Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 19 de abril de 2012

BARROQUISMOS VII (2)

Achegas sobre o Porto Barroco (continuação)

A zona da Sé

A zona da Sé na gravura de Teodoro de Sousa Maldonadob702

A estrutura urbana da envolvente da Sé, apesar das alterações arquitectónicas, permanecerá até ao século XIX marcada pela muralha românica, apesar da sua total ineficácia funcional. Neste período permanecem as sua Portas. A porta de S. Sebastião, demolida em 1819; a porta de Sant’Anna, com o seu Arco demolida em 1821 e a Porta de Vandoma, com a imagem da Virgem, demolida em 1855 e a Porta das Verdades demolida ainda no século XVIII.

A Planta de Balck conhecida por Planta Redonda de 1813 ainda cartografa esta estrutura e assinala as portas da primitiva muralha.

Porto1813a - Cópia

XVII Paço Episcopal P Sé Cathedral Q Conv. dos Grilos 53 R. de S.ta Anna 54 R. Escura 63 R. da S.ra das Verdades  65 L.o do Chafariz 66 L.o da Sé 67 R. da Penna Ventosa 68 R. da S.ra de Agosto (*) 69 R. do Paço Episcopal 70 L.o do Paço Episcopal 71 L.o do Asouge 72 R. das Aldas 73 R. do Soutto

(*) Na Legenda, embora deteriorada, parece ler-se de novo R. S.ra das Verdades  que de facto corresponde ao n.º 63

O Paço Episcopal

O novo Paço Episcopal, irá com a Torre dos Clérigos, alterar o perfil da cidade do lado Sul, até então com a Sé dominando a Pena Ventosa.

No local onde hoje existe o Paço Episcopal terá existido uma primeira residência dos prelados portuenses, já que nele se instalou o rei D. João I quando em 1386 se deslocou ao Porto para o seu casamento com D. Filipa de Lencastre.

António Coelho Lousada (1828-1859) no seu romance histórico A rua Escura-Tradição Portuense 1628-1629, (Porto, Em Casa de Cruz Coutinho – Editor 1857), que situa no início do século XVII, escreve:

« O paço episcopal agora existente é obra do século passado. A residência dos bispos então (século XVII) era mais acanhada e mesquinha. O palácio — dêmos-lhe este nome — era um misto de construcções de differentes épocas, onde a architectura gothica se casava a umas pequenas amostras e remendos de renascimento e d’esse estylo pesado, monástico, a que chamaram jesuí­tico. As fortificações que o cingiam, que por vezes os fieis súbditos da mitra tinham vindo sitiar, e que de tantos séculos que estiveram de pé, não havia passado um anno sem, pelo menos, ouvirem as pragas dos honra­dos burguezes, tinham desabado parte pelo aríete popu­lar, parte pela bem mais possante mão do tempo, dei­xando devoluto em frente um terreiro escabroso, d'onde se gosava um soberbo panorama. Apenas do lado do sudoeste existia um pequeno torreão, fendido de cima a baixo, desmantelado completamente, sem portas já, e pendentes os varões de ferro das ogivas que davam para o lado do paço».

O Paço teve sucessivas obras, nos séculos XV, XVI e XVII, mas na imagem de Duncalf de 1736, ainda aparece com o seu aspecto medieval.

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Entre 1724 e 1738, realizaram-se obras no seu interior com novas salas, cozinhas, escadas e fachada.

Mas só em 1734 no período da Sede Vacante, o Cabido manda remodelar ou realizar obras de conservação de parte do velho paço medieval, entregando o projecto a Nicolau Nasoni o qual fez a planta e deve ter orientado as obras, pelo menos na parte respeitante à escadaria nobre e dependências próximas.

Segundo o padre Agostinho Rebelo da Costa, terá sido D. Frei João Rafael de Mendonça (filho do Conde de Val dos Reis) e bispo do Porto entre 1771 e 1793 que mandou reedificar o Paço, não havendo no entanto qualquer documentação que possa indicar a quem atribuir o risco do novo paço. “Todas estas soberanas qualidades unidas ao zelo fervoroso com que enriquece a sua Cathedral de ornamentos e peças preciosas, e com que reedifica o seu Paço desde os fundamentos com huma magnificencia superior a todas quantas Residencias Episcopaes há em Portugal, o fazem digno de hum Escriptor sábio, e prudente, que com expressoens superiores á minha rude fraze, deixe recommendavel o seu Nome á gloriosa Immortalidade.”

