Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 7 de julho de 2012

BARROQUISMOS VII (5)

Achegas sobre o Porto Barroco (continuação)
…Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização…  

Chico Buarque Futuros Amantes 1994

O Porto do século XVIII a partir da gravura de Teodoro de Sousa Maldonado7b0a cópia

2 – Um segundo plano continua por toda a Rua Nova de S. Nicolao
7bb

A rua de S. Nicolau
Inicialmente tinha o nome de Rua Formosa, mas em 1418 aparece nos documentos com o nome de Rua Nova. Criada por D. João I, que determina o seu desenho, é a primeira intervenção urbanística, o primeiro gesto urbano moderno na cidade do Porto. A partir de 1794 passa a chamar-se Rua Nova dos Ingleses e, depois, somente Rua dos Ingleses. Finalmente em 1890, passa a chamar-se rua do Infante D. Henrique, simultaneamente por reação ao Ultimato Inglês, e para celebrar o centenário do Infante D. Henrique (1894) que por tradição teria aqui nascido nos Armazéns Reais (Casa do Infante).

Agostinho Rebello da Costa refere que a rua de S. Nicolau“…foi aberta por EL«Rey D. Joaõ I., que lhe chamava a sua Rua Formosa; e sem duvida ella he notavel pela grande largura que tem…”

A rua de S. Nicolau define com o eixo Belmonte/Flores, e posteriormente com a Rua de S. João, a estrutura viária fundamental da cidade muralhada. Pelo seu traçado e dimensões a rua de S. Nicolau é desde a idade média até ao início do século XIX, uma rua (quase uma praça) central da cidade.

Firmino Pereira no seu Porto d’outros Tempos disso dá conta “E tam arejada, larga e asseiada era a airosa rua a que D. João I chamara a sua "rua fermosa…que D. Afonso V, em hora de requintada amabilidade, galantemente a comparou á sala nobre dum palácio magnifico, como se lê na Geografia do douto padre João de Barros.”

A rua, paralela ao Douro, estendia-se desde o Convento de S. Francisco até à rua dos Mercadores, passando pelo rio de Vila, limite do Termo do Bispo. Nos tempos medievais, nela se situavam para além do referido convento, a Igreja de S. Nicolau, os Armazéns Reais e a Casa da Moeda (depois Alfândega), para além de diversas casas senhoriais. 7b13
1 Convento de S. Francisco 2 rua Nova 3 Chafariz e boticas 4 botica das judias 5 rua das Cangostas 6 Casa do Arco Grande 7 Viela e Rossio do Forno Real 8 Torre de Estevão Lourenço 9 Torre de João Martins Ferreira 10 rua dos Mercadores 11 Casa de Fernão Luis 12 Casa dos Caminhas 13 Torre estalagem de Diogo Bustamante 14 praça da Ribeira 15 casa da Moeda 16 Alfândega 17 Casa dos Contos 18 Rossio do Cais 19 Paço dos Tabeliães e Casa de Ver-do-Peso 20 Casa de Rui Pereira (queimada) 21 igreja de S. Nicolau 22 rua da Reboleira 23 Torre de Álvaro Gonçalves da Maia 24 postigo de Álvaro Gonçalves
in José Ferrão Afonso, A construção de um novo centro cívico: Notas para a História da Rua Nova e da zona ribeirinha do Porto no século XV, Museu, IV série, nº 9, 2000.

No final do século XVIII, na esquina da R. Nova dos Inglezes com a R. Nova de S. Juao aí se instalará a Feitoria Inglesa. (ver mais a diante). 7b00

A rua vista a partir da Igreja de S. Francisco no início do século XIX, numa gravura de J. Holland. De notar a capela dos Passos hoje integrada no muro da igreja.7b5d
J. Holland, gravado por  J. Carter, 1838.

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Lancelot / Huyot, Rua Nova dos Ingleses (rue Neuve-des-Anglais) à Porto «Le Tour du Monde», 2, 1861, p. 293 “d'après une photographie”

7b17a 
Barão de Forrester rua dos Ingleses gravura 1834
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Joseph James Forrester (1809-1861) Barão de Forrester rua dos Ingleses fotografia c. 1840

Em 1940 a rua do Infante D. Henrique apresentava este aspecto7b44a

O conjunto do Convento e Igreja de S. Francisco, da Casa do Despacho e Igreja da Ordem Terceira de S. Francisco

Na gravura de T. S. Maldonado com o N.º 14 Franciscanos e com o N.º 13 Terceiros Franciscanos7b5

Agostinho Rebello da Costa escreve:Convento de S. Francisco de Religiosos Observantes, fundado em mil e duzentos e quarenta e hum, fora dos Muros da Cidade, e transferido por ElRey D. Joaõ I. no anno de mil e quatrocentos e vinte e cinco para o sitio em que presentemente existe. Para a sua primeira fundação concorreu muito S. Gualter discípulo do Santo Patriarcha. (…) O Convento he reedificado de novo, com hum magnifico e extenso Claustro em quadra, rodeado de elevados arcos de esquadria, e no meio hum grande Chafariz, que lança perenes chorros d’agoa, publica e patente a todos os que quiserem aproveitar-se della. … Ao lado da parte do Poente está a Capella, Caza, e Officina da sua Ordem Terceira.”

Os Franciscanos no Porto

S. Francisco em 1216 envia frei Gualter e frei Zacarias ao nosso país dizendo: “Filhos eu vos tenho destinados pera pregardes no rei de Portugal. Aveis de ir dous em dous, em nome do Altíssimo Senhor, o qual vos guarde e ajude no caminho.” Fundam então os conventos de Coimbra, Lisboa e Guimarães, e em 1224 Évora. No Porto, o convento de S. Francisco com o vizinho convento de S. Domingos, que abordaremos mais adiante, correspondem a uma verdadeira “revolução” social e urbana. O Burgo estava nas mãos da Igreja e da sua hierarquia de que o Bispo era a figura principal.

