Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 22 de maio de 2012

BARROQUISMOS VII (4)

Achegas sobre o Porto Barroco (continuação)
O Porto do século XVIII a partir da gravura de Teodoro de Sousa Maldonado
Voltemos com Agustina Bessa Luís à imagem do Porto de T.S. Maldonado e sintamos “… na admirável e antiquíssima gravura, uma sim­plicidade dramática, como se ela contivesse uma só forma moral, apesar dos seus imbricados mundos de classes, dos seus preconceitos, das suas confidências de vizinhança impas­sível a todas as leis, excepto à da não-semelhança com o seu próximo.” Agustina Bessa Luís A Muralha Guimarães Editores Lisboa 1957
7bE com Reinaldo dos Santos observemos o que o Porto tem de barroco já que “Ao chegar ao Porto, ainda do outro lado do Douro, sente-se que a cidade, que tão pitorescamente se desenrola na outra mar­gem, é uma cidade barroca. Barroca na forma, nos volumes e no movimento do seu casario, na forma túrgida do burgo, nos mean­dros do rio, nas perspectivas várias dos múltiplos planos. Depois, ao aproximar-mo-nos, começam a distinguir-se os monumentos e então mais se acentua o barroquismo. (…) Ao entrar na intimidade da cidade, nas igrejas, palácios e quintas, o barroco impõe-se-nos como a arte que domina o burgo nas suas expressões mais representativas.” Reinaldo dos Santos (1880-1970) Conferência na Exposição Como Alguns Artistas Viram o Porto 1951 CMP
A cidade ribeirinha
Se a transformação da zona da cidade alta, em torno da Sé corresponde à influencia que a Igreja tem na primeira metade do século XVIII, a afirmação da cidade baixa e ribeirinha corresponde ao grande desenvolvimento do comercio (sobretudo com o Tratado de Methwen 1703), com o consequente aumento da navegação e das actividades portuárias.7b0
Ao longo do século XVIII, unindo estas duas zonas, sempre se realizou a procissão de Corpus Chisti, iniciada na Idade Média. Esta, segundo a “Vereação de 14 d'Abril de 1730, e decizão acerca da procissão de Corpus Christi”, e confirmada pela “Vereação de 12 de Junho de 1773, e regulamento para a procissão de Corpus Christi”, que determina a quem compete a cobertura com toldos e outros ornamentos o percurso da procissão, (um costume que termina com a revolução liberal), refere o seu percurso que saindo da Sé percorre toda a cidade ribeirinha."O Senado da camará armará por sua conta desde a porta da Sé até ao Arco da Vandoma. Os padei­ros, e os que com elles concorrem, desde a Vando­ma até á rua de Sant’Anna. Cerieiros, selleiros, cutileiros, violeiros, sombreireiros, ferradores, esteireiros, espadeiros, fuzeiros, desde Sant’Anna até á boca da Fonte Taurina. Ferreiros e serralheiros, desde a Fonte Tauri­na até ao Terreiro. Confeiteiros, pasteleiros, torneiros, sirgueiros, botoeiros, mercadores de seda e retroz, tecelães e torcedores, desde o Terreiro até S. Nicolau. Regateiras, e o que com ellas concorrem, des­de S. Nicolau até ás Congostas, e comporão a ribei­ra e chafariz. Os sapateiros e mercadores de sola, desde a Rua Nova até S. Domingos.Os mercadores de pannos e tendeiros de mer­cadorias de pezo, desde S. Domingos até á igreja de S. Bento das Freiras. Os alfaiates, tecelães, torcedeiras, calceteiros ou palmilheiros, desde S. Bento das Freiras até á rua Chá. Os ourives d'ouro e prata, desde a rua Chá até fechar no Arco da Vandoma.” in Apontamentos para a História da Cidade do Porto - Juntos e Coordenados por J.M. P. Pinto Porto Typographia Commercial Bellomonte 1869.
