Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















domingo, 22 de maio de 2011

Os Planos para o Porto–dos Almadas aos nossos dias 8 (conclusão 3)

Para concluir estes textos sobre o Plano Director da Cidade do Porto de Robert Auzelle, algumas notas sobre O Plano Director e o Ensino.

O Ensino Primário

Com a construção dos bairros de Casas Económicas e do Plano de Melhoramentos, inicia-se a edificação de escolas primárias para servir as populações dessas novas áreas residenciais.

Algumas das escolas nos finais dos anos 50:auz463_thumb2_thumb

Escola Primária feminina 1956/58 rua da Constituição arquitecto Alexandre de Sousa (1915-199?) CMP

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Painel de Martins da Costa na escada do edifício

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fresco de Martins da Costa no refeitório in Gravato, Adriana (op.cit.)auz236_thumb2_thumb

Escola Primária do Covelo 1958 arquitecto Lúcio Miranda (1924) CMPauz821_thumb2_thumb

Escola de Cedofeita em construção - foto do Plano de Actividade e Orçamento para 1963, C.M.P.

O Plano Director após fazer um levantamento da rede escolar na cidade, vai planear a construção de novas escolas, já que o crescimento demográfico e a expansão das áreas residenciais implica a disseminação por toda a cidade de novos equipamentos. O Plano exceptua o centro da cidade “onde existe uma deficiência de espaço para as escolas existentes (…) e uma quase impossibilidade de encon­trar novas localizações. Portanto, o equipa­mento escolar primário é insuficiente e com reduzidas possibilidades de melhoria” , mas sobretudo a proposta de “directivas para impedir o crescimento da população residente no próprio centro, nos quarteirões de negócios.”

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Plano Auzelle Volume I, documento 4.1.1.7 – Ensino Primário - Conjunto das escolas existentes a propostas

legenda: quadrados escolas existentes sendo vermelhos femininas e azuis masculinas. Cruzes escolas propostas sendo vermelhas femininas e azuis masculinas

O Ensino Técnico e Liceus

Se para o Plano Director a “escola primária não caracteriza a cidade como centro intelectual e artístico” (…) ; o ensino técnico e o ensino secun­dário marcam já a proeminência do Porto como centro, que de facto é, da aglomeração portuense.” O Plano realça a importância do ensino técnico “visto qualifi­car uma mão-de-obra absolutamente indispen­sável para o desenvolvimento industrial do aglomerado. Pelos inquéritos às profissões efectuados na cidade, verificou-se que o comércio e a indústria são os ramos de actividade predominantes e que, consequentemente, caracterizam a sua população. Este facto justifica a procura de uma mão de obra especializada, assim como a necessidade de cuidar da preparação da juventude escolar que se destina a estas actividades; ao ensino é dada, pois, a posição correspondente no programa do equipa­mento da cidade. É importante que ele beneficie das vantagens da sua localização na cidade. Deverá desenvolver-se um esforço muito par­ticular para encontrar terrenos convenientes a destinar a este ensino.”

À data do Plano existiam no Porto 8 Escolas Técnicas e dois Institutos. A escolas técnicas eram três Elementares uma das quais feminina, a escola Clara de Resende (1) e duas masculinas, a escola Gomes Teixeira (2), e a escola Ramalho Ortigão (3); duas Comerciais, a escola Filipa de Vilhena (4), feminina e a escola Oliveira Martins (5), masculina e duas Industriais, uma feminina a escola Aurélia de Sousa (6) e uma masculina, a escola Infante D. Henrique (7) . Finalmente existia a escola de Artes Decorativas-de Soares dos Reis (8), masculina.

Os Institutos eram o Comercial (9) e o Industrial(10).

O Plano refere que “embora as localizações destes estabelecimen­tos de ensino não tenham obedecido a qualquer plano, quase todos eles se encontram razoavelmente situados em relação à malha urbana; estão instalados em edifícios novos ou recentemente ampliados.” Instalados em condições muito deficientes a Escola Comer­cial de Oliveira Martins e os dois Institutos.

Perante estas condições e o facto do número de alunos destes estabelecimentos ter mais do que duplicado em dez anos o Plano propõe “quatro novas unidades distribuídas pela zona periférica da cidade” (Ramalde - A, Amial - B, Outeiro - C e Cerco do Porto - D) e escolhe “dois terrenos prováveis para os Institutos Industrial (aliás já definido no Plano Parcial da Zona do Hospital Escolar, junto à rua de S. Tomé - E) e Comercial (na rua de António Carneiro a norte do Liceu Feminino da Rainha Santa Isabel - F) e ainda para a nova Escola Comercial de Oliveira Martins (na proximidade da avenida de Fernão de Magalhães -G).” Números e Letras correspondentes na plantaauz1051_thumb3_thumb

Plano Auzelle Volume I documento 4.1.2.1 – Ensino Técnico e Secundário – Escolas técnicas existentes a propostas

“Deste modo, a cidade virá a contar com 12 unidades, além dos dois institutos.”

O novo edifício da escola Comercial Oliveira Martins só é inaugurado em Maio de 1970, estando hoje ocupado pela DREN.

O velho edifício da rua do Solauz1054_thumb2_thumb

foto no blogue A Vida em Fotos http://portojofotos.blogspot.com/

O Instituto Comercial (agora ISCAP) continuou no edifício da rua de Entre-paredes ,e só inaugura as suas novas instalações em S. Mamede de Infesta, Matosinhos em 1996!