Por isso, não estando provado, como afirma Agostinho Rebello da Costa, que o convento do Porto tenha sido fundado por frei Gualter, sabe-se que em 1233 (sete anos após a morte de S. Francisco) tendo sido cedido aos frades franciscanos um terreno para construção do convento no sítio da Redondela, inicia-se uma disputa com o Bispo, na altura D. Marinho Rodrigues (1191-1235)  e que continua com o seu sucessor D. Pedro Salvadores (bispo 1235 -1247), que mandam embargar as obras, sob o pretexto de que o limite poente do couto doado por D. Tareja era o Rio Frio e não o Rio de Vila. Os frades face à intransigência do Cabido, pediram auxílio ao Rei D. Sancho II e refugiaram-se em barcos fundeados no Douro. Os franciscanos, vendo-se em dificuldades, apelaram para o papa Gregório IX que mandou várias cartas tentando demover o bispo. O papa Gregório IX, nascido Ugolino di Anagni (ca.1160-1241, papa desde 1227) enviou uma carta ao Bispo do Porto ameaçando-o com a destituição do cargo, e remeteu ao Arcebispo de Braga uma bula em que o autorizava a benzer a primeira pedra do mosteiro.

Só em 1244 o papa Inocêncio IV nascido Sinibaldo Fieschi (Papa de 1243 a 1254), põe termo à disputa e em 1245 inicia-se a construção do convento. D. Afonso III, (1210-1279) que em 1248 substituiu o irmão D. Sancho II, interessado na afirmação do poder real face ao poder do bispo do Porto, apoiou o convento nessa luta e mesmo incluindo-o no seu testamento.

A importância do convento foi crescendo e foi nele que em 1385, o Mestre de Aviz foi recebido no Porto.
No século XVIII, como aponta Rebello da Costa o convento é reconstruído entre 1771 e 1778.

Este quadro que representa o interior de um convento franciscano, e onde se vê o claustro em segundo plano, poderá ser o convento de S. Francisco no Porto no início do século XIX. De facto Joaquim Rodrigues Braga para além de ser portuense foi professor da Academia Portuense de Belas Artes.
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Joaquim Rodrigues Braga (1793-1853) Claustro do Convento de S. Francisco  1825 óleo sobre tela 49,5 x 39,5 cm.Palácio Nacional de Sintra Proveniente do Palácio Nacional de Queluz

No entanto em 1810 serve de hospital militar e de quartel. No final do cerco do Porto, destruído por um incêndio, é doado em 1834 à Associação Comercial do Porto para aí edificar o Palácio da Bolsa.

O convento com a sua cerca na Planta Redonda de 18137b00a

A igreja do convento de S. Franciscovila0054
Joaquim Villanova   Egreja de S. Francisco 1833

A igreja, que resta do conjunto conventual, só principiou a ser edificada em 1383, no último ano do reinado de D. Fernando (1345-1383, rei desde 1367) tendo sido concluída cerca de 1410. A igreja sofreu várias obras ao longo dos tempos, sendo a actual datada de 1792. Mantém contudo uma estrutura gótica.
7b5a 7b5c

A fachada poente conserva a rosácea gótica, mas apresenta um portal dos séculos XVII e XVIII  “… de verga recta entre duplas colunas salomónicas sobre soco, suportando entablamento…” sobre o qual “…entre colunelos salomónicos e pilastras, almofadas em losango, nicho central com imagem; remato-o frontão ondulado interrompido. ” IHRUsf105

“Na fachada meridional rasgam-se janelas trilobadas, da época manuelina, bem como um portal gótico primário de três arquivoltas ogivadas e ornadas com esferas e arcos de ferra­dura. Cachorros ou modilhões goivados su­portam a cornija. Nas empenas figuram cru­zes de tradição românica.” (in J.A. Ferreira de Almeida coord. Tesouros Artísticos de Portugal Selecções do Reader’s Digest Lisboa 1976)

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O portal sul antes e depois da recuperação da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, vendo-se ao lado a antiga Capela da Porciúncula (ver mais adiante).
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fotos SIPA/IHRU

No lado nascente conserva-se a cabeceira onde “Gigantes reforçam o transepto, a abside e as absidíolas, em cujas paredes se rasgam altas janelas de arcos ogivados.” (in J.A. Ferreira de Almeida coord. Tesouros Artísticos de Portugal Selecções do Reader’s Digest Lisboa 1976)

Na gravura de James Holland, vê-se a cabeceira da igreja de S. Francisco, o convento, e a abertura da rua Ferreira Borges. Ao fundo a igreja da Vitória.

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James Holland (1799-1870) Church of St Francisco, Oporto   in "The tourist in Portugal" by W. H. Harrison, London Robert Jennings, 62 Cheapside 1839

A cabeceira no século XIX com o Palácio da Bolsa.7b79
Mário Novais, 1899-1967. Cabeceira e braço do transepto. Orientador científico: Mário Tavares Chicó, 1905-1966. Data aproximada da produção da fotografia original: 1954. Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian

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A cabeceira da igreja de S. Francisco. Detalhe de fotografia da Foto Beleza/ Mário Ferreira

O interior da igreja de S. Francisco

O que distingue a igreja de S. Francisco, tornando-a uma peça essencial do barroco portuense, é o conjunto de talha dourada no seu interior, valendo-lhe ser chamada no século XIX a igreja de ouro.

(Nota - Por isso e dada a dimensão que assumiu a mensagem será publicada à parte no seguimento desta.)
(CONTINUA)

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