Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Apontamentos sobre terras, fortalezas e cidades em Os Lusíadas de Luís de Camões (4) I parte

DIU primeira parte

Os Lusíadas, a cidade que se segue no Canto II, na exaltação dos feitos dos portugueses por Júpiter, é Diu (Dio), na costa ocidental da Índia. A escolha de Camões não é por acaso. Por se enquadrar na estratégia de domínio do Índico, Diu que constituía a entrada da rica região da Cambaia, foi palco de combates heróicos na sua conquista e na sua defesa, entre os quais dois cercos, e que correspondem ao tom épico do poema de Camões, que entre 1553 e 1570 se encontrava no Oriente.

É assim que Camões no Canto II, pela voz de Júpiter, e depois de referir Ormuz, refere a inexpugnábil Diu e os feitos heróicos dos portugueses, quando por duas vezes foi cercada.

Canto II - estrofe L

Vereis a inexpugnábil Dio forte
Que dous cercos terá, dos vossos sendo;
Ali se mostrará seu preço e sorte,
Feitos de armas grandíssimos fazendo.
Envejoso vereis o grão Mavorte
Do peito Lusitano, fero e horrendo;
Do Mouro ali verão que a voz extrema
Do falso Mahamede ao Céu blasfema.

Diu e as suas batalhas, irão por isso, para além desta referência do Canto II, ser abundantemente cantadas por Camões, directa e indirectamente, no Canto X nas estrofes 35, 60, 61, 62, 64, 67, 68, 69, 70, 71 e ainda na 106.

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12. Diu (desde 1961 pertence à República da Índia)

(Nota – Sobre a cidade e a fortaleza de Diu, existe uma razoável bibliografia. Seguiremos os textos do professor Walter Rosa,em Cidades Indo-Portuguesas, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses Lisboa, 1997; e Walter Rossa, e outros, entrada DIU, volume Ásia e Oceania, coordenação de Walter Rossa, in Património de Origem Portuguesa no Mundo direcção de José Mattoso, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 2010.)

Diu, que significa "luz", era uma região na península de Guzerate (Gujarat) e uma ilha separada da península por um braço de mar, denominado Chassi.

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Lopo Homem ? / Pedro e Jorge Reinel ? Carta do Mar Índico de 1519, carta n.º 6 do Atlas Miller BnF

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O professor Walter Rossa, em Cidades Indo-Portuguesas, resume muito claramente o sítio de Diu:

Diu-território é uma ilha «pendurada» do Gujarat sobre a entrada do golfo de Cambaia, separada do continente pelo estreito braço de mar que a deli­mita a norte; Diu-cidade é a ponta oriental dessa ilha, delimitada do canal ao mar por uma soberba muralha de matriz muçulmana; Diu-fortaleza é o «bico da ponta» separado da cidade por um fosso cavado por determi­nação portuguesa. Vigilante, entre a ilha e o continente, um vaso de guerra petrificado, o Castelo do Mar.

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Diu-território é uma ilha «pendurada» do Gujarat sobre a entrada do golfo de Cambaia, separada do continente pelo estreito braço de mar que a deli­mita a norte

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Diu-cidade é a ponta oriental dessa ilha, delimitada do canal ao mar por uma soberba muralha de matriz muçulmana; goog3

Diu-fortaleza é o «bico da ponta» separado da cidade por um fosso cavado por determi­nação portuguesa.

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Vigilante, entre a ilha e o continente, um vaso de guerra petrificado, o Castelo do Mar.    (imagens Google Earth)

Breve resumo da história de Diu:

Diu, quando da chegada dos portugueses, era já uma importante cidade comercial.

1. Por isso os portugueses, desde a sua chegada à Índia, e apesar da vitória na batalha naval ao largo de Diu, tentaram, sem êxito, aí estabelecer uma feitoria, tendo sido alvo de diversas tentativas fracassadas de a conquistar pela força, quer por Afonso de Albuquerque em 1513, quer por Diogo Lopes de Sequeira em 1521.

2. Mas, como veremos, só em 1535, como recompensa pelo apoio militar ao sultão do Gujarat, os portugueses puderam instalar-se em Diu.

3. No entanto, logo em 1537, o sultão pretendeu reaver Diu, mas foi vencido e morto pelos portugueses. No ano seguinte uma coligação de exércitos cercou Diu, tendo deparado com uma heroica resistência dos portugueses comandados por António Silveira, no que ficou conhecido como o primeiro cerco de Diu.

4. Um segundo cerco será depois imposto a Diu, em 1546, saindo vencedores os portugueses, comandados desta vez, em terra por D. João da Silveira e, no mar, por D. João de Castro. Pereceram nesta luta Coge Çofar e D. Fernando de Castro (filho do vice-Rei português).

5. Depois deste segundo cerco, Diu foi de tal modo fortificada que pôde resistir, mais tarde, aos ataques dos árabes de Mascate e dos Holandeses (nos finais do século XVII).

6. A partir do século XVIII, declinou a importância estratégica de Diu, que veio a ficar reduzida a museu ou marco histórico da sua grandeza comercial e estratégica de antigo baluarte nas lutas entre as forças islâmicas do Oriente e as cristãs do Ocidente.

Diu permaneceu na posse dos portugueses desde 1535 até 1961, vindo a cair na posso das tropas da União Indiana, que invadiram todo o antigo Estado Português da Índia, no tempo de Nehru.

1. Diu no Canto X

Camões no Canto X, que pela voz da Sirene conta o que se passará com os portugueses nos anos posteriores à viagem de Vasco da Gama, num conjunto de estrofes, resume a história de Diu no século XVI e em particular, as batalhas em torno da fortaleza e da cidade de Diu.

No Canto X, nas estrofes XXXV e XXXVI

E logo, entrando fero na enseada
De
Dio, ilustre em cercos e batalhas,
Fará espalhar a fraca e grande armada
De Calecu, que remos tem por malhas.
A de Melique jaz, acautelada,
Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas,
Fará ir ver o frio e fundo assento,
Secreto leito do húmido elemento.

Mas a de Mir Hocém, que, abalroando,
A fúria esperará dos vingadores,
Verá braços e pernas ir nadando
Sem corpos, pelo mar, de seus senhores.
Raios de fogo irão representando,
No cego ardor, os bravos domadores.
Quanto ali sentirão olhos e ouvidos
É fumo, ferro, flamas e alaridos.

Camões evoca a chegada, logo em 5 de Janeiro de 1509, de D. Francisco de Almeida a Diu, como é referido por Fernão Lopes de Castanheda (? - 1559), História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, no Livro II. cap. XCVIII:

Capitolo XVIII. De como ho visorey fez tributario del rey de Portugal a Niza maluco señor de Chaul, e o q mais fez ate chegar a Diu.

E Camões refere ainda que D. Francisco de Almeida lutou contra as armadas, de Mirocém, do rei de Calecute, e de Meliquiaz, como aliás também refere Castanheda:

Capitol. CI. De como ho Viso rey pelejou no porto de Diu com Mirocem capitão mor do Soldão, & com a armada del rey de Calicut, & cõ a de Meliquiaz: & os desbaratou a todos. (Castanheda, História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses Livro II, Cap. CI).

De facto, junto a Diu, na costa de Cambaia, em 3 de Fevereiro de 1509, travou-se uma grande batalha naval, de importância crucial para o domínio do Índico e das suas rotas marítimas pelos portugueses.l417

Anónimo A Batalha de Diu 1509 É fumo, ferro, flamas e alaridos.

Walter Rossa e Nuno Grancho, (Diu volume Ásia e Oceania, Património de Origem Portuguesa no Mundo,Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 2010) escrevem :

“Comandados pelo vice-rei Francisco de Almeida, os portugueses destruíram uma frota comandada por Mir Hussein (Hussein Al Kurdi) e composta por forças do sultanato mameluco do Cairo e Alexandria, mercenários rumes e efectivos do samorim de Calecute e do sultão de Guja­rate, estes armados por Meliqueaz (Malik Aiyaz), antigo escravo tártaro que era o governante de Diu e, assim, vassalo daquele sultão.

A coligação inimiga, que há pouco mais de um ano patrulhava o Índico de forma a contrariar os propósitos portugueses e assim prote­ger os interesses mercantis muçulmanos, contava ainda com o apoio das repúblicas (católicas) adriáticas de Veneza e Ragusa.

Paradoxalmente, pelo menos para a historiografia tradicional, esse marco estratégico na história da pre­sença portuguesa no Oriente tem sido essencialmente assumido como resultado de uma mera vingança pes­soal do comandante português pela morte do seu filho, Lourenço de Almeida, um ano antes, no encontro naval entre as mesmas armadas frente a Chaul, cujo resul­tado foi desastroso para os portugueses, asserção essa que é suportada por factos e fontes credíveis.”

Mais adiante no Canto X, Camões inicia um conjunto de estrofes sobre Diu.

Estrofe LX

E não menos de Dio a fera frota,
Que Chaúl temerá, de grande e ousada,
Fará, co a vista só, perdida e rota,
Por Heitor da Silveira e destroçada;
Por Heitor Português, de quem se nota
Que na costa Cambaica, sempre armada,
Será aos Guzarates tanto dano,
Quanto já foi aos Gregos o Troiano.

Camões refere Heitor da Silveira, encarregado pelo governador de destruir em Bombaim, a armada de Diu. Heitor da Silveira foi amigo de Camões, que com ele terá colaborado nas trovas chamadas Convite e numas trovas mandadas por Heitor da Silveira ao 3º conde de Redondo, D. Francisco Coutinho (1517-1564) 8º vice-rei da Índia de 1561 a 1564. Assim na publicação “OBRAS DO GRANDE LUIS DE CAMÕES. Principe Dos Poetas De Hespanha. TOMO QUARTO.TERCEIRA EDIÇÃO, DA QUE, NA OFFICINA LUISIANA, SE FEZ EM LISBOA NOS ANNOS DE 1779, E 1780”, são atribuídos a Camões estes versos sobre Heitor de Silveira, a quem compara com o Heitor, das guerras de Tróia:

Ajuda de Luis de Camões.