Os Liceus

“Com os liceus, abor­da-se já a proeminência do Porto no plano regional pois que eles são o viveiro dos futu­ros universitários ou estudantes das escolas superiores. Os inquéritos mostram que a situa­ção actual não é muito favorável, e pro­põem-se as novas localizações com reservas de terreno suficientemente grandes, para per­mitir ulterior desenvolvimento. Existem actualmente no Porto quatro liceus,sendo dois para o sexo masculino e dois para o sexo feminino, distribuídos na cidade da seguinte maneira :

Liceu de D. Manuel II (antigo e posterior Rodrigues de Freitas e D. Manuel II entre 1947 e 1974) masculino, projecto do arquitecto José Marques da Silva.auz1058_thumb2_thumb

Liceu Alexandre Herculano masculino, projecto do arquitecto José Marques da Silva.auz1066_thumb2_thumb

Liceu de Carolina Michaëlis, feminino, projecto do arquitecto Januário Godinho.auz1057_thumb3_thumbauz1060_thumb2_thumb

Liceu da Rainha S.ta Isabel, feminino, “até agora em edifício adaptado e em más condições, mas a substituir em breve por novas instalações em construção nos terrenos junto do edifício em que tem funcionado até agora.” As novas instalações foram inauguradas em 1963.auz1061_thumb2_thumb

E o Plano fundamenta a criação de novos Liceus:

“Os locais onde se encontram instalados são muito aceitáveis em relação ao núcleo central; mas, se considerarmos as áreas representadas por círculos de 1000 e 2 000 metros de raio — áreas teóricas mínima e máxima a servir por cada liceu—verifi­ca-se que existem extensas zonas habitadas da cidade sem qualquer outra instalação liceal. Além disso, a capacidade das unidades exis­tentes foi largamente excedida, razão pela qual algu­mas têm funcionado num regime de desdobramento de horários, a fim de permitir, a frequência de todos os alunos matriculados. Esta situação é compreensí­vel, porquanto os inquéritos efectuados para o Plano Regulador indicavam como frequentando os quatro liceus um número de alunos que orçava pelos 1750, enquanto que o inquérito correspondente feito em 1960 apresentava um total de mais de 7 000 alunos, isto é, mais do quádruplo. Pode analisar-se tal au­mento no quadro de frequência anexo.

Compreende-se portanto que só à circunstância de existir na cidade grande número de colégios de grau liceal se deve o problema não ter tomado aspectos ainda mais graves.

Analisadas as zonas da cidade deficientemente servidas por liceus e a percentagem de aumento anual dos alunos, concluiu-se pela necessidade de um mínimo de 4 novas instalações, cujos terrenos foram escolhidos de modo a poderem servir o melhor pos­sível todas as zonas da cidade. Neste plano estão previstos dois liceus de um só sexo — um no Bessa — 1— e o outro a poente da Quinta da Prelada – 2 - e dois mistos — um em Nevogilde -3-, aliás já considerado no Plano Regulador, e o outro na zona de Augusto Lessa — 4—.”auz1055_thumb3_thumb

Plano Auzelle Volume I documento 4.1.2.3. Ensino Técnico e Secundário – Proposta de localização de novos liceus.

“Para estes liceus já foram definidas as áreas necessárias e estudados os respectivos acessos.”

Universidade e Cidade Universitária

A Universidade tem as suas Faculdades (Engenharia, Ciências e Economia e Farmácia), instaladas em edifícios construídos ou adaptados no período entre as duas guerras. A Faculdade de Medicina instala-se em 1959, no Hospital Escolar (S. João) e é recriada a Faculdade de Letras que o Plano assinala que “veio completar o conjunto das possibilidades de ensino especializado e criar no norte do País uma verdadeira capital regional.”auz251_thumb1_thumb auz250_thumb2_thumb

Jornal de Notícias de 20 de Agosto de 1961

A Cidade Universitária

Com a instalação da Faculdade de Medicina no Hospital de S. João, coloca-se a hipótese de, à semelhança de Lisboa e Coimbra, criar no Porto uma Cidade Universitária, nos terrenos não construídos em torno do Hospital.auz208_thumb2_thumb

Plano Auzelle Volume I - foto n.º 11 – Vista aérea do Hospital de S. João envolvido pelos terrenos destinados à Cidade Universitária

O Hospital Escolar de S. João 1940/59, projectado por Hermann Distel,como o “gémeo” Hospital de Santa Maria de Lisboa (1934/53), que como refere Antão de Almeida Garrett em carta enviada a Giovanni Muzio em Outubro de 1940: (…)“o novo Hospital Escolar da Cidade, cujo projecto já está aprovado e cuja construção vai em breve ser iniciada.”auz1004_thumb2_thumb

Arménio Losa - Plano da Zona do Hospital Escolar in catálogo da Exposição “Património da ESBAP e FAUP, UP 1987

Em torno do Hospital de S. João o Plano prevê a construção de uma Cidade Universitária. “No que diz respeito à Universidade, o reagrupamento decidido pelo Governo numa Zona Universitária, viu ainda aumentada a sua área, ocupando actual­mente cerca de 135 hectares. Tal número é suficiente para mostrar a importância atribuída a este elemento primordial da vida intelectual do Porto.” auz252_thumb4_thumb

Terrenos para a Cidade Universitária do Porto. - 1:500 Arquivo Digital Universidade do Portoauz253_thumb2_thumb

idem - Cidade Universitária do Porto. - 1:2000 ADUP

No entanto a contestação estudantil e a greve académica em 1962, a que se sucedem ao longo dos anos 60 diversas outras manifestações de estudantes quer em Portugal quer no estrangeiro, colocam um dilema ao regime. Ou concentrar as instalações universitárias em campus, com o perigo evidente de potencializar essas contestações pela junção num mesmo espaço de toda a população universitária, com a agravante da “inviolabilidade” pelas forças repressivas desses recintos, ou a dispersão pela cidade das diferentes instalações universitárias, correndo o risco da adesão das populações aos protestos estudantis.