Perdida a influência da Igreja, a sua construção estende-se pelo século XIX,  tendo sofrido danos no Cerco do Porto.b702

Na gravura de Teodoro de Sousa Maldonado, o Paço Episcopal (com o n.º 38) ainda aparece com desenhado de uma forma esquemática, com alterações do início do século XVIII e provavelmente em construção, o que contrasta com a descrição que dele faz o padre Agostinho Rebello da Costa no livro que alberga esta gravura. Rebello da Costa descreve de facto o projecto a que terá tido acesso estando o edifício em construção.

De facto, na Descripçaõ Topographica e Historica da Cidade do Porto pode ler-se:

“O Paço Episcopal, que desde os seus fundamentos, he inteiramente reedificado pelo Excellentissimo, e Reverendissimo D. Fr. Joaõ Rafael de Mendonça, actual Bispo desta Diocese, está immediato á Sé em terreno desigual, e por esta causa os seus lados variaõ em o número dos andares, para assim conservarem a igualdade das suas cornijas e remates.”

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Joaquim Villanova Paço Episcopal (Fachada) in «Edifícios do Porto em 1833», Álbum de desenhos de Joaquim Cardoso Vitória Vilanova, Ed. Biblioteca Municipal do Porto, 1987

“O frontispício que serve de entrada ao mesmo Paço, tem quatro andares com as lojas, ou quartos subterrâneos…”

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Levantamento da fachada principal do Paço Episcopal DGEMN/INHRU

“…O primeiro andar tem hum Portico de quatorze palmos de largo, e trinta d’ alto, lavrado com Rusticos, e ornado de belíssimos remates da Ordem Composita, e por cima huma varanda com seis palmos de largura, e vinte e nove de comprimento guarnecida com balaustres de pedra: acompanhaõ este Portico de huma e outra parte, doze janellas com grades de ferro, que daõ luz para as lojas subterrâneas…”b704a

“…Segue-se o segundo andar, que tem outras doze janellas todas de peitoril com sette palmos de largo e quatorze de alto do peitoril para cima…”b704b

“…O terceiro andar, he igualmente composto com doze janellas rasgadas, que tem a mesma largura das janellas do segundo andar, porém a altura , he de dezoito palmos…”b704c

“…No meio destas doze janellas , está huma que corresponde ao grande Portico. E em cujo remate, estaõ gravadas em Tarja lapidar, as Armas dos Excellentissimos Condes de Val de Reis…”b704d

Num período de arquitectos-artistas, as formas da arquitectura circulam através da divulgação dos Tratados do século XVI a XVIII, que vão aqui vão chegando e são traduzidos ou que são mesmo produzidos em Portugal.

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A porta do Paço Episcopal 1 levantamento 2 pormenor de uma foto anterior a 1956 3- desenho da porta do Palazzo Lateranese em Roma de Domenico Fontana.

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Prossegue o padre Agostinho Rebelo da Costa:

“A altura do frontispício , he de settenta e cinco palmos com duzentos e settenta e seis de comprimento : o quarto andar , he o das agoas furtadas.” De facto o quarto andar nunca chegou a ser realizado.

As janelas dos três pisos unem-se a partir do embasamento com pequenas aberturas com molduras de 5 faces, numa continuidade desde as janelas do primeiro piso até, através de bandeiras, às janelas de sacada do segundo piso, estas coroadas por cornijas curvas de formas diferentes, e que se vão alternando.

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De notar a forma como é resolvido o cunhal da fachada principal com a fachada poente, convexo nos dois primeiros pisos e côncavo no segundo..

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Esta solução repete-se nos dois outros cunhais, poente-sul e sul-nascenteb710

Detalhe de uma fotografia de Manuel Magalhães

Rebelo da Costa descreve então os alçados voltados para o rio com “sete andares”

E descreve de seguida:

“O ultimo andar remata-se com huma dilatada varanda, que abrange toda a sua circumferência, e da qual, naõ somente se descobre huma grande extensaõ do Rio Douro, mas também a Barra, e nove legoas ao Mar: esta varanda rodêa todo o Paço (excepto o lado principal) e he ornada com oitenta e nove pirâmides.”

