Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Um percurso visual pela Divina Comédia 7




O Paraíso
O Paraíso I parte
Depois de descer ao Inferno, e subir os degraus do Purgatório, Dante guiado por Beatriz vai ascender ao Paraíso Celeste.
pr0
Michelangelo Caetani (1804-1882) a estrutura da Divina Comédia
Dante concebe o Paraíso considerando a concepção medieval e geocêntrica do Universo.
pr0a
La Terre au centre des sphères de l'univers Diam. 14 cm.em L'Image du monde de Gossuin de Metz. Cópia do século XIII BnF
No centro a Terra lugar inferior do Universo onde se abre a cratera do Inferno, rodeada pelos 4 elementos que constituem o mundo. Por cima o mundo etéreo das esferas celestes No cimo o Empirium onde está o Criador.
pr0e
Henri de Ferrières (1345-1377). Système du monde médiéval. Live du roy Modus et de la royne Racio BnF
pr0c
A subida dos degraus celestes Traité anonyme sur la destinée de l’âme, Italia ? inícios do século XII BnF

A terra no centro rodeada pelos círculos dos elementos : água , ar e fogo, e pelos círculos da Lua, Mercúrio e Vénus. Os círculos seguintes estão representados por arcos. Depois das esferas celestes o Céu espiritual formado pelos círculos da natureza: vegetal, animal, racional e celestial, da alma do mundo. Seguem-se os 10 círculos da inteligência até Cristo. As dez personagens que escalam os círculos personificam a ascensão da alma humana. Os que estão mais acima tem barbas significando a progressão conseguida. BnF
O Paraíso

O Paraíso de Dante é composto de 9 céus ou esferas e termina no Empirium. Os nove céus do Paraíso 1º Céu – Lua - Cantos 2 a 4 2º Céu – Mercúrio - cantos 5 a 7 3º Céu – Vénus - cantos 8 a 9 4º Céu – Sol - cantos 10 a 14 5º Céu – Marte - cantos 15 a 18 6º Céu – Júpiter - cantos 19 a 20 7º CéuSaturno - cantos 21 e 22 8º Céu - Estrela fixas - cantos 21 a 27 9º Céu - Primum Mobile - cantos 27 a 29 e pelo Empirium - cantos 310 a 33
Dante, guiado por Beatriz, percorre os diversos céus do Paraíso.
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Priamo della Quercia Divina ComédiaHistoriated initial for Paradiso 1444-1452 Yates Thompson 36 The British Library
Canto I
Dante propõe-se a descrever o regno santo como até então ninguém o havia feito e está consciente da dificuldade da tarefa de exprimir as visões que vai tendo do Paraíso.
na verdade, quanto eu do reino santo/em minha mente fui fazer tesouro,/será ora a matéria do meu canto
Como no Inferno e no Purgatório Dante inicia o Paraíso com a invocação de Apolo, já que a ajuda das Musas parece agora insuficiente.
Ó bom Apolo, ao fim em que laboro/faz-me de teu valor tão pleno vaso/quanto pedes a dar o amado louro!
pr10                                       

Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), Apolo e as Musas óleo sobre tela 71 x 128  cm. Palácio Nacional da Ajuda
A pintura de Columbano, faz parte de um conjunto inicialmente encomendado para o palácio de Belém (e em 1929 transferido para o palácio da Ajuda) e mostra Apolo sentado num carro imaginário, puxado por cavalos e rodeado pelas Musas.
Camões em Os Lusíadas no canto VII, estrofe 87, também evoca Apolo e as Musas:
Aqueles sós direi que aventuraram
Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,
Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,
Tão bem de suas obras merecida.
Apolo e as Musas, que me acompanharam,
Me dobrarão a fúria concedida,
Enquanto eu tomo alento, descansado,
Por tornar ao trabalho, mais folgado
.

que parturir letícia dilecta/e délfica deidade deve a fronda/peneia, quando alguém de sede afecta.
Dante chama a Apolo delfica deidade já que em Delfos se situava o mais conhecido templo de Apolo.
pr47
Gellée Claude Le Lorrain (1600-1682)Vue imaginaire de Delphes avec une procession óleo sobre tela Galleria Doria-Pamphili Roma

E a referência à fronda peneia é uma alusão ao mito de Dafne. Ovídio em “As Metamorfoses” conta que Apolo se apaixonou pela ninfa Dafne (que em grego arcaico significa precisamente Loureiro), filha do rio-deus Peneu, mas esta tentava escapar-lhe como se tivesse “asas nos pés”. Cansada de fugir, Dafne pediu ao seu pai que a salvasse mudando-lhe a forma do corpo, e quando Apolo estava quase a tocar-lhe nos cabelos, Dafne foi transformada num Loureiro. Impotente perante esta transformação, Apolo abraçou o Loureiro e declarou que esta seria a sua planta preferida, que eternamente o acompanharia e que usaria as suas folhas sempre verdes como coroa em todos os seus triunfos, consagrando com a sua verdura as frontes dos heróis. Bernini esculpiu magistralmente esta lenda.
pr41
Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), Apollo and Daphne, 1622-25, mármore , 243 cm , Galleria Borghese, Rome.

pr41a
Cópia do Apolo e dafne de Bernini existente nos jardins do museu Nogueira da Silva Braga

pr48    pr48a
Julio González (1876-1942) Daphné 1937 bronze 1.420 x 0.710 x 0.520 m. musée national d'Art moderne - Centre Georges Pompidou Paris

Dante pede pois a a Apolo para o ajudar na sua poesia com um canto tão belo como aquele com que venceu Marsias o sátiro, que o tinha desafiado. Apolo  vencedor esfolou vivo o seu adversário, como é referido por Ovídio nas Metamorfoses.
Entra no peito meu e o revigora/como Marsias foste a tirar lesto/da bainha dos membros para fora.

pr11
Anónimo Apolo e Marsias século XVIII óleo sobre tela 40 x 27 cm. Museu Nacional de Arte Antiga

pr24

Tiziano Vercellio (c. 1490- c.1576) The Flaying of Marsyas 1576 óleo sobre tela 212 x 207 cm. State Museum, Kromeriz

pr40

Giuseppe ou José de Ribera (1591-1652) Apolo e Marsias 1637, óleo sobre tela 202 x 255 cm Musées Royaux des Beaux-Arts, Bruxelas

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Detalhe da pintura anterior com a máscara de terror e de dor de Mársias.

Dante e Beatriz elevam-se ao céu

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Dante and Beatrice ascend towards the sun MS. Holkham misc. 48, Bodleian Library University of Oxford

Dante retoma então a narração da sua longa viagem, na continuidade do último canto do Purgatório, indicando o dia - o equinócio da Primavera, e a hora - o meio dia.
O poeta ainda debaixo do efeito da sua ascensão para o céu, contempla Beatriz, que lhe expõe a teoria da harmonia do universo e da tendência natural dos espíritos puros de elevar-se até Deus.

pr77
J. Flaxman, Beatrice gazes on eternal wheeling of heavens 1793 in La Divina Comedia di Dante Alighieri Cornell Fiske Dante Collection

quando Beatriz pelo sinistro flanco/vi a voltar-se e a encarar o sol: /nunca olho de águia assim o fitou franco.

A Transumanização de Dante

Dante sente uma transformação que não consegue descrever por palavras e que refere como Transumanar apenas comparável com a de Glauco, o pescador que, segundo Ovídio, se tornou numa criatura marinha.
Do seu aspecto, dentro me torne/qual se fez Glauco, no provar da erva/que em mar lhe aparentou divina grei.
Transumanar, o sentido que observa/por palavras se exclui; o exemplo baste/a quem a graça experiência reserva.

Glauco era um pescador que descobriu uma erva mágica que fazia renascer os peixes. Glauco comeu dessa erva e transformou-se num animal marinho com os cabelos verdes e as pernas em cauda. Limpo de tudo o que o tornava mortal, tornou-se uma divindade imortal. Apaixonando-se por Cila (Scila), pediu a Circe um feitiço para a conquistar. Circe, ela mesmo atraída por Glauco, faz um feitiço para Cila se transformar num monstro e Cila é rejeitada por Glauco. O episódio é também referido por Camões, em os Lusíadas (canto VI, estrofe XXIV):

E o Deus que foi num tempo corpo humano /E por virtude da erva poderosa,/ Foi convertido em pexe, e deste dano/ Lhe resultou Deidade gloriosa,/ Inda vinha chorando o feio engano / Que Circes tinha usado co a fermosa Scila,/ que ele ama, desta sendo amado, /Que a mais obriga amor mal empregado.

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Maître de Marguerite d'York. Circe e Glaucos (à esquerda), metamorfose de Scylla (à direita ). Antes de 1480 Les Métamorphoses Bruges BnF

pr31

Bartholomäus Spranger (1546 -1611) Glaucus und Scylla 1580/1582 óleo sobre tela 110 x 81 cm Kunsthistorisches Museum, Gemäldegalerie Wien

pr42
Annibale Carracci (1560- 1609) e Agostino Carracci (1557 – 1602), Os amores dos Deuses fresco na Galeria Farnese no Palácio do mesmo nome em Roma (hoje embaixada de França)

pr42a
Glaucus e Scylla  1597 – Galeria Farnese Roma

pr56                                       
Isaac, Isac ou Isacsz, de Jaspar ou Gaspard, (?-1654) Glaucus et Scylla em Les Métamorphoses d’Ovide, Paris, Veuve l’Angelier, 1617 gravura em madeira BnF

pr102
Bernard Picart ou Picard (1673-1733) Neueröffneter Musen-Tempel: Welcher das Allermerkwürdigste publicado em 1733. Imagem sem moldura da edição de Amesterdão 1754.

pr43

pr43a
Joseph Mallord William Turner(1775-1851) ''Glauco e Cila'', 1841, óleo sobre madeira 78.3 x 77.5 cm Kimbell Art Museum Fort Worth, Texas, USA

De seguida Beatriz explica a Dante a ordem do universo:

e começou:”Vês toda a cousa extante/ter ordem entre si e esta é forma/que o universo a Deus faz semelhante.