Por isso, no caso da Cidade Universitária do Porto, o processo irá arrastar-se até ao 25 de Abril e na prática, nos anos 60, apenas se inicia o projecto das novas instalações da Faculdade de Economia. Criada em 1953 a Faculdade de Economia esteve de início instalada no edifício da Praça Gomes Teixeira (Leões) então ocupado pela Reitoria e pela Faculdade de Ciências. Contudo o aumento exponencial do número de alunos (de uma centena em 1954 para cerca de 800 em 1960), provoca a urgência de novas instalações. Do projecto do novo edifício da Faculdade de Economia, na Asprela, é encarregado o arquitecto Alfredo Viana de Lima (1913-1991). auz109_thumb3_thumbauz110_thumb2_thumb

Viana de Lima 1º projecto 1961 in Fernandez, Sérgio – Faculdade de Economia – Guia de arquitectura moderna Ordem dos Arquitectos Porto 2001

O projecto então elaborado (1961) consistia num edifício de dois pisos destinado às zonas comuns de onde se destacava uma torre de planta quadrada de doze pisos, assinalando a presença no vasto território da Cidade Universitária. O regime recusou tal proposta, que pela sua modernidade não se enquadrava na visão retrógrada de que tinha para as instalações universitárias. Viana de Lima faz sucessivas revisões do projecto, até à versão actual, que apenas será inaugurada em 1974. Apesar dessas revisões, o edifício da Faculdade de Economia constitui o primeiro e único edifício universitário funcional e plasticamente moderno, realizado no período do Estado Novo. (O Instituto Superior Técnico projectado em 1927 por Pardal Monteiro, é a excepção mas num momento em que o regime de Salazar procurava uma afirmação de modernidade para se opor à I República).

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sábado, 21 de maio de 2011

Os Planos para o Porto–dos Almadas aos nossos dias 8 (conclusão 2)

2 - David Moreira da Silva (1909-2002), que no âmbito do Concurso Para Professor de Urbanologia apresenta uma Dissertação intitulada “Subsídios para a elaboração do Código Urbanístico Português” em que procura historiar a legislação portuguesa sobre urbanismo e as suas consequências em particular na cidade do Porto, ilustrando alguns exemplos com plantas e fotografias exemplificativas.

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Rua de Carlos Malheiro Dias – Porto – Exemplo de má vizinhança de ordem estética, possibilitado por deficiente interpretação do Decreto-Lei n.º 38 382

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A zona na actualidade

O Plano de Urbanização

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A sua proposta de plano de urbanização corresponde à concepção de desenvolvimento da cidade na época com a criação de edifício em altura. Respeitando o traçado viário primário do Plano Director, cria uma via de acesso ao interior da área a urbanizar, sensivelmente onde hoje se localiza a rua de Sagres, onde localizará o Centro Cívico. (Com o n.º 1 o Cinema , com o n.º 2 a Sala de Reuniões e com o n.º 3 a Biblioteca).

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Ao longo desta via localiza um enfiamento de 6 “torres residenciais voltadas para o futuro Parque da Cidade e tendo por panorâmica de fundo o porto de Leixões e o oceano.”

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Para além destas propõe ainda mais três torres: duas próximo da praça do Império e uma outra a norte da rua do Molhe.

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Assim “cada uma destas (…) torres , num total de 9” com uma planta em forma de estrela de três pontas, “teria a altura máxima de 12 andares ou 13 pavimentos habitáveis, servidos por escadas e ascensores, ficando as respectivas garagens e eventuais arrecadações no subsolo.”

Os restantes edifícios de habitação seriam blocos de 3, 4 e 6 andares, e “moradias unifamiliares , geminadas e agrupadas não só junto à avenida da Boavista , mas, também na vizinhança imediata da parte antiga de Nevogilde que, com excepção das casas de lavoura do lugar de Passos, seria inteiramente conservada.”

Respondendo ao programa do concurso e “tendo em conta não só a importância desta zona residencial, mas, também, a existência da numerosa população dos bairros que lhe ficam próximos”, propõe e localiza diversos equipamentos:

— Uma Escola Técnica (na planta com o n.º 14) “pela imperiosa necessidade que, há muito, se vem fazendo sentir de não encaminhar para os liceus e as escolas superiores todos os que pretendem aprender alguma coisa para além da instrução primária. Esta escola ficou prevista no local destinado ao liceu, não sabe­mos ao certo se no Plano Regulador da cidade, se em ulterior solução proposta pelos Serviços Municipais ou seja num terreno situado entre a Avenida da Boavista e a Rua de Fez, a poente da fábrica de sedas Aviz. A escola congénere que, segundo cremos, lhe virá a ficar mais próxima é a que está em construção na Vila de Matosinhos.auz1044f_thumb4

— Um Centro Clínico (na planta assinalado por uma cruz) “para consulta geral, fornecimento de medicamentos, primeiros socorros e tratamento nos casos de doença ou sinistro. Este centro oficial, semioficial ou privado, está localizado nas proximidades do Centro Administrativo e da Nova Igreja de Nevogilde, (um projecto do arquitecto Luís Cunha que não se realizará), junto a uma zona verde ali existente.auz1044g_thumb2

— Várias escolas pré-primárias ou infantis” (na planta assinaladas com o n.º 15) “actualmente indis­pensáveis nas zonas residenciais devidamente equipadas, pelos inestimáveis serviços que prestam guardando os filhos de tenra idade, mormente quando nelas habitam numerosas mães que têm o seu dia normal de trabalho ocupado, dentro ou fora de casa, seriam tantas quantas as escolas primárias previstas.

— Duas grandes garagens mistas de estação de serviço, parque automóvel e respectivas oficinas de reparações; (na planta com os n.ºs 7 Parque Automóvel, n.º 8 Estação de Serviço e n.º 9 Oficina de Reparações)

Os conjuntos constituídos por grandes garagens, parques automóveis, respectivas oficinas de reparações e estações de serviço, hoje por toda a parte cada vez mais consideradas indis­pensáveis elementos de apoio das zonas residenciais de certo nível, que muito bem poderá vir a ser o da zona em referên­cia, ficariam:

Uma no seu extremo nordeste, junto da Avenida da Boavista, entre a fábrica de sedas Aviz e a Escola Técnica, já citada; auz1044h_thumb3

e, a outra, no seu extremo poente, nos primeiros terrenos ainda vagos, situados a nascente do actual casario da Foz Nova ou seja entre este e a via de circulação rápida, ligando a margem direita do Douro ao Porto de Leixões. auz1044c_thumb2

e — Um Centro Comercial (…) situado relativamente perto da área mais edificada da Foz Nova, que neste domínio está muito deficientemente servida, certo como é que a ampliação do Centro Comercial por nós prevista na zona dos Dominica­nos, embora necessária para vir a fazer face às exigências do considerável aumento populacional que a total ocupação das torres e blocos residenciais ali previstos provocariam, se situa­ria excessivamente longe daquela importante zona citadina, de apreciável interesse turístico e balnear.”auz1044e_thumb3

Detalhe da planta com a praça de Afonso V, a Igreja dos Dominicanos, e a proposta de Liceu (n.º13).