Nos livros doutos se trata,                                                                           Que o grande Achilles insano                                                                            Deo a morte a Heitor Troiano;                                                                         Mas agora a fome mata                                                                                       O nosso Heitor Lusitano.

Só elle o póde acabar,                                                                                          Se essa vossa condição,                                                                                       Liberal, e singular,                                                                                                 Não mete entre elles o bastão,                                                                         Bastante para o fartar.

Camões dedica aliás,ao próprio D. Francisco Coutinho uma Ode, sobre o livro de Garcia da Horta,

…Posto o pensamento                                                                                         

Ocupado tenhais na guerra infesta.                                                               Ou co sanguinolento                                                                                             Taprobano, ou Achém, que mar molesta,                                                   Ou co Cambaio, oculto imigo nosso,                                                  Que qualquer deles teme o nome vosso;…                                           (Ode VIII, Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão, Porto 1970)

Castanheda também refere Heitor da Silveira “Da guerra que Eytor da Silveira fez em Cambaya” (Castanheda, VII.XCVII);

Na estrofe seguinte, a LXI, Camões refere o filho de Tristão da Cunha (c. 1460 — c. 1540), Nuno da Cunha (1487-1539), que sucedeu a Sampaio (Lopo Vaz de Sampaio, ?- 1534, governador da Índia de 1526 a 1529), e que não tendo conseguido tomar Diu, foi construir uma fortaleza em Chale. Nuno da Cunha foi o 10º Governador da Índia de 1529 a 1538.

Estrofe LXI

A Sampaio feroz sucederá
Cunha, que longo tempo tem o leme:
De Chale as torres altas erguerá,
Enquanto
Dio ilustre dele treme;
O forte Baçaim se lhe dará,
Não sem sangue, porém, que nele geme
Melique, porque à força só de espada
A tranqueira soberba vê tomada.

Fernão Lopes de Castanheda conta o episódio na sua História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, Livro VIII, cap. XLIII: De como ho governador começou a fortaleza de Chale.

Vendo ho governador q não podera tomar Diu, determinou de emendar este avesso co fazer hua fortaleza é Chale…

E Gaspar Correia, no Livro III, Capítulo XXVIII - Do fazimento da fortaleza no rio de Chala, junto do Reyno de Calecut, chamada Santa Maria do Castelo.

Camões na mesma estrofe refere ainda o forte de Ba çaim e  o seu governador muçulmano Melique, como também refere Castanheda no Livro VIII, Cap. LXIL: “De como ho governador determinou de yr sobre a fortaleza de Baçaĩ ...”, e no  livro VIII cap. LXI refere  “De como Diogo da silveyra, Martim Afonso de Melo jusarte: & Manuel d’Albuquerque desbaratarão a trãqueyra dos imigos”

Na estrofe seguinte, a LXIII, Camões refere Martim Afonso de Souza (c. 1500-1571), que sucedeu ao filho de Vasco da Gama, Estêvão da Gama como Governador da Índia, de 1542 a 1545, mas que havia estado já no Brasil onde venceu uma armada francesa em 1531, e na Índia onde chegado em 1534, tinha conquistado Damão.

Das mãos do teu Estêvão vem tomar
As rédeas um, que já será ilustrado
No Brasil, com vencer e castigar
O pirata Francês, ao mar usado.
Despois, Capitão-mor do Índico mar,
O muro de Damão, soberbo e armado,
Escala e primeiro entra a porta aberta,
Que fogo e frechas mil terão coberta.

2. A cidade e a Fortaleza de Diu na primeira metade do século XVI

Na estrofe LXIV, Camões refere de novo Nuno da Cunha Martim de Sousa, a quem foi permitida a construção da fortaleza de Diu, e Martim de Sousa que a construiu,  por Badur, rei de Cambaia, como prémio pelo auxílio que os portugueses lhe deram quando perseguido pelos Mogores.

A este o Rei Cambaico soberbíssimo
Fortaleza dará na rica
Dio,
Por que contra o Mogor poderosíssimo
Lhe ajude a defender o senhorio.
Despois irá com peito esforçadíssimo
A tolher que não passe o Rei gentio
De Calecu, que assi com quantos veio
O fará retirar, de sangue cheio.

Em 1534, o rei de Cambaia, Bahadur Shah, (o sultão Badur) em perigo de ser derrotado pelo Grão Mogol, Humayun, pede auxílio aos Portugueses, que lho concedem e em paga o sultão permite, finalmente, a construção de uma fortaleza em Diu, cujas obras se iniciam logo em 1535.

Esta cedência é contada pelos cronistas da época:

Diogo Couto nas Décadas da Ásia, Anno 1536

(…) Mas estãdo as cousas neste estado, socedeo um caso muito opportuno pera boa felicidade & dita d’Elrey de Portugal: este foi, que Hamaú Paxa Rey de Carmania veyo cõtra o Badur Rey de Cambaya (naõ sei por q causa) (…)

(…)Pelo q sahindolhe Badur secretamëte do arrayal com sua família & riquezas, & cõ todo o móvel de sua casa real se foi acolher a cidade de Diu, fortaleza muito segura mais pera ser vista de longe, que pera se combater de perto, pêra q nella os Portugueses fossem a sua total defensaõ.

Esta fortaleza se entregou com todas as suas cousas a Nuno da Cunha Governador da India em nome d’Elrey de Portugal. Desta maneira socedeo q os Portugueses naõ somente tivessem a cidade de Diu, por tanto tem desejada, mas ainda a de Baçaim cidade insigne, chea de muitas riquezas, cõ o seu próprio Rey, & todo o reino que era terror da India.(…)

E nas Décadas V, Livro II, refere “Aconteceo neste tempo dar Soltão Badur Rey de Cambay licença ao Governador Nuno da Cunha pera fazer fortaleza em Diu, cousa que tanto desejava,& por tantas vias se pretendia pera mor segurança do estado da India.”

Apesar de publicado em 1556, o livro de Lopo de Sousa Coutinho (1515-1577) “Do cerco de Diu, que os Turcos poseram á fortaleza de Diu…”constitui um relato de quem esteve em Diu nos anos 30 do século XVI. Lopo de Sousa Coutinho partiu para o Oriente em 1533, na esquadra comandada por Pedro de Castelo Branco, e participou activamente no 1º cerco de Diu, que depois relatou, nessa obra intitulada “Do cerco de Diu, que os Turcos poseram á fortaleza de Diu. Per Lopo de Sousa Coutinho : fidalgo da casa do Inuictissimo Rey dom Ioam de Portugal : ho terceyro deste nome. MDLVI”. Nela escreve:

Capitolo septimo de como Soltam Bhadur mandou chamar Nuno da Cunha Governador da India, pera lhe dar fortaleza em Diu.

(…) E praticando se da saude do reyno, & delles foy el Rey aconsselhadoque desse aos Portugueses lugar naquella cidade pera fazerem hüa fortaleza: que segundo delles era desejada, levemente lhe dariam ajudas pera bem de sua defenssa.(…)

Capitolo nono de como Soltam Bhadur assinou lugar pera se fazer a fortaleza. E dos pautos que fez com o Governador.

(…) Primeyramëte q elle Soltão dava a el Rey de Portugal seu irmaõ & amigo lugar ë aqlla sua cidade, ë que fizesse hüa fortaleza, o qual lugar qria que fosse naquella parte da barra & entrada.

Isso mesmo lhe dava o Baluarte do mar, tirãdo porë a artelharia, q em ella estava,& no da barra: cõ tal condiçã q na cidade, në regimëto della, në ë cousa algüa da fortaleza e fora, teria nhü mãdo në auçã.

Lopo de Sousa Coutinho após o seu regresso da Índia foi nomeado governador do forte da Mina, cargo que ocupa por muito pouco tempo. Faleceu quando desastradamente ao desmontar de um cavalo caiu sobre a sua própria espada. Para além Do Cerco de Diu, escreveu Empresas dos varões illustres da India. O seu filho foi o escritor Frei Luís de Sousa (Manuel de Sousa Coutinho), que conhecemos da obra de Almeida Garrett.

Também Francisco de Paiva de Andrada (Andrade) (1540?-1614) que foi cronista-mor do reino e guardador-mor da Torre do Tombo, e autor de Vida e Feitos de D. Vasco da Gama e Crónica do muito alto e muito poderoso Rei destes Reinos de Portugal D. João III deste nome (1613), escreveu sobre o primeiro cerco de Diu, uma por que se tornou conhecido. Trata-se de uma crónica em verso de vinte cantos, intitulada  “O Primeiro Cerco que os Turcos puserão há fortaleza de Diu nas partes da India, defendida pollos Portugueses por Francisco Dandrada MDLXXXIX “  e publicada em 1589,

Nela Francisco de Andrada intitula o seu Canto V – “Declarase a origem & assento da cidade de Diu. E o Governador edifica nella üa fortaleza. Dá algumas ajudas ao Soltão : elle vay cõtra os Mogores. O Governador se torna invernar a Goa.”

O mesmo episódio é referido por Fernão Lopes de Castanheda, no Livro VIII, acrescentando a necessidade de construir a fortaleza rapidamente, antes que o Sultão mudasse de ideias, o que aliás, como veremos, veio a acontecer:

CAPIT. XCIX De como el rey de Cãbaya foy acóselhado q desse fortaleza em Diu ao governador.

CAPIT. CVIII - De como foy começada a fortalez de Diu, pelos Portugueses.