O percurso da Procissão do Corpus Christi nos anos 70 do século XVIII, na planta Redonda de 1813. De notar que na data ainda não se encontrava aberta a rua Nova de S. João e não estava regularizada a praça da Ribeira.7b39
A cidade baixa na gravura de Teodoro de Sousa Maldonado
Observemos a cidade baixa e ribeirinha, como se apresenta na gravura de Teodoro de Sousa Maldonado, gravura realizada no último quartel do século XVIII. A cidade ribeirinha dentro da muralha estende-se “…entre estes dous Montes” ,do Olival e da Sé , onde “medea huma dilatada planice, que se divide em tres Valles sobranceiros huns aos outros” (*). Assim a zona ribeirinha apresenta-se na gravura em três planos, correspondentes à estrutura dos espaços públicos (ruas, largos, praças) e tendo significativamente ao centro o convento de S. Domingos, no enfiamento da Torre dos Clérigos e da porta da Lingueta.
7b0b
1 – Um primeiro plano que “abrange a Ribeira, Fonte Taurina, e toda a Revoleirra, até a Porta Nova” (*) corresponde ao rio Douro (n.º 51) “… cujas águas verdes da Primavera reflectem o crescente da sombra dos rabelos de velas enfunadas” e  à muralha (n.º 50) “… com a cintura rodeada de nevoeiros, generosa e tímida, com a sua coroa provinciana e a luva suja na mão descalça…” (**) e que discorre ao Meio dia, quasi em linha recta pela margem do Rio Douro; e depois de formar huma varanda espaçosa de dous mil pés de comprimento, faceada de bellissimos Edificios, e disposta em forma, que serve de agradavel passeio Publico, chega aos Guindais…”. (*)
(Nota sobre a navegação no Douro ver neste blogue Os Transportes Marítimos e Fluviais 3 de 28/04/ 2010)7ba
Nela estão assinaladas “as maiores Portas, e as de maior concurso” (*): a Porta Nova, a Porta dos Banhos, a Porta da Lingueta (n.º27), a Porta do Peixe e a Porta da Ribeira “que faceaõ com o Rio”. Desde o fortim e a Porta Nova (n.º 6) até à Praça Nova da Ribeira (n.º 35), estão assinalados o Pelourinho (n.º 39) e o Patíbulo (n.º40) e sobre o muro o Hospital dos Ingleses (n.º 8), à esquerda e a capela da Senhora do Ó (n.º36) à direita.
(*) Agostinho Rebello da Costa Descripção Topographica e Histórica da Cidade do Porto 1789
(**) Agustina Bessa Luís A Muralha Guimarães Editores Lisboa 1957
2 – Um segundo plano continua por toda a Rua Nova de S. Nicolao (*). 7bbOu seja correspondente à ampla rua, inicialmente rua Nova, no século XVIII de S. Nicolau, depois dos Ingleses e actualmente do Infante D. Henrique, que aberta por D. João I, ainda constitui nesta época, a principal rua (quase uma praça) da cidade tendo “ao oriente , o burgo do bispo, edificado pelo pendor do monte da sé…” (***) e onde estão assinalados: o convento e a O.T. de S. Francisco (n.os 13  e 14), a igreja de S. Nicolau (n.º18), a Alfândega (n.º 28) e a Casa Antiga da Moeda (n.º22).
(***) Alexandre Herculano Historia de Portugal, livraria Aillaud & Bertrand, Lisboa s. d.
3 – Um terceiro plano dilata-se desde o Convento de S. Bento das Freiras até S. Domingos” (*).7bc Ou seja corresponde ao percurso entre a Porta de Carros e o Largo de S. Domingos pela manuelina rua das Flores,ao longo do vale do rio de Vila, prolongado pela rua de Belmonte até ao Largo de S. João Novo. Estas ruas, que se vão edificando, atribuem um papel de charneira ao Largo de S. Domingos. Neste percurso está assinalado o convento de S. João Novo (n.º10), o convento e O.T. de S. Domingos (n.os 19 e 23) e ligados à assistência, a Misericórdia (n.º 26) e o Hospital de S. Crispim (n.º 30).7b0a cópia
No sentido norte-sul, entre o rio Douro e o Largo de S. Domingos, a praça Nova da Ribeira prolonga-se pela rua Nova de S. João dando acesso ao Largo de S. Domingos, mas como o projecto não é totalmente realizado, o trânsito faz-se ainda através das estreitas ruas dos Mercadores e das Congostas.
