Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 19 de abril de 2012

BARROQUISMOS VII (3)

Achegas sobre o Porto Barroco (continuação)

A zona da Sé

Ainda na envolvente da Catedral mas não figurando na gravura algumas construções barrocas

As Fontes

Nos séculos XVII e XVIII, assume particular importância o abastecimento de água às cidades e a criação de locais públicos para a sua distribuição. Veja-se como exemplo os aquedutos e as monumentais fontes de Roma, e em Portugal o aqueduto das Águas Livres. O padre Agostinho Rebello da Costa na sua Descripção… dá-lhes particular atenção destacando a fonte das Virtudes e a Fonte da Arca, que veremos noutros textos. Na envolvente da Sé destacam-se duas fontes: a fonte de S. Miguel e a fonte do Pelicano ou de S. Sebastião.

A Fonte de S. Miguel

Encostada à fachada norte da Sé do Porto e atribuído a Nicolau Nasoni encontra-se a Fonte de S. Miguel.

Na Planta de 1813 está indicado com o N.º 65 L.o do Chafaris junto à fachada norte da Sé.Porto1813a - Cópia cópia_thumb

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Foto Alvão

Por ser dedicado a S. Miguel, terá sido mandado construir em 1737 pelo Cabido no período da Sede Vacante, inicialmente no largo da Sé e na segunda metade do século XVIII transferido para o actual local.

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É constituído por uma taça circular tendo por trás um espaldar côncavo com pilastras nos cunhais. Ao centro um pequeno frontão com um baixo relevo representando S. Miguel com a espada matando o demónio. Deste frontão parte uma coluna que sustenta uma outra imagem de S. Miguel.b720_thumb

A fonte de S. Sebastião ou Fonte do Pelicano

Construída no século XVIII na entrada da Rua de São Sebastião(que foi a medieval rua da Sapataria), ao lado da Capela do Senhor dos Passos foi transferida em 1940 para o actual local no Largo Dr. Pedro Vitorino.

A fonte no seu antigo local, junto do Oratório do Senhor dos Paços.b734d_thumb[1]

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E a fonte numa foto de Bomfim Barreiros in Catálogo da Exposição Bomfim Barreiros Fotógrafo de Arte 2001 AHMP b734g_thumb

Levantamento da Fonte do Pelicanob734h_thumb[1]

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O enquadramento é composto por duas figuras femininas colocadas em ambos os lados da fonte,decoradas inferiormente por flores, segurando numa das mãos uma urna e a outra levantada para a cabeça na qual se apoia a arquitrave.

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Na parte superior um friso onde se vêm as armas Reais inseridas numa oval sustentada por volutas.b734q_thumbb734ib_thumb

No centro um pelicano (símbolo da Misericórdia, associado ao facto da ave arrancar do peito a sua própria carne para alimentar os filhos) com um furo precisamente no peito, do qual jorra a água, para uma taça semicircular com carrancas, suportada por duas figuras humanas que emergem de uma concha.

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José Saramago(1922-2010) no seu livro Viagem a Portugal, publicado pela 1ª vez em 1981, descreve assim a Fonte do Pelicano:

“Saindo da Sé, o viajante vai a olhar os telhados do Barredo. Desce do terreiro para ver de mais perto, para tentar adivinhar as ruas entre o pouco que sobressai das fachadas, e é quando regressa que vê uma singular fonte adossada ao muro de suporte do terreiro. Tem ao alto um pelicano em atitude de arrancar a própria carne do peito. Da bacia superior sairia a água por quatro carrancas que mal sobressaem no contorno da pedra. Essa bacia é sustentada por duas figuras de criança, de meio tronco, que irrompem de dentro do que parece uma corola floral. O viajante não tem quaisquer certezas, diz só o que vê ou julga ver, mas o que para ele é indiscutível é a expressão ameaçadora das figuras de mulher, também de meio tronco, assentes em estípites, segurando cada uma sua urna. O conjunto é uma ruína. Indo a perguntas à vizinhança, ouviu o viajante dizer que aquela é a Fonte do Pássaro, ou Passarinho, já não recorda bem. O que ninguém foi capaz de dizer-lhe é a razão do olhar colérico com que as duas mulheres de revés se desafiam, nem o que contêm aquelas urnas, nem a quem servia a água que aqui em tempos correu. No peito do pelicano há um orifício: dali manava a água. Os três filhos do pelicano, em baixo esboçados, padeciam da eterna sede. Tal como a fonte agora, toda ela, suja, maculada, sem ter quem a defenda. Se um dia o viajante torna ao Porto e vai por esta fonte e não a encontra terá grande desgosto. Dirá então que foi cometido um crime à luz do dia, sem que ao assassinado valesse a Sé, que está por cima, ou o povo do Barredo, que está por baixo. Quando no dia seguinte estiver de partida, depois de ter ido visitar essa jóia verdadeira que é a igreja de Santa Clara, com o seu portal onde o renascimento aflora, com a sua talha barroca que concilia outra vez bem-querer do viajante, com aquele seu pátio resguardado e antigo para onde dá a antiga portada do convento - quando o viajante estiver de partida, tornará a ir à Fonte de Pelicano, olhará aquelas iradas mulheres que presas á pedra se desafiam, saberá que há ali um segredo que ninguém lhe vem explicar, e é isso que leva do Porto, um duro mistério de ruas sombrias e casas cor de terra, tão fascinante tudo isto como ao anoitecer as luzes que se vão acendendo nas encostas, cidade junta com um rio que chamam Douro. José Saramago in Viagem a Portugal, 2ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1984

