Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Mais um texto sobre La Paiva

 

Nas minhas leituras encontrei um curioso texto sobre La Paiva, e que apresento na íntegra, apesar de alguns detalhes não serem muito fidedignos do ponto de vista histórico, em complemento do Esboço incompleto da extraordinária história de La Paiva  (1819-1884) apresentado neste blogue em 18 de Outubro de 2010.

O texto apresenta La Paiva como inconscientemente, ter contribuído para uma certa justiça social, dando cabo das fortunas dos mais ricos!

O texto é de Eduardo de Barros Lobo  (1857 –1893), que foi jornalista e escritor, usando o pseudónimo de Beldemónio. Morrendo muito novo não deixou uma obra muito extensa. Contudo em 1887 publica Viagens no Chiado – Apontamentos de jornada de um lisboeta atravez de Lisboa, de onde é extraído a crónica, com o nº X,  Branca de Paiva, sobre a morte da famosa cortesã.

beldemonio

VIAGENS NO CHIADO - APONTAMENTOS DE JORNADA DE UM LISBOETA ATRAVEZ DE LISBOA POR BELDEMONIO (Ed. de Barros Lobo) - PORTO, BARROS & FILHA, EDITORES - RUA DO ALMADA, 104 a 114 – 1887

X

BRANCA DE PAIVA

Talvez a chronica não devesse deixar entrar nas suas columnas o nome d'essa extraordinária hetaira que se chamou Branca de Paiva, e que ha dias partiu do seu solar da Silesia para a viagem d’onde se não torna jamais. Ao fundo d'estas linhas, com effeito, o chronista faz sentinella contra as invasões impura, como um gentil-homem da camara que tem atravessada na aba da farda cortesã a symbolica chave de oiro. D'alli para cima, até ao seu titulo, o tapete de phrases que sobe, esticado pelas varetas d'estas pobres linhas, que teem de ser cada dia esfregadas para imitarem o oiro com o seu simples cobre, sentir-se-hia deshonrado se alguma vez o pisassem botinas menos honestas. Passa de largo, oh filha de Cythera, encantadora e odiosa mulher, que és o amor barato!

. . . Mas Branca de Paiva era o amor caro, caríssimo . . .

Nunca se poude saber ao certo quanto ella, que tinha mais e melhores vestidos do que a celebre Isabel d'Inglaterra, devorou em luizes e em notas aos millionarios que puderam ser bastante loucos para se enamorarem dos seus hombros — a inveja da Vénus florentina — dos seus olhos azues, dos seus cabellos cuja côr mudava cada estação ... e do resto. Apenas se pôde avaliar essa colossal refeição de ogre pelo que ainda lhe ficou nos dentes, e que a morte lhe extrahiu com a pontinha afiada da sua foice: quarenta milhões, era a fortuna pessoal da antiga mulher do alfaiate de Moscow, morta na pelle de condessa Hensckel, depois de fazer suicidar o nosso compatriota Paiva d' Araújo.

É necessário serenar perante esta mulher, que representou inconscientemente o papel de um verdadeiro principio social. Ella foi, com a sua cupidez que a fazia empolgar o dinheiro dos seus mil amantes, o agente providencial da economia politica e da própria justiça divina. Empobreceu os argentarios, humilhou os soberbos, levou a influencia desorganizadora da sua bella carne e do seu tenebroso espirito aos poderosos da terra, precipitou riquezas pela janella fóra, apodreceu colossos de oiro na cadeia dulcíssima e satânica dos seus braços, fez n'uma larga escala o equilíbrio da fortuna publica. Um dia, aqueceu os pés enregelados a uma fogueira de bank-notes, e, mais esbanjadora do que a própria Cleópatra bebendo pérolas dissolvidas em vinagre, fez beber a um dos seus mujicks as cinzas dos preciosos papeis, em vinho de Tokay.

Outro dia, julgando-se em vésperas de ser rainha, mandou construir um palácio que era a reproducção exacta das Tulherias, multiplicando o dispêndio dos seus milhões para arrancar ao solo essa maravilha, n’um prazo em que se lhe não arrancaria facilmente uma cabana. E foi sempre, sem descanço, a voragem do oiro, insondável, e a rocha Tarpeia de todos os orgulhos, divertindo-se em fazer a ruina de todas as fortunas e o desespero de todos os amores.

Aquella mulher teve um morto na sua vida, esse pobre Paiva de Araújo, de quem guardou o nome por derradeiro ultraje; e tanto elle foi impellido para o suicidio pela deshonra, que deixa de ser um disparate affirmar que foi a cortezã quem o suicidou.

Branca de Paiva não foi uma bella mulher; foi antes uma bella estatua, um bello mármore. Fria, fria, fria . . . E era sobre o seu collo de Paros que arrefeciam até á morte os grandes amores e as grandes riquezas; sobre esse mármore magnificente que ao mesmo tempo penetrava os amantes d'uma essência sobrenatural de destruição com todos os horrores: com a vergonha, com a miséria . . .

Portugueza pelo seu segundo marido, a chronica devia-lhe uma commemoração funerária ao nome. De resto, tanto essa mulher foi extraordinária no mal e culminante no vicio, que a sua personalidade de cortezã devia desapparecer perante a real e profunda grandeza do papel que ella representou durante uma vida inteira, levada pelas fatalidades providenciaes de todo o seu ser.

Branca de Paiva foi a encarnação suprema de tudo que pôde servir para corroer uma sociedade demasiadamente soberba, derrocar os potentados demasiadamente fortes, anniquilar os orgulhos e esfarelar as fortunas.

Ella nem mesmo foi uma cortezã: affirmou-se antes como um principio, como o poder moderador das demasias do dinheiro. A sociedade moderna, onde todas as organizações politicas e administrativas tendem impotentemente a nivelar os poderios do oiro e da terra, deve-lhe a mais extraordinária e radical execução que jamais se fez sem sangue: o desapparecimento de vinte ou trinta riquezas accumuladas, que eram a chaga viva da economia politica, porque retinham na immobilidade os capitaes de cem mil famílias.

Entretanto, mal fechada ainda no seu tríplice caixão de chumbo, cedro e sândalo, Branca de Paiva é o alvo aonde cahem as maldições de Pariz, de Pariz que ella fascinou, destruiu e apodreceu . . . ella que era a formosura esculptural deslumbrante espírito, a magestade da Diana Caçadora e o encanto da Vénus Aphrodita, a própria irradiação do bello eterno e o próprio braço da eterna justiça. Vem de todos os lados o coro das imprecações odientas:

—“Vampiro, essência do mal, extermínio em forma de mulher, abominação da carne e cólera personificada do céo: vai-te, recolhe ás gehennas emfim, some-te ! que os teus hombros decotados de bella estatua sejam marcados a ferro em braza no inferno! que os cabellos de oiro ou de azeviche caiam, para tua penitencia eterna! que as tuas pupillas azues, feitas de dois boccados de firmamento, sejam arrancadas pelos corvos do Cocyto! que o teu sorriso se faça visagem, se torne terra o nácar purissimo dos teus dentes, ulcera repugnante a tua bocca de vermelhos lábios, miasma de cadáver insepulto o hálito fresco da tua garganta, garganta que as potencias infernaes façam lodo aonde rastejem os venenosos vermes!”—

Mas a chronica, respeitosa perante aquella realeza do mal, que produziu entre convulsões de horror o bem, quasi ajoelha na sua passagem para o nada, e murmura sinceramente:

—«A tua benção, oh Providencia!»—

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