Além de todos estes elementos, ainda merecem uma breve refe­rência :

— Os elementos incluídos na ampliação do Centro Desportivo ou sejam: uma pista de atletismo, quatro campos de ténis, um de basquetebol e dois sectores de saltos em altura;auz1044a_thumb2

— As zonas verdes e faixas de protecção e reserva indicadas nas plantas de bonificação e urbanização, que a pouco e pouco deveriam passar a constituir o sistema de espaços livres públicos desta zona; e

— As características especiais dos Centros Comerciais, com acessos para veículos de abastecimento e outros, por um dos seus lados e acessos independentes para peões, por dois e três dos seus. restantes lados.

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David Moreira da Silva – Planta de Zonificação

3 – Concorre ainda Fernando António Lorenzini Borges de Campos que apresenta uma Dissertação intitulada “Planeamneto Urbano e Territorial ( Considerações sobre a sua natureza e o seu ensino no âmbito de um curso para a formação de arquitectos)” A sua proposta para o plano de urbanização é a menos desenvolvida, pelo que apenas se apresentam as duas plantas.

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A marginal fluvial

O Plano Director, na continuidade do aproveitamento turístico da orla marítima, também se refere à marginal fluvial, considerando que do “mesmo modo, diversos locais dominando vastas perspectivas sobre o rio Douro apresentam condições para a construção de casas de chá, restau­rantes, esplanadas, etc. É notória a actual falta de instalações deste género. Estas condições, «a priori» desfavoráveis, devem incitar a um esforço muito particular para a valorização do capital turístico de todo o norte do País e à promoção do Porto a seu centro principal.

Falou-se da praia da Foz, mas o mesmo esforço deve ser empreendido para as mar­gens do Douro (fig. 12): organização de passeios —e daí a necessidade de existência de embarcadouros e desembarcadouros —, prova dos vinhos da região, restaurantes, etc.”auz42_thumb3

Plano Auzelle Volume I fig. 12 - Margens do rio Douro. Fotografia obtida durante a construção da ponte da Arrábida, em 1961auz238_thumb2

As margens do Douro num postal dos anos 60

continua…

Os Planos para o Porto–dos Almadas aos nossos dias 8 (conclusão 1)

 

A Avenida Nun’Álvares

Como ainda hoje, 50 anos depois, está a C.M.P. (forçosamente noutras circunstâncias) a decidir a abertura da Avenida Nun’Álvares e o planeamento das sua margens, tem interesse analisar as propostas feitas na época do Plano.

A avenida nasceu da necessidade de articular o porto de Leixões e Matosinhos com o centro da cidade do Porto, em particular a zona ribeirinha e a Alfândega, libertando as avenidas do Brasil e Montevideu do trânsito de pesados. Por isso o Plano Regulador de Almeida Garrett previa a “libertação das praias do trânsito rápido e de velocidade pelo desdobramento da Marginal pela Avenida de Nun' Álvares”. O Plano Director de Robert Auzelle vai retomar esta proposta embora com um diferente traçado. Numa zona com a forma de um triângulo, delimitada pela Avenida da Boavista, a Avenida Gomes da Costa, é realizado um estudo de urbanização pelo arquitecto Carvalho Dias, que vai servir de base ao concurso para professor de Urbanologia na ESBAP em 1961/62.

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Os trabalhos do concurso na XI Exposição Magna da ESBAP em 1962

Assim no programa do concurso considera-se que “facultados aos candidatos todos os possíveis elementos de consulta e, mais do que consulta, uma solução municipal para a malha interior dos arruamentos da zona de Nevogilde— vias secundárias e vias de serviço, segundo a própria designação oficial — solicita-se que, embora mantendo intactas as vias principais periféricas, cada um dos candidatos, analisado o problema e dispondo do seu livre espírito crítico, opte por essa ou por qualquer outra malha interior que entenda oferecer, sobre aquela, vantagens que, em seu critério, o conduzam a preferi-la, desde que plenamente justificada.”

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Planta base do concurso

No programa do concurso prevê-se uma “zona residencial que cada candidato estruturará como melhor entender, distribuindo a população que a ela se destina nas condições mais favoráveis e organizando os espaços de acordo com um tipo de equipamento, que na sua essência, deverá satisfazer igualmente as necessidades das Zonas da Foz Nova e Dominicanos, no que a estes possa faltar.” E propõe como equipamentos: “a) — Um Centro Cívico, com cinema e sala de reuniões, biblioteca, serviços administrativos, etc.; b) — Um Centro Comercial, numa ampla praça de peões constituído por pequenos edifícios comerciais ou de habitação e comércio; c) — Um Centro Religioso, destinado a substituir a sede da actual paróquia de Nevogilde. Com efeito através do inquérito efectuado às condições actuais das paróquias citadinas, verificou-se a necessidade da transferência da de Nevogilde para outro local, por impossibilidade da sua ampliação; d) — Um Centro Desportivo, para o que estará possivelmente indicado o aproveitamento e a ampliação das instalações existentes que quase se limitam à existência de um campo de «foot-ball»; e) — Um Liceu Misto e f)—Escolas Primarias, tendo em atenção as já existentes, assinaladas na planta que se fornece à escala de 1:5000.

É dado como condicionante “a construção de um Hotel dispondo de piscina de marés, aproveitando, para o efeito, o molhe que entesta a rua do mesmo nome, Hotel que se localizará na plataforma existente ao nível da Avenida do Brasil” e “um restaurante, um bar, um dancing, uma sala de jogos, etc., ao nível baixo valorizará o local e constituirá ponte de atracção turística a considerar.”

Apresentam-se ao concurso três arquitectos.

1 - João Mello Breyner Andersen (1920/1967), que apresenta no Concurso para Professor de Urbanologia , uma dissertação "Para Uma Cidade Mais Humana".