As coisas inanimadas, pela sua natureza tendem a subir como o fogo e a terra atraídas para o centro do universo.
Todas as criaturas obedecem às leis divinas. Os seres desprovidos de razão navegam como barcos no “mar da existência” “il gran mar de l'essere”. Os seres inteligentes pela sua alma racional tendem a elevar-se num céu de nove esferas governado por Deus.

pr0b
O Universo de Dante na Divina Comédia, Pergaminho século IV 33 x 22,5 cm, BnF

Canto II
O Canto II abre com uma advertência aos leitores que, por não terem uma preparação adequada, não poderão seguir o poeta pelos árduos caminhos que ele vai percorrer. Dante e Beatriz ascendem rapidamente à primeira esfera, o Céu da Lua onde se encontram as almas dos que na Terra não cumpriram totalmente os seus votos.

pr76Giovanni di Paolo Dante and Beatrice ascend to the Heaven of the Moon c.1450 Yates Thompson 36. The British Library.
pr33
Paradiso, Canto II. Dante and Beatrice observe the moon and Cancer. MS. Holkham misc. 48, Bodleian Library University of Oxford

Camões também utiliza o termo de prima esfera ou seja o céu da Lua no canto IV estrofe 69
«Aqui se lhe apresenta que subia
Tão alto que tocava à prima Esfera,

Donde diante vários mundos via,
Nações de muita gente, estranha e fera.
E lá bem junto donde nace o dia,
Despois que os olhos longos estendera,
Viu de antigos, longincos e altos montes
Nacerem duas claras e altas fontes.


Dante prossegue

Água por onde vou jamais se cursa;/Minerva sopra, e me conduz a Apolo,/e nove Musas vão mostrar-me a Ursa

pr51
Houasse René Antoine (1645-1710) As Musas mostram a Minerva as águas do rio Hipocrene que Pegaso fez brotar no monte Helicon. Óleo sobre tela 1.325 x 1.930 m. Versailles, châteaux de Versailles et de Trianon

pr50a
François Verdier (1652-1730) também chamado Van Hamken Minerva perante as Musas tinta e lavis castanha, pena sobre papel beige 21,1 x 30 cm., musée du Louvre

pr46
Claude Gellée, Le Lorain (ca.1602-1682) Apolo e as Musas no monte Hélicon c. 1628 óleo sobre tela 99.7 x 136.5 cm Museum of Fine Arts Boston

pr45
Autor desconhecido Apolo e as Musas Desenho a pincel e a tinta bistre, aguada de tinta da china, vestígios de lápis. Museu Nacional de Arte Antiga


pr44
Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770), Triunfo das Artes 1729 /30 óleo sobre tela 55,5 x 72 Museu Nacional de Arte Antiga
No registo inferior da composição estão representadas três figuras femininas que personificam as três artes visuais: Escultura, com um cinzel, Arquitectura, que segura um livro (provavelmente um tratado), e a Pintura, com o pincel e a paleta. À esquerda das Artes, mais próximas da esfera celeste, estão as Ciências, entre as quais se destaca a Geometria e a Astronomia que podem ser identificadas pelos respectivos instrumentos. No topo podemos observar as divindades protectoras das Artes e Ciências - Apolo e Minerva - e Cronos, o deus do tempo e da morte.

Dante faz uma alusão a Jasão e aos Argonautas, quando Jasão teve de lavrar os campos com dois touros ou bois selvagens.
Dante seguindo as Metamorfoses de Ovídio faz uma alusão ao mito de Jasão e dos Argonautas, na busca do Tosão de Ouro, quando Jasão teve de lavrar os campos com os dois touros ou bois selvagens de Hefaístos, o deus do fogo. Considerados indomáveis, estes dois animais monstruosos sopravam fogo pelas narinas. Medeia, a filha do rei da Cólquida, apaixona-se por Jasão, dá-lhe um bálsamo que o protege do fogo e do ferro. Jasão, depois de os dominar, agarrando-os pelos cornos, teve de abrir uma vala para aí semear os dentes de dragão.
Os heróis indo à Cólquida na urca/não se espantaram como a vós sucede/por verem que Jasão campos bifurca.


pr35
Ovide, les Métamorphoses, Flandre, seg. metade do século XV BNF

pr57
Jean-François de Troy, (1679-1752) L’Histoire de Jason 1742/43 segundo Métamorphoses de Ovídio (esquissos para cartões de tapeçaria) óleo sobre tela 55 x 129 cm. University of Birmingham

pr57a

pr57b
Jean-François de Troy, (1679-1752) L’Histoire de Jason Jason domptant les taureaux 1743 /46 cartão para tapeçaria oleo sobre tela 330 x 715 cm Musée Crozatier Le Puy
O quadro foi criado como cartão de  uma tapeçaria na Manufactura Real dos Gobelins.

pr80
Pierre BREBIETTE (1598-1642) Les Métamorphoses d'Ovide : Jason 1640/41 Planche d'illustration présentée dans la traduction des Métamorphoses d'Ovide par Nicolas Renouard (conseiller, notaire et secrétaire du roi vivant dans la première moitié du XVIIe siècle) intitulée "Les Métamorphoses d'Ovide, traduites en prose françoise, & de nouveau soigneusement reveues, & corrigées. Avec quinze discours, contenant l'explication morale des Fables. Ensemble quelques Epistres traduites d'Ovide, & divers autres Traitez, dont cette Impression a esté augmentée. Enrichies de nouveaux desseins, & de figures en taille douce, un seul état connu ; Deux pièces sur le montage, § TH.99.15.1659 ; dediées à Madame de Lanssac", Paris, chez Antoine du Quay [ou chez Eustache Daubin], 1640 Gravure à l'eau-forte rehaussée au burin 172 x 116 mm musée des beaux-arts Nancy

pr103
Bernard Picart ou Picard (1673-1733) Neueröffneter Musen-Tempel: Welcher das Allermerkwürdigste publicado em 1733. Imagem da edição de Amesterdão 1754.

Dante e Beatriz conversam sobre a Lua e as suas manchas, e o poeta pergunta se essas manchas lunares não são devidas, como a Caim, como popularmente se pensava.
Mas dizei: que sinais turvos assim/são os que nesse corpo lá na terra/põem outro fabulando de Caim?”
pr78
SandroBotticelli (1445-1510), First Planetary sphere (heaven of the moon); Beatrice explains to Dante the origins of the dark patches on the moon's surface c.1480-c.1495 Zeichnungen von Sandro Botticelli zu Dantes Göttlicher Komödie ; verkleinerte Nachbildungen der Originale im Kupferstich-Kabinett zu Berlin und in der Bibliothek des Vatikans ; mit einer Einleitung und der Erklärung der Darstellungg hrsg. von F. Lippermann. Berlin: G. Grote, 1921.

Untitled 120.tif
Giovanni di Paolo Beatrice explains the source of the dark spots on the moon  c.1450 Yates Thompson 36.The British Library.

pr36
Pierre Paul Prud'hon(1758-1823) La Justice et la Vengeance divine poursuivant le Crime 1808, óleo sobre tela 2,44 x 2,94 m. musée du Louvre Paris

William Shakespeare (1564-1616) no final da peça A Midsummer Night's Dream (Acto V, Cena 1), faz referência às manchas da lua como criadas por uma criatura que como punição tem de carregar pesados fardos:

Moonshine All that I have to say, is, to tell you that the lanthorn is the moon; I, the man in the moon; this thorn-bush, my thorn-bush; and this dog, my dog.
Demetrius Why, all these should be in the lanthorn; for all these are in the moon. But, silence! here comes Thisbe.
(Luar— Tudo o que tenho a dizer é que esta lanterna é a lua; Eu, o homem na lua; este feixe de espinhos, o meu feixe de espinhos; e este cão, o meu cão. Demétrio— Nesse caso, tudo isso deveria estar dentro da lanterna, pois todos se encontram na lua. Mas, silêncio! Aí vem Tisbe.)

Canto III
Dante recorda o mito de Narciso, também das Metamorfoses de Ovídio, que vendo a própria imagem reflectida na água por ela se apaixonou crendo que era real. Dante incorre no erro oposto pois acredita que as imagens reais são as reflectidas.

Tal, prontas lá a falar, mais faces conte/do que no erro contrário eu incorri/ao que acendeu amor de homem e fonte

pr59
Francisco Vieira (1765 - 1805 ) Álbum de desenhos: Vénus é espiada por dois pastores e Eco e Narciso 1796/97 Desenho a lápis 29,8 x 23,5 cm Museu Nacional de Arte Antiga

pr59a 
Francisco Vieira / gravura de Francesco Bartolozzi (1725-1815) e Benjamim Comte,Narciso 1804? água -forte e buril 51,2 x 62,2 cm Museu Nacional de Arte Antiga

Aparição das almas beatas Piccarda Donati e Constanza  d'Altavilla
Ainda no Céu da Lua, aparece a clarissa Piccarda di Simone Donati (irmã de Forese Donati, que Dante encontrou no Purgatório Cantos XXIII e XXIV). ) e que conta a sua história.
Piccarda conta que tendo ingressado na Ordem das Clarissas e pronunciado os seus votos, foi raptada do convento e obrigaram-na a uma vida laica.

Mas reconhecerás que sou Piccarda,/que, posta aqui com mais beatificados,/beata sou na esfera que mais tarda.

pr81

pr81a
Giovanni di Paolo  Meeting with Piccarda and Costanza in the Heaven of the Moon c.1450 in John Pope-Hennessy ( 1913-1994) The Illuminations of Dante's Divine Comedy by Giovanni di Paolo. NY: Random, 1993.

pr84
Philipp Veit (1793–1877) Dante e Beatriz encontram Piccarda e Constanza 1817-1827 fresco

pr2
Gustave Doré  Piccarda Donati and souls whose vows had been broken c.1868 The vision of Purgatory and Paradise by Dante Alighieri (London and New York: Cassell, Petter, and Galpin [1868?].

pr82
Vincenzo Morani (1809 – 1870) Piccarda Donati

pr83
Lorenzo Toncini (1802-1884) Piccarda Donati fatta rapire dal fratello Corso c. 1864  óleo sobre tela  141 x 115 cm. Musei Civici di Pavia

pr30
Salvador Dali Piccarda Donati in 100 Gravuras da Divina Comédia de Dante.

