Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 15 de julho de 2011

Apontamentos sobre terras, fortalezas e cidades em Os Lusíadas de Luís de Camões (1)

«Fortalezas, cidades e altos muros
Por eles vereis, filha, edificados…

Por este mar a gente Lusitana,
Que com armas virá despois de ti,
Terá vitórias, terras e cidades,
Nas quais hão-de viver muitas idades.

1. Os Lusíadas

Depois de uma apresentação inicial dos feitos dos portugueses na Expansão, tem como tema os feitos dos portugueses e de Portugal, centrados na viagem de Vasco da Gama de Lisboa até Calicute na Índia, realizada entre a partida de Lisboa a 8 de Julho de 1497 e a chegada a Calecut a 18 de Maio de 1498, com o regresso a Lisboa entre 29 de Agosto de 1498 e 29 de Agosto de 1499.

Camões aproveita algumas passagens dessa narrativa para relatar episódios da história de Portugal. Em Melinde, Vasco da Gama narra ao rei os acontecimentos de toda a nossa história, desde Viriato até ao reinado de D. Manuel I. Em Calecut, Paulo da Gama apresenta ao Catual os episódios e as personagens representados nas bandeiras das naus.

Como o poema é escrito na segunda metade do século XVI, e sendo a viagem de Vasco da Gama realizada no final do século XV, Camões relata, através de profecias, a história da Expansão portuguesa posterior à viagem. Assim no Canto II, é Júpiter que profetiza futuras glórias dos portugueses e no Canto X, a Sirena profetiza os feitos dos portugueses, um artifício de Camões para narrar o período posterior a 1498.

Ao longo do poema, Camões sinaliza diversos lugares, baseando-se nos textos contemporâneos que descrevem a viagem de Vasco de Gama, como Álvaro Velho, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Gaspar Correia etc., caso das povoações continentais ou do norte de África que cita ao contar a história de Portugal e ainda as possessões que os portugueses conquistaram, ocuparam ou apenas visitaram, entre a viagem do Gama e a elaboração de Os Lusíadas, sendo que muitos destes territórios e povoações, conheceu pessoalmente na sua ida ao Oriente. Das terras, fortalezas e cidades, referidas em Os Lusíadas, poucas cidades da expansão são construídas pelos portugueses. Muitas são apenas ocupadas e fortificadas, muitos locais reduzem-se a fortalezas, ou a simples feitorias.

2. Canto 1

O poeta indica o assunto global da obra, pede inspiração às ninfas do Tejo e dedica o poema ao Rei D. Sebastião.

Na estrofe 19 inicia a narração de viagem de Vasco da Gama, que já está no Oceano Índico junto à Ilha de Moçambique. Os deuses convocados por Júpiter e reunidos no Olimpo debatem se os Portugueses deverão chegar à Índia. Com o apoio de Vénus e Marte e apesar da oposição de Baco, a decisão é favorável aos Portugueses. Aí Baco prepara-lhes várias ciladas que culminam com o fornecimento de um piloto por ele instruído para os conduzir ao perigoso porto de Quíloa.Vénus intervém, afastando a armada do perigo e fazendo-a retomar o caminho certo até Mombaça.

As primeiras terras referidas por Camões são três ilhas, que estrategicamente se situam na “entrada” e “limites” do oceano Índico: a ilha da Taprobana (Ceilão e depois Sumatra), a oriente e as ilhas de Moçambique e São Lourenço (Madagáscar) a sudoeste. As ilhas, se não forem de grandes dimensões, são no século XVI, para os portugueses, mais fáceis de controlar e sobretudo de defender.

3. A Taprobana

Logo na 1ª estrofe se anuncia que a expansão portuguesa vai até ao extremo do oriente conhecido.

I

As armas e os Barões assinalados,
Que, da Ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da
Taprobana,

…….

Para Camões a Taprobana é a ilha de Ceilão, como confirma e localiza no canto X, estrofe CVII: Taprobana (Que ora é Ceilão).

CVII

Vês: corre a costa célebre Indiana
Pera o Sul, até o Cabo Comori,
Já chamado Cori, que
Taprobana
(Que ora é Ceilão)
defronte tem de si.

Os portugueses  chegaram a Ceilão em 1505, com Lourenço de Almeida e em 1517 fundaram a cidade de Colombo (Columbo). Ceilão era conhecida pela canela, como o poeta diz  no canto IX, estrofe XIV(no regresso do Gama) e no canto X, estrofe LI (as profecias da Ninfa), onde lhe chama cortiça (de cortex já que a especiaria é obtida da parte interna da casca do tronco.)