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Nesta, João Andersen mantendo-se ainda ligado aos princípios da Carta de Atenas, "...os princípios da Carta de Atenas mantêm-se certos, simplesmente, apesar de tudo, o indivíduo - o homem - parece não ter encontrado aí ainda a definição do seu habitat. Não consideramos no entanto ultrapassados, no sentido negativo do termo, os princípios da Carta de Atenas, simplesmente cremos que eles atingiram apenas os seus objectivos primeiros, isto é, a formulação de muitos dos problemas que informam a cidade de hoje e a criação de uma nova mentalidade urbanística", formula no entanto, muitas das preocupações dos urbanistas da época: a necessidade do Plano Regional como infra estrutura necessária para planos de menor escala; as preocupações com o aumento demográfico e com os problemas de circulação nas cidades; os problemas da escala das realizações efectuadas, criticando já o "gigantismo" dos espaços de Brasília e defendendo as realizações das cidades satélite de Harlow no Reino Unido e Wallingby na Suécia; a necessidade de colocar os problemas do urbano em parâmetros científicos ou seja, passar do Urbanismo para a Urbanologia; e, finalmente, as questões prementes do planeamento à escala nacional.

A prova de Composição

A sua proposta de plano de urbanização, é sem dúvida a mais consistente e interessante, e João Andersen vai aplicar os conceitos que havia desenvolvido na sua Dissertação.

Começando por analisar a área a urbanizar, detecta três zonas, as quais descreve cuidadosamente dando-nos um panorama da área nos inícios dos anos 6o:

“1 — A parte a ocidente, já comprometida por toda uma malha viária em xadrez, de ruas paralelas e perpen­diculares à costa, que constitui a chamada «Foz Nova» …(que) …apresenta características nitidamente residenciais, embora mal apetrechada em matéria de apoio comercial local e de estabelecimentos de Ensino Oficial, o que a levou a ser considerada com um tipo de cidade-dormitório, ainda que dotada de certa vida social fechada que a tem carac­terizado, facilitada, senão provocada, pela grande zona rural que se interpõe desde longa data, entre ela e a restante parte urbana do Porto. Verifica-se porém que esse carácter tende ultimamente a desaparecer, não só devido a uma maior faci­lidade de transportes rápidos, como pela continuidade cada vez mais acentuada na direcção do centro urbano da cidade provocada pela abertura da Avenida Marechal Gomes da Costa, com toda a consequente urbanização envolvente. O facto desta zona se desenvolver ao longo do mar, com as suas praias, e o seu carácter isolado e sossegado, transformou esta parte do litoral num local residencial de eleição para uma parte de população de maior nível de vida, reflectida aliás nas boas e cuidadas moradias que aqui se encontram, apesar de se notar ultimamente a construção de alguns blocos de andares.”

2 — A parte oriental, onde começou já uma urbanização do mesmo tipo e onde a presença dos Padres Domi­nicanos, com a sua Igreja e Convento, torna já esta zona conhecida por Zona dos Dominicanos …(que)…embora mais recente, é igualmente uma zona estritamente residencial, constituída por moradias igualmente reveladoras dum bom nível de vida dos seus habitantes. Há aqui a assinalar a presença duma recente praceta, sobre a qual dá a Igreja dos Dominicanos, um prédio de andares cujo rés-do-chão é ocupado por estabelecimentos comerciais. (nota-trata-se do bloco projectado pelo arquitecto Pereira da Costa e referido neste blogue em). Neste pequeno conjunto esboça-se um princípio de centro de inte­resse social à escala vicinal. De resto, o apoio comercial desta zona é praticamente nulo.

3 — O terreno intermediário entre as duas zonas citadas e de características predominantemente rurais, refor­çadas por um ou outro agrupamento habitacional…(uma)… grande zona intermédia, de carácter rural, como acon­tece ainda em tantos outros pontos da Cidade do Porto. Apresenta esta zona aspectos curiosos, dignos de serem salva­guardados pelo contraste agradável que oferecem em relação à grande parte urbanizada da cidade. Chamou-nos neste capí­tulo a atenção o conjunto onde se situa a Igreja de Nevogilde, formando um Largo pitoresco e calmo, no meio do qual se situa a bela Igreja, de pequenas proporções, mas de vincado sabor arquitectónico. Em torno desse largo arborizado, dispõem-se um conjunto de moradias cuidadas, que são testemu­nhas agradáveis doutros tempos e devidamente integradas no ambiente local. No fundo da Travessa de Nevogilde, situa-se uma outra moradia integrada num belo jardim cercado por muros altos que representa no seu conjunto um valor a manter.

De resto, nota-se a presença de casario pobre, de explora­ção rural, anacrónico dentro duma cidade, o qual dá albergue a diversas famílias, em condições higienicamente indesejáveis. A par destas figuram outras, de construção mais recente, embora sem grande interesse arquitectónico, mas a respeitar pelo valor que representam e porque oferecem já as devidas condições de habitabilidade. Caracteriza ainda esta zona a existência de manchas de arvoredo (pinheiros sobretudo) que lhe dão um ar agradável de paisagem rural e que tornam o local saudável. Na maioria dos terrenos livres faz-se lavoura, pelos processos mais primitivos, o que, embora pese o carácter pitoresco que esse espectáculo empresta por contraste a uma cidade, tem na verdade o seu quê de anacrónico nesta época, em que há ainda uma grande população urbana mal alojada. Há, pois, que con­quistar esses terrenos para lhes dar um destino mais de acordo com as necessidades duma cidade, acabando-se pois com o habitat rural que ainda abunda no Porto.”

De seguida Andersen refere os equipamentos existentes, referindo o Colégio Brotero como a única escola existente na zona e ainda assim um colégio particular, “situado ao fundo da Avenida Marechal Gomes da Costa, próximo da Praça do Império (…)onde se administra o Ensino Primário e o Ensino Secundário, com uma frequência actual de mais de 600 alunos.”