Finalmente estão outros espaços públicos como a Praça de S. Roque ou edifícios como a Feitoria Inglesa, (então em projecto ou em construção e situados na zona da cidade baixa), que embora não desenhados ou numerados são referidos por Agostinho Rebello da Costa na sua Descripção Topographica e Historica da Cidade do Porto.
1 – O primeiro plano - A zona junto ao rio Douro (n.º 51) e ao pano sul da muralha (n.º 50)
Com o N.º 6 o Forte da Porta Nova
7bd
A Porta ou Postigo da Praia, ou de Miragaia foi totalmente renovada no tempo de D. Manuel I, quando a chegada ao Porto se fazia preferencialmente por via marítima e fluvial, tornando-a a principal porta da cidade, passando a ser conhecida por Porta Nova. Mas porque por ela entravam os nobres e as personalidades que visitavam a cidade também foi conhecida por Porta Nobre.
A muralha no sítio chamado a Porta Nova (…) faz um Angulo em modo de Plata Forma, que olha para o poente, e no qual está sempre hum Presidio de Soldados…” (*)
Este baluarte redondo que protegia a Porta Nova, o Forte, também foi mandado construir por D. Manuel I.
A Porta e o baluarte só foram destruídos (em parte soterrados) com a construção da nova Alfândega e a abertura da Rua Nova da Alfândega entre os anos 60 e 70 do século XIX.
7b49
Detalhe do Plano e perfil da Rua, que se projecta rasgar desde a Rua dos Ingleses até à Porta Nobre, por Joaquim da J. Costa Lima Júnior 1856 AHMP
7b41Detalhe de fotografia de Alvão  c. 1861 AHMP, mostrando a Porta Nova a ser demolida.
Com o N.º 8 Hospital dos Inglezes e com o N.º 9 a Porta de Banhos
Marcado na gravura com o n.º 8, Agostinho Rebello da Costa refere contudo, que está  preste a ser transferido: o  Hospital dos “Inglezes em cima do Muro, que dizem se transfere para o sitio em que está o grandioso Cemiterio dos Lutheranos, Calvinistas, e Protestantes”.(*)
7be
Na gravura de Duncalf seria o edifício junto à reentrância da Porta de Banhos.
7be1
Também chamado por Hospital dos Marinheiros Ingleses, já que como indica Júlio Couto no "Guia de Miragaia”, foi “…fundado em casas e terrenos de José Maria Rebelo Valente, tinha farmácia privativa, claro que dirigida por um farmacêutico inglês, e era dedicado exclusivamente aos súbditos de Sua Majestade Britânica. Só que a colónia inglesa aqui residente tinha sólidos meios de fortuna. Dai que o Hospital só servia ocasionalmente algum marinheiro inglês que viesse doente em barco por cá arribado ou que por cá adoecesse. Um remansoso local, com óptimas vistas sobre o Douro e Gaia, não dava para manter muito tempo os doen­tes.”
Também Pedro Vilas Boas Tavares a propósito do médico Manuel Gomes de Lima Bezerra (1727- 1806) refere que “depois de curta passagem pelo Hospital de Todos-os-Santos, de Lisboa, veio para o Porto, e aqui enriqueceu a sua competência cirúrgica, tendo como mestres Nicols e Werton, dois conceituados cirurgiões do hospital inglês da cidade.” Pedro Vilas Boas Tavares, Península. Revista de Estudos Ibéricos, n.º 5, 2008
Na gravura de Manoel marques d’ Aguillar o Hospital dos Inglezes está marcado com o n.º 77b47b cópiaDetalhe da gravura de Manoel Marques d’Aguillar Vista da Cidade do Porto, desde a Torre da Marca athe as Fontainhas, tomada da parte de Filia Nova do sitio chamado Choupello. Dedicada Ao Ulmo. e Exmo. Senhor JOZE DE SE ABRA DA SILVA, Ministro e Secretario de Estado de Sua MAGESTADE FIDELÍSSIMA da Repartição dos Negócios do Reyno. Por Manoel Marques de Aguilar, Alumno das Aulas Regias, Náutica, e Dezenho, estabelecidas na dita Cidade. Aguilar Delin e Esculp no Anno de 1791 e da por Completos os Edifícios dos Números seguintes No. 11. 28. 29. 34:
O hospital terá sido transferido para Monchique e o edifício foi demolido na abertura da rua Nova da Alfândega.7b40 cópia
Com o N.º 36 “Senhora do Ó sobre a porta da Ribeira”
7b00aColocada no cimo do Muro do lado nascente da Praça da Ribeira, segundo Jaime Ferreira Alves em O Porto na Época dos Almadas, destinava-se a missas ao ar livre e cita  Fr. Agostinho de Santa Maria, que diz que da tribuna que dá para a Praça da Ribeira, “muytas vezes o povo ouve Missa, (que são muytas, as que todos os dias se celebrão naquella Casa, & alli se diz também Missa aos que vão padecer pela justiça, & a pagar os seus delitos)”(****), lembrando a proximidade do Patíbulo situado no cais da Ribeira.