Canto IX estrofe XIV

Leva alguns Malabares, que tomou
Por força, dos que o Samorim mandara
Quando os presos feitores lhe tornou;
Leva pimenta ardente, que comprara;
A seca flor de Banda não ficou;
A noz e o negro cravo, que faz clara
A nova ilha Maluco,
coa canela
Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.

Canto X estrofe LI

«A nobre ilha também de Taprobana,
Já pelo nome antigo tão famosa,
Quanto agora soberba e soberana
Pela
cortiça cálida, cheirosa,
Dela dará tributo à Lusitana
Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,
Vencendo se erguerá na torre erguida
Em
Columbo, dos próprios tão temida.

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Claudius Ptolemaeus, "Nona Asiae Tabula" and "Decima Asiae Tabula" and "Duodecima Asiae Tabula," colorida posteriormente à mão, 34,5 x 45 cm. em uma das primeiras edições da Cosmographia, publicada por Arnold Buckinck, Rome, 1478.

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Gerardus Mercator (1512-1594) (adaptado de Claudio Ptolomeu, 0100?-0170?). Taprobana Tab. XII Asiae Taprobanam repraesentans Medius meridianus 125 ad quem reloqui inclinantur ratione aequin octalis et 9 septentrionalis 34.5 x 36.0 cm Atlas de Mercator 1578 Amsterdam, 1578-1730

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Tomaso Porcacchi Castilione (1530–1585) India, Ceylon & ilhas 1604 dim. 16 x 26 cm. In L'Isole piu Famose del Mondo, 47 mapas Veneza, 1572

Na legenda, em italiano:

“A Taprobana é (uma) Ilha do grande mar Índico, situada (como diz Solino) entre o Levante e o Poente, mas tão grande e ampla que os antigos pensaram, que ela fosse um outro mundo, habitado pelos Antípodas… “

Também João de Barros, (c. 1496- 1570) identifica a ilha de Ceilão como a Taprobana, e na 3.ª Década, liv. II, enuncia assim o seu cap. I: Em que se descreve o sitio & cousas da ilha Ceilão a que os antigos chamão Taprobana. Pag. 104. Cap.II. Como Lopo Soares, per mandado d’ElRey D. Manoel, foi á Ilha de Ceilão fazer uma fortaleza: e o que passou ante de ser feita com o Rey da terra, o qual ficou tributario deste Reyno. 118.

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João de Barros (1496-1570) é o autor das Décadas da Asia (1552, 1553, 1563 e uma de autoria discutível de 1613), segundo parece por sugestão de D. Manuel I.

Lopo Soares de Albergaria (c. 1442-c.1520) capitão-mor e governador da Fortaleza de São Jorge da Mina, nomeado em 1515, por D. Manuel I, como o 3.º governador da Índia, sucedendo no cargo a Afonso de Albuquerque. Foi derrotado pelos turcos no Mar Vermelho (1517). Em 1519 regressa a Portugal. Camões refere-o no Canto X, estrofe L:

Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto,
De
Soares
cantava, que as bandeiras
Faria tremular e pôr espanto…

Foi Lopo Soares de Albergaria que criou a fortaleza de Santa Bárbara de Colombo em 1518. Implantada no extremo Norte da ponta rochosa de Galbokka controlava a baía de Colombo. Tratava-se de uma fortaleza-feitoria destinada ao despacho da canela que os reis de Kotte se comprometeram, em tratado datado também de 1518, a fornecer à coroa portuguesa.

Gaspar Correia (1495?-1561?) foi secretário de Afonso de Albuquerque, esteve em Goa e em Cochim. Participou no ataque a Diu. Escreveu as Lendas da Índia em 4 volumes, apenas publicado em 1859/66.

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Gaspar Correia, Ceilam in Lendas da Índia de , Torre do Tombo Lisboa in Luís Albuquerque Os Descobrimentos Portugueses Publicações Alfa 1985

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Louis Boudan? (16..-17.. ) COLVMBO, aguarela 39,3 x 32,4 cm. reproduzindo um desenho de 1518 Bibliothèque nationale de France.

Na legenda: “Columbo, porto principal na costa occidental de Ceilaô em altura de 7 graos e hum ferco soy sundada pelo governador Lope Sourez de Albergaria o anno 1518 fazendo aquele rey da cota tributario a està corona de Portugal”

Sobre Louis Boudan ver neste blogue, Iconografia urbana II, de quinta feira 30 de Dezembro de 2010

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João Teixeira Albernaz I,(15 ?-c. 1662), pertencente a uma família de cartógrafos (filho de Luís e irmão de Pedro), executa em 1648 o livro Plantas das Cidades e Fortalezas da Conquista da India Oriental.

