Gustave Doré Matelda immerses Dante in Lethe c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

Quando recobra os sentidos Dante está mergulhado no Letes, e Matelda segura-lhe docemente a cabeça fora de água, enquanto se ouve “Asperges me” (do Salmo 50,9. asperges me hyssopo et mundabor, aspergi-me com o hissope e ficarei puro.

Puxara-me no rio até à gola,/e puxando-me atrás de si me leva/pela água, leve como barcarola.

E ao ser perto à beata orla primeva,/tão doce “Asperges me” ali se disse,/que o não sei relembrar, mesmo que escreva.

Matelda, por fim coloca Dante entre quatro bailarinas que o conduzem a Beatriz e ao grifo.

canto XXXII

Dante maravilhado pela beleza de Beatriz segue no cortejo que para em frente a uma árvore sem folhas, e todos murmuram o nome de Adão. Quando o Grifo toca nela a árvore floresce milagrosamente.

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Alessandro Vellutello, Reflowering of Tree; Dante's dream; Eagle, fox, dragon, whore and giant 1544 Dante con l'espositione di Christophoro Landino, et di Alessandro Vellutello (Venice: Marchio Sessa, 1564).

Dante adormece e acorda com a voz de Matelda que lhe mostra Beatriz sentada sob a árvore enquanto o Grifo e o cortejo sobem ao céu.

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Gustave Doré Ascension of the procession c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

Beatrice diz a Dante para observar o carro. Ele vê uma águia rompendo pela árvore e danificar o carro.

como eu vi o pássaro de Jove/pela árvore romper a casca extorsa,/com flor’s e folhas que ela em si renove;

e o carro feriu com toda a força:

Depois é uma raposa esfomeada (que representa as heresias) que se atira ao carro e que Beatriz põe em fuga.

Lá vi depois arremessar-se à cuna/do triunfal veículo, raposa/que de todo o bom pasto era jejuna;

mas, por lhe repreender culpa danosa,/a dama minha a pôs em tal fugida,

A águia desce de novo sobre o carro cobrindo-o de penas.

a águia vi baixar do carro à arca/e de plumas deixá-la guarnecida;

O carro transforma-se num monstro cornudo de sete cabeças, (a besta do Apocalipse) onde está uma prostituta (Babilónia) guardada por um gigante (o papa em Avinhão) que, por fim soltando o monstro e a prostituta desaparecem na selva.

um monstro assim já visto nunca foi.

Segura, como rocha em alto monte,/sentar-se ali tal puta dissoluta/pareceu com olhar que em torno aponte;

e por não lha tirarem em disputa,/a seu lado de pé vi um gigante;

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William Blake The harlot and the giant 1824/27 pena, tinta e aguarela sobre papel 37,2 x 52,7 cm. National Gallery of Victoria Austrália
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Gustav Doré Giant and whore atop the transformed cart c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

canto XXXIII

O Paraíso Terrestre

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Lucas Cranach (1472 – 1553) Paraíso 1530 81 x 114 cm Kunsthistorisches Museum Wien, Gemäldegalerie

As sete Virtudes entoam o salmo 78.1 que lamenta a destruição do Templo de Jerusalém Deus, venerunt gentes (Ó Deus, os gentios vieram à tua herança)

“Deus, venerunt gentes”, alternando/a três e quatro em doce salmodia/as damas começaram, lacrimando

Matelda guia Dante e Estácio para o Eunoè onde bebem a água, que lhes dá a memória da virtude.

Mas vê ora Eunoe que lá deriva;/a ele o leva, e como em ti já se usa,/a amortecida força lhe reaviva.”

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Gustave Doré Dante drinking from the Eunoe c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

Eu regressei assim da santa onda/refeito como plantas novas pelas/renovadas visões de nova fronda,

puro e disposto a me elevar às estrelas.

(puro e disposto a salire a le stelle)

(Fim do Purgatório)

2 comentários:

  1. Ex.mo Senhor,

    Muitíssimo Obrigado.

    quero dar-lhe nota da minha profunda admiração por este seu trabalho. não tenho ideia do que me trouxe a estas suas páginas (o google por certo, mas não sei que buscava eu...), mas sinto-me obrigado a agradecer-lhe tamanho trabalho, dedicação e... generosidade.

    se possível, gostaria de entrar em contacto (menos público) consigo...

    JLnm

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  2. Concordo com JLnm.
    Este trabalho revela uma grande pesquisa e dedicação.
    Parabéns pelo blog de qualidade.

    Muito Obrigado

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