E a beata explica que num outro céu está a fundadora da Ordem, Santa Clara de Assis (1194-1253).
“Pleno mérito e vida ao céu apela/mais alto a dama”, disse” a cuja norma/no vosso mundo lá se veste e vela,
quando até ao morrer se vela e dorme, a/par do esposo que todo o voto aceita/que caridade a seu prazer conforma.


pr25

Mestre de 1515 Profissão de Santa Clara, 1515, óleo sobre madeira de carvalho, 195 x 174 cm. Museu Nacional de Arte Antiga (transferido do Convento da Madre de Deus, Lisboa)

Num interior de uma igreja, ao centro, Santa Clara, rodeada por duas santas freiras, recebe das mãos de São Francisco o livro da regra da Ordem Franciscana. São Francisco sentado está ladeado por um bispo e por um cardeal. Ao fundo, um altar apresenta uma pintura da Lamentação de Cristo. À esquerda, sobre um fundo arquitectónico, uma rainha segura na mão um livro sobre o qual está uma coroa. À direita, dois monges conversam junto da entrada para o templo.

pr26
Mestre Hilarius Santa Clara e o Milagre da Custódia – painel central do Tríptico de Santa Clara, 1486, têmpera sobre madeira de castanho, 239 x 99 cm. Museu Nacional Machado de Castro (proveniente do Convento de Santa Clara) Coimbra

Santa Clara é representada com o SS. Sacramento atributo iconográfico que lhe está associado. Quando a cidade de Assis, representada ao fundo, foi atacado pelos muçulmanos bastou à santa mostrar a Custódia para os pôr em fuga.

pr27
Bento Coelho da Silveira (c.1620-1708) Santa Clara expulsando os sarracenos de Assis século XVII 180 x L. 150 cm. Igreja Madre de Deus

Piccarda refere também Costanza d'Altavilla (1154-1198), conhecida como Costanza di Sicilia, que foi obrigada a infringir os votos monacais para se casar com Henrique VI.
Esta é a luz da tão grande Constança/que do segundo vento de Suave/gerou terceiro e a última pujança.”
Constança foi mãe de Frederico II (1194-1250), o terceiro imperador, entre 1212 e 1250, e a última pujança da dinastia.

pr38

Henry VI e Constância da Sicília do "Liber ad honorem Augusti" de Petrus of Ebulo, 1196
pr28
Arthur Georg von Ramberg (1819-1875) The Court of Emperor Frederick II in Palermo, 1865, óleo sobre tela 383 x 520 cm Neue Pinakothek Munich

E Piccarda afasta-se entoando o Ave Maria
Assim me disse e então começou “Ave,/Maria” em canto, e em canto se sumiu,/como por água funda cousa grave.

Canto IV
Perante as dúvidas de Dante como um homem entre dois alimentos igualmente atractivos ou um cordeiro entre dois lobos ou ainda um cão entre duas presas, Beatriz faz como Daniel interpretando o sonho e aplacando a ira de Nabucodonosor.
Fez Beatriz então como Daniel,/Nabucodonosor privando de ira/que o tinha feito injusto ser cruel;
Dante refere o Livro de Daniel, a interpretação que o profeta faz do sonho de Nabucodonosor.

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Giovanni di Paolo Dream of Nebuchadnezar c.1450 Yates Thompson 36. the British Library.

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O sonho de Nabuccodonosor  Speculum humanae salvationis, 1450 iluminura 8,5 x 8,5 cm. Meermanno Koninklijke Bibliotheek Den Haag Haia

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Gerard Jollain "Deus dá a Daniel a interpretação de um sonho", 1703, gravura 17,5 x 25,5 cm. Museu dos Biscainhos.

É uma página da “Sacra Biblia, nouo et vetere testamento constantia eximiis que sculpturis et imaginibus illustrata, De Limprimerie de Gerard Jollain" Gravura, com duas legendas na parte inferior, em francês e em latim, ilustrando o momento em que Daniel, por intermédio de Deus, revela e interpreta o sonho que Nabucodonosor, rei da Babilónia, tivera. Daniel está ao centro, de costas, olhando para a sua esquerda mas virado para o fundo onde Nabucodonosor, sentado no trono, e seus homens o ouvem relatando e interpretando o sonho do rei. À direita, um cão dorme no chão e, sobrepondo-se à vista para a cidade, aparece o sonho do rei, transfigurado na estátua de um rei, realizada com vários materiais, e que acaba por ser destruída por uma única pedra que lhe bate nos pés. (matrizNet)

Livro de Daniel II 1 a 49
1No segundo ano do seu reinado, Nabucodonosor teve so­­nhos, que lhe agitaram tanto o espí­rito que perdeu o sono.
12Ao ouvir isto, o rei enfureceu-se e em sua cólera mandou exterminar todos os sábios da Babilónia.
13A decisão foi publicada e o massacre dos sábios começou. Procuraram Da­niel e os companheiros para os ma­tar também. 27«O mis­té­rio de que o rei pede esclareci­men­to, nem os sábios, nem os magos, nem os feiticeiros, nem os astrólo­gos são capazes de o revelar ao rei.
31Ó rei, tu tiveste uma visão. Eis que uma grande, uma enorme está­tua se levantava diante de ti; era de um brilho extraordinário, mas de um aspecto terrível.
46Então, o rei Nabucodonosor atirou-se de face por terra, prostrado diante de Da­niel; em seguida, ordenou que lhe ofere­ces­sem oblações e incenso.
47Diri­gindo-se a Daniel, o rei disse: «O vosso Deus é verdadeiramente o Deus dos deuses, o Senhor dos reis; é também Ele quem manifesta os mistérios, visto que só tu os pudeste revelar.»
48O rei elevou Daniel em digni­dade e deu-lhe numerosos e ricos presen­tes; constituiu-o governador de toda a província da Babilónia e nomeou-o chefe supremo de todos os sábios da Babilónia.

Beatriz para desfazer uma das dúvidas de Dante, sobre o lugar dos benditos, e explica porque a Igreja figura os arcanjos com uma forma humana.
E a Santa Igreja de humana feição/Gabriel e Miguel vos representa,/ o outro que Tobias tornou são.
 
São Gabriel O nome deste Arcanjo significa "Força de Deus" ou "Deus é a minha proteção". Foi quem anunciou o nascimento de João Baptista e quem anunciou a Maria a Encarnação (S. Lucas 1,26 –38)
26Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 27a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. 28Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.»

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Arcanjo S. Gabriel no volante esquerdo do tríptico da Aparição do Cristo à Virgem

pr105a
Garcia Fernandes (act.1514-1565) Tríptico da Aparição de Cristo à Virgem 1531 óleo sobre madeira de carvalho 137,7 x 230 cm. Museu Nacional Machado de Castro Trítptico constituido por um painel central (com a Apariçaõ de Cristo à Virgem como tema principal, tendo também pintados, em cenas dos fundos, a "Descida de Cristo ao Limbo", o "Encontro a caminho de Emaús", ao centro "Cristo ressuscitado, junto ao sepulcro" e o "Nole mi tangere"), e dois volantes, representando, no anverso a "Anunciação" (volante esquerdo: Arcanjo S. Gabriel; volante direito: a Virgem), e no reverso, em grisalha, o "Quo Vadis"(volante esquerdo: S. Pedro; volante direito: Cristo a transportar a cruz).

São Miguel
O nome do Arcanjo Miguel possui um revelador significado em hebraico "Quem como Deus":
7Depois, travou-se uma batalha no céu: Miguel e seus anjos declararam guerra ao Dragão. O Dragão e os seus anjos combateram, 8mas não resistiram. E nunca mais encontraram lugar no céu

pr105
atribuído a Garcia Fernandes (act.1514-1565) São Miguel Arcanjo 1530/40 óleo sobre madeira de carvalho 130 x 79 cm. Museu Nacional de Arte Antiga

São Rafael

Este arcanjo cujo nome  significa "Deus curou" ou "Medicina de Deus", aparece no Antigo Testamento no livro de Tobias (5,4)
" 17O anjo disse: «Eu vou com ele. Não tenhas medo! Par­tiremos e regressaremos com saúde, pois o caminho é seguro.”

pr105c
Tadeu de Almeida Furtado (1813-1901), Tobias e o Anjo (miniatura) 1830/40 guache s/ marfim 7,5 cm x 7 cm. Museu de Grão Vasco Viseu Portugal

De seguida, Beatriz esclarece então a primeira dúvida de Dante sobre os votos não cumpridos e a vontade determinada, dando como exemplo São Lourenço e Múcio.
Fosse inteira a vontade e te assevero,/como Lourenço em grelha o já mostrara,/e se fez Múcio a sua mão severo,
São Lourenço (225?-258) foi queimado vivo numa grelha por ordem do imperador romano Valeriano I.

pr3
Giovanni di Paolo Martyrdom of St. Lawrence c.1450 Yates Thompson 36. The British Library

pr53
Mariotto di Nardo (activo de 1393 a 1424) Martyre de Saint Laurent século XV tempera sobre madeira 0.320 x 0.343 m. musée des Beaux-Arts Rennes

pr14
Michael Pacher (vers 1435-1498) Le Martyr de Saint Laurent altar de S. Lourenço século XV, painel de madeira de carvalho 102 x 99 cm. Bayerische Staatsgemäldesammlungen, Alte Pinakothek Munique Alemanha

pr52
Girolamo da Santa Croce (vers 1480-1556) O Martírio de São Lourenço óleo sobre madeira 63,5 x 79 cm. Allemagne, Dresde, Gemäldegalerie Alte Meister, Staatliche

pr23
Cornelis Cort (1535-1578) São Lourenço Titianvs invent ; Cornelio Cort fe cun preuel, 1571, gravura : água-forte e buril, p&b, BND Lisboa Portugal

pr39
Policarpo de Oliveira Bernardes (1695 – 1778) Martírio de São Lourenço c. 1730, faiança 2,165 x 1,575 m. Museu da Cidade de Lisboa (proveniente da nave da Igreja de São Lourenço de Carnide)

Caius Mucius Scaevola
Segundo Tito Lívio (Ab Urbe condita) no cerco de Roma, Caius Mucius, um jovem romano, infiltrou-se no acampamento inimigo, numa tentativa de matar o rei etrusco Porsenna, mas por engano matou o secretário do rei. Preso foi condenado a morrer pelo fogo. Mas Múcio determinado pôs a mão direita no fogo mostrando que não temia a condenação. Porsenna ficou tão impressionado com a determinação e a coragem do jovem que o libertou o e concluiu a paz com Roma.
O episódio numa imagem do tempo de Dante
.
pr108
Jean Boccace (1313-1375) Múcios Scaevola, lors du siège de Rome par Porsenna, roi des Etrusques se brûle la main droite 14 ?? origem Jean sans Peur ; bibliothèque de Bourgogne ; marquis de Paulmy tradução de Laurent de Premierfait (13..-1418) BnF

pr86
Matthias Stom (1600–1649) Mucius Scaevola in the Presence of Lars Porsenna  c. 1640 óleo sobre tela Art Gallery of New South Wales

pr87
Bernardo Cavallino, (1616–1656) Mucius Scaevola Confrontando o Rei Porsenna c. 1650 óleo sobre cobre 61,2 x 89,2 cm. Kimbell Art Museum Fort Worth Texas
 
A explicação de Beatrice provoca novas dúvidas em Dante, sobre a vontade absoluta e relativa. Beatriz usa o exemplo de Alcméon, já referido no Canto XII do Purgatório, e  que segundo Estácio (Publius Papinius Statius c. 45 a c.96 d.C.), na Tebaida, para vingar o pai Anfiarau um dos sete reis de Tebas, que tinha sido traído pela mulher Erifile, matou a mãe, e de seguida enlouqueceu. Beatriz explica que, muitas vezes, para evitar um perigo, é necessário fazer algo de inconveniente.