(****) Fr. Agostinho de Santa Maria - Santuário Mariano, tomo V, Lisboa, Na Offícina de António Pedrozo Galram, 1716.
A capela de Nossa Senhora do Ó, aparece representada na gravura de Manoel Marques d’Aguillar, de 1791.7b46Detalhe da gravura de Manoel Marques d’Aguillar  Vista da Cidade do Porto…

No entanto é na estampa de Henry Smith de 1809 que se pode ter uma ideia mais precisa da capela de Nossa Senhora do Ó sobre o muro da Ribeira.7b18b
7b18Henry Smith OPORTO, WITH THE BRIDGE OF BOATS. To the most Noble the Marquis Wellesley K. G. &c &c &c. This view of Oporto, upon its evacuation by Marshal Soult, before Marquis Wellington, in the campaign of 1809. Is, with permission, respectfully dedicated by his Lordship's most obedient humble servant, Robert Daubeny King, late Lieu.t Royal Fusilers. Henry Smith Esq. dei. M. Dubourg sculpt. London: Sold July 1. 1813, by Edwd. Orme. Bond St.t comer of Brook Str.t.
Com a demolição em 1821 da capela quando se reorganizou a Praça da Ribeira a antiquíssima imagem da Senhora do Ó foi transferida para a capela do Largo do Terreiro.
A capela da Sr.ª da “Piedade no Terreiro da Alfândega”
Dedicada a Nossa Senhora da Piedade pelas gentes ribeirinhas e pelos marinheiros, foi conhecida como capela da Piedade do Terreiro, da Piedade do Cais ou simplesmente, da Senhora do Cais. Com a demolição da capela da Senhora do Ó e a transferência da sua imagem, esta capela assumiu então o nome da Capela da Senhora do Ó, como é ainda conhecida.
7b14
No interior existe um retábulo cuja obra de talha foi arrematada por João da Costa em 6 de Julho de 1712, e junto ao qual se encontra a imagem da Senhora do Ó.7b45b   7b45c
Detalhes de uma foto do IHRU, mostrando a parte inferior do retábulo e a escultura da Nossa Sr.ª do Ó.
Com o n.o 39 o Pelourinho e com o n.º 40 o Patíbulo7b00j”No anno de 1714, a 11 d’agosto, se tomou assento na Relação do Porto para se mudar a forca do sitio chamado Mija-velhas, e arvorar-se no caes da Ribeira. Em 14 de junho de 1725 se tomou assento ácerca das ruas por onde haviam de transitar os padecentes; redusiram-se as ruas mais breves e direitas á Ribeira.” Camillo Castello-Branco Mosaico e Sylva de Curiosidades Historicas Litterarias e Biographicas Porto Anselmo de Moraes – Editor Rua do Almada 1868
Arnaldo Gama (1828-1869) no seu romance histórico publicado em 1861, Um Motim há Cem Anos, cuja narrativa descreve a revolta dos taberneiros em 1757 contra a Companhia das Vinhas do Alto Douro que provocou a vinda nesse ano para o Porto de João de Almada, refere a rua de S. João e a praça da Ribeira, e ainda (provavelmente baseado na gravura de Maldonado), o pelourinho e a forca: “N’este espaço haviam diferentes portas e postigos, os quaes eram portas de importância mais somenos. Junto d’uma d’estas portas, a da Ribeira, estavam d’um lado a forca e do outro o pelourinho da cidade, terríveis insígnias da idade média, permanentemente de pé em todas as terras importantes.” (Arnaldo Gama Um Motim há Cem annos – Chonica Portuense do Seculo XVIII, Porto Typographia do Commercio Ferraria de Baixo n.º 108, 1861).