Esta descrição do Padre Agostinho Rebello da Costa, corresponde, ao Paço Episcopal desenhado na gravura de Manoel Marques de Aguillar de 1791 certamente também desenhada a partir do projecto.

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O edifício na realidade como foi concluído.b703a

O interior

Passada a porta principal segue-se um percurso barroco, com um comprido e estreito vestíbulo ao fundo do qual se encontra uma “fachada interior” com a porta central onde principia a escada, e duas pequenas portas laterais sobre as quais se abrem duas janelas interiores. Sobe-se quatro degraus para um primeiro espaço ladeado por dois vestíbulos de forma octogonal que abre para espaço do vão da escada, iluminado lateral e zenitalmente. A escada tem um primeiro tramo central que se abre em dois outros no sentido inverso e que dão para o Salão.p708hp708                                            p708a

Plantas do piso térreo e do piso superior

A escada com toda a sua carga simbólica e religiosa, é um dos elementos caracterizadores do espaço barroco. Lembre-se as escadarias dos Santuários do Bom Jesus em Braga, de Nossa Senhora dos Remédios em Lamegos, ou do Santuário do Bom Jesus de Congonhas do Campo no Brasil.

No que se refere à arquitectura civil,  a escada embora assumindo funções diferentes, é ainda um dos elementos geradores do espaço barroco, quer seja colocada no exterior do edifício como nos palácios e casas (Vilas) da periferia das povoações, quer se desenvolva no interior dos palácios construídos num contexto urbano.

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Joaquim Villanova Paço Episcopal (Escadaria)

A gravura de Villanova numa tentativa de mostrar a iluminação e o percurso da entrada até ao salão.p708c

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Os tectos pintados, a escada e a sua iluminação.p708fp708e  

As janelas laterais e a decoração das escadas.p708g

Ignacio Vilhena Barbosa (1811-1890), escreve nos seus  Estudos históricos e archeologicos, sobre o Paço Episcopal:

“Encerra este paço (do Bispo) grandes salas, uma boa casa de livraria, excellente e bem ornada capella, e, sobresahindo a tudo isto em magnificência, a escada que conduz ao andar nobre, digna, certamente, de uma habitação real, senão pela riqueza dos ornamentos, pela sua magestosa construcção. Se este edifício estivera acabado interiormente, podia, attenta a sua vastidão e commodidades, servir de residência a uma família so­berana.

« Não se recommenda por elegância de formas, nem por bellezas de ornamentação; todavia a sua architectura, apesar de ser singela, como bem quadra à morada de um pastor espiritual, tem nobreza, e guarda no seu todo e em cada uma das suas partes as boas propor­ções, o que é, sem duvida, um grande merecimento architectonico. É um perfeito specimen d'esse estylo pro­priamente nacional, em voga no século XVIII, pesado e falto de graça, mas ostentando muita solidez, grandio­sidade e nobreza».

Os espaços envolventes

A envolvente do Paço Episcopal, apesar das propostas nas plantas de José Francisco de Paiva e de Costa Lima, manter-se-á sensivelmente igual até aos finais dos anos 30 do século XX, quando se executam as demolições para a construção do Terreiro da Sé, no âmbito das Comemorações ligadas à Exposição do Mundo Português. À ideia da criação deste amplo espaço, para além das concepções urbanísticas da época e a presença dos urbanista italianos, não é alheio o facto de no Paço estar instalada desde 1918 a Câmara Municipal do Porto.

Na Planta de 1813 está assinalado com XVII o Paço Episcopal e com o n.º 70 o Largo do Paço Episcopal e com o n.º 69 a rua do Paço Episcopal e com o n.º 68 a rua da S.ra de Agosto.Porto1813 b cópia

Almeida Garrett (1799-1854) no Cap. XV Ecce sacerdos magnus do O Arco de Sant’Anna (Crónica Portuense). Manuscrito achado no convento dos Grilos no Porto, por um soldado do Corpo Académico", publicado em dois volumes, entre 1845 e 1851,um romance histórico passado no tempo de D. Pedro I, mas na realidade com muitas referências ao tempo de D. Pedro IV, descreve o Largo do Paço Episcopal como um “…pequeno largo, ou praceta, que fecham de um lado o frontispício da antiga Sé, à sua esquerda os paços do bispo, defronte da catedral as pequenas casas, ocupadas provavelmente então, assim como hoje, por vários membros do seu clero, e à direita o elevado terraço de onde descem as escadarias que levam a S. Sebastião e a todo o segundo socalco, para assim dizer, da antiga e empinada cidade, cujas ruas e casas direis que se precipitaram desde o alto pináculo da sé até onde é a Porta Nobre e últimas abas do monte ao pé do rio.