Muitas vezes, irmão, já nos adveio/por perigos fugir, e de mau grado/fazer-se o que fazer menos conveio;
como Alcméon, a tal sendo rogado/do pai, matou a mãe, e foi, a expensas/de não perder piedade, despiedado.

Sobre este episódio, Voltaire (1694-1778), escreveu uma tragédia em 5 actos, intitulada Eriphyle, representada pela 1ª vez em 7 de Março de 1732

pr88
Éryphile, Acte IV Scene V
Eh bien! ne tarde plus, remplis ta destinée;
Porte ce fer sanglant sur cette infortunée;
Étouffe dans mon sang cet amour malheureux
Que dictait la nature en nous trompant tous deux;
Punis-moi, venge-toi, venge la mort d'un père;
Reconnais-moi, mon fils frappe et punis ta mère!

Bem! não adies mais, cumpre o teu destino/Mete esse ferro sangrento nesta infortunada;/Abafa no meu sangue este amor infeliz;/Que ditava a natureza enganando-nos aos dois;/Pune-me, vinga-te, vinga a morte de um pai;/Reconhece-me, meu filho ataca e pune a tua mãe!              ( tradução livre feita por mim)

Canto V

No início do Canto, Beatriz adverte para que não se façam promessas que não se possa cumprir,  pois por vezes o seu valor é demasiado elevado para que ainda se possa substituir por outra. E dá como exemplo Jefté e Agamenon que por uma promessa tiveram de sacrificar as próprias filhas.
Sejam votos, Mortais, sem esquivança:/sede fiéis a isto e sem viés,/qual Jefté foi em sua prima fiança:
A história de Jefté é contada na Bíblia em Juízes 11. Jefté ao regressar a casa,  vem ao seu encontro a sua  filha única com  tamborins e danças, e Jefté fica consternado porque fizera uma promessa a Deus que se vencesse os amonitas, sacrificaria a primeira pessoa que saísse da porta de sua casa quando ele chegasse.
30 Jefté fez um voto ao Se­nhor, di­zendo: «Se realmente entregas nas minhas mãos os amo­nitas,31 perten­cerá ao Senhor quem quer que saia das portas da minha casa para me vitoriar pelo meu regresso a salvo da terra dos amonitas; eu oferecê-lo-ei em holocausto.»
34 Quan­do Jefté regressou a sua casa em Mispá, eis que sua filha saiu para o vitoriar, dançando e tocando tambo­rim; ela era filha única; não tinha mais filhos nem filhas. 35 Ao vê-la, rasgou as suas vestes e disse: «Ai, minha filha! Tu fazes-me lançar no desespero! Tu és a minha desgraça! Eu falei demais na presença do Se­nhor; agora não posso tornar atrás.»

pr60
Dante Alighieri (1265-1321) La Divine Comédie Dante et Béatrice. Sacrifice de la fille de Jephté.BnF

pr15
Girolamo Donnini (1681-1743), Sacrifício da filha de Jefté Fondazione Pietro Manodori, Reggio Emilia

pr17
Antoine Coypel (1661-1722) (d'après) Le sacrifice de la fille de Jephté séc. XVII/XVIII, óleo sobre tela 48 x 70 cm. musée du Louvre

pr55
Pierre Lacour père, (1745-1814) Jephté 1780 óleo sobre tela 177 x 226 cm m Musée des Beaux-Arts Bordeaux

Ifigénia e Agamenon
Na expedição contra Tróia, Agamenon, “o grão-duque dos gregos” para que os ventos lhe fossem favoráveis prometeu sacrificar a mulher mais bela do seu reino, que afinal era a sua filha Ifigénia. Dante baseia-se na tragédia Ifigénia em Aulis de Eurípides (c. 485-406 a.C.).

dissesse antes “Mal fiz” do que o fez,/pior, observando; e tão estulto/o grão-duque dos gregos ora vês,
onde chora Ifigénia o lindo vulto,/e em choro o louco e o sábio assim agrave/que ouvem dizer de semelhante culto.

pr37
Bertholet Flémal (1614-1675) Le Sacrifice d'Iphigénie século XVII óleo sobre tela 160 x 163 cm. musée du Louvre

pr18
Jong Frans de, ou Jongh (?-1705) Le Sacrifice d'Iphigénie c.1700, óleo sobre tela 74,6 x 115,5 cm. Bayerische Staatsgemäldesammlungen, Alte Pinakothek Munich

Dante e Beatriz ascendem ao segundo Céu, o de Mercúrio.
e assim como uma seta no alvo um lanho/faz inda antes que seja a corda queda,/tal ao segundo reino co ela venho.

pr89
Giovanni di Paolo Dante and Beatrice ascend to the Heaven of Mercury and see a host of splendors c.1450 Yates Thompson 36. The British Library.

pr90
Primo della Quercia Paradiso, Canto V. The Bodleian Library Oxford

Beatriz atrás de dante olha para Mercúrio sentado junto a uma estrela e com os signos de Gémeos e de Virgem.
pr91
Salvador Dali In the heaven of Mercury

As almas cantam "Hosanna, Sanctus Deus"
Canto VI
Dante encontra Justiniano, Imperador romano do Oriente de 527 a 565 d.C., que  respondendo a uma pergunta do poeta ,explica logo no início do Canto VI, que Constantino (Flavius Valerius Constantinus 272-337) mudou a capital do império para Bizâncio (Constantinopla). A águia símbolo da capital do Império, seguira Eneias, até ao Lácio onde Eneias casando com Lavínia, filha do rei Latino, dera origem aos romanos. Justiniano de seguida resume  a história do Império de César a Carlos Magno.
“Depois que Constantino a águia voltou/contra o curso do céu, que atrás seguiu/do herói que Lavínia se apossou,


pr21
Donation of Constantine, 1246 Capella di San Silvestro, Santi Quattro Coronati, Rome

Eneias e Lavínia

pr61
Lavinia apaixona-se por Eneias oficina Alsácia de 1418 Aquarela, guache 20 x 14-19 cm. Cod. Pal. germ. 403 Heinrich von Veldeke Eneit Straßburg - "Werkstatt von 1418", 1419 Universitätsbibliothek Heidelberg

Enéias está de joelhos e de mãos postas diante Lavinia, que se debruça no parapeito de um castelo estilizado.
E Justiniano continua a sua narrativa, referindo a sua própria acção:
Sou Justiniano e césar fui então;/e, por querer do primo amor, intento/tirar das leis o excessivo e o vão.

pr19
Justiniano, o bispo Massiamiano, Giuliano Argentario, e os dignatários da corte: Giuliano Argentario (o doador com o livro), mosaico c. 547 na parede lateral da abside da basílica de São Vital em Ravena Itália

pr4
Giovanni di Paolo Justiniano resume a história do Império Romano

Refere –se depois a Agapito I, o papa de 533 a 536, que o convenceu (Justiniano) a aceitar a dupla natureza de Cristo.
mas o santo Agapito preceitua as/palavras conduzindo à fé sincera,/e pastor sumo, lá me traz co as suas.
E Justiniano refere de seguida o seu general, Belisário, nascido por volta do ano 500, que derrotou os Vândalos em 534 e comandou as legiões romanas contra os Godos entre 535 e 540. Dante, faz de Belisário o exemplo do guerreiro vitorioso porque protegido por Deus.
e Belisário armei, nele a fiar-me,/cuja destra do céu foi tão adjunta/que houve sinal devesse eu repousar-me;

Caído em desgraça junto de Justiniano, por uma intriga da corte, e apesar de reabilitado, criou-se a lenda de que lhe foram confiscados todos os bens tendo morrido na miséria em 565. 
Belisário o poderoso braço direito de Justiniano acabando na miséria torna-se um dos temas  preferidos da pintura académica.

pr114
Giovanni Paolo Pannini (1691-1765) L'Aumône à Bélisaire dans des ruines óleo sobre tela 99 x 136 cm. musée Calvet Avignon

pr62
Jacques-Louis David (1748–1825) Bélisaire demandant l’aumône 1781 óleo sobre tela 3,12x2,88 cm. Palais des Beaux-Arts de Lille

Palas (Pallante)
Segundo a Eneida de Virgílio, Palas filho de Evandro, rei do Lácio, foi um dos companheiros de Eneias no combate contra Turno, rei dos Rutuli. Palas é morto por Turno durante a primeira batalha tornando-se assim o primeiro a morrer pela edificação do império romano. Eneias por sua vez mata Turno.