O Oratório do Senhor dos Passos 1745

É um dos dois oratórios que restam dos pertencentes ao Convento de S. Lourenço e por onde passava a Procissão do Senhor dos Passos na Semana Santa.

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Imagem Wilkipédia

A fachada com o seu arco quebrado é inspirada pelos desenhos do jesuíta Andrea Pozzo(1642-1709) cujo tratado Perspectiva Pictorum et architectorum de 1700 teve grande divulgação no século XVIII, sendo traduzido por José Figueiredo Seixas (?? – 1773) .pozzo4_thumb

Andrea Pozzo (1642-1709) Perspectiva Pictorum et architectorum 1700

O Aljube Eclesiástico 1749

No outro lado da rua de S. Sebastião erguia-se o Aljube Eclesiástico em casas doadas por D. Jerónimo de Távora, Deão do Cabido da Sé do Porto.

Pinho Leal (Augusto Soares de Azevedo Barbosa de 1816-1884)escreve em O Tripeiro de Dezembro de 1908: “Pequeno edifício, construído extra-muros da circumvalação, mandado fazer por D. Gonçalo Pereira, bispo do Porto, mas encostado à muralha. Está logo abaixo da Sé, no principio da rua de S. Sebastião, e do chafariz do mesmo nome. Foi construído para prisão dos clérigos delinquentes.”

O Aljube , o Oratório e a Fonte num postal de Arnaldo Soares e num postal colorido do início do século XXb751_thumb

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Postal ilustrado Porto Aljube in Passos, José Manuel da Silva O bilhete postal ilustrado e a história urbana do Porto - the illustrated postcard and the urban history of Oporto, editorial Caminho, Lisboa 1994

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José Campas, (1881 - 1971) Rua escura – Porto 1912 óleo sobre madeira 41 x 32,3 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis

A rua de D. Hugo (rua de Redemoinho em 1221)

Também chamada de Redemunho ou Riodemoinho, e ainda rua de Traz da Sé, rua Detraz da Sé, rua da Catedral e rua dos Cónegos.

Para conhecer a rua de D. Hugo e o Porto setecentista consultar a excelente e muito bem documentada dissertação de António Jorge Inácio Fernandes A Rua dos Cónegos - um espaço socio-arquitectónico no Porto setecentista, Dissertação de Mestrado em História da Arte em Portugal apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sob orientação do Professor Doutor Joaquim Jaime B. Ferreira-Alves 2006, disponível no Repositório Aberto da Universidade do Porto. A Dissertação remete ainda para uma Bibliografia muito completa sobre o Porto setecentista.

Na Planta Redonda aparece cartografada mas não legendada. Apenas com o n.º 63 a R. da S.ra das Verdades

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Planta de 1833 com a rua de D. Hugo, com a denominação de Rua de Traz da Sé AHMP (também in A Rua dos Cónegos de António Jorge I. Fernandes)b740a_thumb

Na rua de D. Hugo entre o Largo do Chafariz (n.º 65) e a Porta das Verdades, irão ser edificadas duas casas notáveis do século XVIII: a Casa Domingos Barbosa (1) e a Casa Freire de Andrade (2). Ao fundo da rua a Capela da Sr.ª das Verdades (3).

A rua de D. Hugo à esquerda a Casa Freire de Andrade (auditório de D. Hugo) e à direita a Casa Domingos Barbosa (casa Museu Guerra Junqueira), numa foto de portojo no blogue A Vida em Fotos http://portojofotos.blogspot.pt/b733_thumb

Casa Domingos Barbosa (casa-museu Guerra Junqueiro)

Mandada construir pelo Cónego Magistral da Sé Dr. Domingos Barbosa, a sua autoria tem vindo a ser atribuída a Nicolau Nasoni mas não existindo nenhuma prova documental também se coloca a possibilidade de ser um projecto do arquitecto António Pereira.1732 1735

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Na legenda Maison noble derrière la cathédrale. Rue D. Hugo. Desenho de Albert Laprade in Guia de Portugal Entre Douro e Minho I – Douro Litoral dir. Santanna Dionísio, Fundação Calouste Gulbenkian 3.ª edição1994

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A casa de 3 pisos é rematada por duas pequenas torres quadradas mas com os cantos chanfrados e com pequenas varandas. octogonais. A fachada principal simétrica está voltada a sul, para um jardim.b724b_thumb[1]

Repare-se na porta de entrada cuja bandeira se articula com a varanda do piso superior.

gj3_thumb A porta de entrada reflecte o conhecimento do autor do tratado de Andrea Pozzo.