Numa vista aérea de 1939, em que estão iniciadas as demolições, podemos ver que o conjunto envolvente da Catedral e do Paço do Bispo, e as poucas alterações (eliminação das portas e de alguns panos da muralha românica)que sofreu desde os finais do século XVIII até à abertura do Terreiro da Sé.b727h A vermelho o local da igreja de N. Sra. de Agosto, já desmontada Foto do AHMP

Na foto seguinte, da casa Alvão, vê-se o estreito Largo do Paço, tendo ao fundo o portão que dava acesso ao recinto do Paço Episcopal, à esquerda o portal da Sé e a casa do Cabido de onde parte, em frente, a rua da S.ra de Agosto. Em frente ao portal da Sé a capela quinhentista de N.a S.ra de Agosto (Nossa Senhora da Assunção), desmantelada em 1936 e reconstruída em 1953  no Largo Actor Dias, entre a rua do Sol e a rua de S. Luís.b727

A capela de N.ª Sr.ª de Agosto no início das demolições dos finais dos anos 30 do século passado.b727ib727k Fotos IHRU-Sipa

Para além da capela vê-se ao fundo a casa brasonada também demolida para abertura do Terreiro da Sé.b727lFoto DGEMN

Do lado do Largo da Sé.b739

A casa brasonada antes da demolição.b737

A rua da S.ra de Agosto está representada em pinturas de Leopoldo Gotuzzo e Domingos Alvarez ambas de 1928, e provavelmente realizadas ao mesmo tempo. Do lado esquerdo, junto à Sé a Capela de N.a S.ra de Agostob727a

Leopoldo Gotuzzo (1887-1983) Aspecto da Sé do Porto 1928, óleo sobre tela 75 x 51 cm. colecção particular.

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Domingos Alvarez (1906-1942) Aspecto da Sé do Porto 1928 óleo sobre madeira 50,2 x 21,5 Museu Nacional de Soares dos Reis

A Capela de N.a Sr.a de Agosto (Capela dos Alfaiates) no local em que foi reconstruída em 1953.b727f

No interior um retábulo de talha dourada, com oito pinturas representando a "Anunciação", a "Visita dos Reis Magos", a "Visita de Santa Isabel", a "Natividade",o "Jesus entre os Doutores" e a "Fuga para o Egipto". b727mfoto IHRU/Sipa

O Paço Episcopal e o perfil da cidade

No perfil da cidade, o Paço Episcopal vai dominar o morro da Sé visto do rio, escondendo a Sé Catedral até então um dos pontos de referência do Porto.

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Charles Napier Hemy (1841-1917) Oporto óleo sobre tela, 1881 Museu Romântico Porto

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Joaquim Lopes (1886-1956) Douro 1927 óleo s/ tela 47,5 x 67 Museu Nacional Soares dos Reis

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A torre da Câmara (na gravura com o n.º34 e na legenda Senado)

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Durante o século XVII o papel da Câmara instalada na Torre junto à Sé, irá ser subalternizado, já que na primeira metade do século cabe à Igreja (pelo Bispo ou pelo Cabido) decidir os destinos da cidade e na segunda metade, será o Governador de Armas (os Almadas) com a Junta de Obras Públicas e a Real Companhia das Vinhas do Alto Douro, a decidir as intervenções na cidade do Porto. Apenas na segunda década do século XIX, com a revolução liberal a Câmara irá retomar o seu protagonismo e a liderança no desenvolvimento urbano, mas então irá instalar-se na praça das Hortas.