“Ho Governador q estava em Diu, cõ negocios que teve & em ajuntar pedra cal & madeyra, não pode começar de fazer a fortaleza se não em Novëmbro, & despois de ouvir missa cõ todos os capitães & fidalgos cõ grande estrondo dartelharia, & arroído de trõbetas, & alegre som de charamelas: assentou a primeira pedra desta fortaleza, com luytas moedas douro debaixo dela. E a pos ele os outros capitães & fidalgos, que todos cõ muyto prazer trabalhavão, por aver tanto tëpo que esta fortaleza era necessaria pera conservaçã do estado da Índia: por ser a principal porta por onde os Turcos podiã entrar. E coela ficou de todo fechada, como direy “

CAPIT. CXXVI - De como foy acabada a fortaleza de Diu, & foy começada a de Baçaim.

…Ho Governador q fazia a fortaleza em Diu se deu tãta pressa em a fazer – que a acabou quasi, em quorenta & e nove dias de trabalho, q foy na fim de Fevereiro de mil & quinhetos & trinta & seys anos, & acabada pos lhe nome Sã Thome, & ficou de trezentas & cincoenta braças ë roda, & de figura triãgular, & tinha os muros de grossura de dezoyto pés, & daltura de trita palmos cõ as ameas, tinha quatro baluartes, os tresem triãgulo, & o outro no meo, entulhados ate ho primeyro sobrado, abertos pola banda de dentro & descubertos & cercada de cava, muyto forte & bë artilhada, & ficou feito ho cavouco pa hüa cisterna muyto grãde.(…)

Fernão Lopes de Castanheda na sua Historia do Descobrimento e conquista da Índia pelos Portugueses Livro II Capitulo LXXV, confirma esta cedência e descreve ainda a cidade de Diu:

“…que el rey de Cãbaya lhe deu por ser muyto grande seu privado: & alem de Diu pera ho norte lhe deu as cidades de Mangalor & Patane, & na enseada de Cambaya, Guoga, Çurrate, & Reynel, cidades ricas. E cõ ser senhor delas & Almirante do mar tinha hü conto douro de rëda, sua estada era sempre ë Diu, q he a melhor de toda a costa de Cãbaya.(…) Persea lhe chama Diu, & os índios Debixa : está situada em hüaa das põtas da enseada de Cambaya da banda do norte que ho mar cortou, & fez hüa pequena ilha quasi pegada cõ a terra firme : & tanto que dela pera a cidade se servem por hüa ponte de pedra : a cidade esta ë vinte & três grãos seria do tamanho de Evora cercada de bõs muros fundados da banda do ponëte sobre hüa grande & alta rocha em que bate ho mar, & da banda da terra tinha hü baluarte füdado nagoa, de que atravessava hüa cadea de ferro muyto grossa aos muros da cidade, que se levantava & abaixava com cabrestãtes, & coela se çarrava ho porto de maneyra que as nãos questavã dëtro ficavão muyto seguras, & não podião entrar nele estrangeyros sem lhe abayxarem a cadea. São todas as casas desta cidade de pedra & cal, & de sobrados, tem muyto bõ porto & limpo, salvo que të na entrada hü banco : he povoada de muytos mercadores, mouros & gentios. E por isso he de grande trato, & mayor que todas as cidades da costa de Cambaya, que era causa de rëder muyto a el rey de Cambaya.”

Para o fim, não seguindo uma ordem cronológica, vejamos o relato de Gaspar Correia, porque para além de descrever os acontecimentos que levaram à edificação da fortaleza, acompanha-os com um desenho de Diu.

Gaspar Correia nas Lendas da Índia Livro III, escreve que o Governador da Índia Nuno da Cunha, faz um quase ultimato ao sultão, no sentido de edificar a fortaleza:

“…o Governador mandara ELRey de Portugal ordenadamente pera que trabalhasse quanto pudesse por paz, pera fazer huma forteleza em Dio, e esto pera somente ter a India segura dos rumes, porque tendo forteleza em Dio, e estandode paz com ElRey de Cambaya, os rumes nom ousarião de passar á India; e porque ElRey de Portugal era senhor do mar, mandara ao Governador que nom podendo aver forteleza em Dio por paz, que então guerreasse o mar, e destroysse quanto achasse, e principalmente a cidade de Dio; e que dando forteleza em Dio assentasse paz pera sempre, assy como quisesse ElRey de Cambaya ; e que a isso o mandara o Governador, por lhe todo esto noteficar e saber sua vontade.”

Gaspar Correia descreve depois, as negociações com o sultão:

CAPITULO XLIV

COMO O GOVERNADOR SE CONCERTOU PERA HIR A DIO VERSE COM ELREY DE CAMBAYA SOBRE CONCERTO DE DAR FORTELEZA

E logo que se obteve a “autorização” de Badur, o início quase imediato da fortaleza a sua e rápida construção e descrição:

CAPITULO LXI

COMO MARTIM AFONSO E SIMÃO FERREIRA, AMBOS JUNTOS, CHEGARÃO A DIO E SE VIRÃO COM BADUR, QUE DEU O LUGAR PERA A FORTELEZA, DE QUE LOGO MARTIM AFONSO SE APOSSOU. ANNO DE 1535

(…) O Governador dava grande pressa á obra, porque ElRey o muyto apressava que acabasse, pera entender em seus trabalhos. Cada dia chegavão a Dio navios carregados de gente e monições pera fazimento da forteleza; com que o Governador dobrou o trabalho, em meteo os portugueses, que eram quatrocentos, e lhe vinha o trabalho de três em três dias, que com os officiaes trabalhadores cada dia trabalharão passante de mil pessoas, e a cal era amassada com a terra, que era barrenta, que liava muyto. E deixou o vão de dentro da forteleza para se fazerem gasalhados para seis centos homens, que o Governador assentou sempre estarião d’assento na forteleza ;(…)

(Nota – todas as imagens antigas de Diu, são executadas de norte, já que era por aí que se realizavam, a aproximação de barco e a entrada da barra.)

Analisemos a imagem de Diu que Gaspar Correia insere no seu livro Lendas da Índia.

No desenho de Gaspar Correia a Fortaleza não está destacada da cidade, e engloba toda a área edificada.

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Gaspar Correia refere que “… o muro se fez pola frontaria da parte da cidade, porque da banda do mar era penedia de grandes Piçarras muyto altas.”, já que “ A muralha urbana preexistente cercava a cidade pelo lado de terra e do canal, sendo que do lado do mar apenas uma enseada necessitou da construção de dois baluartes (sendo um o dos Excomungados) e cortinas, pois o resto da costa era alcantilada e, assim, impossí­vel para o desembarque.” (Walter Rossa e Nuno Grancho, na entrada Diu, volume Ásia e Oceania, in Património de Origem Portuguesa no Mundo Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 2010)

Lopo de Sousa Coutinho no seu “Do cerco de Diu, que os Turcos poseram á fortaleza de Diu…” escreve: “Cercou entam a cidade muyto mayor do que apovoaçam era, de bom muro & cava: metendo dentro do dito muro aquella ponta, que estava na entrada do rio da parte do Levante. Lançando o muro pella banda da costa do mar ate onde se chama o Baluarte de Diogo Lopez de Silva (que depois aly se fundou). E daly cortando a dita Ilha dereyto ao rio pondonos lugares necessarios Baluarte e torres.”

E continua Gaspar Correia a sua descrição da fortaleza:

“…No panno do muro se fizerão cinco cubelos redondos, entulhados até o andar das amêas,…l403p

ficando a porta pera cidade junto da borda do rio, sobre que se fez huma torre sobradada, de que cahia huma grossa porta d’ alçapão. “

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…E outra torre quadrada se fez no outro cabo do muro sobre a barroqã, onde avia hum pequeno postigo, com huma sotil ponte de madeira delgada que atravessava a outra banda da cidade, como n’este papel parece.(…)

Ma imagem estão assinaladas a capela de S. Tiago e o baluarte de S. Tomé, depois chamado de Cavaleiro.l403o

Completava esta estrutura militar o Baluarte do Mar (Panikotha) que “… já existia à data da instalação militar portuguesa em Diu. Foi, aliás, o primeiro posto cedido pelo sultão aos portugueses, o qual funcionou então como alojamento das chefias.” (W. Rossa e N. Grancho op. cit.).

Lopo de Sousa Coutinho “Do cerco de Diu, …” : “… Desta maneyra lãçouse hü pano de muro da costa do mar a hü alto q se ali faz, & sobre elle se fundou hü grande & fermoso Baluarte redõdo entulhado, o ¨ql tinha novëta palmos ë diametro: & fezse pouco mais alto q o outro muro: & pos se lhe nome São Tome, por ser começado em seu dia. E dali se estendeo outra vez ho muro dereyto ao rio: & antes q chegasse a agoa tres ou quatro lanças acabou, fazëdo outro grã Baluarte, q tinha sessenta palmos ë diametro, & pos se lhe nome de Santiago: & antre estes dous baluartes, junto deste menor, ficou a porta da fortaleza cõ sua couraça de rosto pera a cidade.”

Lopo de Sousa Coutinho no “Do cerco de Diu, que os Turcos poseram á fortaleza de Diu…” :

“…E mais dentro polla mesma parte do rio fez outro Baluarte que chamam o da Couraça, do qual saya hüa grande & grossa cadea pera o Baluarte do mar, que de fronte deste , a qual a força de cabrestantes erguiam & abayxavam. Fundou outrossy sobre hüa restinga de pedra, casi està ameyo rio na boca da barra, o Baluarte do mar que dibno, degrande & demasiado comprimento. E nomeyo delle hüa torre de menagem.”

Fernão Lopes de Castanheda, confirma a imagem de Gaspar Correia: “… & da banda da terra tinha hü baluarte füdado nagoa, de que atravessava hüa cadea de ferro muyto grossa aos muros da cidade, que se levantava & abaixava com cabrestãtes, & coela se çarrava ho porto de maneyra que as nãos questavã dëtro ficavão muyto seguras, & não podião entrar nele estrangeyros sem lhe abayxarem a cadea….”