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João Teixeira Albernaz I(15 ??-c. 1662), Fortaleza de Columbo in Plantas das Cidades e fortalezas da conquista da India oriental Portugal 1648

A partir da fortaleza e feitoria, os portugueses, ao contrário das suas instalações a Oriente, criaram uma cidade a partir da segunda metade do século XVI, com numerosos edifícios e com um traçado típico das primeiras cidades coloniais portuguesas, orgânico e espontâneo. É criada uma Câmara e em 1589 por carta régia instituído um juiz e um “procurador da cidade de Columbo”. Os Franciscanos, fundam em 1543 um convento a que se seguiram os Jesuítas e os Dominicanos.

Após um cerco prolongado de quase dois anos (1656/58) Colombo caiu nas mãos dos holandeses e Ceilão passou a ser administrada pela Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC).Com a ocupação da cidade pelos holandeses, uma grande parte da cidade é demolida para se seguir um plano com arruamentos regulares, à semelhança das cidades dos Países Baixos.

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Philip Baldaeus (1632-1672),  Colombo in “The True and Exact Description of the Most Celebrated East - India Coast of Malabar and Choromandel as also of the Island of Ceylon“ Naauwkeurige beschryvinge van Malabar en Choromandel part II,impresso em 1672  gravura, 28.5 x 35.0 cm. Nationaal Archief, RACM (Rijksdienst voor de Monumentenzorg) Holanda

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Johannes Kip (1653-1722)  “De Stadt Colombe” c.1680, 30 x 20,5 cm. in Reistogt naar en door Oostindien, Amsterdam, c. 1775 The Maritime Gallery UK

Colombo em 1796 passou para o domínio francês mas logo em 1802 passou para o domínio inglês. Tornou-se independente em 1948 e em 1972 adoptou o nome de Sri Lanka.Na cidade actual apenas subsiste um padrão do século XVI para assinalar a presença portuguesa e, sobretudo, uma importante comunidade católica, e na ilha em Ratnapura a igreja de S. Pedro e S. Paulo.

4. A ilha de Sumatra como a Taprobana

Se a Taprobana para Camões, e de um modo geral, era a ilha de Ceilão, ela é contudo muitas vezes referenciada como a ilha de Sumatra, na actual Indonésia, sobretudo com a progressão das navegações para oriente.

A ilha de Sumatra é descrita por Marco Polo (1254-1324), que aí terá estado durante alguns meses, como “habitada por homens muito diferentes dos outros. Nalgumas montanhas desta ilha há homens de enorme estatura (…) como gigantes, muito negros e desprovidos de razão. Comem os estrangeiros brancos, quando os conseguem apanhar. Todos os anos nesta ilha há dois verãos e dois invernos. As árvores e as plantas florescem duas vezes ao ano. É a última ilha das Índias. Abunda em ouro, prata e pedras preciosas.”

Sebastian Munster (1489-1552) na sua Cosmographia, apresenta o mapa de Ceilão, chamando-lhe Sumatra.

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Sebastian Munster (1488-1552), Sumatra Ein Grosse Inse l/ So Von Den Alten Geographen, Taprobana  1579 in Cosmographia 1ª ed. 1544

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Alberto Cantino, no seu Planisfério ("Carta da navigar per le Isole nouam tr[ovate] in le parte de l'India: dono Alberto Cantino al S. Duca Hercole"), que se supõe ter sido realizado por um português, localiza correctamente Sumatra e escreve em legenda: “Esta ilha, chamada Taprobana, é a maior ilha que se acha no mundo, e a mais rica de todas as coisas…” (in Luís Albuquerque (1917-1992), Os Descobrimentos Portugueses edições Alfa 1986)

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Alberto Cantino, "Carta da navigar per le Isole nouam tr[ovate] in le parte de l'India: dono Alberto Cantino al S. Duca Hercole", 1502 Biblioteca Estense, Modena

No Atlas de Reinel , aparece Sumatra com a indicação de “Tapr.obana insula.”

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Jorge Reinel (c. 1502- depois de 1572)  Oceano Índico 1519 Biblioteca de Wolfenbüttel Alemanha

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Giovanni Botero (1544-1617), "Asia," em Relazioni Universali, c.1591-98

E ainda no mapa das Índias Orientais de Abraham Ortelius, inserido no Theatrum Orbis Terrarum.

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A. Ortelius (1527-1598), Indiae Orientalis, Insularumque Adiacientium Typus data da impressão 1612, data da 1ª edição 1570, gravura 35 x 50,5 cm. tem no verso um texto em italiano  Theatro del Mondo di Abrahamo Ortelio.Theatrum Orbis Terrarum Antwerpen, Plantin Press (J.&B. Moretus), 1612.