O Pelourinho e o Patíbulo na gravura de Marques d’ Aguillar de 1791.7b47
Também numa pintura existente na igreja de S. José das Taipas, cujo tema é o desastre da Ponta das Barcas, mostra junto ao muro o Pelourinho e o Patíbulo.

7b00j1
A população do Porto fugindo do exército de Soult em 1809
Pintura existente na igreja de S. José das Taipas
7b00j2

“A cidade do Porto teve forca e pelourinho permanentes. A forca esteve em diversos locaes. Anteriormente a 1714 esteve no sítio chamado Mijavelhas (depois Poço das Patas). Em vereação de 11 de Agosto de 1714, foi mudada para o caes da Ribeira, e ahi permaneceu approximadamente até 1825, sendo então transferida para o Campo da Cordoaria, a ins­tâncias de uma mulher rica, moradora na mesma Ribeira, por nome Antónia do Coutinho. Enquamto esteve na Ribeira, era permanente, formada por grossos varões de ferro, com uma escada de pao, por onde subiam o paciente e o algoz. Erguia-se em frente de um dos primeiros arcos dos muros da Ribeira, indo da Rua de S. João para a ponte pênsil, à direita da rua que conduz à ponte. Antes da construção dos arcos actuaes, havia nos velhos muros em frente da forca um postigo, que tomou d’ella o nome de postigo da forca. Ainda hoje se conserva n’aquelle muro, precisamente defronte do local onde esteve a forca, um painel com a imagem de Nossa Senhora da Misericórdia, pintado a óleo, coberto por uma espécie de docel de madeira, tendo pendente d’este um lampeão que os devotos da vizinhança costumam conser­var aceso durante a noite. A forca, depois da sua transfe­rência para o campo da Cordoaria, era volante e formada de madeira. Armava-se para as execuções, e logo se desarmava. Erguia-se ordinariamente na extremidade sul do dito campo, junto de uns casebres contíguos à cadeia. Ficava ainda um pouco ao sul da rua que hoje alli se vê e que vai para a Rua do Calvário. Para execuções políticas se ergueu na Praça Nova.»  Sampaio Bruno (1857-1915) Portuenses Ilustres Vol. IIcap. XI Pedro Ivo-Júlio Diniz nota  de rodapé, Livraria Magalhães & Moniz 11-14, Largo dos Loyos Porto 1907
As intervenções almadinas nos finais do século XVIII
Agostinho Rebello da Costa na sua Descripção… e Teodoro de Sousa Maldonado na gravura que a acompanha, introduzem algumas referências a intervenções realizadas ou em realização a partir do último terço do século, e que pertencem já a outro ciclo, o da cidade iluminista. Esta é fruto da acção de João de Almada e Mello (1703-1786), da criação da Junta de Obras Públicas, (segundo Jaime Ferreira Alves, activa a partir de 1763) e , dos financiamentos possíveis através da Companhia das Vinhas do Alto Douro (*****). De referir ainda, a influência da colónia inglesa no Porto, na qual se destaca a figura do cônsul inglês entre 1756 e 1802, John Whitehead (1726-1802).
(*****)Rebello da Costa refere a “Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro, que é sem exageração, a base principal do comércio desta cidade, um dos maiores e mais fecundos ramos que o promove, e a grande alma que o anima, assim como na indústria como nos interesses gerais.”
Assim destas intervenções da segunda metade do século XVIII na zona da Ribeira, aparecem assinaladas na gravura de Maldonado: (1) não legendada, mas esboçada a Rua Nova de S. João; (2) na legenda com o n.º 35 a Praça Nova da Ribeira; (3) a praça e a Capela de S. Roque que, embora não sejam visíveis na gravura, são descritas por Rebello da Costa; (4) a Feitoria Inglesa, também pormenorizadamente descrita por Rebello da Costa.