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“A construção da muralha urbana e do Panikotha devem-se, muito provavelmente, à iniciativa de Meliqueaz (Malik Aiyaz), o governante de Diu à data dos assédios e da ocupação portuguesa, pois como relatou João de Barros na Década Segunda da sua Ásia "era homem experto, e prudente, com sua industria a fez tão celebre, per trato de mercadoria, que alem do que cada hum anno pagava a El-Rey de tributo, se fez um riquissimo homem, com que fortaleceo e nobreceo a Cidade de muros, torres, e baluartes principalmente depois que nós entramos na índia." (W. Rossa e N. Grancho op. cit.).

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No desenho de Gaspar Correia a Casa do Capitão “ junto e controlando a entrada aberta a um cais sobre o canal, com o Balu­arte do Mar - localmente designado por Panikotha -em frente” (W.R e N.G. op.cit.)

Gaspar Correia refere a propósito do cerco de Diu, um baluarte de São Thomé,( depois do Cavaleiro), um baluarte de Garcia de Sá,  (baluarte de S. Tiago) um muro d’anteambos, um muro que corria do baluarte São Thomé pera o mar, um muro das suas casas (do Capitão),  um muro da feitoria,  a couraça da torre do mar e um baluarte da roca.

A imagem do “Roteiro Da costa do norte DE GOA, ATE DIO” de João de Castro, 1539

Num primeiro desenho intitulado “Tavoa de Dio” , algo esquemático, João de Castro aponta o essencial de Diu: a fortaleza na extremidade oriental, a cidade rodeada por uma muralha, excepto a sul onde a costa escarpada não permite o acesso, o baluarte do mar e o porto. No primeiro plano correspondente à terra firme a aldeia de Gogolá, rodeada de uma paliçada.

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Na edição de 1539, encontramos um desenho colorido, sensivelmente correspondente à “Tavoa”, mas com um desenho mais detalhado e mais preciso.

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D. João de Castro "Tavoa de Dio" , imagem do Roteiro Da costa do norte DE GOA, ATE DIO. No qual se descrevem todos os portos, alturas, sondas, demarcações, diferenças de agulha que há em toda esta costa. Composto pello grande Dom João de Castro governador & vizorey que foy da India. 1539

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O pano ocidental da muralha é desenhado com os seus baluartes e com o fosso (cava) separando a cidade das aldeias que se estendem pelas dunas e colinas da ilha.

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A cidade. Castanheda refere que “…São todas as casas desta cidade de pedra & cal, & de sobrados, tem muyto bõ porto & limpo, salvo que të na entrada hü banco : he povoada de muytos mercadores, mouros & gentios.”

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Ao centro da imagem abrindo para um largo, a mesquita. Sobre o rio os cais e o guindaste.

A fortaleza

W. Rossa e N. Grancho escrevem: 

“No extremo leste da ilha localiza-se a fortaleza feita pelo conhecido processo de atalho, ou seja, a constru­ção de uma muralha que seccionou parte da cidade, a qual passou a ser reservada como último reduto defen­sivo.(…)

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(…) Existia ali um dis­positivo do sistema defensivo instalado sob o comando de Meliqueaz.  Gaspar Correia refere uma "torre da barra, que está defronte do baluarte do mar".

E prosseguem descrevendo a representação de João de Barros:

“Em nossa opinião, o que surge representado no desenho de João de Barros e cuja construção não é referida por nenhum dos cronistas, já lá estaria quando os portugueses se lançaram na formação - pois assim não foi uma cons­trução integral - da fortaleza.

Tal consiste, precisa­mente, num dispositivo de terraços e cais - uma espé­cie de dois baluartes que, na sua algo confusa descrição de 1539, João de Castro cataloga como couraças e lajes - articulados por uma alta torre do lado do canal frente ao Baluarte do Mar…”

(Walter Rossa e Nuno Grancho, na entrada Diu, volume Ásia e Oceania, (in Património de Origem Portuguesa no Mundo Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 2010)

Ao centro da fortaleza uma grande cisterna, que veio a revelar-se da máxima importância durante os cercos.

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Deuchande Narare mestre – fez 1894, modelo em pedra da Fortaleza de Diu, Museu da Marinha Lisboa

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“A ponta continental do outro lado do canal e da ponte é Gogolá, aldeia sobre uma restinga de areia com cerca de dois quilómetros quadrados, que sempre esteve integrada nos domínios da ilha.” (W.R e N.G. op.cit.)

“Uma forte estacada de madeira sobre um molhe artificial preexistente, desenvolvidos entre o Baluarte do Mar e a Península de Gogolá, resolviam o problema do acesso pelo lado norte do mesmo, dispositivo reforçado pelo baluarte redondo que os portugueses cedo - em 1538 -ali ergueram, depois de terem arrasado uma muralha preexistente.” (W.R. e N. G. op.cit.)

Estas duas imagens, de Gaspar Correia e de João de Castro, apesar de algo confusas e até contraditórias, dão sensivelmente o aspecto de Diu, quando foi cercada  em 1538.

3. A morte de Badur e o 1º cerco de Diu 1537/38

Voltando atrás no Canto X e referindo a estrofe LXII, Camões fala do 1º cerco de Diu, cuja fortaleza era então comandada por António da Silveira e  que a  heroicamente defendeu das forças do rei de Cambaia, coligadas com as de Sulimão da Turquia e comandadas por Coge Çofar.
Camões refere ainda D. Garcia de Noronha (1479- 1540) 3º vice-rei e 10º Governador da Índia de 1526 a 1529, que ainda mandou a Silveira uma armada, que no entanto quando chegou, já o cerco havia terminado.

Canto X estrofe LXII

Trás este vem Noronha, cujo auspício
De
Dio os Rumes feros afugenta;
Dio, que o peito e bélico exercício
De António da Silveira bem sustenta.
Fará em Noronha a morte o usado ofício,
Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta
No governo do Império, cujo zelo
Com medo o Roxo Mar fará amarelo.

Camões, no final da estrofe refere ainda, que pela morte de D. Garcia de Noronha lhe sucede Estêvão da Gama (c. 1505-1576), filho de Vasco da Gama (um teu ramo…). Foi Governador da Índia de 1540 a 1542. Em 1541 comanda uma frota contra o paxá do Egipto e envia um exército para o mar Vermelho, contra os Otomanos na Etiópia (Com medo o Roxo Mar fará amarelo.)

Também os Rumes a que o poeta se refere, eram os turcos europeus cujo nome era dado pelos maometanos da Índia.

Diogo Couto na sua parte das Décadas da Ásia  IV. Livro VIII.cap. IX, explica : Da differença que há entre os Rumes, & Turcos : & por que se chamão Rumes. E do que fez o Governador Nuno da Cunha, & de como Diogo da Sylveira foi com hüa armada ao estreito.”

“Os Rumes são todos aquelles naturaes da província de Tracia, & d’ aquella parte de Cõstantinopla que se chamou Romania, d’ aquelle privilégio que o Papa Sylvestre concedeo ao Emperador Constantino (segũdo Platina) que querendo gratificar aquelle Emperador quando lhe largou a cidade de Roma, pera n’ ella assentar a cadeira de são Pedro, mudandose para Constantinopla, mandou que aquella cidade se chamasse d’ ali por diante Roma, concedendolhe grandes privilegios, & liberdades… Dali por diãte se ficou chamando toda aquella parte de Tracia, Romana, & seus naturaes Romanis: & os Turcos depois corrompendolhe o nome lhe chamarão Rumeli, & nos depois Rumes”

O 1º Cerco de Diu

Aquilo que os portugueses receavam, que construída a fortaleza de Diu o sultão Badur, vendo que não corria mais perigo - depressa se arrependesse e quisesse anular aquela concessão - veio de facto a concretizar-se.

Assim o relata Gaspar Correia nas Lendas da Índia, Livro IV, Tomo IV da Crónica dos Feitos que se Passarão na Índia do Ano de 1538  até ao anos de 1550.

No Cap. LXXV – Do arrependimento que mostrou o Badur por ter dado a forteleza, vendo que os Mogores se hiã e Cambaya ficava livre .

…Mas o Badur, como já tinha certeza que o Mogor se avia de hir, e jatinha mais coração, mandou dizer que pois dizia que a forteleza era sua, e tinha pera com ella o servir, que era sua vontade que mandasse tapar as bombardeiras, e que logo o fizesse…

E Gaspar Correia relata depois os preparativos feitos pelo Sultão para atacar Diu, e como António da Silveira e D. Garcia de Noronha, sabendo disso se preparam também para a defesa da fortaleza.

Capitulo IV – Da Armada que o Visorey ajuntou na barra de Goa, pera o secorro de Dio, que estava cerqado dos Rumes; e os catures que entrarão per antre as gales, durando o cerquo. E Capitulo XIII – De como o capitão da forteleza proveo a forteleza da banda do combate, e proveo o Baluarte do mar; e dos combates que se derão  a forteleza.

Quanto a Fernão Lopes de Castanheda escreve sobre o Sultão Badur:

“…que quatro vezes se lhe pelarão os cabelos brãcos, & outras tantas lhe tornarão a nacer pretos, & por tãtas vezes lhe cayrão os dentes, & lhe tornarão a nacer. E q tevera setecentas molheres. E o governador lhe mãdou ver o pulso por hum medico, que lho achou muyto esforçado, & no rosto & na fala homé de setenta annos, & tinha pouca barba & essa preta, era denação Bégala, de casta de gëtios, & avia muytto que se tornara mouro.” 

E apresenta a sua própria versão do “arrependimento” do Sultão, que deu origem ao 1º cerco de Diu:

CAPIT. CLI - Dü ardil cõ que el rey de Cambaya quisera negar a fortaleza de Diu & não pode.

(…) El rey de Cambaya (como disse atrás) estava muyto arrependido de dar fortaleza em Diu ao Governador determinou de a tomar, pera o que quisera fazer o muro ãtre a cidade & a fortaleza, que lhe o governador não cõsentio :

(…) Ho governador esteve ainda em Diu quasi ate fim de Março, & antes de se partir o capitão de Diu lhe disse secretamëte, que não se fiava del rey de Cãbaya por ser muyto inconstante & cruel, & que receava que lhe quisese fazer mal, como fazia a outros q lho não merecião…

A morte do Sultão Badur

O sultão vai encontrar-se com o Governador, a bordo de um galeão, e à saída, é perseguido, cai à água e é morto.