A antiga Casa da Câmara, com acesso pela Rua de São Sebastião, situava-se junto à muralha românica (dita sueva) e junto à porta de S. Sebastião, demolida em 1819. Na proximidade situa-se a Capela ou Oratório do Senhor dos Passos de 1745 e a Fonte de S. Sebastião ou do Pelicano. (ver mais adiante)

Na Planta de 1813 a Câmara aparece instalada na Casa Pia (na legenda XVI Casa Pia e Camera) e o antigo edifício apenas figura na planta com uma indicação de muros junto à Porta de S. Sebastião e as Escadas da Rainha. “…as escadas chamadas da Rainha, as quaes partem do Largo da Sé junto à caza das Vereações do Senado da Camara” Sousa Reis também designadas como Escadas da Sé, como na Planta de Telles Ferreira de 1892.

Porto1813a - Cópia

Nesta reconstituição da zona da Sé na Idade Média podemos ver a sua localização junto da porta de S. Sebastião e a “… pequena rua que vem dos antigos paços do conselho desembocar defronte da porta principal da Sé…” (A. Garrett op. cit.).

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A Casa da Câmara foi construída por volta de 1443 nela se reunia o Senado desde o século XV até ao século XVIII. Como escreve o padre Rebello da Costa:

“Todos os annos se ajuntaõ as tres Classes do Povo para votarem sobre a eleiçaõ deste Corpo Politico, que deve ser preenchido annualmente por novos Camaristas; porem muitas vezes acontece, que passaõ dous, três, e mais annos, sem que haja nova promuçaõ, a qual he feita pela Magestade, segundo o maior número dos votos pertencentes a cada hum dos nomeados. Em todas as quartas feiras, e sabbados de manhã, naõ sendo dias feriados, há Senado, aonde se tracta de tudo o que pertence ao mesmo Governo, o qual se dilata por toda a Cidade, e seu Termo, e para este fim, he auxiliado por dous Almotaceis, que a mesma Camara nomeia de dous em dous mezes; por dous Guardas maiores da saúde, hum Tesoureiro; hum Alcaide; e outros muitos Officiaes e Meirinhos, que saõ obrigados a vigiar, e acudir a todas as desordens, que o povo suscita contra as Resoluçoens e Acordaõs promulgados, para manterem a boa ordem, tanto no que pertence aos viveres de todo o genero, como ao aceio e pública tranquilidade.”

Almeida Garrett (1799-1854) num período de recuperação e de exaltação do poder municipal, também a refere no Arco de Sant’Anna publicado em 1845 como o  “SENATUS POPULUSQUE PORTUCALLENSIS” e localiza os paços do concelho:

“Não longe das feudais torres da Sé e de seus paços, esta­vam, como tantas vezes temos indicado, os do conselho: aí desde manhã a vereação se tinha reunido no que hoje diría­mos “sessão permanente”.

António Coelho Lousada (1828-1859) no seu romance já referido, A rua Escura-Tradição Portuense 1628-1629, escreve:

“Junto, sobre um edificio tambem negro, e de que apenas se via a parte superior, pendia uma bandeira vermelha, que o peso dos seus bordados mal deixava ondear. Era o estandarte da cidade arvorado em um mastro assente no eirado dos paços municipaes, de cuja varanda desceram e tinham de descer sobre a cabeça das turba inquietas dos bons portuenses muito discurso ordeiro, pezado e massudo, e muita proclamação revolucionária.”

A partir dos meados do século XVIII ainda são realizadas obras de reparação na Casa da Câmara mas em por volta de 1784 pensa-se na sua demolição, e em 1795 é de facto demolido o último piso transferindo-se a Câmara para o vizinho Convento dos Grilos até 1805, ano em que se transfere para o edifício da Casa Pia e em 1818 para o palácio Monteiro Pereira na Praça Nova. Cem anos depois a Câmara ocupa o Paço Episcopal enquanto duram as obras do novo edifício dos Paços do Concelho na Avenida dos Aliados inaugurado em 1957.b721b

Abandonado desde o século XVIII o edifício foi-se degradando e encontrava-se em ruína quando em 1995 o arquitecto Fernando Távora (1923-2005) inicia o projecto que levou à polémica reconstrução do edifício, agora com funções simbólicas, e que se concluiu em 2002.b721t

A reconstrução de Fernando Távora 1995-2002

O edifício da Casa da Câmara foi gerador e integrava o 2.º projecto de Álvaro Siza para a Avenida da Ponte (Afonso Henriques) então em elaboração. “O projecto da Casa dos 24, da autoria do Professor Fernando Távora, recentemente aprovado e em construção, dá corpo a esse novo conceito e pode, nesse sentido, ser considerado como pedra fundadora do projecto da Avenida da Ponte agora apresentado.” Álvaro Siza, Memória Descritiva do Estudo Prévio do Projecto de Requalificação da Avenida Afonso Henriques, Dezembro de 2000