De reverência vê quão nobre engenho/o tornou digno; e que reinou na hora/de Palas já morrer por seu empenho. 
      
pr63
Luca Giordano (1632–1705) Enea vince Turno óleo sobre tela, 176 × 236 cm Galleria Corsini Florença

Os Horácios
Para pôr fim à guerra entre a Alba Longa e a nascente potência romana foi decidido um duelo entre três combatentes de cada lado. Do lado de Alba Longa foram escolhidos três gémeos - os Coriácios e do outro lado também três gémeos - os Horácios. Quando a contenda parecia favorável a Alba Longa, que já tinham matado dois dos Horácios, o terceiro Publius Horatius consegue matar os três adversários dando a vitória a Roma.
Esta lenda sobre a grandeza romana permite a Dante salientar outro momento da intervenção divina na formação do império romano.
Tu sabes como em Alba então demora/mais de trezentos anos, e termina/co a luta a três e três que o desafora.
Os temas ligados com a república e o império romano, foram abundantemente tratados no século XVIII, particularmente no período da Revolução Francesa, já que eram o único modelo para a nova sociedade revolucionária e republicana.(cf. Marat assassiné par Jacques Louis David neste blogue em 1 de Julho de 2010),
O tema dos Horácios, foi tratado por Jacques-Louis David, num dos seus mais célebres quadros O Juramento do Horácios. um quadro de grandes dimensões 3 metros e 30 por 4 metros e 25 considerado como um manifesto da pintura neo-clássica.

pr65h
Jacques-Louis David (1748-1825) Le Serment dês Horaces 1784    óleo sobre tela 4,248 x 3,298 m Musée du Louvre  Paris

O cenário representa o pátio pavimentado de um palácio, com uma arcada inspirada na galeria do Coliseu de Roma.

pr65k
Jacques Louis David Galeria interior do Coliseu de Roma detalhe de página desenho à pena, tinta castanha, lavis cinzento e pedra negra 13, 5 x 19,6 cm. Álbum David Jacques-Louis -10-Folio 17 Museu do Louvre

Como no desenho a cena é iluminada a partir do lado esquerdo da composição, salientando cada um dos grupos de personagens.

pr65m

Perante o pai, ao centro, segurando as espadas, os três Horácios à esquerda prestam Juramento, enquanto à direita as irmãs, Sabina casada com um dos Horácios é uma Coriácia e a outra, Camila está noiva de um Coriácio, choram o conflito e a terceira, ao fundo abraça os dois filhos pequenos. Camila irá ser morta pelo irmão, acusando-a de traição, por chorar um inimigo de Roma.
Cada uma das arcadas corresponde às personagens: à esquerda os gémeos Horácios.

pr65c

Ao centro o Pai que recebe o Juramento

pr65d

E à direita lacrimosas estão as mulheres.

pr65e

Todas as linhas de fuga se dirigem para o feixe das espadas e para a mão que as segura, o símbolo do Juramento, no centro da imagem.

pr65b

Num quadrado à esquerda definido por uma lança pousada num dos capiteis e pela figura do pai, inscrevem-se as personagens masculinas de pé, onde dominam as linhas rectas, com os braços estendidos e as pernas abertas, numa atitude viril e militar. Nos trajes sobressai o vermelho.

pr65f

pr65y

Num outro quadrado menor à direita as personagens femininas, em posições mais distendidas onde dominam as linhas curvas. As cores das túnicas são menos vivas sobressaindo apenas o turbante verde de Camila, a figura feminina mais à direita.

pr65g

pr65z

pr65a
Jacques-Louis David(1748-1825) Os três Horácios 1785   estudo para o Juramento dos Horácios 50 x 580 cm Musee Bonnat Bayonne  Gascogne, France

pr65x
Camila 1785 (estudo para o Juramento dos Horácios) desenho a pedra negra, realçado a branco 50,5 x 35 cm. Musée Bonat Bayonne 

A morte de Camila

pr106
Louis Jean François Lagrenée (1725-1805) Horacio ataca a irmã (Camila) 1814 óleo sobre tela  95 x 134 cm. Museu de Rouen

pr115
Johannes Bernardus Duvivier (1762-1837) A Morte de Camila ou O Último dos Horácios século XVIII óleo sobre tela 1,13 x 1,46 m. musée de Tessé Le Mans France

Pierre Corneille (1606 –1684) escreveu uma tragédia em 5 actos, “Horace” explorando estas relações familiares entre os Coriácios e os Horácios. representada pela primeira vez em 1640 e dedicada ao cardeal Richelieu.
Em 1934,  Bertold Brecht (1898-1956) escreveu também uma peça de teatro intitulada Die Horatier und die Kuratier (Os Horácios e os Coriácios).
As Sabinas
E o sabes maltratar gente sabina,/ferir Lucrécia em sete campos régios,/e que as gentes vizinhas extermina.
A lenda sobre as origens de Roma refere que a cidade fundada por Rómulo, era habitada exclusivamente por homens. Para assegurar o seu futuro os Romanos raptaram as Sabinas, que depois decidiram de ficar em Roma. A história é contada por Plutarco,Tito Lívio e Virgílio.
O rapto das sabinas é outro dos temas preferidos da pintura histórica e mitológica.

pr64
Polidoro Caldara da Caravaggio (1571-1610), Rapto das Sabinas século XVI Desenho a aguada de sépia realçado a branco sobre papel com preparo 18 x 36 cm. Museu Nacional de Arte Antiga

pr66
Pietro Da Cortona (1596-1669) O Rapto das Sabinas 1627/29 óleo sobre tela 2,80 x 4,26 m. Pinacoteca Capitolina, Roma

pr96
Jacques-Louis David As Sabinas 1799 óleo sobre tela 3,85 x 5,22 cm. Museu do Louvre

O Rapto das Sabinas segundo Nicolas Poussin
Nicolas Poussin (1594 – 1665), pintou o tema em dois quadros sensivelmente da mesma época, um que se encontra no Museu Metropolitano de Nova Iorque e o outro no Museu do Louvre em Paris.
No de Nova Iorque Poussin representa as sabinas sendo raptadas pelos romanos, sob o olhar de Rómulo, num cenário que representa uma praça romana. À esquerda um templo, de que apenas se vê duas colunas e à direita a fachada de uma basílica romana. Entre estas duas construções ao fundo uma colina com diversas construções. O desenho das arquitecturas revela o conhecimento que Poussin tem dos tratados de Vitrúvio e Serlio.

pr116
Nicolas Poussin (1594 – 1665) L'enlèvement des Sabines c. 1633-1634 óleo sobre tela 1, 55 x 2,10 m.  The Metropolitan Museum of Art N.Y.

Poussin coloca as personagens formando dois grupos: um primeiro à esquerda em que as personagens, homens mulheres e crianças, formam uma pirâmide acentuada pelos gestos e posições das figuras. As três mulheres vestidas de azul sublinham esta composição.

pr11615

No lado direito as figuras fazem um movimento no sentido do lado esquerdo do triângulo, criando uma dinâmica na composição e um ambiente de movimentos desencontrados da população perante a violência do episódio.

pr11616

Rómulo comandando a cena, está vestido com uma túnica vermelha que salienta a sua presença, e cuja bainha está levantada pela mão esquerda, o sinal combinado para o rapto,  enquanto a mão direita segura uma vara. Encontra-se à porta do templo de que apenas se vê parte de duas colunas, entre as quais duas personagens.

 pr1168

O sucesso do tema a partir do século XVI deve-se ainda à possibilidade de juntar os corpos femininos e masculino em posições escultóricas e de dança, e ainda de possibilitar a representação de grupos de pessoas desorientadas ou em pânico.

pr1166

Poussin coloca as sua figuras principais em posições que lembram a escultura de Giambologna (Jean Boulogne 1529-1608) sobre o mesmo tema, na Loggia dei Lanzi, Florença.

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O romano do grupo à direita, e que brande o punhal para o que defende a mulher de ser raptada, enverga uma lorica de cor amarelada. A lorica era uma armadura que quando feita em couro se moldava ao corpo, permitindo uma grande flexibilidade de movimentos.

pr1167

Uma velha  desesperada junto a um bebé parece ter sido apanhada acidentalmente no ataque.

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O quadro do Louvre.

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Nicolas Poussin O rapto das Sabinas óleo sobre tela 1,59 x 2,o6 m. museu do Louvre

O cenário urbano e arquitectónico, na metade superior do quadro é agora alterado por Poussin. O templo ergue-se agora à esquerda mostrando parte da fachada com seis colunas dóricas (são visíveis três),  arquitrave e  frontão. Organizando a perspectiva, à direita três edifícios ao longo de uma rua com um arco definem um ambiente urbano.

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O desenho das arquitecturas revela também neste quadro, o conhecimento que Poussin tem dos tratados de Vitrúvio e Serlio.

pr169
Sebastiano Serlio (1475 — 1554) D’ARCHITTETVRA  1566 página do Libro terzo: Nel qual si figurano, & descriuono le antichità di Roma, & le altre che sono in Italia, & fuori d'Italia

Rómulo ainda no lado esquerdo do quadro e dominando a cena, segura a capa vermelha dando o sinal para o rapto, mas agora é colocado numa pose utilizada pelos romanos na estatuária imperial. São agora visíveis as personagens que o acompanham.

 pr116a1

No centro da composição o confronto entre os romanos e as sabinas, organiza-se agora segundo a diagonal da parte inferior esquerda para a parte superior direita.

pr116a6

Este movimento é acentuado pelas linhas de fuga da perspectiva.

pr116a4

Mantém-se as personagens, agora em poses não tão escultóricas, algumas trajando de azul e do mesmo modo sublinhando a organização da composição. Poussin representa de novo a velha de joelhos apanhada na confusão, mas desaparecem as crianças, o que está mais de acordo com a história do acontecimento.

pr116a5

Picasso faz uma reinterpretação do quadro.

pr143
Pablo Picasso (1881-1973), Estudo para "L'enlèvement des Sabines" d'aprés Poussin 1962 Fusain 50,5 x 66 cm. musée Picasso Paris

pr143a
Pablo Picasso (1881-1973),"L'enlèvement des Sabines" 1962, óleo sobre tela 97 x 130 cm. musée national d'Art moderne - Centre Georges Pompidou

Lucrécia
Lucrécia é o símbolo da mulher virtuosa romana. Casada com Tarquinio Colatino em 509 foi violada por Sextus Tarquinius, o filho de Tarquínio o Soberbo. Confessando a desonra ao marido suicida-se e este acto provoca a morte do assassino e teve como consequência a queda da monarquia e a instauração da república em Roma.

pr100b  pr100a
Desonra e suicídio de Lucrécia página iluminada de Ab Urbe condita  1467/70 BnF

pr100
   
Lucrécia é atacada pelas costas na cama por "Sextus Tarquinio" com uma espada. Ao centro ela suicida-se na presença de dois homens, supondo-se que um deles seja o esposo.

pr68
Sandro Boticelli (c.1445-1510) História de Lucrécia 1496-1504. Têmpera sobre madeira 83,5 x 180 cm. Museu Isabella Stewart Gardner. Boston. USA.