“Quanto a equipamento comercial, pode-se dizer que ele não só é francamente insuficiente para os 8 700 habitantes actuais, como o pouco que existe situa-se na extremidade Sul da Foz Nova, portanto em más condições de servir eficientemente todo este vasto sector da Cidade. O pequeno agrupamento de lojas recente, junto ao Convento dos Dominicanos, veio atenuar grandemente essa falha, mas continua a ser pouco para as necessidades normais, tanto mais que interessa mais directa­mente à Zona dos Dominicanos e Avenida Marechal Gomes da Costa.”

“A assistência religiosa apoia-se na Igreja de Nevogilde, situada na zona intermédia, mas sem condições para exercer a sua fun­ção paroquial, na Igreja dos Dominicanos e uma Capela que se situa numa esquina da Avenida Marechal Saldanha — Rua do Crasto.”

“A actividade desportiva resume-se à presença dum campo de futebol, de terra batida, sem instalações complementares, situado na Zona intermediária rural.” (O campo da Ervilha !).

Quanto aos transportes a ligação com o centro da Cidade faz-se “por meio de eléctricos, ao longo da Ave­nida da Boavista e Avenida Brasil, enquanto que os autocarros servem este sector através da Avenida Gomes da Costa, atra­vessando depois a Foz Nova, paralelamente ao mar.”

E Andersen termina esta análise, apontando a orla marítima que constitui “na época própria um centro balnear de primordial importância para a cidade do Porto, embora, devido à escassez cada vez mais acentuada de areia, os banhistas se concentram actualmente mais na faixa litoral vizinha, compreendida entre o Castelo do Queijo e o porto de Leixões” e apontando uma função que esta marginal continua a desempenhar já que “nas noites quentes de Verão se concentra quem pode e quem deseja um pouco de ar fresco e de convívio social que essas belas noites propor­cionam. Não é pois demasiado encarar esta função urbana e social que a Foz Nova vem desempenhando, ao longo dos anos em relação à Cidade, cada vez mais facilitada pela crescente facilidade de transportes.”

A proposta de Anteplano

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A partir do esquema viário do Plano Director, Andersen propõe um zonamento em que considera 4 sectores:

Sector A — compreendido entre a Avenida da Boavista, a pro­jectada Avenida Central e um troço do ramo ascendente do Sistema de Travessia, com uma área de 46,0045 hectares… (e)…constituirá uma Unidade de Vizinhança, à ilharga da qual se localizou o Liceu Misto pedido no programa.” Neste sector “está integrado o belo conjunto onde se encon­tra a Igreja de Nevogilde, que se procurou manter intacto na sua estrutura espontânea. Mantiveram-se também intactas, e elas vão bem definidas na planta de apresentação, determina­das propriedades com belos jardins e arvoredo, pois são ele­mentos de valorização insubstituíveis.”

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Para este sector o anteplano de Andersen propõe apenas a “supressão de edi­ficações demasiado modestas, constituindo habitais impróprios, cujos ocupantes se entregam a trabalhos de lavoura” e a manutenção dos “arrua­mentos existentes, embora se alarguem ou rectifiquem onde necessário e possível, e se prolonguem quando se tornou van­tajoso.”

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No sector A, João Andersen propõe ao longo da Avenida da Boavista, a edificação de “um grupo de 8 blocos para habitações, com 8 andares cada (…) com acesso pelo inte­rior do sector” por forma a “quebrar o carác­ter monótono daquela Avenida, criando um prolongamento espacial lateral, de forma a não acentuar tanto a grande e desagradável desproporção entre o seu comprimento e a sua largura, o que seria mais notório se se destinasse à construção de vivendas essa faixa de terreno, como se vem fazendo. Aliás o futuro Parque da Cidade, localizado no lado oposto será também altamente favorável neste sentido.”

E o urbanista sugere que, de iniciativa pública ou privada, se edifiquem neste sector “os mais variados tipos, que vão desde a moradia individual (em número reduzido aliás) até a um bloco de 14 andares, que se encontra junto ao Liceu” num conjunto que “constitui organicamente aquilo a que hoje se chama uma Unidade de Vizinhança, isto é, um conjunto resi­dencial dotado duma primeira auto-suficiência.”

Para isso propõe “um pequeno Centro Comercial, disposto em torno duma praceta, que devido à topografia local, se desenvolverá em duas plataformas, ligadas por escadarias. É constituído por um conjunto de edifícios de 3 e 4 pisos, cujo rés-do-chão é destinado a estabelecimentos comerciais do uso diário, tais como mercearia, drogaria, leitaria, padaria, farmácia, café, etc., além dum pequeno cinema e centro social, com o seu salão de reuniões. Há a acrescentar ainda a presença de determinado artesanato, tal como, alfaiataria, cabeleireiros, lavandaria e tin­turaria, etc., além do picheleiro, o carpinteiro, o electricista e mais quem venha exercer aqui a sua actividade, em proveito próprio e da população que vai servir.”

“Em matéria de assistência infantil distribuiu-se pelo conjunto 4 creches e 4 jardins infantis. A escola primária, com 18 salas, com capacidade para 700 alunos (10 % da população corres­pondente), situou-se no centro da composição, de forma a ser­vir da melhor maneira toda a população em idade escolar, tendo-se admitido como raio de acção máximo 800 metros, e de forma a que as crianças só tenham que atravessar no seu trajecto artérias de trânsito local, isto é, à escala vicinal. O local escolhido é rodeado dum pinhal, o que lhe dará certamente melhor enquadramento.”

E para este sector é previsto um parque com “uma pequena biblioteca junto a um espelho de água, recinto de jogos para crianças e abri­gos” e junto a este o “Liceu Misto…(com)… uma área de 28 000 m.2 aproximadamente” e “ladeado a Nas­cente por uma ampla esplanada de acesso, que o separa duma praceta de estacionamento de carros, com abrigos, praceta esta que serve igualmente um bloco de habitações, em forma de torre, com 15 pisos, além dum pavilhão de chá, integrado num pequeno ambiente de parque.”

Sector B — limitado pela Avenida Marechal Gomes da Costa, a Avenida da Boavista e o restante troço do ramo ascendente do Sistema de Travessia.” auz933c

“Corresponde a este sector uma área de 72,1211 hectares…(e) constituirá uma segunda Unidade de Vizinhança, na qual se integrou o Centro Desportivo e Parque comuns a toda a zona de Nevogilde, aproveitando a existência dum campo de futebol.”