5. Madagáscar

Na estrofe 42 do Canto I, a armada de Vasco da Gama navega já no Índico, mais precisamente no Canal de Moçambique, entre Moçambique (a costa etiópica) e Madagáscar (S. Lourenço).

XLII

Enquanto isto se passa na fermosa
Casa etérea do Olimpo omnipotente,
Cortava o mar a gente belicosa
Já lá da banda do Austro e do Oriente,
Antre a costa etiópica e a famosa
Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
Queimava então os Deuses que Tifeu
Co temor grande em peixes converteu.

Ferrando (Fernando) Bertelli produziu uma gravura da ilha de S. Lourenço, rodeada de monstros marinhos e alguns barcos, um conjunto de montes no centro da ilha,um bosque e um elefante.l111

Ferrando Bertelli (c. 1525- ?), Isola de San Lorenzo, 1567 mapa 26,1 x 19 cm. Biblioteca Nacional Brasil

Em 1500, o navegador Diogo Dias, irmão de Bartolomeu Dias, comandava um dos navios da frota de Pedro Álvares Cabral na segunda viagem à Índia. Diogo Dias separando-se da expedição, descobriu uma ilha a que deu o nome de São Lourenço, mais tarde designada Madagáscar.

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Theodorus de Bry (1528–1598) Die Insel Madagascar.. . Insula de S. Laurety 142x198mm Frankfurt 1593 in Ostindische Reisen

Em 1613, no período do domínio espanhol, o vice-Rei Dom Jerónimo de Azevedo envia uma expedição explorar esta ilha carregada de mistério. Numa ilha fluvial, no rio Vinanibe, chamada então de Santa Cruz, encontram uma torre de pedra e uma estela em mármore com as armas de Portugal por baixo gravadas as palavras “Rex Portugalensis”. Na outra face uma Cruz. Supõe-se ter sido uma pequena colónia estabelecida pelos sobreviventes de um naufrágio.

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Na legenda: A Illha de São Lourenço é das maiores que na Índia foram descobertas; & tal que os Espanhóis tiveram que dizer, que é maior que o Reino de Castela, & de Portugal…

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Tommaso Porcacchi (1530-1585) “Descrittione Dell' Isola Di San Lorenzo” Decorada com rosa-dos-ventos e serpentes marinhas. Cartela com dois puti. in 'L Isole Piv Famose Del Mondo' ed. A Brigonci. Veneza 1686

Também a S. Lourenço, Camões se volta a referir no Canto X, estrofes XXXIX e CXXXVII

XXXIX

- «Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto
- Dezia a Ninfa, e a voz alevantava -
Lá no mar de Melinde, em sangue tinto
Das cidades de Lamo, de Oja e Brava,
Pelo Cunha também, que nunca extinto
Será seu nome em todo o mar que lava
As ilhas do Austro, e praias que se chamam
De
São Lourenço, e em todo o Sul se afamam!

O Cunha é Tristão da Cunha (1460?-1540) o capitão-mor da armada que em 1506 seguiu para a Índia, levando a bordo Afonso de Albuquerque, futuro governador da Índia. O mau tempo levou-os à costa do Brasil e no regresso descobriu um grupo de ilhas, muito a oeste do cabo da Boa Esperança, que foram chamadas Tristão da Cunha, do nome do seu descobridor. São “as ilhas do Austro”, a que se refere o Poeta. Foi Tristão da Cunha que conquistou Oja e Brava, “no mar de Melinde”, e fez tributária Lamo (Castanheda, II.30-31 e II-36-37, e Barros, II.I.2).

CXXXVII

Verás defronte estar do Roxo Estreito
Socotorá, co amaro aloé famosa;
Outras ilhas, no mar também sujeito
A vós, na costa de África arenosa,
Onde sai do cheiro mais perfeito
A massa, ao mundo oculta e preciosa.
De
São Lourenço vê a Ilha afamada,
Que
Madagáscar é dalguns chamada.

Em 1885 a França ocupou Madagáscar transformando-a num protectorado e em 1896 passou a colónia. Em 1960 tornou-se um país independente.

Madagáscar hoje conhecida pelo filme de animação, nunca foi explorada pelos portugueses, provavelmente pela sua dimensão e pela hostilidade dos seus habitantes, nem pelos espanhóis, mais preocupados com as Américas.

6. De seguida Camões, (Canto I, estrofe 54) refere três cidades, Quíloa, Mombaça e Sofala, para descrever a chegada de Vasco da Gama à ilha de Moçambique. Em 1502, Vasco da Gama, na sua segunda viagem à Índia, sujeitou o rei de Quíloa à obediência do rei de Portugal. Mombaça foi tomada por D. Francisco de Almeida em 1505. Em 1505 Pêro da Anhaia, (Pêro da Ñaia 14??-1506)  de origem castelhana, conseguiu do xeque o início de uma fortificação em Sofala, o forte de Santa Bárbara, de que foi o primeiro capitão.