Castanheda escreve: Capitulo CLXIIII. De como el rey de Cambaya foy ver ho governador ao galeão.

“…E sabendo el rey que o governador ya doente, o quis yr ver, parecendolhe que o segurava co isso: & assi como vinha da caça se embarcou em hüa fustinha, levãdo consigo Coge çofar, & hü seu filho, que avia nome Rumecão, & dous gërros, hü chamado ho Tigre do mundo, outro Carecem, & ho seu secretario, & Langacão grãde senhor, que tinha hü cõto douro, &João de santiago lingoa & outros cinco mouros, todos capitães & grandes senhores

Depois do encontro no Galeão, começa uma perseguição ao escaler do Sultão, que se atira à água, quando o barco em que seguia é atingido por um petardo.

Castanheda narra desta maneira a morte do Sultão, no Capitulo CLXV - De como foy morto el rey de Cambaya

…& como nisto vazava a maré & deitasse a fusta pera fora, por mingoa dos remeiro que faltavã, & el rey visse que a nossa armada se chegava, pareceolhe que melhor se salvaria a nado, & por isso se deitou com os outros ao mar, & nadando chegou hüa fusta de que era capitão hü Tristão de payva de Santarem  a quem el rey bradou em sua lingoa que o não matassem que era el rey de Cãbaya, & q daria muyto dinheyro a quë o salvasse, & segururandoho Tristão de payva lhe deu hü remo a q se pegou, & depois de pegado ao remo, lhe deu outro cõ hüa chuça pelo rosto & lho atravessou: & vendoho Tristão de payva ferido, acabouho de matar cõ hüa espada, de pois se foy ao fundo q nüca pareceo, & Sãtiago foy ter nadãdo até junto do baluarte do mar, donde hü Portugues lhe deu cõ hü canto na cabeça de q logo morreo, & assi  forão mortos todos os outros, salvo Coge çofar, q ferido na cabeça de duas feridas o salvou Antonio de souto mayor porq o conhecia. E este foy o fim del rey de Cãbaya, tamanho senhor de terras, , & tesouros, q se escapara vivo cõ saber q os Portugueses o querião matar lhes dea muyto trabalho, por ter passante de cincoëta mil homës em Diu, & armada & artelharia: mas nosso Senhor q ouve piedade dos Portugueses permitio q o matassem, vëdo o descuydo q ouve de o prenderë tendoho na mão, & sabendo a treyção que queria fazer, & o odio que tinha aos Portugueses.”

No “Capítulo doze – da morte & desestrado fim de Soltam Bhadur Rey de Cambaya, & de outros senhores seus vassallos” Lopo de Sousa Coutinho descreve minuciosamente o encontro no galeão, referindo que o sultão vinha “vestido em trajos de monte de huü pano verde: & na cabeça hüa touca preta; & hüa adaga douro na cinta.”

Estava acompanhado por “…Coje çofar Italiano arrenegado, a q el Rey se mostrava affeyçoado, por amor de hum filho gentil moço: & lhe tinha dado Currate com suas rendas & absoluto mando, que era hüa boa villa. Vinha mais hü genro do dito Coja çofar que era avido por valente homë, & tal se mostru esse dia Ianicero de naçam, homé grande & bem desposto, a quem o povo chamava o Tigre do müdo: & outros todos com suas armas acostumadas.”

E no final do capítulo Sousa Coutinho relata o fim de Badur:

“…vendo el Rey, sua ultima ora chegada, lançou se ao mar, cuydando que ho nadar ho salvasse, & assi ho fizeram os que com elle yam, como a agoa ali tinha muyta força, cada vez ho chegava mais aos nossos navios. De maneyra, que sendo junto de hüa fusta, bradou o triste que era el Rey que ho nam matassem: vinha em ella hum cavaleyro por nome Tristam de payva, natural de Santarem, o qual quando conheceo ser el Rey fez chegar a fusta pera ho recolher: mas elle temendo a morte, toda via se arredava, & pedia que ho nam matassem: tanto ho segurou Tristam de payva  atee que se chegou, & appegou a hum remo da dita fusta. E vindo elle pera ho meter dentro, de outro homem que na mesma fusta vinha, foy ferido com hüa chuça pelo rosto, & atras aquella lhe deu outras, & assi nam faltaram outros que ho mesmo fizeram atee que finalmente lhe acabaram a vida, ficando morto sobre a agoa, hum pouco despaço & foyse ao fundo, donde nunca mais foy achado.”

E finalmente Francisco de Andrade, no seu“O Primeiro Cerco …”  no  “CANTO SEPTIMO - Tratase de se dar a morte a Soltão Baudur Rey de Cambaya. Contãose algumas cousas notáveis que aconteceram neste meyo” põe em verso:

Eu sou Baudur que tanto desejáveis,                                                           Brada, vendose em tal necessidade,                                                              Mas se os desaventurados miseráveis                                                          Que sentem da fortuna a crueldade                                                               Nos mais fermos peitos, & intratáveis                                                          Brandura acharam sempre & piedade,                                                        Em vós agora ó nobres Lusitanos                                                                   Nã me falte esta aun pois sois humanos.

Dum remo noutro Paiva vai saltando                                                           Chega háquelle onde vé q o Soltão pede,                                                     Qu’inda o esta pola vida importunado,                                                        E porventura darlha então pretende,                                                           Dentro queria já metelo, quando                                                                    Outro mais cruel, hüa chuça estende.                                                           Mas porq sey que aqui já muito tarde                                                           O sucesso para outro Canto guardo”

E assim prossegue no “CANTO OITAVO - Acabase de dar a morte ao Soltão, & a seus companheiros. Traz se vivo Cojaçofar ao Governador : mandalhe que vá quietar algüas revoltas que avia na cidade. Manda o Governador lançar mão pelos almazës da cidade & da vila dos Rumes, & pólo resouro do morto Soltão. Presentaselhe hü Mouro de mõstruosa idade, cõ algüas particularidades notáveis. Faz o Governado Rey de Cambaya a Merizam Hamed. Os senhores do Reyno ajuntão hü poderoso exercito, & vë sobre elle.”

“De que mais te servio, ó poderoso                                                                Baudur, serte a fortuna favorável,                                                                 E fazerte na vida tam ditoso,                                                                             Que de teres o fim mais miserável                                                                   Não hé este meu exemplo fabuloso,                                                               Nelle verá bem clara, & bem notável                                                            Mente, quem bem quiser desenganarte,                                                      Quanto deve no mundo confiarte,                                                                  Meter dentro na fusta procurava                                                                    O valoroso Paiva, ao Rey imigo,                                                                     Quando outro q na mesma fusta estava                                                       (Porque não sey quem era não o digo)                                                         Estende a chuça (como atrás contava)                                                        Em nova ira inflamado, & ódio ãtigo.                                                           Manda o ferro cruel á real fronte                                                                    Abre nella de sangue viva fonte.                                                            Não se contenta o bravo Lusitano                                                                  De ver el Rey em forma tão estranha,                                                           Quelle aida há, q hé pouco o maior dano                                                    Em qãto o spitito o corpo lh’acompanha.                                                   Outra vez move o ferro deshumano,                                                              Outra vez do seu próprio sãgue o banha,                                                    Mas nem inda com isto se contenta                                                               Em vão humildes rogos el Rey tenta…”

Na Akbañama (Crónica de Akmar) uma crónica ilustrada do reinado de Akbar, o terceiro imperador mogol (r. 1556-1605), encomendada pelo próprio Akbar e escrito em persa entre 1590 e 1596, pelo seu biógrafo, Abul Fazl, (1551-1602), encontra-se uma pintura sobre papel, onde está representada a morte do sultão Badur.

A morte do Sultão Bahadur junto a Diu Crónica de Akmar 1537 Museu Victoria & Albert UK

A nau onde Nuno da Cunha terá recebido o Sultão Badur

O sultão caído na água e atacado pelos homens de Nuno da Cunha

Também numa imagem francesa do século XVIII, de Joseph-François Lafitau, (1681-1746), vemos representado Nuno da Cunha, a cidade de Diu e a morte do sultão Badur.

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Joseph-François Lafitau, (1681-1746). Mort de Sultan Badur 18,8 x 32,5 cm Illustrations de Histoire des découvertes et conquestes des Portugais dans le Nouveau Monde Tome 2 découvertes des Portugais en Asie, Saugrain Père et J.B.Coignard (Paris)1733, Bibliothèque nationale de France

Na cartela, rodeando o retrato: Nugno D’Acuña (Nuno da Cunha)

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Na parte inferior assinalado com o n.º 2 a morte de Badur.

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Como pano de fundo uma representação de Diu.

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Após a morte do sultão Badur, o novo sultão de Cambaia alia-se com o turco Sulimão Paxá, um eunuco que havia usurpado o trono, e reúnem um enorme exército de perto de 23 000 homens, e 70 galés, para atacar Diu.

 Coge Çofar

Nestes relatos sobre Diu encontramos diversas referências a uma personalidade, algo misteriosa mas muito influente, Coge Çofar (Cojaçofar, Coje Sofar e  Khuádja Tzaffar). De origem presumivelmente italiana (que escrevem Cosazaffer), mas tornando-se turco, estando por vezes do lado dos portugueses, mas contra eles lutando nos dois cercos de Diu, morreu, com uma idade de cerca de 58 ou 60 anos, decapitado por uma bala de canhão, no segundo cerco em 1546.