No. 914
Ticiano Vecellio (1490–1576) Tarquinius e Lucretia 1571 óleo sobre tela 189 × 145 cm.  Cambridge, Fitzwilliam Museum

Tarquino com um joelho entre as pernas de Lucrécia ameaça-a com um punhal para consumar a violação.
Toda a composição afirma já uma estética do início do barroco, conferindo uma dinâmica à cena, com as diagonais do canto inferior esquerdo para o canto superior direito, a que se contrapõe a diagonal inversa formada pelos braços das personagens. Também os colchões e as almofadas desenham horizontais “estabilizando” a composição e contrastando com as curvas do cortinado na parte superior.

No. 914  No. 914
Também as personagens com rostos expressivos se olham entre si, o que será ainda uma das características da arte barroca.

No. 914

Ao fundo está um rapaz  que segurando o reposteiro, contempla a cena.

No. 914

Supõe-se seguindo Tito Lívio tratar-se do pajem que acompanha Tarquínio, e que será a única testemunha do acto.
As Lucrécia de Lucas Carnach e de Giorgio de Chirico

pr144    pr132
Lucas Cranach (1472-1553) Lucrécia 1533 óleo sobre Madeira 37 x 23 cm. Gemäldegalerie Berlim
Giorgio de Chirico (1888-1978) Lucretia 1922. óleo sobre tela. 174 x 76 cm. Galleria Nazionale d´Arte Moderna. Roma.

A violação de Lucrécia (The Rape of Lucretia) é também um poema narrativo de William Shakespeare (1564 -1616) de 1594.
From the besieged Ardea all in post,
Borne by the trustless wings of false desire,
Lust-breathed Tarquin leaves the Roman host,
And to Collatium bears the lightless fire
Which, in pale embers hid, lurks to aspire
And girdle with embracing flames the waist
Of Collatine's fair love, Lucrece the chaste.

Benjamin Britten (1913-1976) baseou-se nele para escrever a ópera The Rape of Lucretia de 1946.

Brenno
Brenno era o comandante dos Gauleses que desbaratou as tropas romanas no rio Allia em 390 a.C. e que saqueou Roma. Tito Lívio na Ab Urbe Condita, atribui-lhe a frase Vae victis! (Ai dos vencidos!)  quando conquistou Roma.
e que as gentes vizinhas extermina./E quanto fez levado dos egrégios/Romanos contra Breno, contra Pirro,

pr117
Paul Joseph Jamin (1853-1903) Brennus et sa part de butin Século XIX, musée des Beaux-Arts La Rochelle

pr118
Sebastiano Ricci (1659-1734) Camille et Brennus século XVIII óleo sobre madeira 40 x 56 cm. musée des Beaux-Arts Ajaccio

Pirro
Pirro, rei do Epiro viveu entre 319 e 212 a. C. Durante a guerra entre Tarantini e os Romanos Pirro venceu-os em Heracleia em 280 e em Ásculo em 279  mas com tamanhas perdas que deu lugar à expressão “vitória de Pirro”.

pr141
Autor desconhecido Combat de Pyrrhus contre les Romains século XVII óleo sobre tela 32 x ? cm. museu Magnin Dijon

pr142
Johann-Heinrich Schönfeld (1609-1682) A derrota de Pirro c.1640 óleo sobre tela 1,67 x 2,32 m. Schleissheim, Bayerische Staatsgemäldesammlungen, Staatsgalerie im Neuen Schloss

No entanto o episódio da vida de Pirro que mais servirá de tema à a pintura, é relatado por Plutarco e decorre em 317 a.C. Quando o pai de Pirro, o rei Eácides é destronado e expulso, Pirro ainda criança é salvo por alguns soldados e servidores do seu pai, que o conduzem para Mégara uma cidade da Macedónia. Contudo chegando perto da cidade deparam-se com um rio que não conseguem atravessar. Então enrolam pedras em pedaços de roupa e atam estas a dardos que lançam na direcção da cidade para que os seus habitantes os venham auxiliar.
Este episódio é pintado entre outros, por Nicolas Poussin.

pr140
Nicolas Poussin (1594–1665) Le Jeune Pyrrhus sauvé 1634 óleo sobre tela 116 x 160 cm. Museu do Louvre

Dante refere depois Torcato, Quíncio, os Décios e os Fábios.
onde Torcato e Quíncio que do cirro/descuidado se chama, Décios, Fábios,/tiveram fama a que a bom grado mirro.

Torcato
Tito Manlio Torquato, que viveu no século IV antes de Cristo, foi um general romano, que venceu os Gauleses, e considerado um exemplo de rigor e isenção. Segundo a lenda terá punido com a morte o próprio filho por desobediência às suas ordens.

pr69
Lorenzo De Ferrari (c.1680 - 1744) La giustizia di Tito Manlio Torquato nel condannare il figlio óleo sobre tela 255 x 169 cm. Musei di Strada Nuova Palazzo Rosso Génova Italia

pr97
Giulio Campi (1502/ 1573) e Antonio Campi (1523/ 1587) Julgamento de Manlio Torquato 1525/49  têmpera sobre tela 293,5 x 193 cm. Museu Civico de Arte e História Brescia

À esquerda um jovem soldado amarrado a um tronco está para ser decapitado por um homem com um machado. À direita Manlio Torcato a cavalo acompanhado por um outro cavaleiro assiste à condenação do filho
.
pr119
Jean-Simon Berthélémy (1742/1743-1811)Manlius Torquatus condamnant son fils à mort óleo sobre tela 3,280x2,660 m. musée des Beaux-Arts Tours

pr162
Ferdinand Bol (1616-1680), Consul Titus Manlius Torquatus 1669 óleo sobre tela 218 x 142 cm. Rijksmuseum Amesterdão

Quíncio
Lucius Quinctius Cincinnatus foi um político romano do século V a. C. nomeado cônsul em 460 e ditador em 458 na guerra contra os Equi. Obtida a vitória voltou a ocupar-se dos trabalhos agícolas na sua propriedade, tornando-se o símbolo do desinteresse pelo poder, que via apenas como um serviço a Roma.

pr71
Alexandre Cabanel (1823-1889)  Cincinatus recebendo os embaixadores de Roma 1843 óleo sobre tela colecção particular

pr72
Juan Antonio Ribera (1779-1860) Cincinato abandona el arado para dictar leyes a Roma, c.1806 óleo sobre tela 160 x 215 cm. Colecção Real do Museo del Prado

pr73
Giovanni Francesco Romanelli (1612–1660) Les représentants du Sénat offrent la poupre à Cincinnatus. 1655-1658.fresco museu do Louvre

Décios e Fábios
Publius Decius Mus pai e filho venceram os Latinos mas ambos morreram a combater.
pr74
Peter Paul Rubens (1577–1640) A morte de Décio Mus 1617 óleo sobre tela 288 × 519 cm Fürstlich Lichtensteinische Gemäldegalerie

No centro do quadro, Rubens mostra Decius Mus a ser atravessado por uma lança, escorregando do seu cavalo branco que se empina numa figura de dressage como a prestar homenagem.

 pr74c
O rosto de Décio, mostra uma expressão de sacrifício, olhando os céus no momento da morte.

pr74f

A estrutura da composição definida por diagonais, com as figuras inseridas numa elipse e empilhando-se em movimentos circulares é típica do barroco
.
pr74a

pr95
tapeçaria de Jan Raes II, cartão de Peter Paul Rubens Roma Implorando ajuda a Décio Mús século XVII lã e seda 4,05 x 5,01 m. executada em Bruxelas, Brabante Paço dos Duques de Bragança Guimarães

Os Fábios
Os Fábios distinguiram-se na guerra do Veio. O mais conhecido membro da família Fábio foi  Quintus Fabius Maximus  (275 – 203 a.C.), o Temporizador que combateu  Aníbal.

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Giambattista Tiepolo (1696-1770) Fabius Maximus perante o Senado em Cartago c. 1725 óleo sobre tela 44 x 28 cm. Museo Thyssen-Bornemisza Madrid

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Jacques Le Grand (1360-1415/18)     "Comment les chevaliers se doivent gouverner". iluminura sobre pergaminho 22,4 x 17 cm. in   Le Livre de bonnes moeurs c.1490 musée Condé Chantilly

Como os romanos recusaram a ajuda, Fabius vende a sua herança para cumprir a promessa de pagar o resgate dos romanos feitos prisioneiros por Aníbal.
Aníbal 
De seguida Dante pela voz de Justiniano lembra Aníbal, e os que sobre ele triunfaram.
que vindo atrás de Aníbal já passaram/a rocha alpestre, ó Pó, de onde és, e acabe-os./Sob ele, jovens cabos, triunfaram
Sob ele, jovens cabos, triunfaram/Cipião e Pompeu; e na colina/sob a qual tu nasceste o amargaram.
Aníbal Barca, o célebre general cartaginês viveu entre 247 e 183 a. C. Filho de Amílcar Barca, continuou a política do pai. Conquistando Sagunto provocou a segunda guerra Púnica. Atravessando os Alpes em 218 a.C.,com os seus exércitos de que se destacava o uso de elefantes, obteve várias vitórias sobre os romanos até que é derrotado na batalha de Canne em 216 a.C.

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Bénédict Masson (1819-1893) Aníbal passando os Alpes em 218 a.C. 1886, óleo sobre tela 71 x 143 cm. Musée de l’Armée Paris

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Joseph Mallord William Turner 1775-1851 Tempestade de neve: An´bal e os seus exércitos atravessando os Alpes exposto em 1812 óleo sobre tela 1,46 x 2,375 m. The Tate Gallerie Londres

Aníbal teve então de retirar-se para Cartago sendo definitivamente derrotado por Cipião em 202 a. C. na batalha de Zama.

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(d'après) Giulio Romano la Bataille de Zama 1688-1689 13ª Tapeçaria de l'Histoire de Scipion século XVII lã e seda 4, 35 x 7,40 m. atelier de Jean-Baptiste Mozin (1667-1693) musée du Louvre

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A tapeçaria do palácio dos Duques de Bragança

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Encontro de Cipião, O Africano com Aníbal Barca 17 dC Lã e seda 310 x Larg. 300 cm Paço dos Duques de Bragança

Ao centro Cipião com o bastão de comando na mão protegido por um soldado empunhando uma lança, observa na outra margem do rio, Aníbal trajando à oriental, que comanda os seus exércitos onde se destaca um elefante.