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Neste sector Andersen pretende conciliar a urbanização existente com a projectada com outro “espírito, mais livre e maleável, com grande predomínio de espaços livres, no meio dos quais se integram os volumes projectados.” Entre as duas urbanizações a reformulação da praceta onde se situa a Igreja dos Dominicanos e o bloco já referido, (praça Afonso V) com a criação de um “ Centro Comercial (C. C. B.)” e propondo do lado Norte, Poente e Sul (…) dois edifícios extensos, destinados a comércio, escritórios e habitações, e por um em forma de torre, de 10 andares, des­tinado a escritórios e habitações. Este conjunto de edifícios é ligado por um pórtico para abrigo dos peões.”

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“A este sector B fica destinado uma população da ordem dos 6 782 habitantes, aproximadamente, ou seja, prevê-se um aumento, em relação à população actual, de 4705 habitantes.

Tal como aconteceu no sector A, distribuiu-se esta nova popula­ção por diferentes tipos de habitação, ou seja desde a moradia unifamiliar até ao bloco-torre de andares. Constituíram-se assim diversos núcleos, agrupando as Habitações Económicas, as de Renda Económica, ou aquelas entregues à iniciativa privada, conforme se poderá observar pela leitura da respectiva planta e mapa de distribuição, através do qual se poderá verificar que predominam, pelas razões já invocadas em relação ao Sector A, os agrupamentos de habitações multifamiliares.”

Este sector B seria equipado por “um Grupo Escolar de 16 salas para 670 alunos, destinando-lhe uma área de terreno da ordem dos 5 400 m.2” e de um “conjunto de 4 Jardins Infantis e 3 Creches.”

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Mas este sector é sobretudo caracterizado pelo “Centro Desportivo, junto à bifurcação da Avenida Central, Centro este que se desenvolve à escala de toda a Zona de Nevogilde, assim como o Parque que lhe dá seguimento. Este Centro Desportivo, que já des­crevemos, seria tratado e valorizado de forma a ser um foco de atracção de todos os habitantes, servindo não só para a prática da mais variada cultura física, como para promover o mais desejável convívio social. Aproveitando as zonas arbo­rizadas existentes abaixo do miradouro, e a natureza aciden­tada e húmida do terreno, o Centro prolongou-se em Parque até junto do Centro Comercial, isto é, até às traseiras dos talhões sobre a Avenida do Marechal Gomes da Costa.”

Sector C — compreendido entre os dois ramos do Sistema de Travessia, já atrás definido, com uma área de 21,780 hectares (…) o local mais indicado para o Centro Cívico, Comercial, Cultural e Religioso, que passare­mos a denominar no seu conjunto por Centro Comum, dadas as circunstâncias do seu uso ser comum a todos os habitantes desta zona.

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Assim, o Centro Comum forma com o Centro Des­portivo o Parque e com o Liceu, um conjunto localizado no centro de toda a composição, como está naturalmente indicado, tendo em vista a vasta área de terreno e a população a servir, apesar de que cada um dos outros sectores terão à sua dis­posição, centros comerciais próprios, à escala vicinal. A restante parte deste sector C será destinado a Unidades resi­denciais.”

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O Centro Comum, é concebido “com certa largueza, de forma a poder comportar um determinado número de actividades inerentes a uma população da ordem dos 23 000 habitantes” numa “política de descentralização urbana que se vem esboçando custosamente na cidade do Porto, a fim de aliviar não só o centro da cidade duma população que lá se desloca diariamente por não encontrar nas suas zonas residen­ciais aquilo que precisa, como se contribui para desconges­tionar o tráfego urbano, ao mesmo tempo que se dotaria a Zona de Nevogilde duma auto-suficiência conveniente” evitando “deste modo que qualquer dona de casa se tivesse que deslocar à cidade (é assim que para estes lados ainda se designa a Praça e o conjunto de ruas que a cercam), para comprar um par de sapatos para crianças, ou ir ao cabeleireiro. Um pequeno mundo de negócios se poderia instalar neste Cen­tro, provocando uma vida própria, na qual se integravam as actividades culturais, religiosas, os cafés, os centros de diver­são, etc., fomentando ás relações sociais naturais, através des­tes espaços organizados e variados, definidos pela série de praças e pracetas postas à disposição dos peões, uma vez que os automóveis servem este complexo urbano perifericamente.”

Este Centro Comum correspondia à ideia de criar na cidade um conjunto de subcentros “ para as Antas, para Campanhã, etc, de forma a serem criados outros e variados centros de interesse da Cidade.”