Numa publicação impressa em Veneza em 1545, intitulada

Viaggi fatti da Vinetia, alla Tana, in Persia, in India, et in Costantinopoli :com la descrttione particolare de Città, Luoghi, Siti, Costum, & della Porta del gran Turco : & di tutte le intrate, spese, & modo di governo suo, & della ultima Impresa contra Portoghesi. MD XLV,

…uma viagem feita, não por nossa vontade, mas pela necessidade nas Índias, seguindo a pessoa de Sulimão Baffa´: o qual foi mandado naquele tempo, por Sulimão Paxá, Imperador dos Turcos, na expedição contra os Portugueses, que no preparar da guerra de 1537 à nossa ilustríssima Senhoria de Veneza, e que nós estávamos em Alessandria…

(…uno viaggio fatto, non per volontá nostra, ma per necessita nelle INDIE, seguendo la persona di Soleiman Baffà :ilquale era mandato da Soleiman Sach Imperatore de Turchi alla espeditione contra Portughesi nel tempo, che su rotta la guerra del 1537 alla nostra illustrissima Signoria di Venetia, & che noi eramo in Alessandria …)

Nesta crónica é referido Coge Çofar, como Cosazaffer, como natural de Otranto uma vila italiana da região da Puglia:

“… vem um chamado de Cosazaffer, o qual é de Otranto, mas renegado e tornando-se turco“ (…venne un chiamato il Cosazaffer, ilquale è da Otranto, ma renegato et fatto Turco…),

E o texto prossegue associando Coge Çofar ao Rei de  Cambaia (il Re del Dio, ilquale si chiama Re de Combachia), que lhe havia dado algumas terras e feito Capitão de todo o seu reino (…gli havea donato alcune terre & fatto Capitano di tutto il suo regno), e que apesar de se ter tornado amigo dos portugueses, quando percebeu que a armada turca se aproximava de Diu, juntou-se às forças do rei de Cambaia, perseguiu os portugueses na cidade e iniciou o assalto à fortaleza onde estes se tinham refugiado (…ma quando lui intese che l’armata del Signor Turco veniva, fece venire com bel modo gente assai del paese, & tolse la terra di man de portoghesi, & gli assedio nel castelo).

E o relato prossegue com o cerco da fortaleza de Diu, mostrando o papel de agente duplo de Coge Çofar.

Sousa Coutinho também o refere no capítulo X da sua obra, acompanhando o sultão Badur na visita ao Governador “ …e com elle em cõpanhia mandou elRey a Cojaçofar, Italiano arrenegado que ë Diu vevia, rico à maravilha, que consigo levava mil homeës de Turcos & Persas.”  E no capítulo XIII “…Cojaçofar era hum dos homeës que em gram parte da redondeza da terra com mais grosso caudal a mercadoria usava, homem de ydade de cincoenta annos de gram disquiriçam & gaguacidade, no uso da mercancia habilissimo: & nas cousas de guerra  nam menos sabido: como depoys se mostro claro, quando dadita cidade fogio, & fez guerra à fortaleza. Vivia em esta cidade de Diu: tinha hum lugar na enseada de Cambay, que ho Soltam lhe deu por nome Surate que rendia bem.”

O Cerco

De facto, logo após a morte de Badur, Coge Çofar coloca-se ao serviço de D. Nuno da Cunha, que lhe entrega a administração da cidade de Diu, enquanto se resolve a sucessão do Sultão Badur, como refere Diogo de Couto,  Década V, no Livro I Anno de 1536, Cap. XI. “De como foi trazido Cogeçofar ao Governador Nuno da Cunha: & da liberdade que lhe deu: & de como se levantou por Rey em Cambaya um cunhado do Rey dos Magores : & da embaixada que mandou ao Governador.”

Resolvidas contudo as questões da sucessão no reino de Cambaia, Coge Çofar, numa verdadeira actividade de agente duplo, colabora com a coligação que pretende atacar a fortaleza de Diu, como conta Diogo Couto, no Capítulo LXXXIX, intitulado “Dos avisos falsos que Coge Çofar dava ao Capitão da Forteleza, e das mensagens que mandou aos Reys da Costa da Índia, pera que se alevantassem contra os portugueses, e respostas que ouve.”

Depois narra como Coge Çofar acaba por sair de Diu e ao serviço de Sulimão Paxá, vai preparar o ataque por terra, num capítulo (CXII) intitulado “Como Coge Çofar fogio de Dio, sem lho sentirem e levou quanto tinha”:

…E o Coje Çofar, * que* tinha seus recados secretos com seus amigos, pola certeza que tinha da vinda dos rumes, ouve medo que se o capitão d’isso tivesse certeza que lançaria mão d’elle, *e* determinou de fogir; pera o que fez preste huma não nova, que lhe viera de Çurrate, que elle mandara fazer, em que o capitão tinha parte, a qual armou pera Tanaçarim, e carregou de muytas mercadarias que lá valião;na qual carregou o feitor, e outros homens que tratavão….

e num outro capítulo (CXIV) como voltou para atacar Diu “Como Coge Çofar tornou a Dio com gente de guerra”.

A fuga e o regresso de Coge Çofar são confirmados por  Sousa Coutinhono Livro II do Cerco de Diu, cujo capítulo I, se intitula De como Cojaçofar se partio escondidamente da cidade de Diu & da guerra que moveo a fortaleza em companhia de Alucam.

Também Gaspar Correia relata os preparativos de um lado e de outro que se fazem para o inevitável conflito. Assim no Capítulo CXVIII – Do que fez o capitão António da Silveira, com a chegada dos Rumes

“Com a nova dos rumes, que se deu a Coje Çofar, fez elle grande festa, e os mouros da cidade grandes alvoroços, e com grandes prazeres o falavão aos nossos de junto ao muro, e fazião grandes feros aos que estavão no baluarte dos rumes: ao que os nossos nom derão credito, porque muytas vezes lhe fazião assy rebolarias. E assy estando, chegou a Dio o filho de Coje Çofar com os quinhentos rumes e os tiros; o que o Coje Çofar grangeou com mandar aos seus espingardeiros, que erão muytos, com os rumes, que todos forão dar vista à forteleza com tambor e pifaro, e de longe, d’antre as casa, fizerão amostra, tirando muyta espingardaria: a que os nossos tambem lhe fizerão visitação com a espingardaria, que fizeram milhor mostra, porque cinco rumes ficarão aly mortos e outros alguns feridos.”

E Gaspar Correia prossegue no capítulo XIII do Livro IV
”De como o Capitao da forteleza proveo a forteleza da banda do combate, e proveo o Baluarte do Mar; e dos combates que se derão à forteleza.”

E como termina o cerco a Diu, no capítulo XXII: “Como os Rumes largarão os combates da forteleza, e se recolherão as galés, e se tornarão pera o estreito de Meca, e como Antonio da Silva, que estava em Madrefabá, foy a Dio, e d’ahi se tornou ao Viso Rey.”

Sousa Coutinho descreve na sua obra o cerco de Diu, “de como o capitam Antonio da Silveyra tomado conselho abrio mão da cidade, & se recolheo á fortaleza.” (Livro II cap. III).

E Sousa Coutinho relata os diversos assaltos dos turcos para tomar a fortaleza e do papel que tiveram na sua defesa as mulheres que lá se encontravam: “do primeyro acometimento que os Turcos fizeram pera entrar a fortaleza. E da a juda que as molheres fizeram & doutras cousas. (LII,cap. XIII).

No capítulo XVI, “do fogo que os nossos fizeram no Baluarte: & dos rijos combates que os Turcos deram ao Baluarte do mar: & do socorro que veyo de Goa.”

E finalmente, no capítulo XIX, o final do cerco: “do movimëto q é a gëte & armada dos Turcos ouve, & como dos nossos foy a cousa interpretada: & da esforçada determinaçã de todos os homës da fortaleza & de como os Turcos alevantarã o cerco.”

4. O 2º cerco de Diu 1546

Voltando a Os Lusíadas, sempre no Canto X, Diu volta ser nomeado na estrofe 67, na continuidade das estrofes de 62 a 66 e das referências a Martim Afonso de Souza (Este será Martinho…) o primeiro responsável pela fortaleza de Diu. Camões faz ainda referência a D. João de Castro, governador e vice-rei da Índia (1545 a 1548), quando Diu se defende no segundo cerco de 1546, e que Camões descreve nas estrofes seguintes:

estrofe LXVII

Este será Martinho, que de Marte
O nome tem coas obras derivado,
Tanto em armas ilustre em toda parte,
Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado.
Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte
Português terá sempre levantado,
Conforme sucessor ao sucedido,
Que um ergue
Dio, outro o defende erguido.

E na estrofe seguinte, a LXVIII, Camões inicia a descrição do 2º cerco de Diu pela coligação de exércitos que atacam Diu.

estrofe LXVIII

Persas feroces, Abassis e Rumes,
Que trazido de Roma o nome têm,
Vários de gestos, vários de costumes
(Que mil nações ao cerco feras vêm),
Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes
Porque uns poucos a terra lhe detêm;
Em sangue Português, juram, descridos,
De banhar os bigodes retorcidos.

Jerónimo Corte Real (1530?-1588), em o Sucesso do Segundo Cerco de Diu. Estando Dom Joham Mazcarenhas por capitam da fortaleza. Anno de 1546, um longo poema que veremos mais adiante, também fala em

Abexins , Fartaquins , fortes Arábios,                                                De todos tinha numero escolhido.                                                                  
A estes lhes parece , que acabada                         
Esta guerra , e avida húa victoria                       
Geral dos Portugueses , lhes faria                       
ElRey grandes mercês. Todos tratavaõ                            
Particular proveito , prometendo                    
Ser vencida a batalha facilmente.

Neste segundo cerco a Diu, voltamos a encontrar Coge Çofar comandando as tropas que combatem os portugueses.

Diogo Couto, na Década VI, Livro I, intitula o capítulo II, Da dissimulação com que Coge Çofar mandou visitar o Governador : e das pazes que se fizeram com ElRey de Cananor :e dos recados que passaram antre o Governador, e o Idatxá sobre Mealecan.