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Fernando Távora (1923-2005) Estudo de implantação e relação com a envolvente datado de 24.4.95

Estudo da relação do edifício com as ruinas existentes e com a memória do edifício medieval.b738a

O projectob721mb721nb721ob721p

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A Torre do lado nascente

A relação do edifício com as ruinasb721z foto Portojo em http://portojofotos.blogspot.pt/

O edifício em forma de torre tinha “100 palmos de altura “ (cerca de 22 metros), com paredes em granito e encimadas por ameias, segundo um documento da época. Fernando Távora recupera estas dimensões e coloca numa das paredes umas mãos abertas (palmos) evocando esta dimensão. Estas mãos ou palmos lembram ainda a Mão Aberta de Le Corbusier, com toda a sua carga simbólica, que aliás Távora tinha já evocado no seu ante-projecto para o concurso de professor na ESBAP.

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 fotos Portojo em http://portojofotos.blogspot.pt/

Igreja e Colégio de S. Lourenço (com o n.º 33 na gravura e na legenda Agostinhos descalços)

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No texto escreve Rebello da Costa: “Convento dos Agostinhos Descalços fundado em mil quinhentos e sessenta, e nelle estiveraõ os Jesuitas até o anno de mil settecentos e cincoenta e nove. Em mil settecentos e oitenta tomaraõ posse os sobreditos Religiosos, tendo-o comprado á Universidade de Coimbra…” Atribuída a Baltazar Álvares, a igreja iniciou-se em 1577, ano em que os Jesuítas se transferiram para o Colégio, embora alguns autores refiram 1614 como a data do início das obras da igreja, sabe-se que ela é consagrada em 1622 apesar de não estar concluída. No entanto só perto de setenta anos depois se iniciam as obras da actual fachada que constitui um notável exemplo de arquitectura jesuíta, do primeiro barroco.

Com a expulsão da Companhia de Jesus de Portugal ordenada pelo Marquês de Pombal em 1759, o colégio é abandonado e em 1774 entregue à Universidade de Coimbra.

Por volta de 1779 o colégio é adquirido pelos Eremitas Descalços de Santo Agostinho, conhecidos como “Grilos”, e por isso aparece na legenda da gravura de Maldonado como “Agostinhos descalços” e a igreja ser vulgarmente conhecida como a Igreja dos Grilos.

Em 1834, após o cerco do Porto o colégio é cedido por D. Pedro IV para a instalação do Seminário Diocesano do Porto.

Almeida Garrett no Arco de Sant’Anna também refere criticamente o Convento dos Grilos “…hoje, oh impiedade! Convertido em casa de tripudio e bambochata de maganos estudantes…”

A Igreja

Segundo o padre Rebello da Costa:

“A Igreja deste Convento he toda de cantaria lavrada, com hum largo, e desafogado Arco Cruzeiro da mesma pedra, rematado com huma soberba Cupula, que realça a belleza da Capella Mor e dos Altares collateraes em tudo correspondentes a esta grandeza. O Frontispicio, he sem controversia, o mais conforme á perfeita Architectura, e o que neste ponto goza a preferencia entre outros da Cidade.”

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Joaquim Villanova — Egreja dos Grillos 1833

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Foto Mário Novais in Reynaldo dos Santos (1880-1970)  Oito Séculos de Arte  Portuguesa-História e Espírito II volume Empresa Nacional de Publicidade 1940/1943

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A frontaria seguindo o modelo jesuíta é composta por dois andares.

No primeiro, três portas com frontões, 1,2,3 sendo a do meio ornada com um portal formado por colunas gémeas coríntias sobre pedestais e por entablamento com pedras no friso.

Acima dois nichos vazios a nos extremos, duas janelas b, e a meio o emblema da Companhia de Jesus c, com separação feita por pilastras toscanas.

No segundo andar, ao centro, uma janela e e por cima um brasão de Frei Luís Álvares de Távora i. A rematar este bloco a Cruz de Malta sobre pedestal l.