“O eixo principal da Composição é dado pela directriz da Rua do Crasto, no enfiamento da qual se situa a praça principal do Centro Comum, praça esta aberta a Poente e Sul. A Nas­cente e Norte é limitada por um bloco extensivo em L, des­tinado a comércio, escritórios e habitações, e por um edifício de 3 pisos, de base quadrada destinado a Supermercado. Do lado Poente desta praça, e com frente para ela, implantou-se o Centro Religioso, que não é mais do que a Igreja Paro­quial, com todas as instalações inerentes a tal Instituição e à escala da Zona de Nevogilde. Este conjunto de edifícios é ligado por um pórtico coberto para abrigo de peões, pór­tico que se prolonga para Sul e para Norte.  Do lado Sul, ele parte dum parque de estacionamento, serve um edifí­cio alto (20 andares) destinado a escritórios e habitações, Do lado Norte conduz os peões até ao Mercado, Centro de Saúde, e Centro Cultural, passando pelo meio dum parque que se projectou neste Centro Comum, aproveitando uma zona arborizada existente. Pareceu-nos de todo recomendável a integração deste elemento de sossego e frescura na vizinhança do ponto de maior actividade de todo o conjunto. Sobre este parque dá um edifício destinado a Centro Social, ou seja um conjunto compreendendo biblioteca, sala de exposições e reu­niões, clube, restaurante, etc. Uma praceta para a qual dá este edifício, do lado Norte, dotada dum amplo parque de esta­cionamento, serve igualmente o Cinema e o Teatro e Sala de Concertos. Resta-nos ainda referir um conjunto de edificações que se projectam entre a Praça Principal e o ramo ascendente do Sistema de Travessia; um corpo baixo, de 2 pisos, forma um pátio com o edifício destinado ao Supermercado, para onde se pensava abrir os cafés e restaurantes, num ambiente protegido e ao mesmo tempo integrado no centro das activi­dades deste Sector. A este corpo segue-se outro em forma de L, que se desenvolve em torno doutra praceta, servida por um parque de estacionamento, e que por sua vez é constituído por três volumes diferentes, destinando-se a comércio o rés--do-chão, admitindo uma passagem para peões e automóveis, sendo os 4 pisos superiores reservados a escritórios e habita­ções. No canto localizou-se uma ampla garagem de 2 pisos, funcionando igualmente de Estação de Serviço, à qual se segue um outro corpo de construção de 4 pisos, onde se instalavam diversos serviços de interesse público — Junta de Freguesia, Posto de Serviço contra Incêndios, Polícia, Correios, etc. Finalmente temos a assinalar a permanência dum conjunto de mora­dias existentes na Rua do Crasto; esse troço da rua será transformado essencialmente numa artéria de peões, isto é, sem passeios, mantendo-se as suas árvores, embora se admita que os automóveis aqui possam vir também. Aliás esta zona forma por trás dos. referidos edifícios, uma praceta de confi­guração irregular, que pode ser utilizada para estacionamento.”

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“Dentro deste Sector, mas fora do Centro Comum, para Norte, temos dois quarteirões envolvidos pelos inversores do Sistema de Travessia. Em relação ao primeiro, conservou-se um con­junto de 4 moradias com os seus jardins, e adaptou-se a parte restante de forma a poder comportar um certo número de habitações unifamiliares em ala contínua, dotadas de jardins privativos. O outro destinamos à implantação duma série de blocos-torres para habitações, adaptando-se à configuração do terreno. “

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“Os dois quarteirões do lado Sul foram destinados igualmente a conjuntos residenciais. O que se encosta ao Cen­tro Comum disporá dum parque-jardim que lhe fornecerá, sem dúvida, um ambiente agradável, uma vez que é exposto ao Sul e protegido dos ventos dominantes.”

Andersen propõe edificação em altura, como na época se impunha,neste Sector predominam as edificações altas, o que se justifica plenamente não só pelo facto de vir a ser um Sector muito valorizado por se encon­trar no centro da composição, próximo do Centro Comum e directamente servido pelo sistema de artérias que lhe garan­tem uma fácil e rápida comunicação com o centro da Cidade” mas como preocupação “que cada habitação possa desfrutar o belo panorama que lhe é for­necido pelo Atlântico.”

Este Sector C é equipado com “três jardins infantis, um integrado no conjunto de blocos resi­denciais a Norte, outro no Parque do Centro Comum e outro no conjunto de blocos residenciais a Sul” e partilha as Escolas Primárias com o Sector D recorrendo-se “a um tipo de cruzamentos a níveis diferentes, isto é, fazendo os peões atra­vessar de um Sector para o outro por meio de passagens infe­riores à faixa de rodagem dos carros, garantindo assim acessos directos às Escolas Primárias.”

“Sector D — igualmente já definido, ou seja constituído pela Foz Nova e umas parcelas de terrenos livres que se encos­tam ao ramo descendente do Sistema de Travessia, medindo 76 hectares (...) já praticamente estruturado duma forma total, manterá um carácter estático de zona residencial, além da sua função balnear.”

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“As zonas de terreno que ainda se encontram livres, são as do interior, isto é, encostadas ao dito ramo descendente. Aí mesmo manteve-se o carácter niti­damente residencial da Foz, embora se tenha adoptado em parte um tipo de urbanização diferente, a fim de se obter um maior rendimento populacional. De qualquer forma, o tipo de habitações previsto foi encarado como um sistema de transição entre o grande conjunto de moradias da Foz Nova, e os gran­des blocos projectados nos outros Sectores. Se aos 5 053 habi­tantes actuais deste Sector, acrescentamos 2 051 previstos em novas edificações, temos um conjunto de 7 014 habitantes, numa área de 76 hectares.”

João Andersen divide este Sector D em “dois subsectores — um para Norte da Rua do Crasto e outro para Sul desta mesma rua.”

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“O primeiro foi dotado com um Grupo Escolar de 12 salas, que serve não só esta parte da Foz Nova como a parte Norte do Sector C. Destinaram-se também ter­renos para a construção de Jardins Infantis, e criou-se um pequeno Centro Comercial local (C. C. D.), constituído por uma praceta com dois lados envolvidos por um edifício em L, destinando-se o rés-do-chão a Comércio, e os andares a habitações, Escritórios e Actividades inerentes a um conjunto destes, tais como cabeleireiros, alfaiates, etc. Um pequeno jardim-parque defronte do Centro Comercial, cria um local de ar livre que completa este equipamento de carácter comum, favo­rável ao fomento de relações sociais.”

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“O subsector Sul, comporta igualmente um Grupo Escolar, para 10 salas, servindo também a parte Sul do Sector C, e Jardins Infantis. Os restantes terrenos livres foram adaptados à cons­trução de blocos de habitação de 3 e 4 pisos. Quanto a comér­cio, não se contou com qualquer instalação especial, visto que existe já neste local determinada actividade comercial servindo os interesses imediatos da sua população, e dado ainda o facto da proximidade do Centro Comum.”

“Em relação à actividade balnear e turística que caracteriza a Foz, contou-se com a localização de um Hotel de 150 quartos, sobranceiro ao Mar, junto ao Molhe.” (Já previsto no Plano Director).

“É ainda de assinalar a importância que assume, em relação ao conjunto, a Rua do Crasto, que passará a exercer a função de veículo principal de todo o movimento entre a Foz Nova e o Centro Comum, cruzando a nível diferente o Sistema de Tra­vessia.”

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João Andersen Planta de Zonificação e Perfis

continua…