Na estrofe LXIX, Camões descreve as armas de artilharia, refere D. João de Mascarenhas (1512?-1580), capitão-mor de Diu nos anos de 1545 e 46, e D. João de Castro e os seus filhos Fernando e Álvaro .

estrofe LXIX

Basiliscos medonhos e leões,
Trabucos feros, minas encobertas,
Sustenta Mascarenhas cos barões
Que tão ledos as mortes têm por certas,
Até que, nas maiores opressões,
Castro libertador, fazendo ofertas
Das vidas de seus filhos, quer que fiquem
Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem.

Basiliscos (Bazaliscos) e leões, são antigos canhões de artilharia, que na época recebiam nomes de animais mitológicos (o basilisco era uma serpente com cabeça de galo) e/ou reais (leões, camelos, águias, etc.).

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Um Basilisco. Tornou-se célebre o Tiro de Diu, um basilisco mandado fazer pelo Sultão Badur em 1533, e que após o primeiro cerco foi transportado para Portugal, encontrando-se no Museu Militar de Lisboa.

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Nelson, F.  the Chudanal, in the Uparkot, Junagadh Gujarat 1895, canhão construído no Egipto e trazido por Sulimão Paxá para o cerco de Diu em 1538 fotografia 21,7 x 29.,cm. ; Centimetres; The European Library; Uk

“Coge Çofar foi continuando com as obras da fortaleza até as pôr em sua perfeição, passando o seu exercito pera aquella parte, repartindo pelos lugares da bateria perto de sessenta peças grossas, de bazaliscos, salvagens, águias, e camelos, e da outra miúda huma grande quantidade, mandando fazer muitas escadas, huma grande somma de picões, alavancas, cudilins, padiolas, e em fim toda a mais cousa deta qualidade, que lhe pareceo necessária pera aquelle negocio…”

António Bocarro, na Discripção da Fortaleza de Dio, quase um século depois, 1635, refere nas armas da fortaleza:

“Ha nesta fortaleza de Dio, repartidos pellos baluartes e couraça (que na planta se vê) corenta e sinco peças de artelharia groça, camellos, bazaliscos, esperas (algüas de ferro), onde entra hum espalhafato que esta a porta. É a mayor parte de bronze, toda em seus repairos, e na de ferro entrão doze peças meudas de seis ate dês libras de pilouro de pedra.”

Trabucos eram armas empregues, na Idade Média, mas ainda no séciço XVI, para destruir as muralhas ou os muros das fortalezas, ou para atirar projéteis por cima deles.
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Trabuco (Wilkipédia)

De seguida, na estrofe LXX, Camões descrevendo o 2º cerco de Diu, refere a morte de D. Fernando de Castro (1527-1546), filho de D. João de Castro, numa explosão durante o cerco de Diu.

Fernando, um deles, ramo da alta pranta,
Onde o violento fogo, com ruído,
Em pedaços os muros no ar levanta,
Será ali arrebatado e ao Céu subido;
Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta
E tem o caminho húmido impedido,
Abrindo-o, vence as ondas e os perigos,
Os ventos e depois os inimigos.

Camões irá também escrever um soneto dedicado a D. Fernando de Castro e à sua morte.

Debaixo desta pedra está metido,
Das sanguinosas armas descansado,
O Capitão ilustre, e assinalado,
Dom Fernando de Castro, e esclarecido.

Por todo o Oriente tão temido,
Este da própria inveja tão cantado,
Este, enfim, raio de Mavorte irado,
Aqui está agora em terra convertido.


Alegra-te, ó guerreira Lusitânia,
Por estoutro Viriato que criaste,
E chora a perda sua eternamente.


Exemplo toma nisto de Dardânia;
Que se a Roma com ele aniquilaste,
Nem por isso Cartago está contente.

(Soneto LIX -Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão, Porto 1970)

Diogo Couto relata no capítulo IX, do Livro II, da Década VI, “De como o Rumecan mandou minar o baluarte de S. João: e do ardil de que usou de huma falsa espia pera segurar os nossos: e de como arrebentou o baluarte: e da morte de D. Fernando de Castro, e de outros Fidalgos, e cavalleiros” a morte de D. Fernando de Castro, filho de D. João de Castro de 19 anos, no Baluarte de São João, do rebentamento de uma mina, no dia 10 de Agosto, dia de S. Lourenço. “Morreram nesta desaventura quasi sessenta pessoas das principaes da fortaleza, e os de nome foram : D. Fernando de Castro em idade de dezanove annos, mancebo, em que o mundo tinha póstos os olhos pelas grandes esperanças que de si dava ; mas parece que a fortuna invejosa do que promettia, ordenou que acabasse com tal genero de morte, pera maior mágoa do velho pai...”

E no Canto XI do seu Sucesso do Cerco, Neste umdecimo Canto se trata do quinto combate que os Mouros deram na fortaleza: onde pola falsa informaçam de hum Guzarate os Portugueses receberam grande dano, no incêndio, e ruina do baluarte Sam Joaõ.

Assi desta maneira dom Fernando
De Castro aqui morreo , de dezanove
Annos nam bem compridos , esforçado,                                                    E de animo invencivel : generoso,                                                        Gentil homem , cortez , discreto , e brando.
O' avaro, o cruel preciso fado:
Ah morte rigurosa , acerba , e triste,                                             Cortaste a florecente idade , quando
Mil triumphos insignes pretendia.

Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta…é D. Álvaro de Castro (1525-?) o outro filho de D. João de Castro, que veio em socorro de Diu, numa viagem tormentosa. Como narra Diogo de Couto, Década VI, Livro II,Cap. VII. “De algumas cousas que passaram em Goa: e de como o Governador D. João de Castro mandou seu filho Dom Álvaro de Castro de socorro a Dio: e dos assaltos que os mouros deram aquella fortaleza, e de que se recolheram desbaratados.”

E na estrofe seguinte, LXXI, o poeta relata a chegada de D. João de Castro

Eis vem depois o pai, que as ondas corta
Co restante da gente Lusitana,
E com força e saber, que mais importa,
Batalha dá felice e soberana.
Uns, paredes subindo, escusam porta,
Outros a abrem na fera esquadra insana.
Feitos farão tão dinos de memória,
Que não caibam em verso ou larga história.

D. João de Castro chegou a Diu a 6 de Novembro de 1546 comandando uma poderosa armada. A gente que o governador trazia foi metida, em três noites, na fortaleza por escadas de corda, no meio do silêncio da noite. Diogo de Couto Década VI, Livro III, Cap. X: Durou isto tres dias, e tres noites, em que toda a gente da Armada se metteo na fortaleza poe escadas de corda, e o Governador com todos os Capitães, e Fidalgos velhos pela couraça no mor silencio que pode ser.

Entretanto Coge Çofar morre de uma bala de canhão e sucede-lhe Rumecão, que também morre na fuga depois do ataque dos portugueses a 10 Novembro de 1546.

Diogo de Couto, na Década VI.Livro IV.cap. II, “De como o Governador D. João de Castro apresentou batalha aos inimigos, e da crueza della, e de como os desbaratou, e ganhou a Cidade com morte de Rumecan e cativeiro de Juzarcan” refere que na vitória dos portugueses “Tomaram-se muitas bandeiras, armas, e outras cousas, que no triunfo do Governador adiante melhor se veram.”

Terminado o cerco e desbaratado o inimigo, a cidade de Diu foi então posta a saque.

Sobre o 2º cerco de Diu, vejamos a descrição de Jerónimo Corte Real (1530?-1588), Sucesso do Segundo Cerco de Diu. Estando Dom Joham Mazcarenhas por capitam da fortaleza. Anno de 1546.

Jerónimo Corte Real terá nascido em Lisboa de uma família nobre (põe-se também a hipótese de ter nascido na ilha Terçeira, Açores) e faleceu em Évora. Serviu como militar em Marrocos e na Índia. Tornou-se conhecido com o Segundo Cerco de Diu, poema em vinte e dois cantos dedicado ao rei D. Sebastião e publicado em 1574. O poema celebra os feitos militares de D. João de Castro e de D. João de Mascarenhas no cerco que a cidade de Diu sofreu em 1546. Escreveu também em quinze cantos e em castelhano a Austríaca ou Felicissima Victoria Concedida del Cielo al Señor D. Juan de Austria en el golfo de Lepanto de la Poderosa Armada Otomana en el Año de Nuestra Salvación de 1572 (publicada em Lisboa, 1578), e o Naufrágio e Lastimoso Sucesso da Perdição de Manuel de Sousa Sepúlveda e Dona Leonor De Sá Sua Mulher (Lisboa, 1594, publicado em 1598.

Na Torre do Tombo existe um exemplar, que pertenceu à Casa de Cadaval, Sucesso do Segundo Cerco de Diu. Estando Dom Joham Mazcarenhas por capitam da fortaleza. Anno de 1546, com algumas estampas:

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Jerónimo Corte Real (1530?-1588) SVCESSO DO SEGVNDO CERCO DE DIO ESTANDO DOM IOHAM MAZCARENHAS POR CAPITAM E GOVERNADOR DA FORTALEZA ANNO DE 1546, Fielmente copiado da Ediçam de 1574. Por Bento Jose de Sousa Farinha. Lisboa: na offic. de Simam Thaddeo Ferreira, 1784.Cópia microfilmada com estampas coloridas. Torre do Tombo, Portugal.

O “CANTO I. Que trata de huã visam que ElRey de Cambaya vio em sonhos , e de como determina cercar a fortaleza de Diu, movido por muitas razoes que algüs Reys, e Principes do Oriente para isso lhe deram.” é acompanhado por uma estampa representando o rei de Cambaia, Mamude, a quem aparece em sonhos uma das Fúrias, a Discórdia, que lhe pergunta como pode ele aceitar a ofensa e não vingar a morte do Sultão Bhaudur, o seu avô, no 1º cerco de Diu. Depois Alecto, uma das outras Fúrias, convence o rei a

“…Que a ferro , fogo , e sangue vingue a morte
Que ao gram Soltaó Bhaudur se deu em Diu….”