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Braun and Hogenberg Aden, Mombaça, Quíloa e Sofala, in Civitates Orbis Terrarum I, 1572 ed. Latim The Hebrew University of Jerusalem

Deixemos por ora estas cidades, para nos debruçarmos sobre:

7. A ilha de Moçambique

Camões refere a ilha logo no canto I:

LIV

Esta Ilha pequena, que habitamos,
É em toda esta terra certa escala
De todos os que as ondas navegamos,
De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
E, por ser necessária, procuramos,
Como próprios da terra, de habitá-la;
E por que tudo enfim vos notifique,
Chama-se a pequena
Ilha – Moçambique.

Álvaro Velho, no “Roteiro da viagem que em descobrimento da India pelo Cabo da Boa Esperança fez Dom Vasco da Gama em 1497”, descreve assim a chegada à ilha de Moçambique:

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Em este lugar e ilha, a que chamam Moçambique estava um senhor a que eles chamavam sultão, que era como viso-rei; a qual veio aos nossos navios por muitas vezes, com outros seus que com ele vinham; e o capitão lhe dava mui bem de comer, e lhe fez um serviço de chapéus e marlotas e corais e outras coisas muitas; e ele era tão alterado que desprezava quanto lhe davam; e pedia que lhe dessem escarlata, e nós não a levávamos, mas disso que tínhamos disso lhe dávamos…

Álvaro Velho “Roteiro da viagem que em descobrimento da India pelo Cabo da Boa Esperança fez Dom Vasco da Gama em 1497” segundo um manuscripto coetaneo existente na Bibliotheca Publica Portuense, publicado por Diogo Kopke lente de Mathematica na Academia Polytechnica do Porto e o Dr. António da Costa Paiva, lente de Botanica e Agricultura na mesma Academia, Porto Tipographia Commercial Portuense,1838

A ilha de Moçambique com 2,5 km de comprimento e pouco mais de 1 km de largura, encontra-se a 5 km da costa. Tornou-se a escala mais importante da rota das Índias e foi durante séculos um importante centro de comércio, incluindo escravos, na segunda metade do século 16.

João de Barros nas Décadas da Ásia X, confirma esta importância:

Os povoadores da qual eram mouros vindos de fora, os quais fizeram aquela povoação como escala da cidade Quíloa que estava diante, e da mina Çofala que ficava atrás, porque a terra em si era de pouco trato, e os naturais que eram negros de cabelo revolto como de Guiné, habitavam na terra firme. A qual povoação Moçambique daquele dia tomou tanta posse de nós, que em nome, é hoje a mais nomeada escala de todo o mundo, e por frequentação a maior que tem os Portugueses, e tanto, que poucas cidades há no reino que, de cinquenta anos a esta parte, enterrassem em si tanto defunto como ela tem dos nossos.

Cá depois que nesta viagem a Índia foi descoberta até ora, poucos anos passaram que à ida ou à vinda não invernassem ali as nossas naus, e alguns invernou quase toda uma armada, onde ficou sepultada a maior parte da gente por causa da terra ser mui doentia. Porque, como o sítio dela é um cotovelo à maneira de cabo, que está em altura de catorze graus e meio, do qual convém que as naus que para aquelas partes navegam hajam vista para irem bem navegadas, quando os ventos lhe não servem para passar adiante à ida ou vinda, tomam aquele remédio de invernar ali, e desta necessidade e doutras (como adiante veremos na descrição de toda esta cousa,) procedeu eleger-se para escala de nossas naus, um lugar tão doentio e bárbaro, deixando na mesma costa outros mais celebres e nobres.

Duarte de Melo dirigiu a construção em Moçambique de uma fortaleza (1507), uma igreja e um hospital. Em 1542, João Velho, um agente do Rei de Portugal, escreveu uma série de cartas descrevendo a sua estadia de 4 anos na ilha, onde viveu numa torre fortificada (a fortaleza de S. Gabriel) , também conhecida por Torre Velha, com uma escrava branca e foi um dos superintendentes principal das lojas de pano e contas, que foram utilizados para o comércio de ouro e marfim extraído nas regiões do interior.

Em 1558, Miguel de Arruda (? - 1563), filho de Francisco de Arruda  e sobrinho de Diogo de Arruda e em 1549 “Mestre das obras dos muros e das forteficações do Reino, Lugares d’Além e Índia",cargo criado por D. João III, projecta a construção da Fortaleza de S. Sebastião (em homenagem a D. Sebastião), então a maior da África Austral, reforçando a importância estratégica da Ilha de Moçambique.