De ambos os lados nichos vazios d, por cima destas janelas a rematar h, frontões partidos k sustentados por colunas jónias, das quais rompem pirâmides.

De ambos os lados as torres, partindo de volutas f, características das fachadas dos templos Jesuítas seguindo o modelo do Gèsu em Roma, com uma pequena janela g, tendo por cima o campanário j, e coberta com cúpula em tijolo.

Desenho de Andrea Pozzo no seu Tratado Perspectiva Pictorum et architectorum com alguns elementos que lembram a igreja dos Grilos.b760

O interior

Na Descripção o padre Rebello da Costa realça

“… hum largo, e desafogado Arco Cruzeiro da mesma pedra, (cantaria) rematado com huma soberba Cupula, que realça a belleza da Capella Mor e dos Altares collateraes em tudo correspondentes a esta grandeza…”

Foto de Blogue Notas http://vamoreira.blogspot.pt/2011/05/porto-igreja-de-s-lourenco-grilos.html

A envolvente

A Igreja e o Colégio de S. Lourenço vão provocar na sua frente a organização de um largo, o espaço mais importante e mais organizado, apesar das dificuldades topográficas, da zona correspondente à muralha românica.

O Largo do Colégio ou dos Grilos na Planta Redonda 1813Porto1813colegio

Dada a importância que o Largo assume, no início do século XIX, a Junta de Obras Públicas promove a sua organização segundo o projecto de Luiz Ignacio Barros Lima Arquitecto das Obras Públicas da Cidade do Porto entre 1801 e 1822, como se vê na Planta baixa do Terreiro do Colégio para se alinhar o lado opposto a Igreja do mesmo, na forma determinada aprovada em1815 AHMPb725b

Na legenda: A,B - Alinhamento projectado, linha que fás parallelo a Igreja do Colégio C Igreja do Colégio D Escadas que dão communicação para o  Sitio da Se ERua de S.ta

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Carlos Carneiro (1900-1971)    Largo dos Grilos 1930 aguarela 25 x 32 cm. Museu Grão Vasco Viseub744

A igreja dos Grilos e o perfil da cidade

Nas gravuras analisadas, a igreja dos Grilos é subalternizada face à presença da Catedral. No entanto com a construção do Paço Episcopal (que esconde a Sé), as torres da igreja tem uma presença marcante no perfil da cidade vista do Douro.

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MARGENS DO DOURO. PORTO. C. A. Pinto dei. Lith. de J. V. V.a Nova. Porto. 1848.

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Dordio Gomes (1890-1976) Barredo 1935 óleo sobre tela 105 x 125 cm. Centro de Arte Moderna Lisboa

No entanto a igreja dos Grilos terá uma presença marcante, a par da Sé, nas vistas do Porto de poente e do norte.b736bb736c

António Carneiro (1872-1930) Porto 1925b726

António Cruz (1907-2007) aguarela 1944

“Ouve-se um silvo distante, que arrepia a água. Não há dúvida, a noite vai cair. Uma noite antiga, de há cinquenta anos, onde ninguém poderá pressentir a desgrenhada noite dos nossos dias, ruidosa, insegura, desumana. Olhadas assim, com olhos fatigados, as aguarelas de que estivemos a falar escorrem, também elas, melancolia.”  Eugénio de Andrade, “António Cruz, O Pintor e a Cidade”, 1997

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(*) Para além das publicações que se referem no texto, a partir delas pode procurar-se uma exaustiva bibliografia, como por exemplo os trabalhos de Artur de Magalhães Basto.

CARVALHO, Teresa Pires de, GUIMARÃES, Carlos e BARROCA, Mário Jorge Bairro da Sé do Porto - Contributo para a sua caracterização histórica, CMP 1996.(apresenta uma extensa bibliografia)

FERNANDES, António Jorge Inácio A Rua dos Cónegos - um espaço socio-arquitectónico no Porto setecentista, Dissertação de Mestrado em História da Arte em Portugal apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sob orientação do Professor Doutor Joaquim Jaime B. Ferreira-Alves 2006 (apresenta uma extensa bibliografia)

FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. – O Porto na Época dos Almadas: Arquitectura. Obras Públicas. Porto: Câmara Municipal do Porto, 1988. Vol. I.eII. Dissertação de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras do Porto e do mesmo autor diversos textos publicados.

(CONTINUA)

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