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Cipião (Publius Cornelius Scipione), o general e político romano viveu entre 236 e 183 a.C., venceu Aníbal na batalha de Zama, adquirindo com a fama o cognome de Cipião o Africano.

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Pompeu
Cneo Pompeius Magnus (106-48 a.C.), era filho do cônsul Cneo Pompeius Strabone, do qual herdou enormes propriedades. Como recrutou nessas propriedades três legiões para as pôr à disposição de Sila (Lucius Cornelius Sulla ca. 138 - 78 a.C) foi banido do Senado. Quando Sila se tornou ditador encarregou-o da expedição que venceu os exércitos de Mário (Caius Mario 157-86 a.C.). Subjugou a península Ibérica quando se tornou procônsul da Espanha. De regresso a Itália em 62, forma o I Triunvirato com Crasso, Marcus Licinius Crassus (115-53 a.C.) e Júlio César, Caius Iulius Caesar (100-44 a.C.).

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Taddeo di Bartolo (1362-1422) Cesar e Pompeu 1414 palazzo pubblico Siena

Com a morte de Crasso em 53, começa a luta pelo poder entre Pompeu e César, de que este sai vitorioso ao derrotar Pompeu em Farsalo em 48.

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Jean Fouquet (1420-1477/1481) La fuite de Pompée século XV iluminura em pergaminho 44 x 32,5 cm. in Histoire ancienne jusqu'à César et Faits des Romains Museu do Louvre Paris

Refugiado no Egipto, o faraó Ptolomeu XIII (63 - 47 a.C.), para conquistar a amizade de Júlio César, mandou cortar-lhe a cabeça e enviou-a ao Imperador Romano. Na iluminura à esquerda, num barco o assassinato de Pompeu por Septimus e Achilas. À direita César recebendo a cabeça de Pompeu.

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César e Pompeu 1420 a 1480 in Boccace, De Casibus illustrium virorum (1355-1360) tradução de Laurent de Premierfait (1409)impressa em 1484.BnF

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Autor desconhecido La mort de Pompée século XVIII 47 x 62 cm. musée Magnin Dijon France

Júlio César
Dante sempre na voz de Justiniano, faz uma longa referência a Júlio César (102-44 a.C).
Depois, no tempo já que o céu destina/ao mundo ser no seu modo sereno,/César, pois Roma o quer, o então domina.
Júlio César, foi pretor em Espanha entre 62 e 61 a.C. e depois de ter constituído no ano seguinte o I triunvirato com Pompeu e Crasso, foi eleito cônsul distinguindo-se por ter feito aprovar uma lei que ordenava a distribuição de terras aos veteranos de guerra. Assumindo o comando militar da Gália conquista-a definitivamente em 52 a.C. relatada no seu próprio escrito “De bello gallico".
E o que fez do Varo até ao Reno,/o Isere o viu e o Loire, viu o Sena/e todo o vale onde o Ródano é pleno.

Desfeito o triunvirato César, em conflito com Pompeu atravessa o Rubicão em 49 a.C. e inicia a guerra civil, narrada pelo próprio César "De bello civili".
E quanto fez saindo de Ravena/e a passar Rubicão teve tal voo,/que o não pode seguir língua nem pena.

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Fouquet Jean (1420-1477/1481)Le passage du Rubicon par César inHistoire ancienne jusqu'à César et Faits des Romains século XV, iluminura sobre pergaminho 44 x 32,5c m. musée du Louvre

Pompeu refugia-se em Espanha mas é vencido por César em Durazzo, e depois em Farsália fugindo para o Egipto onde é assassinado. (ver a rubrica anterior)
A Espanha seu exército voltou,/e Durazzo e Farsália acometeu/tal que o Nilo abrasado se enlutou.
Antandro e Simoente, onde asas deu,/reviu e Heitor, lá onde se derruba;/e se lançou por mal de Tolomeu.
De onde desceu em seu fulgor a Juba;/voltou-se então até vosso ocidente,/onde escutava a pompeiana tuba.
Ptolomeu XIII e Cleópatra
Com a morte do pai o faraó Ptolomeu XII, Ptolomeu XIII subiu ao trono com a irmã Cleópatra. Para ganhar os favores de César e combater a irmã manda matar Pompeu. Júlio César indignado com este procedimento destitui Ptolomeu e deixa Cleópatra a reinar sozinha no Egipto. Ptolomeu por fim é vencido e morto na guerra alexandrina.

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Pierre de Cortone (Pietro Berrettini 1596-1669) César remet Cléopâtre sur le trône d'Egypte c.1637 óleo sobre tela 2,55 x 2,66 m. musée des Beaux-Arts Lyon

Juba (85-46 a.C,), era o rei da Numídia que se colocou ao lado de Pompeu. Depois da derrota de Tapso em 46 a.C. Juba perde o reino e suicida-se.
Depois da vitória sobre Pompeu, Júlio César foi acumulando os principais cargos. Quando adoptou o seu sobrinho Octaviano, ficou claro para o Senado que pretendia instaurar um regime dinástico. Sessenta senadores reuniram-se numa conspiração, chefiada por Bruto e Cássio e assassinaram Júlio César em Março de 44, no Senado junto da estátua de Pompeu. No momento da morte Júlio César dirige-se a Bruto, com as célebres palavras  Tu quoque, Brute, fili mi

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Abel de Pujol Alexandre-Denis (1787-1861) Jules César se rendant au sénat le jour des Ides de Mars Esquisse pour le plafond du Palais Royal (détruit à la Révolution de 1848) óleo sobre tela 28 x 37 cm.  musée des Beaux-Arts Valenciennes

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Vincenzo Camuccini (1771-1844) A Morte di Cesare 1804-1805 óleo sobre tela 112 x 195 cm. Galleria Nazionale d'Arte Moderna Roma

A conspiração, a morte de Júlio César e as suas consequências foram tema da peça em cinco actos, de William Shakespeare de 1599, The Tragedy of Julius Caesar.
A partir desta peça, Joseph L. Mankiewicz (1909-1993), realizou em 1953 o filme de grande sucesso  Julius Caesar, com Marlon Brando (Marco António), James Mason (Bruto), John Gielgud (Cássio), Louis Calhern (Júlio César) e Deborah Kerr (Porcia), no qual se destaca o discurso de Marco António na potente interpretação de Marlon Brando:

Antony
O mighty Caesar! dost thou lie so low?
Are all thy conquests, glories, triumphs, spoils,
Shrunk to this little measure? Fare thee well!
I know not, gentlemen, what you intend,
Who else must be let blood, who else is rank:
If I myself, there is no hour so fit
As Caesar's death hour, nor no instrument
Of half that worth as those your swords, made rich
With the most noble blood of all this world.
I do beseech ye, if you bear me hard,
Now, whilst your purpled hands do reek and smoke,
Fulfil your pleasure. Live a thousand years,
I shall not find myself so apt to die:
No place will please me so, no mean of death,
As here by Caesar, and by you cut off,
The choice and master spirits of this age.

Shakespeare - The Tragedy of Julius Caesar - Act III

AntónioÓ poderoso César! Tão por baixo! Todas as tuas glórias, as conquistas, teus espólios e triunfos, aque  tão pequena medida ficaram reduzidos? Adeus! Não sei o que pensais, senhores, sobre os que ainda devem perder sangue, por ter sangue demais. Se achais necessário que eu o derrame, hora não há melhor do que esta em que deixou de viver César, nem instrumento que em valor se iguale ao de vossas espadas, ora ricas do sangue mais precioso deste mundo. Suplico-vos, no caso de me terdes como suspeito, executai o intento sem perda de um instante, enquanto as rubras mãos ainda vos fumegam. Se eu vivesse mil anos, seria impossível achar-me tão apto para morte como agora. Nenhum lugar me agradaria tanto para morrer, nem nenhuma outra morte, como aqui junto de César, às vossas mãos os mais selectos e maiores homens da nossa época.

Dante refere depois os conspiradores Bruto e Cássio que coloca no IX círculo do Inferno (Canto XXXIV e último do Inferno da Divina Comédia)
De quanto fez co portador sequente,/Bruto com Cássio ora no inferno late,/e Modena e Perugia foi dolente.
Bruto (Marcus Junius Brutus 85 - 42 a.C.) Casado com Pórcia Catonis, filha de Catão de Útica.

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Félix Auvray (1800-1833) Porcia e Bruto óleo sobre tela 46 x 38,3 cm. musée des Beaux-Arts Valenciennes
Depois da conspiração e do assassinato de Júlio César entra em conflito com Marco António e Octávio. Derrotado por este suicida-se lançando-se na espada empunhada pelo seu criado.
William Shakespeare Júlio César Acto V Cena V:

BRUTUS
Hence! I will follow.
(Exeunt CLITUS, DARDANIUS, and VOLUMNIUS)
I prithee, Strato, stay thou by thy lord:
Thou art a fellow of a good respect;
Thy life hath had some smatch of honour in it:
Hold then my sword, and turn away thy face,
While I do run upon it. Wilt thou, Strato?
STRATO
Give me your hand first. Fare you well, my lord.
BRUTUS
Farewell, good Strato.
(Runs on his sword)

Caesar, now be still:
I kill'd not thee with half so good a will.
(Dies)

BRUTO — Depressa! Já vos sigo. (Saem Clito, Dardânio e Volúmnio.) Estrato, por obséquio, fica ao lado de teu amo. És pessoa bem formada; chispas de honra tens sempre revelado. Segura-me esta espada e vira o rosto, porque nela eu me atire. Far-me-ás isso?                                                                                                                                                           
ESTRATO — Dai-me, primeiro, a mão, meu senhor.                                                                         
BRUTO — Adeus, bondoso Estrato. (Atira-se de encontro à espada.) César, podes acalmar-te; contente a morte aceito, como no instante de ferir-te o peito. (Morre.)

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Johann Heinrich Fussili (1741-1825) A morte de Bruto pela espada de Estrato segundo a peça “Júlio César”  de Shakespeare (1599) 55,3 x 66,9 cm. British Museum

Cássio (Caius Cassius Longinius 85-42 a.C), cunhado de Bruto eleito tribuno da plebe em 49 a.C. foi o outro principal conspirador contra Júlio César. Derrotado depois por Marco António e sem saber da vitória de Bruto sobre Octávio, suicidou-se ordenando ao seu antigo escravo Píndaro que o matasse. Bruto enterrou-o em Tasos  chamando-lhe  "o último dos romanos".
Dante refere de seguida Cleópatra:

Cleópatra chora triste seu rebate/que, à frente lhe fugindo, de uma cobra/em atra morte súbito se abate.