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Estampa do Canto I relativa à visão do rei de Cambaia, Torre do Tombo

No “CANTO II. Neste Segundo Canto se trata como Coge Çofar com grande diligencia e cuidado ordenava hum poderoso exercito, e de como mandou hum Capitam Rume, para que secretamente impedisse os mantimentos na fortaleza ate que elle chegasse.”,uma outra estampa representa Coge Çofar, preparando os exércitos para atacar Diu.

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Estampa do Canto II relativa ao exército mandado preparar por Coge Çofar, Torre do Tombo

…Já por todo
O Reyno se apelidaõ bõs soldados :
Artifices de minas já se buscaõ.
Já toma bombardeiros , e esprementa
Os mais destros , e vsados neste officio…

…Mil carretas de campo , e outras muitas ,
E necessarias para a guerra.
Era o aparato tal , tam poderoso ,
Que prometia já , nam só a perda ,
E total destroiçam da fortaleza
De Diu ; mas da India , muitos Reynos…

No “CANTO III. Neste Canto terceiro se trata como o Capitam dom João de Mascarenhas mandou espias que lhe trouxeram certa nova do cerco. E de como se começou a aperceber com muyta pressa. Trata tambem da vinda de Coge Çofar: com outras cousas que socederam, dandose principio a esta tam trabalhosa guerra.”, uma outra estampa, mostrando do lado dos Portugueses, como estes se preparam para defender a fortaleza.

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Estampa do Canto III relativa à preparação da defesa da Fortaleza, Torre do Tombo

…Tanto esta nova causa de alvoroço
Nos peitos generosos , e esforçados ,
Quanto de gram temor no baixo vulgo.

O Capitam insigne ouvindo as novas
Do gram poder de gente , que sobre elle
Vinha; depressa manda a todos quantos
Pedreiros , carpinteiros se agasalham
Fora da fortaleza : e outros muitos
Officiaes , que num ponto se recolham ,
Trazendo vigas , mastos , e a madeira
Toda que fora estava…

De seguida, no “CANTO IV. Neste Canto quarto se trata da falla que o Capitam Dom Joaõ Mazcarenhas fez aos capitães das estancias: e de como mandou queimar hüa grande náo em que Coge Çofar tinha inventado hum sutil , e danoso ardil.” representa-se numa estampa o ardil congeminado por Coge Çofar e neutralizado pelos Portugueses.

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Estampa do Canto IV relativa ao incêndio da nau mandada queimar por D. João Mascarenhas

Na imagem em primeiro plano a nau mandada queimar em volta da qual se atarefam dois escaleres. À direita da nau o Baluarte do Mar. À esquerda a fortaleza de Diu. Separada por uma zona com colinas, a cidade de Diu, com a muralha de baluartes redondos e cobertura cónica.

Começada esta guerra , ordena logo
O gram Coge Çofar hum proveitoso ,
Sutilissímo ardil , desta maneira.
Manda que nüa nao soberba , e grande ,
De madeira , se façam muitas torres,
Cheas de munições , lanças, e dardos,
Espingardas , e setas , e outros muitos
Instrumentos de fogo ; e que vaõ dentro
Escolhidos soldados…

Do forte Mazcarenhas foi sabido,
E logo em pouco espaço fazer manda
Prestes a dous catures muy ligeiros.
Vaõ dentro nelles vinte bons soldados ,
Esforçados , valentes , e animosos…

Os Portugueses com furor dobrado ,
No começado intento perigoso:
Querendo antes morrer que fazer cousa
Que lhes fosse notada por fraqueza.
Com tal risco chegaram aonde estava
A nao : e cortam logo aquellas cordas
Que ligavam as grossas fortes ancoras.
Lançam de la de cima , ardendo em fogo
Com impeto alcanzias , e outros vasos
De ardentissimo azeite : que caindo
No mar, alevantava rechinando
Hum fumo espesso , e negro…

Este episódio do ardil de Coge Çofar é relatado por Gaspar Correia:

“N’este tempo ordenou Coje Çafar queimar o baluarte do rio, e fez hum castello de madeira sobre barcas, mais alto que o baluarte, que encheo de materias e botumes pera fazerem grande fumo e depois o fogo. Do que o capitão teve aviso, que sabendo que de todo estava acabado pera deser sobre o baluarte com a maré, sendo noite mandou nos catures desemasteados Francisco de Gouvea, com muytas panelas de polvora e lanças de fogo, com que fosse queimar o castello, com vinte espingardeiros em cada catur, que chegarão ao castello, em que acharão muytos mouros com espingardas: com que a peleja foy grande, mas com as lanças de fogo acezas, que os nossos deitarão por cima dos mouros, e as panelas de polvora, se acendeo o fogo nos materiaes,que o fogo apegou e se alevantou muy grande, com que se alevantou fumo que parecia que ardia huma cidade, e durou o fogo n’elle todo o dia até noite.”

No “CANTO VI. Neste sexto canto se trata como os imigos batiam a fortaleza : e de como elRey de Cambaya espantado de hum tiro, se foi da Cidade : deixando Juzarcaõ Abexim que governasse a gente que com elle viera.” uma outra estampa com as batalhas em torno da fortaleza.

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Estampa do Canto VI relativa ao ataque à Fortaleza, Torre do Tombo

Fronteiro estava ali do baluarte
Santiago, de bronzo , hum grande tiro
O pelouro do qual , tem bem medidos
De roda treze palmos; e lançava
Cada pelouro destes, com tal fúria
Que o mundo parecia confundirse
Aonde chega faz tam grande dano
Que nam bailava ali nenhum remédio :
Nem grande diligencia , que num ponto
O soberbo pelouro desfazia ,
E derrubava sem contraste , o muro.

No canto seguinte “CANTO VII. Neste canto septimo se trata como os Mouros continuavam sua obra com grande diligencia para entulhar a cava , e os da fortaleza secretamente lhe furtavam o entulho : na qual obra morreo António Freire Alcaide mor da fortaleza.
Trata também da morte de Coge çofar , e do seu enterramento , com outras cousas que socçederam.”
uma estampa representando a morte de Coge Çofar.

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Estampa do Canto VII relativa à morte de Coge Çofar, Torre do Tombo

Estando alli provendo , e ordenando
O que devem fazer ; tendo alma pronta
Em buscar mil ardis que lhe aproveitem                             Descuidando da morte ja vezinha ,
Dispara a fortaleza hum grosso tiro:
Estremecese a terra , os ares bramam :
Cobrense de fumosa , e negra nuvem.
O furioso pelouro sae envolto
Em fogo repentino , e vai direito ,
Guiado ali por Deos , num ponto leva
A soberba cabeça , astuta , e grave
Do gram Coge Çofar , que governava
Todo este belicoso , e grande campo :
O destroncado corpo ali se estende ,
E aquella alma perversa vay furiosa,                                            Gritando polos ares , indinada
Dece ao reino choroso , escuro , e triste.
Tanto que o capitam geral foy morto ,
Levantase hum clamor de toda a gente
Rasgase o alto Ceo com grandes gritos :
Correm todos sem ordem por mil partes,
A morte desastrada publicando.

A morte de Coge Çofar é também relatada por Gaspar Correia Lendas da Índia Livro IV no capitulo XXIX - Como os tiros da forteleza derrubarão parte do Baluarte da Rama, que andando repairando Coje Çofar hum pilouro perdido lhe levou a cabeça.

“O que sendo dito a Coje Çafar fiqou muy espantado, vendo o tamanho animo dos nossos, que com tantos trabalhos a tudo soprião. Então mandou apontar tiros no buraco, per onde os nossos nom puderão mais hir á cava. O que Coje Çafar foy ver, e estando espantado de vêr o buraqo, que somente tinha a cabeça per cima de huma parede, passou per hy hum pilouro perdido, que lha levou com a mão direita, sobre que a tinha acostada. E se comprio o que elle muytas vezes dizia, que ally avia d'acabar seus dias: o que foy a vinte e quatro de junho, dia de São .loão Bautista e de Corpos Chrisli, que se acertou este anno todo em hum dia.”

Finalmente no último canto de que dispomos de uma imagem, o “Canto XIII. Neste decimo tercio Canto se trata, como chegaram a fortaleza Luis de Melo de Mendonça, e dom Duarte de Menezes, filho do Conde da Feira, e dom Jorge de Meneses com alguns soldados. Trata também da vinda de dom Alvaro de Castro, e de como o Capitão mor sahio aos imigos, tornadose a recolher com perda, e morte de alguns fidalgos.”

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Abrense as grandes portas, sae por ellas
O fermoso esquadram dos fortes homës:                                                Hüs levam tesas lanças , outros levam
Espadas de ambas màos acecaladdas,                                                  Outros bem apontados arcabuzes,                                                     Outros, grossas rodellas , com pinturas
Agradáveis à vista , de famosas
Batalhas, e de fabulas antiguas.

E Jerónimo Corte Real termina o seu poema num extenso Canto XXI, Neste vigessimo primo , e ultimo Canto prosegue o Merecimento na demostraçam dos feitos da Índia: mostralhe em prophecia o nascimento do invictissimo Rey D. Sebastiam. Declaralhe algüas cousas que ainda estam por vir. Trata-se tambem da chegada do Visorey a Goa: e da vinda de D. Ioão Mazcarenhas a Portugal.

Terminam as referências a Diu em Os Lusíadas de Camões, com a estrofe CVI do Canto IX, em que o poeta fala de “a terra de Cambaia”.

Olha a terra de Ulcinde, fertilíssima,
E de Jáquete a íntima enseada;
Do mar a enchente súbita, grandíssima,
E a vazante, que foge apressurada.
A terra de Cambaia vê, riquíssima,
Onde do mar o seio faz entrada;
Cidades outras mil, que vou passando,
A vós outros aqui se estão guardando.

(CONTINUA)

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