Estas e outras grandes transformações da cidade, devidas à acção dos Almadas são sintetizadas num soneto de Paulino António Cabral (1719 - 1789), o conhecido abade de Jazente:
Dos teus, ó Porto, antigos Orizontes/Apenas se descobrem os indícios;/Porque até dos penhascos nos resquícios/Se extendem ruas, se sustentaõ pontes.
Novos Caes, novas Praças, novas Fôntes,/Torres, Templos, Palácios, Frontespícios/Te daõ tanta extensaõ, que os precipícios/Já saõ Cidade, e deixaõ de ser môntes.
Cada vez cresces mais: Oh sempre claro/Te assista o Céo, e tenha decretada/Duraçaõ, que resista ao tempo aváro.
E serás imortal, se mensurada/A vires pelo nome do Precláro/Teu fundador segundo, o Illustre Almada.
in "Poesias de Paulino Cabral de Vasconcellos, abbade de Jazente" Porto Na Officina de Antonio Alvarez Ribeiro Anno de 1786
Com o n.º 35 a Praça Nova da Ribeira e a Rua Nova de S. João
7b00b
A Praça da Ribeira e a rua de S. João conservavam ainda nos meados do século XVIII a estrutura medieval, com a praça fechada do lado do rio pela muralha e ligando com a parte alta da cidade pela rua dos Mercadores.
7b00k
Detalhe do desenho in José Ferrão Afonso, A construção de um novo centro cívico: Notas para a História da Rua Nova e da zona ribeirinha do Porto no século XV, Museu, IV série, nº 9, 2000.
7b00iMaquete do Porto Medieval do AHMP
1) A rua de S.João
7b00b
Em 1761 a Vereação considera que  “…he de todos bem notório o que he impróprio a rua das Quingostas para dar passagem livre no tempo prezente ao grande numero de habitantes que hoje se contão na cidade que fas crecer o seu trafico e commercio. O mayor numero de carruagens e de passageiros que muitas vezes como se observa impede huns e outros a passagem na dita rua por ser tão estreita como se vê e não haver outra própria que de serventia commua a cidade pelo o que se faz precizo ou alargar a dita rua ou fazer outra de novo pela parte que parecer cómoda para a passagem” (AHMP Livro de Vereações n.º 84).
Por isso, numa exposição ou “Conta” a D. José I é requerida a necessária autorização para a abertura de uma rua que unisse o largo de S. Domingos à praça da Ribeira, “…pelos detrimentos que padece a servidam publica pela estreita e tortuoza area da rua das Congostas huma das de maior trafego do comercio, e pela falta de huma nova prasa para a vendagem do peixe e outros comestiveis que actualmente se vendem e amontoão no pequeno largo de S. Domingos”
Jaime Ferreira Alves escreve em O Porto na Época dos Almadas: “Na reunião da Junta das Obras Públicas de 6 de Março de 1765 foi determinado que “se fizesse a nova rua sobre o rio da Villa” desde S. Crispim até à praça da Ribeira, como tinha sido pedido a D. José I, em 21 de Janeiro de 1763, e pelo monarca dada a indispensável autorização por ser considerada “obra tam util ao comercio e fermozura da cidade.””
Em 1765 - inicia-se a compra de casas e terrenos para a abertura da R. de S. João e em 1788, compram-se as últimas casas para demolir, "citas a Crus do Souto", sendo determinada a sua abertura pela Junta das Obras Publicas
E Tomaz Modessan elogia a obra feita escrevendo: "...a rua nova de S. João, que, sendo o seu rompimento em sítio de insu­peráveis despesas, não só fez por sua vontade dar um novo lus­tre à cidade na soberba ordem dos seus edifícios, mas destruiu as dificuldades que todos os dias havia nas passagens contí­nuas, e tráficos, tanto da ribeira geral, como da Alfândega, com notável prejuízo e incómodos povos; devendo-se ajuntar a esta magnífica obra não só a nova Praça, e a porta que lhe corres­ponde no dividimento do rio, mas a espaçosa Praça em que vem sair a S. Domingos, para cujo efeito foram consideráveis as des­pesas na demolição de antigos edifícios, e sem a qual ficaria in­completo o fim daquela utilíssima rua.” citado por Bernardo Ferrão in Projecto e Transformação Urbana do Porto Na Época dos Almadas 1758/1813 ed. FAUP 1985
Arnaldo Gama (1828-1869) no seu romance histórico publicado em 1861, Um Motim há Cem Anos, escreve: As duas ultimas portas, Ribeira e Postigo do Peixe, muito próximas uma da outra, desappareceram, quando se derribou a muralha para desafogar a rua Nova de S. João, que se começou a abrir em 1756, e que, n’este anno de 1757 estava ainda em contrucção.” (Arnaldo Gama Um Motim há Cem annos – Chonica Portuense do Seculo XVIII, Porto Typographia do Commercio Ferraria de Baixo n.º 108, 1861).