Cleópatra (69-30 a.C.) posta no trono do Egipto por Júlio César (depois de destituir Ptolomeu) teve com ele uma relação amorosa. Após o assassinato de Júlio César em 44 a.C. consegue seduzir Marco António em 37 a.C. e dessa relação nasceram dois filhos. Como Marco António se deixava cada vez mais dominar por Cleópatra Roma declarou-lhes guerra sendo derrotados por Octávio na batalha naval de Ázio (Actium).

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Lorenzo A. Castro A batalha de Actium 1672 National Maritime Museum

Ambos se suicidaram em Alexandria em 30 a.C.
William Shakespeare escreveu também uma peça em cinco actos sobre Marco António e Cleópatra 

Antony and Cleopatra
César "...she looks like sleep,
As she would catch another Antony
In her strong toil of grace."
William Shakespeare - Antony and Cleopatra - Act V Scene II
(
ela parece que dorme,/e que  fosse prender um outro António/nas fortes cadeias do seu encanto.)

A morte de Cleópatra suicidando-se com a mordidela ou bebendo o veneno, de uma serpente, é um dos temas favoritos da pintura desde o século XVI até ao século XIX.

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Giampietrino (Giovanni Pietro Pedrini Ricci 1493-1540) O Suicídio de Cleópatra com uma áspide século XVI óleo sobre madeira 73 x 57 cm. Museu do Louvre

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Guido Reni (1575- 1642) Cleópatra com a áspide c. 1630
óleo sobre tela 113,7 x 94,9 cm Royal Collection, Windsor


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Claude Vignon (1593-1670) Cléopâtre se donnant la mort c. 1640 óleo sobre tela 95 x 81 cm. musée des Beaux-Arts Rennes

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Charles-Antoine Coypel (1694-1752) Cleópatra bebendo o veneno (Corneille, Rodogune) século XVIII óleo sobre tela 1,30 x 1,95 m. museu do Louvre

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Jean-Baptiste Regnault 1754-1829 A morte de Cleópatra 1796/99 óleo sobre tela 64 × 80 cm. Museum Kunst Palast Dusseldorf Alemanha

Justiniano prossegue a descrição do percurso da águia romana “a insígnia que falar me faz” referindo a consolidação do império através de Octávio,  César Augusto.

Com este ao leito rubro se desdobra;/co aquele pôs o mundo em tanta paz,/que abrir o templo a Jano então já sobra.
Mas o que a insígnia que falar me faz,/antes fez e faria no futuro,/pelo reino mortal que lhe subjaz,

Octávio (Caius Iulius Caesar Octavianus Augustus 63 a.C.-14 d.C.), sobrinho de Júlio César, depois do assassinato deste formou o Segundo triunvirato com Marco António e Lépido.

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Antoine Caron (1521-1599) Les massacres du Triumvirat 1566 óleo sobre tela 1,160 x 1,950 m. musée du Louvre

O quadro retrata os massacres em Roma pelo Triunvirato de Octávio, Lépido e Marco António no ano 43 a. C. segundo o relato do grego  Apiano (95-165)  na “História Romana”, mostrando uma Roma nos finais do século XVI.
(Nota - Sobre este quadro  faremos uma mensagem própria)
Derrotados Bruto e Cássio, e após a morte de Lépido, Octávio partilha com Marco António o Império. A derrota de Marco António e Cleópatra na batalha de Ázio em 31 a.C., concentra na sua pessoa todos os poderes do estado tornando se imperador como César Augusto em 27 a.C. Segue-se um período de paz que Dante refere ao falar no templo de Jano (Janus , o deus com duas caras cujas portas se abriam quando Roma estava em guerra) com as portas encerradas.
que abrir o templo a Jano então já sobra

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Carlo Maratta (1625-1713) Auguste ordonne de fermer les portes du temple de Janus ou La Paix d'Auguste c.1660 óleo sobre tela 2,80 x 2,75 m. Palais des Beaux-Arts Lille

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Giambattista Tiepolo (1696-1770) Mecenas apresentando as artes liberais ao imperador Augusto óleo sobre tela 69,5 x 89 cm. Ermitage S.Peterburgo

Dante refere depois o imperador Tibério, no tempo do qual se realiza a Paixão e Morte de Cristo.

se torna em aparência pouco e escuro,/se do César terceiro às mãos se mira/com olhos claros e um afecto puro;
que a viva justiça que me inspira,/lhe concedeu, em mãos desse que eu digo,/glória de dar vindicta a sua ira.

Tibério (Tiberius Claudius Nero Caesar42 a.C.- 37 d.C.), filho do primeiro casamento da mulher de Octávio Augusto e adoptado por este. Em 14 d.C. torna-se imperador. Depois de reorganizar militar e economicamente  o Império em 26 d.C. até à sua morte em 37, retirou-se para Capri deixando Roma nas mãos dos seus perfeitos pretorianos. Morre em 37 segundo alguns, como Tácito, assassinado sucedendo-lhe o seu sobrinho-neto Calígula.

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Jean-Paul Laurens (1838–1921) La Mort de Tibere,1864 óleo sobre tela 1,764 x 2,223 m. Musée des Augustins, Toulouse

Tito

ora te espante o que a dizer prossigo:/depois com Tito a vindicar correu/essa vindicta do pecado antigo.

Tito (Titus Flavius Vespasianus Augustus 39-81) filho do imperador Vespasiano tornou-se conhecido ainda às ordens do pai quando ordenou a destruição de Jerusalém na guerra da Judeia. A vitória nessa guerra foi  comemorada em Roma com a edificação do Arco de Tito. Dante vê na destruição de Jerusalém uma vingança divina sobre os Judeus por terem crucificado Jesus Cristo.

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Francesco Hayez (1791–1882) A destruição do Templo de Jerusalém 1867 óleo sobre tela 183 × 252 cm. Galleria d'Arte Moderna, Veneza

No seu breve reinado deu-se em 79 a erupção do Vesúvio, destruindo as cidades de Herculano e Pompeia, e foi inaugurado o anfiteatro Vespasiano conhecido como Coliseu de Roma.

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François Joseph Heim (1787-1865) Titus fait distribuer des secours au peuple século XIX óleo sobre tela 97 x 138 cm. musée du Louvre Paris

Dante refere então Carlos  Magno (c. 747-814), quando  atravessou os Alpes para auxiliar o papa Adriano I, receoso das pretensões territoriais e do poder do rei Lombardo Desidério. Vencido o lombardo em Verona e Pavia, Carlos Magno assume o título de 'Rex francorum et langobardorum", em 774.

Quando o dente lombardo então mordeu/a Santa Igreja, sob as suas asas,/Carlos Magno, vencendo, a socorreu.

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Eugène Roger (1807-1840) Charlemagne traverse les Alpes pour aller combattre Didier, roi des Lombards,1837 óleo sobre tela 72 x 106 cm. châteaux de Versailles et de Trianon Versailles

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Rafael Sanzio (1483-1520) A coroação de Carlos Magno 1517
fresco, 6,70 m na base  Stanza dell'Incendio di Borgo, Palazzi Pontifici, Vaticano


Feito este resumo histórico, Justiniano convida Dante a pronunciar-se sobre os Guelfos (os lírios amarelos) opondo-se à águia imperial e os Gibelinos dela se apropriando para os seus fins políticos, ambos sendo a causa de todos os males no mundo.

A judicar agora te comprazas/os que acima acusei e seus libelos,/que a todos vossos males deram vazas.
À insígnia comum lírios amarelos um opõe,/e outro a traz a sua parte:/mal se vê quem mais peca em tais duelos.

Mais adiante Justiniano adverte Carlos II d’Anjou que mesmo  juntando-se ao Guelfos não conseguirá abater a águia imperial (unhas hostis) porque esta já venceram outros leões.

e não abata o Carlos que lá vem/cos Guelfos, mas que tema unhas hostis/que esfolado maior leão já têm.

Carlos II (1248-1309 ), reinou de 1285 a 1309 sucedendo ao pai e Carlos I d’Anjou (1226-1285) e Dante é muito crítico sobre a política da coroa de França  e a sua governação nos territórios italianos.

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Giovanni di Paolo Sicilian rulers after William II c.1450 Yates Thompson 36 The British Library
.
Se os filhos pagam muitas vezes os erros dos pais Deus não permitirá mudar o símbolo da águia pelos lírios franceses.

Muito filho chorou já infeliz /pela culpa do pai, nem se conceda/Deus mudar de armas por flores-de-lis!

De seguida é através das palavras de Justiniano, respondendo à sua segunda pergunta, que Dante fica a saber que as almas que estão no Céu de Mercúrio são as que na Terra tiveram um comportamento justo e virtuoso.

E Justiniano indica a Dante a alma de Romieu de Vilanova que resplandece neste céu.E dentro da presente margarida/luz a luz de Romieu, esse de quem/foi obra grande e bela mal havida
Romeo de Vilanova (127-142) foi o ministro do conde da Provença Raymond Bérenguer IV, filho de Afonso II de Aragão, que morreu em 1245. Segundo a lenda Romeu era um hábil e honesto administrador, que tinha conseguido em pouco tempo desenvolver a Provença e casar as quatro filhas de Raymond.
Tem quatro filhas, cada qual rainha,/Raimundo Bérenguer, e tal lhe fez/Romieu, que peregrino se amesquinha.
De facto Romieu conseguiu vantajosos matrimónios para as quatro  filhas de Raymond. Beatriz, a primogénita foi dada em casamento a Charles I d’Anjou, Margarida desposou o irmão, o rei Luís IX o Santo de França, Eleanora casou-se com Henry III, tornando-se rainha de Inglaterra, e Sancia com Richard, o conde da Cornualha. Romieu, apesar dos serviços prestados preferiu renunciar a qualquer compensação e afastar-se da corte, velho e pobre, tornando –se peregrino. E assim Dante termina o discurso de Justiniano e o Canto VI do Paraíso.
Então lá se afastou pobre e vetusto;/e se o mundo seu coração soubera/a vida a mendigar em fruste custo,/assaz o louva e mais louvor lhe dera.”
(CONTINUA)

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