A ilha de Moçambique foi a primeira capital de Moçambique, de 1509 até 1898, quando Mouzinho de Albuquerque transferiu a capital para Lourenço Marques, hoje Maputo. A ilha de Moçambique é Património da Humanidade desde 1991.

A sua estrutura urbana desenvolvia-se linearmente ao longo de uma rua principal, de onde partiam ruas secundárias criando quarteirões de forma irregular.

A ilha de Moçambique no Livro de Luisarte de Abreu. A imagem mostra a frota de D. Constantino de Bragança, na ilha de Moçambique, a caminho da Índia.

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A frota do Vice-Rei Constantino de Bragança 1558 Livro de Luisarte de Abreu The Pierpont Morgan Library

Na imagem estão fundeadas 9 naus, mais uma carenada à esquerda e 5 escaleres, sendo o central maior e arvorando uma bandeira. Na parte superior as ilhas de São Jorge e de São Tiago. Na parte inferior a Terra Firme. Na ilha uma fortaleza, S. Sebastião, na ponta esquerda uma cruz, duas capela e um padrão. Ao centro da imagem uma construção com traços de fortaleza medieval, (a fortaleza de S. Gabriel, depois de demolida Fortaleza Velha) e uma capela.

Constantino de Bragança (1528-1575) foi o 7º Vice Rei da Índia, entre 1558 e 1561. Sobre D. Constantino de Bragança escreveu em 1947, Aquilino Ribeiro (1865-1963) um livro intitulado  Constantino de Bragança, VII Vizo-Rei da Índia, editado pela Portugália.

A imagem seguinte de 1596 é desenhada por Jan Huygen van Linschoten (1562-1611) que esteve ao serviço do Português como Secretário do Arcebispo Português de Goa na Índia de 1583-1589. De regresso à Holanda em 1592 escreveu duas obras importantes sobre os anos passados no Oriente, o Reys-Gheschrift van de navigatien der Portugaloysers in Orienten... (Amsterdão 1595) e o Itinerario : voyage ofte schipvaert van Jan Huygen van Linschoten naer Oost ofte Portugaels Indien 1579-1592. Estas duas obras, bem mais do que uma simples relato de viagem, constituem um panorama geográfico, comercial e militar completo sobre as atividades portuguesas no Oriente. Estes relatos tiveram influência na posterior expansão holandesa no Oriente e na criação em 1602 da Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC).

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Itinerario, Voyage ofte Schipvaert / van Jan Huygen van Linschoten naar Oost of Portugaels Indien1596, Biblioteca Real da Holanda.

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Jan Huygen Van Linschoten (1563-1611), Insulae et arcis Mocambique descriptio ad Fines Melinde . 1596 "Reys-gheschrift vande navigatien der Portugaloysers in Orienten" ("Relato de uma viagem pelas navegações dos portugueses no Oriente"), Amsterdam 1596

A imagem mostra as fortificações da cidade, com navios arvorando o pavilhão de Portugal. O mapa tem uma rosa-dos-ventos, as armas de Portugal e uma cartela em latim e holandês. 

Junto da ilha diversos navios, mostrando a importância da escala em Moçambique das viagens de ida e vinda para a Índia. Chegou a considerar-se a hipótese de ter duas armadas, uma que fizesse a viagem de Lisboa até Moçambique e a outra completando o percurso até à Índia.

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O mapa mostra a Fortaleza de S. Sebastião 1558/83,e a Fortaleza Velha, as igrejas de S. Gabriel e Torre de São Gabriel do ano de 1507, S. Domingos, S. António e N.ª Sr.ª do Baluarte erguida em 1522. Entre a fortaleza e a cidade um espaço correspondente ao cemitério.

Existe uma cópia semelhante, não colorida, na Biblioteca Nacional (Digital).

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H. Linschoten, INSULAE ET ARCIS MOCAMBIQUE .Francofurti : Mathaeus Bekerus, 1601, gravura, p&b  21 x 27 cm em folha de 30 x 36 cm  BND

Na cartela:

INSULAE ET ARCIS MOCAMBIQUE DESCHRIPTIO AD FINES MELINDE SITAE CHANO PURISS, AURO ET AMBARE ODORATE AFFLUENTIS HINE MAGNUS SERUCRUM NUMERUS IN INDIAN ABDUCITUR
Mapa Eigentlich suhrbildurig der Insel Sampt dem Schloss Mosambique so da liget am gestaden Melinde mit dem gelegenheit

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Langenes Barent produz uma imagem muito semelhante:

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Langenes Barent (15..-16..?) Insulae & Ars Mosambique 1598 in Caert-Thresoor, impressa em Amesterdam 1598, com estampas dos mais conhecidos gravadores de Amesterdão como Petrus Kaerius (Pieter van den Keere 1571-1646) e Jodocus Hondius I. (1563-1612)

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Manuel Godinho de Herédia, (1563-1623) cosmógrafo, matemático, cartógrafo e desenhador a quem se atribui o reconhecimento da Austrália em 1601, no decurso de uma viagem ordenada pelo vice-rei Aires de Saldanha, publica em 1610 o livro de “Plantas de praças das conquistas de Portugal : feytas por ordem de Ruy Lourenço de Tavora Vizo rey da India”, um álbum com 20 aquarelas localizado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Neste livro apresenta uma planta do forte de S. Sebastião na ilha de Moçambique:

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Manuel Godinho de Erédia (1563-1623) forte de S. Sebastião na ilha de Moçambique in Plantas de praças das conquistas de Portugal : feytas por ordem de Ruy Lourenço de Tavora Vizo rey da India / por Manoel Godinho de Eredia Cosmographo. - 1610. 1 atlas ms. (21 f.). : : 20 plantas col., desenho a tinta ferrogálica, 31,2 x 37cm. ou menores Biblioteca Nacional (Brasil).

António Bocarro (1594 ? – 1642) que continuou as Décadas da Ásia, de João de Barros e primeiro continuadas por Diogo Couto, publica em 1635 o Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental onde estão representadas 48 fortalezas portuguesas desde o Cabo da Boa Esperança até Solor. Os desenhos e plantas são hoje atribuídas a Pedro Barreto de Resende (1586? – ?) e cedidas a António Bocarro. O original encontra-se na Biblioteca Pública de Évora. Reproduzido em 3 volumes, sendo o 1º – Estudo e índices, o 2º – Transcrição e o 3º –Estampas  pela Imprensa Nacional da Casa da Moeda, Lisboa 1992.

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António Bocarro Monsambique 1635 no Livro das plantas de todas as fortalezas, cidades e povoaçoens do Estado da Índia Oriental in Bocarro, António e Resende, Pedro Barreto, “Livro das Plantas de todas as Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental

A imagem, sem escala e não orientada, mostra contudo que a ilha está já totalmente ocupada. Podem distingui-se os quarteirões e mesmo a ocupação dos lotes, bem como alguns detalhes das edificações. Nestas é visível a representação diferenciada entre casas de pedra e cal e as palhotas de caniço e colmo. À direita da imagem (sul) está representada a pequena ilha com o fortim de S. Lourenço de 1588.

A capela de Nossa Senhora do Baluarte está já dentro do recinto da fortaleza. Esta é protegida por um muro a norte e por um fosso a sul.

Também João Teixeira Albernaz I,(último quartel do século XVI- c. 1662), pertencente a uma família de cartógrafos, executa em 1648 o livro Plantas das Cidades e Fortalezas da Conquista da India Oriental.

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João Teixeira Albernaz I,Plataforma da fortaleza de Moçambique in Plantas das Cidades e fortalezas da conquista da India oriental Portugal 1648

A imagem, sem escala e não orientada, apresenta ao centro na povoação estão assinalados o Hospital, a Misericórdia e S. Domingos. Ainda a Torre e o Pelourinho. Na Fortaleza de S. Sebastião, o fosso e os seus 4 Baluartes: S. João, S. Gabriel, Santo André e Nossa Senhora. O fortim de S. Lourenço aparece erradamente como de S. António. De notar a referência à Entrada das Naus.

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Allain Manesson Mallet, (1630–1706). Mozambique na Description de L'Univers (1683) em 5 volumes.

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Imagem Google Earth

Mostrando a importância estratégica da ilha, Camões irá ainda referir a Ilha de Moçambique no Canto I, estrofe LXXVII, no Canto II, estrofe XVII, no Canto V, estrofe LXXXIV.

C.I - LXXVII

Isto dezendo, irado e quase insano,
Sobre a terra Africana descendeu,
Onde, vestindo a forma e gesto humano,
Pera o Prasso sabido se moveu.
E, por milhor tecer o astuto engano,
No gesto natural se converteu
Dum Mouro, em
Moçambique conhecido,
Velho, sábio, e co Xeque mui valido.

C.I - XCIX

O mesmo o falso Mouro determina
Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
Que a Ilha é possuída da malina
Gente que segue o torpe Mahamede.
Aqui o engano e morte lhe imagina,
Porque em poder e forças muito excede
À
Moçambique esta Ilha, que se chama
Quíloa, mui conhecida pola fama.