A rua de S. João, que implicou o encanamento do rio de Vila, é projectada com um traçado em linha recta com um perfil amplo e  ladeada por uma arquitectura com fachadas de conjunto, como se tratasse de apenas um edifício dividido em vários corpos, cada um encimado por um frontão. Na gravura de Maldonado está representado o alçado virado a poente.
7b00dDesenho de alçado da rua de S. João AHMP
O Largo de S. Domingos seria sujeito a uma reordenação de 1774, segundo um projecto de John Whitehead, adquirindo uma forma de triângulo. A rua Nova de S. João criaria um longo enfiamento que valorizaria a fachada da igreja da Misericórdia, como mostra o desenho de Joaquim Villanova. No entanto este projecto nunca foi realizado.vila0097Joaquim Villanova Ruas de S. João e dos Mercadores7b48Teodoro de Sousa Maldonado Planta da abertura da rua de S. João s.d. AHMP
7b00c7b00c cópia
Na Legenda: Explicação
As letras A.B.C.D. na Planta mostraõ huma pequena Praça publica, Projectada, por baixo de S. Domingos. A.D.I.G. mostraõ outra Planta de huma Praça projectada triangularm.te, e de mayor tamanho, em que se inclue a direçaõ da Rua S. Joaõ athe a exquina da Igreja da Misericordia terminada pela letra K. Na mesma Planta: he afin de effectuar a Execuçaõ d’este ultimo projecto he preciso cortar as Cazas incluidas nos tres triangulos = D.C.I.=G.H.L.= e A.E.F. na Planta; ou Excolher a pequena Praça debaicho de S. Domingos. Foy projectado em 1774. Pelo consul d’Inglaterra.
2) A Praça da Ribeira
No texto, Agostinho Rebello da Costa descreve uma ante visão de um dos projectos para a Praça da Ribeira:
“Segue-se neste genero de obras a extensa Varanda sobre o Muro da Ribeira, e do qual goza-se no mesmo tempo vista do Rio, e de innumeraveis embarcaçoens, que nella surgem, depois do prazer, que recebem os olhos com o prospecto de huma formosa Praça rodeada por três lados de huma soberba Arcada de cantaria, que serve de pedestal aos sucessivos Palacios, que se dilataõ até o principio da Rua Nova de S. João.”
A descrição de Rebello da Costa é feita sobre o projecto apenas parcialmente realizado, de John Whitehead. Vários outros projectos houve para a Praça da Ribeira como o de Francisco Pinheiro da Cunha e o de Reynaldo Oudinot.7b00gAnónimo (Francisco Pinheiro da Cunha ?) Fachada não realizada do lado ocidental da Praça da Ribeira.7b00e7b00f Reinaldo Oudinot (1747 -1807) Projecto para a Praça da Ribeira 1797
Entre 1778 e 1784 é reconstruída a porta da Ribeira segundo o projecto de John Whitehead
7b00h
John Whitehead Projecto para a Porta da Ribeira
A fonte da Praça da Ribeira
No lado norte da praça da Ribeira foi deliberado construir uma fonte monumental que rematasse a empena do edifício de três pisos, entre as ruas de S. João e dos Mercadores. Tem um escudo das Armas de Portuga e ficou concluida em 1786.
7b00b
vila0097Joaquim Villanova Ruas de S. João e dos Mercadores

(CONTINUA)

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