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A casa vista de nascente e adossada à antiga muralha.b727d_thumb[1]

No interior o átrio onde uma “fachada interior”dá acesso à escada central de três lanços.

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A escada da Casa do Dr. Domingos Barbosa in Ferreira Alves, Joaquim Jaime B. A Casa Nobre no Porto na Época Moderna Lisboa Inapa 2001, reproduzida por António Jorge Inácio Fernandes A Rua dos Cónegos - um espaço socio-arquitectónico no Porto setecentista, FLUP 2006

A Casa Freire Andrade

Em frente da casa Guerra Junqueiro situa-se do outro lado da rua de D. Hugo a casa António Mateus Freire de Andrade Coutinho Bandeira (1747-1820) actualmente transformada em auditório e sala de exposições.

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Foto IHRU-Sipa

A fachada principal está voltada para a rua de D. Hugo. O portal ao centro com pilastras toscanas com um friso e cornija saliente.

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Foto IHRU-Sipa

A Porta da casa Freire Andrade parece basear-se nas portas desenhadas por Sebastiano Serlio (1475-1554) de que se mostra um exemplo. image_thumb[1]

Sebastiano Serlio, Libro Estraordinario di Sebastiano Serlio Bolognese, Nel quale se dimosterano trenta porte di opera Rustica mista con diversi ordini : & venti di opera dilicata di diverse specie con la serittura davanti, che narra il tutto.in Venetia Apresso Francesco Senese, & Zuane Ktuger Alemano Compagni M D LXVI

Ou como refere António Jorge Inácio Fernandes em A Rua dos Cónegos a “…portada da Casa dos Freire de Andrade talvez tenha sido baseada no primeiro exemplo da esquerda” nesta estampa do tratado de Hans Vredeman de Vries (1527 – c. 1607) Architectura publicado em Antuérpia em 1577, que aliás apresenta.b749_thumb[6]

Hans Vredeman de Vries Architectura Antverpiae 1577

Sobre a cornija o brasão com as armas dos Coutinhos, Pereiras, Andrades e Bandeiras, em cuja parte superior se destaca uma coroa. Uma curvatura do telhado enquadra na parte superior este brasão.

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Foto IHRU-Sipa

De cada lado do portal no andar nobre abrem-se três janelas.

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Levantamento e foto SRU Plano Estratégico do Quarteirão da rua de D. Hugo CMP

Capela de N.ª Sr.ª das Verdades

A Capela de Nª. Srª. das Verdades, ao fundo da Rua de D. Hugo, ficava localizada junto à Porta da Verdade (demolida no século XVIII) da muralha românica, datando a sua construção provavelmente de finais do século XVII - inícios do século XVIII.

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Sabemos, por uma escritura de 15 de Abril de 1697, que a casa nobre do Cónego Domingos Gonçalves Prado situava-se junto da Capela de Nª. Srª. das Verdades. Este ilustre clérigo contribuiu com esmolas significativas para as obras da capela, entre elas o retábulo, feito no início do século XVIII, onde se vê a belíssima imagem em calcário da Virgem.

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Do mesmo modo António Jorge Inácio Fernandes em A Rua dos Cónegos mostra a semelhança do desenho de Sebastiano Serlio com o portal da capela da Sr.ª das Verdades. b742_thumb

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(*) Para além das publicações que se referem no texto, a partir delas pode procurar-se uma exaustiva bibliografia, como por exemplo os trabalhos de Artur de Magalhães Basto.

CARVALHO, Teresa Pires de, GUIMARÃES, Carlos e BARROCA, Mário Jorge Bairro da Sé do Porto - Contributo para a sua caracterização histórica, CMP 1996.(apresenta uma extensa bibliografia)

FERNANDES, António Jorge Inácio A Rua dos Cónegos - um espaço socio-arquitectónico no Porto setecentista, Dissertação de Mestrado em História da Arte em Portugal apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sob orientação do Professor Doutor Joaquim Jaime B. Ferreira-Alves 2006 (apresenta uma extensa bibliografia)

FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. – O Porto na Época dos Almadas: Arquitectura. Obras Públicas. Porto: Câmara Municipal do Porto, 1988. Vol. I.eII. Dissertação de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras do Porto e do mesmo autor diversos textos publicados.

(CONTINUA)

2 comentários:

  1. Mas que fantastico post.
    Agrada-me imenso ler este seu blog, revela uma erudicao "tranquila", nada pomposa e sem grandes merdas, parabens.
    grouchomarx

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  2. Caro amigo

    Gostava de lhe enviar um e-mail do PORTO ANTIGO mas não sei como.
    Cumpts
    APS (Agostinho Paiva Sobreira)

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