Canto II estrofe XVII

Na terra cautamente aparelhavam
Armas e munições, que, como vissem
Que no rio os navios ancoravam,
Neles ousadamente se subissem;
E nesta treïção determinavam
Que os de Luso de todo destruíssem,
E que, incautos pagassem deste jeito
O mal que em
Moçambique tinham feito.

Canto V estrofe LXXXIV

Assi que deste porto nos partimos
Com maior esperança e mor tristeza,
E pela costa abaixo o mar abrimos,
Buscando algum sinal de mais firmeza.
Na dura
Moçambique, enfim, surgimos,
De cuja falsidade e má vileza
Já serás sabedor, e dos enganos
Dos povos de Mombaça, pouco humanos.

A Ilha de Moçambique na poesia do século XX

No século XX o poeta Alberto de Lacerda (Carlos Alberto Portugal Correia de Lacerda 1928-2007), nascido precisamente na ilha de Moçambique escreve:

Moçambique

Ó Oriente surgido do mar
Ó minha Ilha de Moçambique
Perfume solto no oceano
Como se fosse em pleno ar

E descreve-a como:

L'ISLE JOYEUSE
Ó festa de luz de mar tranquilo
De casas brancas dum branco rosa
Dum tempo antigo que aqui ficou

Ó ilha pura incandescente
Que me geraste três vezes mãe
Três vezes para mim sagrada
Por teres deuses tão variados
Por seres livre da liberdade
Que os deuses gregos orientais
Marcam a fogo um fogo alegre
Naqueles seres naquelas ilhas
Que eles nomeiam seus próprios filhos
Por motivos sobrenaturais.

Rui (Manuel Correia) Knopfli (1932-1997) também ele poeta moçambicano, escreve em 1972 um livro de poemas e fotografias,“A Ilha de Próspero – Roteiro Poético da Ilha de Moçambique”, (edições 70, Lisboa 1989), chamando-lhe

Ilha dourada

A fortaleza mergulha no mar/os cansados flancos/e sonha com impossíveis/naves moiras

Tudo mais são ruas prisioneiras/e casas velhas a mirar o tédio

As gentes calam na/voz/uma vontade antiga de lágrimas/e um riquexó de sono/desce a Travessa da "Amizade"

Em pleno dia claro/vejo-te adormecer na distância,/Ilha de Moçambique,/e faço-te estes versos/de sal e esquecimento.

Ou descrevendo a Ilha de Moçambique, num outro poema:

Nenhum Monumento
Não são aparentes em ti as marcas de grandeza
nenhum monumento desfigura
ou altera a monotonia sem convulsões
do teu rosto quase anónimo.
A escassez de ogivas, arcobotantes.
rosáceas, burilados portais, cobra-la tu
na gravidade das tuas sombras
e do teu silêncio. Não vem sequer
da tua voz a opressão que cerra
as almas de quantos de ti
se acercam. Não demonstras,
não afirmas, não impões.
Elusiva e discretamente altiva
fala por ti apenas o tempo.

(CONTINUA)

2 comentários:

  1. Boa tarde.

    Antes de mais dou-lhe os meus parabéns pelo impressionante trabalho de detalhe que nos oferece neste seu blogue. Descobri-o há dias e já o percorri desde então do primeiro artigo ao último, pois muito do que apresenta interessa-me bastante.
    Sou natural da Poça da Barca, mesmo ao pé de Caxinas e na fronteira entre Vila do Conde e Póvoa de Varzim e dedico muito do meu tempo nos últimos anos a investigar as origens, evolução e características dos barcos de pesca da minha zona, os ditos "poveiros". Por isso no seu blogue encontrei com satisfação as análises detalhadas a gravuras antigas e referências aos ditos barcos de pesca no Douro. Ainda não tive acesso como quero ao imenso trabalho de Lixa Filgueiras, só em partes, havendo no entanto inúmeros outros autores para este assunto. A relação dos pescadores poveiros com o Douro é do maior interesse, tanto na construção naval, como nas "arribadas" e como tal, para descobrir as características dos barcos dos pescadores antes dos 1860s (data mais antiga que uma simples gravura da Póvoa me dá) só recorrendo ao Douro pude descobrir "poveiros" mais antigos, nas tais gravuras.
    Não sei se já esgotou as duas referências sobre este tema para o seu blogue, mas continuarei a segui-lo muito atentamente. Gostaria imenso de descobrir obras sobre os estaleiros de construção naval do Douro, pois sei que a certa altura se passou a construir barcos de pesca "em força", devido à crise no comércio, alturas do séc. XVIII, se não estou em erro. As características destes barcos feitos no Douro são o que mais gostaria de descobrir e se a mesma (construção) foi influenciada pelos poveiros.

    Atentamente,
    www.caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt

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